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A Casa de Anne Frank: um museu para um livro

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Anne Frank, em 1940 | © Domínio público / WikiCommons

Anne Frank, em 1940 | © Domínio público / WikiCommons

 

A partir de Primo Levi e Anne Frank, Roney Cytrynowicz analisa a difusão da fotografia do menino Omran Dagneesh dentro de uma ambulância após ser ferido no bombardeio de Alepo

Publicado no Publishnews

Mais de 1,2 milhão turistas visitam anualmente a Casa de Anne Frank, em Amsterdam, na Holanda, inaugurada como museu em 1960. O que atrai as pessoas é a possibilidade de conhecer a casa e o anexo clandestino no qual Anne Frank viveu e escreveu, dos 13 aos 15 anos, seu diário / romance durante a Segunda Guerra Mundial.

De manhã a visita é realizada com ingressos previamente comprados e, à tarde, por ordem de chegada em uma fila quilométrica. É literalmente uma peregrinação com turistas de todo o mundo, especialmente jovens, tornando a casa um dos locais turísticos mais concorridos da capital holandesa.

Entram a cada cinco minutos grupos de cerca de 50 pessoas e o percurso dura de 30 a 40 minutos. O que se visita é uma casa vazia e seu anexo, com algumas fotos da mobília original, mas o percurso emociona e emudece profundamente os visitantes. O pesado silêncio raramente é rompido por algum comentário. Crianças e jovens se identificam profundamente quando a história contada no diário se torna real e palpável.

Uma frase do escritor italiano Primo Levi pode ser uma das chaves para se aproximar do apelo singular exercido em torno do diário, de sua jovem escritora e da visita à Casa: em uma história com a dimensão do Holocausto, em que seis milhões de pessoas foram mortas, a história de uma única vítima, uma menina, comove, emociona. Porque se fôssemos tentar nos aproximar do que significa o genocídio de milhões de pessoas, entre os quais um milhão e meio de crianças e jovens como Anne, escreve Primo Levi, simplesmente não aguentaríamos continuar vivendo.

A frase de Primo Levi pode ser estendida, claro, para a lógica individualizada da cobertura de mídia sobre outros genocídios e massacres, como vimos na semana passada com a difusão da fotografia do menino sírio Omran Dagneesh, de cinco anos, dentro de uma ambulância após ser ferido no bombardeio de Alepo, Síria, ou de Aylan Kurdi, o menino de três anos cujo corpo foi jogado pelo mar na praia em 2015. Segundo a Unicef, a guerra na Síria afeta profundamente a vida de 8,6 milhões de crianças sírias.

Na visita à Casa de Anne Frank, os recortes de jornal no quarto de Anne, uma das poucas características originais preservadas, comovem. Anne sonhava com Hollywood, gostava de histórias de reis e rainhas. Esta banal normalidade da vida de uma jovem contrasta dolorosamente com o seu destino: o assassinato em uma câmara de gás e depois a incineração em um crematório.

A Casa de Anne Frank é um dos lugares turísticos centrais em uma cidade cheia de atrações imperdíveis, como o museu Van Gogh e o Rijkssmusem. Além do Museu Judaico e diversos outros edifícios, como a Sinagoga Portuguesa do século 17, e a ativa Ets Haim Bibliotheek, fundada em 1639 (vale a pena conhecer o site de manuscritos digitalizados, há um roteiro de museus e monumentos relacionado à Segunda Guerra Mundial: o Hollandsche Schouwburg (o teatro judaico que se tornou o trágico ponto de partida da deportação), um novo museu do Holocausto (em uma antiga escola cujo diretor salvou dezenas de crianças da deportação) e o Museu da Resistência.

A memória da guerra em Amsterdam não deixa de ter suas tensões. Entre os países da Europa Ocidental, a comunidade judaica da Holanda foi a que, proporcionalmente, teve o maior número de mortos: 110 mil de cerca de 140 mil pessoas. Muitas causas poderiam explicar isso, entre elas a força do governo colaboracionista local e a ação de sua polícia em apoio aos nazistas.

Estes números e fatos contrastam com a imagem de um país inteiro solidário (embora a resistência tenha sido vigorosa), imagem que é muito reforçada pela história da pequena e corajosa rede de solidariedade em torno dos habitantes do anexo da família Frank. Como conta Miep Gies em seu livro (Anne Frank: o outro lado do diário, Best Seller), ajudar os Frank era apenas o certo a fazer.

O Museu da Resistência (imperdível e com uma seção para crianças; o site tem versão em português) integra também um circuito de memória local, entre eles o museu de história da cidade, que celebra e exalta a memória de uma Holanda livre, altiva, independente, empreendedora, lembrando que o país foi a principal potência colonial no século 17, quando ocupou Pernambuco para romper o bloqueio que a união entre Portugal e Espanha impôs à circulação do açúcar produzindo no Nordeste brasileiro.

Quando se pensa na história do livro no século 20, suas diferentes edições, tiragens, circulação, leituras e, principalmente, possibilidades de releituras e reinterpretações, o Diário de Anne Frank é certamente uma das histórias mais interessantes e complexas em seu impacto e sua repercussão, traduzido em pelo menos 72 línguas.

O livro tem já uma expressiva bibliografia em torno da história de suas edições, entre eles Anne Frank: A história do diário que comoveu o mundo, da ensaísta e escritora norte-americana Francine Prose (Zahar, 2010), já resenhado nesta coluna. Prose mostra a força literária das duas camadas de texto que Anne escreveu: o diário e, depois, o romance em forma de diário – e a consciência literária que ela foi adquirindo como escritora. O extraordinário é uma menina de sua idade, naquelas circunstâncias, produzir um texto com tal potência literária e de testemunho.

O Diário, editado pela primeira vez em 1947, tem figurado seguidamente na lista dos livros mais vendidos no Brasil. O número de leitores é crescente e o livro passa de geração em geração, novos leitores descobrem renovados sentidos e mensagens, entre inspirações e esperanças sobre a própria vida e o mundo. É intrigante a contínua apropriação do diário por tantas leituras e metáforas adolescentes e adultas, subjetivas e pessoais.

Abordando por um prisma diferente do de Primo Levi, o psicanalista Bruno Bettelheim sugeriu que uma chave para entender o fascínio pelo livro de Anne Frank é que, embora seja uma história relacionada a Auschwitz, o diário em si não conta o destino final de Anne, de sua família e dos moradores do anexo. O diário termina antes, como se pudéssemos esconder de nós mesmos o que aconteceu depois.

Um texto da psicológica Roseli Sayão sobre adolescência sugere que uma das diferenças da adolescência de hoje para a de anos atrás é que enquanto na de anos atrás jovens escondiam seus segredos dos pais e adultos, hoje eles os escancaram nas redes sociais, sem qualquer constrangimento. Questões da mais profunda intimidade são expostos em público.

Talvez aqui se encontre outra dimensão para entender o sucesso do Diário de Anne Frank: o acesso ao mundo íntimo, aos sentimentos, conflitos, angústias, desejos, sonhos de uma jovem, em uma situação histórica absolutamente limite. Mas o diário não apenas guardava seus segredos dos adultos do próprio anexo. É como se o diário guardasse sua vida do perigo máximo, a ocupação nazista a poucos metros, em uma corrida contra o tempo, da própria morte certa, a morte por gás. E Auschwitz é parte do mundo que os adultos (fora da casa) criaram.

No recém-publicado em português A assimetria e a vida. Artigos e ensaios 1955-1987 (Editora da Unesp, uma edição muito bem cuidada), Primo Levi, no artigo (1980) Com Anne Frank falou à história, conta em uma frase singela o encontro com Otto Frank, pai de Anne: “cruzei em Auschwitz durante uns poucos minutos logo depois da libertação: estava procurando as duas filhas desaparecidas”.

Otto sobreviveu, voltou para casa e encontrou o diário / romance, guardado por Miep Gies. O Diário de Anne Frank e É Isto um Homem?, de Primo Levi, foram publicados pela primeira vez no mesmo ano, em 1947.

O que os soldados soviéticos liam durante a 2ª Guerra Mundial?

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Soldados de artilharia em campo leem título de autoria de Stálin, em 1952 Foto: Ullstein Bild/Vostock-Photo

Soldados de artilharia em campo leem título de autoria de Stálin, em 1952 Foto: Ullstein Bild/Vostock-Photo

Púchkin, Shakespeare, partituras… Publicação de livros não parou na URSS, e bibliotecários iam ler à beira das trincheiras e em hospitais.

Marina Obrazkova, na Gazeta Russa

Mesmo durante os anos da Grande Guerra Pátria (1941-1945), o mundo dos livros continuou sendo muito especial na União Soviética. Ainda com os combates, a devastação e a fome, as pessoas liam muito, e novas bibliotecas eram continuamente inauguradas. Só na unidade federativa de Moscou, 200 novos estabelecimentos do gênero foram abertos no período.

“Com a guerra, o bibliotecário passou a ter novas responsabilidades. Por exemplo, se a biblioteca era atingida por um projétil, ele tinha que selecionar todos os livros que não haviam sido danificados e encaminhá-los a outras instituições”, conta Elena Arlánova, curadora da exposição “Vitória: histórias não inventadas”.

Na biblioteca Tchernichévski, em Moscou, a exibição apresenta mais de 300 títulos publicados entre 1941 e 1945.

A mostra traz informações curiosas ao visitante. O fato de muitas edições do período terem saído em formato de bolso, por exemplo, não era pura coincidência, mas uma forma de facilitar a leitura pelos soldados em campo.
Seguindo essa fórmula, uma coleção de citações do chefe militar russo Aleksandr Suvorov (1730-1800), exibida na biblioteca, encaixava-se perfeitamente no bolso ou na mochila.

Para Arlánova, a escolha pela edição de “Preceitos de Suvorov” na época não se deu por acaso. “Um amigo meu veterano costuma dizer que não foram os artilheiros ou os tanquistas que ganharam a guerra, mas os instrutores políticos que preparavam os soldados para a batalha, ao ajudá-los a manter disposição e estado de espírito adequados.”

Política e jardinagem

A literatura publicada então era muito diversificada. De um lado, havia obras filosóficas e políticas: “Diplomacia”, de Harold Nicolson; “A Paz” de André Tardieu; “História da Filosofia em dois volumes”; títulos do diplomata Otto von Bismarck e do filósofo Plutarco; algumas obras sobre a invasão francesa à Rússia em 1812 e sobre os confrontos entre tribos eslavas e germânicas.

Também foram publicados diversos clássicos, russos e estrangeiros: Shakespeare, Púchkin, Dante, Górki, Dickens e Tolstói.

Além disso, outras publicações surpreendiam pela temática aparentemente desnecessária para aqueles anos, como era o caso de “Jardinagem Ornamental” e “Caça”, volumes da Grande Enciclopédia Soviética, um álbum artístico do pintor russo Karl Briullov e um livro sobre fundamentos da composição musical, além de partituras de compositores clássicos como Glinka, Rímski-Kôrsakov eRachmaninoff.

Conversação como arma

Além de livros de viés militar e político, a época exigia a publicação de dicionários e guias de conversação. Afinal, o Exército soviético estava se deslocando e chegava a novos países, onde precisava se comunicar com a população local.

Uma grande quantidade de publicações do gênero foi impressa e, por meio delas, pode-se até esboçar a movimentação do Exército soviético: dicionários polonês-russo, romeno-russo, turco-russo, japonês-russo etc.

Também era editada literatura nas línguas dos povos da URSS. Assim, as populações das repúblicas podiam ler nas línguas nativas e os russos podiam conhecer as culturas daqueles que lutavam a seu lado, ombro a ombro. Mais de uma dezena de editoras continuava em funcionamento. Muitas foram evacuadas para a retaguarda, mas continuavam a produzir livros.

Livros contra o MP3

Para o especialista em literatura militar Boris Leonov, a guerra trouxe muitas novidades literárias e conferiu valor ainda maior aos livros.

“Esse período nos presenteou com toda uma categoria de literatura militar que se tornou clássica e serviu de base para as futuras obras do século 20. Surgiram muitas obras poéticas, romances e histórias sobre a guerra. Parte dessas foi impressa durante nesses anos”, disse Leonov à Gazeta Russa.

Já os bibliotecários, passaram a exercer uma função quase de pregadores. “Os funcionários das bibliotecas começaram a ir às trincheiras que estavam sendo cavadas para ler em voz alta para quem trabalhava nelas. Eles também o faziam em hospitais”, diz Arlánova.

“Hoje, isso já não é mais possível. As pessoas passam a maior parte do tempo ouvindo MP3 e assistindo a filmes. O livro deixou de ser a base da cultura”, diz Leonov.

Manuscrito do matemático Alan Turing é leiloado por US$ 1 milhão

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Um caderno manuscrito de 56 páginas que pertenceu ao pioneiro da computação Alan Turing é leiloado em Nova York (Foto: REUTERS/Bobby Yip)

Um caderno manuscrito de 56 páginas que pertenceu ao pioneiro da computação Alan Turing é leiloado em Nova York (Foto: REUTERS/Bobby Yip)

Ele foi responsável por decifrar códigos nazistas na 2ª Guerra Mundial.
‘Isso reflete a importância dele na história’, diz especialista em livros raros.

Publicado no G1

Um caderno manuscrito de 56 páginas que pertenceu ao pioneiro da computação Alan Turing, responsável por decifrar códigos nazistas na Segunda Guerra Mundial e interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch no filme “O jogo da imitação”, foi vendido por mais de US$ 1 milhão num leilão realizado em Nova York, afirmou a casa de leilões Bonhams nesta segunda-feira (13).

Turing, um gênio da matemática britânico, liderou a equipe de criptógrafos que decifrou o código de guerra Enigma, tido pelos alemães como inquebrável, trabalho que se acredita ter acelerado o fim da Segunda Guerra Mundial e salvado vidas.

A especialista do departamento de livros raros e manuscritos da Bonhams, Cassandra Hatton, disse que o resultado do leilão presta um testemunho sobre o legado de Turing.

“Isso reflete a importância dele na história. Acho que ele é alguém que merece um estudo mais aprofundado, e espero que isso contribua para aumentar o interesse nele e no trabalho dele”, disse em entrevista.

O leilão também reafirma um crescente interesse por itens de cunho científico, relacionados à história dos computadores, da investigação do espaço, da exploração do planeta e ligados aos primeiros experimentos científicos, acrescentou ela.

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