A hora e a vez do ensino fundamental

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José Goldemberg, Estadão

As universidades públicas do Estado de São Paulo – USP, Unicamp e Unesp – passaram nos últimos meses por uma greve e uma crise que se pode chamar de “conjuntural”, mas não pode ser considerada um problema permanente ou “estrutural”. Apesar dos problemas, elas são universidades de Primeiro Mundo, por qualquer critério que se use para medir o seu desempenho: são comparáveis às universidades da Europa e da América do Norte e se encontram entre as 200 melhores universidades do mundo, onde existem 10 mil universidades.

No entretanto, elas custam ao Estado de São Paulo cerca de 10% dos impostos estaduais. O custo por aluno é próximo de R$ 50 mil por ano, que é o custo típico da anuidade dos estudantes nas universidades pagas no exterior. Os salários dos professores das universidades do Estado são também comparáveis aos de seus colegas em muitos países desenvolvidos.

Esses números são extraordinários para um país em desenvolvimento e um testemunho claro da mentalidade esclarecida do governo do nosso Estado desde 1934, quando foi criada a Universidade de São Paulo (USP). São poucos os países onde a elite dirigente decidiu conscientemente investir tão pesadamente no ensino superior.

Apesar desse esforço, só há lugar nas universidades públicas para cerca de 20% dos alunos que completam o ensino médio. Universidades privadas suprem as demais vagas, cobrando anuidades dos estudantes. Apesar de existirem mecanismos de financiamento governamental, como o Programa Universidade para Todos (ProUni), para atenuar esse problema, há ainda muito a fazer. Na França, que é um país rico, os estudantes que concluem o curso secundário têm acesso automático a uma universidade pública.

Em contraste, no ensino fundamental em São Paulo gastam-se cerca de R$ 5 mil por ano por aluno, os salários dos professores são inferiores aos de várias profissões da mesma escolaridade e aproximadamente a metade dos salários correspondentes nas escolas europeias.

Não é de surpreender, portanto, que haja enormes carências em prédios escolares, bibliotecas e laboratórios. Simplesmente não há recursos para atender a todas as demandas, apesar de o Estado gastar cerca de 20% de todo seu orçamento no ensino fundamental e médio.

Existe uma falta de clareza sobre a verdadeira natureza dos problemas da educação no Brasil. A abundância de “reformas do ensino”, de leis e regulamentos baixados teve historicamente muito menos impacto do que o aumento gradativo dos recursos orçamentários aplicados na área – um exemplo foi a criação da Universidade de São Paulo em 1934.

O Brasil gasta hoje cerca de 5% do seu produto interno bruto (PIB) em educação, que é aproximadamente o mesmo nível de dispêndio da maioria dos países industrializados da Europa e também dos Estados Unidos. Uma das razões pelas quais o ensino fundamental é bom nesses países é que neles o produto bruto nacional é muito maior que o do Brasil, de modo que os mesmos 5% representam muito mais recursos. Só para dar um exemplo, enquanto o Brasil gasta cerca de R$ 5 mil por aluno por ano em educação fundamental, países da Europa gastam cerca de R$ 20 mil, isto é, quatro vezes mais.

Não é de surpreender, portanto, que tenhamos problemas sérios no País nessa área e, do ponto de vista financeiro, só existem duas soluções para eles: ou aumentar o produto bruto nacional ou a fração dedicada à educação acima de 5%. Para fazer isso seria necessário retirar recursos de outras áreas que são tão ou mais carentes do que a educação, como saúde e segurança pública.

É bem verdade, contudo, que não são apenas considerações econômicas que definem a qualidade do ensino. Tradições culturais arraigadas, como as que existem em certos países ou grupos sociais, levam a uma valorização da educação muito maior do que em outros. Este é o caso da Finlândia, onde os gastos com a educação não são muito elevados, mas o desempenho escolar é um dos melhores do mundo.

Já no nosso país, apesar de as escolas públicas serem gratuitas, muitos jovens precisam abandoná-las para trabalhar e ajudar sua família. No Brasil como um todo, a taxa de evasão do ensino fundamental é de 25%, isto é, um de cada quatro alunos que iniciam o ensino fundamental não chega ao fim desse ciclo.

É por essa razão que apenas cerca de 50% da população do País tem ensino médio completo. Na Alemanha, por exemplo, a taxa de evasão é baixa e 96% da população completa o ensino fundamental. A escolaridade média dos brasileiros é de aproximadamente 7,2 anos, quando idealmente seriam 15. O Chile e a Argentina têm mais de 9 anos de escolaridade.

É difícil imaginar a quantidade de talento e de esperanças que se perde todos os anos quando milhões de jovens abandonam a escola e nem chegam às portas da universidade, que lhes daria oportunidades para um futuro melhor. Essa evasão é muito mais perversa que os vestibulares das universidades públicas, que simplesmente selecionam os mais preparados que batem às suas portas dando a todos igual oportunidade.

A inexistência de cotas que garantam o acesso dos menos privilegiados economicamente à universidade não se compara com os milhões de estudantes que são eliminados antes disso por questões socioeconômicas. Não há sistema de cotas que possa corrigir a discriminação econômica que é a causa básica da evasão no ensino fundamental. O que as universidades estaduais de São Paulo têm feito é introduzir bônus para os candidatos mais carentes que concorrem aos vestibulares, tentando corrigir em parte esses problemas.

É por essa razão que esta seria uma boa hora para dedicar ao ensino fundamental a atenção que as elites dirigentes do Estado de São Paulo deram 80 anos atrás à criação das universidades públicas.

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O Teste (Joelle Charbonneau)

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Fábio Mourão, no Dito pelo Maldito

Se tem uma coisa que os romances distópicos fazem com uma grande maestria, é desenvolver incríveis variações de um mesmo tema. Por mais que a gente perceba, logo no início de uma leitura, os nítidos sinais de que estamos lendo uma distopia (embora hoje em dia o gênero já venha bem definido nas capas), os sinuosos detalhes que diferenciam e tornam cada história única entre si são sempre imbuídos de uma criatividade espetacular, o que me faz pensar se acaso esse não seja o segredo do recente sucesso deste estilo literário.

A cada novo lançamento do gênero instala-se um tipo de competição para que a obra recente tenha cenas, ou conceitos, ainda mais chocantes que o anterior. E é inegável que tudo isso parece funcionar muito bem junto ao público. Desde a distopia mais famosa, 1984 de George Orwell, as torturas infligidas pelos sistemas autoritários retratados nesses livros vêm acompanhando a violência do nosso tempo e evoluindo de suplícios psicológicos, para martírios físicos. Tudo isso me ocorreu enquanto lia O Teste (Editora Única, 318 páginas), o primeiro volume de uma trilogia da autora Joelle Charbonneau.

o-testeEm uma primeira vista apressada, essa obra pode passar despercebida dentre outras similares, mas as cores vivas da sua capa escondem uma história habilidosa que propõe estimulantes desafios à mente do leitor.

Apesar de usar elementos conhecidos do formato, como uma jovem protagonista feminina, um cenário de provações e outros fatores típicos, O Teste consegue imprimir o seu próprio ritmo na narrativa ao utilizar o suspense com excelência dentro do seu enredo. Dessa maneira o livro te prende em uma cadeia de acontecimentos sequenciais que torna difícil para o leitor desviar os olhos de suas páginas por conta de uma curiosa sensação de que pode acabar perdendo alguma coisa.

Outra tendência que a autora soube conduzir muito bem são as constantes e repentinas mortes de personagens, um estilo popularizado por George R.R. Martin e aclamado pelo público que parece gostar de sofrer com a agonia de perder seu herói (ou nesse caso, heroína) a qualquer capítulo.

Está claro que O Teste soube explorar todos os ingredientes certos para formar uma história afinada com a sua geração. O tipo de leitura que se encaixa perfeitamente naqueles momentos entressafra em que você está esperando sair o próximo livro da sua saga favorita, e uma oportunidade de conhecer um universo diferente.

Recentemente, em um trabalho primoroso, a Única Editora fechou a trilogia com o lançamento do terceiro volume da série, nos poupando do sofrimento de esperar longos meses pelo desfecho desta grande história.

Abaixo você confere o book trailer da obra, e pode sentir um pouco do clima tenso que ela traz em seu conteúdo:

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Livro dará R$ 1,2 milhão ao primeiro leitor que desvendar seu mistério

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À agência de notícias EFE, o autor não esconde o propósito da ação. “Não tenho vergonha de dizer que espero vender milhões de cópias com este livro”

Fazendo uma verdadeira competição global, o autor lançou o livro em 30 países na semana passada, inclusive no Brasil (Divulgação)

Fazendo uma verdadeira competição global, o autor lançou o livro em 30 países na semana passada, inclusive no Brasil (Divulgação)

Luiza Belloni Veronesi, no InfoMoney

SÃO PAULO – Com o mercado editorial em crise, o escritor James Frey decidiu explorar o lado
“Sherlock Holmes” dos leitores para alavancar as vendas de sua mais nova obra. Frey acabou de lançar o
projeto “Endgame: O Chamado”, “um romance do século 21”, que esconde pistas que levarão a um
prêmio de US$ 500 mil (ou R$ 1,2 milhão) para o primeiro leitor que resolver seu mistério.

À agência de notícias EFE, o autor não esconde o propósito da ação. “Não tenho vergonha de dizer que
espero vender milhões de cópias com este livro e que ele tem uma vocação comercial”, disse Frey. “Isso
não significa que eu seja um cínico que escreve pensando em uma ideia milionária. Simplesmente tentei
oferecer ao leito a coisa mais legal que veio na minha cabeça.”

Fazendo uma verdadeira competição global, o autor lançou o livro em 30 países na semana passada,
inclusive no Brasil. Ele garante que o mistério presente na obra é “incrivelmente difícil” de ser
solucionado. A editora estima que, no melhor dos casos, levará cerca de nove meses para relacionar as
provas.

“Não importa os motivos que levarão as pessoas a lerem meu livro, desde que o leiam e desfrutem da história”, disse Frey. A obra conta a história de 12 linhagens milenárias que lutam entre si para sobreviver, escolhendo um representante que esteja preparado para uma catástrofe iminente.

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O humor depreciativo de Gary Shteyngart

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No livro ‘Fracassinho’, autor russo relembra sua própria vida com doses de ironia e estranha tristeza

O escritor russo Gary Shteyngart

O escritor russo Gary Shteyngart

Ubiratan Brasil, no Estadão

Igor Shteyngart tinha sete anos, no final dos anos 1970, emigrou da União Soviética para os EUA. Seus pais, para evitar que o moleque sofresse bullying no bairro, trocaram seu primeiro nome para Gary. O problema é que humilhação já começava em casa. Diz ele: “Porque eu vivia doente e com o nariz escorrendo quando criança (e na idade adulta), meu pai me apelidou de ‘Soplyak’ – Melequento. Minha mãe, que estava desenvolvendo uma fusão interessante de inglês com russo, aprimorou o termo para ‘Failurchka’, ou Fracassinho”.

É justamente Fracassinho o título do novo livro de Shteyngart, divertida mistura de biografia com ficção, que a Rocco acaba de lançar. Com o típico humor auto depreciativo, Shteyngart não apenas diverte como intriga pela trama bem articulada e envolvente.

Imagem de Amostra do You Tube

Na sua obra, a ficção e a realidade às vezes coincidem. Ao escrever seu livro de memórias, você desejou ocultar alguma coisa porque já havia escrito a respeito num romance?
Existem alguns similaridades entre o meu ser e alguns dos cabeludos imigrantes judeus soviéticos em meu romance. Mas o que ocorre com eles nos romances é muito mais melodramático e insano. Por exemplo, jamais tentei comprar uma cidadania belga falsificada ou entrar para a máfia russa como os meus alter egos fizeram. Mas felizmente minha vida foi bastante interessante sem a criminalidade.

A figura do pai é muito importante para você. Por que?
Ah, sim. Pais e filhos. O pai exerce um domínio avassalador durante toda a nossa vida, para o bem como para o mal. De qualquer modo, escreve-se extensivamente sobre a mãe judia. Então, por que não o pai?

Você escreve num estilo de sátira particular. É uma peculiaridade russa? Ou adotou-o conscientemente?
Adoro a sátira! A Rússia é um país que merece um bom olhar satírico. E os tempos que vivemos lá quando o mal e a estupidez colidem diariamente são perfeitos para a sátira.

Você acompanhou seus pais pela Rússia com um gravador de vídeo. Há alguma entrevista que se destaca como particularmente dolorosa ou reveladora?
Oh, cada momento foi doloroso e revelador. Descobri principalmente o quão difícil foi a sua vida em comparação com a minha. Hitler e Stalin garantiram uma infância interessante.

É interessante quando você começou a fazer psicanálise. O quão importante foi isto em seu processo criador?
Eu não teria conseguido escrever este livro sem os 15 anos de psicanálise. Mas faço apenas quatro vezes por semana. Cinco vezes é uma loucura!

David Slone Wilson, em seu ensaio Evolutionary Social Construction, observa que constantemente nos construímos e reconstruímos para atender às necessidades de situações com que deparamos. Segundo ele, agimos assim orientados por nossas lembranças do passado e nossas esperanças e temores do futuro. O que o senhor acha?
Parece-me correto. E o imigrante está sempre em processo de readaptação. Crescer na Rússia para mim foi terrível. Depois foi ótimo. Hoje é terrível novamente. Devo vestir minha camisa de cossaco ou não?

A experiência do imigrante há muito tempo é uma grande preocupação da literatura americana e isto vem sendo retomado nos últimos anos por vários escritores que chegaram à maturidade numa era de globalização. O quão difícil é para um imigrante se integrar plenamente na vida americana?
Em Nova York todo mundo vem da China, ou Brasil, Índia ou Rússia. Esta é a cidade dos Brics. Então venha até aqui e compre um apartamento ao lado do meu. Preciso de alguma “farofa” em minha vida.

Que tal ser considerado a mistura de Woody Allen e Nabokov?
Acho ótimo! Vou usar isto da próxima vez.

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Gandalf em “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, Ian McKellen dá conselho para estudantes

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Imagem de Amostra do You Tube

Cleber Facchi, no Brasil Post

Já imaginou ir à biblioteca da escola e dar de cara com Ian McKellen?

Conhecido pelo papel do mago Gandalf, em O Senhor dos Anéis e O Hobbit, recentemente o ator deixou malucos os alunos da Chew Valley School, localizada em Bristol, Inglaterra.

Durante o passeio pela instituição, McKellen, também marcado pelo personagem Magneto na franquia X-Men, deu um divertido conselho aos estudantes que se aglomeravam em uma das janelas da biblioteca:

Durante a preparação para os exames, se vocês não revisarem [os conteúdos] corretamente, sabem o que vai acontecer?

“O que vai acontecer?”, perguntaram as crianças entusiasmadas. E a resposta veio como uma divertida referência ao personagem mágico de McKellen:

VOCÊS NÃO PASSARÃO!

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