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Literatura também é moda

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Tratar livros como os decotes da próxima estação é abrir mão da experiência profunda que a leitura pode dar

livro

Walcyr Carrasco, na Época

Atraído por um casaco fantástico na vitrine, entrei numa loja do Shopping Higienópolis, em São Paulo. O vendedor me explicou que era o único exemplar, por ser peça de desfile. Suspirei, sem esperanças, comparando mentalmente minha barriga com o provável tanquinho do modelo na passarela. Ele insistiu, tirou da vitrine. Não serviu, é claro.

Enquanto esperava, observei a decoração da loja. Aqui e ali, havia alguns livros encadernados, antigos. Um deles era Three loves (Três amores), do escocês A.J. Cronin, lançado em 1957. Levei um choque. Nos anos 1960, Cronin era popularíssimo no Brasil. Hoje, ninguém mais fala nele.

Três amores é um livro lindo. A protagonista, Lucy, vive seu primeiro amor com o marido, de cuja morte é indiretamente culpada. O segundo com o filho, a quem se dedica loucamente, para receber, em troca, ingratidão. Finalmente, vem a fé. Entra para um convento, para uma vida de adoração.

Nunca li uma descrição tão minuciosa da vida entre as freiras, em que os assuntos religiosos se mesclam com necessidades triviais, como economizar sabonetes. Mais uma vez, a heroína se frustra. É um livro profundo, intenso. Surpreso por vê-lo transformado em objeto de decoração, ainda disse ao vendedor:

– Este livro aqui é incrível. Você precisa ler.

– Ah, tá – respondeu o rapaz, sem interesse algum.

E botou o casaco de novo na vitrine.

Fiquei pensando: a gente fala muito nas lapelas dos paletós que ora são mais estreitas, ora mais largas, no caimento das saias, nos tecidos e nas cores que estão em moda. Mas hoje tudo se tornou fashion. Autores entram e saem de moda como os decotes femininos.

Fui procurar Cronin no site de uma grande livraria. Só encontrei um de seus livros em português: A cidadela. Autor da frase “Só o amor e a arte tornam a existência humana suportável”, Somerset Maugham (1874-1965) também saiu de moda. Seu romance Servidão humana (1915) tornou-se filme de sucesso. Em O fio da navalha, foi o primeiro a trazer o misticismo oriental para a literatura ocidental.

Minha adorada Doris Lessing, inglesa, Prêmio Nobel de 2007, influenciou toda uma geração nos anos 1960 e 1970 com O carnê dourado (1962). Falava abertamente do desejo feminino, das questões das mulheres. Quando veio ao Brasil, há cerca de três décadas, esperei horas na fila de autógrafos, simplesmente para dizer, num bilhetinho: “I love you”. Ela me respondeu: “Thank you!”. Tiete total! Ultimamente, se falo nela, ninguém tem ideia de quem é.

E o que dizer dos autores nacionais? Os grandes nomes da literatura brasileira foram salvos por constar da lista do vestibular. Ler Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, foi marcante na minha vida. Também senti o mesmo por Grande sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa, que se tornou até uma inesquecível série de TV.

Livros como esses não foram totalmente esquecidos, mas não fazem parte da vida das pessoas. Durante décadas, era importante lê-los, até para não ficar por fora. No Google, encontrei resumos desses livros e outros clássicos, para o estudante apressado. Como se um resumo substituísse o universo de um escritor. Autor virou truque para ter nota.

Eu poderia gastar o resto desta coluna citando autores maravilhosos, esgotados ou acumulando pó nas prateleiras. A literatura não morreu, longe disso. Pelo que ouço das editoras, nunca se vendeu tanto no país. Mas, hoje, os livros acontecem e são esquecidos rapidamente. Ninguém tem obrigação de ler só alta literatura. Quando dou palestras em escolas, sempre digo às professoras:

– Livro não é remédio. Não tem de ser engolido à força. A leitura também deve se transformar num ato de prazer.

O grande hit atual é Cinquenta tons de cinza (2011), de Erika Leonard James, que trouxe o sadomasoquismo para o universo até então dominado pelos romances açucarados. Confesso: nem com o livro o mundo dos chicotinhos me atraiu. Enfim, é moda.

Sinto falta do tempo em que o livro não era parte do modo fashion de viver. Grandes autores, e também os comerciais, como Cinquenta tons, proporcionam um novo olhar sobre a vida. Tratá-los como os decotes da próxima estação é abrir mão da possibilidade de passar pela experiência profunda que um livro pode dar. É um passo atrás, porque um livro pode marcar a vida toda. É só a gente permitir.

Calouros da USP fazem limpeza em asilo de São Carlos em trote solidário

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Fabio Rodrigues, no G1

Cerca de 500 estudantes realizaram trabalho voluntário em seis instituições.
Ação visa integrar alunos e aproximá-los dos problemas sociais da cidade.

Calouros realizaram limpeza e organizaram os barracões do asilo durante trote (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Calouros realizaram limpeza e organizaram os barracões do asilo durante trote (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Calouros da USP de São Carlos (SP) dedicaram algumas horas do dia nesta quinta-feira (28) para participar do trote solidário, cujo objetivo é integrar os alunos e realizar um trabalho voluntário. As atividades reuniram cerca de 500 estudantes, que foram distribuídos em seis instituições entre asilos, orfanatos e ONGs.

No asilo Cantinho Fraterno, na região central da cidade, aproximadamente 120 alunos trabalharam no local que abriga 45 moradores. Enquanto alguns calouros passaram um tempo conversando com os idosos, outros colocaram a mão na massa e arrumaram os barracões onde são guardadas as doações. Eles também removeram objetivos que não tinham mais serventia.

Assista ao vídeo aqui.

“Para nós essa ajuda é muito gratificante porque tudo isso é revertido aos idosos. É importante manter o ambiente limpo e agradável, já que aqui é a casa deles”, disse a assistente social do asilo, Juliana Fávaro Costa, de 28 anos.

Os estudantes aproveitaram e limparam a horta, espaço essencial para manter a estrutura do asilo. “Ali eles plantam chá, verduras e legumes. A gente deu uma melhorada, carpindo, limpando e tirando madeiras”, contou o aluno do quinto ano de engenharia ambiental Lucas Beco, de 21 anos, diretor sócio-cultural do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO), órgão representativo dos estudantes do campus.

Para Lemuel Roberto, de 22 anos, estudante do quarto ano do curso de ciências da computação, a atividade vai além da integração entre todos. “Este é um momento que você ajuda quem mais precisa e com isso aprende a fazer certas coisas. É também uma oportunidade para os ‘bixos’ conhecerem os problemas da cidade”, disse ele, que também passou pela experiência quando saiu de Goiás para estudar na USP.

Estudante limparam horta que ajuda a alimentar os 45 idosos do asilo  (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Estudante limparam horta que ajuda a alimentar os 45 idosos do asilo (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Passeio no parque
Os calouros promoveram ainda uma tarde de passeio com a turma da Associação de Capacitação, Orientação e Desenvolvimento do Excepcional (Acorde). Uma atividade recreativa reuniu 18 alunos da entidade no Parque Ecológico de São Carlos. (mais…)

Ônibus-biblioteca amplia acesso à literatura em escolas públicas do Rio de Janeiro

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Monitora Lúcia Morais narra uma lenda indígena para crianças da comunidade Águia de Ouro, em Del Castilho Mariana Moreira

Monitora Lúcia Morais narra uma lenda indígena para crianças da comunidade Águia de Ouro, em Del Castilho Mariana Moreira

Mariana Moreira, no O Globo

RIO – Para quem olha de relance, o ônibus do projeto “Livros nas praças” pode ser facilmente confundido com um veículo comum, estacionado entre a Linha Amarela e um campo de futebol na favela Águia de Ouro, em Del Castilho, na zona norte da cidade. No entanto, basta se aproximar para perceber que ali dentro tudo é diferente. O motorista ainda tem o seu espaço, mas os bancos deram lugar a prateleiras cheias de livros, e o corredor é tomado pelo vai e vem de leitores. Do lado de fora, coladinho ao ônibus-biblioteca, um pedaço da calçada forrado com tapete colorido de borracha se transforma em um lúdico espaço de contação de histórias.

Desde novembro, a biblioteca itinerante estaciona próximo à escolas públicas de 10 praças do Rio com a missão de levar livros para quem não têm acesso à leitura. Além disso, como afirma Camila Castanho, subcoordenadora do “Livros nas praças”, o projeto busca desconstruir preconceitos e desmistificar a relação entre monotonia e literatura, principalmente para os jovens leitores.

- Não importa a região que visitemos, sempre percebemos que as crianças querem estar com os livros, querem ouvir as histórias. Existe um preconceito contra os moradores destas regiões, e nós queremos mudar isso porque vemos, diariamente, que não corresponde à realidade. Eles adoram ler, só falta o acesso – explica Camila, ao afirmar que, apesar da timidez inicial, os adultos são frequentadores do ônibus:

- Sempre tem algum pai ou mãe que pergunta “adulto pode?” – conta ela, informando que cerca de 60 pessoas passam pelos ônibus de quarta a domingo.

Pais têm que dar o exemplo

O projeto é uma iniciativa da produtora cultural Korporativa, financiado por meio da lei do ISS, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Além da Águia de Ouro, de 15 em 15 dias o ônibus faz parada em Madureira, em Cascadura, na Pavuna, em Água Santa, nas favelas da Vila Cruzeiro, na Cidade de Deus, na Maré e no Complexo do Alemão, onde estará nesta sexta-feira.

O espaço sobre rodas é bem semelhante a uma sala de leitura. Há cadeiras, bancadas e, nas prateleiras, que abrigam cerca de 1500 livros escolhidos pela curadora e coordenadora Luísa Côrtes, há títulos para todos os gostos e idades. Além das edições infantojuvenis, há ficções clássicas como as de Jorge Amado, Julio Verne, Rubem Fonseca, biografias e livros de poesia. A média de idade dos leitores vai de 7 a 14 anos. E para pegar um livro emprestado é muito fácil: basta levar a identidade e um comprovante de residência. Já a devolução é feita quando o ônibus volta para o ponto de encontro com os leitores.

Na última quinta-feira (21), após alguns segundos percorrendo as prateleiras, a pequena Raniely de Oliveira, de 8 anos, aluna do Ciep Patrice Lumumba, sabia muito bem o que ia levar para casa. Escolheu a narrativa de “De pata, penas e escamas”, de Malô Carvalho (Ilustrações de Suzete Armani, editora Autêntica), mas revelou que gosta mais de outro gênero literário:

- Eu adoro poesia! – disse ela, segurando livro.

Embora seja um projeto de formação de jovens, que busca, junto com as escolas, complementar a experiência que os alunos e os moradores do entorno têm na escola, o veículo também recebe a visita de adultos. Muitos pais que acompanham os filhos acabam levando uma edição para casa. A dona de casa Cristiane Soares da Silva, de 36 anos, foi sozinha ao ônibus buscar uma edição infantil de “Os três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas, para o filho Nicolas, de 10 anos, e aproveitou para pegar “Quando ela se foi”, de Harlan Coben (Arqueiro).

- Essa é a terceira vez que eu pego livros emprestados. Ler faz bem. Muitos pais só reclamam do ensino e das que crianças não leem, mas temos que dar o exemplo e ler com eles – observou Cristiane.

Bloco pernambucano “Cansei de Ser Profunda” satiriza escritora Clarice Lispector

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Estandarte do bloco Cansei de ser Profunda nas ruas de Olinda

Estandarte do bloco Cansei de ser Profunda nas ruas de Olinda

James Cimino, no UOL

Cansada do uso vulgar de suas citações literárias nas redes sociais, quem apareceu no Carnaval de Olinda foi a escritora Clarice Lispector. Homenageada e satirizada pelo bloco Cansei de Ser Profunda, dizem seus integrantes que a agremiação surgiu de um depoimento de Clarice em seu leito de morte.

E como no Carnaval o que vale mais é a versão e menos o fato, uma das folionas, que se diz sobrinha de segundo grau de Clarice, explica o nascimento do bloco.

“É uma história muito longa. Mas aconteceu na casa onde Clarice passou sua infância, na praça Maciel Pinheiro. Ela, já cansada, volta ao Recife. Ao se deparar com a degradação da praça, reuniu a família toda, em seu leito de morte, me chamou ao pé do ouvido e disse: ‘Cansei de ser profunda’. E ali mesmo expirou e morreu”, conta a suposta sobrinha Eunice “Lispector”.

Outro rapaz, que segurava o estandarte do bloco, continuou a história: “Vadinho”, 24 anos, disse que escolheu seu nome em referência ao personagem do livro “Dona Flor e seus dois Maridos” e que resolveu trazer Clarice para a folia para que ela visse que ainda tem coisa boa no mundo.

O nome do bloco gerou confusão na cabeça de uma moça igualmente confusa (ou avariada, usando a gíria local) que pulava o Carnaval nas ladeiras do Centro Histórico de Olinda. “Ela passou, leu o nome do bloco na camiseta e disse: ‘Também me cansei de ser professora. Agora quero é ser rapariga!”

Coloquem livros na cesta básica

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Gilberto Dimenstein, na Folha de S.Paulo

Essa é daquelas ideias simples e geniais. Não custa nada –e rigorosamente todos saem ganhando. Cestas básicas distribuídas a trabalhadores pelas empresas que misturam além de arroz, feijão e óleo um alimento para a alma: livros.

No projeto batizado de Leitura Alimenta, há uma parceria que dispensa dinheiro. Funciona assim:

1) Uma rede de livrarias, a Livraria da Vila, coleta livros usados. E muita gente tem livros em sua casa, que estão sem uso há muito tempo. Ali, seleciona-se o que vale ou não a pena.

2) Uma empresa de cestas básicas, Cesta Nobre, recolhe os livros, distribuindo-o aos trabalhadores das empresas que contratam seus serviços.

Resultado: as empresas aumentam seu benefício, já que, sem pagar nada, enriquece a cesta e satisfaz seus trabalhadores que, por sua vez, ganham um livro.

Sempre digo aqui e tento mostrar exemplos de que com um pouco de boa vontade e inventividade podemos fazer pequenos milagres.

Veja mais detalhes aqui.

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Dica digital para quem quer ler bons livros sem pagar nada: 15 sites para baixar livros gratuitamente. Clique aqui

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Uma alternativa interessante (e ecologicamente sustentável) é trocar livros. A internet ajuda. Uma dica é o Descolaaí

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Selecionei dez sites de trocas de produtos. Basta clicar aqui

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