Gustavo Ioschpe derruba 12 mitos da educação brasileira

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Gustavo Ioschpe: "No dia em que a má qualidade do ensino tirar votos, teremos uma mudança verdadeira no país." (Heitor Feitosa/VEJA.com)

Gustavo Ioschpe: “No dia em que a má qualidade do ensino tirar votos, teremos uma mudança verdadeira no país.” (Heitor Feitosa/VEJA.com)

Professor ganha pouco, universidade pública deve ser gratuita… O economista desconstrói versões predominantes sobre a realidade e os desafios do ensino nacional. Leia também: trecho inédito do novo livro do colunista de VEJA

Bianca Bibiano, na Veja

No início de 2013, Israel Lelis (PP), prefeito de Ibipeba, cidade de 17.000 habitantes no interior da Bahia, teve uma atitude bastante incomum: deu a todos os 200 professores da rede municipal de ensino local um exemplar do livro O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?”, de Gustavo Ioschpe, economista e colunista de VEJA. “Pensamos que era uma piada de mau gosto”, conta Cleide Lelis, secretária de Educação da cidade. “Os professores que não conheciam o autor acharam que se tratava de um pseudônimo criado pelo prefeito para criticar nosso trabalho.” Esclarecida a situação, os docentes organizaram um evento para discutir os artigos do livro, publicados originalmente em VEJA. “Os textos falam do que ninguém quer ouvir e fazem questionamentos que enriqueceram o debate sobre o que fazer para melhorar a qualidade da educação”, diz a secretária.

O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Objetiva; 254 páginas; 36,90 reais). Divulgação/ Ed. Objetiva

O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Objetiva; 254 páginas; 36,90 reais). Divulgação/ Ed. Objetiva

Sim, falar de temas espinhosos, questionar versões consagradas e derrubar mitos sobre a educação brasileira (leia na lista abaixo) é uma especialidade de Ioschpe, de 37 anos. Apoiado em rigor metodológico e na análise minuciosa de pesquisas nacionais e internacionais, o economista desconstrói discursos que se tornaram predominantes entre professores, pais, políticos e quase toda a sociedade para explicar a funesta situação do ensino nacional e seus desafios. Ioschpe volta à carga em novo livro, uma edição ampliada de “O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?”, que chega às livrarias no dia 1º de agosto e reúne 40 artigos publicados em VEJA entre 2006 e 2013. Os textos tratam de questões como financiamento da educação, participação dos pais e propostas de melhoria do ensino. O volume traz ainda um extenso material produzido após uma viagem do autor à China, em 2011, para investigar as causas do recente e acelerado avanço da educação no país asiático. Parte da apuração foi publicada à época em VEJA, mas parte permanecia inédita até agora (leia capítulo na íntegra).

A bagagem que permite ao economista fazer afirmações incisivas, que destoam da maioria — como a de que o Brasil não gasta pouco em educação e de que os professores não ganham mal —, foi acumulada ao longo de mais de 15 anos de pesquisas. “Eu não escrevo para mostrar minha opinião. Escrevo como pesquisador, apoiado em literatura empírica”, diz Ioschpe. O gaúcho de Porto Alegre começou a escrever quando cursava o ensino médio e se preparava para o vestibular. “Sempre gostei de escrever e resolvi fazer um livro com dicas para vestibulandos que, assim como eu, precisavam aguentar a pressão dos exames.” A repercussão do livro rendeu um convite para se tornar colunista do jornal Folha de S.Paulo, em 1996. No mesmo ano, foi aprovado na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde estudou administração, economia e ciências políticas.

O interesse pela educação brasileira nasceu com a repercussão de um artigo que defendia a cobrança de mensalidade nas universidades públicas. “Foi a primeira vez que recebi uma resposta agressiva dos leitores”, diz. Para compreender o que causava tantas queixas, decidiu aprofundar a discussão em uma pesquisa científica. O resultado do trabalho ganhou forma em sua tese de graduação e foi aprofundado no curso de mestrado em desenvolvimento econômico na Universidade de Yale, onde ele mergulhou no estudo da economia da educação.

“Minha pesquisa me deixou chocado. Àquela altura, o Brasil ganhava visibilidade internacional com a promessa de um forte crescimento econômico, mas sofria com um problema seriíssimo de falta de capital humano, que atrapalhava o crescimento da nação e persiste até hoje. Para piorar, a discussão a respeito era irrelevante. O debate se resumia ao financiamento da educação e ao salário dos professores.”

Com a “pretensão da juventude”, como ele mesmo define, Ioschpe pensou que poderia mudar o eixo central do debate usando argumentos de sua tese de mestrado, publicada em 2002. “Eu queria mostrar que soluções comprovadamente eficazes para alavancar a aprendizagem, como cobrar diariamente o dever de casa, não envolviam recursos financeiros. Mas ninguém quer ouvir sobre soluções que deem mais trabalho aos professores. A educação nacional era e continua um desastre.”

O receio de que o atraso educacional aniquilasse as chances de o Brasil se tornar um país desenvolvido motivou Ioschpe a seguir escrevendo — ele é colunista de VEJA desde 2006. “O maior elogio que posso receber é uma crítica pessoal. Se os comentários apontassem fraquezas nos dados que apresento, eu me importaria de verdade. Quando elas vem recheadas de xingamentos, vejo apenas que faltaram argumentos consistentes aos meus interlocutores.” Com poucos interlocutores nessa seara dispostos a debater, o economista mirou outro alvo. “Antes, eu acreditava que poderia interferir no debate educacional mostrando que o problema é de má gestão e não de falta de recursos financeiros ou tecnológicos. Recentemente, concluí que discutir com esses grupos não adianta: a mudança só vai acontecer quando a população passar a cobrar melhorias.”

 

1 -”O Brasil investe pouco em educação”

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“Se um médico prescreve um remédio para uma doença e ele não surte efeito, a primeira opção é aumentar a dosagem. Se o problema persistir, provavelmente o médico tentará outro medicamento. Quando o assunto é educação, a lógica segue o caminho oposto: a solução para todos os problemas é sempre aumentar a dosagem do que se considera o único remédio, ou seja, o dinheiro. Os defensores desse tratamento desconsideram o fato de que repasses de verba cada vez maiores já foram anunciados por programas como Fundef e Fundeb sem melhorar a qualidade da educação. Apesar disso, o Plano Nacional de Educação, recém-sancionado pela presidente Dilma Rousseff, prevê que, até 2024, 10% do PIB brasileiro deve ir para o setor. Segundo a Unesco, países como Finlândia, China, Irlanda e Coreia do Sul, que apresentam os melhores índices educacionais do mundo, gastam até 5,7% do PIB com educação. Em contraponto, nações como Quênia, Namíbia, Armênia e Mongólia despendem entre 7% e 12,9% do PIB no setor: mesmo assim, não conseguiram solucionar o problema da baixa qualidade do ensino.”

 

2 -”Os professores são mal remunerados”

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“No Brasil, o salário da maioria dos profissionais, como médicos, engenheiros, artistas e professores, é em média 3,5 vezes inferior ao pago a profissionais das mesmas categorias nos Estados Unidos. A diferença salarial é explicada pelo PIB per capita de cada país. O professor ganha pouco por ser brasileiro, não por ser professor. O argumento comum, porém, é de que se o Brasil quiser atingir o patamar educacional de países desenvolvidos, como os próprios Estados Unidos, deve pagar o mesmo a seus docentes. Isso desconsidera o fato de que quase 80% do gasto com educação aqui são destinados a pagar salários de professores e funcionários. Se pagarmos aos docentes brasileiros, em termos nominais, o mesmo que os americanos recebem, eles seriam a única categoria a atingir esse patamar salarial no Brasil. Os demais profissionais, contudo, continuariam a ganhar 3,5 vezes menos.”

 

3 -”Ganhando mais, os professores vão ensinar mais”

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“Não há, na literatura empírica nacional e internacional, provas de que salários mais altos influenciam a melhora na qualidade do ensino. Uma simples constatação disso é que os sucessivos aumentos no piso salarial dos docentes brasileiros até hoje não tiveram reflexos nos índices educacionais e também não solucionaram os problemas das greves, que continuam a acontecer todos os anos. O sistema educacional é perverso: se o professor faz mal o seu trabalho e ainda assim ganha mais, por que lutar para fazer um trabalho melhor que não trará mais ganhos?”

 

4 -”As salas de aula têm alunos demais”

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“Este é um dos mitos comumente relacionados à baixa qualidade do ensino e à necessidade de aumento salarial dos docentes. A relação, porém, não resiste à apuração de pesquisas empíricas. Elas mostram que, em salas com menos de 20 alunos, a turma aprende o mesmo que em uma sala mais cheia. O único fator que faz diferença real é o professor e sua capacidade de gerir uma sala de aula e transmitir conhecimentos para um grupo.”

 

5 -”Escola em tempo integral vai melhorar os índices educacionais”

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“Há evidências de que mais horas-aula melhoram o desempenho acadêmico. O problema é que a carga horária brasileira, que já não é alta, raramente é cumprida, e a maioria dos programas de ensino integral praticados no Brasil oferecem atividades não-acadêmicas, como música e esporte, no contraturno. Nesse modelo, o ensino em tempo integral é um desperdício. A primeira prioridade deveria ser usar o tempo de aula de modo eficiente, pois o Brasil é um dos países que mais desperdiça tempo com atrasos de professores e alunos, anúncios, chamada etc. Quando essa carga horária estiver bem ocupada, e quando os programas no contraturno forem de português, matemática e outras disciplinas, o desempenho dos alunos vai melhorar. Nesse caso, eu seria totalmente favorável à iniciativa.”

 

6 -”A tecnologia vai resolver o atraso escolar”

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“Praticamente toda a pesquisa sobre o assunto, não apenas no Brasil como no exterior, mostra que não há relação entre a presença de computadores na escola e aprendizado. Ainda assim, o Ministério da Educação decidiu em 2012 dar tablets aos professores, um custo de 150 milhões de reais. O fracasso atual das tecnologias em sala de aula não quer dizer que elas não possam dar resultados no futuro. A utilização de softwares específicos para aprendizado tem mostrado resultados positivos, principalmente em matemática. Mas o melhor software educacional disponível hoje é, disparado, o cérebro de um bom professor.”

 

7 -”A escola tem que formar cidadãos críticos e conscientes”

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“Esse argumento reflete a ideologização do ensino, presente em todas as escolas brasileiras. Pesquisas do Inep (órgão ligado ao MEC responsável por pesquisas educacionais) com professores mostram que nove em cada dez docentes concordam com a afirmação de que ‘o professor deve desenvolver a consciência social e política das novas gerações’. Menos da metade, no entanto, acredita que ‘o professor deve evitar toda forma de militância e compromisso ideológico em sala de aula’. Essa percepção, além de alterar o conteúdo a ser ensinado, afeta a forma como ele chega aos alunos: por isso, trabalhos em grupo passaram a se sobrepor a exercícios individuais, notas e provas passaram a ser vistas com maus olhos e recompensar o mérito acadêmico é equivalente a premiar uma competitividade nefasta. É impossível, porém, medir se essa filosofia está efetivamente criando cidadãos críticos e conscientes ou apenas se sobrepondo ao ensino dos conteúdos.”

 

8 -”Rankings educacionais não levam em consideração a realidade das escolas”

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“É verdade que os rankings educacionais não consideram fatores socioecômicos. O que se esconde por trás desse mito, contudo, é a ideia de que por causa disso eles não podem ser considerados bons termômetros para a educação, como apontam os críticos das avaliações externas nacionais e internacionais. Os rankings estão certos em não considerar esses fatores, porque eles devem medir o conteúdo que está sendo ensinado em uma determinada etapa de ensino, independente da localidade da escola. Se eles considerassem o fator social, esse serviria apenas de muleta para justificar o fato de que em regiões mais pobres os alunos aprendem menos e não há nada a ser feito. Com os rankings isentos dessas peculiaridades, é possível saber onde está o problema e minimizar fatores externos ao ensino dos conteúdos com uma política educacional específica. Onde há déficit econômico, é preciso haver superávit educacional.”

 

9 -”Divulgar a nota do Ideb na porta das escolas estigmatizaria alunos” (mais…)

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Amazon lança biblioteca digital sem cinco maiores editoras americanas

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Alexandra Alter, na Folha de S.Paulo [ via The New York Times]

Depois de meses de especulação, na sexta-feira (18) a Amazon lançou um serviço digital de assinaturas que oferece acesso ilimitado a livros eletrônicos e audiobooks digitais por US$ 9,99 ao mês.

O serviço, Kindle Unlimited, oferece uma abordagem em estilo Netflix que permite acesso a mais de 600 mil livros eletrônicos, entre os quais séries de sucesso como “Jogos Vorazes” e “Diário de um Banana”, obras de não ficção como “Flash Boys”, do jornalista Michael Lewis, clássicos e ficção literária.

Até o momento, nenhuma das cinco grandes editoras dos Estados Unidos está oferecendo seus livros.

A HarperCollins, a Hachette e a Simon & Schuster, por exemplo, estão fora.

A Penguin Random House e a Macmillan se recusaram a comentar, mas uma busca na Amazon sugere que os livros dessas editoras tampouco estão disponíveis.

Como resultado, alguns títulos populares eram notáveis pela ausência quando o serviço começou a operar.

E como muitos escritores oferecem livros por mais de uma editora, os assinantes podem descobrir que têm acesso a certos livros de Michael Chabon e Margaret Atwood, mas não a outros.

A introdução do serviço surge em um momento de crescente tensão no relacionamento entre a Amazon e as grandes editoras.

O grupo de varejo on-line está sofrendo escrutínio cada vez mais intenso por seu domínio do mercado de livros eletrônicos e pelas táticas duras que usa nas negociações com as editoras.

A Amazon e a Hachette estão envolvidas em um duradouro e público impasse sobre os termos de venda de livros eletrônicos da editora, e a situação não parece próxima de uma solução.

Entre as editoras que estão oferecendo títulos pela assinatura estão a Scholastic, da série “Jogos Vorazes”, e a Houghton Mifflin Harcourt.

As notícias sobre o Kindle Unlimited começaram a surgir semanas antes de seu lançamento, quando a Amazon postou acidentalmente um vídeo promocional sobre o modelo de assinatura. O vídeo foi retirado do site, mas não antes que blogs de tecnologia comentassem sobre ele.

Ao oferecer o serviço, a Amazon está ingressando em um mercado cada vez mais lotado. Concorrerá com empresas iniciantes de distribuição digital de livros que oferecem serviços semelhantes, como a Scribd e a Oyster.

A Scribd conta com cerca de 400 mil títulos, e cobra US$ 8,99 ao mês. A Oyster tem mais de 500 mil títulos e oferece acesso ilimitado aos leitores por US$ 9,95 ao mês.

Com modelos de preço semelhante, a concorrência entre os serviços de livros eletrônicos por assinatura pode ser decidida com base no conteúdo e autores disponíveis.

O serviço da Scribd inclui livros de mais de 900 editoras, entre as quais Simon & Schuster e HarperCollins.

A Oyster oferece títulos de seis das dez maiores editoras norte-americanas.

Ainda assim, a Amazon ingressa no segmento com uma imensa vantagem: seu predomínio na publicação de livros eletrônicos e sua vasta biblioteca de audiobooks, que ela está integrando ao seu serviço por assinatura.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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Infrator aprovado na UnB celebra vida nova: ‘só pisei lá para vender droga’

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Ele vai cursar educação física e chama última apreensão de ‘mal-entendido’.
Jovem já tinha ensino médio e estudava enquanto colegas assistiam à TV.

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Raquel Morais, G1

Seis meses cumprindo medida socioeducativa em centros do Distrito Federal fizeram o jovem Matheus [nome fictício], 18 anos, tomar uma decisão importante: esquecer a “vida de drogas e roubos” e estudar. Mesmo já tendo concluído o ensino médio, ele conseguiu autorização da direção da Unidade de Internação do Recanto das Emas para frequentar a escola como ouvinte e levar apostilas, caderno e caneta para o quarto. O resultado veio em pouco tempo. Quase cem dias depois, o nome dele estampava a lista de aprovados em educação física na Universidade de Brasília.

“Só fui à UnB uma vez, para vender drogas e roubar”, contou ao G1. “Eu acho que vai ser uma experiência diferente. Todo mundo fala que na universidade surgem muitas oportunidades, que no segundo semestre a gente pode estagiar. Agora, vou à UnB como uma pessoa normal.”

Matheus diz enxergar na graduação uma oportunidade de mudança. Ele foi apreendido em outubro do ano passado, a dez dias de completar a maioridade, em um episódio que classifica como um “mal-entendido”. O jovem usava uma camiseta vermelha e óculos escuros – mesma descrição dada pelas 12 vítimas do suspeito de três assaltos em série ocorridos em Brasília.

Apesar de não ter sido reconhecido por ninguém, o rapaz acredita que permaneceu detido por ter um “histórico ruim”. Então funcionário de uma empresa que funciona perto de casa, ele estava em semiliberdade por atos infracionais análogos a tráfico de drogas, roubos, lesão corporal e porte ilegal de arma.

“Eu achava que comemoraria meu aniversário na beira do Lago [Paranoá], mas não foi o que aconteceu. De alguma forma, bateu um sentimento de revolta. Eu estava sendo culpado injustamente, por algo que não fiz. Mas na minha cabeça teve espaço para tudo, inclusive que, querendo ou não, eu procurei. Achava que eu estava pagando pelo que fiz e ninguém havia descoberto”, disse.

O jovem passou pelo Centro Socioeducativo Amigoniano (Cesami) e pela Unidade de Internação do Plano Piloto. Lá, ficou até o final de março, quando o espaço foi desativado e demolido. Desde então, Matheus cumpre a medida socioeducativa no Recanto das Emas.

Entediado com a rotina de apenas acordar, almoçar, tomar banho de sol, jantar e ver televisão com os cinco companheiros de quarto, o rapaz pediu para acompanhar as aulas do ensino médio como ouvinte. As três horas por dia em sala de aula não lhe pareceram suficientes, e o garoto decidiu aproveitar o tempo em que os colegas assistiam a novela para ler as apostilas e fazer novas anotações.

“Não é que eu não gostasse de ver TV também, mas aquilo cansava. Era legal, mas não ia para lugar nenhum. Preferia estudar. Eu nem sei dizer como que eu me concentrava, mas dava certo. Eram mais duas ou três horas por dia no quarto”, afirma o jovem. “Eu gosto muito de matemática e física.”

Matheus recebeu o apoio dos funcionários da unidade – um dos agentes levava canetas de casa para o garoto todas as vezes que um colega confiscava, duvidando que ele realmente estivesse estudando – e dos pais. A mãe, Laura [nome fictício], lembra que chegava a comer dentro do carro ou na fila para nunca deixá-lo sozinho nos dias de visita. O orgulho era grande quando o garoto mostrava as redações que treinava na escola.

“Uma vez ele me disse: ‘mãe, a senhora não desiste de mim? A senhora passa vergonha toda vez’. E, por mais que eu ficasse chateada de vê-lo, com todas as oportunidades que teve, fazendo o que fazia, eu nunca desisti. Eu nunca desistiria”, diz a Laura [nome fictício]. “O Matheus é um menino inteligente, começou a ler com 4 anos. Estudo na nossa casa sempre foi prioridade.”

Mas, apesar da dedicação, o rapaz não cogitava prestar vestibular. A inscrição foi feita pelo pai, Afonso [nome fictício], e contra a vontade do filho. O homem contratou um advogado para pedir à Justiça autorização para que o garoto participasse dos dois dias de seleção. Para surpresa dele, o pedido foi negado, com a alegação de que Matheus tinha pouco tempo de internação. A família entrou então com uma liminar e conseguiu que ele fizesse a prova.

Afonso lembra que deu plantão no site do Cespe para ver o resultado. Às 17h, ele encontrou o nome do filho. “Eu gritei à caçula, gritei que o Matheus havia passado. A gente quis dar a notícia no dia, mas não pôde. Eu falava para ele da importância dos estudos, mas ele não acreditava nele mesmo. Foi difícil convencê-lo, ele achava que não valia a pena tentar. Acho que fiquei mais ansioso do que ele.”

O resultado animou os 40 colegas de módulo de Matheus, que também decidiram estudar. Até então, o rapaz já era uma inspiração para o grupo e, por causa da facilidade com português e da boa caligrafia, era o “escriba” da turma e escrevia cartas a pedido dos meninos. Além disso, dava dicas de estudos.

A aprovação do garoto no vestibular fez com que os colegas passassem a pedir ajuda para conquistar “novos sonhos”. Parte da equipe multidisciplinar que atende o módulo, a psicóloga Izabela Borges Mendes afirma que o jovem foi um precursor e mudou a forma como o grupo encarava os estudos.

“Ele plantou a sementinha nos outros. Agora, é um tal de ‘dona Izabela, a senhora consegue uma apostila para mim?’, ‘a senhora liga para a minha mãe para lembrá-la que quero fazer aquele concurso?’, ‘eu quero estudar’. Estamos felizes por ele e felizes pelo bem que inspirou nos outros. O Matheus amadureceu bastante aqui”, diz.

Por causa da força de vontade de Matheus de estudar e do resultado obtido em um curto prazo de tempo, a equipe multidisciplinar decidiu enviar um relatório à Justiça pedindo a liberação dele das medidas socioeducativas. A solicitação foi reforçada pelo advogado da família.

“A gente considera que é o melhor para ele agora. Seria constrangedor e desnecessário que ele frequentasse a UnB escoltado, tendo que dar explicações sobre isso. No relatório, colocamos que ele cometeu um ato infracional de menor potencial ofensivo e cumpriu a medida por um tempo bom – são quase dez meses. E ele tem uma família presente e estruturada”, explica a psicóloga.

Futuro

Os planos do jovem transcendem as aulas na UnB, que começam no dia 11 de agosto. Matheus diz que pretende cursar arquitetura nos próximos anos e que também quer fazer concurso público. “Imagina que algum dia eu posso voltar para cá, mas como professor de educação física, ensinando a esse pessoal que vale a pena estudar”, sonha.

A ideia dá orgulho à família, que espera inaugurar uma fase nova junto ao garoto. O casal veio para o Distrito Federal com os filhos em 2010 e afirma que aproveitou pouco a convivência na nova cidade. Os problemas de Matheus com “más companhias e drogas” começaram no ano seguinte, quando ele tinha 14 anos.

“Passei por uma fase muito ruim. Sentia muita raiva, mas nem sei exatamente de quê”, conta o rapaz. “Lembro de um dia que minha mãe achou um pedaço de maconha e quis saber de quem era. Eu neguei. Só que isso é passado. Eu sei que não vou esquecer, mas quero pegar o que aprendi aqui e levar para frente. Aprendi a esperar, a obedecer, me liguei à minha família e a comecei a confiar em Deus e em mim.”

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estigmatizado por ter cumprido medida socioeducativa, não esconde preferir que a “fama” fique apenas entre as pessoas próximas.

“Acho que com isso ele viu que droga é uma droga mesmo”, diz. “Agora quero o que é normal. Meu sonho é poder levar toda a minha família para almoçar fora.”

Internação

A unidade em que Matheus cumpre medida socioeducativa funciona no antigo Ciago, no Recanto das Emas, tem 280 jovens. No local, os rapazes frequentam a escola e participam de oficinas, como panificação e mecânica.

De acordo com a psicóloga Izabela Borges Mendes, 70% dos garotos cursaram apenas até a 5ª ou 6ª série. “O caso do Matheus, de já chegar aqui com ensino médio completo, é incomum”, afirma.

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Juiz de MG determina apreensão de celulares usados sem permissão na escola

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istockphotomark-roseCarlos Eduardo Cherem, no UOL

Uma determinação do juiz de Ouro Fino (MG), município distante 445 Km de Belo Horizonte, João Cláudio Teodoro, no início do mês proibiu o uso de aparelhos celulares nas salas de aula da Escola Estadual Francisco Ribeiro da Fonseca no município, com 678 alunos do ensino médio, com idades variando entre 15 e 18 anos, nos turnos da manhã e da noite.

A medida é baseada numa lei estadual de 2008 que disciplina o uso de telefone celular em salas de aula, teatros, cinemas e igrejas em Minas Gerais. Pelo dispositivo, “fica proibida a conversação em telefone celular e o uso de dispositivo sonoro do aparelho em salas de aula, teatros, cinemas e igrejas”.

O que gerou a determinação foi o uso abusivo dos aparelhos, sobretudo, durante as aulas. O objetivo da iniciativa, de acordo com a escola e a Justiça, é melhorar o desempenho dos alunos nos estudos.

Pela decisão, os professores podem apreender o celular do aluno e a escola entrega os aparelhos para a Vara da Infância e da Juventude de Ouro Fino. Desde o início de julho, quando entrou em vigor a determinação, 20 estudantes tiveram de buscar, com os pais ou representante legal, seus celulares.

“Como em toda escola do país, ficou uma coisa insuportável. O professor perde tempo, a atenção dos alunos é desviada. Eles estavam usando os celulares com fones (de ouvido) para ouvir música, trocar mensagens em redes sociais e até mesmo conversar”, afirma a diretora da escola Maria Teresa Cunha.

“Os professores me entregavam os aparelhos e eu não sabia o que fazer. Não podia ficar com eles, tinha de devolver. Assim, procurei o juiz para a lei ser aplicada”, afirma a diretora. Ela estima que cerca de 80% dos 678 estudantes da escola tenham celulares. O restante, avalia, é composto de estudantes que moram na zona rural, locais onde comumente os pais não permitem (ou não têm condições financeiras para) que os filhos tenham o aparelho.

A diretora explica, porém, que a iniciativa foi precedida de ampla discussão com os alunos e seus pais, além dos professores e do juiz. “Tivemos muitas reuniões e chegamos à conclusão de que deveríamos usar a legislação proibindo. Cópia dela está afixada no quadro de avisos da escola”.

O juiz João Cláudio Teodoro tem a mesma opinião. “Resolvemos que seria uma medida importante cumprir essa lei dentro de sala de aula. O uso dos celulares estava prejudicando o ensino e a qualidade das aulas. Dispersando os alunos”, disse o juiz.

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Romance de Ariano Suassuna vai virar minissérie na TV

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Publicado no Boa Informação [via Diário de Pernambuco]

O reino fantástico de Ariano Suassuna ganhará novamente as telas com os contornos mágicos de Luiz Fernando Carvalho. O diretor, atualmente à frente de Meu pedacinho de chão, novela da TV Globo, adaptará A história de amor de Fernando e Isaura para uma minissérie televisiva.

O projeto foi divulgado por ele na quinta-feira (24), durante o velório do escritor, no Palácio do Campo das Princesas. Ele chegou de madrugada e voltou para o Rio de Janeiro, onde mora, no mesmo dia. A versão audiovisual ainda está em processo de roteirização e não tem data definida para estreia, mas pode começar a ser rodada em 2015.

Aluno do mestre Ariano. Assim Luiz Fernando Carvalho se definiu. “Eu adaptei os extremos de Ariano: A farsa da boa preguiça (1995), Uma mulher vestida de sol (1994) e também A pedra do reino (2007)”, comparou o diretor, sobre o espetáculo cômico escrito em 1964, a tragédia teatral de 1947 e o romance de 700 páginas sobre o grupo que fez ressurgir Dom Sebastião em São José do Belmonte, no Sertão pernambucano, publicado em 1971.

O”pequeno e lindo” romance, como explicou Carvalho a trama de A história de amor de Fernando e Isaura, escrito em 1956. Baseado na paixão lendária entre o cavaleiro Tristão e a princesa Isolda, o livro é ambientado em Alagoas, com muitas cenas à beira do mar.

Noveleiro declarado – a família até dizia que ele não assistia à televisão, mas brigava com ela -, Ariano não poderá participar ativamente, como fez das outras vezes, do processo de produção de Carvalho, em cujo trabalho tanto confiou. Ele ajudou na elaboração do roteiro e visitou o set de filmagens de A pedra do reino, com os pernambucanos Irandhir Santos, Prazeres Barbosa, Germano Haiut e Hilda Torres no elenco. A minissérie foi gravada em Taperoá, no Sertão da Paraíba, para onde Ariano se mudou após o assassinato do pai, quando tinha três anos.

Apesar da proximidade com os bastidores, fazia questão de conferir o resultado apenas durante a transmissão na televisão ou no cinema. “Adorei a adaptação de Os Maias para a TV, que Luiz Fernando Carvalho dirigiu. Fiquei com ciúmes do Eça de Queiroz. Gosto muito do Eça, mas gosto mais de mim”, brincou, pouco antes da estreia de A pedra do reino.

Era brincadeira, claro. Ele já havia inspirado duas séries de Carvalho, Os Trapalhões no Auto da Compadecida e, em 1999, os quatro capítulos dirigidos por Guel Arraes baseados no Auto da Compadecida exibidos pela TV Globo multiplicaram o alcance da peça. As peripécias de Chicó e João Grilo, interpretados por Matheus Nachtergaele e Selton Mello, cravaram o nome de Ariano Suassuna não só na literatura brasileira, mas na produção audiovisual.

ENTREVISTA // Luiz Fernando Carvalho

Ariano Suassuna era muito criterioso com relação aos que iriam adaptar os textos dele. Como foi a relação de vocês?

Estar junto de Ariano era sempre uma grande viagem de aprendizagem. É um prazer imenso e ao mesmo tempo bem dificil de representar o Brasil sem Ariano Suassuna, que vai ser lembrado por muitos anos. Estar ao lado dele era enriquecedor, porque se em um determinado momento eu perguntava a diferenca entre jagunço e capanga, ele vinha me dar uma aula completa, sobre geografia, sobre música sertaneja, sobre geologia, sobre canto.

Como foi o processo de adaptação do texto para a linguagem audiovisual?

No processo de criação, parecíamos duas crianças. Nós ficávamos na casa de Ariano (no Poço da Panela, no Recife), sentados no chão, recortando xerox dos livros, escolhendo as frases, em um processo de colagem, mesmo. Era assim que surgiam os roteiros.

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