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Alejandro Jodorowsky é confundido com Paulo Coelho em evento

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Alejandro Jodorowsky e Paulo Coelho: parecidos? - Arte O Globo

Alejandro Jodorowsky e Paulo Coelho: parecidos? – Arte O Globo

 

Publicado em O Globo

RIO – O cineasta Alejandro Jodorowsky acabou pregando uma pegadinha involuntária nos visitantes da 27ª edição da feira do livro de León, em Guanajuato, no México. O chileno, diretor de “A montanha sagrada”, contou ter se cansado de andar de um lado para o outro, quando sentou-se bem embaixo de uma “grande foto de Paulo Coelho”. O resultado? Acabou confundido com o escritor brasileiro.

“Se formou na minha frente uma fila de pelo menos 200 pessoas acreditando que eu era o escritor”, disse ele, em seu perfil no Facebook. Pensa que ele desfez o mal entendido? Nada. “Não desmenti. Com muito prazer, durante uma hora, escrevi (dedicatórias) ‘de minha alma para sua alma, Coelho’ e autografei livros de Coelho”.

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Cliente é obrigado a comprar livros para menor vítima de prostituição

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© Getty Images

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Homem de 35 anos foi condenado pelo tribunal de Roma a dois anos de prisão, mas isso foi apenas uma parte do castigo.

Publicado no Notícias ao Minuto

A mídia italiana informa que um juiz inventivo obrigou o criminoso a comprar à jovem, que tem apenas 15 anos, livros sobre dignidade feminina. Na lista estão obras de Virginia Wolf, O Diário de Anne Frank e versos de Emily Dickinson, informa AFP. A decisão do juiz foi criticada pela filósofa italiana, Adriana Cavarero, que disse ao Corriere della Sera que era melhor ler estas obras ao próprio condenado. Ela explicou suas palavras:

“A adolescência não é um momento de reflexão, o que ele fez foi muito pior. Um adulto que, sabendo, pagou para ter sexo com uma menor”, disse a filósofa citada pela edição portuguesa Diário de Notícias.

Segundo o Corriere dela Sera, a decisão do juiz pressupõe que a menina possa compreender o verdadeiro mal que tinha causado a si própria e como sofreu sua dignidade feminina.

De acordo com o DN, em 2013 na capital italiana começou a ser investigada uma rede de prostituição de menores no bairro de classe alta de Parioli. As meninas usavam o dinheiro ganho para comprar roupa nova e os últimos modelos de celulares. (Sputnik)

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Educação: Reforma do ensino médio permite aulas de profissionais sem licenciatura

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Publicado no Amo direito

A medida provisória também trouxe uma mudança que chamou a atenção: um dos artigos incluídos na LDB autoriza profissionais de outras áreas e especialistas “com notório saber” a darem aulas nas escolas do país. Segundo o governo, a medida ajudará a preencher lacunas na educação básica. O texto enviado ao Congresso determina que essa atuação deve ser “reconhecida pelos respectivos sistemas de ensino” e restrita à formação técnica e profissional. Hoje, o ensino técnico é iniciado após a conclusão do ensino médio, mas a MP permite que as formações aconteçam simultaneamente.

Segundo Rossieli, a medida não interfere nas disciplinas convencionais e não vai prejudicar professores que se especializaram em áreas como português, matemática, geografia e história. A intenção da mudança, segundo ele, é introduzir outros conteúdos para complementar a formação. “Você não tem, por exemplo, cursos de licenciatura em direito. Tem um caso aqui no Distrito Federal, de uma escola que colocou direito no currículo. Se não existe licenciatura em direito, como que você faz? Eles têm um problema”, diz Silva. Neste caso, a MP prevê que um bacharel em direito comande a aula.

Se aprovada pelo Congresso, a nova regra também permitirá que o “conhecimento popular”, sem diploma formal, seja repassado em sala de aula. Como exemplo, o secretário de Educação Básica cita as “especialidades” desenvolvidas em determinadas regiões do país.

“Lá no Amazonas, quando eu era secretário, o estado tentou fomentar um polo naval, havia gente de fora que queria investir no estado. A primeira coisa que perguntaram foi: cadê as pessoas qualificadas? O estado do Amazonas tem uma grande tradição em construção de barcos, especialmente em navegação de rio, mas essas pessoas não têm formação adequada. Os grandes especialistas que têm lá, que poderiam dar aula para esse tema porque têm uma experiência de vida sem igual, não podem”, diz.

Nestes casos, caberá à secretaria de educação de cada estado definir o que é “notório saber” e quem estará autorizado a lecionar no ensino médio. “Para aula de matemática, de educação física, de sociologia, de filosofia, licenciatura plena é requisito legal e continua sendo requisito legal”, garante.
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Para aula de matemática, de educação física, de sociologia, de filosofia, licenciatura plena é requisito legal e continua sendo requisito legal.
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Novo ensino médio
A medida provisória foi apresentada pelo presidente Michel Temer nesta quinta (22). As mudanças afetam conteúdo e formato das aulas, e também a elaboração dos vestibulares e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A previsão do Ministério da Educação (MEC) é que turmas iniciadas em 2018 já possam se beneficiar das mudanças. Até lá, as redes estaduais poderão fazer adaptações preliminares, já que o Ministério da Educação condiciona a implementação de pontos da reforma à conclusão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O ministro disse que a BNCC só deve ser concluída em “meados” de 2017.

Pela MP, apenas português e matemática terão que ser lecionados obrigatoriamente durante os três anos do ensino médio. A estrutura proposta prevê que, dos 36 meses letivos, apenas metade siga o currículo tradicional. No restante do tempo, o aluno poderá “focar” seu aprendizado na área em que pretende seguir carreira – ciências exatas, linguagens ou biologia, por exemplo.

A reforma também prevê o aumento da carga horária, com a expansão do ensino integral. Na escola “tradicional”, os alunos têm quatro horas-aula por dia. No ensino integral, são sete horas. Quanto maior o tempo dentro da escola, maior a diversidade de atividades que podem ser desenvolvidas, segundo o MEC.

Para isso, o ministério anunciou que vai investir R$ 1,5 bilhão até 2018. A meta é atender 500 mil jovens no ensino integral. A adesão e a lista de escolas contempladas serão definidas pelas secretarias estaduais, até o fim do ano. Segundo o MEC, esse modelo pode começar a ser implementado já em fevereiro de 2017 onde as adaptações forem mais fáceis.

antes-depoisPor Mateus Rodrigues
Fonte: G1

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Biblioteca Parque do Centro do Rio recebe clube de leitura com moradores em situação de rua

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Grupo discute obras da literatura brasileira às sextas-feiras Foto: Fabio Guimaraes / Extra

Grupo discute obras da literatura brasileira às sextas-feiras Foto: Fabio Guimaraes / Extra

Publicado no Extra

Paulo César de Paula, de 41 anos, chega a subir o tom de voz quando fala de “O grande mentecapto”, livro de Fernando Sabino. O homem, em situação de rua desde 1998, é pura empolgação quando conta a história do personagem Geraldo Viramundo — que, como ele, é um mineiro andarilho com o sonho de mudar o Brasil. Paulo César é um dos integrantes de um clube de leitura realizado às sextas-feiras na Biblioteca Parque do Centro do Rio, que reúne a população que dorme nas ruas das redondezas.

— Viver na rua não é fácil, não. A gente vem para cá (biblioteca) para ter um espaço de convivência. Aqui, eles tratam a gente igual a lorde — conta o leitor e aspirante a dramaturgo, que trabalha no roteiro de uma peça baseado na obra de Sabino.

Ele conta que nasceu em Belo Horizonte e vive na rua desde 1998. Entre idas e vindas.

Paulo César está escrevendo uma peça baseada em “O grande mentecapto”, de Fernando Sabino Foto: Fabio Guimaraes / Extra

Paulo César está escrevendo uma peça baseada em “O grande mentecapto”, de Fernando Sabino Foto: Fabio Guimaraes / Extra

 

— A gente faz umas besteiras na vida, né? Mas nunca me envolvi com droga ou bebida. Em 2010, eu desci para São Paulo e estou desde o fim do ano no Rio. Vim ajudar o pessoal de rua aqui. Sou de movimento social. Estou em tudo quanto é reunião para lutar pelos nossos direitos. A situação aqui no Rio está muito difícil. A política social daqui está mais complicada do que nas outras cidades. Mas lutando a gente consegue as coisas. Não é fácil. Mas se Deus quiser esse ano eu consigo alguma coisa no “Minha casa, minha vida” e saio de vez. Estou torcendo, vou tentar — planeja.

Numa sexta-feira deste mês, o grupo de dez moradores em situação de rua discutia “Capitães de areia”, de Jorge Amado. Religiosidade, Bahia, desigualdade social e colonização foram alguns dos temas discutidos. O discurso dos participantes do debate é marcado por um sentimento de injustiça contra Pedro Bala e outros personagens da obra que vivem nas ruas. Até que o olhar se volta para eles mesmos — e a conversa, agora, é sobre as eleições que estão por vir. O tom é de desesperança.

‘Capitães de Areia, de Jorge Amado, foi debatido no grupo Foto: Fabio Guimaraes / Extra

‘Capitães de Areia, de Jorge Amado, foi debatido no grupo Foto: Fabio Guimaraes / Extra

 

— Ninguém está nem aí para a gente — reclama Paulo César, um dos mais falantes.

O grupo teve a primeira reunião em maio. A auxiliar de biblioteca Ingrid Santos, de 46 anos, trabalha perto do acervo de gibis, que atrai o pessoal de rua. Com a proximidade, convidou um grupo para discutir músicas. Depois de uma série de encontros, um deles pediu um “texto de verdade”. E nasceu a roda de leitura.

Encontro aberto

O encontro é estrategicamente realizado em áreas abertas. Quem passa se interessa. Só naquela sexta, dois novos integrantes se uniram ao grupo no meio das discussões. Dois exemplares da obra discutida são colocados na roda e amplamente manuseados pelos leitores. Ingrid conduz as discussões.

— Eu abandonei uma visão preconceituosa de que existe leitura menor. Aprendi com eles que toda literatura é importante — conta.

Empréstimo de livros

Fábio Moraes é o mediador social do local. Ele é o responsável por fazer do espaço um local integrado. Além da roda de leitura, a Biblioteca Parque também tem um coral com moradores em situação de rua e um encontro semanal de cinema. Fábio ainda criou um cadastro específico para quem não tem endereço fixo. Assim, eles têm carteirinha como qualquer outro usuário — com direito, inclusive, a empréstimo de livros.

— E a taxa de devolução é mais alta do que entre quem tem comprovante de residências — afirma Moraes.

O conceito de Biblioteca Parque nasceu na Colômbia como um espaço de convivência e promoção de cultura em locais degradados. No Rio, a primeira unidade foi inaugurada em Manguinhos há seis anos. Agora, além do Centro, há na Rocinha e em Niterói.

Alessandro dos Santos, de 40 anos, é um dos que fizeram o cadastro especial. Tem o orgulho de ter trabalhado na obra da Biblioteca Parque de Manguinhos. E se sente em casa na do Centro.

— Gosto de ler os gibis, desde criança — opina: — Mas eu recomendo que as pessoas leiam “O Alquimista”, do Paulo Coelho, porque é muito bonito mesmo.

Fábio Moraes explica que o perfil da população em situação de rua mudou. Antes, problemas de saúde e vício eram as principais causas. Agora, segundo ele, a maior parte dessa população é de gente que vem de longe para trabalhar nas ruas do Rio e acaba não voltando para a família.

— O laço com a família vai se perdendo, mas eles mantém a referência de casa — diz.

Preocupção com o futuro do projeto

A continuidade do trabalho, no entanto, preocupa. É que o estado, falido, não tem dinheiro para custear as bibliotecas. Por isso, a Prefeitura do Rio assumiu os custos. O medo é que a próxima administração não continue com o aporte financeiro.

— Tem que ter continuidade. O modelo que trabalhamos funciona — defende a diretora do local, Adriana Karla.

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Milan Kundera por René Girard: uma entrevista com Trevor Cribben Merrill

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Publicado no Estadão

Só Dom Quixote quer ser Don Juan no século XX

por Pedro Sette-Câmara

O Livro da Imitação e do Desejo – Lendo Kundera com Girard, de Trevor Cribben Merrill, um dos dois novos títulos da Biblioteca René Girard, da É Realizações, trata da obra de Milan Kundera. O livro é aquilo que um bom livro de crítica deve ser: acessível apenas por ser claro e bem escrito, não por buscar uma facilidade motivada pela condescendência, e esclarecedor porque nos leva a ver o mundo como Milan Kundera o enxerga. Gostar de literatura é gostar de obras que nos parecem relevantes porque explicam-nos para nós mesmos; uma parte importante da boa crítica ajudaria nesse trabalho, e faria com que lêssemos melhor aquilo que gostávamos ou que gostaríamos de ler.

Apesar das palavras gentis que Trevor me dirige no fim da entrevista, como tradutor, como interessado em René Girard, só posso dizer que, graças ao livro de Trevor, tornei-me também leitor de Milan Kundera.

Trevor esteve no Brasil esta semana para participar do congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, na UERJ, quando concedeu esta entrevista exclusiva ao Estado da Arte.

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O filósofo e teórico da literatura francês René Girard. (Foto: divulgação)

No prefácio a To Double Business Bound (uma das poucas obras de René Girard ainda inéditas em português), René Girard fala da continuidade entre literatura e crítica e do potencial “quase teórico” da literatura. No prefácio de O Livro da Imitação e do Desejo, você fala da mesma coisa. Para alguém familiarizado com a teoria mimética de Girard, essa continuidade parece óbvia. Porém, como torná-la clara para alguém que vê a crítica como comentário a respeito de obras, ou, na melhor das hipóteses, como teoria que só lida com texto?
Em A Abadia de Northanger, Jane Austen descreveu a vergonha de uma moça que foi pega lendo um romance (e zombou dela). Mesmo ganhando prestígio no século XIX e no começo do século XX, o romance era percebido como gênero inferior, entranhado demais nos detalhes bagunçados da vida para ser verdadeiramente puro e autocontido, ao mesmo tempo em que não era objetivo o bastante para merecer o pomposo rótulo de “científico”. No entanto, Austen diz que um bom romance exibe “as mais poderosas faculdades da mente” e “o mais vasto conhecimento da natureza humana”. Assim, em vez de ficarmos envergonhados de gostar de romances, deveríamos vê-los como fontes de sabedoria e até de conhecimento antropológico. Como observou [crítico e professor da UERJ] João Cezar de Castro Rocha, Girard tem sua própria “hermenêutica particular”. Como Austen, o pensador francês levou a literatura a sério, especialmente como meio de esclarecer os paradoxos das interações humanas. Seus ensaios sistematizam e agregam aquilo que os romancistas descreveram intuitivamente, isto é, o ir e vir do desejo assíncrono, as manobras da sedução e do coquetismo, a conjunção do amor e da rivalidade. Nesse sentido, eles podem ser vistos como continuação da literatura.

Aquilo de que mais gostei em seu livro é que ele está longe de ser uma mera “aplicação” das ideias de René Girard aos romances de Milan Kundera. Você realmente faz o leitor descobrir o desejo mimético como se fosse uma novidade, mesmo que esse leitor já tenha lido todos os livros de Girard. Imagino, porém, que você tenha lido Kundera primeiro. O que você achou quando descobriu uma obra de crítica que se conectava com os romances de Kundera?
Você tem razão! Eu era um grande admirador de Kundera antes de conhecer Girard. Na verdade, foi Kundera quem me levou a Girard. Em Os Testamentos Traídos, seu maravilhoso livro de ensaios, há uma nota de rodapé em que Kundera diz que Mentira Romântica e Verdade Romanesca é “o melhor livro que já li sobre a arte do romance”. Quando li essa nota de rodapé (na época eu estava em Paris), não perdi nem um minuto — vesti o casaco e fui direto para a livraria! Porém, levei algum tempo para perceber o quanto as ideias de Girard iluminavam os romances de Kundera. Talvez porque, na ficção de Kundera, assim como em nosso mundo contemporâneo, a obviedade do desejo mimético seja tão estonteante que ele acabe um pouco como aquela carta do conto de Edgar Allan Poe, que um ladrão esperto esconde à plena visão. O chefe de polícia usa muitos meios sofisticados para vasculhar o apartamento, chegando a espetar as almofadas do sofá e a desmontar todos os armários, mas nunca enxerga o documento que procura, que está bem no compartimento das cartas! Acho que eu era um pouco como esse chefe de polícia. Existe uma resistência a enxergar as operações do desejo mimético, especialmente, talvez, quando são reveladas de um jeito tão flagrante. Mas quando percebi que Kundera estava o tempo todo brincando explicitamente com o jeito como deixamos a influência dos outros transformar nossa percepção do mundo, tudo pareceu tão óbvio que fiquei com medo de que outra pessoa fosse perceber e publicar um livro sobre o mesmo assunto antes de mim! A obra de Kundera fala desse medo mesmo (que todos os escritores têm), especialmente em suas maravilhosas meditações sobre a “grafomania” em O Livro do Riso e do Esquecimento. Dois açougueiros podem se dar bem, desde que suas lojas não fiquem na mesma rua. Agora, se os dois decidirem virar escritores… cuidado!
Em vez de ficarmos envergonhados de gostar de romances, deveríamos vê-los como fontes de sabedoria e até de conhecimento antropológico
Em seu livro, você coloca Kundera no mesmo nível de Cervantes. Por que Cervantes? Por que não, por exemplo, Flaubert ou algum outro escritor?
Antes de tudo porque o crítico americano Harold Bloom escreveu que Kundera, como Cervantes, praticava o romance “autoconsciente”, o romance ciente de sua própria condição de literatura. Todavia, ele também disse que Kundera escreveu apenas obras de época que não sobreviveriam à época do comunismo na Tchecoslováquia. Assim, para Bloom, Cervantes é muito superior. O que ele não enxerga é a similaridade — os homens de Kundera, jovens e sinceros, que sonham tornar-se grandes Don Juans são Quixotes do erotismo. E os grandes Don Juans de sua ficção (como o mítico dr. Hável de Risíveis Amores, conhecido em toda a Boêmia por suas conquistas) são como versões vilipendiadas dos guerreiros da Idade Média. Assim como, na época do século de ouro espanhol, querer colocar uma armadura e ser um cavaleiro era algo deveras ridículo, quando veio a década de 1960 e as mulheres estavam (vou exagerar apenas para que fique claro) dispostas a ir para a cama sem preocupar-se com coisas como virtude, honra, e se seus irmãos iriam matar seu namorado, querer ser Don Juan era uma fantasia de outra época. Porém, no mundo de Kundera, todos querem ver-se como Don Juans… Nos anos 1980 e 1990, os universitários americanos, tendo conhecido A Insustentável Leveza do Ser graças à medíocre adaptação cinematográfica, entenderam equivocadamente os romances de Kundera, achando que eles eram manifestos em favor de um erotismo sofisticado. Na verdade, eles são análises engraçadas de um mundo sem tabus, cheio de vaidade e de equívocos, onde o hedonismo tornou-se um ideal impossível, e Don Juan não passa de uma sombra vazia de si próprio. Ao avaliar Kundera, Harold Bloom não enxergou nada do aspecto cervantesco de sua ficção.

Como tradutor, não posso deixar de perguntar sobre a multiplicidade de idiomas envolvidos em qualquer projeto ligado a Kundera. Você lê tcheco? Sabendo da fluência de Kundera em francês, podemos considerar as versões francesas de suas obras, revistas por ele, originais? Ao escrever seu livro, você usou as traduções inglesas (minha tradução brasileira usou as traduções atualmente em catálogo pela Companhia das Letras). Você achou que alguma coisa se perdeu? Como eu mesmo já traduzi ficção — contos de Alice Munro, por exemplo — sei que pode ser difícil preservar a atmosfera do texto, mesmo que o sentido esteja correto.

Eu não conseguiria ler uma palavra de tcheco nem se a minha vida dependesse disso, mas fui apresentado aos romances de Kundera por uma expatriada tcheca chamada Karen von Kunes, que criticava a decisão de Kundera de abandonar seu idioma nativo e escrever em francês. Porém, se um autor declara, como fez Kundera, que uma certa edição de sua obra é a definitiva, não vejo motivo para não aceitarmos o que ele diz, a menos que tenhamos algum desejo perverso de limitar a autoridade do autor sobre suas próprias criações. Algumas décadas atrás, a ideia de que os textos fugiam ao controle dos autores era uma das teorias da moda (a “morte do autor”), mas, em nossa época, em que grassa a infração de direitos autorais, ela se tornou uma realidade assustadora. Mais do que nunca precisamos respeitar a propriedade moral do autor sobre o que escreve, seu direito de estabelecer os limites de sua obra. Nas traduções inglesas, aquelas feitas a partir do francês por Linda Asher, e naquelas que Kundera e seu editor americano, o falecido Aaron Asher, revisaram minuciosamente, pouco ou nada se perde em relação à edição francesa. Os leitores de língua inglesa de Kundera podem confiar que encontram a obra do autor exatamente como ele queria que fosse lida. Como tradutor literário de autores como Munro, você sabe, como diz, que é um desafio produzir uma tradução fiel. Ao mesmo tempo, você sabe que, se o tradutor tem talento e cuidado, pode oferecer aos leitores o presente de uma tradução fiel. Permita-me aproveitar a oportunidade para dizer que, na minha opinião, você fez isso com meu próprio livro — e sou muito grato!
Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ.

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