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Como os livros salvaram a minha vida

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Imagem: pixabay

Publicado no Gaucha ZH [via The New York Times]

Os livros salvaram a minha vida. A frase parece absurda, mas tenho certeza de ser tão verdadeira quanto todas as outras coisas que não posso provar.

Em meados de 2005, depois de encerrada a minha participação no fiasco que foi a guerra do Iraque, peguei o soldo que ficou acumulado durante tanto tempo e paguei adiantado o aluguel de um ano de um pequeno apartamento de frente para o Museu de Belas Artes de Virgínia, em Richmond. Na época, vivia sem objetivo definido – e embora soe meio como um mantra de autoajuda, o fato é que eu me sentia à deriva, e pouco interessado tanto em velejar como em voltar para a costa. Minhas necessidades eram poucas e simples: porta trancada, persianas abaixadas, e uma loja de conveniência a duas quadras vendendo cerveja gelada o dia inteiro.

Sem dúvida, a guerra era uma das coisas das quais eu queria me apartar, mas o fato de o mundo inteiro também ficar do lado de lá da porta me parecia um golpe da mais pura sorte. Não sei se minha angústia era resultado da química cerebral, de alguma má-formação genética, do que vira no Iraque ou das minhas próprias atitudes, mas parecia verdadeira a ponto de eu me dispor a fazer qualquer coisa para fazê-la desaparecer.

E nesse aspecto até que tive sucesso, pelo menos por um tempo. Os efeitos colaterais da “automedicação” com uma caixa de Milwaukee’s Best todos os dias eram desagradáveis, mas se o objetivo era não sentir absolutamente nada, a eficácia da dose era imbatível. Eu já vinha bebendo em excesso com alguma regularidade desde os 14 anos. Em 2005, passei quase seis meses bêbado. O único contato humano que tinha eram as poucas palavras que trocava com a moça do caixa enquanto ela cobrava as duas caixas de cerveja, dois cachorros-quentes extragrandes e dois maços de cigarro. Essa era a minha vida – até que comecei a duvidar que merecesse ser chamada assim.

O grande problema com que me deparei foi que tanto minha mente quanto meu coração resistiam às minhas tentativas de afogá-los; uma solução temporária que tornasse possível a existência, ainda que superficialmente, já não bastava. Passei a achar que o que parecia ser um problema permanente pedia uma solução à altura.

Durante os meses seguintes, a mente flutuando em uma piscina de cerveja barata, um pouco abaixo do nível da semiconsciência havia sempre o mesmo pensamento: e se eu não acordar dessa vez? Duvido que seja preciso explicar o tipo de desespero que torna uma ideia dessa uma fonte de alento – não o que advém da aceitação de que a situação não tinha como piorar, mas o de que as coisas ficassem como estavam para sempre. O próximo passo me pareceu lógico e inevitável.

No entanto, estou aqui, escrevendo este artigo, quase treze anos depois, apesar do fato de, na semiescuridão daquele apartamento de Richmond, eu não querer ser, não querer existir, com uma intensidade que poucas vezes na vida depois de lá senti.

Comecei dizendo que os livros salvaram a minha vida e, embora saiba que isso seja verdade, não sei bem como conseguiram tal façanha. Se eu soubesse qual a variável responsável por eliminar o suicídio da minha lista de opções, certamente dedicaria minha vida a disseminá-la – mas infelizmente não tenho esse conhecimento, só correlação e especulação.

Conforme ia me afundando mais e mais no meu estupor de eremita, minhas tentativas de leitura foram se tornando ridículas, geralmente resultando no livro torto, na diagonal, seguro por uma mão trêmula, examinado por um olho semicerrado e o outro fechado – até que eventualmente incluí o exercício na lista das muitas outras atividades que um dia me diferenciaram dos outros animais e que já não conseguia mais desempenhar. Um dia, porém, por alguma razão desconhecida, peguei “Poemas Reunidos de Dylan Thomas” e descobri que os seguintes versos me deram um momento de enlevo, na falta de descrição melhor: “Esses poemas, com todas as suas grosserias, dúvidas e confusões, são escritos por amor ao Homem e em honra a Deus, e eu seria um tolo rematado se não fossem”.

Vocês podem achar que ao usar a palavra “enlevo” e a inclusão de uma citação que menciona Deus, estou dizendo que algo milagroso aconteceu ou tentando forçar uma resposta religiosa à dificuldade universal de ser uma pessoa; não. O que me tocou foi a referência a “grosserias, dúvidas e confusões”, pois nada chegou tão perto da descrição do que minha vida se tornou do que essas três palavras. Acho, aliás, que eu era a personificação delas.

Pela primeira vez em muito tempo eu me reconheci no outro, e, de alguma forma, essa ligação frágil permitiu que eu me afastasse de uma das crenças mais terríveis associadas a esse tipo de problema que estou descrevendo: a de que se está absolutamente só, como ninguém mais, e que essa é uma situação permanente.

Eu queria poder dizer que, nesse momento, levantei da cama e saí andando, mas não foi o que aconteceu. Precisei da ajuda de outros seres humanos por um bom tempo antes de melhorar – e me manter nessa condição exige diligência e atenção até hoje.

De qualquer maneira, nos meses seguintes, a conexão com o mundo além da minha mente se fortaleceu com outros livros até eu perceber que toda a gama da experiência humana, incluindo o sofrimento e a dor, quando testemunhada ou compartilhada, pode ser transformada em um tipo de reverência transcendental. Por mais estranho que pareça, o mesmo impulso que me levou à autodestruição – o desejo de me “apagar” – ainda estava ativo na minha vida. O que mudou foi que comecei a ver a imersão nos livros como uma alternativa confiável à bebida ou à morte.

Às vezes, ouço a arte ser descrita como qualquer coisa criada sem uma utilidade definida, mas minha experiência me diz o contrário. Descobri que os livros são úteis na minha vida de maneiras profundas e incomparáveis, pois me ajudaram a não desistir dela.

(Kevin Powers, veterano da guerra do Iraque, é autor de “A Shout in the Ruins” e “The Yellow Birds”.)

Por Kevin Powers

Italiana aproxima crianças da Rocinha aos livros: ‘A leitura é uma paixão’

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Barbara Olivi é criadora do Garagem das Letras Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Bruno Alfano, no Extra

Bárbara Olivi, de 57 anos, estava meio jururu no fim da última semana. Eram 11h e, naquele momento, a italiana retratava bem o astral da Rocinha, favela onde mora há 17 anos e que está em guerra desde setembro de 2017. Ela era a cara do desânimo. Mas não passou nem uma hora, e uma criança entrou no Garagem das Letras, um misto de biblioteca comunitária e cafeteria numa das ladeiras da comunidade que Bárbara abriu há três anos. E não foi só aquele menininho. Outros tantos mais passaram por ali, vindos da aula na Escola municipal Francisco de Paula Brito, que fica ali pertinho. Já era outro o semblante da italiana, personagem de hoje da série “Extraordinários” — que, para comemorar as duas décadas de vida do jornal EXTRA, conta a história de vida de pessoas que mudam a vida de outras.

— Todo dia é um desafio. Todo dia você não sabe o que vai acontecer — diz Bárbara: — Mas essas crianças entram aqui e dizem: “Tia, cadê meu abraço?”. Isso é o que me deixa bem para continuar lutando.

O bem que as crianças fazem para Bárbara é fruto de muito trabalho da italiana com projetos sociais na comunidade. A gringa, como já foi muito chamada pelos moradores locais, chegou ao Brasil em 1998 para morar na casa de uma amiga na Gávea e ficou encantada pelas luzes da Rocinha. Um porteiro do prédio em que ela vivia soube do desejo da italiana e a convidou para almoçar na casa dele, na comunidade. Lá ela conheceu Célia, sua amiga até hoje. Três anos depois, alugou uma casinha na favela.

— Eu achei a Gávea tranquila demais, quieta demais. Sou italiana. Preciso de movimento ao redor de mim. Eu vim para cá para ficar mais perto das crianças. Eu trabalhava como guia turística e fiquei apaixonada por eles. Ou seja, vim por puro egoísmo para receber o abraço deles — conta, invertendo um pouco a lógica dos fatos.

Assim, naturalmente surgiu a vontade de ter um espaço para, sistematicamente, oferecer algo a essas crianças de abraços quase terapêuticos para Bárbara. O Garagem das Letras nasceu em 2015. O local, cheio de livros e brinquedos, recebe eventos gratuitos, como saraus, oficinas, aulas de idiomas e exibições de filmes. Também funciona como uma cafeteria.

Crianças frequentam espaço como segunda casa Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

— Não é preciso muito, nem dinheiro. E preciso tempo. É preciso um ombro e ouvido para as crianças falarem o que elas querem falar — explica a moradora da Rocinha. — Quem quiser (fazer evento no espaço) é só organizar. Não é preciso pagar nada.

Em várias frentes

O Garagem das Letras não é o único projeto que Bárbara coordena na Rocinha. Ela também administra uma escola de maternal comunitária e o Casa Jovem, um espaço que, segundo ela, “sempre tem lanche e pessoas para dar um abraço”. Lá também há diferentes tipos de cursos. Um terceiro trabalho, esse mais recente, é o Projeto Aldeia, que é de terapia de emergências.

— Toda a nossa equipe participou de um curso de terapia de emergência na Cruz Vermelha. Essa instabilidade da insegurança pública deixa nossas crianças traumatizadas. A gente monta atividades para que isso venha à tona e seja trabalhado — conta Bárbara, que segue como guia de turismo na comunidade.

O fascínio da moça pela favela é, como ela diz, “ancestral”. Bárbara é filha de um engenheiro que trabalhava na companhia de petróleo italiana, e ela passou a infância morando em diferentes locais do planeta, como Congo e Egito. Na Nigéria, aos 14 anos, saía dos portões do condomínio para brincar com meninas locais.

Barbara é italiana Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

— Eu ia para conhecer o que estava ao meu redor. Eu queria saber desde então como eles brincavam, como dormiam, o que falavam, o que comiam… Eu me lembro até hoje da brincadeira delas — diz.

‘O livro pode virar o seu melhor amigo’

O meu sonho para o Garagem das Letras é que ele se torne autoadministrado. Ou seja, um lugar público, que não tenha dono, mas que tenha uma organização feita por jovens da Rocinha de acordo com suas próprias necessidades. A leitura é umas verdadeira paixão. O livro pode virar seu melhor amigo. Quantos sonhos você aprende num livro? Quantas viagens você faz? Quantos choros numa história de amor? É isso que a gente tenta transmitir para as nossas crianças.

Estimuladas pelos pais, crianças formam nova geração de leitores na Feira do Livro, em Poços de Caldas

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Estimulados pelos pais, crianças formam nova geração de leitores na Feira do Livro, em Poços de Caldas (Foto: Rose Lino)

Feira acontece junto com Festival Literário Internacional de Poços de Caldas e vai até o dia 6 de maio.

Rose Lino, no G1

cada ano, a Feira Nacional do Livro atrai ainda mais crianças, que geralmente acompanhadas dos pais ou professores visitam o espaço repleto de opções de literatura para diferentes idades durante o Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (MG), formando assim uma nova geração de leitores.

E neste domingo, de feriado prolongado, não foi diferente. A feira recebeu grande um público, em que os pais aproveitaram a folga para estimular e abrir novos horizontes de interesse para os filhos.

Leonardo de Oliveira Rubio, de 4 anos, estava procurando um livro de dinossauros, mas não hesitou ao parar no primeiro estande e descobrir a imensa variedade de livros à disposição. Ao lado dos pais, parecia fascinado com tantas possibilidades. Para a mãe, a fisioterapeuta Beatriz de Oliveira, esta é uma oportunidade também de ensinar educação financeira.

“Como moramos em Poços voltamos aqui na Feira diversas vezes em dias alternados e compramos aos poucos alguns exemplares mostrando para o Léo que podemos planejar este investimento. Além disto, achamos importante estimular a curiosidade dele por meio da leitura e das escolhas”, explica.

Laís e a mãe escolhem livros juntas durante a Feira do Livro (Foto: Rose Lino)

O espaço traz diversidade de materiais, histórias e cada vez mais livros que viram brinquedos. A dona-de-casa Taís Fernanda Fonseca, trouxe o filho Guilherme de apenas 1 ano e meio de idade. O livro que escolheram vem com história escrita, ilustrações e até um volante de carro de brinquedo. Enquanto ele se diverte, ela lê e consegue a atenção dele.

A técnica de enfermagem Elaine Helena da Silva traz a filha Laís todos os anos à feira. Ela prefere intercalar livros de leitura e outros com atividades de aprendizado semelhantes às aplicadas na escola.

“Escolhemos juntas alguns títulos e esta é a chance também de Laís aprender a manusear os livros, ensinamento que fica para a vida toda como o respeito à leitura”, comentou.

Já para o contador de histórias, escritor e desenhista Davi Daniel, que iniciou seu trabalho há exatos 13 anos, mesmo tempo em que a Feira do Livro acontece em Poços de Caldas, muitas famílias têm restringido as atividades dos filhos em casa aos aparelhos eletrônicos e quando visitam o local, os livros passam a ser a grande novidade.

“Tenho visto crianças surpresas com a beleza dos livros e das histórias, o que nos traz a esperança de que estamos formando um novo público leitor”, ressalta Davi.

A Feira do Livro segue até o dia 06 de maio, das 9h às 21h, no Complexo Cultural da Urca, em Poços de Caldas. A entrada é franca. A programação completa pode ser encontrada no site oficial do Flipoços.

Médico prescreve livros para crianças atendidas em hospital do Itapoã, no DF

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Crianças podem escolher qual obra levar para casa no projeto Prescreva um Livro (Foto: Estêvão Rolim/Arquivo pessoal)

Indicação é escrita logo abaixo da prescrição de remédios. Maioria dos habitantes da região não lê.

Lucas Vidigal, no G1

Os pais das crianças atendidas na Unidade Básica de Saúde 3, no Itapoã, precisam adicionar doses de leituras aos filhos entre um remédio ou outro. O médico Estêvão Rolim, de 26 anos, tem sempre acrescentado alguma obra infantil na receita médica.

A iniciativa faz parte do projeto Prescreva um Livro, idealizado em 2016 para criar o hábito de leitura em uma região onde os habitantes leem menos do que a média do Distrito Federal (saiba mais abaixo).

“Além de introduzir a leitura desde muito cedo, a gente quer fortalecer os vínculos familiares. Atividades lúdicas como essa são fundamentais até para o tratamento de doenças crônicas”, comentou Rolim.

Prescrição do livro fica escrita logo abaixo dos remédios receitados (Foto: Estêvão Rolim/Arquivo pessoal)

Prescrever um livro – diferentemente dos remédios – não é tarefa para o médico. A própria criança procura a obra que quer ler, ou que o pai, mãe, avós ou irmãos leiam para ela.

A semelhança entre as prescrições está no compromisso. A criança precisa tomar os remédios em dia e deve, também, ler o livro e devolvê-lo na consulta seguinte.

Leitura em qualquer idade

Maria Lídia com o pai, Elton, segura o livro que ganhou do médico (Foto: Estêvão Rolim/Arquivo pessoal)

Crianças com idade escolar preferem livros infantis um pouquinho maiores. Mas aquelas que nem aprenderam as letras escolhem pelas figuras. Quanto mais colorido, maior o sucesso.

Gripada às vésperas de comemorar o primeiro aniversário, Maria Lídia Chagas amou as cores do livro “A menina dos olhos mágicos”, de Cecília Vasconcellos e com ilustrações de Edna Castro.

Pela pouca idade, Maria Lídia não deve prestar tanta atenção à história de uma menina que não sabe o que fazer com os novos olhos. Mas a mãe, Regimeire Santos Gomes, de 35 anos, faz questão de ler o livro diariamente para a filha. “Ela mesma folheia, olha as letrinhas e mostra as páginas mais bonitas”, diz.

Maioria dos adultos não lê

Moradora do Itapoã, Regimeire disse que mal tem tempo para ler as histórias românticas que ela mesma diz gostar. “Eu trabalho como encarregada de padaria no Lago Sul. Quando volto para casa, não dá tempo”, afirmou.

A mãe de Maria Lídia engrossa as estatísticas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) que mostram que 76,7% dos moradores do Itapoã não leem – percentual acima dos 63,5% que representam a população do DF inteiro sem hábito de leitura. Os dados, os mais recentes para a capital, são de 2013.

Em uma das regiões com menor renda per capita do DF, a falta de leitura faz diferença. “É um cenário de risco, onde muito adulto sofre por não ler. Eles crescem com dificuldades em reter informações básicas”, afirmou.

Além de atendimento médico, a Unidade Básica de Saúde serve como um ponto de apoio à comunidade da região.”

Por isso, Rolim pretende estender o Prescreva um Livro a outras unidades de saúde do DF. Além disso, o programa deve abarcar também adultos com doenças crônicas. Ainda não há, porém, data prevista para a ampliação do projeto, que é voluntário.

Livros indicados pelo médico Estêvão Rolim

As cores de Laurinha (Pedro Bandeira e Walter Ono)
Jacaré não manda carta – uma aventura a favor da despoluição dos rios (Julieta de Godoy Ladeira)
Minha irmã é diferente (Betty Ren Wright)
Galo de briga, de paz (Miriam Mermelstein)
Surpresa de Páscoa (Telma Guimarães)
Fábulas (Monteiro Lobato)
De mão em mão (Telma Guimarães)
Diário de uma mosca (Doreen Cronin)
A menina dos olhos mágicos (Cecília Vasconcellos)
Os caçadores de mel (Francesca Martin)

‘Ela é a minha inspiração para a vida’, conta mãe que escreveu livro sobre a filha com Síndrome de Down

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Cristiane Pinheiro escreveu livro sobra a filha Valentina (Foto: Tatane Borges)

Cristiane Pinheiro escreveu livro sobra a filha Valentina (Foto: Tatane Borges)

Ficção coloca pequena Valentina, de 9 anos, como personagem principal de uma aventura com fantasia e lições de vida.

Fernanda Rodrigues, no G1

Era uma vez uma Menina que entrou em um bosque secreto e mágico, onde árvores muito altas se fechavam em copa, o colorido das plantas dava conta que ali habitavam seres divinos e figuras místicas”. Logo nas primeiras linhas, o livro “A Bellinte” mostra um mundo diferente, habitado pela personagem principal da história. Valentina Pinheiro Rocha, de Passos (MG), tem só 9 anos, mas já virou estrela pelas mãos da mãe, Cristine Pinheiro, autora da obra.

A ideia de colocar a filha, portadora da Síndrome de Down, como personagem de uma história em um mundo fantástico veio após um ensaio fotográfico. Fã de fotos, a mãe encontrou em um dos ensaios a definição perfeita da filha. A menina foi vestida de roupas medievais, em um bosque, com cenário e poses que lembram o universo dos clássicos infantis.

Valentina, de 9 anos, é a personagem principal do livro escrito pela mãe em Passos (MG) (Foto: Tatane Borges)

Valentina, de 9 anos, é a personagem principal do livro escrito pela mãe em Passos (MG) (Foto: Tatane Borges)

Cada foto do ensaio ganhou uma pequena história, que foi postada nas redes sociais e atraiu muitos seguidores.

“As fotos da Valentina sempre me revelaram algo muito além da imagem captada. Uma fotógrafa conseguiu captar a essência dela. A ideia do livro surgiu após postagens dessas fotos do ensaio em redes sociais. Percebi que as pessoas começaram a seguir a história e esperavam pelas próximas. Com a sugestão de uma amiga, decidi começar o livro”.

Livro "A Bellinte" mostra a pequena Valentina, de 9 anos, em um mundo de fantasia (Foto: Tatane Borges)

Livro “A Bellinte” mostra a pequena Valentina, de 9 anos, em um mundo de fantasia (Foto: Tatane Borges)

No enredo, Valentina é uma menina escolhida para a missão de ajudar a salvar um lugar especial. Ao longo do caminho, a personagem passa por conflitos e encontra seres especiais, como uma coruja questionadora, um anão pessimista e um gigante bondoso.

“Valentina está na obra desde o início e passa por combates interiores, foi designada para uma missão. No decorrer da história ela passa por situações de dúvida, medo, reflexão, alívio, coragem, surpresa”, conta Cristiane.

Os desafios de criar Valetina vieram acompanhados de novas descobertas. Quando fala da filha, a mãe destaca tudo que a faz diferente e única.

Personagens como coruja, gigante e anão contam história ao lado de Valentina (Foto: Tatane Borges)

Personagens como coruja, gigante e anão contam história ao lado de Valentina (Foto: Tatane Borges)

“Ela é determinada e autêntica, sincera e decidida, sensível e atenta ao sofrimento alheio. Ela foi muito desejada, amada e abençoada. No momento em que a vi, minha conta com a vida zerou e renasci. Aliás, pra cada etapa cumprida, minha conta zerava novamente, renasci várias vezes. Hoje, vejo que ela me ensina a ensiná-la”.

Cristiane conta que escrever o livro ajudou a melhorar a percepção não só da filha, mas também de outras pessoas e da vida em sociedade.

Cristiane e a filha Valentina juntas em um ensaio fotográfico (Foto: Tatane Borges)

Cristiane e a filha Valentina juntas em um ensaio fotográfico (Foto: Tatane Borges)

Nas 77 páginas, a obra tem artes especiais, cores que lembram escritas antigas e os trechos acompanhados das fotos que mostram Valentina em cada uma das situações do mundo mágico. Nas redes sociais, mãe e filha colecionam elogios à obra, que é comparada a grandes histórias.

A vida de Valentina

Cristiane e o marido, Luiz Antonio Rocha, descobriram a Síndrome de Down no nascimento de Valentina. Com três meses, a família começou o trabalho de estimulação na Apae de Passos e, desde então, ela passa por fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e equoterapia.

Com três anos, Valentina começou na escola regular e terapias particulares. Além da escola padrão, a menina tem aulas de reforço e faz atividades como natação, balé e música.

“Quanto à saúde, tem as mesmas preocupações de uma criança típica. Não apresentou nenhuma cardiopatia. Ama nadar, brincar com cavalos, jogos virtuais e bonecas”.

Mais do que apresentar um olhar diferente da vida de Valentina e das aventuras de uma criança com Síndrome de Down, Cristiane vê o livro escrito em homenagem à filha como uma forma de ensinar sobre a relação com os sentimentos bons e ruins.

A ideia é que a filha leia o livro no futuro. “Ela se dará conta de que não importa em que momento a historia se apresenta, as pessoas têm ideia errada de urgência. Penso que ela sempre encontrará o bem e o mal, mas terá discernimento para distinguir um do outro. São esses sentimentos que nos fortalecem”.

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