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Prêmio Jabuti: Poeta do sertão faz história ao vencer com livro escrito à mão

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Mailson Furtado, de 27 anos, criou um livro-poema em homenagem a sua cidade e venceu o prêmio Jabuti na categoria poesia como autor do melhor livro do ano.

Rafael Barifouse, no Metro [via BBC Brasil]

A cidade de Varjota, no sertão do Ceará, não tem livrarias. Por isso, o poeta Mailson Furtado, de 27 anos, vai todo mês à cidade vizinha para comprar livros. Lá, encontrava sua obra mais recente na “última prateleira do último corredor, de um jeito que a gente precisa abaixar a cabeça que nem um anzol para conseguir enxergar o livro”, como ele mesmo diz. Mas, quando Mailson voltar lá, não vai encontrar mais seu livro daquele jeito. Agora, ele está na vitrine.

Esta foi apenas uma das mudanças que aconteceram desde que Mailson voltou de São Paulo com dois prêmios Jabuti. Seu livro À cidade foi eleito não só o melhor de poesia, mas também o livro do ano, honraria máxima da principal premiação literária do país.

“Isso representa um sonho de adolescente de querer um dia mudar o mundo e mostra que é possível viver no lugar onde vivo, que é possível ser jovem e feliz no sertão” diz Mailson à BBC News Brasil.

Esta foi a primeira vez em 60 anos do prêmio Jabuti que o melhor livro foi de um autor independente, como são chamados aqueles que publicam sua obra sem o apoio de uma editora.

Mailson fez tudo praticamente sozinho. Escreveu à mão os versos de À cidade. Fez o desenho que estampa a capa. Editou, revisou e diagramou. E também vendeu no boca a boca os 300 exemplares pagos do próprio bolso.

“Espero ter aberto uma janela para o que se faz de diferente neste mercado, para estes autores que escrevem de forma independente e não conseguem ser publicados por editoras”, diz o poeta cearense.

Seu livro superou os ganhadores das outras onze categorias do Jabuti a partir das quais foi eleito o grande vencedor. Seu nome agora figura lado a lado ao de ganhadores de edições passadas, como Ruben Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Veríssimo, Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Marina Colasanti.

“Foi a grande surpresa deste ano”, diz Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro, que realiza o Jabuti.

“Mailson fez seu livro com sacrifício. Ter concorrido com autores e editoras consagrados prova que seu trabalho é muito bom. E mostra que temos uma produção literária de qualidade ainda desconhecida no país. Precisamos de mais disso.”

‘A obra estava dentro de mim’

À cidade é o terceiro livro de poesia de Mailson e seu quarto ao todo. Os anteriores – Sortimento (2012), Conto a Conto (2013) e Versos Pingados (2014) – também foram produções independentes.

“As pessoas perguntam por que eu escolhi fazer assim, mas eu não escolhi. Foi a única forma. Mandei meu livro para grandes editoras. Acho que uma me respondeu com um não. Outras sequer responderam, e acho isso ainda mais cruel”, diz ele.

“Algumas editoras menores responderam sim, mas, quando você olha a proposta, vê que acaba pagando para ser publicado. Era melhor fazer por minha conta.”

O escritor explica que, antes de começar a escrever seu livro mais recente, estava pesquisando sobre a origem de sua cidade, como sua sociedade foi sendo construída ao longo dos anos, e também sobre a genealogia de sua família. Vasculhou documentos e conversou com parentes em uma pesquisa a princípio de interesse puramente pessoal.

Ao mesmo tempo, leu A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna e, ao viajar pelo interior da Paraíba e de Pernambuco, viu na paisagem os mesmo locais que havia conhecido pelas páginas do livro.

“Fui tomado por um sentimento forte e bonito, como se já conhecesse aquele lugar sem nunca ter ido ali. Voltando pra casa, pensei que seria legal se alguém pudesse ter a mesma sensação ao ler alguma obra de minha região”, diz Mailson.

O poeta conta ter escrito o livro em 20 dias, em uma “experiência visceral”. “Depois daquele primeiro estalo, fiz um rascunho de poema, e ele foi me pedindo mais coisas, mais versos, foi me sugando, e só consegui sossegar quando concluí a ideia”, diz ele.

“Foi uma poesia vomitada. Só me senti bem quando coloquei o livro para fora. Eu estava dentro da obra, e a obra estava dentro de mim.”

O resultado foi o livro lançado em abril do ano passado, uma homenagem ao município de pouco mais de 17 mil habitantes em plena caatinga onde o poeta nasceu e se criou, uma “cidade inventada”, em suas próprias palavras.

Varjota surgiu como um povoado erguido em torno da capela de uma fazenda, em meados dos anos 1920, e existiu pela maior parte do tempo como uma vila e um distrito da vizinha Reriutaba.

Mudou de local – e de nome – quando a construção de uma barragem inundou onde a cidade estava originalmente. Há 33 anos, emancipou-se e voltou a se chamar Varjota.

Ao longo do livro, Mailson costura versos para formar um único “poema de fôlego”, dividido em quatro partes, inspirado pelas ruas, pessoas e rotina da cidade. Pela história, de Varjota e a sua própria.

‘De Varjota para o mundo’

Mailson foi recebido com uma grande festa ao voltar para a cidade no último domingo, sob “um sol desgraçado de quente”.

Muitas pessoas o aguardavam, com celulares a postos para registrar o momento. Mailson retribuía os abraços que recebia como podia, porque as mãos ainda estavam ocupadas segurando seus dois Jabutis.

Saiu dali em carreata pelas ruas da cidade na caçamba de uma picape, ao lado de sua mulher, dos pais e das duas irmãs mais novas.

O carro de som tocava Belchior, um dos cantores favoritos do poeta. “Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, dizia a canção.

Mailson usava uma camiseta do seu time, o Fortaleza, e carregava uma bandeira da cidade. No capô, uma faixa com uma foto sua no palco do Jabuti e a frase: “De Varjota para o mundo!”.

“É histórico. Carrega todo o peso da tradição não só de Varjota e do Ceará, mas de todo Nordeste”, disse o professor e compositor Erasmo Porta-voz, que seguiu a carreata em sua moto.

“O nordestino, que está em evidência de forma tão negativa, hoje pode se destacar de forma tão positiva. É fundamental isso.”

Quando chegou à cidade, Mailson não conseguiu segurar a emoção. “Esta rua em que vocês estão pisando, esse pedaço de chão aí, foi onde eu cresci. E esse livro vem falar disso, dessa terra em que me criei e que tanto me acolheu”, discursou ele, com os olhos marejados, diante de parentes e amigos.

“Não imaginava chegar à final, muito menos ganhar. É legal demais ver todo mundo aqui para escutar alguém falar de poesia. É inimaginável.”

Mailson também lembrou na ocasião de uma amiga, Rosana, a quem havia prometido que nunca desistiria da arte, e deu vazão a uma frustração.

“Sabe quantas pessoas tinha aqui no lançamento do meu livro? Dez! Por que eu preciso ir pra São Paulo para aparecer? Por quê? Desculpa, pessoal, mas isso rasga a carne da gente. Maltrata demais. Toda vez que isso acontece, tem o potencial da gente pensar em desistir”, disse.

“Valorizem a gente quando a gente está aqui. Meu Deus, que coisa difícil. Não quero ser artista de São Paulo, não. Quero ser artista de Varjota, do Ceará.”

‘É dentista para ser artista’

Mailson ainda não consegue viver de sua poesia. Quando não está escrevendo ou trabalhando com sua mulher, Yane Cordeiro, em sua companhia teatral, ele dá expediente em seu consultório em Varjota e como dentista concursado na Prefeitura da cidade vizinha.

Filho de um agricultor e de uma dona de casa, ele vem de uma família pobre. Sua mãe costuma contar que era uma criança inteligente. Ela o alfabetizou em casa, e Mailson chegou à escola já sabendo ler e escrever. Gostava mais de brincar com livros do que na rua.

Apaixonado por futebol, ele não tinha o sonho de ser jogador. Queria ser comentarista e jornalista esportivo, para ganhar a vida escrevendo – e começou a criar seus primeiros textos quando tinha 14 anos.

Estudou a vida toda em escola pública e, ao prestar vestibular, passou de primeira para três universidades públicas. Entre mecatrônica, enfermagem e odontologia, escolheu a profissão de dentista por acreditar que lhe daria uma melhor condição de vida. “Fui muito pé no chão”, diz.

Nesta época, ele conheceu Yane, com quem hoje tem um filho, Fernando, de 2 anos. O casal estudava em Sobral e teve seu primeiro contato por meio do teatro. Mantiveram-se em contato pela internet até descobrir que eram vizinhos. Aí, o relacionamento engatou. Mailson tornou-se o primeiro namorado de Yane.

“Ele é uma figura bizarra. Era fissurado por matemática, foi estudar saúde, mas é artista. Mas, como a arte não se paga, ele precisa ser dentista para ser artista”, diz ela.

Mailson lançou seu primeiro livro com dinheiro que pegou emprestado com amigos. O que ganhou com as vendas usou para publicar o segundo. Depois, conta Yane, ele se formou, começou a trabalhar, e a situação foi melhorando.

“Ele é muito determinado. Se coloca uma coisa na cabeça, vai atrás. Isso tem um lado ruim, porque ele é um pouco cabeça dura. Às vezes, perde alguma coisa por teimar. Às vezes, conquista. Neste caso, foi bom ser teimoso com a poesia”, diz ela.

“A gente não imaginava nada disso. A indicação já foi uma surpresa e, desde então, tudo veio num crescente. Está demorando para a ficha cair.”
‘Não achava que tinha chances’

Mailson quase não viajou para São Paulo para a cerimônia do Jabuti.

Em parte por causa da situação financeira da família. Eles tinham “gastado o que não podiam” para ir a Paraty para participar da Flip, a maior feira literária do país, sua primeira viagem para fora do Nordeste. E os últimos meses no consultório não haviam sido bons.

Mas também porque ele não acreditava que tinha chances de ganhar. “Não achava que tinha essa potência para competir com os demais concorrentes. Podia ter voltado sem nada, e teria sido um gasto grande por nada”, diz.

Por fim, ele decidiu ir, queria conhecer São Paulo. E estava lá na noite de 8 de novembro para ver pessoalmente seu livro ser anunciado como o melhor de poesia.

“Explodi. Estava com o celular na mão e dois livros no colo. Foi tudo parar no chão. Soltei um palavrão e saí correndo para o palco”, conta Mailson.

“Voltei para o auditório e ainda estava comemorando o primeiro prêmio quando anunciaram o segundo. Fiquei extasiado. Desta vez, fui caminhando devagar para o palco, porque estava anestesiado. E essa sensação só está começando a passar agora.”

Ele diz que já foi procurado por algumas editoras e pessoas interessadas em seu trabalho. Recebeu propostas, mas não teve tempo ainda de parar para avaliar.

Está concentrado na repercussão do Jabuti e no lançamento no próximo mês de seu novo livro, Passeio pelas ruas de mim (e de outros), que ele já havia mandado para a gráfica duas semanas antes de saber que era finalista do Jabuti. Será mais uma vez um trabalho independente.

“É um livro-galeria, que traz experimentos, uma poesia visual com uma forte influência do meu trabalho com teatro e de pesquisas que fiz sobre arte em imagens”, conta ele.

Ele diz que, mesmo agora, não sabe se terá como se sustentar como poeta. “Ainda estou colocando o pé no chão. Sonho com isso e acreditei até agora”, afirma.

“Espero que o meu prêmio ajude a provocar uma reflexão não só no mercado, mas também no leitor, para que ele faça um esforço para enxergar o pessoal independente, e nos próprios autores, inclusive eu mesmo, para que também se permitam a ir atrás do novo.”

Única mulher a concorrer na categoria tradução do Prêmio Jabuti, Livia Deorsola decifra linguagem secreta de autor mexicano

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Livia Deorsola, tradutora indicada ao Premio Jabuti Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

 

Tradutora encarou neologismos e arcaísmos em ‘De duas, uma’, de Daniel Sada

Elisa Martins e Ruan de Sousa Gabriel, em O Globo

SÃO PAULO – Na infância, o espanhol era a língua dos segredos. Quando o avô italiano e a avó e mãe argentinas queriam conversar sobre assuntos que as crianças não podiam ouvir, apelavam para o idioma de Cervantes. Mas o mistério só fazia atiçar a curiosidade. Dos ouvidos atentos cresceu o gosto por aquela língua tão diferente e familiar. Foram assim os primeiros contatos de Livia Deorsola, paulista de Ribeirão Preto, com o espanhol.

Hoje, Livia desvenda outros segredos, escondidos nas linhas de autores hispano-americanos e em palavras que parecem ser uma coisa, mas são outra. Por resolver os difíceis enigmas do romance “De duas, uma”, do mexicano Daniel Sada, Livia foi indicada ao Prêmio Jabuti de Tradução.

– Fiquei feliz e espantada com a indicação – contou Livia ao GLOBO. – Uma amiga destacou que eu era a única mulher indicada este ano, não tinha me atentado. É uma pena não ter mais mulheres. O mundo editorial, aliás, é extremamente feminino, do início ao fim da produção de livros.

Desde 2000, o Jabuti premiou 57 tradutores – mas apenas 10 mulheres. Livia compete com 14 homens, como os premiados Guilherme Gontijo Flores, Maurício Santana Dias e Trajano Vieira. Alguns de seus concorrentes traduzem de línguas exóticas e até mortas, como islandês, grego, latim e acádio, que era falada na antiga Mesopotâmia.Nos últimos anos, o Jabuti preferiu premiar tradutores que se aventuraram por idiomas esdrúxulos ou novas versões de clássicos, como “Ulysses” e “Guerra e paz”.

A língua espanhola foi premiada pela última vez em 2004, por uma tradução de “Dom Quixote” assinada por Sérgio Molina. Em 2010, porém, houve uma categoria especial para traduções espanhol-português, mas apenas tradutores homens venceram.

Traduzir o idioma de nossos vizinhos é, às vezes, considerado mais fácil – o que não é verdade, em especial quando se trata de autores como Sada. Nascido em 1953, em Mexicali, no Norte do México, e falecido em 2011, Sada ajudou a renovar o espanhol como língua literária. Admirava os poetas barrocos espanhóis (Lope, Quevedo, Góngora) e Guimarães Rosa. Arrancou elogios de pesos pesados da literatura latino-americana como Roberto Bolaño e Carlos Fuentes.“De duas, uma” é um autêntico dramalhão mexicano que também faz rir. As protagonistas, as gêmeas solteironas Constitución e Gloria Gamal que disputam o mesmo “galã”, são apresentadas com riquezas de detalhes e ironia.

Expressões desconhecidas
Sada embaralha neologismos, arcaísmos e expressões idiomáticas próprias do deserto de Coahuila, que ele conhecia tão bem, numa prosa sinuosa que desespera os tradutores mais valentes. Livia planejava traduzir as pouco mais de 100 páginas de “De duas, uma” em apenas um mês. Levou três. Para decifrar a linguagem secreta de Sada, recorreu a uma dezena de mexicanos, inclusive à viúva do autor, Adriana Jiménez.

– Fiz uma lista de termos e expressões cujo significado não consegui descobrir na internet e em dicionários especializados – contou. – Entrei em pânico quando vi que nem mexicanos conheciam algumas daquelas expressões. Por fim, acionei Adriana, que me dava explicações mais longas e seguras.

Livia se enroscou com expressões como “tanteo nomás”, que ela pensou que significasse algo como “tentativa” ou “tateante”, mas descobriu que, ali, queria dizer “cálculo”. “Jaloncito de la voz”, depois de muitas voltas, virou “jeitinho da voz”. E a expressão “siempre a medio tren” foi traduzida por “sempre ponderadas”, uma solução que não a agradou de todo.

Para Livia, a mistura de “literatura barroca com tragicomédia” é o traço mais marcante de Sada – e o mais difícil de traduzir.– Não existe equivalência em tradução. O que existe é correspondência – diz Livia. – Uma tradução nunca mimetiza com perfeição a língua original, será sempre uma tentativa de interpretação. Aí está a graça de traduzir.

Nova Fronteira lança coletânea especial de Sherlock Holmes com histórias de Stephen King e Neil Gaiman

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Victor Tadeu, no Desencaixados

Sherlock Holmes é um personagem detetive criado pelo médico Sir Arthur Conan Doyle, apesar de ser muito antigos vários casos estão sendo desenvolvidos para Holmes investigar. Em uma edição especial a Nova Fronteira estará publicando contos escritos por Arthur Conan Doyle, na qual, estará envolvendo histórias também escritas por Stephen King, Neil Gaiman e Anthony Burgess. A informação é do Omelete.

A coletânea contará com dois volumes, em seu primeiro os leitores irão encontrar alguns textos de autores contemporâneos, na qual, histórias curiosas onde o tão conhecido detetive não se encontra presente, porém, por outro lado, também será remediada com contos que ele sai de sua zona de conforto, ou seja, também vai haver outro cenário sem ser Londres no século XlX.

O segundo volume os consumidores da coletânea irão deparar com histórias engraçadas e sátiras, onde o personagem é bastante envolvido. Além disso, a 2a edição de As Aventuras de Sherlock Holmes mostrará contos de grandes autores de mistério bem reconhecidos no passado. Ambas as coletâneas estarão sendo publicadas durante Agosto pela Nova Fronteira.

Nobel alternativo de literatura: muitas mulheres e nenhum autor de língua portuguesa na lista

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Patti Smith, emocionada em sua atuação na cerimônia de entrega do Prêmios Nobel. SOREN ANDERSSON AFP

J.K. Rowling, Margaret Atwood, Patti Smith, Chimamanda Ngozi Adichie e Don DeLillo estão entre os 46 indicados ao prêmio, que será decidido em outubro

Publicado no El País

J.K. Rowling, Elena Ferrante, Patti Smith, Margaret Atwood, Chimamanda Ngozi Adichie, Don DeLillo, Neil Gaiman e Louis Édouard estão entre os 46 candidatos que disputarão o Prêmio Nobel Alternativo, uma iniciativa concebida por uma centena de escritores, atores, jornalistas e outras figuras culturais depois da inédita decisão da Academia Sueca de não entregar o Prêmio Nobel de Literatura em 2018, por causa do escândalo de abusos sexuais que envolveram o dramaturgo Jean-Claude Arnault, vinculado à instituição através de seu clube literário e marido de uma de suas integrantes, Katarina Frostenson. O prêmio deixou de ser concedido em sete ocasiões: 1914, 1918, 1935, e entre 1940 e 43.

Uma nova instituição, chamada New Academy, entregará o seu próprio prêmio em 14 de outubro, seguindo o mesmo cronograma do Nobel oficial. “Fundamos a New Academy para recordar que a literatura e a cultura, em geral, deveriam promover a democracia, a transparência, a empatia e o respeito, sem privilégios, preconceitos por arrogância ou sexismo”, disseram seus membros ao jornal britânico The Guardian em julho do ano passado.

Entre os indicados também estão Paul Auster, Haruki Murakami e Oz Amos, embora mais de metade seja de mulheres. E nenhum escritor em língua portuguesa. O objetivo da New Academy é procurar escritores que tenham contado a história “dos seres humanos no mundo”, em contraste com o Nobel, que tem a intenção de honrar o autor que tiver escrito, nas palavras do testamento de Alfred Nobel, “a obra mais destacada em uma direção ideal”.

A New Academy lançou nesta quinta-feira a votação pública, e os quatro autores mais populares serão submetidos ao escrutínio de um júri dirigido por Ann Pålsson (editora), Lisbeth Larsson (professora da Universidade de Gotemburgo) e Gunilla Sandín (bibliotecária). O ganhador será anunciado em outubro, o mesmo mês em que tradicionalmente se concede o Nobel.

Sai no Brasil ‘O Romance Luminoso’, obra póstuma do uruguaio Mario Levrero

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Mario Levrero (1940-2004), autor de ‘O Romance Luminoso’ – El País

Livro trata de escritor em bloqueio criativo e se tornaria o trabalho mais cultuado do autor

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

Há uma máxima no meio da crítica literária latino-americana que sugere que os argentinos produzem os melhores contistas; os chilenos, os melhores poetas; e os uruguaios, os melhores escritores estranhos.

Mario Levrero (1940-2004), ao lado de seu conterrâneo Felisberto Hernández (1902-1964), seria um dos mais famosos entre estes últimos.

Sua estranheza estaria ligada ao experimentalismo com a linguagem e a relação com o surrealismo.

“Creio que meu pai concordaria com essa classificação, embora questionasse o que seria, então, a normalidade. Sempre foi um escritor muito intuitivo; o que pensava, sonhava, experimentava lhe saía como literatura”, afirma seu filho, Nicolás Varlotta, em entrevista à Folha em um café de Buenos Aires.

Sai agora no Brasil “O Romance Luminoso” (Companhia das Letras), obra póstuma do autor, lançada em 2005. Tida como seu romance mais famoso, é estranho desde seu formato.

O longo prólogo (mais de 400 páginas) é uma espécie de diário em que conta como, apesar de ter recebido uma bolsa da fundação Guggenheim, em 2000, para desenvolver o projeto antigo de um romance, não consegue escrever uma linha do livro.

Em vez disso, conta detalhes da vivência de seu dia a dia, o que inclui suas atividades domésticas, questões de logística cotidiana, uma pormenorizada descrição de sua atividade de procrastinação –ao mesmo tempo propondo questionar a rápida passagem do tempo diante de um romance cuja escrita talvez seja impossível concluir.

Ao final, as cento e poucas páginas que compõem o romance propriamente dito são praticamente as mesmas do projeto abandonado mais de 20 anos antes e cujo propósito da bolsa era desenvolver.

“Ele teve anos muito produtivos no início”, diz o filho de Levrero. “Eu particularmente prefiro seus primeiros livros, curtos, mais imaginativos. Depois que ganha essa bolsa, parece que tem a sensação de que perdeu a inspiração e se propõe então a refletir sobre isso”, explica.

Varlotta reconhece que “O Romance Luminoso” se transformou na obra mais conhecida do pai, mas crê que sua produção anterior também merecia ser tão reconhecida quanto esse livro, que se transformou em “cult” nos últimos tempos.

obra acabada

“Claramente a primeira parte se transformou em algo mais importante que o projeto do ‘Romance Luminoso’ em si, que só aparece no final”, diz à Folha o escritor e crítico Elvio Gandolfo. “Mas ele gostou do resultado e queria que saísse assim”, frisa o argentino, que conheceu Levrero.

“Não é uma obra inacabada. Ele fez várias correções e entregou ao editor assim como chegou aos leitores.”

E acrescenta: “Seus outros livros saíram como um raio; neste, se nota que passou por outro processo mental.”

Levrero passou a maior parte da vida em Montevidéu, mas foi em longas temporadas em Buenos Aires que se sentiu mais acolhido.

Tanto Gandolfo como Varlotta contam a anedota de que, no Uruguai, Levrero não era reconhecido nas ruas.

Porém, uma vez, quando entrou num café de Buenos Aires, foi abordado pelos autores argentinos Rodolfo Fogwill (1941-2010) e Miguel Briante (1944-1995), que vieram cumprimentá-lo e a chama-lo de “mestre”.

“Ele não era de frequentar os cafés, os encontros literários, mas Buenos Aires lhe deu mais espaço e mais tranquilidade para escrever, além de mais reconhecimento, ainda que num círculo restrito”, diz Varlotta.

Durante sua vida, interrompida por um aneurisma, Levrero não recebeu o reconhecimento que vem tendo agora, com suas obras reeditadas e traduzidas.

“Creio que, entre outros fatores, deve-se ao fato de ele nunca ter querido ser um escritor político, numa época em que isso era predominante”, diz Varlotta.

“Ele não gostava de comportamentos em massa, embora se posicionasse contra a ditadura [que no Uruguai durou de 1973 a 1985] e tivesse ajudado pessoas que estavam sendo perseguidas. Mas suas preocupações eram outras, ele queria permanecer longe da política.”

Durante a maior parte de sua vida, Levrero teve pouco dinheiro. Primeiro, trabalhou num sebo que montou com um amigo no centro de Montevidéu. Depois, praticamente sobreviveu de bolar palavras-cruzadas e outros jogos que vendia para revistas.

Apenas no fim da vida, com algum retorno de seus livros e com oficinas literárias que começou a dar, obteve certa estabilidade.

Nesse quadro veio a bolsa da fundação Guggenheim —que, se por um lado o livrou dos apuros econômicos, por agravou uma crise criativa. Ao final, contudo, o fez escrever aquele que se transformaria em seu livro mais famoso.

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