A biblioteca de Van Gogh

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Vincent van Gogh ~ Nature morte aux livres et à la rose

Vincent van Gogh ~ Nature morte aux livres et à la rose, 1887 (foto: www.wikiart.org)

Alexandre Coslei, no Parágrafo

Inúmeras vezes, nas cartas ao irmão Theo, Vincent Van Gogh discorre sobre literatura com a argúcia de um crítico e a paixão de um leitor voraz. A literatura é um tema tão recorrente para Van Gogh que nem nos surpreendemos quando ele confessa que poderia tê-la escolhido como meio de expressão, caso a pintura não houvesse se afirmado em sua vida.

A bipolaridade emocional que o assolava afastou os amigos, incendiou o pavio das severas crises de depressão que sofreu, mas raramente o impediu que se dedicasse com afinco à criação dos seus quadros e à leitura intensa. Duas fortalezas resistiram até o fim na alma de Van Gogh, a pintura e os livros.

Quem não pensa em Van Gogh também como um escritor certamente não leu suas cartas, um valioso acervo literário e histórico. E Vincent não se restringia a escrever, ele pensava sobre literatura. A rica correspondência com Emile Bernard, um pintor que se arriscava como poeta, demonstra sua lúcida habilidade em avaliar textos.

Van Gogh Self-Portrait with Straw Hat 1887

Van Gogh Self-Portrait with Straw Hat 1887
(fonte: wikimedia.org)

Não foi à toa que o perfil mais visceral de Van Gogh foi desenhado por um escritor francês que nos deixou o manifesto intitulado “Van Gogh, o suicida da sociedade”, de Antonin Artaud:

“Não, Van Gogh não era louco, mas suas pinturas eram bombas atômicas, cujo ângulo de visão, ao lado de todas as outras pinturas polêmicas da época, foi capaz de abalar gravemente o conformismo larvar da burguesia” …

Continua sobre Van Gogh:

“E o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu torna-se louco, no sentido em que isso é socialmente entendido, a conspurcar uma certa ideia superior da honra humana. Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais ela quis se livrar ou se proteger por terem se recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas. Porque o alienado é também o homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades”.

“Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia assustadora e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou”.

A pintura de Van Gogh está ligada, numa comunhão indissolúvel, à obra escrita que ele nos legou através das suas cartas. Uma complementa a outra. Daí sua fama e sua história precederem e predominarem sobre a arte que ele produziu.

Protagonista de amores obsessivos, do famoso caso em que decepa a própria orelha para entregar a uma prostituta, dos acessos de fúria, dos mergulhos profundos na melancolia. Tudo em torno de Van Gogh o rotulava como louco, mas as suas maiores predileções literárias espelhavam um homem romântico e voltado para a razão. Era um pintor que valorizava a palavra, conforme revela ao amigo Emile Bernard em uma de suas cartas:

“Há tanta gente, especialmente entre nossos camaradas, que imagina que as palavras não significam nada – pelo contrário, a verdade é que dizer uma coisa bem é tão interessante e difícil quanto pintá-la. Há a arte das linhas e das cores, mas também existe a arte das palavras, e esta permanecerá”.

Destacava a importância que via na criatividade;

“Um homem pode ter uma soberba orquestração de cores e não ter ideias”.

A admiração incondicional de Van Gogh por Émile Zola demonstra o fascínio que o racionalismo científico lhe causava. Zola é citado incontáveis vezes em suas correspondências.

“Chegando à França como um estrangeiro, eu, talvez melhor do que os franceses nascidos e criados aqui, senti o que havia em Delacroix e em Zola; e a minha admiração sincera e total por eles não conhece limites”.

“Em sua qualidade de pintores de uma sociedade, de uma natureza tomada em sua plenitude, assim como Zola e Balzac, produzem raras emoções artísticas naqueles que os amam, justamente porque eles abrangem a totalidade da época que descrevem”.

Vincent exprimia muitos elogios aos autores franceses, principalmente os do século 19, com exceção de Baudelaire, por quem nutria certa implicância por ter criticado pintores que ele idolatrava.

“Vamos tomar Baudelaire por aquilo que ele realmente é: um poeta moderno, do mesmo modo que Musset, mas que ele deixe de se meter a falar de pintura”.

Em uma das cartas comenta que estudou um dos livros de Víctor Hugo: O último dia de um condenado, um manifesto contra a pena de morte que suscitou enorme repercussão ao ser publicado. Há trechos em ele faz referências a Guy de Maupassant. Lia historiadores, como Jules Michelet, para conhecer a história da Revolução Francesa. Mas Van Gogh não deixava de praticar algum ecletismo literário quando fala das suas leituras de Shakespeare, Charles Dickens, Beecher Stowe, Ésquilo, da bíblia e dos evangelhos.

“Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Suas palavras e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver” (Van Gogh em Cartas a Theo)

É de Van Gogh uma das mais belas sentenças que podemos encontrar sobre a nossa humanidade em qualquer literatura.

“Eu também gostaria de saber aproximadamente o que é que eu sou. Talvez eu seja a larva de mim mesmo’. (Carta a Emile Bernard)

Van Gogh A Wheatfield with Cypresses

Van Gogh A Wheatfield with Cypresses, 1889 (foto: lemonde.fr)

Ao terminarmos de ler as cartas de Vincent, nos sucede um sonho encharcado de frenética juventude, mas um súbito cansaço nos envelhece. Colocamos de lado aquele velho chapéu de palha, rodeado de velas acesas, que usamos para romper a noite em que pintamos luzes febris na tela branca. Velas que se apagaram com o silêncio em luto dos corvos sobre os campos de trigo.

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“Geladeirotecas” incentivam a leitura e dão novos usos a geladeiras velhas

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Publicado por Universo Jatoba

Você abre a sua geladeira e encontra Machado de Assis, Graciliano Ramos, o mestre da investigação Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle. Não está entendendo nada, não é mesmo? Calma, o Universo Jatobá explica: geladeiras velhas e quebradas foram repaginadas e pintadas para virar estantes de livros, revistas e gibis.

A ideia foi de um aluno do curso de Ciência da Informação e da Documentação e Biblioteconomia da Universidade de São Paulo. Haroldo Luís Beraldo, de 30 anos, customizou os aparelhos domésticos e deu uma nova função a eles. O lema é “Consuma aqui e alimente seu espírito”.

Tudo começou em outubro do ano passado, durante a Feira do Livro de Sertãozinho e, desde então, a geladeiroteca faz parte das atividades desenvolvidas pela biblioteca General Álvaro Tavares Carmo, mantida pela Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste) desde 1972 em Sertãozinho, no interior do estado paulista.

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Duas geladeirotecas já estão instaladas na cidade. Uma no Clube Esportivo Mogiana e a outra, na sala de espera do Cejusc, o Centro de Soluções de Conflitos e Cidadanias, da Justiça do Estado. Segundo a gerência, em média, cem pessoas visitam cada local diariamente.

As geladeirotecas nada mais são do que geladeiras personalizadas, mas ao contrário de estarem cheias de livros, possuem muitos livros. Todas as obras são fruto de doações para a Biblioteca da Canaoeste. Segundo Beraldo, o objetivo principal “é tirar os livros que estão parados nas estantes e fomentar a circulação. Reutilizar obras sem que haja necessidade de cadastro ou prazo de devolução”. Assim, quem pegar um livro na biblioteca pode devolver ou doar para algum amigo.

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Quem preferir pode deixar um livro para que outras pessoas possam lê-lo. Desde o início do projeto, já foram doados mais de cinco mil obras.

Agora, a pretensão é espalhar o modelo por outras cidades do estado de São Paulo e, por que não, por outros municípios do país. O próximo passo, segundo Beraldo, é levar a geladeiroteca para Ribeirão Preto, também no interior de SP.

Está aí um bom uso para as geladeiras velhas e sem uso, que iriam para o lixo. O projeto está em expansão e, com isso, mais eletrodomésticos serão necessários. Quem quiser doar uma geladeira antiga, pode entrar em contato com a biblioteca pelo e-mail biblioteca@canaoeste.com.br ou pelo telefone: (16) 3524-2453.

Fotos: Reprodução/Facebook

dica do Jarbas Aragão

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Em ‘Skagboys’, Irvine Welsh conta a história pregressa dos personagens de ‘Trainspotting’

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Autor escocês lança a terceira parte da trilogia no Brasil

O escritor escocês Irvine Welsh - / Divulgação

O escritor escocês Irvine Welsh – / Divulgação

Liv Brandão em O Globo

RIO – Entre um livro e outro, uma peça e outra, um roteiro de filme e outro, Irvine Welsh sempre volta aos seus primeiros personagens, àqueles que o consagraram. O autor escocês lança agora no Brasil “Skagboys” (Rocco, com tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari), que conta como Renton, Spud, Begbie e Sickboy, criados em “Trainspotting”, de 1993, e revisitados em “Pornô”, de 2002, se tornaram os junkies eternizados pelo filme de Danny Boyle, estrelado por Ewan McGregor, em 1996.

Faz mais de dez anos desde o lançamento de “Pornô” e mais de 20 desde que “Trainspotting” chegou às prateleiras. O que faz você voltar a Renton, Spud, Begbie e Sickboy de tempos em tempos?

Gosto deles enquanto personagens. Eles são muito de seu próprio tempo, mas também são arquétipos universais. Então eles são um conjunto fantástico de ferramentas para um escritor ter à mão.

“Skagboys” nos mostra mais sobre os bastidores do início da vida destes personagens nas drogas. Qual a importância de voltar ao passado e quão fácil (ou difícil) foi fazer isso?

Achava importante reumanizá-los. Mostrar que eles são apenas caras normais que entraram em uma tempestade de merda que eles simplesmente não entendiam. Remontar a juventude destes personagens foi bastante simples, é como voltar a se aproximar de velhos amigos. Tentei não forçar isso, deixei os personagens me contarem o que eles passaram.

Como foi o processo de escrever “Skagboys”? Suponho que você tenha tido que reler “Trainspotting”.

Sim, e eu odeio ler meus próprios livros. Assim que termino de escrevê-los dou por encerrada minha relação com eles. Mas apesar disso, o processo é o mesmo de tudo o que eu escrevo: eu me vejo em uma sala com pessoas que não existem e minha esperança é conseguir sair dessa sala com algo decente antes que eu enlouqueça.

Como é escrever a história que antecipa “Trainspotting” depois de ver esses personagens ganharem vida no filme, tão icônico?

Eu tive que tentar superar o filme. Até porque é apenas uma aproximação do mundo que eu criei, mas não exatamente aquele mundo. Então eu tive que voltar aos livros para ter a real noção disso.

Como a forma com que os personagens terminam em “Pornô” afetou a história pregressa deles em “Skagboys”?

Boa pergunta, mas eu não tenho certeza. Acho que eu tinha que ter a consciência de onde eles estavam indo. O livro levanta a questão sobre o quanto você muda quando você cresce, envelhece, mas não tenho tenho certeza se sei a resposta para isso.

Além de ser um livro sobre como aqueles personagens se tornaram junkies, é um livro sobre a década de 1980 no Reino Unido, durante a Era Tatcher. Essa fase te marcou, te traumatizou?

Acho que todos nós (os britânicos) somos traumatizados de certa forma, já que ainda estamos vivendo na era do neo-liberalismo, em uma época global, corporativa e controlada pelo estado, modelo que foi criado na década de 1980. Em certo nível, nós temos que seguir em frente e mudar isso, porque isso está nos matando. Nós também precisamos seguir com nossas vidas e aproveitá-las. Às vezes, as duas coisas parecem não funcionar juntas, mas elas funcionam.

Você gostaria de ver “Skagboys” adaptado para outra mídia, como “Transpotting”?

Sim, e eu vejo essa história em uma série. Você pode fazer muito mais por uma dramaturgia orientada pelas histórias dos personagens hoje em dia na TV.

Seu material pode ser bastante engraçado. Você acha que o humor é subestimado na literatura?

Se você pede para um leitor embarcar com você em uma jornada sombria, você precisa oferecer a ele algum humor e leveza durante o caminho. Muitos romances são respeitáveis e sérios demais para o meu gosto.

Muita gente encara prequels e sequências de filmes como manobras comerciais — você acha que o mesmo funciona para os livros?

Eu pessoalmente acho que prequels e continuações são mais comerciais, pois envolvem histórias familiares do público e construção de marca. Mas isso não é motivo para não fazê-las. Às vezes, os personagens que você já usou antes são as melhores ferramentas para o projeto que você deseja realizar.

Você tem planos de escrever mais sobre esses personagens?

Estou sempre escrevendo sobre eles, suas histórias nunca estarão completas.

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Sem acordo, editoras lançam duas traduções de ‘Paradiso’, de Lezama Lima

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Martins e Estação Liberdade alegam que adquiriam os direitos da obra do romancista e poeta cubano e querem honrar o contrato

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Na melhor das hipóteses, o leitor brasileiro poderá, a partir da próxima semana, escolher entre duas traduções do romance Paradiso, do cubano José Lezama Lima (1910-1976): a de Josely Vianna Baptista, feita para a Estação Liberdade, ou a de Olga Savary, encomendada pela Martins. Mas a obra do poeta e romancista não está em domínio público para que novas traduções saiam assim à vontade.

"Paradiso" chega às livrarias em duas novas traduções, mas não há consenso entre editores

“Paradiso” chega às livrarias em duas novas traduções, mas não há consenso entre editores

A história é complicada. Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade, comprou os direitos do título em 2006 diretamente da irmã do escritor, Eloísa Lezama Lima. Foi nessa época que Josely, que já tinha traduzido a obra para a Brasiliense em 1987, iniciou uma nova versão (os direitos daquela primeira edição também foram comprados de Eloísa). Antes disso, porém, em 1983, os direitos de Lezama Lima passaram para o Estado cubano, já que ele não deixou testamento. E desde 1997, a Agencia Literária Latinoamericana é responsável pelas negociações estrangeiras. Foi com essa agência que o editor Evandro Martins Fontes fez negócio em 2011. Ou seja, os dois têm contratos assinados e querem honrar seus compromissos.

A edição da Martins, feita em menos tempo, já começou a ser vendida. A da Estação Liberdade, que traz textos da irmã do autor, está em gráfica e deve ficar pronta na próxima semana.

Bojadsen chegou a sugerir uma coedição, mas, segundo Martins explicou, o contrato que fechou com a agência literária não permitia isso ou a cessão dos direitos. “Este tipo de solução seria complicado, pois teríamos que ter o aceite de todas as partes, inclusive do governo cubano e do sobrinho do Lezama Lima”, diz. O editor tentou, primeiro com Josely Vianna Baptista e depois com a própria editora, os direitos da tradução. “Como não consegui, contratei Olga Savary, que está com mais de 80 anos e vibrou com o trabalho.”

Verter Paradiso não é simples. No romance barroco – e quase autobiográfico –, o poeta experimenta com a linguagem para contar a história do também poeta José Cemí – da infância asmática à descoberta da vocação.

Hoje, Angel Bojadsen se arrepende de ter investido tanto tempo no processo de edição. Ele conta que quando a Martins anunciou a obra, sua versão não estava totalmente pronta. “Ainda estávamos debatendo detalhes com a Josely, que é extremamente meticulosa e reviu a tradução até os últimos detalhes. Combinamos de lançar apenas quando considerássemos a edição à altura da obra-prima de Lezama Lima”, explica. E completa: “Mas eu devia ter dado prioridade total e publicado a obra em 2007 ou 2008, neste caso não teria havido polêmica possível. Mas hoje a editora está em outro momento e decidimos abordar a literatura latino-americana de forma mais endêmica e continuada. Lançar Lezama Lima naquela época seria lançá-lo meio solitário em nosso catálogo”.

Cada uma das editoras mandou imprimir 2 mil exemplares da obra. “De minha parte, Paradiso é tão fundamental e fundador para a literatura latino-americana que comporta duas traduções em nosso mercado”, diz Bojadsen. Evandro Martins Fontes não concorda e disse que poderá tomar medidas legais. “Sou a favor do estado de direito. Não é legalmente possível que duas editoras tenham direitos exclusivos para uma mesma obra.”

Ontem à tarde, a Agencia Latinoamericana acompanhava a movimentação e confirmou, em e-mail enviado pela diretora Wanda Canals, que a instituição é mesmo a detentora dos direitos da obra do cubano. Canals se colocou à disposição da Martins para o que fosse necessário.

Paradiso
Autor: José Lezama Lima
Tradução: Olga Savary
Editora: Martins (624 págs., R$ 84,90)

Paradiso
Autor: José Lezama Lima
Tradução: Josely Vianna Baptista
Editora: Estação Liberdade (616 págs., R$ 74)

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175º Aniversário do Ernesto Carneiro Ribeiro é celebrado em Doodle

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Thiago Barros e Melissa Cruz, no TechTudo

O 175º Aniversário do Ernesto Carneiro Ribeiro é o tema do Doodle do Google exposto na página inicial do buscador nesta sexta-feira (12). Médico, professor e linguista, nasceu em Itaparica, na Bahia, em 1839. Cuidadoso na correção da linguagem, foi pioneiro no Brasil em debates linguísticos na revisão ortográfica do Código Civil Brasileiro e envolveu-se em polêmicas com seu ex-aluno, Ruy Barbosa.

Doodle do Google celebra 175º Aniversário do Ernesto Carneiro Ribeiro  (Foto: Reprodução/Google)

Doodle do Google celebra 175º Aniversário do Ernesto Carneiro Ribeiro (Foto: Reprodução/Google)

O linguista destacou certos aspectos do português praticado no país que não eram percebidos pelos gramáticos, e tornou a língua a primeira com gramática adaptada em função da língua falada. Publicou A redação do projeto do código civil e A réplica do Dr. Ruy Barbosa (1905). Ribeiro morreu em sua terra natal, em 1920, aos 81 anos. Nesta sexta, são completados e celebrados 175 anos do seu nascimento.

No Doodle animado que o Google preparou em homenagem a Ernesto Carneiro, ele é ilustrado no meio da segunda letra “o” da marca da empresa, fazendo uma das coisas que mais gostava: escrevendo. Mas sua carreira começou de forma bem diferente, na medicina. Formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1854, e depois passou a se dedicar ao magistério. Estudou no Liceu Provincial de Salvador.

Ernesto fundou dois colégios na Bahia. Em 1874, o Colégio da Bahia. Dez anos depois, inaugurou uma instituição com o seu próprio nome, o Ginásio Carneiro Ribeiro, que teve seu comando por 36 anos. Professor de português, ensinou muita coisa a nomes muito relevantes na cultura nacional, como Ruy Barbosa, Euclides da Cunha, Rodrigues Lima, Castro Alves, entre outros. Com Ruy Barbosa, porém, viria a ter uma grande polêmica.

A polêmica com Ruy Barbosa

Logo após a proclamação da República do Brasil, no primeiro governo do seu estado natal, Ernesto participou da política. Entrou para uma comissão convocada pelo seu governador Manoel Vitorino, visando a elaboração de um plano de ação educacional. Pouco depois, em 1902, foi incumbido pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores, José Joaquim Seabra, de realizar a revisão do Projeto de Código Civil brasileiro.

Ernesto Carneiro Ribeiro foi um grande gramático (Foto: Reprodução/Wikimedia)

Ernesto Carneiro Ribeiro foi um grande gramático (Foto: Reprodução/Wikimedia)

O projeto era substituir a legislação das Ordenações Filipinas, que já estava obsoleta, havia sido desenvolvido por Clóvis Beviláqua. Já com a bagagem de duas publicações muito destacadas, a Gramática Portuguesa Filosófica, de 1881, e ainda a sua principal obra, os Serões Gramaticais, de 1890, contando a visão histórica da Língua Portuguesa, e o aspecto científico do idioma, respectivamente, ele aceitou o convite.
No mesmo ano, Ruy Barbosa estava na presidência da comissão do Senado instituída para o estudo do trabalho de Beviláqua. Ele apresentou seu parecer sobre o projeto em três dias, com 560 páginas de severas críticas ao projeto legislativo. No seu “Parecer do Senador Ruy Barbosa sobre a Redação do Projeto do Código Civil”, que foi publicado na Imprensa Nacional em abril, chamou o texto de “obra tosca, indigesta, aleijada”.

Então, Ernesto Carneiro Ribeiro, em quatro dias, fez a revisão gramatical do projeto, com o nome de “Ligeiras Observações sobre as Emendas do Dr. Ruy Barbosa ao Projeto do Código Civil” e publicado no Diário do Congresso em outubro de 1902. Ruy publicou uma réplica posteriormente, e em 1905 Ribeiro fez sua tréplica, em 899 páginas: “A Redação do Projeto do Código Civil e a Réplica do Dr. Ruy Barbosa”.

Defendendo a normatização de peculiaridades do idioma português falado no Brasil, o que fazia do filólogo um pioneiro no assunto, Ernesto contribuiu muito para a formação dos estudos da língua e para a concepção da Lei 3.071, ou “Código Civil dos Estados Unidos do Brasil”, que só viria a ser publicado em 1º de janeiro de 1916.

Quatro anos depois, em 1920, ele veio a falecer, mas sua história e seu legado não foram esquecidos pelos brasileiros. E ainda existe o Colégio Estadual Ernesto Carneiro Ribeiro, na cidade de Feira de Santana, na Bahia. Em Vera Cruz, outra cidade baiana, existe uma Avenida Ernesto Carneiro Ribeiro. Agora, neste 12 de setembro de 2014, ele ganha a sua presença no Doodle do Google. Mais uma bela homenagem.

Colégio na Bahia tem o nome do linguista (Foto: Reprodução/Wikimedia)

Colégio na Bahia tem o nome do linguista (Foto: Reprodução/Wikimedia)

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