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Harry Potter ensina a lutar contra o preconceito

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Pesquisa revela o que os fãs da série já sabiam: ler as aventuras do ‘menino que sobreviveu’ faz de você uma pessoa melhor

(FOTO: FLICKR/ ESCALLA)

(FOTO: FLICKR/ ESCALLA)

Luciana Galastri, na Revista Galileu

Uma pesquisa, publicada noJournal of Applied Social Psychology, mostra que a leitura de Harry Potter ensina crianças a lutar contra o preconceito. De acordo com os psicólogos responsáveis pelo estudo, da Universidade de Modena e Reggio Emilia, ler a série torna mais favorável a percepção de jovens sobre minorias como imigrantes, homossexuais e refugiados.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores criaram um experimento em três fases. Na primeira, ministraram um curso de seis semanas sobre o universo de Harry Potter para 34 alunos da quinta série (também queríamos um curso desses quando estávamos na escola). Depois os estudantes receberam um questionário – e os que se disseram interessados pelas aulas e sabiam mais sobre o mundo bruxo se mostravam mais favoráveis a situação de imigrantes na Europa.

A segunda parte do estudo analisou 117 estudantes do ensino médio – novamente, aqueles que leram e gostaram de Harry Potter tinham opiniões positivas sobre questões homossexuais. E a terceira etapa analisou estudantes do Reino Unido e mostrou que os Potterheads ‘que se identificavam menos com o personagem de Voldemort’ (que, lembrando, quer um mundo dominado por bruxos, onde pessoas sem poderes mágicos não teriam lugar) também se preocupavam com refugiados.

Aparentemente, a maior conquista de Harry não é derrotar Voldemort. Sua luta para manter os trouxas seguros, assim como os bruxos que não são “sangues-puros”, se reflete no pensamento de fãs da série, transpostos no mundo real como um posicionamento mais forte e positivo em relação às minorias. Infinitos pontos para a Grifinória!

Concurso Cultural Literário (38)

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capa nada dramática

LER O TRECHO

Camilla Pinheiro conseguiu passar sua vida escolar praticamente ilesa, sem se envolver em dramas adolescentes. Isso é uma grande vitória para ela, que sempre foi muito aplicada nas aulas. E pretende continuar assim, agora que está no terceiro ano do ensino médio do colégio Coliseu, um dos mais puxados e concorridos de Goiânia. Sempre organizada, seus planos para o último semestre se resumem a um só objetivo: passar no vestibular com as melhores notas. Porém, graças a uma confusão amorosa envolvendo seu melhor amigo, Camilla vê seus dias calmos de estudos se transformarem, em meio a revoluções escolares, brigas familiares, intrigas na turma, dúvidas sobre o futuro e até uma inesperada paixão, que ela insiste em negar para si mesma. Para se abstrair do mundo real, agora virado de cabeça para baixo, ela posta em seu blog as aventuras da “Agente C”, sua identidade nada secreta para quem a conhece e sabe o que é viver um dos períodos mais intensos da vida.

Vamos sortear 3 exemplares de “Nada dramática“, da blogueira Dayse Dantas. Para participar, basta responder: Qual o maior “drama” que você viveu (ou vive) durante o período do ensino médio?   O resultado será divulgado dia 19/12 neste post e também no perfil do Twitter @livrosepessoas. Se participar pelo Facebook, não se esqueça de deixar seu e-mail de contato.

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Parabéns: Thanny, Fabiola Barbosa e Fernanda Karen.

Por gentileza enviar seus dados completos para livrosepessoas@gmail.com em até 48 horas.

8 livros publicados postumamente (e suas histórias)

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Jéssica Soares, na revista Superinteressante

Eles não precisaram da ajuda de Chico Xavier. Antes de passarem dessa pra melhor, alguns escritores deixaram para trás livros inéditos e que chegaram às livrarias com um quê de #VozesdoAlém. Para a alegria dos fãs (e também dos editores), os casos são muitos. Selecionamos e contamos para você a história por trás de 8 livros publicados postumamente:

1. O castelo, de Franz Kafka (1926)

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Durante sua vida, a maior parte dos textos de Franz Kafka foi publicada apenas em revistas literárias. E, se dependesse do autor de A Metamorfose, suas obras poderiam nunca ter sido conhecidas no mundo. Quando faleceu, em 1922, Kafka deixou todos os seus manuscritos para seu amigo Max Brod que, como seu executor literário, recebeu instruções claras: deveria destruir todo o material. Só que, obviamente, Max não seguiu o desejo do finado e cuidou da publicação dos escritos. Ufa. Entre as obras publicadas graças a Brod está O Castelo.

Os registros em seu diário indicam que Franz teve a ideia para o livro ainda em 1914, mas só começou a escrevê-lo em 1922. Na história, o protagonista K. apresenta-se para ocupar um posto de agrimensor em uma aldeia dominada por um imponente e misterioso castelo. Quando chega lá, é informado que ninguém está sabendo (e nem reconhece) sua convocação #climão. Para resolver a questão, precisa enfrentar uma burocracia incontornável. E (como na vida?) não há resolução para o imbróglio do protagonista – Kafka não conseguiu terminar o livro antes morrer.
Leia também: Romance interminável

 

2. Autobiografia – volume 1, de Mark Twain (2010)

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Durante quase uma década, o autor de As aventuras de Tom Sawyer  e Huckleberry Finn se dedicou a colocar em palavras as memórias de sua vida. Morreu antes de publicá-las. Mas tudo bem, era assim que ele queria. Mark Twain deixou instruções um tanto excêntricas: sua autobiografia só deveria ser publicada 100 anos depois de sua morte. O-kay. Em 2010, a espera finalmente acabou e o lançamento do primeiro volume estabeleceu um marco que poucos autores conseguiram atingir na vida (e, muito menos, na morte): a robusta obra de mais de 700 páginas se tornou um best-seller póstumo.

O sucesso pegou de surpresa até mesmo a editora.  A expectativa da University of California Press era modesta e, inicialmente, só foram publicados 7.500 exemplares. Mal conseguiram atender à demanda crescente de pedidos por reimpressões e, em poucos meses, o livro já tinha vendido mais 250 mil cópias. Agora provavelmente estarão mais preparados – no próximo mês de outubro, a editora lança o segundo volume das memórias do escritor estadunidense. Já encomendou o seu?

 

3. 2666, de Roberto Bolaño (2004)

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(via)

Roberto Bolaño, em sua última entrevista, concedida à revista Playboy mexicana, brinca que a palavra “póstumo” soa “como o nome de um gladiador romano. Um gladiador invicto. Ou ao menos assim quer crer o pobre Póstumo, para dar-se o valor”. Se perguntado agora, é certo que desdenharia de sua fama post mortem como o fez em vida. Antes de sua morte prematura, em 2003, aos 50 anos, Roberto Bolaño já havia ganhado o status de um dos nomes mais representativos da literatura latino-americana contemporânea. O chileno estava quase no topo da lista de espera por um novo rim quando partiu. Se tivesse ficado por aqui mais alguns meses, teria acompanhado a consagração (e ascensão meteórica) de sua reputação.

O romance póstumo 2666, que tem mais de mil páginas na edição em espanhol e se divide em cinco narrativas interligadas, recebeu o prêmio de melhor livro da National Book Critics Circle Awards, dos Estados Unidos, foi apontado como o melhor livro de 2008 pela revista Time, e provocou comoção internacional. Um gladiador invicto.

 

4. O Original de Laura, de Vladimir Nabokov (2009)

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Lolita, livro que narra a paixão de um homem de meia-idade pela adolescente-título, rendeu ao russo Vladimir Nabokov fama mundial quando foi publicado em 1955. Não é surpresa que a publicação de um manuscrito inédito do icônico autor em 2009 tenha sido tratada como um evento no mundo literário. O caso é controverso: antes de morrer, Nabokov estava trabalhando no livro que havia intitulado O Original de Laura. Deixou apenas 138 fichas (o equivalente a cerca de 30 páginas manuscritas), sem ordem indicada, quando faleceu em 1977. Em seu testamento, o autor perfeccionista deixava claro que o manuscrito inacabado deveria ser destruído.

Acontece que sua esposa Vera e o filho Dmitri não tiveram coragem de destruir o trabalho ainda em processo. Por 30 anos, a dupla se debateu e discutiu com pesquisadores e acadêmicos a validade de se publicar os escritos, ainda em estágio rudimentares, deixados por Nabokov. Depois da morte de Vera, a decisão coube ao filho, que decidiu tornar o livro público. A recepção não foi das melhores, tendo sido considerado um quebra-cabeça com peças demais desaparecidas.

 

5. O Mistério de Edwin Drood, de Charles Dickens (1870)

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Em 1870, o autor de Oliver Twist, Charles Dickens, resolveu se aventurar por um novo gênero, o drama policial. O romance, publicado em fascículos seriados lançados entre os meses de abril e setembro daquele ano, tinha os elementos certos para cativar os leitores – um romance não correspondido combinado a um triângulo amoroso, um assassinato misterioso e um elemento surpresa: a morte súbita do próprio autor, que acabou deixando o desfecho em aberto.

Quando Dickens faleceu, vítima de um derrame, apenas seis das doze partes previstas da história haviam sido concluídas, sendo que três destas foram publicadas postumamente. Em seus manuscritos, não foram encontradas referências que indicassem os rumos que tomaria a história e muito menos registros que confirmassem a identidade do assassino. Teorias não faltam, mas a dúvida permanecerá.

 

6. O Silmarillion, de J. R. R. Tolkien

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(via)

A Terra Média é do tamanho do mundo. Depois do sucesso de O Hobbit, publicado em 1937, o editor de J. R. R. Tolkien pediu que o autor escrevesse uma sequência para a história. O resultado, foi um rascunho inicial de O Silmarillion, que acabou sendo rejeitado. Tolkien deixou seus rascunhos em um cantinho e começou a trabalhar na “nova história dos hobbits” que viria a se tornar sua obra máxima, a trilogia O Senhor dos Anéis. O britânico acabou não tendo a chance de revisitar e finalizar os escritos anteriores antes de falecer em 1973. Foi o seu filho, Christopher, o responsável por revisar (e preencher algumas lacunas) antes de sua publicação póstuma em 1980.

Bônus: Tolkien deixou ainda mais fragmentos da Terra Média espalhados por aí. Em 1980, o seu filho compilou as diversas histórias e notas deixadas por seu pai e as publicou na coletânea Contos Inacabados.

 

7.  Uma Confraria de Tolos, de J.K. O’Toole (1980)

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O estadunidense J.K. O’Toole escreveu seu primeiro livro, The Neon Bible, aos 16 anos. Extremamente crítico quanto ao próprio trabalho, O’Toole considerava a obra “adolescente”. Chegou a tentar publicar o texto mas, depois de algumas rejeições, resolveu trabalhar em um novo livro, Uma confraria de tolos. Na história, o protagonista é Ignatius J. Reilly, um intelectual glutão, preguiçoso, egocêntrico, desagradável que, como um Dom Quixote do século 20, desbrava as ruas de Nova Orleans enfrentando – ao invés de moinhos de vento – uma série de tolos, malandros, aproveitadores e policiais desonestos. Concluído em 1964, O’Toole enviou sua obra a editoras e, novamente rejeitado, sucumbiu à depressão e à paranoia, tirando a própria vida em 1969, aos 31 anos.

A história teria acabado por aí, não fosse pela insistência de sua mãe, Thelma. Empenhada em tornar a obra do filho conhecida, passou a entrar em contato com o professor de literatura Walker Percy, em 1976, para que ele lesse o manuscrito inédito. Walker tentou como pôde escapar dos apelos insistentes, mas acabou cedendo – e se surpreendeu com a qualidade dos escritos do então desconhecido autor. O livro foi finalmente publicado em 1980 e não poderia ter sido melhor recebido, tendo sido premiado com o Pulitzer de ficção no ano seguinte.

 

8. Cinco novas obras de J.D. Salinger

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(via)

Para completar o documentário Salinger, foram necessários 10 anos de extensa pesquisa, inúmeras entrevistas e um bocado de dedicação.  O filme, de Shane Salerno e David Shields, foi apresentado pela primeira vez no último mês de agosto, durante o festival de cinema de Telluride, no estado do Colorado (EUA). Os méritos (ou deméritos) cinematográficos do longa ficaram em segundo plano frente à revelação incrível que apresenta: segundo fontes ouvidas pelos documentaristas, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, falecido em 2010, teria deixado cinco obras inéditas. Segundo instruções deixadas por Salinger,  os livros devem ser publicados entre os anos de 2015 e 2020. Entre os escritos inéditos, estaria um conto que daria nova vida a Holden Caulfield (protagonista da obra mais famosa do autor). A informação ainda não foi confirmada pela família do autor, mas a gente já está na torcida.

Concurso Cultural Literário (13)

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Acostumado a aventuras em games, ele terá de vencer perigos e desafios no mundo real.
Nesse jogo de sobrevivência, porém, não há segunda chance.

Centenas de anos atrás, um embate sangrento entre nativos e invasores brancos armados até os dentes marcou a disputa por uma região no nordeste brasileiro. Para pôr fim à luta impiedosa, o Grande Caipora e a Iara, a senhora das águas, fizeram com que aquele pedaço de terra se descolasse do continente e passasse a vagar pelos rios do país, criando a lendária e mágica ilha flutuante de Anistia.

Séculos depois, A. C., o herói pré-adolescente da série O Legado Folclórico, descobre não apenas a localização da ilha, mas consegueadentrá-la e participar da grande competição entre organizações secretas que acontece periodicamente. Passa, então, a conhecer os segredos de Anistia, a saber sobre os sonhos que separam os vivos dos mortos, e a perceber a influência que os poderosos exercem sobre o povo. Porém, é tempo de lua cheia e ele terá de lidar com problemas que surgirão com ela e que ele nem suspeitava existirem.

Prata, Terra & Lua Cheia, a continuação de Ouro, Fogo & Megabytes, é o segundo volume da série que une com ineditismo a atmosfera geek com releituras nada convencionais dos mitos e das lendas do folclore nacional.

Prontos para mais um Concurso Cultural Literário?

Três participantes vão ganhar Prata, Terra & Lua Cheia, segundo volume da Trilogia O Legado Folclórico.

Para participar, responda por email qual o nome do protagonista dos livros “Ouro, Fogo & Megabytes” e “Prata, Terra & Lua Cheia”.

ATENÇÂO: Envie sua resposta para concurso@pavablog.com. Respostas na área de comentários serão apagadas. 🙂

O resultado será divulgado no dia 1/10 às 17h30 aqui no post e também no perfil do twitter @livrosepessoas.

Boa sorte!

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Parabéns: Breno, Cleomara Alves e Wesslen Nicácio =)
Enviar seus dados completos p/ concurso@pavablog.com em até 48hs.

Paulo Rónai e a inspiração do romance ‘Budapeste’ (de brinde, um poema)

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Raquel Cozer, no A Biblioteca de Raquel

O crítico e tradutor Paulo Rónai (1907-1992) nunca chegou a sumir de livrarias brasileiras. Mesmo que houvesse uma má vontade fora do comum das editoras, ia ser difícil estancar publicações relacionadas a ele, que sofria de uma invejável incontinência produtiva, fosse com traduções, como “Os Meninos da Rua Paulo” (Cosac Naify), de Ferenc Molnár, fosse com obras próprias, como “Curso Básico de Latim” (Cultrix), que é, acredite, o título mais vendido dele no Brasil.

Mas algumas pérolas de sua produção andaram esquecidas, lapso que vem sendo revertido desde 2012, quando quatro editoras passaram a reeditar alguns de seus trabalhos mais importantes como ensaísta, tradutor ou organizador.

A saber: Globo (“A Comédia Humana”, de Balzac), José Olympio (“A Tradução Vivida” e “Escola de Tradutores”; em breve, “Pois É”), Casa da Palavra (“Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”; em breve, “Encontros com o Brasil”, “Não Perca o Seu Latim” e “Contos Húngaros”) e Nova Fronteira (em breve, “Mar de Histórias”, parceria com Aurelio Buarque de Holanda).

Esse resgate, incluindo o motivo pelo qual essas obras andaram deixadas de lado, foi tema de reportagem minha para a “Ilustríssima”, mais de um metro e meio de texto, uma maravilha de espaço, mas precisaria de uns três metros para incluir tudo de que gostaria.

Rónai (o segundo da esq. para a dir.) com Drummond (ao centro), de quem ficou amigo (os outros não sei mesmo, você me diga se souber)

Rónai (o segundo da esq. para a dir.) com Drummond (ao centro), de quem ficou amigo (os outros não sei mesmo, você me diga se souber)

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Um ponto que ficou de fora, embora tenha sido conversado com familiares, foi a extensão da inspiração em Paulo Rónai para o romance “Budapeste”, de Chico Buarque.

Quem atentou para a semelhança às avessas com a vida de Rónai (no livro de Chico, um brasileiro vai lidar com letras na Hungria) foi Sérgio Rodrigues, no extinto No Mínimo. O texto, reproduzido no blog da jornalista Cora Rónai, filha do crítico, me chegou no Facebook via Renata Lins, que disse ter tido, na época, a mesma impressão ao ler “Budapeste”.

Ele escreveu à época, sobre “Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”:

“Um livro que, escrito a partir dos anos 40 e lançado em 1975, compartilha com o grande best-seller do momento [o livro de Chico] dois traços fundamentais: a oscilação entre a capital húngara e o Rio de Janeiro (com a diferença de que parte daquela para chegar a este, enquanto o herói buarquiano faz o caminho inverso) e a coragem de mergulhar de cabeça nos abismos da língua, das línguas, da linguagem.

[…] De um lado, encontramos o brasileiro José Costa, que por acaso ou fastio começa a construir uma nova identidade – uma identidade húngara – no dia em que a música de um idioma incompreensível o subjuga e mesmeriza. “Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca.”

[…] Do outro lado, temos a presença comovente de um jovem húngaro, Paulo Rónai, e sua paixão também gratuita pelo português, numa Budapeste que estava a poucos anos de se tornar quintal da Alemanha nazista. “A mim, sob seu aspecto escrito, (o português) dava-me antes a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse os dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes?”

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Quando entrevistei Laura, filha mais nova de Rónai, perguntei se Chico chegara a falar algo com a família a respeito, algum sinal além da impressão.”Ele nunca falou, mas todo mundo percebe. É fato conhecido. É tão fato que é a história do papai ao contrário”, ela respondeu.

Então perguntei ao Mario Canivello, assessor do Chico, que entrou em contato com o homem, na França, e me enviou a resposta dias depois: “Durante a escrita de Budapeste, Chico leu alguns contos húngaros traduzidos por Paulo Rónai, numa antologia organizada por ele e com prefácio do Guimarães Rosa. Dos contos, ele se lembra de ter tirado alguns apelidos húngaros, como Kriska e Pisti. E se lembra sobretudo de ter adorado o prefácio, mas só isso.”

Tendo lido “Budapeste” e “Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”, também tenho a impressão de que foi mais do que isso. Ainda que Chico acredite que não.

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Rónai com a mulher, a professora aposentada Nora, que hoje, duas décadas após essa foto, é campeã de natação na faixa 85-89 anos

Rónai com a mulher, a professora aposentada Nora, que hoje, duas décadas após essa foto, é campeã de natação na faixa 85-89 anos

E vai aqui também a íntegra do poema que encerra a reportagem, enviado por Rónai para Américo, marido de sua irmã Clara.

Foi escrito em 13 de março de 1970, logo depois de Américo ter comprado um carro novo. No aniversário do cunhado, Rónai lhe deu uma pasta para guardar documentos (Américo era um bagunceiro convicto), acompanhada dos seguintes versos:

Américo, eu vos peço,
Prestai atenção ao problema:
Como reza o nosso lema,
Sem ordem não há progresso.

Para que à desordem escapeis
Sem perder tempo em vã busca,
Correndo feliz no fusca,
Guardai bem os vossos papéis

Arquivados, classificados,
Em bom lugar conservados,
Todos na pasta competente,
Para serem encontrados fácilmente.

Afim de atingirdes essa perfeição
Oferecemos-vos neste dia festivo
Para bem e felicidade da nação
Nada menos do que êste arquivo.

Ficai digno dêste lindo móvel
Arranjando quanto antes algum imóvel
Valores à beça, cédulas em quantidade
Consolando-vos assim dos estragos da idade.

A ambição da criação poética Rónai abandonou muito cedo, antes mesmo de vir ao Brasil. Mas, em seu acervo no sítio Pois É, em Nova Friburgo –biblioteca para a qual a família busca, sem sucesso, uma instituição disposta a administrar–, há vários poeminhas do gênero. Escritos para amigos, familiares, colegas, sempre como brincadeira.

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