Estupros na USP expõem omissão de universidades

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As denúncias recentes de casos de estupro ocorridos em uma das faculdades mais tradicionais do país expuseram um problema recorrente em várias universidades brasileiras: a omissão das instituições para coibir os abusos em trotes e festas universitárias, especialmente com os chamados “calouros”, que recém-ingressaram na universidade.

Alunas da FMUSP relatam abuso sexual em festas da faculdade em audiência pública

Alunas da FMUSP relatam abuso sexual em festas da faculdade em audiência pública

Renata Mendonça, na BBC Brasil

As alunas da Faculdade de Medicina da USP em São Paulo (FMUSP), vítimas de abusos sexuais em duas festas realizadas dentro do campus, chegaram a denunciar seus agressores, mas se disseram “silenciadas” pela universidade.

“O que essas meninas que sofreram violências mais relatam pra gente de resposta institucional é o silêncio”, conta Ana Luiza Cunha, aluna do 3º ano de medicina e uma das fundadoras do Coletivo Geni, um grupo criado para dar voz às vítimas de violência dentro da FMUSP.

“Essas violências são conhecidas por quem está lá dentro há muito tempo, mas a diretoria se omite, fala que não sabia.”

A FMUSP, porém disse que “se coloca de maneira antagônica a qualquer forma de violência e tem se empenhado em aprimorar seus mecanismos de prevenção destes tipos de casos, apuração de denúncias e acolhimento das vítimas.”

Os casos recentes reacenderam o debate sobre a responsabilidade das universidades diante do que acontece em trotes e festas vinculadas a ela.

Coletivo feminista Geni vestiu camisa contra o machismo em festa no início do ano e sofreu hostilizações

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Legislação

Não há lei federal que discorra sobre o trote universitário por enquanto – há um projeto de lei que ainda tramita no Congresso. No entanto, no caso de São Paulo, já há uma legislação específica que proíbe o trote violento atribuindo às instituições a responsabilidade por adotar medidas preventivas e impedir a prática dele.

Segundo essa lei (nº 10.454) – que entrou em vigor em 1999, após um calouro de medicina ter morrido afogado em um trote da USP -, a universidade pode ser responsabilizada por um aluno agredido ainda que o trote tenha acontecido fora das dependências dela, “porque a relação entre os alunos está ligada à entidade.”

Para a promotora do Ministério Público do Estado de São Paulo, Paula Figueiredo, que instaurou um inquérito para apurar os casos de violações aos direitos humanos na USP, a universidade tem o dever de investigar esse tipo de violência. “As coações aos novatos ocorreram lá dentro, há, sim, um dever da faculdade de apurar o que aconteceu e dar uma resposta”, disse à BBC Brasil.

A promotora explica que, mesmo em casos de festas organizadas por Atléticas – como é o caso da Carecas no Bosque, onde ocorreu um dos abusos -, “a diretoria da universidade tem responsabilidade por tudo o que acontece dentro do campus.”

O inquérito foi instaurado e agora Paula Figueiredo segue ouvindo depoimentos dos envolvidos. Segundo ela, se for comprovado que “a conduta da instituição gerou danos a uma pessoa, ela pode ter que fazer medidas compensatórias concretas, como uma manifestação expressa de retratação ou até promover políticas de inclusão.” Há ainda a possibilidade de ela ter que pagar uma indenização para o fundo de direitos coletivos que financia ações sociais.

Relatos

Relatos de abusos – sexuais ou físicos – em trotes ou festas universitárias não são uma exclusividade da FMUSP e costumam ser recorrentes nas universidades brasileiras em geral.

“Tem muito disso. Mulheres que têm que simular sexo oral na banana, tenho um amigo que teve um cigarro apagado na mão por um veterano”, conta uma estudante da Unesp Botucatu (SP) que não quis ser identificada.

Na UFMG, uma caloura foi pintada com tinta marrom, enrolada em uma corrente e chamada “Chica da Silva” em 2013. Na UFPR, em 2012, os veteranos do curso de Direito distribuíram um manual de sobrevivência dos calouros ensinando “como se dar bem na vida amorosa utilizando a legislação brasileira.”

Manual de conduta entregue aos bixos de Direito da UFPR em 2012

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A Unesp de Bauru tem o tradicional “leilão de RP (Relações Públicas)”, em que calouras desfilam para veteranos do curso de Engenharia e são leiloadas em lotes – eles pagam uma quantia (que pode ser de R$ 50, R$ 100) e levam as calouras para as repúblicas. Até 2007, o evento acontecia em uma sala de aula, mas foi proibido pela faculdade e atualmente ocorre em repúblicas.

Segundo a coordenadora do programa USP Diversidade (vinculado à pró-reitoria), Heloisa Buarque, “esse escândalo da USP acontece não por causa dos rituais, mas pelo estupro, porque isso ninguém pode aceitar”. “A imagem da FMUSP é importante, mas é o momento de ela mostrar que ela não vai aceitar mais isso. Há tradições que não têm que ser mantidas.”

Muitas vezes, por serem considerados uma “tradição” dos cursos, os rituais impostos por veteranos nos trotes acabam sendo encarados como algo “normal” para os alunos novos.

“Isso é meio perverso porque realmente ninguém está lá contra a vontade, mas normaliza-se a violência a um ponto de as pessoas pensarem ‘eu tenho que aturar essa violência pra fazer parte disso'”, disse Ana Luiza. Ela conta que o próprio Coletivo Geni sofre hostilizações na USP de pessoas que não concordam com as “violências” que elas estão denunciando.

“Muitos falam que é culpa da vítima, que não é abuso porque a menina estava bêbada e permitiu. Outros vieram nos criticar quando usamos uma camiseta contra o machismo no trote dizendo que ‘não tem machismo na faculdade'”.

Combate

Algumas faculdades promovem atividades culturais ou o chamado “trote solidário” para substituir os tradicionais rituais de tinta e brincadeiras praticados pelos veteranos. Além disso, algumas criaram ouvidorias ou “disque-trote” para os alunos fazerem denúncias.

No IME, calouros simulam sexo com mulher desenhada no chão

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A Unesp Botucatu chegou a abrir uma Comissão Central de Sindicância esse ano para apurar abusos em trotes – no mês passado, essa comissão anunciou a expulsão de Luís Yori Almeida Galvão, aluno da Medicina, acusado de praticar o trote violento. Já a Unicamp coloca comissões de plantão para fiscalizar o trote dos cursos.

Algumas faculdades particulares enfrentam o mesmo problema e também buscaram soluções. No caso da PUC, em Sorocaba, alunos da medicina criaram um Grupo de Apoio ao Primeiranista, que inclui núcleos e apoio psicológico e social para dar suporte a calouros que sofram eventuais violências ou tenham algum tipo de problema na faculdade.

A Faculdade de Medicina do ABC implantou câmeras pelo campus e também criou sindicâncias para investigar abusos. Em uma delas, dois alunos foram expulsos e quatro suspensos por terem levado calouros a um educandário próximo à faculdade e aplicado o trote do “cartão vermelho” (colocaram pimenta no ânus dos alunos).

No entanto, a punição acabou sendo revertida. “Os alunos foram à Justiça Comum e conseguiram reverter. O Ministério Público tem que trabalhar junto com as faculdades pra isso. Tem que mexer na lei”, disse à BBC Marco Akerman, à época vice-diretor da Faculdade de Medicina do ABC e atualmente professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

“Nossa formação é universitária, não é diversitária. Acaba sendo machista porque a maioria dos professores e diretores são homens, e aí vai se formando uma cultura de formação machista, homofóbica e racista”, explicou.

“A Universidade tem que assumir a organização do trote e das atividades de recepção junto com alunos. Tem que tirar isso da penumbra, mostrar pra sociedade o que está acontecendo.”

Proibição

Outra opção muito discutida nas universidades – inclusive na FMUSP – é a proibição de festas com álcool dentro do campus. Essa medida foi adotada pela Faculdade de Medicina do ABC, mas não agradou nem aos alunos, nem aos pais deles.

“Recebemos um abaixo-assinado com 600 assinaturas de alunos e 150 de pais. Eles acham que é mais seguro os filhos irem a festas na faculdade do que fora dela”, disse Akerman.

Concurso de "Miss Bixete" é comum nos trotes de universidades do Estado de São Paulo

Concurso de “Miss Bixete” é comum nos trotes de universidades do Estado de São Paulo

A FMUSP por enquanto apenas suspendeu as festas no campus. Na semana passada, a diretoria anunciou a “criação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, com assistência jurídica, ouvidoria, assistências psicológica e de saúde, para apoio de alunos da instituição que se sentirem vítimas de qualquer tipo de violação”, e disse que vai ampliar o sistema de vigilância, além de estabelecer novas regras para o consumo de álcool na faculdade.

O Coletivo Geni está otimista com as medidas e espera que as ações sejam estendidas a toda USP. “A universidade tem que fazer uma autocrítica, tem que sair do seu isolamento e voltar a se preocupar com o tipo de aluno que ela está formando e se esses profissionais vão trazer uma transformação da sociedade para que ela não seja só uma fábrica de diplomas”, concluiu Ana Luiza.

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Biógrafo de Clarice Lispector vai doar renda de novo livro para Movimento Ocupe Estelita

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Ao divulgar e-book com críticas ao urbanismo brasileiro e a Niemeyer, Benjamin Moser diz que projeto imobiliário Novo Recife é ‘declaração de ódio’ ao Brasil

Benjamin Moser: Em defesa dos opositores ao projeto imobiliário Novo Recife - Divulgação/Luiz Maximiano

Benjamin Moser: Em defesa dos opositores ao projeto imobiliário Novo Recife – Divulgação/Luiz Maximiano

Maurício Meireles em O Globo

RIO – Benjamin Moser vem ao Brasil com frequência há 20 anos. Quando chegou aqui pela primeira vez, o país dava os primeiros passos para fugir da espiral inflacionária em que se metera. De lá para cá, o escritor e historiador americano viu o país crescer, crescer, crescer — e ficar mais feio, segundo sua concepção. Os culpados, diz ele, são os espigões, shoppings e prédios monumentais, frutos de uma noção de modernidade surgida nos anos 1920 e, mais tarde, encarnada na construção de Brasília.

Por isso, Moser — conhecido no Brasil como biógrafo de Clarice Lispector — se solidarizou com o Ocupe Estelita. O movimento de ativistas pernambucanos se opõe à construção de 12 torres residenciais no Cais José Estelita, o chamado projeto Novo Recife, na capital do estado. O escritor lança, depois de amanhã, pela editora recifense Cesárea, por R$ 3, o e-book “Cemitério da esperança”. O dinheiro arrecadado com o livro, que pode ser comprado no site www.cesarea.com.br, será revertido para o grupo de ativistas, que desde junho, após a reintegração de posse do terreno, organiza uma série de eventos e manifestações na cidade.

— Eles, como eu, querem um país que se respeite mais. Quando vejo esse projeto Novo Recife, enxergo um país que se odeia. Se as pessoas se levantarem, muito se pode fazer. As construtoras contam com a preguiça e a desmoralização do povo. O Ocupe Estelita mostra que os cidadãos querem ter voz — afirma Moser.

“Cemitério da esperança” é um ensaio sobre o imaginário brasileiro do progresso e sua relação com as reformas urbanas que aconteceram no país. Para Moser, os Estados Unidos são um país com o imaginário marcado pelo medo do declínio; já o Brasil, pelo desejo de encontrar um futuro prometido e abandonar um atraso histórico.

— Usaram esse conceito de modernidade, que data dos anos 1920, em várias cidades do mundo, mas ele falhou, porque era uma coisa horrível, que destruía as comunidades. No Brasil, porém, continuou. É uma história de ataque às cidades, mesmo as mais lindas, como Rio ou Recife — diz o escritor. — Falo no meu livrinho que a arquitetura monumental sempre trai seus propósitos. Projetos como o Novo Recife tentam ser símbolos de riqueza, mas são monumentos à pobreza, ao mau gosto espantoso que impera no urbanismo.

Embora fale principalmente da construção de Brasília, Moser parte do desejo de progresso brasileiro para analisar as principais reformas urbanas do país, desde a construção da Avenida Presidente Vargas, no Rio. Para o intelectual americano, esse tipo de reforma tentou, historicamente, apagar o passado, excluindo as pessoas, que eram removidas para dar lugar a tais empreendimentos.

— Não é um desejo de acabar com a pobreza. É um desejo de deixá-la menos visível. Um sonho utópico de um país que possa renascer. Lembra alguém que, no réveillon, jura que nunca mais vai mentir ou beber ou transar mas que, no dia 3 de janeiro, se dá conta de que continua a mesma coisa.

Críticas a Brasília

No “livrinho”, as críticas sobram para o principal nome da arquitetura brasileira — Oscar Niemeyer — e são fruto da decepção do escritor com Brasília. Para ele, a construção da capital encarna o mesmo desejo de reverter o atraso brasileiro de outras reformas urbanas.

— A arquitetura dele (Niemeyer) é uma ofensa ao Brasil. Só ele poderia ter feito um parque sem nenhuma árvore, como fez no Recife. O concreto de Brasília, ou do Recife, é uma declaração de ódio ao país — afirma.

O escritor americano vê na ânsia pela arquitetura monumental o desejo de poder dos políticos — daí sua relação próxima com regimes autoritários, diz.

— O poderoso no Brasil tem medo da senzala, da multidão. Essas obras são a exaltação do Estado. Assim, a Avenida Presidente Vargas representa o fascismo brasileiro. As construções em Brasília refletem a visão de um poder ditatorial. Tanto que os militares achavam a cidade linda.

dica do Rodrigo Leonardo Correa

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Coletivo usa literatura de cordel como ferramenta de combate ao preconceito sexual.

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Projeto Lampioa reuniu mais de 40 artistas, escritores e ilustradores em torno da criação de folhetos, que podem ser acessados pela internet

Projeto Lampioa/divulgação

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Fellipe Torres, no Diário de Pernambuco

Quando o escritor pernambucano Liêdo Maranhão lançou a primeira edição de Classificação popular da literatura de cordel, em 1976, machismo e preconceito eram elementos comuns na cartilha da maioria dos cordelistas. Sem constrangimento, eles próprios indicavam tais características ao pesquisador, grande conhecedor desse universo. “Enquanto todos nós conhecemos os folhetos como um bando de eruditos de gabinete, Liêdo vive e convive com todo o seu estranho, pobre, fascinante, mágico e duro mundo”, apontava, no prefácio, Ariano Suassuna.

Projeto Lampioa/divulgação

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Uma das categorias identificadas no livro – reeditado ano passado, pela Cepe – é a dos “folhetos de cachorrada ou descaração”, da qual fazem parte O rapaz que casou-se com um cabeludo pensando ser uma moça, de Minelvino Francisco Silva, e A mulher que casou-se com outra em Casa Amarela, de H. Rufino. Este último narra a união entre mulheres como algo obsceno, de causar espanto: “Hoje até homem dá luz/ Rapaz se pinta à carmim/ Uma moça esposa outra,/Fica outra achando ruim/Irmã pare de irmão/Nessa grande corrupção/O mundo vai levar fim”.

H. Rufino morreu na década de 1960. Ariano e Liêdo, este ano. Não viveram o suficiente para ver o formato e a estética do cordel serem usados para combater a homofobia de maneira incisiva. Não viram o “cabra macho” Lampião se tornar fêmea para dar nome a um projeto de celebração da diversidade sexual. Organizado pelo jornalista Bruno Castro e pelo designer João Zambom, o projeto Lampioa reune mais de 40 artistas, escritores e ilustradores em torno da criação de quatro fanzines com cara de cordel.

Projeto Lampioa/divulgação

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“São poesias, palavras rimadas, imagens gravadas e o desejo de unir novos olhares e diferentes formas de expressão sobre gêneros e sexualidade. Os fanzines colecionáveis são produzidos sob a dura e lúdica estética cordelista, originados a partir da fantasia crítica e criativa de artistas da nossa geração”, define Zambom. Os folhetos podem ser acessados em www.lampioa.com.

Cearense radicado no Recife, o poeta Allan Sales, autor de mais de 200 cordéis, considera natural a resistência de algumas visões preconceituosas de mundo. “É um espaço literário totalmente machista, pesado, mesmo, fundamentado na exaltação da figura masculina. Também vejo traços de homofobia, mas é normal, pois reflete o imaginário popular”. A temática preferida do escritor é a política social, com crítica à corrupção e ao populismo.

Projeto Lampioa/divulgação

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Editor do site Interpoética, o pernambucano Sennor Ramos acredita em uma mudança gradual no conteúdo dos folhetos tradicionais. Para ele, a literatura de cordel já foi muito mais machista e preconceituosa. “Hoje em dia está mais consciente, embora fale sobre os mesmos temas. Ainda é comum encontrar cordelista homofóbico. Quem costuma fazer diferente são as mulheres escritoras”.
Já o cantador Clécio Rimas, autor de cordéis como Sustentabilidade, destaca o preconceito sofrido pelo próprio cordel, geralmente classificado como literatura menor, por tratar de assuntos populares e utilizar impressão de baixa qualidade. “Há preconceito por toda a parte. Cabe às pessoas mudar isso. Usar o cordel para combater a homofobia é algo muito válido, porque cada ser humano precisa ter liberdade de escolhas. Vale mais o amor”.

Projeto Lampioa/divulgação

Projeto Lampioa/divulgação

TRECHOS>>>>>>>>>>>>>
ONTEM >>>>>
“Maria da Penha Fernandes
E Maria Madalena
Foram as protagonistas
De tão hedionda cena!
Sendo o marido a primeira
E a segunda a companheira,
Oh! Que para obscena!…
(Trecho de A mulher que casou-se com outra em Casa Amarela, de H. Rufino)

HOJE>>>>>
Era menino ou menina
Que mexia com seu coração
Era menino ou menino
Que dava mais tesão?
(…)
Ela fez de tudo um pouco
Com menina e com rapaz
Se proibir parecia bobo
Ela queria sempre mais

Escolher porque mandaram
Não mostrava sua razão
Ela queria liberdade
Para andar na contramão
(Trecho de Lampioa, vários autores)

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Prêmio Paraná de Literatura revela vencedores

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Vanessa Barbara foi uma das premiadas no concurso que reconhece trabalhos inéditos nas categorias romance, poesia e conto

O romance "Operação Impensável" foi o melhor entre os 180 inscritos

O romance “Operação Impensável” foi o melhor entre os 180 inscritos

Maria Fernanda Rodrigues, em O Estado de S. Paulo

O Prêmio Paraná de Literatura anuncia nesta segunda-feira, dia 24, os vencedores de sua terceira edição. Este ano, concorreram 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo. Operação Impensável, de Vanessa Barbara, cronista do Caderno 2 e do New York Times, ganhou na categoria romance. Sônia Barros, escritora conhecida por suas obras infantojuvenis, venceu em poesia com Fios. E a professora de inglês Adriana Griner ficou em primeiro lugar em contos com No Início. Elas ganharam R$ 40 mil cada uma e terão o livro editado pela Biblioteca Pública do Paraná, que promove o lançamento no dia 12 de dezembro.

Autora de O Livro Amarelo do Terminal (Prêmio Jabuti) e de Noites de Alface, entre outras obras, Vanessa diz que sua intenção foi, desde o início, mandar o original do romance em que estava trabalhando para o prêmio – porque com um objetivo e prazo ela se motivaria a tocar o projeto e por causa da valor dele. “Um prêmio em dinheiro desses é algo muito raro no Brasil. É uma quantia improvável de se obter com a simples publicação de um livro, mesmo que ele obtenha reconhecimento. É um incentivo tremendo para a produção literária.” Um concurso como esse, para originais não publicados, ela diz, é importante para descobrir novos autores que ainda não tiveram uma chance e também para que os já publicados submetam seus trabalhos por outros caminhos.

Vanessa emprestou o título de seu romance do plano de invasão cogitado pelos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial – período em que a protagonista, uma historiadora, é especialista. O livro conta a história de amor entre ela e um programador de computadores que esconde segredos.

"No Início" concorreu com outros 181 projetos e foi considerado o melhor livro de contos

“No Início” concorreu com outros 181 projetos e foi considerado o melhor livro de contos

A carioca Adriana Griner nunca publicou um livro. No Início, sua estreia premiada, é, em suas palavras, uma leitura feminina do primeiro livro do Antigo Testamento. “Parece algo meio ambicioso, e talvez prepotente, tentar fazer isso. Mas eu apenas pego algumas histórias e reconto, dando voz a personagens que não têm voz. Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do Mimesis, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia”, explica.

Poesia foi a categoria mais concorrida, com 269 inscrições; "Fios" foi o melhor livro

Poesia foi a categoria mais concorrida, com 269 inscrições; “Fios” foi o melhor livro

Sônia Barros, autora de 17 volumes infantojuvenis – muitos deles em verso ou prosa poética – e de um de poesia (Mezzo Voo), para adultos, aceitou a sugestão do poeta Donizete Galvão, morto este ano, e inscreveu Fios no prêmio antes de procurar uma editora. Foi ele também que a ajudou a ver a ligação entre os poemas. “O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando fios aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte. Enfim, os caminhos internos e externos da existência humana.”

Confira trechos das obras premiadas aqui.

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Jovem com Síndrome de Down e sua mãe passam em vestibular para gastronomia

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Companheiras: mãe e filha estudavam juntas (foto: Arquivo Pessoal)

Companheiras: mãe e filha estudavam juntas (foto: Arquivo Pessoal)

Daniel Leite, no UOL

Foi como juntar o útil ao agradável: Jacqueline Rotelli, 47, será caloura no curso de gastronomia junto com a filha Tatiane, 19, no primeiro semestre de 2015.

Como a família tem negócios no ramo, a capacitação no curso tecnólogo, de dois anos, será bem-vinda. Ao mesmo tempo, a mãe ficará mais sossegada — além de feliz — em acompanhar a filha que tem Síndrome de Down nas aulas.

Moradoras de Andradas, cidade mineira que fica cerca de 485 km da capital Belo Horizonte, mãe e filha devem percorrer diariamente os 25km entre sua casa e a faculdade, em Espírito Santo do Pinhal, que fica a cerca de 190 km de São Paulo. A nova rotina anima a dupla.

“Quero conhecer novas pessoas, aprender muito e ser desafiada”, diz Tatiane. De desafios, Tatiane entende: sempre estudou em escolas regulares e superou os obstáculos a sua inclusão, como o preconceito ou falta de preparo dos professores.

A trajetória sempre teve a participação da família. Quando os Rotelli se mudaram para um sítio na zona rural de Andradas, Jacqueline auxiliou Tatiane nos estudos por mais de quatro anos, sendo sua professora.

O ensino médio foi feito na cidade. E, logo mais, Tatiane participará da festa de formatura, uma “noite mágica”, segundo ela, pela qual espera com ansiedade.

Barreiras

Jacqueline Rotelli (à dir.) e sua filha Tatiane passaram em gastronomia

Jacqueline Rotelli (à dir.) e sua filha Tatiane passaram em gastronomia

As dificuldades se estenderam até no momento de inscrição para os vestibulares. Jacqueline buscou informações com as faculdades e universidades. Segundo ela, a maioria não sabia explicar nem como deveria ser preenchido o campo que identifica deficiências dos candidatos.

“O que nos interessava é que minha filha realmente se sentisse estudante e aluna como todos, e que enfrentasse as mesmas dificuldades no vestibular”, afirma Jacqueline. A Unipinhal, instituição em que as duas farão o curso de gastronomia, ofereceu apoio pedagógico à Tatiane e a garota fez a mesma prova que os outros concorrentes.

Na visão da pró-reitora de graduação da Unipinhal, onde as duas estudarão, a entrada de Tatiane pode significar melhorias para a instituição. “Para nós é muito importante um projeto de inclusão. Temos um núcleo de apoio pedagógico, e a Tatiane pode até nos dar parâmetros para rever processos pedagógicos nossos”, explica Valéria Torres.

Calouras

Tatiane parece estar mais tranquila que a mãe com a nova fase: ela já pesquisa sobre gastronomia e anota tudo em seus cadernos. A jovem também já tem planos de abrir um restaurante com buffet para realizar casamentos, mas promete seguir ajudando os pais na cachaçaria e chocolateria da família.

Já a mãe admite o nervosismo. “Eu estou apavorada mesmo! Não sei como vai ser me tornar aluna junto com minha filha, se conseguirei acompanhá-la, pois ela está pronta para essa fase e eu já passei desse tempo!”, diz Jacqueline.

Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), no Brasil há 29.034 alunos com algum tipo de deficiência matriculados em cursos de graduação de faculdades públicas (9.406) e privadas (19.628). Desses, 566 possuem deficiência intelectual.

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