Coletivo usa literatura de cordel como ferramenta de combate ao preconceito sexual.

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Projeto Lampioa reuniu mais de 40 artistas, escritores e ilustradores em torno da criação de folhetos, que podem ser acessados pela internet

Projeto Lampioa/divulgação

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Fellipe Torres, no Diário de Pernambuco

Quando o escritor pernambucano Liêdo Maranhão lançou a primeira edição de Classificação popular da literatura de cordel, em 1976, machismo e preconceito eram elementos comuns na cartilha da maioria dos cordelistas. Sem constrangimento, eles próprios indicavam tais características ao pesquisador, grande conhecedor desse universo. “Enquanto todos nós conhecemos os folhetos como um bando de eruditos de gabinete, Liêdo vive e convive com todo o seu estranho, pobre, fascinante, mágico e duro mundo”, apontava, no prefácio, Ariano Suassuna.

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Uma das categorias identificadas no livro – reeditado ano passado, pela Cepe – é a dos “folhetos de cachorrada ou descaração”, da qual fazem parte O rapaz que casou-se com um cabeludo pensando ser uma moça, de Minelvino Francisco Silva, e A mulher que casou-se com outra em Casa Amarela, de H. Rufino. Este último narra a união entre mulheres como algo obsceno, de causar espanto: “Hoje até homem dá luz/ Rapaz se pinta à carmim/ Uma moça esposa outra,/Fica outra achando ruim/Irmã pare de irmão/Nessa grande corrupção/O mundo vai levar fim”.

H. Rufino morreu na década de 1960. Ariano e Liêdo, este ano. Não viveram o suficiente para ver o formato e a estética do cordel serem usados para combater a homofobia de maneira incisiva. Não viram o “cabra macho” Lampião se tornar fêmea para dar nome a um projeto de celebração da diversidade sexual. Organizado pelo jornalista Bruno Castro e pelo designer João Zambom, o projeto Lampioa reune mais de 40 artistas, escritores e ilustradores em torno da criação de quatro fanzines com cara de cordel.

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“São poesias, palavras rimadas, imagens gravadas e o desejo de unir novos olhares e diferentes formas de expressão sobre gêneros e sexualidade. Os fanzines colecionáveis são produzidos sob a dura e lúdica estética cordelista, originados a partir da fantasia crítica e criativa de artistas da nossa geração”, define Zambom. Os folhetos podem ser acessados em www.lampioa.com.

Cearense radicado no Recife, o poeta Allan Sales, autor de mais de 200 cordéis, considera natural a resistência de algumas visões preconceituosas de mundo. “É um espaço literário totalmente machista, pesado, mesmo, fundamentado na exaltação da figura masculina. Também vejo traços de homofobia, mas é normal, pois reflete o imaginário popular”. A temática preferida do escritor é a política social, com crítica à corrupção e ao populismo.

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Editor do site Interpoética, o pernambucano Sennor Ramos acredita em uma mudança gradual no conteúdo dos folhetos tradicionais. Para ele, a literatura de cordel já foi muito mais machista e preconceituosa. “Hoje em dia está mais consciente, embora fale sobre os mesmos temas. Ainda é comum encontrar cordelista homofóbico. Quem costuma fazer diferente são as mulheres escritoras”.
Já o cantador Clécio Rimas, autor de cordéis como Sustentabilidade, destaca o preconceito sofrido pelo próprio cordel, geralmente classificado como literatura menor, por tratar de assuntos populares e utilizar impressão de baixa qualidade. “Há preconceito por toda a parte. Cabe às pessoas mudar isso. Usar o cordel para combater a homofobia é algo muito válido, porque cada ser humano precisa ter liberdade de escolhas. Vale mais o amor”.

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TRECHOS>>>>>>>>>>>>>
ONTEM >>>>>
“Maria da Penha Fernandes
E Maria Madalena
Foram as protagonistas
De tão hedionda cena!
Sendo o marido a primeira
E a segunda a companheira,
Oh! Que para obscena!…
(Trecho de A mulher que casou-se com outra em Casa Amarela, de H. Rufino)

HOJE>>>>>
Era menino ou menina
Que mexia com seu coração
Era menino ou menino
Que dava mais tesão?
(…)
Ela fez de tudo um pouco
Com menina e com rapaz
Se proibir parecia bobo
Ela queria sempre mais

Escolher porque mandaram
Não mostrava sua razão
Ela queria liberdade
Para andar na contramão
(Trecho de Lampioa, vários autores)

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Prêmio Paraná de Literatura revela vencedores

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Vanessa Barbara foi uma das premiadas no concurso que reconhece trabalhos inéditos nas categorias romance, poesia e conto

O romance "Operação Impensável" foi o melhor entre os 180 inscritos

O romance “Operação Impensável” foi o melhor entre os 180 inscritos

Maria Fernanda Rodrigues, em O Estado de S. Paulo

O Prêmio Paraná de Literatura anuncia nesta segunda-feira, dia 24, os vencedores de sua terceira edição. Este ano, concorreram 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo. Operação Impensável, de Vanessa Barbara, cronista do Caderno 2 e do New York Times, ganhou na categoria romance. Sônia Barros, escritora conhecida por suas obras infantojuvenis, venceu em poesia com Fios. E a professora de inglês Adriana Griner ficou em primeiro lugar em contos com No Início. Elas ganharam R$ 40 mil cada uma e terão o livro editado pela Biblioteca Pública do Paraná, que promove o lançamento no dia 12 de dezembro.

Autora de O Livro Amarelo do Terminal (Prêmio Jabuti) e de Noites de Alface, entre outras obras, Vanessa diz que sua intenção foi, desde o início, mandar o original do romance em que estava trabalhando para o prêmio – porque com um objetivo e prazo ela se motivaria a tocar o projeto e por causa da valor dele. “Um prêmio em dinheiro desses é algo muito raro no Brasil. É uma quantia improvável de se obter com a simples publicação de um livro, mesmo que ele obtenha reconhecimento. É um incentivo tremendo para a produção literária.” Um concurso como esse, para originais não publicados, ela diz, é importante para descobrir novos autores que ainda não tiveram uma chance e também para que os já publicados submetam seus trabalhos por outros caminhos.

Vanessa emprestou o título de seu romance do plano de invasão cogitado pelos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial – período em que a protagonista, uma historiadora, é especialista. O livro conta a história de amor entre ela e um programador de computadores que esconde segredos.

"No Início" concorreu com outros 181 projetos e foi considerado o melhor livro de contos

“No Início” concorreu com outros 181 projetos e foi considerado o melhor livro de contos

A carioca Adriana Griner nunca publicou um livro. No Início, sua estreia premiada, é, em suas palavras, uma leitura feminina do primeiro livro do Antigo Testamento. “Parece algo meio ambicioso, e talvez prepotente, tentar fazer isso. Mas eu apenas pego algumas histórias e reconto, dando voz a personagens que não têm voz. Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do Mimesis, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia”, explica.

Poesia foi a categoria mais concorrida, com 269 inscrições; "Fios" foi o melhor livro

Poesia foi a categoria mais concorrida, com 269 inscrições; “Fios” foi o melhor livro

Sônia Barros, autora de 17 volumes infantojuvenis – muitos deles em verso ou prosa poética – e de um de poesia (Mezzo Voo), para adultos, aceitou a sugestão do poeta Donizete Galvão, morto este ano, e inscreveu Fios no prêmio antes de procurar uma editora. Foi ele também que a ajudou a ver a ligação entre os poemas. “O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando fios aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte. Enfim, os caminhos internos e externos da existência humana.”

Confira trechos das obras premiadas aqui.

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Jovem com Síndrome de Down e sua mãe passam em vestibular para gastronomia

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Companheiras: mãe e filha estudavam juntas (foto: Arquivo Pessoal)

Companheiras: mãe e filha estudavam juntas (foto: Arquivo Pessoal)

Daniel Leite, no UOL

Foi como juntar o útil ao agradável: Jacqueline Rotelli, 47, será caloura no curso de gastronomia junto com a filha Tatiane, 19, no primeiro semestre de 2015.

Como a família tem negócios no ramo, a capacitação no curso tecnólogo, de dois anos, será bem-vinda. Ao mesmo tempo, a mãe ficará mais sossegada — além de feliz — em acompanhar a filha que tem Síndrome de Down nas aulas.

Moradoras de Andradas, cidade mineira que fica cerca de 485 km da capital Belo Horizonte, mãe e filha devem percorrer diariamente os 25km entre sua casa e a faculdade, em Espírito Santo do Pinhal, que fica a cerca de 190 km de São Paulo. A nova rotina anima a dupla.

“Quero conhecer novas pessoas, aprender muito e ser desafiada”, diz Tatiane. De desafios, Tatiane entende: sempre estudou em escolas regulares e superou os obstáculos a sua inclusão, como o preconceito ou falta de preparo dos professores.

A trajetória sempre teve a participação da família. Quando os Rotelli se mudaram para um sítio na zona rural de Andradas, Jacqueline auxiliou Tatiane nos estudos por mais de quatro anos, sendo sua professora.

O ensino médio foi feito na cidade. E, logo mais, Tatiane participará da festa de formatura, uma “noite mágica”, segundo ela, pela qual espera com ansiedade.

Barreiras

Jacqueline Rotelli (à dir.) e sua filha Tatiane passaram em gastronomia

Jacqueline Rotelli (à dir.) e sua filha Tatiane passaram em gastronomia

As dificuldades se estenderam até no momento de inscrição para os vestibulares. Jacqueline buscou informações com as faculdades e universidades. Segundo ela, a maioria não sabia explicar nem como deveria ser preenchido o campo que identifica deficiências dos candidatos.

“O que nos interessava é que minha filha realmente se sentisse estudante e aluna como todos, e que enfrentasse as mesmas dificuldades no vestibular”, afirma Jacqueline. A Unipinhal, instituição em que as duas farão o curso de gastronomia, ofereceu apoio pedagógico à Tatiane e a garota fez a mesma prova que os outros concorrentes.

Na visão da pró-reitora de graduação da Unipinhal, onde as duas estudarão, a entrada de Tatiane pode significar melhorias para a instituição. “Para nós é muito importante um projeto de inclusão. Temos um núcleo de apoio pedagógico, e a Tatiane pode até nos dar parâmetros para rever processos pedagógicos nossos”, explica Valéria Torres.

Calouras

Tatiane parece estar mais tranquila que a mãe com a nova fase: ela já pesquisa sobre gastronomia e anota tudo em seus cadernos. A jovem também já tem planos de abrir um restaurante com buffet para realizar casamentos, mas promete seguir ajudando os pais na cachaçaria e chocolateria da família.

Já a mãe admite o nervosismo. “Eu estou apavorada mesmo! Não sei como vai ser me tornar aluna junto com minha filha, se conseguirei acompanhá-la, pois ela está pronta para essa fase e eu já passei desse tempo!”, diz Jacqueline.

Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), no Brasil há 29.034 alunos com algum tipo de deficiência matriculados em cursos de graduação de faculdades públicas (9.406) e privadas (19.628). Desses, 566 possuem deficiência intelectual.

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Wesley Peres resenha seu conto predileto

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Wesley Peres resenha seu conto predileto: ‘A menor mulher do mundo’, de Clarice Lispector

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Wesley-PB

A menor mulher do mundo, lido com certa pressa, parece ser somente um conto sobre a descoberta na África, por um explorador, da menor mulher do mundo, consistida de poucos e inespecíficos centímetros. No entanto — parafraseando um certo Proust — as coisas só parecem ser elas mesmas e não outras pela imobilidade do nosso pensamento. Mobilizando-o, ele, o pensamento, faremos uma grande descoberta: todos os grandes textos literários são palimpestos móveis, padecem de várias camadas que se movem em níveis, podendo uma camada ser a mais superficial, num instante ou sob um certo olhar, sendo a mais profunda e rasurada, num outro instante ou sob um incerto certo olhar. Então que, numa das camadas móveis, dessa peculiar matéria geológica, encontramos A menor mulher do mundo como um pequeno e denso tratado acerca do amor — e o seu horror, que se perdoe a rima, mas, no caso, não há palavra mais precisa.

No Congo Central, o explorador Marcel Petre descobre os menores pigmeus do mundo e, “como uma caixa dentre de uma caixa, dentro de uma caixa”, ele se depara com o menor do menor, a menor mulher do mundo, resultado da “necessidade [que] a Natureza tem de exceder a si própria”.

Veremos, conforme percorremos a textura do conto, que o excesso atribuído à Natureza é apresentado como equivalente à potência violenta do amor: a Natureza, no universo do conto, é criadora de matérias que violentam pela estranheza, enquanto o amor se confunde com fenômenos humanos também estranhos a certa concepção unidimensional do amor (sempre do lado do bem); o amor, aqui, está num espaço intermediário entre a ternura e a posse que, se impossível, é substituída pela destruição. Posse e destruição estão no registro de uma crueldade amorosa, impulsionada pela ternura. Veremos ainda que, a mínima mulher, inédita matéria aos olhos humanos (pelo menos àqueles exteriores à floresta do Congo), será o “objeto-causa” do despertar da multidimensionalidade do amor.

O explorador, diante de “uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar”, diante da “coisa humana menor que existe”, diante do inominável, diante disso o explorador é compelido à inventar uma definição, menos do que isso, um nome: “Você é a pequena flor”. A violência do amor começa a se delinear pela nomeação, nomear já é um tanto devorar o outro, e amor já se desenha como impacto de algo inominável que habita o outro — Deleuze afirma que amamos o ponto de loucura do outro. Diante de tal impacto, a reação do nomear, a reação violenta de conferir margens a algo que se configura fora delas.

A narrativa sofre um corte, e passamos a acompanhar o impacto da contingência Pequena Flor sobre os espectadores de noticiários ao se haverem com a notícia da menor mulher do mundo.

Num apartamento, “uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mulher africana que — sendo melhor prevenir do que remediar — jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho. A senhora passou o dia perturbada, dir-se-ia tomada pela saudade”, saudade do que nunca possuiu. Assim, notamos que, no amor segundo C.L., nucleado pela perversa ternura, o ser amado corre o risco de se converter em objeto apequenado e devorado.

O ponto mais fundamental dessa teoria do amor como horror, está no parágrafo em que uma certa mãe, recorda uma história que ouviu da cozinheira sobre o tempo do orfanato. Uma das órfãs falece, as outras guardam o cadáver no armário até a freira sair. Então, elas “brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a”, tudo isso porque “a maternidade já [estava] pulsando no coração das órfãs”. Devemos sublinhar que, a modalidade de amor tida como a mais intensa (ao menos no senso comum, que não abrange poucos), a do amor materno, justo por ser o amor na sua mais alta voltagem, apresenta-se no conto como o mais cruel dos amores.

A partir dessa história contada pela cozinheira, a mãe “considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade do nosso desejo de ser feliz […] E o número de vezes que mataremos por amor”. A seguir, ela olha para o filho como se ele fosse um perigoso estranho, pois ela havia engendrado um ser que, como ela, como todos os humanos, é um ser apto à felicidade do amor, que se confunde com a crueldade e com malignos desejos endereçados ao outro, a quem mataremos sabe-se lá quantas vezes, por amor.

Até aqui, temos uma investigação do amor como crueldade sempre do ponto de vista daquele que ama — do amador, digamos. Mais ao final do conto, encontramos dentro de uma cápsula de linguagem, a condensação do que se passa do lado da Pequena Flor, metáfora de quem está na posição de ser amado: “Não ser devorada é o sentimento mais perfeito”.

Não ser devorado, eis o amor em sua perfeição, em seu ideal — e ideal se trata do inalcançável — abraçado pelo senso comum (que não inclui poucas gentes), eis o melhor que se pode esperar (não alcançar) do amor segundo C.L., apresentado nesse pequeno e denso tratado sobre o amor, disfarçado sob a máscara da história de um explorador no coração da África, que descobre menor mulher do mundo.

 

Trecho do conto ‘A menor mulher do mundo’, de Clarice Lispector

Há um velho equívoco sobre a palavra amor, e, se muitos filhos nascem desse equívoco, tantos outros perderam o único instante de nascer apenas por causa de uma susceptibilidade que exige que seja de mim, de mim!, que se goste e não do meu dinheiro. Mas na umidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente.

 

Trecho do conto ‘Monte Castelo’, de Wesley Peres.

Quando se tem uma história trágica. Bem, então se tem uma história. Quanto ao valor de se ter ou não uma história, isso é outra coisa. H. se ocupa desses pensamentos que o ocupam, que ocupam seu tempo (ele mesmo transcorrendo, pulsando, aproximando-se da morte). H. se ocupa desses pensamentos enquanto faz uma coisa tão prenhe de enquanto: almoçar. Com uma delicadeza que não possui, maneja os talheres a fim de produzir distância entre o osso e a carne de frango.

 

Wesley Peres é autor dos romances As pequenas mortes (Rocco, 2013) e Casa entre vértebras (Record, 2007), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2008 e indicado ao Portugal Telecom 2008. Publicou ainda os seguintes livros de poesia: Palimpsestos (Editora da UFG, 2007) e Rio revoando (USP\Com-Arte 2003). O conto ‘Monte Castelo’ integra a coletânea Como se não houvesse amanhã.

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A universidade burra

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Alguém até pode dar aulas numa faculdade só pela experiência. Mas incomoda quem está no “esquema”

caderno

Walcyr Carrasco, na Época

Falo por experiência própria: a universidade brasileira é burra. Não me refiro só às públicas. As particulares também. Sou da área de comunicações e artes, faço talvez uma ressalva quanto às de exatas. Mas, como são regidas pelas mesmas regras e pelo enorme contingente de acadêmicos, em sua maioria dedicados a escrever teses que ninguém lê, arrisco dizer que não há muita diferença.

Tomei consciência disso há alguns anos, ao ler aqui e ali que este ou aquele escritor americano fora professor residente numa universidade, com cursos de escrita criativa. Nem todo escritor americano é best-seller. Muitos autores bons gramam com tiragens pequenas. Há essa válvula de escape, dentro do sistema universitário, que atrai profissionais do mercado para compartilhar suas experiências. Inicialmente, como sempre a gente faz, culpei o governo brasileiro, cujas leis provavelmente impediriam essa participação. Surpreso, por meio de conversas com docentes e diretores de universidades, descobri que a possibilidade existe. Alguém pode dar aulas numa universidade apenas por sua experiência. Chegaram a tentar, no Rio de Janeiro, com um ator famoso. Mas ouvi:

– Essas pessoas não se adaptam ao esquema.

Exato. Incomodam. O sistema universitário brasileiro é rançoso. As pessoas só ascendem por meio de trabalhos acadêmicos. Os outros incomodam.

Fiz jornalismo na Universidade de São Paulo. Trabalhei nos mais importantes veículos da imprensa escrita deste país. Fui diretor de redação. Jamais fui convidado para dar um curso, ou workshop, em escolas de jornalismo. Também fiz carreira na televisão. Sou autor de novelas. Quem me conhece sabe que, graças a Deus, tenho emprego numa empresa que admiro, a Globo. E que minhas novelas fizeram sucesso aqui no Brasil e também em muitos países do mundo. Alguém me chamou para um curso de roteiro?

Óbvio, não estou procurando emprego.

Me surpreende esse desinteresse pelo que eu poderia oferecer. Só a própria TV Globo, por meio de seu programa de contato com as universidades, manifestou interesse. Dei uma palestra numa faculdade do Rio de Janeiro, particular. Não houve um minuto em que algum aluno não entrasse ou saísse. Em nenhum momento, um professor aconselhou a parar com aquele ir e vir. Perdi a concentração.

Anos depois, um amigo e aluno me convidou para uma palestra em sua classe de teatro, numa universidade particular de São Paulo. Na sala, percebi que uma aluna estava com a filha de 4 anos. Primeiro, avisei que, se alguém saísse, não poderia voltar. Depois, pedi a saída da mãe com a criança, pois a discussão de algum tema poderia ser inadequada. A professora depois me agradeceu, porque a criança atrapalhava as aulas, que, em teatro, muitas vezes exigem leituras despudoradas. Mas não sabia como agir.

Há um ano, uma grande faculdade particular, que cobra altas mensalidades, me convidou para dar uma palestra num festival de cinema. Perguntei quanto pagariam. A resposta foi que não havia verba para isso. Já dei palestras para alunos de escolas públicas sem pensar em grana. Certa vez, fui a um bairro de periferia, na divisa de São Paulo, onde o portão de ferro era trancado para evitar a violência das ruas. Jamais cobraria nada de uma população carente, desde que tenha agenda. Mas de uma faculdade caríssima? Expliquei: o cachê era uma questão de respeito. Desistiram de mim.

Agora, vamos ver: quem são os mestres das grandes escolas de comunicação? Jornalistas que trabalharam em algum lugar há 20, 30 anos. Roteiristas fora do mercado. Gente que, reconheço, tem seu valor. Conhecem teoria, têm tempo para estudos aprofundados. E me desculpem as raríssimas exceções, que não conheço. Mas não pode ser só isso.

A universidade se distancia da realidade do mercado de trabalho. Muitos conhecidos da área e eu sentimos que seria bom compartilhar nossa experiência, não pela grana, mas para exercer uma função social. Trocar. Formar. Não pretendo fazer uma tese, mas meu trabalho já não me habilita a dar aulas de roteiro? Se ambicionasse uma cátedra, teria de seguir todos os passos da burocracia acadêmica. Que, pior, entrega ao mercado gente absolutamente despreparada. Jornalistas que não escrevem, atores que não representam, roteiristas capazes de tão somente fazer uma linda tese sobre roteiros, como seus mestres. Os acadêmicos tremem diante da ideia de seus castelos ruírem. É burrice, deles e do sistema. Ninguém devia tremer, mas compartilhar.

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