A supervalorização da inspiração

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Nicole Ayres Luz, no Homo Literatus

Afinal, será que escritores são realmente tão reféns da inspiração como muitos pensam?

escritor datilografando

O Romantismo foi um movimento literário importantíssimo para o estabelecimento de certas ideias modernas sobre a própria Literatura. Conceitos como originalidade e autoria, reconhecidos até hoje, foram doutrinados por essa época. Outra ideia romântica ainda contemporânea é a do gênio criador. O artista, muitas vezes, é visto como uma entidade superior, quase divina, que vive em estado permanente de inspiração. Isso não só é uma idealização impossível, mas também certa desvalorização do trabalho artístico. Os livros não se escrevem sozinhos, por simples fruto de inspiração celestial. Eles exigem esforço humano, por vezes sobrehumano, em sua composição. Normalmente, demandam anos de estudo, leitura, muita prática e tentativas frustradas.

A verdade é que a inspiração é supervalorizada. Os gênios existem, mas não são escravos da inspiração. Alguns amadurecem cedo e/ou possuem um ritmo de escrita frenético, o que não significa que seu trabalho seja fácil, natural. Escrever ficção é um exercício mental pesado, desgastante, que demanda tempo, dedicação, concentração. Por trás de toda magia que se criou em volta da figura do escritor, nos bastidores a história é outra. O drama psicológico que faz parte de qualquer produção ficcional é pouco comentado. É mais bonito acreditar que o artista é atingido por uma súbita inspiração e consegue passar suas ideias para o papel de uma vez só, como se possuído pelo espírito da criação.

Isso não significa que a inspiração não exista ou que não seja útil. A inspiração é o pontapé inicial, a ponta do iceberg. O resto é transpiração. Nesse momento, alguém pode se perguntar: então o que motiva a escrita? Se é um trabalho tão difícil, se a inspiração ajuda, mas não é tudo, se todo esforço por trás da criação é tão pouco valorizado, por que esses malucos continuam escrevendo? Pois é. Na literatura, não se pode ser totalmente racional nem totalmente emocional. Todo escritor é um tanto quanto insano e um tanto quanto sábio. O escritor é aquele ser sempre em busca do equilíbrio entre a inspiração e a concentração, que mergulha no mundo das palavras para que sua alma e sua mente não transbordem de ideias. Se não há poesia nesse ato de brava persistência, eu não sei mais de nada.

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Novo livro de Ariano Suassuna é para poucos leitores, diz pesquisador

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Ariano Suassuna

Fellipe Torres, no Divirta-se

Ariano Suassuna dedicou a vida inteira à criação do próprio universo artístico. Ao morrer, há dois meses, o dramaturgo e romancista deixou bastante material a ser decifrado, sorvido, vivenciado. Até o fim, manteve-se perfeccionista. Burilou e fez ajustes não somente no livro considerado “a síntese de toda a obra” – ‘O jumento sedutor’, ainda inédito –, mas em todo o conjunto da produção artística, chamado por ele de ‘A ilumiara’. O cuidado com os detalhes iria reforçar a ideia de complementaridade, como se cada criação de Ariano fizesse parte de algo maior. E fazia.

Ao longo das três últimas décadas, o professor e pesquisador Carlos Newton Júnior se tornou especialista na obra de Ariano Suassuna. Sob o viés acadêmico, analisou o universo armorial do escritor, assunto de seu mestrado e doutorado. Na vida pessoal, teve acesso a informações e momentos que estudioso algum voltará a ter. Amigo do ídolo, era tratado como alguém da família e, por isso, recebeu tarefas como a de transcrever os manuscritos do derradeiro livro de Ariano.

“Tive o privilégio de ter acesso aos arquivos de Ariano, e a gente conversava muito, eu sempre dizendo o que achava. Conhecia a caligrafia dele, e por isso digitei ‘O jumento sedutor’ nos últimos quatro ou cinco anos. No computador, era mais fácil fazer alterações”. Para Carlos Newton Júnior, não se trata de um livro simples, e sim para poucos leitores, assim como ‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa. “Só mergulha nesse universo o leitor mais maduro. Este é um livro para leitores de Ariano”.

Debruçado sobre a mesma obra desde 1981, Ariano chegou a anunciá-la como espécie de continuação de ‘Romance d’A pedra do reino’, cujo enredo deveria ser conhecido previamente. Por isso, fez alterações na edição mais recente do livro lançado pela primeira vez em 1971. O título completo passou a ser ‘A ilumiara – Romance d’A pedra do reino – Introdução ao romance de Dom Pantero no palco dos pecadores’, uma referência ao protagonista de ‘O jumento sedutor’.

Enxertados no livro mais recente, frisa Carlos Newton Júnior, também estão vários poemas escritos por Ariano Suassuna há muitos anos. Essa é uma das explicações para a ausência de obras de poesia na bibliografia do dramaturgo. “Ele postergou a publicação desses textos porque estava incluindo nessa última, que é toda em diálogos, com os personagens declamando”. Segundo a agência literária Riff, responsável pela obra de Ariano, e Dantas Suassuna, um dos filhos do escritor, ainda não há previsão para o lançamento.

Ariano

De volta ao passado
Ariano Suassuna chamou de ‘A ilumiara’ o projeto de fundição da sua produção artística. Nele, todos os gêneros estão conectados e fazem auto-referência à bibliografia do escritor. Para dar maior coerência e unidade ao conjunto da obra, ele revisitou os próprios romances, peças e poesias para fazer pequenas alterações. Segundo Carlos Newton Júnior, um dos objetivos era estimular o leitor de ‘O jumento sedutor’ a ler outros títulos.

(1948) Na peça ‘Os homens de barro’, escrita entre 1948 e 1949, Ariano ajustou o enredo para que a história se passasse no conjunto de lajedos da Pedra do Reino. A mudança é sutil, mas já antecipa cenários de obras futuras.

(1955) João Grilo e Chicó, originários da peça ‘Auto da Compadecida’, de 1955, “ressuscitaram” duas décadas depois para substituir os personagens Piolho e Adauto, de ‘Romance d’A pedra do reino’.

(1955) Em ‘O jumento sedutor’, há uma encenação de “Auto da Misericordiosa”, peça fictícia que faz referência ao ‘Auto da Compadecida’.

(1971) ‘Romance d’A pedra do reino’ (1971) teve o título alterado na edição mais recente. Passou a se chamar ‘A ilumiara – Romance d’A pedra do reino – Introdução ao romance de Dom Pantero no palco dos pecadores’.

(1971) O personagem principal de ‘Romance d’A pedra do reino’, Pedro Dinis Quaderna, reaparece em ‘O jumento sedutor’, embora o protagonista seja Dom Pantero (espécie de alter ego de Ariano Suassuna).

(1985) Várias poesias escritas por Ariano desde 1946 (muitas ainda inéditas) são reaproveitadas em ‘O jumento sedutor’. Exemplo disso são os ‘Sonetos de Albano Cervonegro’ (parte de uma série de dez iluminogravuras), escritos originalmente em 1985.

(1995) Há 19 anos, Ariano circulava o país ministrando aulas-espetáculo. Essa experiência serviu de mote para ‘O jumento sedutor’, em cujo enredo o protagonista Dom Pantero oferece “aulas espetaculosas”.

Carlos Newton Júnior

TRÊS PERGUNTAS >>> Carlos Newton Júnior

Sobre ‘O jumento sedutor, qual sua expectativa no que diz respeito à recepção do público e da crítica?
É um livro para poucos leitores a cada geração, assim como outras grandes obras, a exemplo de ‘Grande Sertão: Veredas’. Só mergulha nesse universo o leitor mais maduro. Este é um livro para leitores de Ariano. Ele próprio dizia que ‘A pedra do reino’ é uma espécie de introdução. Você precisa conhecê-la para entender ‘O jumento sedutor’, que é uma continuação – não no plano original, de uma trilogia, mas uma continuação.

Além desse, que outros textos inéditos foram deixados por Ariano? Qual a importância deles?
Ele deixou muita coisa inédita. Da década de 1950, há muitas críticas literárias publicadas no jornal ‘Folha da manhã’, hoje extinto. Além do vasto número de poemas, há peças de teatro anteriores ao ‘Auto da Compadecida’, romances inéditos, como ‘O sedutor do Sertão’, escrito na década de 1960, antes de ‘A pedra do reino’. Ele tem um espólio grande, e naturalmente isso vai saindo aos poucos. Como disse uma vez Jarbas Maciel (um dos fundadores do Movimento Armorial), a obra de Ariano só pode ser compreendida através de uma visão sistêmica. Você só pode entender o romance se também fizer uma incursão pelos poemas, pelo teatro. Os gêneros dialogam. Um gênero joga luz sobre outros.

Depois da morte de Ariano, como fica o Movimento Armorial? Gerou frutos? Continua vivo?
Algumas pessoas enxergam o Movimento Armorial como algo fechado. Não vejo assim. É algo que sugere aos artistas um mergulho na tradição, aponta uma direção para cada um percorrer o próprio caminho. Isso pode ser visto na gravura de Samico, que é armorial, e voltada para o diálogo com a gravura popular. O Movimento Armorial não é um grupo que se reúne, mas tem princípios seguidos por vários artistas. Você encontra artistas em várias partes do Brasil que continuam inspirados e influenciados pelo Movimento.

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Editora usa gibi literário para atrair leitor jovem

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Roberto Ito, na Folha de S.Paulo

Quando os alunos de uma escola no Brooklyn leram “Theseus and the Minotaur”, o mito grego recontado pelo cartunista francês Yvan Pommaux, gostaram da história de imediato, segundo seu professor, Daniel Tandarich.

E por que não? O livro, o primeiro gibi da Toon Graphics, é repleto de assassinatos tenebrosamente criativos, proezas de força sobre-humana, deuses malcomportados e feras sedentas de sangue.

De acordo com Tandarich, uma cena em que um touro enfurecido escorna um jovem cretense foi favorita especial dos alunos.

Mas o que “Theseus and the Minotaur” tem de melhor, pelo menos para esse público, é o fato de ser um gibi. “Não é preciso explicar a uma criança como ler um gibi”, disse Françoise Mouly, fundadora da Toon Graphics.

As crianças, segundo ela, “prestam atenção aos detalhes e estão acostumadas a processar informações para extrair o significado delas. É assim que elas encontram sentido no mundo. E os gibis são bons diagramas de como extrair significado da palavra impressa.”

A Toon Graphics é um selo da editora independente Raw Junior, fundada por Mouly em 1998. Ela abriu a Toon Graphics, que produz gibis para crianças de a partir de três anos de idade, em 2008.

Mouly disse que espera ampliar esse aprendizado para crianças mais velhas. Mas admite que a luta pela aceitação às vezes é árdua.

“Para se desenvolver como leitoras, as crianças precisam de muita experiência no processamento de palavras”, explicou Timothy Shanahan, professor emérito de educação urbana na Universidade do Illinois em Chicago.

“Se um jovem passa uma hora lendo um gibi e uma hora lendo um livro, provavelmente processa mais palavras quando lê um livro. Não é que os gibis sejam ruins —é o que eles podem substituir.”

Com tantas mídias competindo pela atenção de crianças, porém, professores e bibliotecários estão mais interessados em usar histórias em quadrinhos nas escolas.

“Antigamente os bibliotecários se enxergavam como guardiões a quem cabia selecionar os livros e levá-los às crianças”, comentou o crítico Leonard S. Marcus.

“Mas hoje o que se procura é simplesmente encontrar alguma coisa que a criança queira ler, na esperança de que, com o tempo, isso lhe abra o mundo da leitura”.

Este mês a Toon Graphics vai lançar “Casta Away on the Letter A”, a história de um adolescente que cai num poço e emerge num mundo fantástico. A história faz referências a “Robinson Crusoé” e à pintura “A Balsa da Medusa” (1918-19), de Théodore Géricault.

“Hansel & Gretel”, uma nova versão do conto dos irmãos Grimm “João e Maria” criada por Neil Gaiman e o ilustrador Lorenzo Mattotti, sairá em outubro.

Gaiman é aclamado por suas narrativas imaginativas baseadas em personagens fictícios clássicos que vão de Batman a Beowulf, passando por Sandman.

Para o escritor, não existe livro inapropriado para uma criança. “De tempos em tempos as pessoas dizem que as crianças não deveriam ler livros como ‘Capitão Cueca’ e ‘Goosebumps’. É bobagem.”

Os livros publicados por Mouly estão longe de ser pesos leves literários. Seus autores receberam alguns dos maiores prêmios, como o Eisner, do setor de HQs, os Newbery’s, da Associação Americana de Bibliotecas, e o Pulitzer.

Mouly aconselha pais e professores de potenciais leitores. “Não desconfiem de algo apenas porque eles adoram e não chamem os gibis de graphic novels”.

“Precisamos deixar esse eufemismo de lado”, ela opinou. “Falamos de um livro de 32 páginas, com 300 palavras. Não é preciso fingir que é um romance. É uma história em quadrinhos. Um gibi.”

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Artista dedicado em melhorar o dia de todos apenas com o seu bloco

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Publicado por Chiado Magazine

Este incrível e dotado ilustrador, apelidado de Troqman, está dedicado em melhorar o dia de todos, ao pegar em situações banais e dar-lhes um pouco de alegria.

Os desenhos, no seu bloco de notas, são chamados de “Cartoonbombing” e pretendem explorar espaços públicos ou privados e transformá-los com um desenho muito simples.

Fique com alguns dos melhores exemplos e divirta-se um pouco:

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Criança deve evitar eletrônicos até 12 anos de idade, afirma educador

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THAIS BILENKY, Folha de S.Paulo

Tablets são uma péssima maneira que os pais acharam para ocupar as crianças, diz Flávio Comim, 48, ex-economista sênior do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Para ele, o ideal é que as crianças evitem os eletrônicos até os 12 anos. “O uso excessivo de aparelhos eletrônicos limita as conexões neurais. As crianças não pensam aberto, mas dentro da caixa.”

Economista, ele é um dos coordenadores do Círculo da Matemática, projeto nascido em Harvard há 20 anos. Leia a seguir a entrevista.

Folha – Como pais podem ajudar os filhos na escola?

Flávio Comim – Os pais devem se importar com os estudos dos filhos. As crianças não aprendem com discurso, mas sim com a prática. Você briga com seu filho por causa de uma nota ruim e, quando ele vem mostrar algo que aprendeu, você diz “bonito, agora vamos ver televisão”. Os pais têm de ser coerentes.

O efeito família é superior ao efeito escola na explicação do desempenho das crianças. Professores não conseguem mudar a realidade que o aluno vive em casa. Há muito que os pais podem fazer: ler um livro, brincar juntos, criar rotina. Isso dá segurança à criança ir bem na escola. Mas é preciso regras, punições consistentes.

Que tipo de punição?

As maneiras mais modernas de punir estimulam a reflexão das crianças, como na ideia de minutos. Você reconhece que aquilo que a criança fez não está certo e dá um tempo para ela pensar. Mas sempre com afeto. As famílias parecem estar cansadas demais para se preocupar com o mundo dos filhos –os pais terceirizam para a escola a educação dos filhos e esta devolve para os pais. As crianças são educadas em um vácuo que que tem sido preenchido pela tecnologia.

Isso é ruim?

É péssimo. iPad e tablets são a maneira que os pais de classe média encontraram para ver as crianças ocupadas. Um superestímulo virtual pode levar também a problemas de comportamento, como à busca por satisfação imediata em tudo. O uso excessivo de aparelhos eletrônicos limita as conexões neurais. As crianças não pensam aberto, mas dentro da caixa, naqueles parâmetros que são dados. As sociedades médicas na Inglaterra e nos EUA recomendam que, pelo menos até os 12 anos, crianças não usem muitos eletrônicos. Os pais, talvez no intuito de ajudar e maravilhados em ver os filhos operando esses aparelhos, se rendem, indefesos, a todo tipo de tecnologia. Os problemas vêm depois.

Livros e brinquedos nessa fase são mais recomendáveis?

Sim, se receber os estímulos certos, uma criança pode começar a ler aos quatro ou cinco anos. Do contrário, ela pode ter a mobilidade prejudicada ou enfrentar dificuldades para diferenciar cores.

E o aspecto lúdico?

Ninguém tem excelência se não faz algo com um pouco de prazer. O problema é que muitos pais têm um nível educacional limitado. Dizem às suas crianças “matemática é difícil mesmo”, dando uma autorização tácita para o seu desinteresse e desengajamento. Esses mesmos pais precisam de apoio.

Talvez o maior desafio na nossa educação hoje seja a humanização das relações entre professores e alunos e entre professores e pais. As escolas precisam criar vivências que aproximem as pessoas, não apenas reuniões para reclamar das crianças.

Como fazer isso?

Cito o projeto Círculo da Matemática, em que se diz que “pequenas ações dão grandes resultados”: chamar os alunos pelo nome ou registrar no quadro uma resposta errada ou elogiar não o aluno, mas suas respostas são ações de gestão de sala de aula que promovem a inclusão. O fundamental é ter respeito ao aluno como um ser inteligente. Vários professores perdem esse respeito em condições hostis de sala de aula, o que leva ao embrutecimento das relações.

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