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Maior evento sobre livros do mundo, Feira de Frankfurt começa com 7,3 mil editoras

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Chanceler alemã Angela Merkel e presidente francês Emmanuel Macron inauguram a Feira de Frankfurt. Na foto, mostram uma impressão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, feita por uma réplica da prensa de Gutemberg - Ludovic Marin / AFP

Chanceler alemã Angela Merkel e presidente francês Emmanuel Macron inauguram a Feira de Frankfurt. Na foto, mostram uma impressão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, feita por uma réplica da prensa de Gutemberg – Ludovic Marin / AFP

 

Feira deste ano foi inaugurada com discursos de Angela Merkel e Emmanuel Macron

Bolívar Torres, em O Globo

RIO – Principal evento internacional do mercado editorial, a Feira do Livro de Frankfurt será inaugurada nesta quarta-feira sob o lastro das palavras da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente da França, Emmanuel Macron, cujo país é o homenageado deste ano. Nesta terça-feira, em noite de gala para convidados, dois dos principais líderes da União Europeia prometeram fomentar o intercâmbio cultural e pregaram tolerância e diversidade.

— O quanto a Alemanha seria mais pobre sem a influência da cultura francesa, e o quanto a França seria mais pobre sem os alemães? — questionou Angela Merkel.

Macron criticou o crescimento do populismo e do nacionalismo no continente e defendeu o poder unificador da literatura.

— Lutamos por nossos livros e nossa cultura. Sem cultura, não há Europa. Livros são a melhor arma — disse ele, num discurso sob medida para o evento que celebra o livro de forma grandiosa: são mais de 7,3 mil editoras de cem países, em estandes que deverão ser visitados, até domingo, por um público de cerca de 280 mil pessoas, além de receber 600 escritores convidados.

O Brasil está representado por 32 editoras, por meio do Brazilian Publishers (BP), projeto de fomento às exportações do conteúdo editorial brasileiro, parceria da Câmara Brasileira do Livro (CBL) com a Apex-Brasil. Aproveitando os resultados da edição anterior, quando fechou cerca de US$ 620 mil em exportação de direitos autorais e livros físicos, a expectativa agora é atingir US$ 650 mil, segundo o presidente da CBL, Luís Antonio Torelli:

— Esperamos superar as exportações do ano anterior. Nossa atuação está em três principais frentes: relacionamento internacional, capacitação do mercado editorial brasileiro para internacionalização e melhor exposição de nossos empresários e do nosso produto editorial.

Memorial de Saramago

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Imagem Google

Publicado originalmente no Valor Econômico

Saramago em Lanzarote: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”, disse uma vez o escritor, que construiu uma literatura defensora de causas.

Na semana em que a chanceler alemã, Angela Merkel, foi recebida com protesto em sua visita a Portugal para saber como vai o plano de austeridade imposto pela União Europeia e o FMI ao país, e também de uma greve geral convocada pelos principais sindicatos portugueses, há ainda algum espaço para celebrações. Nesta sexta-feira, José Saramago, o único Prêmio Nobel da língua portuguesa, completaria 90 anos. Morto em junho de 2010, o escritor receberá uma série de homenagens não apenas em Portugal, mas também na Espanha, onde morou nos seus últimos anos, e no Brasil. À frente dos festejos está a Fundação José Saramago (FJS), criada em 2007 e hoje presidida por Pilar del Río, companheira do escritor por mais de 20 anos.

“Quanto mais conhecemos José Saramago, quanto mais o lemos, mais ele se incrusta em nós. Saramago morreu há mais de dois anos, mas não morreu, continua vivo e cada vez maior”, disse Pilar ao anunciar a série de atividades em homenagem ao autor de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Uma delas é a criação do Dia do Desassossego. Saramago disse, em várias ocasiões, que escrevia para “desassossegar” seus leitores. Nesta sexta-feira, a entidade que cuida de sua obra convoca seus admiradores a sair por Lisboa munidos de livros, de preferência “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, e a ler trechos pela cidade – ou simplesmente levá-los a passear para que os leitores identifiquem uns aos outros. É um ato inspirado no Bloomsday, dia em que amantes da literatura de James Joyce percorrem a capital da Irlanda, Dublin, lendo extratos de seu livro mais conhecido, “Ulisses”.

Leituras coletivas, encenações teatrais, exposições fotográficas e concertos serão realizados nesta sexta em Lisboa, Mafra, Azinhaga (terra natal do escritor) e no Porto para recordar o autor “Memorial do Convento”. Em São Paulo, no Teatro Eva Herz, serão exibidas cinco horas de imagens inéditas do documentário “José e Pilar” (2010), dirigido pelo realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Em ambos os países os livros de Saramago serão vendidos com desconto neste fim de semana. A festividade também se estende ao mundo virtual. Via Twitter, amigos e admiradores do Nobel português prepararam uma “invasão” de tuítes com suas frases e pensamentos.

“Hoje em dia há demasiada tristeza em Portugal. Se a função da obra de Saramago é, por um lado, desassossegar, por outro lado é levar um sorriso a quem lê”, diz a espanhola naturalizada portuguesa Pilar del Río, de 62 anos.

As homenagens pretendem celebrar a obra de um dos maiores romancistas da língua de Camões, mas não só isso. Uma vertente talvez menos conhecida, a do Saramago “político”, vem ganhando importância nos últimos anos por causa da extrema crise e falta de esperança que atravessam a Europa. “Acho que, cada vez mais, esse lado crítico de Saramago, os textos e ensaios políticos e as colunas opinativas publicadas nos jornais ganharão relevância. Fico curioso para saber como isso será absorvido”, afirma Sérgio Machado Letria, de 36 anos, diretor da FJS.

O romancista foi uma “cabeça lúcida”, alguém muito atento às contradições do mundo e capaz de antecipar as fissuras que hoje já são impossíveis de ser escondidas, na visão do escritor e museólogo Fernando Gómez Aguilera, de 50, autor do livro “Saramago nas Suas Palavras”. “O que hoje está acontecendo no seio da União Europeia foi antecipado em artigos e intervenções públicas ainda nos anos 80, quando Portugal estava imerso no processo de integração europeia. Em seu discurso contra a Comunidade Econômica Europeia, que estava sendo construída, assinalou o poder hierárquico da Alemanha e França frente aos subordinados do Sul.”

Uma vertente talvez menos conhecida do autor, a do “político”, vem ganhando importância em razão da enorme crise por que passa a Europa

É justamente do que hoje se queixam, nas ruas, cidadãos gregos, italianos, espanhóis e portugueses. Não é raro que frases do Prêmio Nobel de 1998 sejam exibidas em cartazes, ou citadas em discursos, durante os recentes protestos no continente. De acordo com Aguilera, a existência de uma Europa dos “mercadores”, a falta de diálogo e de “vínculos políticos reais” foram alguns dos problemas sobre os quais Saramago, em um momento em que a União Europeia era só otimismo, já havia advertido. Para o crítico espanhol, o autor de “Ensaio Sobre a Lucidez” era um intelectual clássico, alguém disposto a colocar o dedo na ferida e provocar debates. “Ele foi um escritor que intervinha na realidade, que tinha suas ideias e não as guardava. Era capaz de agitar, de fazer as ideias circularem. Sempre optou por incomodar o poder, formular perguntas impertinentes, causar mal-estar, e essa é a função de um intelectual.”

Em 2003, em discurso que fez em Madri contrário à guerra no Iraque, Saramago disse que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder. Ele mesmo desempenhou ao longo da vida esse papel de impertinente. “Saramago não receou descer à arena e sujar as mãos, tomando posição pública, como o fizeram os grandes intelectuais portugueses”, diz o crítico literário e escritor Miguel Real, de 59 anos. Para ele, o Nobel português era uma espécie de comunista da ordem “do coração e do sentimento”, um homem que manifestou seu desejo de aniquilação da pobreza, da desigualdade e das injustiças em cada página de seus livros. Seu comunismo “hormonal”, como ele próprio denominava, não o impediu de dirigir reiteradas críticas à esquerda.

Uma delas, também em 2003, foi feita na carta aberta em que declarava: “De agora em diante Cuba segue seu caminho, eu fico”. Era uma crítica ao regime de Fidel Castro por ter executado três dissidentes. “Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu minha confiança, estragou minha esperança e ilusão”, sentenciou o escritor, que disse certa vez: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”.

Antes de tudo, Saramago era alguém que defendia os direitos humanos, aponta Pilar. “Ele tinha verdadeiro pânico de pessoas de um só livro, fosse esse livro ‘O Capital’, a ‘Bíblia’, o ‘Corão’ ou qual você quiser. E era assim porque normalmente quem tem um só livro nem o lê, mas sim o usa para agredir os demais.”

Zeferino Coelho, publisher da Caminho, editora que publica Saramago em Portugal, defende que essa vertente política do escritor permeia toda a sua produção. “A obra de José Saramago, toda ela e não apenas os textos propriamente políticos, é profundamente política. Ele tinha não só uma preocupação permanente sobre tudo o que se passava no mundo como tinha uma representação desse mundo e uma vontade de agir sobre ele.” Coelho pondera que esse engajamento não fazia dos romances de Saramago algo panfletário.

Para Miguel Real, a principal característica da obra de Saramago é seu caráter ensaístico. “Ele disse isso várias vezes, que escrevia romances porque não sabia escrever ensaios. Foi autor de uma literatura de ideias, isto é, uma literatura que, iluminando os grandes temas do presente à luz de um novo horizonte e de novas interpretações, nasce tanto para interrogar e duvidar quanto para esclarecer e afirmar.” O crítico português avalia que o reconhecimento mundial e a atribuição do Nobel a Saramago se devem a três fatores: escrevia para um “leitor universal”, que poderia ser erudito ou popular; criou um novo estilo na língua portuguesa; e construiu uma literatura “empenhada”, defensora de causas e “denunciadora de situações políticas opressivas”. Ao anunciar o vencedor do Nobel de 1998, a Academia Sueca destacou: “Mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, [Saramago] nos permite continuamente captar uma realidade fugitiva”.

Exposição sobre o escritor na fundação que leva seu nome: em discurso que fez em Madri, Saramago afirmou que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder.

Gómez Aguilera aponta a “força da linguagem” e a “capacidade para integrar imaginação e consciência na ficção” como as principais marcas literárias do romancista. “Merece também ser destacada a energia poética e moral de suas fabulações, seu poder de emoção e representação, e seu compromisso com a realidade em que vivia, sem trair a autonomia da literatura”, completa.

Em sua extensa obra, Saramago questionou o poder, a história, a verdade, a justiça e também a Igreja Católica. E foi em razão de seu ateísmo confesso e de sua abordagem sobre temas religiosos que o escritor acabou por ir morar na Espanha. Em 1993, depois de seu romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ser impedido de representar Portugal em um concurso literário, Saramago mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, Espanha. Mantinha uma casa em Lisboa, mas seu descontentamento com o episódio da censura era evidente e declarado. O escritor morreu em 18 de junho de 2010, em Lanzarote, e exatamente um ano depois suas cinzas foram depositadas em frente da Casa dos Bicos, onde funciona a fundação que administra seu legado.

Para muitos foi a reconciliação após o exílio voluntário do autor. “Não houve reconciliação porque não houve briga. Ele nunca esteve brigado com o país. Sua questão foi com algumas pessoas que estavam no poder naquela época. O próprio Saramago deixou isso claro”, pondera Sérgio Letria. “Saramago é muito adorado aqui, é uma figura imprescindível para o país”, completa o diretor da FJS.

Se é que houve alguma rusga entre Portugal e Saramago, ela ficou no passado. Hoje o Nobel português é leitura obrigatória nos colégios, e mesmo quem não é fã de sua narrativa acaba por reconhecer seu valor como pessoa. É o caso da advogada Ana Lúcia Gonçalves, de 31 anos: “Nunca gostei muito do modo como ele escrevia. Mas um dia ele foi à minha aldeia. Havia pagado do próprio bolso a restauração de um órgão de tubo antiquíssimo que havia no convento. Mesmo fraquinho, fez questão de estar no dia em que iam reinaugurar o instrumento. Então alguém perguntou o porquê daquele gesto, se ele era ateu. Ele respondeu que fazia aquilo pelo homem que havia construído o órgão, pela beleza da obra humana que deveria ser preservada. Achei maravilhoso isso e passei a admirá-lo”.

No Brasil, Saramago acumulou leitores – já vendeu mais de 1,5 milhão de livros no país – e amigos, entre eles figuras como Chico Buarque, Sebastião Salgado e Jorge Amado. A proximidade com o escritor baiano, que neste ano completaria 100 anos, foi motivo de uma exposição temporária na Fundação José Saramago. “Os brasileiros que nos visitam ficaram emocionados ao ver tantas fotos de Jorge e José”, comenta Pilar, que brinca que é o Brasil que sustenta a FJS (a maioria de seus visitantes estrangeiros é brasileira). Em uma das tantas visitas do casal ao país, ela registrou assim o deslumbramento com Salvador e a maneira como foram recebidos: “Até José, pouco dado a reuniões grandes, que em situações como estas mais parece um cão perdido, esteve à vontade, descontraído, deixando correr o tempo, sem experimentar a terrível sensação de perda irreparável que tantas vezes, em ocasiões assim, se apodera dele. (…) Custa-nos deixar a Bahia.”

No primeiro andar da Casa dos Bicos, prédio quinhentista que hoje abriga a Fundação José Saramago, no centro de Lisboa, há uma exposição permanente com documentos, fotos e vídeos que contam a vida do escritor. Há imagens raras da infância de José em Azinhaga com o avô Jerônimo, homem que no discurso de recepção do Nobel foi homenageado com as seguintes palavras: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

Ao fim do percurso e após ver algumas preciosidades, como a primeira máquina de escrever do romancista ou a agenda na qual, equivocadamente, marcou o nome da jornalista que iria conhecer dias depois (“Pilar de los Ríos”) e seria, como mais tarde escreveu, “o seu pilar”, o visitante depara com um painel enorme de uma instantânea feita pela fotógrafa Helena Gonçalves, em 2007. Vestido de negro e com o semblante desafiador, Saramago traz atado ao corpo um cinturão, como o de um suicida, mas no lugar de bombas o que carrega são livros. Feliz representação de um escritor capaz de fazer verossímil uma cegueira branca e coletiva de todo um país ou o descolamento da Península Ibérica do restante da Europa transformando-a numa jangada de pedra. Usou as palavras como armas e morreu sendo a mosca que incomodava.

 

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