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Escritor Ferreira Gullar é eleito o novo integrante da Academia Brasileira de Letras

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Escritor ocupará a cadeira de número 37, onde já passaram Ivan Junqueira, João Cabral de Melo Neto, Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas

Publicado no Correio da Bahia

 

Escritor Ferreira Gullar é eleito o novo integrante da Academia Brasileira de Letras

Foto: Divulgação

O escritor maranhense Ferreira Gullar, de 84 anos, é o novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleito nesta quinta-feira (9), Gullar ocupará a cadeira de número 37, onde já passaram Ivan Junqueira, João Cabral de Melo Neto, Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas.

José Ribamar Ferreira, mais conhecido como Ferreira Gullar, é poeta, tradutor, dramaturgo, ensaísta e crítico de arte.

Ele escreveu livros marcantes como A luta corporal (1954), Poema Sujo (1976) e Em alguma parte alguma (2010), que em 2011 ganhou o Prêmio Jabuti.

Além do Jabuti, os livros de Gullar já receberam diversos outros prêmios de literatura, incluindo seus poemas infantis. Ele se destacou, ainda, como crítico de arte e roteirista de televisão. Em 2010, o autor foi agraciado com o Prêmio Camões, a mais importante premiação literária da língua portuguesa.

A cerimônia de posse na ABL acontece, porém, apenas no próximo ano.

Niskier diz que Nuvem de Livros é o remédio contra a pirataria

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Nuvem de livros

Publicado no Yahoo
Madri, 5 out (EFE).- O imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Arnaldo Niskier acredita que a Nuvem de Livros, o projeto de uma biblioteca virtual online criado no Brasil há três anos com grande sucesso, é uma ferramenta perfeita “contra a pirataria”.

Nieskier, que foi secretário de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia no estado do Rio de Janeiro, explicou à Agência Efe que esse projeto “não dá motivos para estimular a pirataria, porque, por cerca de três euros por mês (US$ 3,70), você pode ter acesso a informações e mais de 30 mil livros que estão na nuvem utilizando um computador ou um celular”.

A Nuvem de Livros, que, segundo Niskier, é um projeto que em breve será levado à Espanha e ao Peru, é uma biblioteca digital multiplataforma criada por Jonas Suassuna que é possível acessar de computadores e celulares conectados a internet.

“Esta experiência é uma solução que me parece inédita no mundo”, opinou o acadêmico. “No início do ano que vem teremos 2 milhões de estudantes, de gente interessada em ler os livros através da nuvem”. “É algo de muita qualidade e é um espetáculo”, acrescentou Niskier, que está de visita na Espanha.

O professor e acadêmico reivindica uma reforma no sistema educacional de seu país porque “nunca a educação e a cultura foi uma coisa prioritária para os governos”, acrescentou.

“No Brasil temos 60 milhões de estudantes em 200 mil escolas, mais que a população de muitos países do mundo, como a Espanha, mas não há uma educação de qualidade. Temos aulas durante três ou quatro horas por dia, quando deveriam ser oito. Os professores estão desmotivados e não recebem salários compatíveis com a dignidade humana”, destacou o imortal.

“Temos que trabalhar com uma pedagogia nacional, porque o Brasil tem uma personalidade própria. Olharam para teorias do exterior que em meu país não funcionam. Há anos focaram em gente como (Jean) Piaget, o gênio suíço que trabalhou sobre realidades europeias com crianças bem alimentadas que tinham a assistência de seus pais, e isso são coisas que não ocorrem no Brasil”, opinou Niskier.

Como acadêmico, reconhece que a modernidade entrou definitivamente na ABL, uma instituição avaliada positivamente por 84% da população brasileira, afirmou baseado em uma pesquisa recente.

“Nós temos no Brasil um dicionário com 94 mil entradas em língua portuguesa que serve para o mundo lusófono, e temos um site na internet com um sucesso extraordinário, feito por uma comissão de lexicografia e lexicologia com um grande equipamento eletrônico moderno que faz com que o público participe”.

“As pessoas podem fazer perguntas com seu computador que são respondidas todos os dias, inclusive aos sábados e domingos. Temos uma base de 5 mil questões por dia”, explicou.

Niesker, que também visitou a Academia da Língua Espanhola e conheceu como será a nova edição do dicionário da Real Academia Espanhola (RAE), que será lançado no próximo dia 16, afirma que o estudo da língua espanhola no Brasil é cada vez maior.

“No Brasil temos o português como língua oficial e durante muitos anos tivemos o francês como segunda língua, até a Segunda Guerra Mundial. Depois veio o inglês, mas o espanhol era quase desconhecido em nossas escolas, e agora, vendo a realidade objetiva, se vê que o interesse pelo espanhol cresce muito”.

“Muitos cursos de espanhol são oferecidos nas capitais brasileiras e eu acho que supera ao francês. Em pouco tempo foram criadas muitas oportunidades de negócio, de trabalho com o mundo hispânico. Muita gente vem ao Brasil porque a economia cresce e há boas oportunidades para fazer negócios”, concluiu o acadêmico. EFE

A grande literatura brasileira numa colecção de referência

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Livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto e Alfredo Bosi abrem colecção lançada pela editora Glaciar e pela Academia Brasileira de Letras.

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Luís Miguel Queirós, no Público

A editora portuguesa Glaciar e a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançaram esta segunda-feira na Fundação Gulbenkian os primeiros quatro volumes da colecção Biblioteca de Academia, um projecto editorial que se propõe lançar em Portugal, ao longo dos próximos anos, 25 obras fundamentais da literatura e cultura brasileiras.

Os quatro títulos já lançados – aos quais se juntará ainda este ano O Ateneu, de Raul Pompeia, uma notável singularidade impressionista na ficção brasileira do final do século XIX – mostram bem as ambições desta colecção, que aposta em edições de referência, volumosas, muito cuidadas e bastante caras.

O primeiro volume é uma monumental compilação dos dez romances de Machado de Assis, precedidos de uma extensa apresentação do ensaísta e professor de literatura brasileira Luís Augusto Fischer, igualmente responsável pela fixação do texto. Se os romances da chamada trilogia realista de Machado de Assis – o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borbas (1891) e Dom Casmurro (1899) – foram sendo regularmente publicados em Portugal, já os seus primeiros livros, como Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874) ou Helena (1876), dificilmente se encontram nas livrarias, e ainda menos em edições fiáveis.

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

Com mais de 1500 páginas e capa dura, o livro custa quase 80 euros. Os restantes volumes já lançados são mais pequenos e mais baratos, com preços que andam entre 30 e os 50 euros. “Os livros são caros, não vou dizer que são baratos”, reconhece o editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá, mas afirma que preferiu “editar obras que podem durar 20 anos”, e não pensadas para a cada vez mais vertiginosa rotação das novidades nas livrarias. “Em 15 anos como editor [co-fundou a Quasi e esteve depois no grupo Babel], nunca fiz uma coisa tão interessante”, diz.

E a verdade é que quem não tiver condições económicas para comprar estes livros tem pelo menos a garantia de que os poderá ler sem ter de se afastar demasiado de casa, já que a Academia Brasileira de Letras encarregou a Glaciar de distribuir exemplares não apenas às poucas bibliotecas que beneficiam de depósito legal, mas a todas as bibliotecas municipais do país.

O ensaísta e poeta Antônio Carlos Secchin, membro da ABL desde 2004 e coordenador da colecção, explicou ao PÚBLICO que “no acordo feito com a Glaciar, a Academia quis ter a certeza de que todas as bibliotecas públicas portuguesas receberiam um exemplar”. Secchin, que esteve esta segunda-feira na Gulbenkian a apresentar a colecção, recorda que o projecto nasceu de uma proposta da Glaciar que a ABL adoptou. “A Academia é uma instituição privada, com recursos próprios, e assume nos seus estatutos o compromisso de difundir a língua e a literatura nacional, e é isso que está fazendo com esta colecção”, diz ainda Secchin.

Cinco títulos por ano
Embora não sejam ainda conhecidos os volumes que sairão a partir de 2015 – a ideia é publicar cinco títulos por ano até 2018 –, o académico brasileiro adianta que “a colecção vai incidir em grandes nomes já falecidos da literatura brasileira”, em “livros clássicos, como os romances de Machado de Assis, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, que passaram pela prova do tempo, mas que nunca tiveram em Portugal a repercussão que justificariam”.

A única e “grata excepção” à regra de não incluir autores vivos, acrescenta Secchin, é justamente o segundo volume da colecção, a Dialética da Colonização, do historiador e crítico Alfredo Bosi, que esteve também na sessão da Gulbenkian, a falar deste seu livro originalmente publicado em 1992. A edição tem prefácio da ensaísta portuguesa Graça Capinha, autora que já desde meados dos anos 90 vem chamando a atenção para a importância das abordagens interdisciplinares de Bosi ao discurso literário. Num conjunto que será dominado pela criação literária em sentido mais estrito, a escolha de Dialética da Colonização é também um modo de mostrar que a colecção pretende ter um âmbito mais latamente cultural e não exclui o ensaísmo.

Um dos quatro volumes já lançados é, de resto, uma das mais inclassificáveis obras da literatura de língua portuguesa de todos os tempos: o extraordinário Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, que é uma emocionante história da Guerra de Canudos e uma epopeia da vida sertaneja no final do século XIX, mas que também pertence de pleno direito à literatura científica, com a sua detalhada informação geográfica, histórica e sociológica.

Todos os livros da colecção têm prefácio de um especialista na obra e no autor – no caso de Os Sertões, Leopoldo M. Bernucci – e uma breve nota biográfica no final. Esta edição da obra-prima de Euclides da Cunha inclui ainda fotografias e, tal como o livro de Bosi, um índice onomástico.

Queremos dar “chaves de acesso aos leitores”, justifica Secchin, e foi justamente isso o que fez no volume que ele próprio organizou, a edição da obra poética completa de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), igualmente lançada na sessão da Gulbenkian.

Partindo da edição que ele próprio organizara em 2008 para a Nova Aguilar, Secchin acrescentou-lhe o livro póstumo Ilustrações para Fotografias de Dandara, com poemas que João Cabral de Melo Neto (que foi cônsul-geral do Brasil no Porto na década de 80) escreveu quando estava colocado, como diplomata, no Senegal.

“Fiz também questão de incluir notas explicativas”, diz, porque o cosmopolita poeta pernambucano era, ao mesmo tempo, alguém “muito vinculado à cultura do Nordeste”, cujos textos incluem “referências geográficas e linguísticas que são difíceis mesmo para leitores brasileiros”. Jorge Reis-Sá acrescenta que decidiram acrescentar a esta edição da obra poética dois ensaios do autor, nos quais este “fala da sua poesia e da dos outros”: Poesia e Composição e Sobre a Função Moderna da Poesia. Com perto de mil páginas, o livro inclui ainda uma cronologia do autor redigida por Antônio Carlos Secchin e reproduz uma entrevista que este fez nos anos 80 ao autor de Morte e Vida Severina (1955) ou Educação pela Pedra (1966). Secchin resume: “É a melhor edição disponível, em Portugal ou no Brasil, da obra poética de João Cabral de Melo Neto.”

Não se sabe quem serão os próximos autores a publicar, mas há alguns autores brasileiros já desaparecidos e de qualidade mais do que reconhecida que ficam excluídos à partida: aqueles que, por vontade própria ou alheia, nunca chegaram a entrar na Academia Brasileira de Letras, como Carlos Drummond de Andrade.

Professora com síndrome de Down lança livro de fábulas sobre inclusão

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Débora Seabra usa animais para falar de preconceito, rejeição e amizade.
Ela é a primeira professora do país com síndrome de Down.

Débora Seabra escreveu livro infantil sobre inclusão (Foto: Divulgação )

Débora Seabra escreveu livro infantil sobre inclusão (Foto: Divulgação )

Vanessa Fajardo, no G1

Débora Araújo Seabra de Moura, de 32 anos, a primeira professora com síndrome de Down do Brasil, acaba de lançar um livro com fábulas infantis que têm a inclusão como pano de fundo. O livro traz contos que se passam em uma fazenda e têm os animais como protagonistas. Eles lidam com problemas humanos como preconceito e rejeição, caso do sapo deficiente que não conseguia nadar, da galinha excluída do grupo por ser surda e do passarinho de asa quebrada que precisou ganhar a confiança dos outros bichos para poder voar com eles.

Com 32 páginas, a obra “Débora conta histórias” (Araguaia Infantil, R$ 34,90) estará à venda nas livrarias a partir desta segunda-feira (5). As ilustrações são de Bruna Assis Brasil.

A professora também usa os bichos para abordar a importância da tolerância, respeito e amizade. Uma das fábulas é sobre a discriminação que o pato sofria por não querer namorar outras patas, e sim, patos.

Em outra, Débora conta a história de amizade entre um cachorro e um papagaio. Alguns contos foram escritos baseados em situações vividas por ela. O texto da contracapa é do escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo Ribeiro.

“Usei os animais, mas as histórias se encaixam aos humanos. É preciso respeitar e incluir todo mundo, aceitar as diferenças de cada um. Ainda existe preconceito”, afirma Débora.

O livro nasceu em 2010, quando a jovem resolveu escrevê-lo para dar presente de Natal aos pais, o médico psiquiatra José Robério e a advogada Margarida Seabra. “Queria fazer uma surpresa, e eles ficaram felizes, adoraram a ideia.”

Margarida lembra que a filha passou alguns meses dedicada a escrever a obra escondida no quarto, quando a mãe entrava de surpresa ela tratava logo de proteger o presente.

1Veja a reportagem do Fantástico sobre a professora Débora

“A gente não imaginava, achávamos que fosse um diário.” Os contos não foram escritos com a expectativa de se tornar livro, mas como o resultado agradou a todos, Margarida se rendeu aos conselhos e pedidos dos amigos e da família e foi em busca de uma editora. Antes, cogitou publicá-lo de forma independente, mas não foi preciso.

Não foi a primeira vez que a professora testou o lado escritora. Antes do livro de fábulas, escreveu a própria história que depois de ter as folhas impressas e presas por um espiral, foi dada aos pais. “Toda a família leu, guardamos como lembrança, mas achei que era comum. Já com as fábulas fiquei muito emocionada. As pessoas se surpreenderam pela dedicadeza das histórias”, diz Margarida.

A obra “Débora conta histórias” será lançada oficialmente no mês de setembro em um evento para convidados, em Natal. Ainda não há data definida.

Escolas regulares

A autora da obra nasceu em Natal (RN) e há nove anos trabalha como professora assistente em um colégio particular tradicional da cidade, a Escola Doméstica. Débora sempre estudou em escolas da rede regular de ensino e se formou no curso de magistério, de nível médio, em 2005.

Quando começou a frequentar a escola, pouco se sabia sobre a síndrome de Down. Débora contou com o apoio da família que contrariou a tendência de matricular a filha uma escola especial, assim como fazia os pais naquela época. “Nunca cogitei uma escola especial porque Débora era uma criança comum. A escola especial era discriminatória e ela precisava de desafios. Não sabia muito bem como seria, mas estava aberta para ajudar minha filha a encarar qualquer coisa”, diz Margarida.

Nem sempre foi fácil. Débora já foi vítima de preconceito. Ainda na educação infantil, lembra de ter sido chamada de ‘mongol’ por um garoto. Ela chorou, ficou magoada, mas encontrou na professora uma aliada que explicou à classe que ‘mongóis’ eram os habitantes da Mongólia e ainda ensinou as crianças o que era a síndrome de Down.

Por conta de sua experiência com professora, Débora já foi convidada para palestrar em várias partes do país e até fora dele, como Argentina e Portugal. Sempre que pode participa de iniciativas para ajudar a combater o preconceito, como apresentações teatrais – mais uma de suas paixões.

Débora Seabra lê histórias aos alunos na Escola Doméstica de Natal (Foto: Arquivo pessoal)

Débora Seabra lê histórias aos alunos na Escola Doméstica de Natal (Foto: Arquivo pessoal)

“A carreira de professora é a que dá maior gratificação amorosa”

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Aos 96 anos, Dona Cleo, xodó dos amantes da literatura, abre sua biblioteca, recita de cabeça poemas de Fernando Pessoa e dá uma lição de sensibilidade e energia

Foto: Wilton Júnior/Estadão

Foto: Wilton Júnior/Estadão

Sonia Racy, no Estadão

Aos 7 anos, Cleonice Berardinelli escreveu seu primeiro poema – definido por ela como “minúsculo e ridículo, naturalmente, próprio de 7 aninhos de idade”. Hoje, aos 96, é uma das professoras de literatura mais reconhecidas e queridas do Brasil. Dona Cleo, como é carinhosamente chamada, brinca ao dizer que é meio carioca, meio paulista e muito portuguesa. Sua relação com Portugal não se restringe à paixão pela literatura de lá – ela é especialista em Camões e Fernando Pessoa –, mas pelos muitos amigos portugueses que ainda cultiva. Alguns, inclusive, fizeram questão de prestigiá-la quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 2010. Ela ocupa a cadeira de número 8.
Formada pela USP em 1938, é professora emérita da UFRJ e da PUC do Rio. Foi orientadora de 74 dissertações de mestrado e 42 teses de doutorado. É unânime. Zuenir Ventura, seu ex-aluno, a apelidou de “divina Cleo”. E de Carlos Drummond de Andrade ganhou poema, cujos versos dizem: “Até Fernando Pessoa, com respeitoso carinho/ trago pois, minha oferenda/ de bem humilde vizinho/ nesta ensancha prazenteira/ a justiça que me impede/ à genuína fazendeira/ Cleonice Berardinelli.”

Recentemente, atraiu olhares de todo o Brasil ao dividir uma mesa, na Flip, com sua mais nova fã, Maria Bethânia. Durante uma hora e meia, leram poemas de Pessoa selecionados por Dona Cleo. A simpatia do público pelo carisma da professora foi imediata. O carinho foi retribuído nos autógrafos de seu novo livro, Antologia Poética, na mesma noite. “Fiquei exausta, mas virei notável, foi um sucesso”.

A professora recebeu a coluna, em seu apartamento, em Copacabana, na zona sul do Rio, antes da vinda do papa Francisco ao Brasil. Católica, ela se disse contente. “Ele é de uma falta de atavios, uma simplicidade impressionante. E escolheu o nome de Francisco. Amo a oração de Francisco”, diz.

No seu escritório, montou uma biblioteca – batizada de “Galeria Camões”. Os livros, diz, deixará para a Academia Brasileira de Letras, para que sejam bem cuidados. Além deles e das inúmeras fotografias dos netos e bisnetos espalhadas pela biblioteca, Dona Cleo coleciona uma séria de prêmios e honrarias, acumulados ao longo de sua carreira: “Das profissões, professora é a que dá mais gratificação amorosa. Tenho mais de mil ex-alunos”.

Ela impressiona pela memória. Não esquece um verso de qualquer poeta, recitando tudo de cor. A boa saúde, explica, tem dois grandes motivos: a família e a religiosidade: “Tenho conversas particulares com o pai do céu. Enquanto eu estiver vivendo como estou… eu gosto de viver”.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

A mesa da última Flip de que a senhora participou junto com Maria Bethânia, sobre Fernando Pessoa, foi um sucesso. Como vocês duas se conheceram?

Faz um tempinho. Júlio, nosso mediador na Flip e meu ex-aluno, me disse que Bethânia queria que eu olhasse uma seleção de poemas do Fernando Pessoa, feita por ela, para um show. Fui assistir ao espetáculo, fui ao camarim cumprimentá-la. E foi assim que a conheci. Sobre os poemas, ela pediu que eu escolhesse. Ela é de um grande carinho e delicadeza comigo.

E então nasceu uma amizade?

Mais ou menos. Começamos a nos encontrar em muitas homenagens. No Conselho Federal de Educação, na Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro, em Portugal. E brinquei com ela que estávamos habituadas a receber prêmios juntas.

Foi difícil fazer uma seleção de poemas de Pessoa para a Flip?

É como tirar pedaços seus, levar e deixar outros pedaços. Mas como escolhemos muitos, não foi tão doído. Mandei para ela com um bilhetinho assim: “Para Bethânia, com a condição de que, corte, acrescente, altere à vontade”. Então, foi engraçado, porque ela tem umas cisma. Por exemplo, ela não diz a palavra “desgraça”.

Não?

Não. E iríamos ler um poema muito bonito que diz assim: “…ou desgraça, ou ânsia – Com que a chama do esforço se remoça/ E outra vez conquistemos a distância/ Do mar ou outra, mas que seja nossa.” Daí ela me disse “Dona Cléo: eu não falo essa palavra”. E eu emendei, dizendo que não tinha importância. Poderíamos trocar por “desgraça” ou por “miséria”. Então mantivemos um poema de que eu gosto muito (risos).

Maravilhoso. Mas a senhora trocou mesmo?

Sim (risos), tem o mesmo nome – “miséria”, “desgraça”. Mesmo lugar de acentuação, não ia estragar o poema. Então, lá ficou.

A senhora já afirmou que não gostaria de ser uma heterônima do poeta, porque o Fernando Pessoa foi muito triste.

Acho que ele foi, de um modo geral, uma pessoa tendendo mais à infelicidade. Dos heterônimos, o mais “contentinho” é o Alberto Caeiro. O Ricardo Reis não é nem isso nem aquilo, é o equilíbrio.

Por que a senhora acha que os leitores têm mais dificuldade com Ricardo Reis?

É uma poesia muito reflexiva, inteligente e, às vezes, um pouco difícil de entender. Possui uma sintaxe alatinada, mas é interessante.

A senhora é bem religiosa. O que acha da religiosidade na obra de Fernando Pessoa?

Tem o poema em que ele fala sobre o Menino Jesus. Esse poema é uma faca de dois gumes. De um lado, começa lindo, quando ele diz “Um meio dia de fim de primavera/ Tive um sonho como uma fotografia/ Vi Jesus Cristo descer à terra”. E ele fazia isso, fazia aquilo. E é uma gracinha o menino Jesus, chapinhando na lama, aquela coisa toda que é de uma delicadeza altamente poética. Principalmente no fim, quando ele diz: “Quando eu morrer, filhinho/ Seja eu a criança, o mais pequeno/ Pega-me tu no colo. E leva-me para dentro da tua casa”. Mas há passagens que são de uma grosseria horrível, por exemplo, quando o texto diz que o espírito santo é uma pomba suja, que suja as cadeiras todas do padre eterno. Quer dizer, eu acho isso de mau gosto. Não dava esse poema, em classe, justamente por causa disso.

Fernando Pessoa se dizia cristão agnóstico, Dona Cleo?

Ele não era de religião nenhuma, era uma pessoa metafísica, sem dúvida. Queria o antes e o depois. Isso está na poesia dele. O Alberto Caeiro, por exemplo é o guardador de rebanhos. O rebanho são os meus pensamentos. E os meus pensamentos são todos sensações. Com as mãos, os pés, os olhos, os ouvidos, etc. É o homem das sensações. Depois ele diz: “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia/ Não há nada mais simples / Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte”.

Como católica, o que a senhora acha do papa Francisco?

E é de uma falta de atavios, de uma simplicidade… Repare. Não quis avião especial, não quis regalias. E São Francisco é um santo maravilhoso, foi muito bem escolhido esse nome dele. Se tem uma coisa que eu gosto é a oração de São Francisco. Você conhece essa?

Sim.

A oração diz assim: “Senhor fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão”. É feita de antinomias. Eu acredito, justamente, que esse papa vai trazer tudo isso. Ele se inspirou em São Francisco porque esse é o sonho dele. Que ele seja para todos e de todos. E eu digo: tomara.

Quando foi que a senhora se descobriu professora?

Desde que eu entrei para a faculdade, com Fidelino de Figueiredo. Queria ser como ele. Claro que nunca cheguei lá. Mas era um homem de uma cultura enorme.

Qual para senhora é a maior emoção de dar aula?

É a profissão que dá mais gratificação amorosa. Eu encontro, em todo lugar, algum ex-aluno. É um clã, uma coisa imensa. Tenho mais de mil. Comecei dando aula particular, depois passei para colégios. Em um deles, introduziram o latim nas turmas. E eu fui parar nisso. Adoravam as aulas de latim.

A senhora acredita que o latim faz falta na grade escolar hoje em dia? Principalmente por conta da etimologia das palavras?

Eu acho mesmo, a etimologia! É uma coisa automática. Quando me deparo com uma palavra que não conheço, digo: espera aí! Como é que ela é formada? Agora mesmo eu estou tomando um remédio que se chama Condroflex. Repare: Condro é articulação. Flex, flexibilidade. Esses nomes de remédio são muito bem escolhidos. Então Condroflex é um remédio para dar flexibilidade à minha articulação.

E a senhora se recorda bem de latim?

Ainda lembro. Eu lecionei esse tempo todo, né? E tive a sorte de ter um professor de latim do primeiro colégio, que era um rapaz bem moço, inteligente, que me fez, uma vez, uma dedicatória em latim que dizia: “A primeira entre os primeiros alunos meus, pequena recordação do Professor Aquimo.” Fiquei orgulhosíssima.

A senhora acha que mudou muito o perfil do aluno universitário ou o interesse pelo conhecimento continua o mesmo?

Olha, eu dei aula, em turmas, até uns três anos atrás. É o mesmo interesse.

Dona Cleo, esse ano temos o centenário de Vinicius de Moraes. O que a senhora acha da obra de Vinicius?

Veja, eu não li muito de Vinicius de Moraes, mas do que eu conheço, gosto. Ele foi um grande sonetista. Alguns sonetos são muito lindos, primorosos mesmo. Eu acho que alguns poemas dele têm uns requintes maiores, há muita coisa que é muito bonita e que vale a pena…

O que a senhora recomendaria para quem quer começar a ler poesia?

Mostre a ela o que está dentro daquela poesia. Que às vezes parece meio indevassável. A sensação de “não posso passar daqui, não estou entendendo nada”. Porque há poesia difícil, mas há poesia fácil também. A do Vinicius, por exemplo, não é das mais difíceis, é bem acessível. /MARILIA NEUSTEIN

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