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‘O que estimula a criança a ler é o exemplo’, diz Ana Maria Machado, homenageada da Flica

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Vencedora do Prêmio Jabuti por três vezes, Ana Maria ganhou também o mais importante prêmio da literatura infantojuvenil mundial: o Hans Christian Andersen

Roberto Midlej, no Correio 24Horas

A carioca Ana Maria Machado, 74 anos, é a homenageada da Flica deste ano, que acontece até amanhã. Ontem, ela participou de bate-papo com o público, para falar sobre sua história, em uma conversa mediada pela professora de Letras Mônica Menezes.

(Foto: Egi Santana/ Divulgação)

(Foto: Egi Santana/ Divulgação)

Vencedora do Prêmio Jabuti por três vezes, Ana Maria ganhou também o mais importante prêmio da literatura infantojuvenil mundial: o Hans Christian Andersen, pelo conjunto da sua obra. Para o público mirim, escreveu clássicos como Menina Bonita do Laço de Fita e História Meio ao Contrário.

Durante a ditadura, ela não escapou da sanha dos militares e foi mantida presa por dois dias: “Nunca disseram por que fui presa, mas eu dava aula em universidades e fazia parte de movimentos ativistas de oposição. Fiquei detida por dois dias porque, na verdade, eles queriam saber outras coisas”. Receosa, a escritora, que ia começar o doutorado, acabou indo para a França, onde estudou sob orientação de Roland Barthes (1915-1980), um dos maiores filósofos e linguistas do século passado.

Em seu retorno ao Brasil, voltou às redações dos jornais, onde já havia trabalhado antes do exílio. Paralelamente, se dedicou à literatura adulta e à infantojuvenil e chegou a ter, por 18 anos, uma livraria para crianças, o que, talvez, tenha contribuído para alimentar o rótulo de “escritora infantil”.

Apesar de ter uma extensa produção voltada para o público adulto, a senhora se tornou mais popular como autora infantil. A que atribui isso?
Talvez porque, quando comecei a escrever para crianças, havia poucos escritores que pensavam nesse público. E também porque recebi prêmios importantes internacionais, como o Hans Christian Andersen. Mas acho que essa não é uma pergunta para mim. Talvez seja uma pergunta para a mídia, que, não sei por que, criou esse rótulo. Mas não me incomoda isso. O que me incomoda é não poder responder a essa pergunta.

Muitos dizem que as crianças estão cada vez mais dispersas e não se dedicam à leitura. Como estimular que elas leiam?
O que estimula a criança a ler é o exemplo. O exemplo estimula a aprender qualquer coisa. Se a criança come de garfo e faca é porque vê os pais comerem assim. Mas se ela mora numa sociedade onde adultos comem com a mão, ela vai comer com a mão. Então, se ela mora numa família ou numa sociedade em que ninguém lê, ela não vai se interessar por leitura, mas se as pessoas em volta dela leem e falam sobre livros, ela vai se interessar, porque ler é uma atividade como outra qualquer. Eu tive uma livraria por 18 anos no Rio de Janeiro e nunca encontrei uma criança que não gostasse de ler. Ela podia não gostar de ler um ou outro tipo de livro, mas logo descobria outro, futucava e encontrava. E a concorrência da leitura com outras coisas, sempre houve.

As livrarias estão condenadas ao fim, como muitos acreditam?
A livraria e a biblioteca estão mudando. As livrarias estão colocando uns cafés ou um show de vez em quando em seu espaço. Mas é fato que o número de livrarias diminuiu porque há hoje outros meios onde se pode ler, como a internet. E não importa em que meio se lê. O texto pode estar num papel, num papiro ou num pergaminho. A obra de Homero só foi escrita muitos séculos depois da morte dele, porque antes só era transmitida oralmente. No entanto, hoje todos conhecem a Odisseia.

Durante a ditadura militar, a senhora chegou a ser presa e se mudou para a França. Como os militares justificaram sua prisão? Na sua volta ao Brasil, como foi trabalhar nos jornais?
Nunca disseram por que fui presa, mas eu dava aula em universidades e fazia parte de movimentos ativistas de oposição. Fiquei detida por dois dias porque, na verdade, eles queriam saber outras coisas. Acabei deixando o Brasil por isso, por recomendação de meu advogado. Na época, eu estava inscrita para fazer doutorado e levei tudo que eu tinha pronto para a França. Me inscrevi no doutorado lá e fui aceita para estudar com Roland Barthes, por três anos. Na volta, havia sido demitida da universidade. Aí, fui trabalhar no Jornal do Brasil. Já tinha tido experiência também no jornalismo na França, na revista Elle. E na Inglaterra, na BBC.

Durante dois anos, a senhora presidiu a Academia Brasileira de Letras. Que ações a ABL realiza, além de promover os encontros entre os seus membros?
Pensam que a ABL é só para os escritores tomarem o chá das cinco e para babar na gravata, mas a Academia faz várias coisas importantes. Primeiro, precisamos esclarecer que é uma instituição que não tem nada a ver com o governo. Na época em que a presidi, fizemos uma parceria com a Federação da Indústrias do Rio de Janeiro (Fierj) para montar bibliotecas em comunidades populares. A Firjan equipava as bibliotecas e nós nos responsabilizávamos pela formação de mão de obra para trabalhar lá. Demos cursos e formamos 98 técnicos auxiliares de biblioteconomia em um curso na sede da Academia. Com a Marinha, fizemos uma parceria também. Os fuzileiros navais ajudaram a recuperar escolas de comunidades do Rio. Então, a ABL faz um trabalho social intenso que não se toma conhecimento porque não se quer. No centenário de Jorge Amado, fizemos convênios com quatro universidades estrangeiras que se dedicaram a estudar a obra dele.

Qual a importância de eventos como a Flica e outras festas literárias?
Esse eventos têm dois lados positivos. O primeiro é que a mídia lembra que existem livros, então isso rende cobertura e a divulgação rende uma multiplicação enorme. Além disso, acabaram os suplementos literários nos jornais e o livro não tem o mesmo espaço de outras artes, como o cinema e a música. Outro aspecto importante dessas festas literárias: mobiliza as pessoas a escolherem e adquirirem livros, além de, eventualmente, encontrarem o autor.

Flica 2016 terá Milton Hatoum, Conceição Evaristo e Ana Maria Machado

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O escritor amazonense Milton Hatoum, autor de livros como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, participa, na sexta, da mesa A Voz do Autor, junto com o escritor baiano João Filho (Foto: Divulgação)

O escritor amazonense Milton Hatoum, autor de livros como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, participa, na sexta, da mesa A Voz do Autor, junto com o escritor baiano João Filho (Foto: Divulgação)

 

Em sua sexta edição, a Flica chega à sexta edição entre os dias 13 e 16 de outubro, em Cachoeira

Publicado no Correio 24Horas

A mesa de abertura da Flica – Festa Literária Internacional de Cachoeira, no dia 13 de outubro, às 15h, terá a participação de Mary Del Priore. A historiadora carioca vai falar sobre o seu mais recente livro, Histórias da Gente Brasileira, que, em vez de se concentrar nas grandes personalidades brasileiras, registra os hábitos do brasileiro comum, mostrando como as pessoas se vestiam, onde moravam e o que comiam.

Pela primeira vez, a Flica vai dedicar uma mesa, exclusivamente, a um autor e a um livro. O mediador da conversa é Jorge Portugal, professor e secretário estadual da Cultura. Outros autores nacionais, como Milton Hatoum e Ana Maria Machado, a homenageada deste ano, também participarão da Flica 2016.

Hatoum, autor de livros como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente, participa, na sexta, da mesa A Voz do Autor, junto com o escritor baiano João Filho. Ana Maria Machado, conhecida também por sua produção dedicada às crianças, falará sobre seus romances voltados para o público adulto.

A literatura fantástica também terá espaço, com Eduardo Spohr, de A Batalha do Apocalipse, e a baiana Scarlet Rose, de Finlândia. A poesia e a prosa de ficção são destaques na mesa com a mineira Conceição Evaristo e a baiana Lívia Natália.

Os destaques internacionais são o colombiano Juan Gabriel Vásquez e congolês Kabengele Munanga. A Flica, que chega à sexta edição, segue até dia 16. O evento é uma realização da iContent e da Cali – Cachoeira Literária, com patrocínio da Coelba, Oi e governo do estado.

PROGRAMAÇÃO FLICA 2016

Quinta 13/10

Mesa 1 – 15h
“Histórias da gente brasileira”
Mary Del Priore
Mediação: Jorge Portugal

Mesa 2 – 19h
A confirmar

Sexta 14/10

Mesa 3 – 10h
“Do Éden à Finlândia”
Eduardo Spohr e Scarlet Rose
Mediação: Suzane Lima Costa

Mesa 4 – 15h
“A voz do autor”
Miltom Hatoum e João Filho
Mediação: Mirella Márcia

Mesa 5 – 19h
“O mar, um mapa, a audácia”
Ana Maria Machado conversa com Mônica Menezes

Sábado 15/10
Mesa 6 – 10h
“Histórias de humor sutil, micromundos familiares e fratura generalizada”
Juan Gabriel Vásquez (Colômbia) e Antonio Prata
Mediação: Zulu Araújo

Mesa 7 – 14h
“Exílios interiores”
Ana Martins Marques e Ângela Vilma
Mediação: Mônica Menezes

Mesa 8 – 17h
“As águas dos contrassonetos e os olhos da vândala insubmissão”
Conceição Evaristo e Alex Simões
Mediação: Lívia Natália

Mesa 9 – 20h
“Entre cidades atlânticas”
Kabengele Munanga (Congo) e Goli Guerreiro
Mediação: Zulu Araújo

Domingo 16/10

Mesa 10 – 10h
Caruru dos 7 Poetas na Flica

Ana Maria Machado é a homenageada da Flica 2016

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Ana Maria estará na Flica, onde participará da mesa O Mar, um Mapa, a Audácia, que acontece no dia 14, às 19h

Publicado no Correio 24 Horas

A 6ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que acontece de 13 a 16 de outubro, no município de Cachoeira, no Recôncavo, já tem homenageada: será a escritora carioca Ana Maria Machado, vencedora de três Prêmios Jabutis.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

 

Além de receber todas as honras da festa literária, Ana Maria estará na Flica, onde participará da mesa O Mar, um Mapa, a Audácia, que acontece no dia 14, às 19h.

Na Flica, evento realizado pela iContent, a autora baterá um papo com a professora Mônica Menezes, responsável pelo projeto de pesquisa na área de literatura infantojuvenil da Ufba. Ana Maria Machado é vista pela crítica como uma das mais versáteis e completas escritoras brasileiras contemporâneas. Ela mesma diz: “Já fui professora, já fui jornalista, já fiz programa de rádio, já tive uma livraria e nesse tempo todo nunca parei de escrever”.

Autora popular e muito conceituada no segmento infantil, Ana Maria foi presidente da Academia Brasileira de Letras e em sua gestão deu especial ênfase a programas sociais de expansão do acesso ao livro e à leitura nas periferias e comunidades carentes. Ao longo de 40 anos escrevendo, publicou mais de cem livros (dos quais 9 romances e 8 de ensaios), com mais de vinte milhões de exemplares vendidos, lançados em vinte idiomas e 26 países.

“O que leva uma criança a ler é o exemplo”, diz Ana Maria Machado

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A escritora Ana Maria Machado, que lança novo livro

A escritora Ana Maria Machado, que lança novo livro

 

Rodrigo Casarin, no UOL

Um dos maiores nomes da literatura nacional, Ana Maria Machado está com livro novo na praça. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2003, entidade que presidiu entre 2012 e 1013 e onde ocupa a cadeira de número 1, autora de mais de 100 livros infanto-juvenis que já superaram as 20 milhões de cópias vendidas em 17 países e vencedora de prêmios como o Machado de Assis, oferecido pela própria ABL, e o Hans Christian Andersen, a honraria mundial mais importante destinada a autores de obras para crianças e jovens, não há dúvidas de que a senhora de 74 anos tem muito a dizer sobre o universo literário. E é justamente isso que seu novo título, “Ponto de Fuga”, comprova.

A obra reúne treze ensaios escritos entre 1988 e 2005, boa parte deles apresentados em eventos literários em diversas partes do mundo. Nos textos, a autora fala de diversos elementos que envolvem o mundo das letras, como o mercado editorial, a formação de leitores e como a escola pode ajudar ou prejudicar no despertar do interesse dos jovens pela literatura. “Se republico, é porque acho que ainda vale. Esses textos são reflexões conscientes e embasadas sobre as questões. Podem mudar ligeiramente em algumas circunstâncias, mas não são para descartar segundo a moda de cada ano”, diz a autora em entrevista ao UOL.

No livro, a questão de como se introduzir a arte aos potenciais leitores surge como uma das preocupações primordiais. “Em termos bem simples, estou convencida de que o que leva uma criança a ler, antes de mais nada, é o exemplo. Da mesma forma que ela aprende a escovar os dentes, comer com garfo e faca, vestir-se, calçar sapatos e tantas outras atividades cotidianas”, escreve Ana Maria. “Não é natural, é cultural. Entre os povos que comem diretamente com as mãos, não adianta dar garfo e colher aos meninos, se eles nunca viram ninguém utilizá-los. Isso é tão evidente que nem é o caso de insistir. Se nenhum adulto em volta da criança costuma ler, dificilmente vai se formar um leitor”, registra ela no texto “Entre Vacas e Gansos: Escola, Leitura e Literatura”.

Já em “Muito Prazer: Notas Para uma Erótica da Narrativa”, a autora constata: “Se é verdade que tenho encontrado muitos adolescentes e adultos que não têm vocação leitora, nunca se aproximaram de livros ou até alguns que deles se afastaram em certa idade, também é verdade que nunca encontrei uma criança alfabetizada, com pleno acesso a livros e num ambiente leitor sem cobranças, que não gostasse de ler. Pode rejeitar um certo tipo de livro, ou desenvolver preferências que não são as que o adulto escolheria para ela, mas isso não significa que não goste de ler”.

“Estou convencida de que o que leva uma criança a ler, antes de mais nada, é o exemplo. Se nenhum adulto em volta da criança costuma ler, dificilmente vai se formar um leitor.
Ana Maria Machado, no ensaio “Entre Vacas e Gansos: Escola, Leitura e Literatura”, que integra o livro “Ponto de Fuga”

Literatura adulta

Autora de títulos como “Bento que Bento É o Frade”, de 1977, seu livro de estreia, “História Meio ao Contrário”, vencedor do Jabuti de 1978, “Bisa Bia, Bisa Bel”, de 1982, que levou o prêmio de melhor livro juvenil da Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil, e “Menina Bonita do Laço de Fita”, uma de suas obras mais reverenciadas, o nome de Ana Maria costuma ser diretamente relacionado ao público jovem. No entanto, sua produção voltada para os adultos também é considerável.

Em 1983, lançou “Alice e Ulisses”, sucedido por uma dezena de outros livros pensados a esse público, para o qual o último trabalho de ficção foi “Um Mapa Todo Seu”, lançado no início do ano passado. Questionada sobre o que lhe dá mais prazer, se escrever para crianças e adolescentes ou adultos, ela diz que a comparação acabaria com a graça do ofício. “Para ficar só num exemplo gastronômico, não consigo saber se gosto mais de camarãozinho frito na beira da praia ou jabuticaba recém-tirada do pé”, ilustra.

“Escrever para crianças e adultos é diferente, como é diferente conversar com adulto ou com criança. No caso infantil, o prazer é mais próximo da brincadeira. No caso adulto, tem uma densidade mais consciente”, explica. “Ambas as atividades são difíceis e apresentam desafios. O universo do leitor infantil tem um repertório menor de acumulação de experiências leitoras que permitam referências intertextuais, então fica mais difícil trabalhar nessa área. Mas justamente por essa dificuldade, traz um desafio mais instigante”.

O que anda lendo

“Acho que a literatura brasileira contemporânea vai muito bem, oferecendo uma variedade incrível de leituras atraentes”, diz Ana Maria sobre a produção atual, destacando nomes como Bernardo Carvalho, Miltom Hatoum e Cristovão Tezza – a quem generosamente chama de “novos já consagrados” –, mas também elencando outros nomes ao falar de quem vem lhe agradando. “Gente como Daniel Galera, Paulo Scott, Socorro Acioli, Tatiana Salem Levy, Miguel Sanches Neto, Michel Laub, José Luiz Peixoto [este português]… São tantos, tão diferentes entre si. Temos muitos nomes interessantes produzindo coisas muito boas e está até difícil acompanhar”.

Falando a respeito de suas últimas leituras, que fez neste verão, conta que está fascinada por “S.”, dos norte-americanos J. J. Abrams (diretor de “Star Wars: O Despertar da Força) e Doug Dorst. Também andou lendo policiais de Agatha Christie, “Quarenta Dias”, de Maria Valéria Rezende, último vencedor do Prêmio Jabuti, “Um Defeito de Cor”, romance de Ana Maria Gonçalves, “Trilhas”, de Leonardo Froes, “Diários da Presidência”, de Fernando Henrique Cardoso” e “Patrimônio”, de Philip Roth, além de fazer releituras de Roland Barthes e Raimundo Faoro.

Lygia Fagundes Telles e o Nobel

Sobre a indicação da colega Lygia Fagundes Telles para concorrer ao Prêmio Nobel de Literatura, Ana Maria é toda elogios. “A Lygia merece tudo de bom. É uma grande autora, das grandes no mundo. Merece muito mais que uma indicação. Merecia já ter ganho. Como outros autores brasileiros também indicados, aliás. Este ano ou há mais tempo. Sei de outras instituições que indicaram outros nomes como Ferreira Gullar, Nélida Piñón, Rubem Fonseca. Ou antes, Drummond, Ariano Suassuna, João Cabral, Jorge Amado”, diz.

No entanto, questiona o alarde feito em torno da indicação realizada pela União Brasileira dos Escritores (UBE). “Foi uma grande jogada de marketing da instituição, divulgando por toda parte como se fosse uma premiação. É apenas a indicação de um nome por uma instituição, entre centenas que se enviam todo ano à Academia Sueca. As universidades e associações de classe de todo o país, em várias instâncias, são convidadas a levantar nomes. E elas o fizeram, sendo que este ano a UBE sugeriu a Lygia , como sugerira o Moniz Bandeira anteriormente. Só espero que esse oba-oba em torno do nome dela não a prejudique, porque gostaria muito que ela ganhasse”.

E se acredita que há realmente chances do prêmio vir para Lygia? “Não faço a menor ideia do que se passa na cabeça de quem decide isso”.

Para Ana Maria Machado há uma eclosão de novas vozes na literatura brasileira

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Escritora analisa que lugar o livro ocupa no Brasil

Publicado no JC Online

ana maria machadoUm aumento na publicação e a explosão da literatura juvenil fazem do Brasil um país em plena efervescência literária. A escritora Ana Maria Machado analisa que lugar o livro ocupa no Brasil, o convidado de honra no Salão do Livro 2015 de Paris.

P: Em que se caracteriza a literatura brasileira em comparação com seus vizinhos da América Latina?

R: A literatura brasileira é particular, em primeiro lugar, porque é escrita em português. Viemos de uma tradição levemente diferente, apesar de ser ibérica. Por exemplo, o realismo mágico, que tanto marcou a literatura hispânico-americana, não é tão frequente em nosso país. E isso embora o primeiro (a fazê-lo) tenha sido um brasileiro, Machado de Assis, que escreveu no século XIX “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

Temos uma tradição em geral mais realista, com o realismo social de Jorge Amado desde os anos 30 e, posteriormente, o realismo psicológico. Mas o que mais nos caracteriza hoje em dia é uma grande diversidade de vozes. Trata-se da primeira geração verdadeiramente alfabetizada em todo o país e há uma eclosão de novas vozes, de gente que escreve sobre as cidades com uma diversidade de experiências urbanas. É difícil medir onde isso vai nos levar, mas este fenômeno de efervescência é muito emocionante.

P: Este fenômeno se traduz em uma explosão no número de livros publicados?

R: Há um maior número de títulos publicados, e publicamos mais na internet que nos jornais. Na lista de escritores que vêm ao Salão do Livro de Paris há um grande número de jornalistas que reuniram seus artigos em um livro, ou que escrevem romances com esta experiência da escrita do dia a dia. Isso leva a uma escrita por vezes fragmentada, com uma linguagem muito viva, muito realista, e um apego às questões urbanas. Tivemos uma urbanização quase selvagem, devido à rapidez com que foi feita, e todos estes problemas aparecem nos livros.

Além disso, há muitos leitores jovens e a literatura juvenil está muito desenvolvida no Brasil, tanto pela qualidade quanto pelo número de escritores. Houve a partir dos anos 1990 um programa do governo que permitiu comprar livros juvenis para distribui-los pelas bibliotecas das escolas. Isso desenvolveu muito este setor do mercado.

P: Que lugar o livro ocupa na sociedade brasileira?

R: Saltamos da cultura oral à cultura audiovisual e eletrônica sem verdadeiramente fazer uma parada significativa na etapa de Gutenberg.

A sociedade brasileira sempre foi muito desigual. Isso teve consequências na educação em geral. As pessoas vêm de famílias nas quais não havia livros. Não tivemos bibliotecas suficientes. A leitura não era valorizada e há estereótipos negativos sobre as pessoas que leem.

Atualmente, há quase uma biblioteca em cada município. Mas as bibliotecas sofrem no Brasil. As pessoas não têm o costume de ir e não sabem o que se pode encontrar em uma biblioteca. Não é um espaço de ócio ou de descoberta, mas simplesmente um lugar onde os alunos fazem seus deveres.

Apesar disso, devemos ter esperança e continuar trabalhando para divulgar o livro.

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