Em novo romance, Ian McEwan explora mundo jurídico e religioso

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Juíza precisa decidir sobre caso de jovem com leucemia cujos pais religiosos recusam transfusão de sangue

Premiado escritor britânico leu várias sentenças judiciais para escrever novo livro e diz que descobriu nelas um “subgênero literário” - André Teixeira / Agência O Globo

Premiado escritor britânico leu várias sentenças judiciais para escrever novo livro e diz que descobriu nelas um “subgênero literário” – André Teixeira / Agência O Globo

Maurício Meireles em O Globo

RIO – É bem possível que Ian McEwan, em 66 anos de vida, tenha entrado mais vezes na lista final do Man Booker Prize do que em uma igreja. Embora seja ateu, ele, que é um dos maiores romancistas britânicos em atividade, botou as testemunhas de Jeová no centro do conflito legal — e moral — atravessado pela protagonista de seu novo livro: “A balada de Adam Henry”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster. Enquanto escrevia o romance, McEwan se lembrava de algumas vezes ter feito a seguinte pergunta a membros dessa religião, que batiam à sua porta para convertê-lo: você deixaria seu filho de 8 anos morrer, se para salvá-lo fosse preciso uma transfusão de sangue?

Todos diziam sim, que era a lei de Deus. O romancista rebatia dizendo que muita gente acharia tal resposta estarrecedora: tudo bem um adulto morrer por suas crenças, mas fazer o mesmo com uma criança não é correto, argumentava.

— Para eles, eu só pensava assim porque não entendia a morte. Diziam que a morte não é o fim, mas o começo. O começo da vida no Paraíso — lembra McEwan. — Eles estão convencidos não só de que Deus existe, mas de que conhecem os desejos d’Ele. O que na verdade é só uma versão dos seus próprios desejos.

Testemunhas de Jeová se opõem, por dogma religioso, a transfusões de sangue. E é com isso que Fiona, personagem principal do livro, precisa lidar. Juíza de uma Vara de Família com uma crise no casamento — o marido sai de casa para viver um romance —, ela precisa julgar o caso de Adam Henry. Com 17 anos, sofrendo de leucemia, o rapaz precisa de uma transfusão, mas os pais se recusam a permiti-la. O hospital recorre ao Judiciário para fazer o procedimento de forma compulsória. Assim, em “A balada de Adam Henry” vai buscar a dimensão literária do mundo da lei.

— Há poucos juízes na literatura. Normalmente, quando a ficção encontra a lei é para tratar de criminosos, detetives, espiões, advogados e vítimas. Mas o juiz é uma figura central nesse mundo — afirma Ian McEwan.

‘Às vezes, a lei é muito estúpida. Mas, quando bem aplicada, ela traz uma prosa límpida e precisa.’

– Ian McEwansobre o efeito da lei na literatura

Reconhecido como um mestre da engenharia e da arquitetura do romance, o autor britânico pesquisou muito para escrever o livro — algo comum em seu processo de criação. Ian McEwan conversou com amigos juízes. Leu sentenças judiciais. Foi quando impressionou-se com a qualidade filosófica, histórica e legal dos argumentos dos homens de toga.

— Às vezes, a lei é muito estúpida. Mas, quando bem aplicada, ela traz uma prosa límpida e precisa. Descobri (nas sentenças) um subgênero literário — diz o escritor. — A lei aplicada tem uma dose de racionalidade e compaixão. O direito da família me interessou porque é o mais próximo dos problemas cotidianos, em oposição ao direito penal. Há muito em comum entre a boa literatura e as sentenças judiciais. E, na Vara de Família, os julgamentos envolvem crianças, divórcios, o fim do amor.

Assim, Fiona é um personagem que usa sua racionalidade para organizar a vida alheia — mas que não consegue resolver seus próprios conflitos. Ela escreve muito bem, mas em casa não encontra as palavras para discutir sua vida sexual com o marido. Numa virada da trama, a juíza vai a um quarto de hospital encontrar Adam Henry a fim de clarear seu julgamento sobre o caso. Nesse encontro, ela recita um poema de W. B. Yeats para o jovem, que a partir daquilo começa a questionar suas crenças e depois compõe uma balada — daí o título do romance. O final da história é dúbio.

— Não é uma reflexão sobre a leitura como um todo, mas sobre minha própria experiência ao ler Yeats pela primeira primeira vez, aos 16 anos. Foi o poema que abriu a porta de toda a poesia para mim. Yeats tem esse efeito em adolescentes. Por isso, a balada que Adam compõe é influenciada por ele e tem a mesma métrica do poema — diz Ian McEwan.

CONDIÇÃO HUMANA

Além de ateu, Ian McEwan foi amigo próximo do escritor e jornalista Christopher Hitchens — um crítico sempre virulento da religião. Por isso, poderia surpreender o tratamento humano que o autor britânico dá às testemunhas de Jeová. Mas isso é o resultado de seu amadurecimento. Mais jovem, Ian McEwan escreveu livros conhecidos pela dimensão sombria. Agora, diz ele, sua escrita mudou para uma exploração mais profunda da condição humana.

— Acho que aprendi a perdoar, fiquei mais generoso e tolerante. Por isso, quis tratar as testemunhas de Jeová de modo mais terno. Se eu fosse mais jovem, talvez tivesse agido de forma mais agressiva contra eles, em vez de tentar entendê-los. Seria fácil fazer piada sobre a crença em relação ao sangue, mas não quis desenvolver uma tese ateísta — afirma o escritor. — Sim, meu trabalho mudou, até porque comecei muito jovem. Mas ainda estou interessado em conflitos, dilemas morais e em tentar entender quem nós somos.

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Brasil desperdiça um dia de aula por semana

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Na América Latina e no Brasil, perde-se 1 dia de aula por semana por conta do desperdício de tempo, diz Banco Mundial

Na América Latina e no Brasil, perde-se 1 dia de aula por semana por conta do desperdício de tempo, diz Banco Mundial

, no BBC Brasil

Alunos brasileiros perdem em média um dia de aula por semana por conta de desperdício de tempo em sala de aula, gasto com atrasos, excesso de tarefas burocráticas (fazer chamada, limpar a lousa e distribuir trabalhos) e em aulas mal preparadas pelo professor – tempo este que deixa de ser gasto com o ensino de conteúdo.

Essa foi uma das principais conclusões de um estudo recém-lançado pelo Banco Mundial que analisou o trabalho de professores na América Latina e seu impacto sobre a qualidade do aprendizado, a formação dos alunos e o desempenho desses países em rankings internacionais de educação.

A pesquisadora Barbara Bruns, uma das autoras do estudo, lembra que o tempo de interação entre aluno e professor é o momento para qual se destinam, em última instância, todos os investimentos em educação. “Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte sobre o que ocorre na sala de aula”, diz ela.

O Banco Mundial avaliou 15,6 mil salas de aula, mais da metade delas no Brasil (classes dos ensinos fundamental e médio em MG, PE e RJ), e calcula que, em média, apenas 64% do tempo da classe seja usado para transmissão de conteúdo, 20 pontos percentuais abaixo de padrões internacionais.

Confira a entrevista que Bruns, estudiosa da educação brasileira há 20 anos, concedeu por telefone à BBC Brasil:

BBC Brasil – O fato de um tempo tão significativo de aula ser perdido ajuda a explicar o desempenho abaixo da média dos países latino-americanos em avaliações internacionais?

Barbara Bruns - Sim, definitivamente é um fator. Em escolas no leste da Ásia, Japão, Cingapura, Finlândia e Alemanha, você não vê professores chegarem à sala de aula sem um material pronto, sem essa percepção de que o tempo precisa ser usado para ensinar e manter os alunos engajados, algo crucial para o aprendizado.

E com frequência nas salas de aula da América Latina parece haver uma falta de organização por parte do professor. Não parece haver a percepção da limitação do tempo e do que economistas chamam de custo de oportunidade de não usar esse tempo para o ensino.

E o tempo entre alunos e professores na sala de aula é o ponto em que culminam todos os investimentos em educação: gastos com salários dos professores, com a formulação do currículo escolar, infraestrutura, material, gerenciamento. Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte no que ocorre na sala de aula.

Vemos que na América Latina muitos países gastam uma proporção alta de seu PIB na educação, e não estão obtendo resultados porque esses investimentos não estão sendo usados (para aprimorar) o momento que os professores têm com os alunos.

Se professores estão perdendo 20% do tempo de instrução com os estudantes, é como dizer que estão sendo perdidos 20% dos investimentos em educação, porque não estão sendo usados para o ensino.

BBC Brasil – Como resolver isso?

Bruns - Primeiro, mudar a forma como o professor é preparado antes de entrar ao sistema de ensino. Na América Latina, há muito pouca ênfase (nos cursos preparatórios) sobre como gerenciar uma sala de aula, como ser um professor eficiente. Ouço com frequência de ministros e autoridades: as faculdades de pedagogia falam muito de filosofia, história da educação, das disciplinas (do currículo), mas muito pouco sobre a prática do ensino.

Fazendo uma analogia com a medicina, ninguém ia querer um médico que fosse treinado apenas em história da medicina e em questões teóricas. Médicos passam vários anos aprendendo como lidar com pacientes reais. Os professores precisam dessa mesma oportunidade de praticar.

E o que vemos em sistemas educacionais de alta performance, desde Cuba – que tem boa tradição de treinamento de professores – ao leste da Ásia e ao norte da Europa, é que professores em treinamento passam muito tempo observando outros professores e sendo orientados. Isso quase não ocorre na América Latina.

Outra coisa que precisa mudar é o apoio a professores que já estão em sala de aula. Eles precisam receber “feedback” sobre sua performance, ver bons exemplos e ser estimulados a compartilhar conhecimento.

O Rio está fazendo isso no Ginásio Experimental Carioca (projeto que traz mudanças em gestão e currículo escolar nos anos finais do ensino fundamental da cidade), mudando o calendário escolar para criar momentos em que os professores se reúnem para trabalhar juntos; ou colocando professores novos para observar os melhores e mais experientes.

Uma das descobertas mais importantes e surpreendentes de nossa pesquisa é que, dentro de uma mesma escola, há grande variação na forma como os professores ensinam – desde o professor excelente até o que é muito pouco eficiente.

Por isso, é preciso encontrar formas de estimular os professores a trabalhar juntos na escola, como fazem no Japão e na Finlândia.

O Banco Mundial tem um projeto com a Secretaria de Educação do Ceará para criar uma comunidade de aprendizado dentro de cada escola. Daqui a um ano saberemos que tipo de impacto isso terá (no ensino) de 350 escolas.

BBC Brasil – A preparação de professores é um dos maiores desafios educacionais da América Latina?

Bruns - Uma das estratégias mais importantes de curto prazo na região deve ser o treinamento de professores para que eles usem o tempo de aula de forma mais eficiente e, além disso, mantenham os estudantes engajados.

Ao observar as salas de aula, descobrimos que, mesmo enquanto os professores estão ensinando, metade do tempo eles não conseguem manter os alunos focados no conteúdo.

Víamos os estudantes dormindo, digitando no celular, conversando entre si, olhando pela janela. E isso jamais seria permitido pelos professores do leste asiático, por exemplo – eles estariam dando um jeito de fazer com que todos estivessem engajados. Sabemos que, para aprender, os estudantes têm de estar engajados.

No longo prazo, porém, o desafio é atrair um novo tipo de profissional à carreira de professor: fazer com que ela seja uma carreira atraente para os formandos de melhor performance (acadêmica), como acontece na Finlândia e Cingapura. Daí ficará muito mais fácil obter professores excelentes.

Já na América Latina e nos EUA, a profissão ficou tão degradada que os professores acabam sendo recrutados entre estudantes de pior performance. Ou seja, é necessário criar incentivos para que pessoas com bom desempenho escolham a carreira.

E também acho que, quanto aos aumentos salariais – e há muitas evidências de que os salários dos professores precisam aumentar para atrair pessoas competentes -, eles devem ocorrer de forma diferenciada (de acordo com o desempenho). Não pode ser que professores bons e professores ruins ganhem a mesma coisa.

É preciso criar incentivos para que as pessoas trabalhem melhor e para que os mais inteligentes entrem na profissão. Na América Latina, a maioria das promoções de carreira é com base em tempo de casa, em vez de desempenho. Então em alguns casos, dois professores ganham o mesmo salário, mas um faz um trabalho excelente e outro não faz nada.

A cidade de Washington fez uma grande reforma educacional, estabelecendo claros parâmetros para a excelência de professores e avaliando professores segundo esses parâmetros. Os que não os cumprissem eram demitidos ou tinham um ano para melhorar seu desempenho. Já os excelentes tiveram seus salários dobrados. Passados quatro anos, mesmo em meio a polêmicas, os professores gostaram (do projeto), e o desempenho dos alunos de Washington passou a estar entre os melhores do país.

Mas é bom acrescentar que o Brasil vive um momento empolgante: muitos secretários de educação e prefeitos querem fazer mudanças. Vemos diversas experimentações e inovações promissoras pelo país. Se conseguirmos medir esses experimentos, teremos (armas) poderosas. Nos 20 anos que estudo o Brasil, pude ver muitos avanços. Mas obviamente há muito a melhorar.

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Renato Tardivo resenha seu conto predileto

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Renato Tardivo resenha seu conto predileto: ‘O conto da ilha desconhecida’, de José Saramago

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Tardivo-PB

As livrarias mega store eram novidade nos shoppings da cidade. Antes, as livrarias eram bem menores. Perguntava-se pelo título do livro. Tem, tem; não tem, encomenda. E os vendedores faziam cara feia se você folheasse livros ou revistas. Mas nas mega stores havia poltronas confortáveis, tocava-se música agradável, vendia-se café. E havia um enorme acervo de livros a ser saboreado. Isso mesmo: era permitido manusear o produto, folhear, experimentar… e não comprar.

O menino que pouco tempo antes ia ao shopping para jogar boliche com os amigos, tomar um lanche ou comprar roupa, às vezes um CD, agora tinha outra motivação: os livros. E essa transformação coincidiu com a mudança no conceito de livraria. Então o menino olhava as vitrinas, corria os olhos pelas estantes, de vez em quando saía com algum livro. Desde então adquirira o hábito de estar sempre lendo alguma coisa. A vida sem leitura ficava esvaziada.

Mas não fora sempre assim. Nos tempos de colégio, anos antes, salvo uma ou outra exceção, lia mais por obrigação que por prazer. Mas lia, mesmo quando tinha a impressão de ter perdido o tempo sofrido da adolescência lendo livros que não entendia nada. Nessa época, ouviu falar em um escritor português, ainda em atividade, chamado José Saramago. De vez em quando, cismavam de incluir Memorial do Convento, romance de sua autoria, na lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Saramago era dono de uma escrita peculiar, assegurava a professora, as frases eram retorcidas, os parágrafos intermináveis, nos diálogos não havia travessões nem aspas, a ortografia era a vigente em Portugal. Uma tortura.

O menino soube depois que esse escritor estava em alta. Escrevera um livro ousado, O Evangelho segundo Jesus Cristo, que, por conta da repercussão em Portugal, país fortemente católico, levou o escritor a fixar moradia na Ilha de Lanzarote, na Espanha. Com Ensaio sobre a Cegueira Saramago se firmaria como um dos nomes cotados para o Nobel de Literatura, prêmio que de fato receberia.

Já na faculdade, nessa época da invasão das mega stores, uma professora recomendou o romance recém-lançado A Caverna, primeira obra de Saramago que ele leu. E gostou muito. Ainda naquele ano o menino leria ao menos outros dois romances do autor. Esse era o contexto quando deu com uma edição caprichada, recheada de aquarelas de Arthur Luiz Piza no miolo (e não apenas na capa, como nos demais livros), intitulada O Conto da Ilha Desconhecida. Com o livro em mãos, o menino encontrou uma poltrona disponível. Sentou-se para ler um trecho.

No conto, um homem vai ao palácio pedir ao rei um barco. Quer ir à procura da ilha desconhecida:

Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu te pudesse dizer, então não seria desconhecida.

O rei lhe dá o barco. A mulher da limpeza do palácio sai pela “porta das decisões” e decide unir-se ao homem. Que sai em busca de tripulantes para a jornada, mas volta (sem homens) com um naco de queijo e uma garrafa de vinho para jantar com a mulher no barco, atracado ao porto. Os dois apenas. Pousam lá.

Na livraria o menino, que em princípio leria um trecho do livrinho de 64 páginas, se deu conta de que em mais alguns minutos concluiria a leitura. Será que pode?, ele se perguntou. Que era permitido ler trechos, isso ele já sabia. Mas um livro todo… Como se vigiassem o seu olhar, o menino prosseguia também ele atrás da sua ilha desconhecida, vencendo o medo, encarando as câmaras de segurança, o olhar de esguelha da pessoa ao lado. Todos saberiam que ele lera um livro inteiro e não o comprara. Que lera que “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”, e que, quem sabe por isso, não compraria o livro. Não naquela hora. Não aquele exemplar. Gostar bastava.

Seu conto preferido? O homem não sabe. Certamente leu inúmeros contos tão bons quanto, talvez alguns melhores. Mas jamais se esquecerá de, comovido, fechar o livro, levantar-se da poltrona, esquecê-lo em um canto qualquer e deixar a livraria. O menino de então vivia algo desconhecido, e não sabia que aquela busca estava apenas começando.

Trecho do conto ‘O conto da ilha desconhecida’, de José Saramago

A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse.
 

Trecho do conto ‘Silente’, de Renato Tardivo

A primeira vez que vi a morte de perto foi quando o meu avô faleceu. Lembro que, no momento de fechar o caixão, alguns parentes cuidaram para me afastar. Em vão. Apenas mais distante que os demais, vi meu pai, debruçado sobre o corpo do pai dele, sopra-lhe alguma coisa no pé do ouvido. Jamais esqueci essa cena.
No dia seguinte ao enterro, eu e meu pai sozinhos no carro, tomei coragem e perguntei:
Pai, o que você disse pro vovô aquela hora?

Renato Tardivo nasceu em São Paulo, onde vive. Escritor e psicanalista, é autor dos livros de contos Do avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp). É colunista do site da revista Cult.

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10 diferenças entre as distopias “Divergente” e “Jogos Vorazes”

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distopias "Divergente" e "Jogos Vorazes"

Publicado na Tribuna da Bahia

Para aqueles que nunca leram “Divergente” ou “Jogos Vorazes”, as obras parecem ser praticamente iguais: as protagonistas são garotas adolescentes fortes que precisam lidar com a alta vigilância e os desafios do mundo distópico em que vivem.

No entanto, apesar de terem um mote parecido, as franquias teen têm suas diferenças. Com o lançamento, neste mês, de “Convergente”, livro que dá o desfecho da série criada por Veronica Roth, o parceiro iG ON decide tirar todas as dúvidas daqueles que ainda confundem a história de Tris com a de Katniss.

Tris x Katniss
Tris sempre se sentiu um pouco diferente dos demais, já que era muito mais impetuosa, esquentada e tinha facilidade em mentir para as pessoas. Já Katniss é desconfiada e caladona, por isso anda pelo Distrito 12 com cara de poucos amigos. Ela se sente melhor na solidão da natureza do que entre as pessoas.

Quatro x Peeta
Alto e atlético, Quatro foi o treinador de Tris no processo de iniciação da Audácia. Cheio de segredos e meio fechadão, o rapaz de 18 anos é um mistério para ela. Filho de um padeiro, Peeta, por sua vez, não faz o tipo comum de galã. Ele é claramente apaixonado por Katniss e faz de tudo pela garota. A heroína corresponde o sentimento o protegendo dentro da arena dos Jogos Vorazes.

Facções x Distritos
Na história de Veronica Roth o mundo foi dividido, de acordo com as virtudes que eles consideravam mais importantes, em cinco facções — Abnegação, Amizade, Franqueza, Erudição e Audácia — depois de uma grande guerra. Os Distritos de Suzanne Collins foram criados para possibilitarem um maior controle dos habitantes de Panem e para que, isolados um dos outros, eles exercessem apenas seu afazeres, não tendo como discutirem a situação em que vivem.

Chicago x Panem
“Divergente” se passa em uma versão distópica da cidade de Chicago, onde, em meio às ruínas, as cinco facções convivem em harmonia, cada um desempenhando um papel na manutenção da sociedade, tomando as decisões através de um conselho. “Jogos Vorazes”, no entanto, tem como locação um país fictício, Panem. Dividido em 12 distritos, este lugar vive sob o poder do regime totalitário da Capital. Ao contrário dos moradores dos distritos, onde há fome e privações, os habitantes da Capital têm um estilo de vida baseado no prazer e no desperdício.

Jeanine Matthews x Presidente Snow
Enquanto Jeanine é uma mulher elegante e excepcionalmente inteligente, o Presidente Snow é um senhor de idade com um hálito que cheira a sangue. A líder da Erudição escreve artigos contra a Abnegação com a pretensão de assumir o controle das cinco facções. Snow, por sua vez, quer apenas manter o poder em suas mãos promovendo, todos os anos, os Jogos Vorazes.

Teste de aptidão x A Colheita
Em ambas as sagas, as protagonistas passam por “ritos de passagem”. Em “Divergente”, os jovens de 16 anos passam por um teste: em uma simulação, situações de perigo mostram as aptidões para cada facção. Já em “Jogos Vorazes”, meninas e meninos de 12 aos 18 anos participam de um sorteio, A Colheita, onde são sorteados aleatoriamente os nomes dos dois tributos que representarão seus distritos nos Jogos Vorazes.

Caleb x Prim
Tanto Tris como Katniss têm uma ligação muito forte com seus irmãos. A protagonista de “Divergente” tem quase a mesma idade do irmão mais velho Caleb. Os dois passam pelo teste de aptidão juntos, onde seus caminhos acabam sendo separados. Em “Jogos Vorazes”, Katniss sempre cuidou de sua irmã mais nova, Prim. Tanto que, quando ela é sorteada na Colheita, ela se voluntaria vai para a arena da morte em seu lugar.

Treinamento x Jogos Vorazes
A grande diferença entre as histórias de Roth e Collins são as situações de risco em que as protagonistas são colocadas. Ao passar pelo teste de aptidão, Tris escolhe ir para a facção da Audácia. Para se tornar um membro, ela passa por um rigoroso e competitivo processo de iniciação que inclui aulas de lutas e de tiro. Muito diferente do que Katniss encontra na arena da morte: ali ela precisa usar habilidades que aprendeu durante a vida para sobreviver a uma competição em que outros jovens como ela precisam matar uns aos outros.

Veronica Roth x Suzanne Collins
Enquanto Veronica Roth, de “Divergente”, é ainda uma “novata”, Suzanne Collins, autora de “Jogos Vorazes”, é veterana no mundo da literatura de jovens adultos. Roth era uma universitária do último ano quando escreveu a trajetória de Tris, que chegou às lojas em 2011, durante as férias de inverno. Até então, ela tinha escrito alguns contos, mas nunca havia publicado nada. Em 2008, quando “Jogos Vorazes” foi lançado, Collins já tinha escrito uma coleção inteira, “As Crônicas do Subterrâneo”, composta por cinco livros, e trabalhava como roteirista do canal Nickelodeon.

Shailene Woodley x Jennifer Lawrence
Apesar de Jennifer Lawrence, a intérprete de Katniss, ser um ano mais velha do que Shailene Woodley, que interpretará Tris no cinema, a segunda atriz começou a trabalhar um pouco antes. Em 1999, Woodley estreou fazendo uma ponta no filme para TV “Replacing Dad”. Sua carreira sempre foi voltada para o drama, tanto que recebeu uma nomeação ao Globo de Ouro por “Os Descendentes”. Ela ficou mais conhecida nos EUA com a série “A Vida Secreta de uma Adolescente Americana”. Além de “Divergente”, Shailene protagoniza, neste ano, o longa “A Culpa é das Estrelas”. J-Law, por sua vez, estreou em uma participação humorística no seriado “Monk”, em 2006. Depois disso fez séries de comédia, como a “The Big Engvall Show”, que foi ao ar de 2007 a 2009. Mas foi no drama que ela se destacou: em 2011, a artista foi indicada ao Oscar por “Inverno da Alma”. Em 2013, levou a estatueta de melhor atriz por “O Lado Bom da Vida”.

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Como organizar uma (baita) biblioteca

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Delfim: compras pela Amazon, hábito de ler sentado e sistema “batalha naval” para encontrar livros na estante (Foto: Valor/Folhapress, divulgação)

Delfim: compras pela Amazon, hábito de ler sentado e sistema “batalha naval” para encontrar livros na estante (Foto: Valor/Folhapress, divulgação)

Delfim Netto doou à USP seu acervo de 250 mil livros – e seu sistema de colecionar e catalogar o conhecimento

Pedro Carvalho, na Época Negócios

Fato memorável de julho: Antônio Delfim Netto doou sua biblioteca para a Universidade de São Paulo (USP). Eram 250 mil livros sobre economia, história, antropologia e ciências sociais em geral, que antes viviam fechados num sítio em Cotia (SP). O que fez do acervo da Faculdade de Economia e Administração da USP, agora com 470 mil volumes, o maior da América Latina sobre essa temática. “Tem gente que coleciona uísque ou cuecas. No fundo, leitura é o meu grande hobby”, diz o ex-ministro e perene voz influente em governos de diferentes cores partidárias. Aos 86 anos, Delfim lê em média quatro horas por dia, sempre à tarde – “de manhã eu trabalho”, diz, em tom de brincadeira, porque ler, naturalmente, faz parte do trabalho. Otimista com os progressos do país na área da educação, ele falou sobre as miudezas de sua relação com os livros: como escolhe e compra, como os lê e organiza. É um método que vale a pena estudar.

Descobrir
Delfim compra mais ou menos 40 livros por mês. Ele os encontra de duas formas: em catálogos que recebe de sebos pelo mundo – Japão, Suécia, Alemanha etc – e de grandes editoras, por carta ou e-mail; ou em citações e notas de rodapé de outros livros. O tema de interesse são as ciências sociais. “Tenho procurado mais obras sobre história e menos sobre assuntos como a matemática, minha formação, porque nessa idade falta um pouco da agilidade mental necessária”, diz.

Comprar
Às vezes, ele solicita à secretária – a Betí – que peça um determinado volume a um sebo ou editora, mas na maioria dos casos ele compra pela internet. Principalmente pela Amazon, site que critica: “ocorre um processo monopolista por parte da empresa, o que tem feito os preços subirem”, diz. No passado, ele chegou a comprar bibliotecas completas, que, por exemplo, algum sebo havia comprado de um economista cuja família não se interessou pelo acervo.

A leitura
“Leio invariavelmente sentado, com o livro sobre a mesa, apoiado num suporte que o deixa inclinado e que se desloca para os lados”, diz. Se ele lê tudo o que compra? “Não, ninguém lê tudo isso. Faço uma leitura ‘diagonal’, e quando encontro um trecho que me chama a atenção, ou um tratamento interessante a algum tema, paro e me aprofundo”, afirma. Além da língua nativa, o economista lê preferencialmente em italiano, francês, inglês e espanhol.

Pesquisas
Para encontrar algo no acervo, Delfim criou um método próprio. Colocou todos os livros em três salas, que chamou de A, B e C. Cada sala tem algumas estantes, também nomeadas com letras. As prateleiras se tornaram linhas e colunas, como num jogo de batalha naval. Quando quer achar uma obra, ele consulta um arquivo de computador, onde anotou todos os nomes de livros e autores. “Ele me diz: está na sala A, estante B, linha 2, coluna 1”, conta.

O best-seller
Eis o que ele pensa sobre o mais recente sucesso editorial no campo da Economia, O Capital no Século 21, do francês Thomas Piketty: “É um livro muito interessante, que li no fim do primeiro semestre do ano passado, em francês. É fantástico, porque confirma a ideia de que distribuir [renda e riqueza] é um problema político. A produção [de bens e serviços] é algo técnico, que a economia dá conta, mas distribuir é político”.

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