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Conhecendo as raridades da biblioteca do poder

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A BIBLIOTECA DA CÂMARA, EM BRASÍLIA

A BIBLIOTECA DA CÂMARA, EM BRASÍLIA

Andréia Martins, no Roteiros Literários

As primeiras bibliotecas começaram a ser implantadas no Brasil em 1800. Foi nessa época que a biblioteca que só chegaria a Brasília em 1960 começou a ganhar forma, ainda na antiga capital federal.

A Biblioteca da Câmara Federal foi criada oficialmente em 1866, no Rio de Janeiro, para atender apenas aos legisladores da casa. Lá, teve sede em diferentes locais, como o Palácio Tiradentes, o Cassino Fluminense, o Palácio Monroe e o Palácio da Quinta da Boa Vista, além da Biblioteca Nacional. Aos poucos, seu acervo foi sendo ampliado com compras, doações e trocas de livros. Mas foi só em 1926 que ele alcançou um volume considerável de obras, com 27.000 exemplares.

Ao ser transferida para nova capital brasileira, em 1960, já com o dobro do acervo bibliográfico, a biblioteca ocupou quatro andares do Anexo I da Câmara, passando depois, em 1969, para o Anexo II, onde hoje está o Centro de Documentação e Informação (CEDI). Aberta ao público, ganhou o nome de Biblioteca Pedro Aleixo em 1985, em homenagem ao advogado e parlamentar.

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A primeira impressão é de que o acervo é restrito, com obras e referências ao dia a dia da política nacional. Mas o acervo surpreende. Em seus 2500m², a biblioteca reúne uma extensa bibliografia sobre direito, economia, administração pública, ciências políticas e sociais, literatura nacional, documentos publicados pela ONU (Organização das Nações Unidas), edições do Diário Oficial desde 1930, jornais antigos e atuais, entre outros.

No entanto, a cereja do bolo é o acervo de obras raras, com publicações em latim, português, francês e entre outras línguas. Ao todo são 4.600 livros e 108 periódicos raros, como obras clássicas do pensamento ocidental, relatos de viajantes dos séculos 18 e 19, edições de referências da historiografia, geografia e literatura nacional.

Este ano a biblioteca começou o processo de digitalização de 200 obras desse acervo. O critério foi escolher as mais danificadas, mais antigas e mais importantes. Todo o processo deve ser concluído em 26 anos. (Acesse aqui as publicações já digitalizadas)

A ENTRADA DA BIBLIOTECA PEDRO ALEIXO

A ENTRADA DA BIBLIOTECA PEDRO ALEIXO

LOGO NA ENTRADA VEMOS AS ANTIGAS ENCICLOPÉDIAS E OUTRAS OBRAS DE REFERÊNCIA. AO FUNDO, O SALÃO DE LEITURA COM MESAS PARA ESTUDO

LOGO NA ENTRADA VEMOS AS ANTIGAS ENCICLOPÉDIAS E OUTRAS OBRAS DE REFERÊNCIA. AO FUNDO, O SALÃO DE LEITURA COM MESAS PARA ESTUDO

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Os livros do acervo raro só podem ser manuseados com luvas e consultados com a supervisão de alguém da casa. Por isso, para fazer qualquer consulta a este acervo é preciso agendar uma visita antes.

Quem nos recebe na sala dos fundos da biblioteca, onde fica o acervo raro é a chefe da seção de obras raras e especiais, Maria Cristina Silvestre. Ela coloca as luvas brancas plásticas e manuseia com cuidado as obras previamente separadas. Em comum, os livros ali têm o amarelo das páginas e guardam o cheiro do tempo de muitas gerações.

Considerando a data original desses livros, alguns do século 16, pode-se dizer que eles estão bem preservados. A obra rara mais antiga é De Orbis Situ, de 1522, escrita por Pompônio Mela, o único tratado de geografia da Antiguidade escrito em latim clássico. Publicado na época em que ainda se considerava a Terra o centro do universo, o livro traz um mapa que mostra a antiga divisão dos continentes. Uma época e forma de ser ver o mundo que parece muito distante dos dias de hoje.

A OBRA MAIS ANTIGA DO ACERVO RARO DA BIBLIOTECA

A OBRA MAIS ANTIGA DO ACERVO RARO DA BIBLIOTECA

O MAPA QUE ACOMPANHA A OBRA

O MAPA QUE ACOMPANHA A OBRA

O acervo guarda ainda obras-relatos dos chamados “cronistas-mor” do reino de Portugal, autores que tinham quase que o papel de historiadores –embora, em alguns casos, com viés totalmente favorável ao governo—e colaboraram para construir uma espécie de memória das dinastias, e claro, do país. Eles eram contratados pelo rei para escrever sobre o país, seu governo e história.

O primeiro a ocupar o cargo foi Fernão Lopes (1380-1460), em 1434, encarregado por D. Duarte. Estima-se que ele tenha escrito a história de Portugal desde a fundação do reino e as crônicas de todos os seus reis até D. João 1º. Há ainda obras de outros cronistas importantes para a história portuguesa, como Duarte Galvão (1445-1517) e Rui de Pina (1440-1522).

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Pesquisadores, historiadores ou interessados na história nacional encontram ali livros que traçam um panorama que vai do descobrimento do Brasil até a definição de nossas fronteiras. São obras importantes pelas informações que contém e também pela questão estética. Um exemplo é Nova Lusitania, escrito por Francisco de Brito Freire, em 1675. Além de ser uma fonte rica em informações sobre os acontecimentos em Pernambuco, entre 1630 e 1638, a preocupação gráfica fez da obra um dos destaques da tipografia portuguesa do século 17.

A PÁGINA QUE ABRE O LIVRO NOVA LUSITANIA, COMPLETAMENTE DECORADA, TRADIÇÃO NA ÉPOCA DE SUA PUBLICAÇÃO

A PÁGINA QUE ABRE O LIVRO NOVA LUSITANIA, COMPLETAMENTE DECORADA, TRADIÇÃO NA ÉPOCA DE SUA PUBLICAÇÃO

DENTRO, OS CAPÍTULOS COMEÇAM COM UMA LETRA CAPITULAR EM DESTAQUE E AS PÁGINAS APRESENTAM UMA MARGEM À DIREITA

DENTRO, OS CAPÍTULOS COMEÇAM COM UMA LETRA CAPITULAR EM DESTAQUE E AS PÁGINAS APRESENTAM UMA MARGEM À DIREITA

Há ainda Novus orbis regionum ac insularam veteribus incognitarum, de 1633, que narra as grandes navegações e as expedições de Cristóvão Colombo, Pedro Alonso Pinzon e Américo Vespúcio. O livro traz também o primeiro relato de viagem de Fernão de Magalhães, o navegador português que planejou e comandou a expedição que deu a primeira volta ao mundo, mas morreu no caminho. Esse é um dos motivos que a torna uma obra literária “muito rara”.

Travels in Brazil é um relato de viagem feito pelo inglês Henry Koster. Originalmente escrito em lâminas, traz a melhor descrição do nordeste brasileiro na primeira metade do século 19. O diferencial deste livro é trazer o primeiro depoimento sobre a psicologia e a etnografia tradicional do sertanejo no seu cenário, incluindo algumas primeiras ilustrações do sertanejo.

Para 2015, a biblioteca da Câmara prepara uma exposição sobre os relatos de viagem do acervo de obras raras.

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Entre os livros raros não estão apenas obras sobre história. Há também raridades literárias como, por exemplo, edições comentadas de duas obras de Luís de Camões (1524-1580) difíceis de serem encontradas: Os Lusíadas, publicada em 1572, e Rimas Variadas, publicada em meados dos anos 1600.

A biblioteca permite um olhar mais amplo sobre a obra do padre Antonio Vieira (1608-1697) além de Os Sermões– de 1679, iniciados há quatro séculos, composta por 15 volumes e, provavelmente, seu trabalho mais conhecido. O local guarda outros escritos do padre como Historia do Futuro… (1718), que faz parte de uma trilogia de obras proféticas que contém ainda Esperanças de Portugal, escrita entre 1856 e 1857, e Clavis Prophetarum, obra perdida e não concluída.

14 VOLUMES DE OS SERMÕES, DO PADRE ANTONIO VIEIRA, NA PRATELEIRA DA BIBLIOTECA

14 VOLUMES DE OS SERMÕES, DO PADRE ANTONIO VIEIRA, NA PRATELEIRA DA BIBLIOTECA

Outros livros do autor são Cartas do P. Antonio Vieyra da Companhia de Jesus, uma coleção com três volumes que trazem cartas que refletem o estilo da prosa portuguesa do século 18, datados de 1735 e 1746, e Vozes Saudosas, de 1736, com vários tratados sobre o Brasil. Este último livro tem um suplemento, Voz Sagrada, de 1748, também disponível na biblioteca. São poemas, cartas e outros escritos em latim e português.

Os títulos brasileiros não ficam atrás. Temos exemplares da primeira edição de Os Sertões e um volume autografado de Contrastes e Confrontos (foto abaixo), ambos de Euclides da Cunha (1866-1909); a edição de 1909 de Recordações do escrivão Isaias Caminha, primeiro livro de Lima Barreto (1881-1922). Do autor, há ainda a primeira edição de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de 1915, sua obra mais conhecida.

OBRA AUTOGRAFADA POR EUCLIDES DA CUNHA

OBRA AUTOGRAFADA POR EUCLIDES DA CUNHA

Ganham destaque ainda alguns dos 23 volumes de Os Cem Bibliófilos do Brasil, coleção famosa editada em 1943 e que reunia um escritor e um artista plástico para ilustrar uma obra. Além de promover o encontro entre renomados escritores e artistas, os livros dessas coleções tornaram-se raros devido às poucas edições impressas.

Dessa coleção a Câmara possui exemplares de Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), ilustrado por Portinari e que foi o primeiro volume da coleção; Espumas Flutuantes, de Castro Alves (1847-1871) com ilustrações de Tomás Santa Rosa; Macunaíma, de Mario de Andrade (1893-1945) com desenhos de Carybé; A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado (1912-2001) com Di Cavalcanti, Campo Geral, de Guimarães Rosa (1908-1967) ilustrado por Djanira, entre outros.

OBRA DE MACHADO COM ILUSTRAÇÕES DE PORTINARI

OBRA DE MACHADO COM ILUSTRAÇÕES DE PORTINARI

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O dia a dia da biblioteca é movimentado. Além de atender aos legisladores, o local é aberto ao público, que pode ler e estudar nas salas de leitura. O público agora tem acesso às prateleiras para consultar os livros do acervo — antes, tudo passava pela mão de um atendente. Agora, é só levantar, dar alguns passos entre as prateleiras para consultar a obra desejado. No entanto, o empréstimo de livros é feito somente para os servidores da casa.

Ernani Júnior, coordenador do acervo da biblioteca, conta que o local é muito procurado por concurseiros que buscam um ambiente mais calmo — e climatizado, fator importante já que Brasília é conhecida por apresentar temperaturas altas — para estudar. Há uma sala de leitura e mais duas salas que podem ser usadas pelo público. A meta é construir uma terceira.

Hoje, são 1.500.000 itens catalogadas, sendo 200.000 livros impressos, 2.000 revistas, entre outros. Esse material também serve de base para as pesquisas solicitadas pelo público e legisladores à equipe do Centro de Documentação. Os pesquisadores atendem pedidos de informações sobre a Câmara, a atividade legislativa, legislação, Constituintes, acervo bibliográfico, entre outros. Entre setembro de 2013 e agosto de 2014 foram 18.858 pedidos de pesquisa para o CEDI.

O acervo, digamos, mais comum, inclui o que foi citado no início do texto, além de livros de ficção contemporâneos, romances da literatura nacional ou internacional, obras sobre religiões, filosofia e catálogos de arte. Uma curiosa coleção que só está disponível ali é “Mensagem ao Congresso Brasileiro”, onde estão reunidos os discursos de abertura das sessões feito pelos presidentes da República. Os livros incluem discursos desde a época da ditadura, nos quais os presidentes revelam pontos pessoais de suas ideias sobre direitos humanos,forças armadas, trabalho, educação. É um bom instrumento para entender um pouco mais o pensamento que motivou o golpe, sua manutenção e forma de condução política.

ERNANI CAMINHA ENTRE AS PRATELEIRAS DA BIBLIOTECA

ERNANI CAMINHA ENTRE AS PRATELEIRAS DA BIBLIOTECA

CANTINHO DA PRATELEIRA DE ARTES QUE REÚNE CATÁLOGOS DE EXPOSIÇÕES E MOSTRAS

CANTINHO DA PRATELEIRA DE ARTES QUE REÚNE CATÁLOGOS DE EXPOSIÇÕES E MOSTRAS

COLEÇÃO ‘MENSAGEM AO CONGRESSO NACIONAL’, COM DISCURSOS DOS PRESIDENTES NAS ABERTURAS DE SESSÕES. SÃO TEXTOS SOBRE DIFERENTES TEMAS, DESDE E O PERÍODO DITATORIAL

COLEÇÃO ‘MENSAGEM AO CONGRESSO NACIONAL’, COM DISCURSOS DOS PRESIDENTES NAS ABERTURAS DE SESSÕES. SÃO TEXTOS SOBRE DIFERENTES TEMAS, DESDE E O PERÍODO DITATORIAL

A biblioteca também procura avançar na inovação. Já implantou a retirada e entrega eletrônica de livros e planeja colocar em prática um processo para facilitar a elaboração de seu inventário: inserir chips nos livros para que a checagem do acervo seja eletrônica e mais rápida.

Além disso, ela integra o sistema RVBI – chamado de ‘rubi’ – do qual fazem parte 12 bibliotecas federais e distritais que estão integradas em um catálogo único online, gerenciado pela biblioteca do Senado. Dessa forma, todas têm acesso ao acervo uma das outras, podendo indicar aos usuários onde encontrar um determinado livro caso não tenha em seu catálogo.

Dos pedidos recebidos neste sistema, o livro mais procurado na biblioteca da Câmara é Campeões do Mundo, de Dias Gomes. O motivo, Enrani não sabe explicar. Já no acervo de ficções da própria biblioteca, até a nossa visita, em setembro de 2014, o livro mais solicitado no ano era A Cabana, do canadense William P. Young. Parece que os nossos políticos e servidores estão buscando inspiração no romance – ainda que ele venha carregado de suspense.

Serviço:

A biblioteca da Câmara funciona de segunda à quinta-feira, das 9h às 18h30, e sexta-feira, das 9h às 18h. Endereço: Câmara dos Deputados – Anexo II. Praça dos Três Poderes – Brasília. Lembre-se: para visitar o acervo de obras raras é necessário agendar. Para o resto, o acesso é livre.

Universidade de Columbia oferece pela primeira vez curso de pós-graduação no Brasil: mestrado executivo em Gestão Pública

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Universidade de Columbia é uma das mais conceituadas dos EUA e do mundo | Getty Images

Universidade de Columbia é uma das mais conceituadas dos EUA e do mundo | Getty Images

Gabriela Bazzo, no Brasil Post

A Universidade de Columbia vai oferecer, a partir de janeiro do ano que vem, um programa de pós-graduação no Brasil.

O curso, com duração de 18 meses, tem foco em Gestão Pública e será ministrado em formato híbrido, mesclando videoconferências e aulas presenciais.

O programa também inclui dois meses intensivos de aula no campus da Universidade, em Nova York, em julho de 2015 e 2016 – os estudantes cursarão seis disciplinas nos EUA. O trabalho final também será apresentado presencialmente na universidade.

No total, os alunos vão cursar 18 matérias.

A estrutura do curso, que foi criado em 1977 nos EUA, foi adaptada ao Brasil e inclui aulas de reforço – no Global Center Columbia, no Rio de Janeiro e via internet também.

Futuramente, o programa deve ser oferecido na China e na Índia.

De acordo com a Columbia, o curso é voltado para “profissionais competentes e dedicados à administração pública”. Entre os documentos exigidos para a inscrição no curso estão diploma em um curso superior com tradução juramentada para o inglês, prova de proficiência em inglês, e o exame GRE ou GMAT, além de cartas de recomendação e intenção.

As inscrições são feitas até o dia 30 de novembro no site da Columbia. O resultado será divulgado no dia 15 de dezembro.

A turma de 2015 vai contar com 30 alunos, e a de 2016 – e de anos futuros – 35 pessoas. Serão oferecidas entre 20 a 30 bolsas parciais e integrais. Segundo a Columbia, os detalhes das bolsas serão divulgados posteriormente.

O curso custa US$ 68 mil por aluno, incluindo as viagens aos EUA e a acomodação durante os dois meses de residência em Nova York.

Nesta semana, serão promovidas palestras no Rio, em São Paulo e em Brasília sobre o curso. As inscrições para as sessões informativas podem ser feitas no site do programa.

SÃO PAULO
22 de outubro – 12h às 14h
Fundação iFHC – Instituto Fernando Henrique Cardoso
Rua Formosa, 367 – 6º andar, Centro

BRASÍLIA
23 de outubro – 12h às 14h
CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica
SEPN 515 Conjunto D, Lote 4 – Edifício Carlos Taurisano

RIO DE JANEIRO
24 de outubro – 12h às 14h
Global Center Rio de Janeiro
Rua Candelária, 9 – 3º andar, Centro

Promessa de Aécio e Dilma, educação integral não é garantia de ensino melhor

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Especialistas estimam ainda que investimento do governo federal no ciclo fundamental teria de crescer 50% para a ampliação do modelo

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Bianca Bibiano, Veja

A educação em tempo integral, modalidade em que o estudante fica ao menos sete horas na escola, é uma das bandeiras dos candidatos à Presidência na corrida eleitoral. O tema ganhou mais força na semana passada quando Marina Silva (PSB), terceira colocada no primeiro turno, apresentou uma lista de exigências para declarar apoio a Aécio Neves (PSDB). A proposta estava lá. Apresentada como estratégia central para o aprimoramento da educação básica no país, a educação integral merece mais reflexão do que permitem as respostas, réplicas e tréplicas dos debates de TV.

Para especialistas ouvidos por VEJA.com, a promessa de expansão da jornada escolar não leva em conta o aumento de investimentos necessário para que as escolas não se tornem meros depósitos de crianças em tempo integral. Isso teria impacto nas contas da União e também de governos locais. Hoje, o governo federal complementa o custeio da educação repassando a Estados e municípios recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), um bolo que este ano gira em torno de 2,05 bilhões de reais.

“As escolas que oferecem período integral recebem, do Fundeb, recursos entre 10% e 30% superiores às demais. Contudo, os valores repassados só são suficientes porque a maior parte das atividades do contraturno são realizadas em parceira com ONGs e voluntários, não com professores”, diz Marcelino de Rezende Pinto, professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em financiamento da educação. “Para fazer a ampliação da jornada com qualidade, o repasse deveria ser 50% maior.”

O aumento de 50% nos repasses cobriria despesas com professores, alimentação, compra de material, água e luz. A construção de novos prédios, necessária para atender ao eventual aumento da demanda por ensino integral, não entra no levantamento. “Ainda que o governo aumente o repasse do Fundeb, a fonte continua sendo a mesma: os impostos. Para cumprir as promessas, portanto, será preciso criar novas fontes de recursos e convencer Estados e municípios a aumentar seus investimentos próprios”, afirma o pesquisador.

O economista Marcelo Neri, ministro-interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, aponta outra questão sensível sobre a ampliação da escola em tempo integral: a qualidade. Neri é autor de um dos principais estudos sobre ensino integral no Brasil, no qual relaciona o tempo em que os estudantes ficam na escola e as notas que eles obtêm no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que reúne aferições sobre a qualidade do ensino público no país, como a Prova Brasil.

Cruzando dados de questionários da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2006 e do Saeb de 2005, ele constatou que mais tempo na escola não é sinônimo de melhor aprendizado. Um exemplo: alunos do ensino médio que tinham entre quatro e seis horas de aula por dia obtiveram, em média, 34,67 pontos a mais no Saeb do que seus pares que estudavam no máximo quatro horas (o conceito mais alto obtido no país naquele ano foi 282,5). Contudo, aqueles que tinham mais de seis horas de aula por dia obtiveram apenas 3,25 pontos adicionais em relação às turmas de quatro horas. Ou seja, a melhoria é quase imperceptível quando se expande o ensino para além de seis horas, como propõem os candidatos — e também como prevê o Plano Nacional de Educação como objetivo para 2024.

“A expansão da jornada pode ser prejudicial quando não é pautada por uma política pública que zele pela qualidade do ensino. Apenas aumentar o tempo de aula sem previsão do que deverá ser ensinado pode prejudicar o desempenho do estudante”, diz Neri. “Além de mostrar que mais tempo na escola não necessariamente significa melhor desempenho, a pesquisa revelou que à medida que o estudante fica mais velho cresce sua resistência ao ensino integral, e suas notas caem.”

Segundo a proposta da candidata-presidente Dilma Rousseff (PT), 20% da rede pública de ensino deverá funcionar na modalidade integral até 2018. Atualmente, essa taxa é de 13,2% das matrículas, de acordo com Censo Escolar 2013. Para cumprir a meta, Dilma promete expandir o programa Mais Educação, tido pelo MEC como o principal responsável pelo crescimento de 45,2% das matrículas em tempo integral entre 2011 e 2013. O programa repassa verbas para 58.293 escolas de ensino fundamental estaduais e municipais, que oferecem cursos de artes, esportes e reforço escolar no contraturno. Quem dá os cursos, contudo, não são professores, mas sim monitores contratados em regime de voluntariado. Cada escola recebe entre 20.000 e 22.000 reais ao ano para pagar os custos da expansão da jornada, o que inclui alimentação, material, transporte e pagamento dos monitores.

Já a proposta de Aécio prevê a expansão do tempo integral de acordo com as metas definidas pelo Plano Nacional de Educação. De acordo com o projeto de governo do tucano, o tempo extra na escola seria usado para “atividades de áreas mais técnicas e científicas, ou ciências sociais e humanidades, ou ainda o aprendizado prático para as profissões em parceria com o setor produtivo”. Como governador de Minas Gerais (2003-2010), Aécio criou um programa estadual de educação integral em parceria com municípios. Em 2013, 10% dos alunos eram atendidos em jornada ampliada.

Para a educadora Isabel Cristina Santana, superintendente da Fundação Itaú Social, um dos desafios que o eleito(a) terá pela frente será adequar a infraestrutura das escolas. “A proposta de deixar crianças o dia inteiro na escola cai bem entre eleitores e famílias. Mas a maioria das escolas brasileiras oferece aulas em três turnos de aula. Para suprir a demanda por mais espaço, uma alternativa é utilizar espaços comunitários como clubes, museus e bibliotecas. Essa dinâmica está dando certo fora do Brasil e certamente reduziria os custos de implantação de um programa em escala federal.”

Com novos aplicativos, audiolivro tenta se reinventar no Brasil

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Narrador grava livro em áudio na sede da Ubook no Rio de Janeiro: concorrente da Tocalivros, empresa tenta conquistar mercado consumidor no país - Leo Martins / Agência O Globo

Narrador grava livro em áudio na sede da Ubook no Rio de Janeiro: concorrente da Tocalivros, empresa tenta conquistar mercado consumidor no país – Leo Martins / Agência O Globo

Formato busca segunda chance no mercado, após fracassadas tentativas com fitas cassetes e CDs

Mauricio Meireles, em O Globo

RIO – No início, eles eram vistos como opção para deficientes visuais. Depois, como solução para quem queria ler no trânsito. Hoje, desconectados de mídias físicas como o CD, os audiolivros tentam uma nova chance no mercado brasileiro, esperançosos com as bem-sucedidas experiências do exterior.

Dois aplicativos tentam, agora, ganhar o leitor brasileiro. O primeiro é o Ubook, lançado há algumas semanas. O segundo é o Tocalivros, que se prepara para iniciar suas operações no fim do mês. Com modelos de negócios distintos, o objetivo dos dois é o mesmo: oferecer livros em áudio para quem reclama da falta de tempo. A ideia é “ler” simultaneamente a outras atividades.

O Tocalivros aposta em um modelo de negócios mais tradicional: editora e autor são remunerados pela venda de cada livro, cujo preço fica entre o da edição física e o do e-book. Já o Ubook aposta em um modelo que ainda não decolou no Brasil: o de assinaturas. Nele, o cliente paga um valor mensal (R$ 18,90, por cartão, e R$ 4,99, se for via operadora de telefonia) e escuta o que quiser. No mercado de e-books, as editoras brasileiras nunca quiseram embarcar nesse modelo, por falta de solução para remunerar a si mesmas e a seus autores. Sem falar do medo de terem suas vendas físicas engolidas por serviços como esses.

— Fazer assinatura para e-books é difícil, porque as editoras já têm um faturamento com o impresso. Mas o audiolivro não compete com o livro físico, por isso é mais fácil usar esse modelo — afirma Flavio Osso, CEO da Ubook, lembrando que, no modelo da empresa, a editora recebe para manter o livro na plataforma e também de acordo com a audiência de seu título.

unnamed-1.pngA Ubook e a Tocalivros tentam convencer as casas editoriais a firmar parceria com elas com um argumento infalível: o bolso. Embora editoras tenham, por contrato, direito a explorar a versão em áudio de seus títulos, a produção de cada um pode chegar a R$ 20 mil. Assim, as duas empresas se oferecem para produzir, sem custos para a editora, cada audiolivro. Para isso, ambas contam com um time de atores, locutores e dubladores.

— O CD e a fita tinham um problema de distribuição, que é o mesmo do livro físico. Com os aplicativos, isso está resolvido — afirma Ricardo Camps, sócio da Tocalivros, que não revela com que editoras já fechou acordos. Já a Ubook assinou contrato com a Ediouro e diz estar acertando com outras grandes casas.

Menos de mil títulos

É um mercado ainda pequeno no país. Os levantamentos feitos pelas duas empresas antes de iniciar a empreitada mostram que existem entre 600 e 1.000 títulos em áudio no Brasil. Para se ter uma ideia, a pesquisa anual da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, feita sob encomenda da indústria livreira, nem contabiliza audiolivros.

— Acho que ainda não chegou o momento do formato, mas ele está mais próximo. As experiências anteriores falharam pela demanda limitada e pelos custos relativamente altos, que incluíam a necessidade de manter um estoque de CDs. O novo modelo de distribuição cria uma nova oportunidade — afirma Roberto Feith, diretor da Editora Objetiva, que ainda não fechou contrato com as duas novas empresas.

Tocalivros e Ubook têm o mercado americano como inspiração. Em 2013, a Amazon comprou a Audible, empresa de audiolivros, por US$ 300 milhões. E, nos EUA, o formato começa a ressurgir. Hoje, estima-se que seja um mercado de R$ 1,2 bilhão. A pesquisa mais recente da Audio Publishers Association mostra que, de 2011 para 2012, seis milhões a mais de audiolivros foram vendidos. A esperança dos brasileiros é que o fenômeno se repita aqui.

Sophia Loren revela detalhes de biografia que chega ao Brasil

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Sophia Loren completou no mês passado 80 anos de idade. Foto: Divulgação

Sophia Loren completou no mês passado 80 anos de idade. Foto: Divulgação

A diva está lançando sua autobiografia Ontem, Hoje e Amanhã – Minha Vida Como um Conto de Fadas, que chegará ao Brasil pela Record
Publicado no D24.am
São Paulo – Uma caminhada. Como aquela que marcou a história do cinema pelas ruelas pobres de Nápoles no filme Two Women. Uma jovem linda, talentosa, caminhando com a cabeça erguida, peito estufado, decote semiaberto, feliz e indo em direção a um destino que parecia programado. Sophia Loren completou no mês passado 80 anos de idade. Se o rascunho do script dessa história poderia apontar para uma vida recheada de dificuldades, ela o transformou em uma história de superação e em um conto de fadas.

Última diva do século 20 ainda viva, Sophia está lançando sua autobiografia Ontem, Hoje e Amanhã – Minha Vida Como um Conto de Fadas, que chegará ao Brasil em uma tradução publicada pela Record. Nele, conta como não teve um pai, não tinha uma casa, não tinha um sobrenome – e as tragédias da Segunda Guerra Mundial apenas se acumulavam diante de uma família que lutava para sobreviver.

Mas sua vida começaria a mudar pouco tempo depois de as bombas silenciarem. Seu primeiro concurso, ela ganhou vestindo uma roupa que sua avó fez usando a cortina da casa. O prêmio foi um rolo de papel de parede que permitiu que a família cobrisse algumas das cicatrizes deixadas nas paredes de casa pelas bombas durante a guerra. Se durante o conflito ela chegou a ser obrigada a dormir em tubos dos esgotos de sua cidade, Pozzuoli, com menos de 18 anos era sua renda que sustentava a casa. Anos depois, tinha refeito a história de sua família.

Dos cortiços onde começou sua vida à suíte presidencial de um dos hotéis mais caros do mundo em Genebra, ela falou ao Estado com exclusividade. Elegante, com enormes brincos de brilhantes e seus óculos inconfundíveis, a italiana não perdeu as expressões em seu rosto que a fizeram uma das atrizes mais cobiçadas pelos diretores. Num longo sofá, Sophia falou de forma pausada e mansa sobre sua vida.

Ao Brasil, todos os elogios do mundo. “Que lindo país.” Mas só um aspecto a incitou a fazer uma brincadeira: a humilhação do Brasil na Copa. “Vocês foram um desastre. Fiquei muito chateada. A Itália não foi bem. Mas 7 x 1, 7 x 1! Imagino a festa, a música que teria sido se o Brasil tivesse vencido”, lamentou. Eis os principais trechos da entrevista:

Por que publicar uma autobiografia agora?
Muita gente escreveu livros sobre mim. Algumas vezes, eu sabia que o livro estava sendo escrito, outras, não e era uma surpresa. Então, eu disse a mim mesma que deveria escrever algo. Como esse é um ano importante para mim, decidi que deveria dar uma declaração. Escrever, de fato, como minha vida começou e repassar ela inteira. Claro, tenho material suficiente para isso. As pessoas que conheci, as correspondências. Comecei a escrever, aos poucos, e me dizia: ‘Vamos ver o que vai acontecer. Se eu gostar, darei a alguém para publicar’.

A senhora mantinha algum diário durante todos esses anos?
Sim. Mas, depois de 20 anos, eu estava arrumando minha casa e vi todos esses diários. Comecei a lê-los. Pensei: ‘O que é que vai acontecer com todo esse material se eu tiver um acidente de carro ou morrer?’. Aquele material era algo que pertencia apenas a mim. Nem mesmo aos meus filhos. Não porque existiam coisas que não deveriam ser lidas. Mas porque eram pessoais. Comecei a rasgar as páginas das coisas que eu não gostava. Mas, então, parei e pensei: ‘Por que estou fazendo isso? Vou queimar tudo e estará tudo terminado’. Foi isso que fiz e fiquei muito feliz. Agora, a cada ano, escrevo um diário. Mas destruo no final.

No livro, a senhora conta como chegou a dormir em um tubo de esgoto para fugir das bombas na Segunda Guerra Mundial. Como foi sua infância?
Foi difícil como a de qualquer família normal daqueles anos. Vivemos momentos difíceis com a guerra. Infelizmente, nasci no ano que o mundo explodia. Vi todas as coisas ruins que a guerra traz consigo. Vegetamos. As escolas fecharam, pela noite não podíamos dormir. Crianças não sabem se expressar e veem coisas que não estão certas, e não conseguem dizer e entender o motivo. Foi muito ruim.

E qual foi seu primeiro contato com o cinema?
Foi logo depois da guerra. Quando os americanos começaram a chegar, o único prazer era ir ao único cinema e ver filmes. Ver locais lindos, mulheres lindas, roupas lindas. Fomos com as nossas fantasias. Imaginando estar naqueles locais. Às vezes, em casa, eu e minha irmã imitávamos o que víamos. Agora, isso não era suficiente para mim e para minha irmã. Tivemos o destino cruel de não ter um pai. Na verdade, tínhamos. Mas ele não cuidava de nós.

E qual era essa fantasia que a senhora carregava ao ir ao cinema naquele momento?
Meu sonho era o de ter uma família, como minha amiga do apartamento que havia do outro lado da rua. Ter um pai, ter irmãos, uma família, dinheiro suficiente para colocar um prato de comida na mesa.

A senhora conta no livro como era, ainda muito jovem, de fato, a chefe da família.
Sim, com 15 ou 16 anos.

A senhora tinha consciência dessa responsabilidade?
Não. Tudo aconteceu de forma natural. Para mim, era a rotina. Eu era a única a quem foi pedido que se fizesse algo.

O primeiro momento de triunfo foi ter vencido um concurso de beleza em Nápoles. O prêmio foi equivalente a US$ 35, rolos de papel de parede e uma bilhete de trem para Roma. Quando entrou nesse trem, imaginou que seria um bilhete só de ida na sua carreira?
Não. Ser uma estrela era um motivo de gargalhada para mim. Eu não acreditava. Mas foi uma chance que tive. Estava escrito em algum lugar que, um dia, eu conseguiria atingir tudo isso. Sinceramente acredito nisso. Mas, claro, para chegar a isso, tive de trabalhar muito. O trabalho psicológico, minha pouca idade.

A senhora aponta De Sica como responsável por tê-la formado como atriz. Por quê?
Nós nos encontramos. O primeiro encontro foi muito estranho. Depois, fui ao seu escritório, conversamos. Ele vinha da mesma cidade que eu – Nápoles -, falávamos a mesma língua. Havia um filme que ia produzir, O Ouro de Nápoles. Eles precisavam de uma garota linda, 18 ou 17 anos, de Nápoles. De Sica, então, me disse que era muito bom, já que, no filme, o nome da garota era justamente Sofia. Ali mesmo, ele me disse que me queria no filme e que, em dois dias, eu deveria estar em Nápoles para a filmagem. Quando abri a porta e deixei seu escritório, desmaiei. De Sica era o grande nome.

E como foi essa primeira experiência?
Era tudo novo para mim. E havia muita gente na rua vendo a filmagem. Eu não era ninguém. Mas as pessoas estavam lá para ver De Sica. De repente, me vi em meu lugar, na minha cidade. De Sica costumava interpretar e ensaiar cada um dos personagens do filme. Fazia o papel de todos. Quando ele fazia o meu papel, me dei conta que ele fazia exatamente as coisas que eu fazia. Vínhamos do mesmo lugar, com as mesmas emoções, mesma ironia. Começamos a trabalhar e senti que eu era o seu instrumento. Foi uma alegria.

Foi nesse filme que a senhora encenou provavelmente uma das caminhadas mais famosas da história do cinema. Como aconteceu aquele momento?
No começo, as pessoas que estavam ali não davam bola para mim. Mas, aos poucos, senti que aquele pequeno mundo começou a se transformar em meu amigo. Pensei que, se isso acontecia todos os dias, é porque eu tinha algo a dar àquelas pessoas ali. Comecei a brincar com as pessoas, comecei a atuar para eles. Aos poucos, você vai entendendo a psicologia do que as pessoas querem. Claro, precisa sempre estar em alerta. Mas eu não era estúpida.

A dupla que a senhora formou com Marcello Mastroianni também marcou época no cinema.
Ah, foi química. Desde o primeiro momento que fizemos um filme juntos, a comédia Too Bad she is Bad, gostaram de nós. Foi um grande sucesso. Os novos pedidos vieram, muitas vezes com De Sica, e começamos a fazer filmes dramáticos. Um dos melhores que fizemos foi A Special Day.

No filme Two Women, a senhora interpretou uma mãe sozinha com sua filha na guerra. Até que ponto estava interpretando a sua própria mãe?
Não é que interpretei a minha mãe. Era um personagem de uma mãe na guerra. Portanto, representava minha mãe para mim e o que ela teria feito em meu lugar se estivesse lá. Era uma questão de trabalhar com a fantasia.

Com esse filme, a senhora foi nomeada ao Oscar. Mas nem viajou até os EUA para acompanhar a cerimônia. Por quê?
Nunca um filme estrangeiro havia sido convidado. Quando fui escolhida entre as cinco, senti que era um grande passo. Era muito estranho que tivessem nomeado um filme em italiano. Claro, as atrizes sempre dizem que, quando estão entre as cinco, que já estão felizes. Mentira. Quando você está entre as cinco, você quer ganhar. Mas eu não acreditava e não queria me expor a algo que perderia. De todas as formas, eu pensei que, se ganhasse, eu iria desmaiar. E isso não seria legal no palco. Melhor desmaiar em casa.

Depois de atuar nos EUA, acredita que teve de voltar para a Itália e produzir filmes em sua língua, para ser reconhecida e concorrer a um Oscar?
Não. Fui eu quem mudei as regras nos EUA.
No Brasil, a senhora está associada ao fato de ter anunciado o Oscar para Roberto Benigni, no momento em que o País acreditava que poderia ganhar o prêmio com Walter Salles.
Ah, verdade? Não sabia.

Houve alguma influência da arte brasileira em sua carreira?
Sim, a música. Sem dúvida. Eu ia à loucura com a música brasileira, bossa nova, Tom Jobim, e com os filmes como Orfeu Negro. Além disso, eu ia filmar Tieta, de Jorge Amado.

Por que não aconteceu?
Porque fui para a prisão. Estava tudo pronto. Lina Wertmüller seria a diretora. Seria filmado no Brasil. Está até hoje engasgado na minha garganta.

Como foi a prisão?
Disseram que não paguei impostos sobre um filme que eu fiz. Há três anos, venci o caso. Ou seja, fui à prisão para nada. Mas foi uma experiência.

A senhora faz parte da história da beleza, que ganha novos contornos em cada época. O que é, para a senhora, a beleza?
Qualquer um pode ser lindo. Mesmo se a pessoa não é perfeita. Mas teu olhar precisa mostrar que você é feliz, positivo e que pode ter uma vida boa.

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