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Como livros de literatura podem ajudar os alunos em Matemática

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Acredite: existem obras literárias que mesclam narrativa e poesia com problemas matemáticos (Foto: Mariana Pekin)

Acredite: existem obras literárias que mesclam narrativa e poesia com problemas matemáticos (Foto: Mariana Pekin)

 

Mara Mansani, na Nova Escola

Na escola em que trabalho em Sorocaba (SP), a EE Prof. Laila Galep Sacker, a Matemática ocupa um lugar de destaque. Fazemos até um “Dia Especial da Matemática na Escola”, em que todos os professores fazem com os alunos atividades que exploram os conteúdos matemáticos de forma não convencional. Ele acontece, geralmente, às sextas-feiras, pelo menos duas vezes por mês, e inclui brincadeiras, jogos e experimentos.

Essa estratégia surgiu da necessidade de nossos alunos avançarem mais em Matemática, pois as avaliações internas e externas mostravam que eles tinham dificuldades – ou seja, era necessário repensar a nossa prática. Então, essa foi uma das ações que implantamos para superar esse obstáculo, e já sentimos uma melhora nos resultados.

Analisando o desempenho das turmas, notei que uma das dificuldades apresentadas pelos alunos é a resolução de problemas. Como trabalhar mais essa capacidade, de forma diferente?

Uma das descobertas mais interessantes que fiz, pesquisando materiais, é que existem obras de literatura que apresentam a Matemática por meio de histórias ou poemas, de forma divertida e contextualizada.

Parece estranho, mas é isso: hoje, quero deixar a vocês duas sugestões de obras de literatura para trabalhar Matemática, além de atividades que você pode fazer com elas. Vamos lá:

Poemas Problemas, de Renata Bueno: o livro traz 17 problemas em historinhas rimadas, com imagem super coloridas, em uma linguagem que as crianças entendem e com a qual se identificam. Os problemas envolvem conteúdos como combinatória, sequência, figuras geométricas, entre outros – além, é claro, das quatro operações fundamentais. É um verdadeiro convite ao desafio e ao desenvolvimento das estratégias pessoais para resolução dos problemas. Esse livro é mais indicado aos alunos de 1º e 2º ano, na alfabetização.

Os problemas da família Gorgonzola, da [maravilhosa] Eva Furnari: a obra é mais indicada para 3º e 4º ano e apresenta 15 problemas que contam histórias de uma família muita estranha e divertida. As crianças adoram esse livro! As ilustrações são muito divertidas e os problemas propõem desafios que envolvem as quatro operações fundamentais, sistema monetário, comparações, entre outros conteúdos e habilidades que exigem muita atenção dos alunos, pois é preciso, em primeiro lugar, retirar da narrativa as informações que realmente importam, proporcionando um bom exercício de interpretação de texto para resolução dos problemas. Aliás, muitas vezes, a dificuldade na resolução dos problemas vem mais da incapacidade de interpretar o texto corretamente do que da falta de domínio dos conceitos matemáticos.

Venho utilizando esses livros nesses “Dias Especiais da Matemática”, seguindo os seguintes passos:

*Apresentação do livro para os alunos: começo sempre explorando o livro de maneira geral, falando sobre o autor, a proposta dele e outras informações que sejam relevantes.

*Divisão dos alunos em grupos: procuro agrupar as crianças por níveis próximos de desenvolvimento na disciplina. Assim elas podem construir juntas o caminho para resolver os problemas. Em seguida, distribuo cópias de um mesmo problema para todos os grupos.

*Intervenções: enquanto os alunos leem, vou passando pelos grupos para ajudá-los quando há mais dificuldade, fazendo questionamentos que os levem a resolver os problemas.

*Resolução: em seguida, começa a resolução propriamente dita, primeiro em grupos, depois em duplas e, por fim, individualmente.

*Compartilhamento das estratégias: por fim, as crianças apresentam aos colegas como resolveram o problema. Procuro valorizar as estratégias pessoais, mas sem deixar de mostrar também a estratégia mais convencional. Isso contribui para o desenvolvimento da aprendizagem porque amplia as possibilidades de resolução.

Essa proposta vem trazendo bons resultados, mas ainda há muito a percorrer. Então, estudar e pesquisar novas possibilidades é atividade permanente em nossos planejamentos.

Para terminar, quero deixar mais duas sugestões para turmas mais velhas, que não misturam Matemática e literatura, mas também proporcionam estratégias mais inventivas.

A primeira é o livro Ler e Escrever – Jornada de Matemática, uma publicação da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, para alunos do 5º ano, que você pode baixar de graça aqui. Ele propicia situações que exigem raciocínio lógico e interação com os pares em atividades realizadas dentro e fora da sala. O livro é composto por dois módulos: (1) Cálculo e (2) Resolução de Problemas. Tudo muito bem explicado em objetivos, planejamento e encaminhamento.

Para os alunos maiores, dos anos finais do Ensino Fundamental, deixo como sugestão a obra Matemática Divertida e Curiosa, do célebre professor Júlio César de Mello e Souza, mais conhecido pelo pseudônimo de Malba Tahan. Esse livro é muito bacana, um clássico que apresenta os desafios matemáticos por meio de histórias e curiosidades.

E vocês, queridos professores, quais estratégias matemáticas andam utilizando? Conhece outros livros que explorem a Matemática e a literatura? Compartilhem conosco aqui nos comentários!

Professora utiliza ‘memes’ para atrair alunos em universidade em Cabo Frio

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"Suspeitos" conversam sobre aula de nivelamento de português (Foto: Facebook/Reprodução)

“Suspeitos” conversam sobre aula de nivelamento de português (Foto: Facebook/Reprodução)

 

Cursos de universidade de Cabo Frio, RJ, são divulgados nas redes sociais.
Memes aumentaram a frequência dos estudantes, segundo a professora.

Publicado no G1

“E aí, qual o esquema? São três fases. Primeiro a gente aborda, depois explica o que tá acontecendo, aí finaliza”. A conversa entre dois “suspeitos” parece o plano de um crime, mas, na verdade, é a forma como a professora Mônica Cabral, de 49 anos, encontrou para atrair os alunos em uma universidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio. O objetivo é utilizar os “memes” para aumentar a frequência dos estudantes nas aulas de nivelamento de português aplicadas na universidade.

Professora há 30 anos, ela testemunhou a transição da divulgação do projeto oferecido pela faculdade. Nele, os alunos recebem conteúdo básico gratuito de Biologia, Física, Matemática e Português. De acordo com ela, as salas de aula ficavam vazias com a forma como a propagação do curso de nivelamento era feita.

“Dou aula no Nivelamento de Português desde que entrei para a universidade, em 2004. Desde então, a divulgação ficava a cargo da própria instituição, por meio de cartazes nos murais. Eu divulgava em sala, durante as minhas aulas. Com todos os esforços, a participação dos alunos ainda era muito pequena”, disse a professora, mestre em Língua Portuguesa formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora de oito matérias em quatro cursos da universidade.

Livro O Código da Vinci, do Dan Brown, serviu de inspiração para "meme" (Foto: Facebook/Reprodução)

Livro O Código da Vinci, do Dan Brown, serviu de inspiração para “meme” (Foto: Facebook/Reprodução)

Da divulgação realizada no “boca a boca”, a professora passou a utilizar o Facebook como ferramenta de anúncio dos cursos de nivelamento. Com o tempo, as publicações comuns deram espaço às postagens mais criativas. Com o auxílio da filha, Luana Cabral, de 20 anos, aluna do curso de Publicidade na mesma instituição, elas iniciaram uma parceria para a produção dos memes.

“Costumo tratar pedagogicamente os conteúdos de língua portuguesa de um modo leve, com exemplos do dia a dia e situações engraçadas. Desse ponto de vista, essa linguagem (utilizada nas redes sociais) permite uma aproximação maior com os alunos, de forma lúdica”, afirmou.

O sucesso nas redes sociais fez a brincadeira se tornar motivo de reunião semanal. De acordo com a professora, ela e a filha se reúnem para discutir o tema da aula e das propostas. Desta forma, buscam intertextualizar o tema da aula com os acontecimentos em destaque da semana para a crianção dos memes.

Com mais interatividade nas redes sociais, a professora conquistou o objetivo de aumentar a frequência dos alunos no curso de nivelamento da universidade. No entanto, ela afirma que a cada semana tem um novo desafio. “Temos que atender a expectativa desse novo público”, diz.

Além de ter mais alunos assistindo às aulas, Mônica Cabral garante que houve aumento nas curtidas e comentários na publicação dos memes no Facebook e que é abordada nos corredores da universidade para saber quando haverá novas postagens.

Memes publicados pela professora rendem curtidas e compartilhamentos (Foto: Facebook/Reprodução)

Memes publicados pela professora rendem curtidas e compartilhamentos (Foto: Facebook/Reprodução)

 

“Essas publicações trouxeram ainda mais visibilidade ao curso e interesse dos estudantes pelas aulas. Não só as curtidas e os comentários aumentaram, mas também a frequência na sala. Nos encontros com os alunos pelos corredores e salas da universidade, eles comentam sobre as postagens. Alguns, inclusive, me disseram que ficam aguardando as postagens para ver o que iremos trazer de novidade quanto aos memes”.

Quadro 'O Grito' (1983) de Edvard Munch serviu para falar sobre vírgulas (Foto: Facebook/Reprodução)

Quadro ‘O Grito’ (1983) de Edvard Munch serviu para falar sobre vírgulas (Foto: Facebook/Reprodução)

Apesar do sucesso na universidade e de ter feito a brincadeira ter dado certo, ela afirma que o mais importante é ter os alunos dentro da sala de aula.

“O fato mais importante é de o nivelamento de Português atrair mais estudantes da universidade nas aulas. O objetivo do curso é exatamente este: torná-los leitores e produtores de textos com mais maturidade linguística”, conclui.

Mais de 4,7 mil professores sofreram atentados à vida dentro das escolas

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 Tânia Rêgo / Agência Brasil Escola Mendes de Moraes, na Ilha do Governador (RJ)

Tânia Rêgo / Agência Brasil
Escola Mendes de Moraes, na Ilha do Governador (RJ)

 

Mais de 2,3 mil professores afirmaram que estudantes frequentaram as aulas com armas de fogo, segundo questionário da Prova Brasil de 2015.

Mariana Tokarnia, no Huffpost Brasil

Mais de 22,6 mil professores foram ameaçados por estudantes e mais de 4,7 mil sofreram atentados à vida nas escolas em que lecionam. Os dados são do questionário da Prova Brasil 2015, aplicado a diretores, alunos e professores 5º e do 9º ano do ensino fundamental de todo o país.

As informações foram organizadas e divulgados nesta segunda-feira (20) na plataforma QEdu www.qedu.org.br

As respostas aos questionários mostram que há um cenário de violência nas escolas. As agressões não ocorrem apenas com professores e funcionários, mas também entre estudantes.

A maioria dos professores (71%), o que equivale a 183,9 mil, disse ter ocorrido agressão física ou verbal de alunos a outros estudantes da escola.

Mais de 2,3 mil professores afirmaram que estudantes frequentaram as aulas com armas de fogo e mais de 12 mil disseram que havia alunos com armas brancas, como facas e canivetes.

Muitas vezes, havia nas aulas estudantes que tinham bebido, segundo 13 mil professores, ou usado drogas, de acordo com 29,7 mil.

Segundo o pesquisador da Fundação Lemann, Ernesto Faria, muitos desses conflitos vêm de fora da escola.

Ao todo, 262,4 mil professores responderam aos questionários.

Embora, percentualmente, os índices de violência não sejam tão altos, quando olhados em números, segundo o pesquisador, são preocupantes. “Temos que olhar o quanto o ambiente escolar é agradável, a relação de professores e alunos. Temos que pensar em gestão em sala de aula, disciplina, o trabalho com habilidades socioemocionais”, diz.

Organização deu certo

A Escola Municipal Armando Ziller fica na periferia de Belo Horizonte, numa região com alto índice de violência. O estabelecimento, no entanto, é conhecido na vizinhança por exigir o rígido cumprimento de horários e por não liberar os alunos por falta de professores.

Foi uma das escolas destacadas pela pesquisa Excelência com Equidade, que identificou escolas públicas que atendem a alunos de baixa renda familiar e que conseguem alcançar bons índices educacionais.

Excelência com equidade

“A escola é muito tranqüila, considerando a localização, a situação local é de conflitos no entorno entre gangues rivais. A comunidade tem essa escola como referência. Por maiores que sejam os problemas, aqui dentro parece outra realidade”, diz o diretor Hamilton Gomes Pereira.

Segundo ele, quando é identificada uma situação de violência, os responsáveis pelos estudantes são imediatamente convocados.

Eles não são chamados apenas em situações críticas. A escola busca envolvê-los, ainda que com dificuldade, no aprendizado dos estudantes. Logo no início do ano, os professores se apresentam e mostram o planejamento de cada uma das disciplinas.

Ao longo do ano letivo, os estudantes avaliam a escola e o ensino e fazem uma autoavaliação. Isso é apresentado aos responsáveis, que também podem contribuir.

Os professores também anotam o que ocorre em sala de aula e repassam as informações. Eles também são informados se alunos faltam às aulas.

Outra estratégia adotada envolve a organização e a limpeza do espaço. “O aspecto físico da escola conta muito. Uma escola suja, pichada, contribui para a indisciplina. Os estudantes sabem que, quando eles sentam em uma carteira, ela é de responsabilidade deles. Se há alguma pichação ou algo anormal, o estudante específico é procurado. Quando não conseguimos identificar a autoria, tiramos foto, mas rapidamente fazemos a limpeza”.

Os alunos também não ficam sem aula. Caso haja faltas, rapidamente há uma substituição, algumas vezes até mesmo pela direção.

Ele escreveu redação sobre o ‘mundo em que gostaria de crescer’. E ganhou um concurso com ela

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 Reprodução/TV Rondônia "“Eu falei na redação justamente que o mundo que eu gostaria de crescer não é um mundo só meu, porque ele já foi imaginado por muitas pessoas antes de mim"

Reprodução/TV Rondônia
““Eu falei na redação justamente que o mundo que eu gostaria de crescer não é um mundo só meu, porque ele já foi imaginado por muitas pessoas antes de mim”

 

Leonardo Silva Brito, de 17 anos, é morador da cidade de Presidente Médici, no interior de Rondônia.

Camila Boehm, no Huffpost Brasil

Morador da cidade de Presidente Médici, no interior de Rondônia, distante 400 quilômetros da capital Porto Velho, Leonardo Silva Brito, de 17 anos, estudou a vida toda na escola estadual Carlos Drummond de Andrade, onde conheceu o Concurso Internacional de Redação de Cartas, do qual foi vencedor da etapa nacional em 2015 e ficou no terceiro lugar geral da competição.

“O concurso me moveu, me direcionou e me levou a conhecer coisas que eu não conseguiria ter contato fora de sala de aula. Foi muito bom pra mim, para a minha escola, para os alunos, ter contato com esse tipo de material relacionado tanto à história, política e geografia”, contou o rapaz à Agência Brasil. Na época em que participou, os estudantes deveriam tratar na redação sobre o mundo em que gostariam de crescer.

A 46ª edição do concurso feito no Brasil pelos Correios e coordenado em todo o mundo pela União Postal Universal, está com inscrições abertas até amanhã (17).

Escolas da rede pública e privada podem participar com, no máximo, duas redações por instituição, que devem ser escritas à mão e produzidas por alunos de até 15 anos.

O tema deste ano é “imagine que você é assessor do secretário-geral da ONU – qual o problema mundial que você o ajudaria a resolver em primeiro lugar e de que forma você o aconselharia para isso?”

No ano em que foi vencedor, Leonardo estava no segundo ano do ensino médio. No entanto, desde o sexto ano do ensino fundamental, ele participava da competição.

“Algumas [vezes] eu fui classificado, outras não. Eu sempre participava porque eu gostava muito dos temas que eram propostos pelo concurso. Eu esperava realmente desenvolver esse meu interesse por leitura e por escrita principalmente.”

“Eu falei na redação justamente que o mundo que eu gostaria de crescer não é um mundo só meu, porque ele já foi imaginado por muitas pessoas antes de mim e vai continuar sendo desenvolvido depois que eu me for. Eu citei bastantes pensadores que contribuíram para a formação de um mundo melhor. E eu acredito que é assim que será construído um mundo coletivo, onde cada um contribui com o que pode e da forma que pode”

Citando figuras como Malala, Chico Mendes e Madre Teresa de Calcutá, o jovem apresentou seu mundo ideal.

“Esse mundo onde eu gostaria de crescer é a interseção de todos esses sonhos dessas pessoas que acreditavam em um mundo melhor e fizeram acontecer. Eu coloquei [na redação] que seria um mundo coletivo onde cada um doasse parte do seu tempo para a construção realmente dessa utopia”.

Para Leonardo, ter coragem para botar em prática os sonhos e ajudar na construção desse mundo pode “transformar os próximos dias, anos, séculos aqui na Terra para as próximas gerações”.
Coletivo

O jovem lembra a todo momento, em entrevista à Agência Brasil, que sua participação no concurso foi resultado de uma ação coletiva.

“Quando foi lançada essa proposta [do concurso] para o nosso diretor, eles [coordenadores e professores] acolheram e levaram os alunos a fazerem oficinas de produção textual, então foi um trabalho em conjunto, na verdade”.

Ele acrescentou que foi muito bom todos os alunos terem contato com o tema do concurso, relacionado tanto à história, política e geografia.

O jovem contou sobre o reconhecimento que teve dos pais, que o acompanharam durante a premiação em Brasília.

“Eles ficaram primeiramente muito felizes porque é uma conquista muito grande. Se você pensar que eu estudo em escola pública estadual desde sempre, você representar o Brasil numa competição de cunho internacional é uma coisa muito bacana para qualquer um, e mais ainda para uma pessoa que sai de uma cidade tão pequena do interior do estado de Rondônia, de uma escola pública. Foi muito engrandecedor”

Nos concursos seguintes, o rapaz destacou que o interesse dos alunos de sua escola cresceu. Seu irmão, de 13 anos, também começou a participar após sua vitória na competição.

“Meus pais ficaram muito felizes em saber que eu dei, de certa forma, esperança para algumas pessoas que também gostariam de participar e que tem o sonho de um dia representar o Brasil em um concurso internacional”.

Por que ainda se acredita que reprovar alunos é a solução?

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Brasil é um dos campeões mundiais de retenção escolar.

Brasil é um dos campeões mundiais de retenção escolar.

 

Quando o assunto é reprovação escolar, porém, o Brasil está entre os campeões mundiais.

Publicado no HuffpostBrasil

Todos os anos em que há divulgação dos resultados do Pisa, a história se repete: o país lastima amargar as últimas colocações no ranking de aprendizagem feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em 2015, dentre os 72 países participantes, o Brasil ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática.

Não poderia ser diferente. De acordo com a própria OCDE, em 2012, o Brasil investiu 6,1% do PIB em educação, o equivalente a uma média de US$ 3.000 dólares por aluno ao ano. O valor representa um terço do que é aplicado, em média, pelos países membros da organização: US$ 9.487. Estudos mostram também que, além de gastar pouco, o país gasta mal.

Quando o assunto é reprovação escolar, porém, estamos entre os campeões mundiais. Enquanto a média mundial de reprovações na educação básica foi de 2,9% ao ano, segundo a OCDE, nosso índice chegou a 8,2% no Ensino Fundamental e alcançou alarmantes 11,5% no Ensino Médio, de acordo com o Censo Escolar de 2015. Mesmo em comparação com nossos vizinhos, com quem compartilhamos uma história de desigualdades sociais, estamos em posição de vergonhoso destaque. Em 2010, entre os 41 países que compõem a América Latina e o Caribe, o Brasil possuía a maior taxa de repetência na educação básica, de acordo com o relatório do Compromisso Educação Para Todos, da Unesco.

Cenpec

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O que os dados nos mostram é que, diante dos problemas de ensino-aprendizado nas escolas, uma das respostas tem sido reprovar os alunos, na esperança de que repetir o ano possa garantir a aprendizagem adequada. O problema é que a reprovação é dispendiosa e tende a conturbar a trajetória escolar, acarretando mais reprovações e até abandono, um problema grave entre nós: cerca de 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos deixaram a escola sem concluir os estudos, dos quais 52% não concluíram sequer o ensino fundamental. Os dados são de um estudo do Instituto Unibanco lançado em 2016.

Várias pesquisas evidenciam o caráter negativo da reprovação para o aprendizado dos estudantes. Mas por que ainda acreditamos que a reprovação é o melhor caminho? Uma parte da resposta é apontada por uma pesquisa recente do Cenpec para mapear as crenças sobre reprovação, realizada com uma amostra de 5.500 professores da educação básica. A partir de um questionário com 189 perguntas, os professores manifestaram seu grau de concordância, numa escala de 1 a 6, em relação a questões ligadas à reprovação, a concepções de justiça e avaliação e a conhecimentos sobre pesquisas que investigam os efeitos da reprovação.

Um dos principais achados aponta que a adesão à crença na reprovação tende a ser acompanhada por uma forte adesão à crença na justiça meritocrática. Bastante difundida na sociedade, para essa crença a aquisição do conhecimento depende do talento e, especialmente, do esforço do aluno. Assim, a desigualdade escolar e as diferenças de desempenho, seriam causadas, em larga medida, pelos próprios alunos. Fatores sociais e escolares que influenciam o aprendizado – amplamente demonstrados pela pesquisa científica – não são considerados no quadro desse sistema de crenças. Por essa razão, os professores da amostra tendem a acreditar que quanto mais cedo a repetência ocorrer, mais precocemente o aluno entenderá que deverá se esforçar ao longo de sua escolarização para aprender. A reprovação assume, assim, uma natureza moral. Daí a importância, sob o ponto de vista desses docentes, de sua precocidade.

Quanto à avaliação, a crença na reprovação tende a ser acompanhada pela crença de que seu papel deve levar em consideração o desempenho do aluno em relação ao restante da classe, por meio da comparação entre os pares, e não o avanço do aluno em relação a si mesmo. Trata-se da chamada avaliação normativa.

Cenpec

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Em linhas gerais, a crença na justiça meritocrática se contrapõe à crença na justiça corretiva, que considera, por exemplo, os impactos da origem social, do capital cultural e de desigualdades de gênero e raça na aprendizagem. Conforme a pesquisa, os professores que aderem a essa visão de justiça tendem a aderir a uma concepção formativa de avaliação e tendem a ser desfavoráveis à reprovação, especialmente se estiverem bem informados sobre a pesquisa científica a respeito do assunto.

Para lidar com os baixos índices de aprendizagem sob esse último ponto de vista, as redes de ensino adotaram políticas para reverter os altos índices de reprovação, iniciando a implementação da chamada progressão continuada. O problema é que boa parte desses programas, sobretudo nos anos 1990, não foram plenamente implementados, com os devidos investimentos em condições materiais e pedagógicas, levando à ideia de que a progressão era mera aprovação automática. Por isso, outro achado da pesquisa do Cenpec é que os professores que vivenciaram as políticas de progressão continuada somente na década de 1990 tendem a ser mais favoráveis à reprovação.

Esta associação inadequada entre reprovação e melhoria da qualidade da educação se deve a uma cultura incorporada no cotidiano escolar e no imaginário familiar de que a repetência é necessária e benéfica ao aluno com baixa aprendizagem. Pesa ainda a sensação de que a progressão retira do professor o poder de controlar a disciplina dos alunos e exigir dedicação aos estudos. Entretanto, não há evidências de que estudantes de escolas com reprovação anual tenham melhor desempenho do que os matriculados em unidades com progressão continuada.

Felizmente, a situação parece apontar para uma mudança, com os índices de reprovação em tendência de queda nos últimos anos. A evolução desses números, porém, depende de fatores como as dificuldades enfrentadas pelos professores no dia a dia, as memórias pessoais que esses profissionais têm de sua experiência como alunos, as crenças sobre justiça e distribuição do saber e o conhecimento que têm de pesquisas sobre o tema. Por isso, é fundamental, em processos de formação inicial e continuada de professores, debater estas crenças e apresentar evidências científicas sobre os malefícios da reprovação, para que possamos avançar na construção de uma prática pedagógica mais inclusiva e de uma escola pública verdadeiramente para todos e todas.

* Antônio Augusto Gomes Batista foi professor da Universidade Federal de Minas Gerais e docente convidado do Curso de Especializacíon y Maestría en Escritura y Alfabetizacíon da Universidade Nacional de La Plata (Argentina). Atualmente é responsável pela Coordenação de Desenvolvimento de Pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – CENPEC.

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