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Lei contra biografias não autorizadas faz editora LeYa engavetar livro sobre José Dirceu

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Mônica Bergamo, na Folha de S.PauloLogo-Leya-1

A editora LeYa decidiu engavetar livro sobre a vida de José Dirceu que publicaria ainda neste ano. Motivo: a lei brasileira que proíbe o lançamento de biografias sem a autorização do biografado seria tão drástica que poderia gerar multas e punições que colocariam em risco a própria existência da empresa no país. O parecer foi dado pelo departamento jurídico da editora portuguesa.

FORO ÍNTIMO
“Não houve ameaça do José Dirceu. Nós é que tivemos dúvidas e decidimos consultar advogados. Mas o direito à reserva da vida privada é considerado absoluto no Brasil, o que faz com que seja impossível publicar livro sobre qualquer personagem histórico do país”, diz Maria João Costa, editora-executiva da LeYa. “Até personagens secundários citados em fatos irrelevantes poderiam processar a editora.”

DÁ UM FILME
A obra é assinada por Otávio Cabral, jornalista da revista “Veja”. “Cada linha do livro poderia ser provada. Já tínhamos comprado os direitos”, diz a executiva. “É absolutamente frustrante e algo que não ocorre em outros países democráticos. Aqui tudo é proibido. Histórias fantásticas não poderão ser contadas no Brasil.” Como a vida de Dirceu, que, segundo Maria João Costa, “é digna de cinema”.

NA GAVETA
Entre os precedentes que assustam a LeYa estão a vitória do cantor Roberto Carlos, que já conseguiu recolher e incinerar a edição de um livro sobre sua vida, e o processo que o dono de uma academia de boxe moveu contra editora que lançou a biografia de Anderson Silva.

Por que publicar os clássicos?

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Editor aposta nos ícones da ficção científica para formar leitores do gênero no Brasil

Diogo Sponchiato na revista Galileu

Editora Globo

Já leu Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Não? Ok, mas você já assistiu (ou pelo menos ouviu falar) Blade Runner: O Caçador de Androides, certo? É bem provável que não sejam muitos os brasileiros que mergulharam nas páginas do livro de título misterioso de Philip K. Dick, que inspirou o filme de Ridley Scott. Mas, em breve, você terá uma chance de conhecê-lo e se perturbar (e se encantar) com esse autor clássico da ficção científica. A obra será lançada no segundo semestre pela Editora Aleph, principal referência em publicações do gênero no país. Para Adriano Fromer Piazzi, publisher da casa, K. Dick ilustra bem um dos papéis da ficção científica: especular e debater as inquietações humanas em relação ao futuro. Desde que lançou em 2003 Neuromancer — prestigiado livro de William Gibson, uma das fontes do filme Matrix — , a Aleph enveredou para esse nicho que, aos poucos, ganha cada vez mais leitores. Piazzi acredita que muito do preconceito contra o segmento já veio abaixo e, no Brasil, sua valorização se reflete no maior interesse da crítica e da academia. Nessa entrevista, concedida em seu escritório em São Paulo, ele fala dos clássicos e do futuro do gênero e da missão de mostrar ao mundo que ficção científica não se resume a Guerra nas Estrelas e historinhas de robôs.

Em ano de lançamento de ícones da ficção científica no Brasil, conversamos com Adriano Fromer Piazzi, publisher da Aleph, editora que virou referência no segmento. Confira a entrevista na íntegra:

GALILEU: Como é que a ficção científica entrou na editora e veio a se tornar seu carro-chefe?

A Aleph tem 27 anos e foi uma das pioneiras a publicar o gênero. Ela iniciou, nos anos 1990 com o meu pai, uma série de ficção científica com cinco livros, a coleção Zênite. Um deles era o clássico Neuromancer, de William Gibson. Depois passamos por diversas mudanças estratégicas até que, em 2003, por causa do filme Matrix, um consultor nos sugeriu: por que vocês não relançam Neuromancer, já que ele foi uma das fontes inspiradoras do filme? Analisamos essa possibilidade e começamos a discutir a oportunidade de retomar não apenas o Neuromancer, mas uma linha de clássicos de ficção científica com uma proposta diferente: fazer o público jovem conhecer os principais livros de ficção científica. Não só o jovem, mas o público não-leitor de ficção científica. Se ficássemos só com os fãs do gênero, estaríamos ferrados, porque o número deles, em 2003, era muito pequeno. Precisávamos aumentar esse público e nossa estratégia foi buscar dar aos livros uma cara que não fosse tanto de ficção científica. Abandonamos nas capas aquele conceito de naves espaciais e robôs. Pensamos em projetos gráficos mais pops, com mais cara de obra literária. E o marco disso foi o relançamento do Neuromancer, com nova tradução e ilustração do Titi Freak, grafiteiro super conhecido hoje. Depois dele veio Laranja Mecânica, cuja edição no Brasil estava esgotada. Retomamos essa linha e percebemos que havia interesse para um segmento que estava abandonado pelas editoras brasileiras. Daí nossa proposta de publicar tudo que é clássico, livro importante de ficção científica, inédito por aqui ou que se encontrava esgotado há algum tempo. E lançamos Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K.Dick…

E desde então mudou o panorama de leitores desse gênero no Brasil?

Sim, o público cresceu significativamente. E isso foi acompanhado de uma valorização da cultura geek. A ascensão do geek começou a ser observada por pessoas que não se enquadravam geralmente nesse perfil. Virou cool ser nerd, ser geek… E a ficção científica acompanhou esse processo. Antes era uma coisa de nicho, exclusiva de fã. Outras pessoas passaram a notar que ela é uma literatura de inspiração. A ficção científica tem um diferencial, por exemplo em relação à literatura de fantasia, porque se propõe a algo mais realista, de base científica. Por mais que algo seja absurdo ali, ele será embasado, terá uma explicação. Hoje ficou feio não ler Asimov. Dá pra dizer que é a mesma coisa que não ler Gabriel Garcia Márquez. E, particularmente no Brasil, a ficção científica passou a ganhar atenção da academia, a virar objeto de muitos trabalhos, dissertações de mestrado… As pessoas estão estudando, por exemplo, Philip K. Dick [autor de, entre outros, o livro que inspirou o filme Blade Runner]. Ele é um filósofo, que usa a ficção científica como pano de fundo. O preconceito contra esse nicho tem diminuído na medida em que as pessoas percebem que ele não se resume a Guerra nas Estrelas. Aliás, os puristas nem consideram Guerra nas Estrelas ficção científica. Ela seria uma fantasia espacial: a Força se refere a algo mágico. É mais fantasia que ficção científica. Diferente do Star Trek, que seria uma ficção científica no sentido clássico.

Com base nisso, dá pra dizer que o segmento tem um bom horizonte pela frente?

Temos livros que vendem muito e outros, bem pouco. O que mais vende aqui na editora hoje é o Laranja Mecânica, seguido do Neuromancer. O autor que mais vende é o Asimov. Não são vendas exorbitantes, mas é um mercado que tem muito a ser explorado. Ainda há muita gente que não sabe o que é ficção científica, que acha que isso só tem a ver com robôs. No início, fazíamos questão de não mencionar, de não propagar que aqueles eram livros de ficção científica. Queríamos passar a impressão de que William Gibson, Philip K. Dick e os outros eram somente literatura. Hoje estamos mostrando cada vez mais nossa cara de ficção científica.

Como você avalia a evolução da ficção científica ao longo do século 20, período que rendeu os clássicos que vocês têm publicado?

O grande boom da ficção científica se deu na chamada Golden Age, a idade dourada desse segmento, o que aconteceu lá nos anos 1930, 1940. Foi ali que surgiram os grandes autores: Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert Heinlein. Nessa época o tema era mais hard, científico mesmo. Asimov faz questão de explicar cientificamente cada um dos processos que aborda, como se viaja no espaço, como é possível chegar até certa galáxia. Eles tinham essa preocupação porque eram cientistas. Clarke foi o inventor do satélite. Sim, a ideia de um satélite veio de um autor de ficção científica. O próprio Asimov publicou, dentro da sua numerosa obra, vários livros de divulgação científica. Eles tinham esse cuidado com a precisão nas questões que envolviam ciência. Nos anos 1960 e 70, vem o movimento New Age, representado por Philip K. Dick, que procura trazer abordagens existenciais, sociológicas e filosóficas a esse tipo de literatura. É dessa fase Ursula Le Guin, uma das poucas mulheres que se sobressaem no gênero, autora de um livro fantástico, A Mão Esquerda da Escuridão, que é um verdadeiro tratado sociológico, de libertação sexual, onde a ficção científica só aparece como pano de fundo mesmo. Fazer a história se passar em outro planeta serve apenas para gerar estranheza. É um planeta onde o ser humano não tem sexo, que ele só se manifesta no momento do cio e isso é aleatório: a natureza faz o indivíduo ser homem ou mulher; na próxima vez, isso pode se inverter. Assim, você pode ser pai e mãe em uma sociedade de andróginos que, tirando o período de cio, não tem apetite sexual. Aí, um enviado especial vai para lá e passa a viver dentro dessa estranheza, se apaixona por alguém, que nem sabemos o que é. A ficção serve, nesse caso, como cenário onde são feitas indagações sociológicas e psicológicas. Já nos anos 1980 começa o movimento Cyberpunk, que pode ser resumido por aquele clima de Blade Runner. Os autores passam a abordar aspectos sombrios da tecnologia. Ela passa a ser vista não mais como algo positivo. O clássico que abre esse caminho é o Neuromancer, do Gibson.

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O mercador de ideias

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Maria da Paz Trefaut, no Valor Econômico

Com o Fronteiras, Fernando Schüler mostra como fazer um curso de altos estudos sem concessões ao mercado
Magro e com 1,98 m de altura, Fernando Schüler atrai olhares aonde quer que vá. “Você tem que saber quem você é”, diz, dando a entender que lida bem com o biotipo que, na adolescência, o levou a praticar salto em altura e a ser campeão brasileiro juvenil da modalidade. O tempo, gradativamente, apagou o esportista e deu lugar ao intelectual. Agora, só caminhadas junto à orla carioca, numa frequência inferior à desejável, animam o empreendedor cultural, que há sete anos criou a série de conferências internacionais Fronteiras do Pensamento.

A barba, cultivada há poucos meses, contribui para reforçar o ar sério de Schüler, de 48 anos, cientista social com doutorado em filosofia, professor e diretor do Ibmec, no Rio de Janeiro. Gaúcho, daqueles que não entendem como alguém pode não gostar de chimarrão, diz estar adorando o Rio, onde vive há menos de dois anos, desde que aceitou o convite da universidade carioca. Fora da academia, seu currículo soma passagens em órgãos públicos, secretarias de governo e pelo Ministério da Cultura, em 1995, quando foi chefe do gabinete de Francisco Weffort. O cargo político mais recente que ocupou foi como secretário de Estado da Justiça e do Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul, no governo de Yeda Crusius, entre 2007 e 2010.

Depois de militar dez anos no PT e mais alguns no PSDB, a filiação partidária deixou de interessá-lo. Nem por isso se inclui entre os petistas desiludidos. Gosta de frisar que nos seus 14 anos de experiência em gestão pública, desempenhou funções em governos de vários partidos e que sua atuação nunca foi partidária. “Sempre fui convidado a ocupar funções pelo meu preparo acadêmico e profissional. Sou uma pessoa com múltiplas atividades. Criei a orquestra Jovem do Rio Grande do Sul, a Fundacine, ajudei a construir a Fundação Iberê Camargo. Me agrada a ideia de criar instituições que permanecem.”

À parte de tudo isso, o Fronteiras do Pensamento é um marco em sua carreira de administrador e gestor cultural. O evento hoje faz parte do calendário cultural de Porto Alegre, onde foi criado, e também de São Paulo, onde ocorre pela terceira vez. Neste ano, a edição paulista deixa a Sala São Paulo e migra para o Teatro Geo – Complexo Ohtake Cultural, onde o escritor peruano Mario Vargas Llosa faz a conferência de abertura no dia 17. Em Porto Alegre, o seminário será iniciado mais tarde, só em 5 de maio, pela especialista em religiões Karen Armstrong. Estrelas como o neurocientista português Antonio Damásio e o Prêmio Nobel da Paz José Ramos-Horta circularão pelas duas cidades ao longo do ano.

Para Schüler é sempre um mistério tentar entender por que certos projetos culturais emplacam e conseguem um tipo de demanda e outros não. Recentemente, num momento de entusiasmo excessivo, ele chegou a dizer, em uma entrevista, que gostaria que o evento fosse o “U2 do pensamento”. Confrontado com a frase, ri com embaraço e retifica a comparação de imediato. “Foi um certo exagero. Modéstia é uma coisa boa. Tomara que fosse… Na verdade, eu queria marcar um ponto de vista. Existem certos tabus no meio intelectual. Se um concerto de rock pode ser espetacular, por que uma conferência de filosofia não pode?”

O ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento nasceu de uma provocação feita pelo empresário Luiz Fernando Cirne Lima, na época vice-presidente da Copesul, empresa que viria a ser comprada pela petroquímica Braskem. Ele queria saber se era possível ou não fazer um curso de altos estudos que tivesse valor em si, no sentido de contribuir para uma sociedade melhor, e que não tivesse que fazer concessões ao pragmatismo do mercado. Foi aí que Schüler entrou em cena. Depois, ao comprar a Copesul, a Braskem garantiu, de imediato, a manutenção do projeto, que continuou como uma aliança entre muitas empresas, organizações e universidades.

‘Existem certos tabus no meio intelectual. Se um concerto de rock pode ser espetacular, por que uma conferência de filosofia não pode?’

Quanto custa o evento é algo que Schüler não diz. Afirma apenas que a venda dos ingressos (R$ 2.380 o passaporte para as oito conferências, em São Paulo, e R$ 925, em Porto Alegre, para dez) não paga nem metade dos gastos. Ele justifica a diferença de preços entre as duas cidades pelos custos mais elevados de São Paulo e diz que a gestão cultural serve, justamente, para equacionar questões como essas.

Segundo ele, o público do Fronteiras provém de estratificações de renda muito diferentes. Em Porto Alegre, por exemplo, 30% são médicos. Na capital gaúcha, também há o projeto Fronteiras Educação, que atinge 15 mil crianças com fascículos didáticos, nos quais os temas das conferências são traduzidos numa linguagem acessível para a geração Z. Mas se o ciclo de debates começou apenas como um encontro físico, a proposta é que se expanda cada vez mais no mundo digital via o site www.fronteiras.com, onde o formato é ajustado para ser consumido em tablet ou smartphone. A utopia de Schüler é que as conferências sejam acessadas tanto por um executivo que está no metrô de Nova York como por um estudante de escola da periferia de Luanda.

Na história do evento constam mais de 130 conferências, que resultaram em 17 filmes de média-metragem e outros tantos documentários. “O grande foco do Fronteiras é fazer com que o debate das ideias vá para o grande público. Não gosto da palavra democratização. Mas propomos uma ponte entre o pensamento acadêmico, científico e o mercado das ideias.” Desde o início, o pluralismo comanda a seleção de convidados, mas há alguns limites: “Jamais convidaremos o [presidente do Irã Mahmoud] Ahmadinejad. Nossa fronteira é o compromisso das pessoas com direitos humanos. Você pode ter qualquer viés cultural, mas a defesa da liberdade, da igualdade entre homens e mulheres e o direito à expressão são valores universais”.

Uma das críticas que o evento recebeu foi ter trazido grande número de defensores do ateísmo. No ano passado, enquanto o escritor suíço Alain de Botton falava de seu livro “Religião para Ateus”, ficou claro que algumas pessoas abandonavam a sala com certo ruído, em protesto. Schüler, que não é ateu e vem de uma família de formação luterana, não vê problema nisso. “É um projeto polêmico por definição, é direito das pessoas discordarem, saírem da sala.” Mas a presença, neste ano, da historiadora da religião e ex-freira Karen Armstrong, que encontrou a compaixão como um valor comum a todas as grandes religiões, é sinal de que a crítica foi ouvida.

Pessoalmente, Schüler gosta de se afastar de extremos. É um socialdemocrata, que recusa a démarche esquerda-direita. “Ela envelheceu. Não que não seja legítima e as pessoas não possam recorrer a ela, mas é uma referência que, hoje, cria mais equívocos do que soluções conceituais. É curioso, porque são termos muito difíceis de serem definidos. Como você responderia isto: ‘Quem é mais autoritária: a direita ou a esquerda’? Qual das duas nutre mais preconceitos? Depende, né?”

Nem por isso ele acredita que vivemos um processo de desilusão política. O que temos, diz, é a cultura de dizer que há um descrédito na política. “Veja só: temos uma presidente, que é respeitável, mas que faz um governo médio, muito sujeito a críticas, com mais de 70% de aprovação. Se houvesse desilusão política, como a presidente de um país que tem crescimento econômico pífio poderia ter esse índice de aprovação? No Brasil, as pessoas afirmam seu descrédito na política, mas de fato acreditam na política e nos políticos.”

Já o cansaço que há com relação às formas tradicionais da política, ele vê como um fenômeno global. Como exemplo, se refere ao ex-líder estudantil francês Daniel Cohn-Bendit, de 68 anos, o “Dany Le Rouge” do Maio de 1968, que participou do Fronteiras e com quem conviveu três dias em Porto Alegre. “Quando lhe perguntei o que gostaria de visitar na cidade, ele disse que queria ir ao Instituto Ronaldinho Gaúcho. Até ele, que foi um jovem engajado cansou, quer saber de futebol.”

Na sua visão, as pessoas não irão mais se apaixonar pela política como em algum momento fizeram, nos anos 1980, no Brasil, quando se tratava de fazer uma transição para a democracia e havia comícios com 1 milhão de pessoas pelas Diretas. “Os momentos de êxtase político são passageiros nas sociedades. Ah, o normal da política? As pessoas são inteligentes, têm outra coisa para fazer. Se interessam pela cultura, pela vida privada, pela estética.”

Mario Vargas Llosa no Fronteiras do Pensamento    cultura divulgacao

O escritor Mario Vargas Llosa fará a conferência de abertura no dia 17, em São Paulo; em Porto Alegre, começa em 5 de maio com a especialista em religiões Karen Armstrong
Fato é que Schüler não parece muito convincente quando diz que seu desejo de voltar à política é zero. Ao longo da conversa mostra que essa não é uma certeza: “Olha, a gente nunca sabe o que pode acontecer no futuro…”, diz, rindo. “A minha relação com a política é muito feliz, muito positiva, os quatro anos em que fui secretário de Justiça e Desenvolvimento Social [RGS] foram uma experiência extraordinária. Então, quando você tem uma experiência positiva assim, no fundo, sempre deixa uma porta aberta. Mas não é algo que eu procuro. Não me seduz o poder, a carreira política ou a ideia de disputar votos. Ou de participar de um tipo de debate, que muitas vezes não agrega nada do ponto de vista pessoal.” E arremata com uma frase de efeito: “Li muito Montaigne para me seduzir pelo poder”.

A sua paixão declarada é a gestão pública. Foi gestor público federal, estudou gestão cultural na Universidade de Barcelona. O que lamenta é que o tema da política pública seja muito desvalorizado no Brasil. “Há uma brutal patrimonialização do sistema político sobre a gestão pública. E se confunde muito os interesses públicos com os da máquina pública. Falta a carreira de especialista em política pública.”

Pela experiência que tem como gestor cultural, Schüler acha necessário desburocratizar o sistema de incentivos fiscais. “Nos EUA, o cidadão aporta recursos no Metropolitan Museum, registra a doação e abate de seu imposto a pagar. No Brasil é preciso enviar um projeto para Brasília, que leva meses para ser aprovado. O sistema anglo-saxônico, com fundos de ‘endowments’, fundações privadas com ampla autonomia e sustentabilidade financeira, e pouca interferência estatal, incentiva doações e é superior ao nosso.”

Ainda que se considere um intelectual híbrido, que combina a academia, o ensino e a gestão de projetos, Schüler tem um modus vivendi típico de intelectual. Não gosta de falar da vida privada e o máximo que revela é que mora sozinho. Sua biblioteca com 1.800 livros, a maioria de história, filosofia, arte e literatura, é um item essencial do apartamento. “Não abro mão de ter um escritório grande e silencioso em casa, onde passo a maior parte do tempo. Dizem que a atividade intelectual exige que, em algum momento, você tenha gosto pela solidão.”

Fora os livros, os bons vinhos são um de seus poucos luxos. Consumista? Nem um pouco. “Me identifico muito com o livro do Max Weber, ‘A Ética Protestante’ e o ‘Espírito do Capitalismo’. Não sou um capitalista, mas tenho um estilo de vida quase minimalista. Uso o mesmo sapato até gastar.” O terno é um item essencial de sua indumentária, e Schüler se recusa a despir o paletó quando está sendo fotografado. “Sem paletó vocês vão tirar minha identidade”, brinca, e conta que o terno se tornou um hábito tão vital que o usa mesmo quando não tem reunião alguma. Depois, quase em tom confidencial, mostra o quanto é avesso a modas ao revelar que seu terno está tão surrado que tem alguns furos no tecido.

Por seu trabalho no Fronteiras, Schüler tem colecionado elogios. Até mesmo Adauto Novaes que, nos anos 1980 iniciou ciclos de debate que fizeram sucesso como “O Olhar”, “O Desejo” e vários outros, acha o trabalho de Schüler importante e necessário. Mas permite-se uma sugestão: “Gostaria que o Fronteiras do Pensamento se voltasse um pouco para a questão das mutações, do mundo em transformação. Vivemos uma revolução tecnológica, científica e digital. Estamos um pouco à deriva. Falta quem fale disso, boa parte dos pensadores tendem a lidar com velhos conceitos”.

Estudo mostra que dever de casa não melhora notas

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crédito Pavel Losevsky / Fotolia.com

crédito Pavel Losevsky / Fotolia.com

Publicado no Porvir

Na eleição presidencial francesa, ele esteve na pauta. Houve quem gostasse da novidade, houve quem desaprovasse a hipótese da abolição do dever de casa, levantada pelo então candidato e hoje presidente François Hollande. Nesse momento de revisão de métodos de educação que o mundo vem experimentando, não só a França, mas também a academia tem se questionado se o bom e velho dever de casa é, de fato, tão bom assim. Um estudo liderado por um pesquisador da Universidade de Indiana mostra pouca correlação entre o tempo gasto com dever de casa e notas altas na escola nas disciplinas de ciência e matemática. Por outro lado, indica uma relação estreita entre dedicação ao trabalho de casa e provas padronizadas, como vestibulares e exames do governo.

A pesquisa “Quando o trabalho de casa vale o tempo gasto com ele?” (livre tradução para “When Is Homework Worth the Time?” foi feita por Adam Maltese, professor na Universidade de Indiana, com coautoria de Robert H. Tai, da Universidade de Virgínia, e Xitao Fan, da Universidade de Macau e publicada em novembro passado. Nela, os especialistas examinaram dados de mais de 18 mil alunos de ensino médio a partir de dados de 1990 e 2002 disponíveis no National Center for Education Statistics. “Nossos resultados sugerem que o trabalho de casa não está sendo tão bem usado da forma como poderia”, disse Maltese ao jornal da Universidade de Indiana.

Os autores afirmam ainda que outros fatores, como participação em classe e presença, podem diminuir a associação do trabalho de casa a uma performance melhor nas notas. De acordo com Maltese, o trabalho de casa é mais eficiente em desenvolver as habilidades necessárias para treinar para os testes do que para reter o conteúdo da aula. “Se os estudantes estão gastando mais tempo no dever de casa, eles estão entrando em contato com os tipos de questão e os procedimentos necessários para responder a questões não muito diferentes dos testes padronizados”, afirmou.

Maltese, no entanto, deixa claro: “Nós não estamos tentando dizer que todo os deveres de casa são ruins”. A sua intenção, afirma, é chamar a atenção para o fato de que o trabalho de casa deve ser um momento de reflexão, muito mais do que de repetição. “O nosso argumento é que a preocupação deveria ser mais com a qualidade do que com a quantidade. Em matemática, em vez de fazer os mesmos tipos de problemas várias vezes, talvez fosse interessante colocar os alunos para analisar novos tipos de problemas ou dados. Em ciências, talvez os estudantes devessem fazer resumos sobre os conceitos em vez de apenas lerem um capítulo e responderem a uma questão no final.”

Colega de Maltese, Tai considera que os dados da pesquisa apontam para a necessidade de o trabalho de casa ser mais propositivo. “O objetivo deveria ser entendido tanto pelos professores quanto pelos alunos (…) No ambiente atual de educação, com atividades tomando tempo das crianças dentro e fora da escola,  cada trabalho de casa deve ser direcionado e ter seu objetivo claro”, disse Tal. “Com trabalho de casa, mais não significa ser melhor”, completou.

Nas conclusões, os autores alertam também para a necessidade de haver mais pesquisas sobre o formato e função das tarefas de casa para que as escolas públicas melhorem em ciência, tecnologia e matemática.

Com informações da Research IU Bloomington

dica do Felipe Nogs

Faculdade alemã ensina a fazer livros manualmente

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Em plena era digital, jovens do mundo todo recorrem à Academia de Artes Visuais de Leipzig para estudar a produção artesanal de livros. O que no passado era um trabalho técnico, hoje é uma forma de arte.

Publicado no DW

O estudante Benjamin Buchegger gosta de comparar a relação entre livro e internet com aquela entre pintura e fotografia. “O livro morre como dispositivo de informação para se tornar, ele próprio, arte”, diz Buchegger. O jovem austríaco estuda há três anos e meio na Academia de Artes Visuais de Leipzig (HGB, na sigla em alemão) – um local onde o livro já se tornou há muito objeto de arte.

Buchegger: livro como arte

Em nenhum outro lugar da Europa os estudantes se debruçam tanto sobre a mídia livro como nesta instituição de ensino. Eles não aprendem apenas como os livros foram artesanalmente feitos através dos séculos, mas também como eles poderão continuar funcionando no futuro, ou seja, como objeto de arte e também como produto industrial. Em plena era digital, os estudantes fazem experimentos para ver como livros de pequenas tiragens têm, mesmo assim, seu público específico, ou seja, eles descobrem onde há nichos, nos quais o livro pode sobreviver.

Reinterpretação de ideias antigas

Artes editoriais é o nome da graduação oferecida pela HGB, onde se pode também estudar design gráfico. O curso tem duração de cinco anos. “Em função da nossa história, temos naturalmente um conhecimento especial sobre a maneira de produzir livros”, explica o professor Oliver Klimpel. Afinal, a HGB é uma das universidades mais antigas da Alemanha, fundada em 1764. Em Leipzig, cidade que abriga uma feira do livro famosa e várias editoras, questões relacionadas ao mercado editorial sempre desempenharam um papel importante.

Academia de Artes Visuais de Leipzig, uma das mais antigas universidades da Alemanha

Klimpel, ele próprio ex-aluno da HGB, é professor de design de sistemas na escola. Aos 39 anos, ele vive entre Leipzig e Londres, onde tem um escritório de design gráfico. O conceito de “arte editorial” é visto por ele como ambíguo, “pois ele força uma ideia tradicional de livro artesanal”. “Na HGB, por outro lado, procuramos encontrar novas formas e formatos, que preservem o livro como tal, mas contribuam para sua evolução”, ressalta Klimpel. Como, por exemplo, ao ver o livro como um acréscimo importante às fontes de informação digitais, como a internet ou as mídias visuais.

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