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Diário inédito de José Saramago é encontrado em computador

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José Saramago, em 2005: diário inédito do autor foi encontrado em uma pasta de seu computador – Custódio Coimbra / Agência O Globo

Escrito em 1998, texto do Nobel de Literatura português será publicado em outubro

Publicado em O Globo

LISBOA – Oito anos após a sua morte, um diário até então desconhecido do autor português José Saramago foi encontrado em seu computador. Uma edição será publicada em outubro em Portugal e na Espanha, anunciou nesta terça-feira, sua viúva, Pilar Del Rio.

A obra, escrita em 1998 quando ganhou o prêmio Nobel de literatura, é o sexto e último volume de “Cadernos de Lanzarote”. O nome da série é uma referência à ilha Lanzarote, do arquipélago das Canárias, onde Saramago morou até sua morte em 2010, aos 87 anos.

O volume foi encontrado escondido em uma pasta dentro do computador do romancista, revelou Del Rio, que chefia a Fundação José Saramago em Lisboa.

“Eu pensava que tudo já tinha sido publicado. Fiquei perplexa quando me dei conta que ninguém sabia da existência desse livro”, contou a também escritora e tradutora.

Ainda em vida, Saramago fez referência uma vez a esse diário em 2001.

“Eu não gostaria que, justamente no ano em que algo de notável me aconteceu (seu prêmio Nobel), alguém venha me dizer que eu não o fiz”, brincou o autor em alusão à uma sequência da série durante uma apresentação do quinto volume de “Cadernos de Lanzarote”.

A publicação dessa obra inédita marca, assim, os 20 anos da premiação com o Nobel de Literatura de Saramago, autor de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e de “Ensaio sobre a cegueira”.

8 fatos sobre George Orwell, autor de ‘A Revolução dos Bichos’ e ‘1984’

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Larissa Lopes, na Galileu

Uma série de acontecimentos políticos trouxe um grande nome da literatura inglesa de volta ao pódio dos livros mais lidos e vendidos dos últimos meses. Com um olhar crítico e além de seu tempo, George Orwell se tornou uma fonte para compreender o presente através de sua distopia literária. Se você também foi cativado pelas prosas assertivas de 1984 e A Revolução dos Bichos, conheça abaixo oito fatos sobre a vida do autor que comemoraria 115 anos em 2018.

1 – Pseudônimo

Apesar de estar impresso nas capas de todos os seus livros, George Orwell não é o verdadeiro nome do autor. Nascido Eric Arthur Blair, o escritor assumiu o pseudônimo de George Orwell desde o lançamento do seu primeiro livro, Na Pior em Paris e Londres, em 1933. Por isso, a maioria das pessoas que realmente conheciam seu primeiro nome eram da família ou amigos muito próximos que o conheciam antes da fama. O nome teria surgido por causa de uma grande reviravolta na vida de Orwell, após vivenciar diversos conflitos armados e internos enquanto servia ao Império Britânico. Seu sobrenome deriva do Rio Orwell, que deságua no sudeste da Inglaterra.

2 – Família e criação

O escritor nasceu em 25 de junho de 1903, na cidade de Motihari, que na época pertencia à Índia Britânica. Era filho de um oficial britânico à serviço da Coroa e sua mãe, de origem francesa, era filha de um comerciante de Myanmar. Em 1911, se mudou para a cidade inglesa de Sussex com sua família, onde viveu nos padrões da classe média baixa. Ingressou em um internato preparatório onde se destacava pelos primeiros traços de brilhantismo e por ter menos condições econômicas do que seus colegas de classe.

GEORGE ORWELL NA BBC EM 1940 (FOTO: BBC, VIA WIKIMEDIA COMMONS)

Por sua inteligência, conseguiu ser aprovado em duas escolas de elite: Winchester e Eton. Optou pela segunda, onde permaneceu estudando entre 1917 e 1921 graças a bolsa de estudo que lhe foi concedida. “[Era] a mais cara e esnobe das Public Schools da Inglaterra”, descreveu Orwell no prefácio à edição ucraniana de A Revolução dos Bichos. Em Eton, publicou seus primeiros textos nos periódicos da escola e teve aulas com Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo.

Quando terminou o colegial, decidiu seguir a tradição familiar no exército e não frequentou nenhuma universidade mais tarde.

3 – Conflitos armados e internos

Orwell se alistou na Polícia Imperial da Índia em 1922 e serviu durante cinco anos, tempo suficiente para que o autor começasse a detestar o imperialismo britânico. Dessa experiência, foram criados alguns ensaios como Shooting an Elephant e A Hanging, e o livro Dias na Birmânia, que denuncia a verdadeira face do Império Britânico na Índia e, consequentemente, em todo o mundo.

Foi durante uma folga do serviço, em 1927, enquanto estava na Inglaterra, que Orwell finalmente decidiu abandonar a carreira pública e militar para se tornar escritor. Viveu em Paris entre 1928 e 1929, onde começou a escrever os primeiros rascunhos de obras que o próprio autor afirma ter destruído por causa de sua pouca qualidade. Sem estabilidade, o autor passou fome em alguns momentos e se viu obrigado a conviver com criminosos e mendigos das cidades.

“Tornei-me pró-socialista mais por desgosto com a maneira com os setores mais pobres dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a qualquer admiração teórica por uma sociedade planificada”, comentou o autor sobre a posição política que mais tarde viria a defender.

Em 1933, lançou seu primeiro livro — no qual Eric assumiu seu pseudônimo — e, três anos depois, retornou à rotina de conflitos armados. Junto com sua esposa, Eileen O’Shaughnessy, lutou na Guerra Civil Espanhola, onde um disparo de um francoatirador fascista atingiu a sua garganta, o que o deixou sem poder falar por algumas semanas.

Apesar desse e de outros acidentes, Orwell entrou para a milícia do Partido Operário de Unificação Marxista, onde atuou com vários trotskistas espanhóis.

4 – Influência brasileira

De acordo com o biógrafo Jeff Meyers, autor de Orwell: Wintry Conscience of a Generation, a gaúcha Mabel Lilian Sinclair Fierz, filha de um casal inglês que se mudara para a Inglaterra aos 17 anos, foi uma figura extremamente importante na vida profissional e pessoal de Orwell.

Foi ela que convenceu o editor Leonard Moore a publicar em 1933 o primeiro livro do escritor, Na Pior em Paris e Londres. Além disso, também ajudava Orwell a melhorar sua relação com o pai, que o criticava por ter abandonado o serviço imperial e começado a viver na boemia. Segundo Meyers, Mabel também foi amante do escritor e morreu em 1990, aos 100 anos.

5 – Morte

Apesar de ter trabalhado no Exército por muitos anos, não foi um conflito armado que tirou a vida de George Orwell. O escritor morreu aos 46 anos, no dia 21 de janeiro de 1950, em Londres, por causa de um quadro de tuberculose. Foi enterrado na Igreja Anglicana All Saints’ Churchyard, onde o túmulo o identifica apenas como Eric Arthur Blair, sem sinal de seu famoso pseudônimo.

TÚMULO DE GEORGE ORWELL (FOTO: BRIAN ROBERT MARSHALL / GRAVE OF ERIC ARTHUR BLAIR (GEORGE ORWELL), ALL SAINTS, SUTTON COURTENAY)

6 – Jornalismo

O gosto por conflitos e por contestar o poder aproximou Orwell não só da literatura como também do jornalismo. Hoje, a Orwell Foundation, organização criada pelo primeiro biógrafo do escritor, Sir Bernard Crick, se dedica a reconhecer grandes trabalhos jornalísticos e jovens talentos da escrita política.

7 – Grandes admiradores

Com um texto crítico e preciso, os romances de George Orwell acumulam admiradores até hoje. Alguns dos mais famosos são David Bowie e Anthony Burgess, autor de Laranja Mecânica, que foi influenciado por 1984, obra que considera uma das cinco distopias mais importantes da literatura.

O mesmo livro também era um dos favoritos do icônico David Bowie, que, em uma entrevista à Rolling Stones em 1974, revelou que estava até trabalhando na adaptação da obra para a TV. O projeto teria o formato musical, mas nunca vingou.

8 – Best-seller

Em janeiro de 2017, o livro 1984 liderou a lista de mais vendidos da Amazon após a posse de Donald Trump, 45º presidente dos Estados Unidos. De acordo com a editora norte-americana que publica a obra, as vendas tiveram um aumento de 10.000%.

E essa não foi a primeira vez que o livro de 1949 ressurgiu nos carrinhos de compra virtuais por conta de algum escândalo da vida real. Em 2013, a venda de 1984 aumentou 6.888% depois que Edward Snowden revelou o caso de monitoramento de dados nos Estados Unidos. Da 12.859ª posição da lista dos mais vendidos, o livro saltou para a 184ª. Outra edição, que incluía também A Revolução dos Bichos, ocupou o 11º lugar do ranking.

Em 2017, os editores da Amazon colocaram 1984 em primiero lugar da lista de 100 livros para ler antes de morrer.

*Com a supervisão de Thiago Tanji

 

7 lições que aprendemos com o Guia do Mochileiro das Galáxias

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Rachel Guarino, na Cabana do Leitor

Não entre em pânico, mas o dia 25 foi o dia mais esperado no mundo nerd, o dia do Orgulho Nerd, ou o Dia da Toalha, para os mais íntimos. Mas você sabe como esse dia se originou e porque tem esse nome? Tem a ver com o livro Guia do Mochileiro das Galáxias, mais conhecido como a bíblia dos Nerds, do autor Douglas Adams.

A saga conta a história de Arthur Dent, um terráqueo que embarca em uma aventura com um E.T chamado Ford Prefect, logo após a Terra ser destruída e dar lugar a uma via interespacial. Ford estava em uma pesquisa de campo para a nova edição de O Guia do Mochileiro das Galáxias e, juntos, embarcam em uma nave alienígena dando início a uma alucinante jornada pelo tempo e espaço. Agora, como isso se tornou em um dia a ser comemorado?

Com seu humor altamente ácido e crítico, Adams ganhou o mundo. Virou um dos principais ícones pop do século 20, com os cinco livros da saga sendo traduzidos para mais de 30 línguas. Porém, no dia 11 de maio de 2011, Adams veio a falecer. Com isso, os fãs sentiram a necessidade de homenagear o autor que criou todo esse universo mágico aos olhos dos nerds. Dessa forma, dia 25 de maio ficou decidido como o Dia da Toalha, afinal, de acordo com o autor, todo viajante precisa de uma toalha.

E como todo dia é dia de aprender uma lição com o Guia do Mochileiro das Galáxias resolvemos trazer sete lições que todo mundo precisa saber ao começar sua jornada.

1 – Não entre em pânico

Talvez a lição mais importante de todas: Não Entre em Pânico. Afinal de contas, você está realizando uma jornada, ou seja, tudo pode ser possível. Se for uma viagem solitária então, o desespero pode bater sobre o que fazer. Nesses momentos que se deve lembrar de não entrar em pânico e manter a cabeça fria, só assim que vai conseguir passar por qualquer tipo de situação.

2 – Conheça sua toalha

Sua toalha, literalmente, é sua melhor amiga e sua fiel escudeira. Durante sua viagem, sempre tenha uma à mão, ela pode salvar vidas. De acordo com o Guia, uma toalha pode ser um agasalho, canga, cobertor, além de servir como arma ou sinal de socorro, entre outras inúmeras funções. Ou seja, se torna peça fundamental, afinal, em uma jornada, não se pode contar com muitos recursos, às vezes, só podemos contar com criatividade e uma toalha.

3 – Não planeje muito

Isso realmente pode te fazer perder as melhores coisas da vida. Permita-se o inesperado e seja aberto às opções que toda jornada tem a oferecer. Suas viagens ficarão muito mais divertidas e aventureiras. O Guia do Mochileiro das Galáxias nos mostra que quando se está aberto a tudo, ficamos muito mais felizes e satisfeitos com os resultados.

4 – Acredite em si mesmo

Esqueça a opinião negativa de todos que não acreditam em você e siga com seus instintos, acreditando neles, irá te levar a lugares inacreditáveis. Faça que nem Arthur Dent, um terráqueo visto como incapaz, mas que acredita em si mesmo o suficiente para continuar seguindo em frente, obtendo sucesso em tudo o que faz. Então a mensagem é, todos são capazes de tudo, basta querer.

5 – Não tenha medo em viajar

Independente de qualquer sentimento de medo, não deixe que isso te desanime a seguir em sua jornada. Faça como os personagens do Guia que nunca desistem, não importando os obstáculos que apareçam em seus caminhos. O medo pode te impedir de realizar coisas maravilhosas.

6 – Nunca volte para pegar a bolsa

Não importa o que aconteça, nunca, mas nunca mesmo, volte para pegar a bolsa. Metaforicamente falando, você pode perder as melhores coisas se tiver que voltar para pegar alguma coisa antes esquecida. Lembre-se de sempre seguir em frente, sem olhar para trás. A única coisa que um mochileiro precisa é de sua toalha, então esqueça o que ficou para trás e siga em frente, sem medo de ser feliz.

7 – Esvazie a mente sempre que possível

De vez em quando, é importante esvaziar a mente, se não, entramos em parafuso. O Guia diz “ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe-se flutuar mais alto”. Durante uma jornada, não tem problema em ter momentos sozinho, focado no nada, apenas observando o horizonte. Liberte-se de tudo que te distraia e apenas esvazie sua mente. Você se sentirá capaz de tomar qualquer tipo de decisão e pensar na sua vida de forma mais eficiente.

Chega ao Brasil a biografia do antropólogo Claude Lévi-Strauss

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O antropólogo belga Claude Lévi-Strauss Foto: Edições Sesc

Belga deu aulas na USP e compreendeu o Brasil em ‘Tristes Trópicos’

Paulo Nogueira, no Estadão

Que tal ler sobre um homem que viveu 101 anos e morreu Imortal? Que criou uma ciência (ou ao menos um ramo frondoso dela)? Que escreveu um livro clássico, acima de tudo inclassificável? Que deu aulas na USP, em Nova York e Paris, e aprendeu muita coisa com gente que andava pelada e dormia no chão? Um homem cujo nome era música, calça e filosofia, e por vezes um risco mortal?

Salivando? Então basta percorrer as 782 feéricas páginas da biografia Lévi-Strauss, de Emanuelle Loyer. A autora é especialista em história intelectual da Universidade Sciences-Po, em Paris. Confirmando a barbada, esta obra embolsou o prêmio Femina de ensaio, em 2015.

Um dos supremos intelectuais do século 20, Claude Lévi-Strauss (1908-2009) nasceu em Bruxelas, mas é tão francês quanto Astérix. De origem obviamente judaica, o sobrenome de Lévi-Strauss sempre deu pano para mangas. Em 1940, com a França sob ocupação alemã, ele foi a Vichy pedir autorização para voltar à capital, onde nazistas saíam pelo ladrão. O funcionário pestanejou: “Com esse nome, o senhor quer ir para Paris?” Caindo a ficha, Claude se mandou para os EUA, onde foi aconselhado pelos diretores da New School a usar L. Strauss em vez de Lévi-Strauss – “para que o senhor não seja confundido com uma marca de jeans”. Também foi confundido com o autor de valsas vienenses Richard Strauss. E com o filósofo Leo Strauss. Hoje é inconfundível.

Claude, embora tenha declinado bater o ponto na École Normale Supérieure, poleiro dos prodígios da geração (Sartre, Aron, Merleau-Ponty, Paul Nizan), cursou filosofia e direito – já na etnologia foi um autodidata. Ainda na faculdade, simpatizou com os princípios do socialismo e fez militância estudantil. Mas, por feitio e convicção, foi sempre um socialista insociável, que nunca sujeitou tudo a um materialismo farisaico. E saudou no ato, em 1933, o romance Viagem ao Fim da Noite, do endiabrado reacionário Louis-Ferdinand Céline. Isso quando a esquerda ortodoxa estava embevecida com o Realismo Socialista de Jdánov.

Naquela época, apesar de recém-casado, o professor do ensino médio Lévi-Strauss se sentia como se tivesse perdido o bonde e a esperança. Até que ouviu um som talismânico. “Minha carreira foi decidida num domingo de 1934, às 9h da manhã, com um toque de telefone”. Era um convite para dar aulas de sociologia na engatinhante USP, com a isca de que “há muitos índios na periferia de São Paulo”. Não havia. Depois, o embaixador brasileiro na França jogou água no chope: “Não há mais índios no Brasil”. Havia.

Lévi-Strauss tinha 26 anos. Ficou no Brasil quatro anos, lecionando em francês, “a segunda língua dos brasileiros escolarizados”. Em 1934, São Paulo contava mais de 1 milhão e 200 mil habitantes e crescia a jato (50 anos antes, não passava dos 100 mil!). Antes, fez escala no Rio de Janeiro, com o qual embirrou: “Os trópicos são menos exóticos do que antiquados.” Comparou os morros cariocas a “dedos numa luva apertada”. Em Sampa, o primeiro arranha-céu que vê na vida: o edifício Martinelli. A delegação de professores europeus era uma espécie de seleção galáctica de dentes de leite: entre outros, Fernand Braudel (depois um dos pais da “história das mentalidades”), Roger Bastide (que traduzirá Casa Grande e Senzala) e o grande poeta italiano Giuseppe Ungaretti.

Na USP, Lévi-Strauss dá seis aulas de 55 minutos por semana, de março a novembro. Ele e sua mulher Dina, com a mesma formação acadêmica do marido, viram parças da intelligentsia local, sobretudo Mário de Andrade. O regresso à França coincide com o início da 2.ª Guerra Mundial. Lévi-Strauss só voltará ao Brasil em 1985, com o presidente Mitterrand. Mas dirá: “O Brasil representa a experiência mais importante da minha vida”.

Em 1940, se exila nos EUA, no mesmo cargueiro em que enjoa André Breton. Em NY, rola um encontro decisivo: com Roman Jakobsson, que lhe apresenta o estruturalismo. Daí nascerá a antropologia estrutural, postulando uma configuração que ordene a entropia dos fatos, através da análise de mitos e laços de sangue. Seja a sociologia seja a antropologia já refletiam uma “linhagem francesa”, com Émile Durkheim e Marcel Mauss. Em meados do século 20, o etnocentrismo era torpedeado: já não se tratava do “fardo do homem branco”, ou de ensinar canibais a comer de garfo e faca – em vez disso, o elogio da diversidade e do interlocutor. Até porque, como observou Aron: “Uma parte do melhor do Ocidente acabou nos fornos crematórios de Auschwitz.” Tratava-se, isso sim, de tentar conciliar o sensível e o inteligível, natureza e cultura. A influência da linguística em Lévi-Strauss nunca extrapolou – como aconteceu, por exemplo, com Jacques Derrida e sua famosa frase desconstrucionista: “não há nada fora do texto” (a não ser, claro, as interpretações de Derrida).

Em 1955, jorra a lava verbal de Tristes Trópicos, uma obra metamórfica, porosa, meio budista meio lunática – uma autoanálise que bate na trave da catarse absoluta. O título, com sua aliteração lírica e soturna, levanta a bola para o incipit rabugento, que chuta o balde da premissa antropológica: “Odeio viagens e exploradores.” Relatando o convívio com índios caduveos, bororos e nambiquaras, é para muitos o mais importante livro de um estrangeiro sobre o Brasil. E é a chef d’oeuvre de Lévi-Strauss, um clássico que funde literatura e ciência, espécie e indivíduo, eternidade e devir – aliás, o próprio título é de um romance que o autor quis escrever e depois amarelou.

Tristes Trópicos, com suas quase 500 páginas, foi concluído em cinco meses, numa máquina de escrever de teclado alemão comprada numa biboca em São Paulo. Tentar definir essa obra é como empunhar vento (por ela ser praticamente tudo, menos um pastel de vento). A biógrafa Emanuelle Loyer faz uma airosa tentativa, ao compará-la com o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Quando Tristes Trópicos saiu, Sartre (cujo existencialismo Lévi-Strauss tinha esculhambado) declarou-se “deslumbrado”.

É uma narrativa encantada, por vezes amarga como um limão verde. Se alguém quer ser etnólogo pensando em Indiana Jones, pode tirar o cavalinho da chuva. “Não há lugar para a aventura nessa profissão. Temos de nos levantar com o dia, permanecer acordado até que o último índio esteja dormindo, e de o vigiar durante seu sono. Temos de nos esforçar para passar despercebidos, estando sempre presentes; ver tudo, reter tudo, anotar tudo, dar mostras de uma indiscrição humilhante, mendigar informações de um garoto ranhoso”. Sim: a antropologia às vezes é um programa de índio.

É evidente a tentação do autor pelo texto literário, sem prejuízo do rigor científico (neste aspecto, lembra Primo Levi). Em 1973, Lévi-Strauss é eleito para Academia Francesa. Em 2004, a Bibliotheque de la Plêiade (coleção da Gallimard que canoniza os clássicos da literatura francesa) abre sua primeira exceção para um não literato: Claude Lévi-Strauss – e com o autor ainda vivo. É a vantagem da arte sobre a ciência: nos melhores casos, aquela caduca mais devagar e, nas obras-primas, talvez nunca. O Édipo de Sófocles continua novinho em folha – já a teoria geocêntrica de Ptolomeu é uma curiosidade histórica.

Talvez a chave para Tristes Trópicos (e para a vida do seu autor) resida em sua última frase, na forma de um felino enigmático e elegante mas também expressivo: “Tal como o indivíduo não está só no grupo e cada sociedade não está só entre as outras, o homem não está só no universo. Assim que o arco-íris das culturas humanas tiver acabado de afundar-se no vazio cavado pelo nosso furor, este arco tênue permanecerá. Este favor que toda a sociedade ambiciona, onde ela situa o seu ócio, o seu prazer, repouso e liberdade, e que consiste em captar a essência do que ela foi e continua a ser, aquém do pensamento e além da sociedade, na contemplação de um mineral mais belo que todas as nossas obras; no perfume mais sábio que os nossos livros, respirado no âmago de um lírio; ou no piscar de olhos, cheio de paciência, serenidade e perdão recíproco que um entendimento involuntário permite, por vezes, trocar com um gato.”

Bill Gates tem um novo livro preferido “de toda a vida”

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Livro favorito do fundador da Microdoft indica que QI médio global está subindo cerca de 3 pontos por década

Suria Barbosa, na Exame

Por anos, Bill Gates, fundador da Microsoft, indicou The Better Angels of Our Nature (em português, “Os anjos bons da nossa natureza”), de Steven Pinker, como seu livro preferido. Ele costumava dizer que se pudesse recomendar apenas um leitura para qualquer pessoa, seria esta.

Em The Better Angels, Pinker mostra resultados de pesquisas detalhadas para argumentar que a humanidade vive a época mais pacífica. “Eu nunca tinha visto uma explicação tão clara sobre o progresso”, declara Gates.

Porém, em 2018, o magnata anunciou em seu site pessoal, Gates Notes, que o seu novo livro favorito “de toda a vida”, mudou. Enlightenment Now (ainda sem tradução), também de Steven Pinker, utiliza a mesma abordagem com a qual a violência foi investigada no primeiro livro.

No entanto, no mais novo, o autor trata de outros 15 medidores de progresso. Entre eles, qualidade de vida, conhecimento e segurança. “O resultado é uma imagem holística de como e porque o mundo está melhorando”, diz Gates.

Seus fatos favoritos de Enlightenment Now

Para ilustrar sua premissa de que o mundo está em sua melhor fase, Pinker descreve acontecimentos históricos e os contextualiza com dados. Gates listou 5 dos seus fatos preferidos que o livro traz:

*Você tem 37 vezes menos chance de ser morto por um raio do que tinha na virada do século.
*O tempo gasto lavando roupa caiu de 11,5 horas por semana, em 1920, para 1,5, em 2014.
*É menos provável que você morra no trabalho.
*O QI médio global está subindo cerca de 3 pontos por década.
*A guerra é ilegal.

Crítica de Bill Gates

Além dos indicadores usuais de evolução – como redução nas taxas de morte infantil e de pobreza, em geral – Gates aprecia que Pinker traz à tona tópicos mais ignorados.

A explicação psicológica da desconexão entre o progresso real e a percepção que as pessoas têm dele também impressiona Gates. Isso porque ele sempre tentou entender a questão:

Pessoas de todo o mundo vivem vidas mais longas, saudáveis ​​e mais felizes, então por que muitos pensam que as coisas estão piorando?

Segundo o magnata, o autor, que é psicólogo, faz um bom trabalho esclarecendo o assunto. Pinker detalha como a humanidade é mais atraída para o pessimismo e como isso influencia na abordagem do progresso.

Apesar de Gates concordar com a maioria dos argumentos de Pinker, ele critica o otimismo do autor em relação à inteligência artificial. Embora ele próprio “não pense que estamos em perigo de viver um cenário estilo O Exterminador do Futuro”, considera que, em algum momento, o assunto deverá ser discutido pelas instituições globais.

“Os grandes problemas acerca da automação são a prova de que o progresso pode ser uma coisa bagunçada e difícil – mas isso não significa que estamos indo na direção errada”, diz o magnata.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Na prática, portal da Fundação Estudar

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