O quanto os brasileiros sabem de Ciências?

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Felipe Bandoni de Oliveira, revista Nova Escola

Uma pesquisa inédita acaba de ser divulgada com dados muito interessantes para todos que trabalham com Educação, especialmente na área de Ciências.

O resultado dessa investigação é o Indicador de Letramento Científico (ILC), um parâmetro que tem o objetivo de aferir o quanto os brasileiros dominam conhecimentos e habilidades relacionados às Ciências Naturais. O levantamento, que ouviu mais de 2 mil pessoas nas nove principais regiões metropolitanas do país, foi realizado pela Abramundo, em parceira com o Ibope, o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa.

O aspecto mais interessante do ILC é que ele buscou abordar conhecimentos científicos em um contexto cotidiano. Nesse sentido, ele difere do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e de outras avaliações, pois não aborda estritamente conhecimentos escolares. Além disso, ao contrário desses exames que se destinam apenas aos estudantes, o ILC incluiu pessoas de 15 até 40 anos na amostra.

Em linhas gerais, o objetivo do ILC é descobrir se os respondentes dominam a linguagem científica, se possuem saberes práticos relacionados a ciências e em que medida esses saberes contribuem para a visão de mundo que possuem.

A análise das respostas classificou os respondentes em quatro grupos:

- 16% deles possui letramento não-científico. Conseguiram localizar informações em textos breves e que tenham relações com o cotidiano (ex.: contas de luz, bulas de remédio simplificadas), mas não demonstraram habilidades científicas.

- O segundo e maior grupo é o de letramento científico rudimentar, com 48% dos entrevistados. São pessoas capazes de ler e comparar textos com informações científicas básicas, também relacionadas a temáticas do cotidiano.

- O terceiro grupo é o de letramento científico básico, que abarca 31% da amostra. Conseguiram resolver problemas de maior complexidade usando procedimentos científicos e informações presentes em textos técnicos, manuais, infográficos e tabelas.

- O último grupo é o de letramento científico proficiente, que engloba apenas 5% da amostra. Esse pequeno contingente é formado por pessoas que resolvem problemas que exigem saberes científicos em contextos não necessariamente cotidianos (ex.: genética ou astronomia). Além de possuírem domínio de procedimentos, operam com conceitos científicos.

Chama a atenção o fato de que 64% de todos os entrevistados estão nos dois primeiros grupos. Veja, por exemplo, a questão a seguir, indicativa do nível rudimentar:

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Se analisarmos com cuidado, essa questão exige apenas uma leitura atenta do texto. Se o entrevistado respondesse que “as estrias aumentam a aderência”, “permitem o escoamento de água” ou “aumentam o atrito”, ele acertaria. Mas 50% de todos que responderam erraram essa questão.

Portanto, 64% dos respondentes dominam apenas leitura e, no máximo, conhecimentos muito básicos de Ciências. Ou seja: segundo a pesquisa, a maioria dos brasileiros possui um conhecimento muito incipiente de Ciências Naturais e não o utiliza para resolver problemas em suas vidas.

Isso nos leva a uma reflexão. Todas as duas mil pessoas entrevistadas frequentaram a escola por pelo menos quatro anos. O que aprenderam de Ciências? O que supostamente foi ensinado sobre Ciências? O que deveríamos mudar em nossas escolas para que isso não se repetisse?

Essa discussão não se encerra aqui. O ILC traz muitos outros dados, que pretendo abordar melhor em outros posts.

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9 livros que todo profissional de TI precisa ler

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(Foto: Reprodução)

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Leonardo Pereira, no Olhar Digital

Quem quer se dar bem na indústria de tecnologia não pode se conformar apenas com o que
aprende nos cursos especializados, também é necessário ter uma bagagem cultural que apoie tudo o que é visto em salas de aula e no mercado.

Uma boa forma de fazer isso é através da leitura, mas isso não significa que você tenha de
comprar apenas livros sobre tecnologia. Na visão de executivos e professores consultados
pelo Olhar Digital, o profissional pode ir atrás de conteúdo mais variado, mas que no fim
acaba ajudando na sua formação.

Confira algumas sugestões:

Sidney Sossai, executivo de Social Business da IBM Brasil

Quem disse que os elefantes não dançam?, de Louis V. Gerstner

“Em 1995 eu estava cursando faculdade de Tecnologia da Informação, e já tinha iniciando
minha carreira na área de tecnologia. Nessa época fui convidado a participar de um processo
de seleção na IBM – Windows, computação distribuída, Internet, mobilidade ainda eram
sonhos e futurologia. Deixei meu emprego de carteira assinada, e apostei no estágio da IBM
em um momento de muita transformação. Essa decisão praticamente transformou minha vida profissional, pois foi quando eu desenvolvi minha carreira, aprendi a lidar com a complexidade de uma grande empresa.

A mensagem que o livro me traz é que temos de estar sempre preparados para as
transformações, sejam elas profissionais ou pessoais. A única certeza que temos é que elas
irão acontecer, o desafio é estar preparados para quando elas virão.”

Ernesto Haberkorn, sócio-fundador da TOTVs, diretor da TI Educacional e criador do Circuito NETAS

Contabilidade Tributária, de Gustavo Oliveira

“O melhor livro que já li é Contabilidade Tributária, do professor Gustavo Oliveira. Como trabalho com programação de sistemas ERP, sempre tive muita dificuldade em entender nossa complexa legislação tributária. E este livro apresenta, de forma clara e objetiva, os principais tributos a serem pagos por uma empresa. Desde o Imposto de Renda até o ICMS, passando pelo PIS, COFINS, ISS, IPI, CSLL, INSS e ISS. Tenho indicado esse livro aos meus colaboradores, justamente porque quase todos os livros que tratam desta matéria não são muito esclarecedores. Este explica os porquês de cada lei de forma clara e objetiva. É uma obra que contribui muito com os profissionais.”

Silvio Celestino, especialista em carreira e sócio-fundador da Alliance Coaching

O poder dos quietos, de Susan Cain

“O mundo é formado tanto por pessoas introvertidas quanto extrovertidas e ambos possuem dificuldades inerentes à sua natureza no mercado de trabalho. Conhecer essas características e como utilizá-las de forma a diminuir seus gaps e potencializar suas qualidades é um fator de sucesso. O livro fala sobre essas características e como cada tipo pode aprimorar-se, estabelecer relacionamentos apropriados e, acima de tudo, agir para realizar a vida que deseja e atingir os resultados desejados.”

Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés

“Durante a carreira no mundo empresarial, a pessoa pode ter de enfrentar situações que se parecem com a sobrevivência em uma selva: defender-se de predadores, abandonar ideias passadas e amadurecer. Esse percurso deve ser feito com cuidados que são essenciais a todos, mas, especialmente, à mulher, que sofre mais barreiras e dificuldades para se impor na profissão. O livro é um excelente alerta e chamado à realidade e mostra como o amadurecimento é um caminho a ser trilhado de maneira cuidadosa, mas firme, para a vida.”

Agesandro Scarpioni, coordenador do curso de Sistemas de Informação da FIAP

Engenharia de Software – Uma Abordagem Profissional, de Roger S. Pressman

“Eu tenho como sugestão e até como um livro de cabeceira para quem é da área de TI. É o livro do Roger Pressman, que já está na 7º Edição, eu uso desde a minha época da especialização em engenharia de software no ano de 2000, é atualizado com frequência e serve tanto para alunos de graduação quanto para profissionais de TI.

Seu nome é Engenharia de Software – Uma Abordagem Profissional, é um livro em que diversos assuntos relacionados a TI são abordados de forma simples, possibilitando ao leitor conhecer as várias etapas do processo de engenharia de software, passando por modelagem e arquitetura, gestão de projetos e gestão da qualidade, incluindo os conceitos iniciais de UML e orientação a objetos.”

Almir Meira Alves, coordenador dos cursos de Engenharia da Computação e Engenharia de Produção 2.0. da FIAP

A Startup Enxuta – Como Os Empreendedores Atuais Utilizam a Inovação, de Eric Ries; Novos Negócios Inovadores de Crescimento Empreendedor No Brasil, de Silvio Meira; Project Management Body of Knowledge, do Instituto PMI; Gerenciamento Ágil de Projetos – Aplicação em Produtos Inovadores, de Daniel Capaldo Amaral

“Os dois primeiros livros são indicados para os profissionais com perfil empreendedor, que desejam empreender como empresários ou como empreendedores internos em empresas de tecnologia. Os dois livros ensinam como empreender com rapidez, planejamento e baixo investimento inicial.

Os dois últimos livros falam sobre a arte do gerenciamento de projetos. Todo profissional de TI deve entender seu trabalho como uma sucessão de projetos, em que ele deve conhecer, além da parte técnica, das áreas mais gerais do conhecimento em projetos, como RISCOS, CUSTOS, TEMPO, RH E COMUNICAÇÕES, entre outras áreas.

Eu diria que estes 4 livros podem ajudar o profissional de TI a ter uma visão estratégica do negócio e entender como a TI pode atender os objetivos principais do negócio, aproximando-se das áreas chaves de tomada de decisão.”

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A origem de Dostoiévski: escritores russos e seus sobrenomes

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Tolstói e Dostoiévski, Tchekhov e Pasternak, Nabokov e Soljenítsin… A Gazeta Russa descobriu o que significam os sobrenomes dos clássicos russos e de seus personagens.

Ilustração: Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Aleksêi Mikheev, na Gazeta Russa

Púchkin

Aleksandr Púchkin é provavelmente o principal símbolo da literatura e da cultura russa, como Dante na Itália ou Goethe na Alemanha. No entanto, para aqueles que não dominam o idioma russo é bastante difícil entender a razão disso, pois a sua poesia perde muito ao ser traduzida. Os Púchkin constituem uma antiga linhagem nobre, iniciada ainda no século 14 por Gregóri Morkhínin, que foi apelidado de “Púchka” (canhão) por ter sido o primeiro artilheiro da Rússia. Atualmente, Púchkin tornou-se uma figura quase mitológica, por exemplo, os pais podem dizer a uma criança preguiçosa: “Quem fará as lições por você? Por acaso será Púchkin?”.

Lérmontov

Talvez o segundo mais importante poeta russo seja Mikhail Lérmontov, contemporâneo mais jovem de Púchkin. Seu sobrenome é de origem escocesa: um antepassado do poeta, George Learmonth, passou a servir no exército da Rússia em 1613. Curiosamente, o sobrenome do protagonista da obra mais famosa de Púchkin, o romance em versos “Evguêni Onéguin”, foi formado a partir do nome de um rio do norte da Rússia, o rio Onega, e Lérmontov deu ao personagem principal do seu romance mais conhecido, “O herói de nosso tempo”, o sobrenome de Petchórin, formado a partir do nome de outro rio, também do norte, o Petchora.

Tolstói

Sem dúvida, o principal prosador russo é o autor de “Guerra e Paz”, o conde Lev Tolstói. Os Tolstói também constituem uma antiga linhagem nobre, cujo primeiro representante, ao que tudo indica, foi um homem de compleição bastante robusta (“tolstii”, que em russo significa gordo). Em “Anna Karenina”, outro romance seu, Tolstói deu a um personagem um sobrenome “revelador”, Lévin (do nome Liev), uma clara alusão de que ele era uma espécie de alter ego do autor. Mais dois representantes da linhagem dos Tostói estão ligados à literatura: Aleksêi Konstantinovich Tolstói, contemporâneo de Lev Tostói, e o escritor soviético Aleksêi Nikolaievitch Tolstói, que tinha o apelido de “Conde Vermelho” por causa de sua lealdade ao poder soviético. Uma escritora russa da época atual, Tatiana Tolstaia, é neta dele.

Dostoiévski

O sobrenome do grande escritor tem uma origem “geográfica”: os antepassados de Fiódor Mikhailovich eram naturais de um lugarzinho na então Bielorrússia chamado Dostoiev. No romance de Mikhail Bulgákov “O Mestre e Margarida” está presente a seguinte cena: a funcionária da portaria não quer deixar os dois heróis entrarem no restaurante da Casa dos Escritores sem as respectivas carteirinhas de associados, e quando um deles diz que Dostoiévski, por exemplo, não tinha nem poderia ter qualquer carteirinha de associado, ela responde “Dostoiévski morreu”. Então o escritor contesta: “Protesto, Dostoiévski é imortal”, frase que se tornou muito conhecida. O sobrenome Bulgákov, por sua vez, é formado a partir do nome Bulgak, comum nos tempos antigos, e que significa “irrequieto, alvoroçado”.

Tchekhov

Esse sobrenome não tem nada a ver com os tchecos, ele remonta ao antigo nome russo “Tchekh” (ou “Tchokh”), que por sua vez está relacionado com o verbo “tchikhat” (espirrar): pessoas que sofriam de constantes resfriados e que espirravam frequentemente recebiam tais apelidos. Em sua juventude, o médico Anton Tchekhov publicava regularmente histórias humorísticas em um periódico e utilizava uma variedade de pseudônimos; o mais famoso deles era Antocha Tchekhonte e entre outros havia o “Irmão do meu Irmão”, “Laerte”, “Ulisses”, “Homem sem baço”, “Champanski” e “Schiller Sheikspirovich Goethe”. Em um de seus contos, “Sobrenome de Cavalo”, o herói revê sem sucesso dezenas de variantes tentando lembrar de um sobrenome que havia esquecido e que de alguma forma estava relacionado a cavalos; por fim acaba-se verificando que o sobrenome era “Ovsov” (da palavra “ovios”, que em russo significa aveia, ou seja, alimento dado aos cavalos).

Escritores que ganharam o Prêmio Nobel

No século 20, cinco escritores russos foram laureados com o Prêmio Nobel de Literatura: Ivan Búnin, Boris Pasternak, Mikhail Sholokhov, Aleksandr Soljenítsin e Joseph Brodsky.
O sobrenome de Búnin se formou a partir do apelido Bunia, com o qual, no passado, chamavam uma pessoa que era arrogante e orgulhosa.

Pasternak (Pastinaca sativa), também conhecida como cherovia, é um legume cujo nome virou sobrenome. Outra curiosidade é que o sobrenome do herói do famoso romance de Pasternak, “Doutor Jivago”, aponta para o fato de que o personagem principal pertencia a uma família da aristocracia, o que é indicado pela antiga terminação característica “ago” (na versão moderna, o adjetivo “jivoi”, que em russo significa vivo, no caso genitivo se transforma em “jivogo”).

O sobrenome Cholokhov provém do adjetivo “cholokhii”, que em muitos dialetos, significa “de rosto áspero”, ou seja, uma pessoa que tem marcas de varíola.

O sobrenome de Soljenítsin foi formado a partir da palavra “soljenitsi”. Era assim que eram chamados aqueles que se ocupavam de “solojenie”, ou seja, do cultivo e secagem do malte. E “Chukhov”, o sobrenome do protagonista de seu romance mais famoso, “Um dia na vida de Ivan Denisovich”, provavelmente vem de “Chukhi”, que é um dos diminutivos do nome Aleksandr (Sacha – Sachukha – Chukha); ou seja, como Tolstói no caso de Levin, com a ajuda de tal recurso, Soljenítsin certamente insinua indiretamente que neste caso está escrevendo sobre si mesmo.

Bródski é um típico sobrenome “geográfico” que indica que os antepassados do poeta eram naturais de Brody, uma cidade da Galícia (atualmente situada no território da Ucrânia).

Nabokov e Erofeev

O sobrenome de Vladimir Nabokov vem da palavra “nabokii”, que significa “torto, que manca de um lado”. Quando na segunda metade de sua vida Nabokov, vivendo no exílio, começou a escrever em inglês e conquistou, após a publicação de “Lolita”, a popularidade na América, ele dizia que seu sobrenome representava certa dificuldade para os americanos em termos de pronúncia: constantemente eles o chamavam de Nabakov ou Nabukov.

A origem do sobrenome do autor do famoso poema em prosa “Moscou – Petuchki”, Venedikt Erofeev, é clara: ele foi formado a partir do antigo nome Erofei. Mas, também com esse sobrenome está associado um caso curioso. Viktor, um autor que tem o mesmo sobrenome do falecido Venedikt, atualmente escreve e tem sido frequentemente publicado no Ocidente. Quando o seu primeiro nome é abreviado ele praticamente se torna um perfeito homônimo do outro escritor: V. Erofeev.

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Concurso Cultural Literário (90)

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capa exorcismo

Em uma cidade como Libertá, quem falha dificilmente consegue uma segunda chance. Por isso, é com um misto de excitação e desconfiança que Tiago Boanerges recebe a visita de seu antigo supervisor. Exorcista experiente, foi demitido do Conselho de Hórus – organização responsável por investigar o comportamento de seres sobrenaturais – após fracassar em uma missão. A proposta é atraente: concluir o trabalho para o qual foi designado e alcançar a redenção. Mas o preço é alto, pois terá de se aproximar novamente de um antigo amor, que não só lhe custou a carreira, como seu próprio coração. Em um cenário noir em que blues e fumaça permeiam um submundo de seres fantásticos, ele sai em busca da musa que arruinou sua vida. Mas antes precisará exorcizar seus próprios fantasmas se não quiser falhar mais uma vez e ver sua vida destruída para sempre.

Vamos sortear 3 exemplares de “Exorcismos, amores e uma dose de blues“, lançamento da Gutenberg.

Autor da obra, Eric Novello é escritor, tradutor e roteirista. Integrou a equipe do podcast Papo na Estante e organizou várias coletâneas de literatura fantástica.

Para concorrer ao livro, responda no email concurso@livrosepessoas.com qual é o nome do maine coon (gato) do autor. Respostas na área de comentários serão deletadas.

O resultado será divulgado aqui no dia 23/9.

Boa sorte! Riso

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A culpa é do John Green: fãs do autor celebram ‘autoajuda’ e bom-mocismo

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Escritor de ‘A culpa é das estrelas’ inspira boas ações e transformações.
Encontro em SP reuniu ‘nerdfighters’, os admiradores ativistas do autor.

Cauê Muraro, no G1

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Danielle Machado (ao centro) e Bárbara Morais participam de debate sobre John Green na Bienal do Livro de SP (Foto: Andressa Castro/Divulgação)

A culpa é do John Green – ao menos pela existência dos “guerreiros nerds”. Os autodenominados nerdfighters formam uma comunidade de fãs ativistas do autor do best-seller “A culpa é das estrelas”, líder em vendas no Brasil (541 mil exemplares no 1º semestre) e lá fora.

A facção (do bem) se espalha por diversos países e sobrevive em ativos grupos na internet. Os membros choram lendo livros sobre jovens amantes doentes de câncer. Mas também são sensíveis à vida fora da ficção. Querem mudar o mundo.

Os nerdfighters gostam de citar que, em 2010, providenciaram cinco aviões com mantimentos para o Haiti. Mas, como o conceito de “boa ação” pode ser mesmo bastante elástico, enviaram um presente a Green: uma camisa da seleção autografada por Pelé, do qual ele é admirador. Na quarta-feira (27), o escritor de 37 anos foi tema de um debate na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Havia tanto nerdfighters quanto fãs normais do autor.

Sem a presença do autor americano, quem representou a classe foi a escritora e estudante de economia Bárbara Morais, 24, de Brasília. Ela conversou com a editora de Green no Brasil, Danielle Machado, da Intrínseca. No encontro, Green foi celebrado no palco e na plateia como um líder das intenções nobres (sua obra tem um quê de autoajuda) e do bom-mocismo.

Veja, abaixo, cinco características típicas de fãs de John Green:

John (à esquerda) e Hank Green, em vídeo publicado em 2009 no YouTube no qual fazem u gesto que caracteriza os nerdfighters (Foto: Reprodução/YouTube/vlogbrothers)

John (à esquerda) e Hank Green, em vídeo publicado em 2009 no YouTube no qual fazem u gesto que caracteriza os nerdfighters (Foto: Reprodução/YouTube/vlogbrothers)

1 – QUEREM MUDAR O MUNDO

A comunidade de nerdfighters surgiu depois que, em 2007, John Green e seu irmão, Hank, passaram a publicar vídeos no YouTube, no canal vlogbrothers (2,29 milhões de visualizações). A ideia é incentivar a realização de coisas incríveis (“awesome”) e reduzir o percentual das nocivas (“suck”). O lema é DFTBA (“Don’t forget to be awesome”, ou “Não se esqueça de ser incrível”). Na Bienal, fãs usavam pulseiras com a sigla. Há um símbolo com as mãos, que lembra o do Spock de “Jornada nas Estrelas”. O site Brasil Nerdfighters lista que servem contribuições para “avanços científicos, sociais, políticos; bolos, cookies, e tudo de bom no mundo”.

Bárbara Morais afirmou que, para ser nerdfighter, não precisa necessariamente gostar de John Green. O que vale “é querer mudar o mundo”. Num vídeo publicado em 2009 vlogbrothers, o escritor tentou explicar: “Um nerdfighter é uma pessoa que, em vez de ser formada por ossos, pele e tecidos, é feita inteiramente de awesome”. No site oficial, ele escreve: “Nerdfighters levantaram centenas de milhares de dólares para combater a pobreza e também plantaram milhares de árvores em maio de 2010 para comemorar o aniversário de 30 anos do Hank”.

2 – SÃO FAMÍLIA

John Green viajou recentemente para a Etiópia, acompanhado de Bill Gates, e também pegou uma doença grave. Os fãs acompanharam tudo – inclusive ficaram sabendo que “esta meningite viral não é brincadeira”, nas palavras do autor. Isso, porque ele é ativo nas redes sociais (tem 3,03 milhões de seguidores no Twitter, já fez 22 mil posts). “Tem essa sensação de intimidade, de que você o conhece”, afirmou a nerdfighter Bárbara Morais na Bienal. “Você fala no Twitter e ele responde, manda um e-mail e ele responde… Tem pessoas da minha família que viajaram e ficaram doentes, mas eu não fiquei sabendo. É uma coisa impressionante”, comparou.

A editora de Green no Brasil, Danielle Machado, brincou que perde dos fãs a briga pelo acesso ao autor. “Eles têm uma facilidade que eu não tenho. Preciso falar com meu departamento editorial, para falar com o agente dele antes…”, listou. Bárbara devolveu: “Inclusive, acho que é bem mais fácil a gente saber o que ele está escrevendo do que ela saber”. No momento, não há nada para ficar sabendo: aparentemente John Green está vivendo uma entressafra posterior à publicação de “A culpa é das estrelas” e divulgação da bem-sucedida adaptação para o cinema, em que ele trabalhou como consultor.

Bill Gates (à esq.) conversa com John Green sobre a situação na Etiópia (Foto: Reprodução/YouTube/thegatesnotes)

Bill Gates (à esq.) conversa com John Green sobre a situação na Etiópia (Foto: Reprodução/YouTube/thegatesnotes)

3 – RESPEITAM DIFERENÇAS

Da família, mas nem tanto. O verdadeiro fã de John Green respeita a privacidade do ídolo – mesmo porque não convém partir para o abraço quando estiver frente a frente com o escritor. Quem explica é Bárbara Morais. Ela conta que, há pouco tempo, foi aos Estados Unidos numa convenção de que o autor participava. Por opção e “respeito ao espaço pessoal”, sequer se aproximou. Ao G1, a jovem repete o alerta transmitido pela organização do evento: “Se você vir o John Green, não encosta nele, porque ele é ‘germófobo’ [fobia de se contaminar], vai ficar o dia inteiro ansioso e pode ter um ataque de pânico”.

Nos EUA, Bárbara estava acompanhada de duas amigas que também foram à Bienal, a agente literária Taissa Reis, 25, do Rio, e a escritora Dayse Dantas, 24, de Goiânia. Mas o que perguntariam a Green caso o encontrassem pessoalmente? “Acho que seria mais uma conversa”, explica Taíssa, listando assuntos do interesse do escritor, como economia ou história. Mas Dayse brincou: “Ai, o Hank [irmão do autor] – eu ia pedir para casar com ele!”. Depois, explicou que não era sério: “Não, não. Ele já é casado”.

Letícia Saggese (à dir., de azul) durante o debate sobre John Green na Bienal do Livro (Foto: Andressa Castro/Divulgação)

Letícia Saggese (à dir., de azul) durante o debate sobre John Green na Bienal do Livro (Foto: Andressa Castro/Divulgação)

4 – SÃO JOVENS ADULTOS

Letícia Saggese, 18, de São Paulo, fazia faculdade letras, mas releu John Green, primeira obra do autor publicada no Brasil, e criou coragem para mudar de curso. Agora estuda tradução. “Tinha lido ‘Quem é você, Alasca?’ pouco antes da formação no ensino médio. Depois, já matriculada no curso, acabei relendo”, lembra. De acordo com ela, “foi um incentivo”. “Vi que o John entendia o que acontecendo comigo, porque o personagem principal tem a mesma dúvida que eu, estava em busca de um ‘Grande talvez’. Só que o meu talvez virou certeza definitiva.”

Para Bárbara Morais, os protagonistas dos livros de Green “são pessoas que estão nessa condição de tentar descobrir quem elas são, ao mesmo tempo em que todo mundo exige delas que elas já saibam quem são”. Bárbara mudou a faculdade, de engenharia mecânica para economia. Ela é outra que credita parcela da decisão à obra do escritor. São dilemas típicos do segmento a que Green se dedica, conhecido lá fora como “jovens adultos”.

Cena do filme 'A culpa é das estrelas' (Foto: Divulgação)

Cena do filme ‘A culpa é das estrelas’ (Foto: Divulgação)

5 – INDICAM LIVROS PARA OS MAIS VELHOS

“Ele tem uma linguagem bastante atual, consegue mesmo falar com a gente”. A opinião do estudante do nono ano do ensino fundamental Guilherme Faria, 14, de Santo André, reflete bem o que os demais fãs de John Green pensam: “No ‘A culpa é das estrelas’, ele expressa bem o sentimento de que a pessoa tem câncer, mas ainda é uma pessoa”. Guilherme leu o livro depois de assistir ao filme, que arrecadou US$ 280 milhões no mundo todo.

Mas não só os adolescentes ou “jovens adultos” que se interessam. “O grande marco para esses livros se dá quando o pai, o tio e o professor começam a ler. Vejo isso com ‘A culpa é das estrelas’”, afirma a editora Danielle Machado. “Quem lê consegue entrar nesses personagens. Não é porque você tem 30, 40 anos, que você já se definiu e se encontrou. Muito pouco antes da leitura, meu pai tinha morrido de câncer. Trabalhar no livro me ajudou a ir racionalizando, superando.”

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