Dois livros trazem sugestões de roteiro de espaços literários de SP

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Volumes guiam os leitores por ruas, prédios, casas e eventos

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Quem gosta de literatura sempre dá um jeitinho de visitar lugares importantes para seus autores e personagens preferidos quando viaja – a casa de Victor Hugo em Paris, de Charles Dickens em Londres, de Fernando Pessoa em Lisboa, de Pablo Neruda em Santiago, de Anne Frank em Amsterdã; as ruas de Dublin por onde Harold Bloom passa em Ulysses, de James Joyce; os bares em que Ernest Hemingway bebia em Paris e Madri.

Há alguns exemplos aqui também, como as casas de Guimarães Rosa, em Cordisburgo, e a de Cora Coralina, na cidade de Goiás. E há a Casa Guilherme de Almeida, nas colinas de Perdizes, que não deixa nada a desejar aos tantos museus casa espalhados pelo mundo. Muito pelo contrário. Passando de cômodo em cômodo, é possível imaginar como o poeta modernista e sua mulher Baby viviam – eles se mudaram para lá em 1946, quando o bairro ainda era longe de tudo. Estão ali, para quem quiser ver (a visita, gratuita, é guiada), objetos, louças, livros, a arma que usou na Revolução Constitucionalista, os brinquedinhos dos cães, a luneta – e muitos retratos do casal e quadros feitos pelos amigos Di Cavalcanti. Lasar Segall, Tarsila do Amara, Anita Malfatti.

O museu funciona desde 1979, mas nunca foi tão visitado quanto é hoje – pudera, é o único espaço do gênero na cidade e sua existência se deve, na opinião de Marcelo Tápia, diretor da instituição, ao próprio poeta e Baby. Alunos visitam com frequência, mas sua função não se limita à preservação da memória da família. Lá, são realizados cursos e debates, sobretudo na área de tradução.

Se a Casa Guilherme de Almeida é única no quesito museu em São Paulo, como centro cultural e espaço para curtir literatura ela encontra pares de peso. Dois livros lançados recentemente se dedicam a mostrar essa faceta da Cidade. Rotas Literárias de São Paulo, de Goimar Dantas, é uma espécie de grande reportagem sobre o tema. Já São Paulo, Literalmente – Uma Viagem Pela Capital Paulista na Companhia de Grandes Escritores, de João Correia Filho, funciona como um guia, com informações práticas sobre os lugares.

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Os volumes guiam os leitores por ruas, prédios, casas, histórias, livros e eventos, como a Balada Literária, um happening que neste ano será de 19 a 23 de novembro. Estão ali, também, os saraus do Binho e da Cooperifa, que têm chamado a atenção de muitos jovens da periferia e do centro; o Museu da Língua Portuguesa, com suas exposições sobre escritores; o Teatro Municipal, para lembrar da Semana de Arte Moderna; a Mercearia São Pedro, misto de venda, bar e livraria na Vila Madalena; o Cemitério da Consolação e o passeio guiado; as livrarias; as bibliotecas; a Casa das Rosas, na Paulista, que abriga o acervo de Haroldo de Campos e tem uma programação literária intensa; os sebos, etc.

Mas este é um assunto vivo, e há sempre alguma novidade, como a primeira estante fixa do projeto Esqueça um Livro, instalada no Rock’n Roll Burguer, na Augusta. Funciona assim: basta ir lá, deixar aquele livro que você não quer mais e pegar outro – se quiser. Essa história de “esquecer um livro” está virando mania na cidade e há pouco foi criado o Leitura no Vagão. Por isso, se encontrar um livro perdido e quiser pegar para ler, é só deixá-lo em algum lugar depois para que outra pessoa também possa usá-lo. E isso vale também para alguns táxis que integram o projeto Bibliotaxi.

Museu. O poeta modernista Guilherme de Almeida deixou sua casa em Perdizes para a posteridade

Museu. O poeta modernista Guilherme de Almeida deixou sua casa em Perdizes para a posteridade

Outra novidade: será inaugurada, entre outubro e novembro, pelo Instituto Brasil Leitor e SPTrans, a primeira biblioteca do programa Leitura no Ponto. Ela ficará no Terminal Pinheiros. Até 2015 serão criadas outras seis e até 2017, mais cinco. Além disso, a Cozinha da Doidivana – Ivana Arruda Leite cozinha enquanto conversa com um escritor -, que fez sucesso no Casarão do Sesc Ipiranga, cuja programação termina em novembro, deve ser levada, no ano que vem, para dentro da unidade da instituição no bairro.

Como os dois livros mostram, há muitas atrações literárias em São Paulo. Basta definir a região e fazer o próprio roteiro, ou escolher um escritor ou uma obra e seguir seus passos. Mas não deixe de visitar as bibliotecas, onde é possível, além de emprestar e consultar livros, participar das intensas programações culturais.

A Biblioteca de São Paulo, onde ficava o Carandiru, não está nos livros, mas é um dos melhores exemplos de transformação do espaço público e a que tem o conceito mais moderno. Uma das mais antigas que foi recentemente restaurada é a Mário de Andrade, na Consolação. A mais nova de todas, a Brasiliana Guia e José Mindlin, na USP, também merece a visita.

Criada em 1936 por Mário de Andrade, a Biblioteca Monteiro Lobato é dedicada à literatura infantojuvenil. Uma exposição em homenagem ao criador de Emília mostra até um pedaço da costela dele. Por falar em Mário, na casa em que ele viveu, na Barra Funda, são realizados cursos na área de literatura. Um piano encostado na recepção foi o que sobrou dos tempos do escritor, mas vale o exercício de imaginação ao andar pela casa, que é aberta ao público – tudo o que pertenceu a ele está no Instituto de Estudos Brasileiros.

E há uma série de encontros nos mais diferentes espaços. Nas unidades do Sesc, por exemplo, as dicas são o Sempre um Papo – a cada 15 dias um escritor participa de bate-papo na Vila Mariana -, o Clube de Leitura no Sesc Carmo – hoje, às 19 h, o tema é Toda Poesia, de Leminski, e o Estante Viva, no Belenzinho – Eliardo França (30/10) e Paloma Vidal (27/11) falam de seus livros fundamentais.

ROTAS LITERÁRIAS DE SÃO PAULO
Autora: Goimar Dantas
Editora: Senac (368 págs.,R$ 59,90)

SÃO PAULO, LITERALMENTE
Autor: João Correia Filho
Editora: Leya(400 págs.,R$ 89,90)

ENDEREÇOS

Casa G. de Almeida
Rua Macapá, 187 – Tel. 3673-1883

Oficina da Palavra (Casa Mário de Andrade)
Rua Lopes Chaves, 546 – Tel. 3666-5803

Biblioteca de São Paulo
Av. Cruzeiro do Sul, 2.630 – Tel. 2089-0800

Biblioteca M. Lobato
Rua General Jardim, 485 – Tel. 3256-4122

Biblioteca M. de Andrade
Rua da Consolação, 94 – Tel. 3256-5270

Esqueça um Livro
Rua Augusta, 538

Sesc (programação e unidades)
www.sescsp.org.br

Imagem de Amostra do You Tube

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Escolas e universidades no Brasil desestimulam aluno empreendedor

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Escolas e universidades no Brasil desestimulam aluno empreendedor

Sabine Righetti, na Folha de S.Paulo

Responda rápido: o que é, na sua opinião, um estudante universitário bem sucedido?

Se você respondeu que é o aluno que consegue um estágio ou um trabalho em uma grande empresa –de preferência uma “multinacional”– você acaba de dar uma resposta muito comum entre brasileiros.

Aqui nos Estados Unidos, onde estou nesse momento, a resposta seria bem diferente. Nos EUA, um universitário bem sucedido é aquele que cria o seu próprio negócio. Ele identifica uma oportunidade, tem uma ideia e desenvolve uma solução. É um tipo Mark Zuckerberg, 30, que criou o Facebook quando ainda estudava em Harvard. Há vários exemplos como ele pelo país.

No Brasil, assim como em muitos países latino-americanos, ou países em desenvolvimento, as escolas e as universidades não preparam seus estudantes para criar, para arriscar, para ousar. O gol é trabalhar em uma empresa na sua área de estudos, ganhar bem e conseguir manter seu emprego.

De onde vem isso? Tenho algumas hipóteses.

A primeira hipótese é que países de economia historicamente instável, como o Brasil, tendem a educar seus jovens para que eles arrisquem menos. É assim: arrume logo seu emprego e não invente moda. Se você trabalhar para o governo, então, melhor ainda. Atire a primeira pedra quem é da minha geração (30-40 anos) e nunca ouviu dos pais que deveria trabalhar no governo.

Pois é.

Aqui, entramos na minha segunda hipótese: a própria família desestimula os brasileiros a se arriscarem a criar novos negócios e novas soluções. É melhor arrumar um emprego, não sabemos o dia de amanhã. Uma postura protecionista, muito parecida, aliás, com a de famílias de países árabes, por exemplo.

ERRAR É FEIO

Mais: no Brasil é “feio” errar. Se você errou, você não deveria nem ter tentando. Não te avisaram que poderia dar errado? Por que foi teimoso e insistiu em tentar? Essa é, na maioria das vezes, a lógica brasileira. Já nos EUA, errar tem uma ligação com “ousadia”. Só erra quem tentou fazer diferente. Isso é extremamente bem visto na cultura local.

Eu estou justamente nos EUA, que é um dos países mais inovadores do mundo, fazendo uma pesquisa para entender o processo de inovação e de empreendedorismo por aqui. Como exatamente a escola e a universidade aqui conseguem estimular o empreendedor?

No Brasil, algumas iniciativas foram criadas recentemente na tentativa de despertar o empreendedorismo. Mas tenho dúvidas sobre a eficiência delas.

Alguns cursos tradicionais de engenharia, como a Poli-USP, criaram uma disciplina opcional sobre “inovação” há alguns anos. Neste ano, a Poli-USP criou ainda um curso opcional chamado “empreendedorismo”. Mas falar sobre inovação e empreendedorismo em um contexto em que o aluno tem uma grade fixa e pouco flexível de disciplinas, com cerca de 40 horas-aula por semana, é, de fato, estimulante? Parece-me que não.

Da mesma forma, de nada adianta colocar bilhões de reais em agências federais de fomento de inovação sendo que quem poderia recorrer a esses recursos foi educado em uma cultura de pouco risco e muita insegurança.

Se a gente começar a mudar a educação agora –e mudar também o jeito como encaramos o risco e o erro–, talvez na próxima geração teremos mais empreendedores. Mas é preciso mudar agora.

Esse post foi escrito da Filadélfia, EUA, onde estou conduzindo uma pesquisa sobre inovação com apoio da Fundação Einsenhower.

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Centenas de escritores se unem contra monopólio literário da Amazon

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escritores se unem contra monopólio literário da Amazon

Publicado no Canal Tech

Os livros digitais, comparados aos títulos em papel, ainda são minoria aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos a coisa é bem diferente. Por lá, as vendas no formato digital são bem expressivas, especialmente depois da chegada dos tablets, e-readers e da expansão da Amazon, líder em comercialização de obras no formato.

Contudo, a empresa de Jeff Bezos tem enfrentado críticas por parte tanto de editoras – principalmente a francesa Hachette – quanto de autores, que acusam a companhia de monopolizar o mercado literário. E isso não se limita apenas aos EUA, já que o conflito chegou também ao Reino Unido e Alemanha. Agora, centenas de outros autores estão se unindo contra a gigante americana do varejo e, para isso, querem que o Departamento de Justiça dos Estados Undidos investigue a companhia por supostas táticas ilegais de monopólio.

Ursula K. LeGuin (“Ciclo de Terramar”) é uma das escritoras que critica as políticas adotadas pela Amazon. Em entrevista ao jornal The New York Times, LeGuin disse que a companhia “está se apoiando na censura para obter o controle total do mercado e, assim, determinar o que as editoras podem publicar, o que os autores podem escrever, o que os leitores podem comprar”. “Isso é mais do que injustificável. É intolerável”, destacou a autora.

A guerra comercial entre a Amazon e as editoras literárias se intensificou graças ao conflito com a Hachette, que não aceitou a divisão das porcentagens entre o vendedor e o editor dos livros. Sem um acordo, a Amazon tomou medidas que, de certa forma, prejudicaram a Hachette, como atrasar o envio de um livro, subir o preço ou não disponibilizá-los para pré-venda. A decisão afetou diversos autores, incluindo J.K. Rowling (“Harry Potter”) sob seu pseudônimo de Robert Galbraith (“The Silkworm”).

Já no Reino Unido, a briga chegou no fim de junho de 2014, só que afetou uma parcela menor de editores. Neste caso, as mais desfavorecidas são as editoras independentes: se elas não enviassem cópias de um determinado título, a Amazon poderia optar por imprimi-lo por meio de outro comprador através de um sistema por demanda.

No começo de agosto, um grupo com mais de 900 escritores, entre eles John Grisham, Nora Roberts e Stephen King, entrou com um apelo contra as práticas abusivas da empresa de Bezos. O pedido mencionava não apenas as medidas repressoras contra as editoras que não acatarem a decisão da varejista, mas também os preços altamente competitivos nos livros digitais, que impactaram as vendas de livros em papel. Cerca de 60% do mercado de livros impressos nos EUA é controlado pela Amazon e, no caso dos títulos eletrônicos, o domínio é de 65%.
No Brasil

Em território nacional, a Amazon vende livros nos formatos digital e físico. Este último chegou ao país no final de agosto e já fez com que as editoras brasileiras ficassem atentas ao que poderá acontecer com a expansão da varejista. Para tal, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), a Liga Brasileira de Editoras (Libre) e a Associação Nacional de Livrarias (ANL) disseram que planejam enviar uma carta aos candidatos à Presidência da República para regulamentar o mercado editorial brasileiro.

Um dos destaques que mais chamam a atenção é a adoção de uma lei de preço fixo para livros inéditos durante um certo período – método semelhante ao que já ocorre na França. O que teria motivado essas empresas a formular a nova lei seria justamente o lançamento de livros em papel na Amazon Brasil. A companhia oferece 150 mil títulos em português de mais de 2,1 mil editoras – alguns podem custar até 77% mais barato na Amazon se comparados a outras livrarias nacionais.

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A grande literatura brasileira numa colecção de referência

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Livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto e Alfredo Bosi abrem colecção lançada pela editora Glaciar e pela Academia Brasileira de Letras.

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Luís Miguel Queirós, no Público

A editora portuguesa Glaciar e a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançaram esta segunda-feira na Fundação Gulbenkian os primeiros quatro volumes da colecção Biblioteca de Academia, um projecto editorial que se propõe lançar em Portugal, ao longo dos próximos anos, 25 obras fundamentais da literatura e cultura brasileiras.

Os quatro títulos já lançados – aos quais se juntará ainda este ano O Ateneu, de Raul Pompeia, uma notável singularidade impressionista na ficção brasileira do final do século XIX – mostram bem as ambições desta colecção, que aposta em edições de referência, volumosas, muito cuidadas e bastante caras.

O primeiro volume é uma monumental compilação dos dez romances de Machado de Assis, precedidos de uma extensa apresentação do ensaísta e professor de literatura brasileira Luís Augusto Fischer, igualmente responsável pela fixação do texto. Se os romances da chamada trilogia realista de Machado de Assis – o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borbas (1891) e Dom Casmurro (1899) – foram sendo regularmente publicados em Portugal, já os seus primeiros livros, como Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874) ou Helena (1876), dificilmente se encontram nas livrarias, e ainda menos em edições fiáveis.

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

Com mais de 1500 páginas e capa dura, o livro custa quase 80 euros. Os restantes volumes já lançados são mais pequenos e mais baratos, com preços que andam entre 30 e os 50 euros. “Os livros são caros, não vou dizer que são baratos”, reconhece o editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá, mas afirma que preferiu “editar obras que podem durar 20 anos”, e não pensadas para a cada vez mais vertiginosa rotação das novidades nas livrarias. “Em 15 anos como editor [co-fundou a Quasi e esteve depois no grupo Babel], nunca fiz uma coisa tão interessante”, diz.

E a verdade é que quem não tiver condições económicas para comprar estes livros tem pelo menos a garantia de que os poderá ler sem ter de se afastar demasiado de casa, já que a Academia Brasileira de Letras encarregou a Glaciar de distribuir exemplares não apenas às poucas bibliotecas que beneficiam de depósito legal, mas a todas as bibliotecas municipais do país.

O ensaísta e poeta Antônio Carlos Secchin, membro da ABL desde 2004 e coordenador da colecção, explicou ao PÚBLICO que “no acordo feito com a Glaciar, a Academia quis ter a certeza de que todas as bibliotecas públicas portuguesas receberiam um exemplar”. Secchin, que esteve esta segunda-feira na Gulbenkian a apresentar a colecção, recorda que o projecto nasceu de uma proposta da Glaciar que a ABL adoptou. “A Academia é uma instituição privada, com recursos próprios, e assume nos seus estatutos o compromisso de difundir a língua e a literatura nacional, e é isso que está fazendo com esta colecção”, diz ainda Secchin.

Cinco títulos por ano
Embora não sejam ainda conhecidos os volumes que sairão a partir de 2015 – a ideia é publicar cinco títulos por ano até 2018 –, o académico brasileiro adianta que “a colecção vai incidir em grandes nomes já falecidos da literatura brasileira”, em “livros clássicos, como os romances de Machado de Assis, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, que passaram pela prova do tempo, mas que nunca tiveram em Portugal a repercussão que justificariam”.

A única e “grata excepção” à regra de não incluir autores vivos, acrescenta Secchin, é justamente o segundo volume da colecção, a Dialética da Colonização, do historiador e crítico Alfredo Bosi, que esteve também na sessão da Gulbenkian, a falar deste seu livro originalmente publicado em 1992. A edição tem prefácio da ensaísta portuguesa Graça Capinha, autora que já desde meados dos anos 90 vem chamando a atenção para a importância das abordagens interdisciplinares de Bosi ao discurso literário. Num conjunto que será dominado pela criação literária em sentido mais estrito, a escolha de Dialética da Colonização é também um modo de mostrar que a colecção pretende ter um âmbito mais latamente cultural e não exclui o ensaísmo.

Um dos quatro volumes já lançados é, de resto, uma das mais inclassificáveis obras da literatura de língua portuguesa de todos os tempos: o extraordinário Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, que é uma emocionante história da Guerra de Canudos e uma epopeia da vida sertaneja no final do século XIX, mas que também pertence de pleno direito à literatura científica, com a sua detalhada informação geográfica, histórica e sociológica.

Todos os livros da colecção têm prefácio de um especialista na obra e no autor – no caso de Os Sertões, Leopoldo M. Bernucci – e uma breve nota biográfica no final. Esta edição da obra-prima de Euclides da Cunha inclui ainda fotografias e, tal como o livro de Bosi, um índice onomástico.

Queremos dar “chaves de acesso aos leitores”, justifica Secchin, e foi justamente isso o que fez no volume que ele próprio organizou, a edição da obra poética completa de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), igualmente lançada na sessão da Gulbenkian.

Partindo da edição que ele próprio organizara em 2008 para a Nova Aguilar, Secchin acrescentou-lhe o livro póstumo Ilustrações para Fotografias de Dandara, com poemas que João Cabral de Melo Neto (que foi cônsul-geral do Brasil no Porto na década de 80) escreveu quando estava colocado, como diplomata, no Senegal.

“Fiz também questão de incluir notas explicativas”, diz, porque o cosmopolita poeta pernambucano era, ao mesmo tempo, alguém “muito vinculado à cultura do Nordeste”, cujos textos incluem “referências geográficas e linguísticas que são difíceis mesmo para leitores brasileiros”. Jorge Reis-Sá acrescenta que decidiram acrescentar a esta edição da obra poética dois ensaios do autor, nos quais este “fala da sua poesia e da dos outros”: Poesia e Composição e Sobre a Função Moderna da Poesia. Com perto de mil páginas, o livro inclui ainda uma cronologia do autor redigida por Antônio Carlos Secchin e reproduz uma entrevista que este fez nos anos 80 ao autor de Morte e Vida Severina (1955) ou Educação pela Pedra (1966). Secchin resume: “É a melhor edição disponível, em Portugal ou no Brasil, da obra poética de João Cabral de Melo Neto.”

Não se sabe quem serão os próximos autores a publicar, mas há alguns autores brasileiros já desaparecidos e de qualidade mais do que reconhecida que ficam excluídos à partida: aqueles que, por vontade própria ou alheia, nunca chegaram a entrar na Academia Brasileira de Letras, como Carlos Drummond de Andrade.

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Mafalda chega ao 50 anos sem perder atualidade; quadrinistas homenageiam

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A pedido do UOL, Maurício de Sousa imaginou o encontro cordial entre as duas maiores estrelas das histórias em quadrinhos sul-americanas: Mônica e Mafalda (Maurício de Sousa/UOL)

A pedido do UOL, Maurício de Sousa imaginou o encontro cordial entre as duas maiores estrelas das histórias em quadrinhos sul-americanas: Mônica e Mafalda (Maurício de Sousa/UOL)

Rodrigo Casarin, no UOL

“Papa?”
“O papai está trabalhando, Guile”
“Po quê?”
“Porque gente grande precisa trabalhar”
“Po quê?”
“Porque senão não dá para comprar comida, nem roupa, nem nada”
“Po quê?”
“Porque o mundo está organizado assim, Guile”
“Po quê?”
“Um ano e meio, e já é candidato às bombas de gás lacrimogênio”.

Os desenhos que ilustram a história acima são até dispensáveis para mostrar como continua atual o universo que rodeia Mafalda, clássica personagem de Quino e que nesta segunda-feira (29) completa 50 anos. A garotinha de cabelos negros ornados por uma fita e rosto gorducho ficou conhecida por causa de suas contestações e inconformismo com o mundo que lhe serviu de palco durante 1964 e 1973.

Filha de pais de classe média, Mafalda nunca se limitou a problemas típicos da infância e levou o olhar crítico e apurado para questões econômicas e sociais de todo o planeta. Demonstrava ojeriza às desigualdades, às injustiças e à violência da mesma forma que repudiava um prato de sopa. Na direção oposta, colocava Beatles no mais alto dos patamares.

“Mafalda é uma heroína ‘enraivecida’ que recusa o mundo tal qual ele é. (…) Já que nossos filhos vão se tornar –por escolha nossa– outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real”, cunhou o escritor Umberto Eco em “Mafalda ou A Recusa”, texto publicado em 1969 e que ajudou a torná-la famosa mundialmente.

Em sua cidade natal, Buenos Aires, Mafalda virou praça e estátua, uma das atrações preferidas de muitos turistas para as fotos. Mas ela representa muito mais que isso: apesar de ter vivido somente nos desenhos e tirinhas –e uma brevíssima incursão pelo desenho animado–, tornou-se uma referência de seu país, uma das dez figuras argentinas mais conhecidas em todo o mundo no século 20.

“Olhando em perspectiva, há dois aspectos importantes sobre Mafalda: o primeiro foi o diálogo com fatos da época, algo inovador em tiras sul-americanas; o segundo, foi o diálogo estabelecido com o leitor adulto. Hoje, muitos se esquecem de que a série foi produzida num momento político bastante delicado da Argentina e que os adultos eram o público-alvo prioritário das histórias. Esse fato direcionou a produção de tiras nos jornais argentinos a partir da década de 1970 e é sentido até hoje”, explica Paulo Ramos, jornalista especialista em HQs e blogueiro do UOL, autor de “Bienvenidos – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos”.

"Conheci a Mafalda em 67 ou 68, acho. Foi um dos motivos para eu começar a fazer tiras. Quino é um dos modelos de humor mais claros que tive", revela Laerte (Laerte/UOL)

“Conheci a Mafalda em 67 ou 68, acho. Foi um dos motivos para eu começar a fazer tiras. Quino é um dos modelos de humor mais claros que tive”, revela Laerte (Laerte/UOL)

Um capricho no RG

Mafalda completa 50 anos neste 29 de setembro por capricho de seu criador. Na verdade, a menina surgiu em 1963 para uma campanha publicitária, mas Quino, então com 38 anos e já um dos principais desenhistas de humor do seu país, optou por considerar sua data de nascimento o dia em que ela estreou em uma tira independente, publicada no “Primeira Plana”, semanário importante da Argentina na época. O pedido do veículo era para que Quino tivesse uma colaboração regular com ênfase na sátira, e o sucesso veio rápido: em 1966, as tirinhas de Mafalda já eram veiculadas em diversos jornais da América Latina e a garotinha começava a despontar para o mundo.

Quino é o nome artístico de Joaquín Salvador Lavado, que nasceu em 1932 em Mendoza, no oeste da Argentina. Assim como sua personagem, ele veio de uma família de classe média. Começou a desenhar influenciado por um tio pintor e publicou sua primeira tira em 1954. Exilou-se em Milão, na Itália, em 1976 por conta da situação política de seu país, que se encontrava sob ditadura militar. Mais tarde, passou a viver entre Madrid –tornou-se cidadão espanhol em 1990– e Buenos Aires. Neste ano, ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias. O júri destacou o valor educacional e as características universais de sua obra.

Foi a universalidade que fez com que Mafalda extrapolasse a Argentina e virasse uma personalidade mundial. Até hoje faz bastante sucesso em países mais diversos, até mesmo do extremo oriente, como China e Japão. “É difícil precisar uma data de quando teria sido a primeira publicação de Mafalda fora da Argentina. No Brasil, ocorreu no comecinho da década de 1970. O eco se tornou maior quando chegou à Europa. O texto de Umberto Eco feito para a contracapa de ‘Toda Mafalda’, que reúne tiras da personagem, seguramente ajudou a dar o empurrão final. O escritor se referia a ela como ‘contestadora'”, registra Ramos.

Essa contestação se voltava a assuntos como a guerra no Vietnã, a situação econômica argentina e o futuro da humanidade. Pela postura, em 1977 Mafalda foi adotada pela Unicef (Fundos das Nações Unidas para a Infância) para ilustrar e comentar a Declaração dos Direitos da Criança. Por causa de suas ideias fortes, certa vez o escritor Julio Cortázar declarou: “O que eu penso da Mafalda não importa. O importante é o que a Mafalda pensa de mim”.

Apesar de todo posicionamento crítico, ela conseguiu escapar da censura de seu país em uma época que os militares procuravam calar qualquer voz que destoasse das posições oficiais da nação. Quino acredita que isso possa ter acontecido porque as tiras eram percebidas como algo menor, um mero entretenimento –algo evidentemente equivocado.

“Cresci com ela e, cada vez que a lia, entendia de novas formas. Sinto que ela também foi crescendo comigo. São quadrinhos reflexivos e com altos voos poéticos. Mafalda representa a todas as pessoas que sonham com um mundo melhor”, diz Gervasio Troche, quadrinista que nasceu na Argentina, mas se tornou cidadão uruguaio.

"O traço limpo e simples do Quino e as contestações sociais eram tudo que um pré-adolescente como eu precisava para continuar gostando de desenhar", afirma o ilustrador Orlando (Orlando/UOL)

“O traço limpo e simples do Quino e as contestações sociais eram tudo que um pré-adolescente como eu precisava para continuar gostando de desenhar”, afirma o ilustrador Orlando (Orlando/UOL)

Colegas de Mafalda e Quino

O sucesso de Mafalda é dividido também com seus colegas de tiras, personagens que em muitas ocasiões foram fundamentais para que a inteligência da garota se destacasse. Depois do pai, que adora cultivar plantas, e da mãe, dona de casa vista como medíocre, o primeiro a aparecer, no começo de 1965, foi Felipe, um rapaz magro, de dentes projetados e personalidade bastante introspectiva.

Aos poucos foram surgindo outros, como Manolito, um gorducho que coloca o dinheiro acima de todas as coisas; Susanita, garota de rosto alongado e marcada pela futilidade; e Miguelito, um menino mais novo que costuma levar tudo ao pé da letra; além de Guile, o irmãozinho mais novo de Mafalda. “Admiro como Quino refletiu a sociedade nas diferentes personalidades de seus personagens”, diz Troche.

O sucesso das tiras fez também com que toda obra de Quino fosse observada com atenção. O próprio Troche conta que foi graças à garotinha que conheceu os outros trabalhos de autor. “O livro que mais influenciou a minha carreira foi ‘Gente En Su Sitio’. Eu era um adolescente e buscava uma forma de me expressar com desenhos. Quando o li, senti uma emoção gigante e encontrei o que gostaria de fazer”.

Quem segue linha semelhante é o quadrinista brasileiro André Dahmer. “Assim como [Robert] Crumb e [Charles] Schulz, Quino é uma escola dentro dos quadrinhos e da arte gráfica. Mafalda é icônica, brilhante e exata. Acho o trabalho de cartum do Quino mais importante e interessante, mas fica aqui o registro da invenção de um clássico”.

A declaração de Allan Sieber, outro quadrinista nacional, vai ao encontro à de Dahmer. “Na verdade, fui mais influenciado pelos cartuns do Quino do que pelas tiras. E reza a lenda que ele acabou com a Mafalda porque o Jaguar falou que era uma m…”.

"Me colocando como leitora mas também como cartunista, o que mais admiro na produção do Quino, e principalmente na Mafalda como personagem, é a perspicácia. Essa ironia fina que traduz aquela realidade pungente, sem tirar nem pôr. Que nos comove - frente a questões sociais que até hoje não foram resolvidas! - e causa identificação. A piada sagaz, no tempo e no tom certo. É um mestre", diz a quadrinista Chiquinha (Chiquinha/UOL)

“Me colocando como leitora mas também como cartunista, o que mais admiro na produção do Quino, e principalmente na Mafalda como personagem, é a perspicácia. Essa ironia fina que traduz aquela realidade pungente, sem tirar nem pôr. Que nos comove – frente a questões sociais que até hoje não foram resolvidas! – e causa identificação. A piada sagaz, no tempo e no tom certo. É um mestre”, diz a quadrinista Chiquinha (Chiquinha/UOL)

Aposentadoria precoce

Ao longo de sua história, Mafalda passou por algumas publicações argentinas, mas em meados de 1973 seu criador decidiu que era hora de encerrar as tirinhas com a personagem. Dizia estar cansado de fazer sempre a mesma coisa, que encontrava dificuldades em não se tornar repetitivo. Apesar de desenhá-la novamente em uma situação específica ou outra, colocava ali um ponto final nas tramas da garota e seus colegas. Mas Mafalda continuou sendo lida e muito bem quista pelas décadas e gerações seguintes.

Em recente entrevista à agência de notícias EFE, Quino disse ser “como um carpinteiro que fabrica um móvel, e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho”.

Por mais que tente transformar a garotinha em um mero objeto, o cartunista jamais conseguiu desvincular seu nome do de sua criatura. “Não sei dizer se, na época, ele tinha dimensão do ícone que iria ser criado a partir de então. Assim como Che Guevara, Evita Perón, Carlos Gardel, Mafalda foi inserida no rol de personagens míticos da cultura argentina, que saíram de cena no auge de suas diferentes atuações. Mafalda é uma filha que Quino carrega até hoje”, diz Ramos. “É uma dessas obras que atravessaram o tempo. Cada artista reflete a sua época, mas há obras que perduram porque foram feitas para transcender”, completa Troche.

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