Ruina e Ascensão

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Cristovam Buarque : “O povo brasileiro não dá importância à educação”

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Após concorrer à Presidência em 2006, Cristovam Buarque foi eleito para o Senado em 2010 Foto: BETO BARATA / ESTADÃO CONTEÚDO

Após concorrer à Presidência em 2006, Cristovam Buarque foi eleito para o Senado em 2010 Foto: BETO BARATA / ESTADÃO CONTEÚDO

Senador pelo PDT, o ex-ministro da Educação deu início a uma vida pública voltada ao combate do analfabetismo e da má qualidade dos colégios brasileiros

Marcelo Gonzatto, no Zero Hora

Poucos homens públicos associaram tanto seu nome a uma causa única quanto o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), 71 anos. O engenheiro mecânico nascido em Recife (PE), primeiro em sua família a alcançar o Ensino Superior, fez da defesa da educação uma pregação monotemática.

Depois do doutorado em Economia na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde viveu nove anos exilado para escapar da ditadura militar, deu início a uma vida pública voltada ao combate do analfabetismo e da má qualidade dos colégios brasileiros.

Foi reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal, quando criou o programa Bolsa-Escola, e um polêmico ministro da Educação entre 2003 e 2004 – chegou a pedir que jovens marchassem a Brasília para pedir mais dinheiro para o ensino. Após concorrer à Presidência em 2006, foi eleito para o Senado em 2010. Autor de duas dezenas de livros, recém lançou O Erro do Sucesso, obra em que aborda o esgotamento da civilização industrial e a necessidade do surgimento de uma nova sociedade baseada no humanismo. Na entrevista a seguir, Cristovam detalha sua visão sobre os desafios da educação brasileira.

ENTREVISTA:

Zero Hora — Como o senhor define a qualidade da educação brasileira hoje?

Cristovam Buarque — Se a gente compara a educação brasileira de hoje com a de 30 anos atrás, melhorou. Se compara com o que se exige hoje da educação, nós pioramos. É como se nós avançássemos ficando para trás, porque as exigências educacionais crescem mais rapidamente do que a educação brasileira melhora. Há 30 anos, nem tinha escola para 30% das crianças. Agora, elas estão na escola, mas em escolas muito deficientes.

ZH — O país se preocupou primeiro em aumentar o número de matrículas para depois focar na qualidade. Foi uma estratégia correta?

Cristovam Buarque — Mas esse depois não está acontecendo. A qualidade não está melhorando com a velocidade que o mundo exige. Até poucos anos atrás, uma pessoa sem saber ler tinha emprego. Hoje, é difícil ter emprego sem o Ensino Médio. Recentemente, conversei com um empresário europeu que deixou de investir em Alagoas porque não tinha mão de obra qualificada, e o ramo dele era criação de cavalos. Ele precisava de um número de veterinários que falassem inglês e lessem em inglês que ele não encontrou.

ZH — Quais as principais razões para esse cenário?

Cristovam Buarque — Duas razões. A primeira é cultural. Por algum motivo, o povo brasileiro, incluindo você, eu, sendo pobres ou não, não dá importância à educação. Ninguém é considerado rico no Brasil por ser culto. Você é considerado rico pela casa, pela conta bancária, pelo tamanho do carro, mas não pelo grau de cultura e educação. Mesmo quem gasta dinheiro para estudar não está em busca de cultura, está em busca do emprego que a educação lhe dá. E a segunda razão é social e política: o Brasil é um país dividido em duas classes bem separadas. Tudo o que é da parte rica, a gente resolve. O que é da parte pobre, a gente abandona.

ZH — Foi para forçar a aproximação dessas duas realidades que o senhor propôs que todo político fosse obrigado a matricular os filhos em colégio público?

Cristovam Buarque — Não, foi por questão ética. Se a gente cuida das coisas públicas, não deveria se esconder nas soluções privadas. Mas, voltando à segunda causa do atraso, que é política, nós melhoramos a educação dos filhos dos ricos – inclusive usando dinheiro público para isso. Aí abandonamos a educação dos pobres como abandonamos água, esgoto, transporte, segurança.

ZH — O governo aposta no dinheiro do pré-sal para financiar a educação, que deverá receber o equivalente a 10% do PIB. Esse é o caminho?

Cristovam Buarque — Não, porque não diz como é que terá de ser investido o dinheiro. Se você jogar dinheiro no quintal de uma escola, não melhora a educação. Então é preciso dizer como vai gastar o dinheiro, depois a gente diz de onde vem o dinheiro. Não se fez esse exercício. Em segundo lugar, o pré-sal é uma hipótese, e pouco provável.

ZH — O senhor acha arriscado vincular a educação brasileira ao pré-sal?

Cristovam Buarque — Não é arriscado, é absurdo. Veja bem, é certo reservar o pré-sal para a educação, mas é absurdo vincular a educação ao pré-sal. Primeiro, porque ninguém sabe se vem esse dinheiro. Segundo, ninguém sabe quanto é. Terceiro, se vier, vai demorar muito. Com o preço atual do petróleo, o pré-sal não tem possibilidade de ser explorado. Não compensa. E, com a crise atual da Petrobras, não vejo como vai se explorar o pré-sal.

ZH — Qual seria a melhor forma de financiar a educação?

Cristovam Buarque — Definir de onde se tira o dinheiro. Eu fiz um estudo em que propus 15 fontes de financiamento. Com essas fontes, nós teríamos dinheiro sobrando.

ZH — Seriam parcelas de tributos já existentes?

Cristovam Buarque — Por exemplo: o governo gastou R$ 250 bilhões em isenções fiscais. Só isso já resolveria. Provavelmente, a gente não poderia acabar com toda isenção, tiraria uma parte. Se a gente quiser mesmo fazer uma revolução, por que não cria uma CPME, do jeito que teve uma CPMF (extinta Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, que visava a financiar a saúde), para a educação?

ZH — Mas haveria aceitação no Brasil a um novo tributo?

Cristovam Buarque — Não, porque não se dá importância à educação. Outra: do dinheiro que o BNDES investe em Eike Batista e cia., se a gente pegasse uma parte disso (mais…)

Professor no Brasil perde 20% da aula com bagunça na classe, diz estudo

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Pesquisa da OCDE aponta que 60% dos docentes têm alunos-problemas.
Brasil lidera ‘ranking’ de intimidação verbal entre alunos e professores.

Professor perde muito tempo colocando a classe em ordem (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Professor perde muito tempo colocando a classe em ordem (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Paulo Guilherme, no G1

Uma pesquisa feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que no Brasil o professor perde 20% do tempo de aula acalmando os alunos e colocando a classe em ordem para poder ensinar. Além disso, o estudo aponta que 60% dos professores brasileiros ouvidos têm mais de 10% de alunos-problemas em sua sala de aula, o maior índice entre os países participantes do estudo.

A pesquisa Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning Internacional Survey, Talis, na sigla em inglês) ouviu professores de 33 países.

O estudo aponta que no Brasil o professor perde 20% do tempo para por a classe em ordem e acabar com a bagunça, 13% do tempo resolvendo problemas burocráticos e 67% dando conteúdo. É o país que onde o professor mais perde tempo de aula. A média dos países da OCDE é de 13% do tempo para acabar com a bagunça.

O estudo perguntou aos professores se eles têm mais ou menos de 10% de alunos problemáticos na classe. O Brasil teve 60% dos docentes apontando terem mais de 10% de estudantes problemáticos. Chile, México e Estados Unidos aparecem depois. Na outra ponta, Dinamarca, Croácia, Noruega e Japão têm menos relatos de professores sobre alunos com mau comportamento.

Os dados foram levantados em 2013 com alunos do ensino fundamental e ensino médio (alunos de 11 a 16 anos), mas um relatório sobre a questão de comportamento dos alunos foi divulgado este ano. No Brasil, 14.291 professores e 1.057 diretores de 1.070 escolas completaram o questionário da pequisa.

A pesquisa Talis coleta dados sobre o ambiente de aprendizagem e as condições de trabalho dos professores nas escolas de todo o mundo. O objetivo é fornecer informações que possam ser comparadas com outros países para que se defina políticas para o desenvolvimento da educação.

VEJA ALGUNS DADOS DA PESQUISA:

Tempo para por a classe em ordem
No Brasil o professor perde 20% do tempo para acalmar os alunos, dar broncas e colocar a classe em ordem. A média da OCDE é de 13%.

Aluno que chega atrasado
Este não chega a ser um grande problema em comparação a outros. O índice no Brasil é de 51,4%, menor que a média dos países, de 51,8%. Países mais desenvolvidos têm alunos que atrasam mais, como Finlândia (86,5%), Suécia (78,4% Holanda (75,7%), Estados Unidos (73,3%) e França (61,6%).

Falta às aulas
Também o Brasil está na média, com 38,4%. Suécia (67,2%), Finlândia (64%) e Canadá (61,8) têm números maiores. O menor índice é da República Checa (5,7%).

Vandalismo e roubo
O Brasil está em segundo lugar neste item, com 11,8% dos relatos dos professores, atrás do México, líder com 13,2% e à frente da Malásia, com 10,8%.

Intimidação verbal entre alunos
O Brasil lidera a pesquisa com 34,4% dos relatos de professores, seguido pela Suécia (30,7%) e Bélgica (30,7%).

Ferimentos em briga de alunos
O maior índice é do México (10,8%), seguido por Chipre (7,2%) e Finlândia (7%). O Brasil aparece em quarto com 6,7%.

Intimidação verbal de professores
O Brasil é primeiro lugar com 12,5%. Em seguida vem a Estônia (11%).

Uso e posse de drogas e/ou álcool
Nos relatos, o Brasil tem o mais índice (6,9%), seguido pelo Canadá (6%).

Formação do professor
A pesquisadora Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, participou do levantamento. Ela também fez pesquisas em Ontário, no Canadá, e na Inglaterra, e percebeu que a formação dos professores é melhor nestes países.

Ainda de acordo com o estudo, no Brasil, mais de 90% dos professores dos anos finais do ensino fundamental concluíram o ensino superior, mas cerca de 25% não fizeram curso de formação de professores. Em comparação, no Chile aproximadamente 9 entre 10 professores concluíram tais cursos, assim como quase todos os professores na Austrália e em Alberta (Canadá).

“No Brasil, por problemas de salários e outras atividades, se coloca um professor que não foi preparado para dar aquela disciplina. Além disso, a média no Brasil é de 31 alunos por classe, enquanto nos outros países é de 24 alunos”, destaca Gabriela.

Segundo ela, é preciso criar um sistema de planejamento de políticas de apoio às escolas e aos professores para lidar com alunos que estão se desenvolvendo. “Todo mundo entende que na pré-adolescência os estudantes testam seus limites e estão aprendendo a ser autônomos”, afirma a pesquisadora. “Antes de acharmos que nosso aluno é preciso ver que em outros países os estudantes têm muito apoio que no nosso não tem.”

Em seu relatório, a pesquisadora conclui que “a construção de uma cultura escolar positiva pode ser uma forma de reduzir problemas de comportamento e absentismo, e, portanto, melhorar as condições de aprendizagem dos alunos”. “Uma maneira de criar um ambiente mais positivo é envolver os alunos, pais e professores nas decisões da escola. Professores que trabalham em escolas com um maior nível de participação entre as partes interessadas têm menos relatos de alunos com problemas de comportamento em suas salas de aula.”

No Brasil se lê menos que na Venezuela, Turquia e Egito

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Teria isso a ver com o panorama sombrio do Congresso presidido pelo conservador Cunha, denunciado pelo escritor Luiz Ruffato?

Juan Árias, no El País

Talvez muitos brasileiros ignorem o pouco que se lê nesse país em relação ao resto do mundo. Talvez não saibam que em um ranking dos 30 países onde mais se lê, segundo a agência Nop World, o Brasil aparece na rabeira, à frente apenas de Taiwan e Coreia. E talvez isso tenha a ver com a denúncia que o escritor Luiz Ruffato acaba de fazer em seu artigo O nosso Fundamentalismo, nesta seção do jornal.

Ganham do Brasil em número de livros lidos e de horas de leitura por pessoa, por exemplo, Venezuela, México ou Argentina dentro do continente. Fora dele, turcos, egípcios, árabes sauditas, húngaros, poloneses, indonésios, filipinos e russos –entre muitos outros– leem mais que os brasileiros.

E talvez a grande massa de brasileiros estranhasse saber que os dois países onde se leem mais livros por pessoa e se dedicam mais horas à leitura no mundo são a Índia e a China.

É possível que um analfabeto ou alguém que não tenha lido um livro na vida possa revelar uma sabedoria natural, um senso comum agudo e até uma grande carga de poesia.

Conheci algumas pessoas assim na minha vida. Entretanto, o mais natural é que um país que não lê ou que aparece, como o Brasil, entre os piores leitores do mundo, esteja comprometendo seu desenvolvimento futuro –não apenas cultural, mas também econômico. Mais ainda, dificilmente entrará no rio da modernidade e do progresso um país não-leitor ao mesmo tempo que será refém dos poderes dominantes.

Neste jornal, Ruffato, que poderíamos apelidar de “engendrado pela leitura”, que os livros, como acontece com tantos outros gênios das letras e da ciência, o levaram pela mão ao reino da liberdade de pensamento, acaba de pôr a nu em sua coluna o perigo de que este país tenha hoje à frente do Congresso um deputado conservador como Eduardo Cunha, que aspira a conquistar o Palácio do Planalto, e que está tirando o pó –visando sua aprovação– de projetos de lei medievais em matéria de costumes ou caricaturais como a criação do dia do “Orgulho heterossexual”.

Ruffato teve um dia a coragem de verdadeiro intelectual de traçar um tenebroso panorama da situação cultural do Brasil em um discurso feito na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. Sua argumentação deixou mudas as autoridades alemãs e envergonhadas as brasileiras que o haviam convidado.

Em sua coluna, ressalta que o pior não é só a figura retrógrada de Cunha, mas o fato de ter a seu favor dois terços do Congresso, que o seguem com entusiasmo.

Entretanto, querido Ruffato, pior ainda que esse Congresso encantado com a figura ambígua e conservadora de Cunha seja o fato de que a maioria dos brasileiros pensa igual ou pior que os deputados e senadores.

Basta lembrar alguns números de uma pesquisa realizada pelo Ibope/Estado/TV que coincide com outras feitas por institutos como CNT/Sensus e Vox Populi. Segundo elas, 79% dos brasileiros são contra o casamento de homossexuais e 63% rechaçam que possam adotar crianças, 73% se declaram contra a legalização do aborto; 79% são contrários à legalização das drogas, inclusive a maconha.

E contra a pena de morte? A grande maioria é a favor de restabelecê-la no país. E é preciso lembrar aqui o resultado negativo do referendum que propunha o desarmamento civil. E só agora o rechaço à corrupção política começa a aparecer entre as preferências dos brasileiros.

Existem outros temas tabu sobre os quais as pesquisas não se atrevem a perguntar, como por exemplo, quantos, neste momento de crise política, com um país oprimido pela corrupção e pelo descalabro econômico e com a baixa estima da classe política em geral, não prefeririam que os militares voltassem a meter a colher no país.

Não sei se está sempre certo o ditado segundo o qual “cada país tem os políticos que merece”. Talvez haja exceções, mas é verdade que um país ainda fortemente conservador, com medo da modernidade, sem força para ocupar a rua pacificamente (fora os blocos carnavalescos ou as marchas evangélicas a favor de Jesus) para exigir maiores margens de liberdade, mais coerência a seus governantes e mais respeito pelo dinheiro público, dificilmente será capaz de levar ao Congresso deputados empenhados em colocar o país nos trilhos da modernidade.

Comecei esta coluna recordando que o Brasil figura entre os países onde menos se lê no mundo. E o fiz para me perguntar no final: teria isso a ver com esse triste panorama do Congresso denunciado por Luiz Ruffato?

Pasquale Cipro Neto: O trote e o nosso incurável atraso

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Pasquale Cipro Neto, na Folha de S.Paulo

Dona Antônia certamente vai escrever para mim. Dona Antônia fica muito triste quando digo algo que desabone “o nosso maravilhoso Brasil, um país lindo, tropical, onde não há vulcões, tornados, tsunamis etc.”. Dona Antônia mora num condomínio duma cidade paulista, famosa justamente por seus condomínios (fechadíssimos). A existência de um sem-número desses condomínios país afora prova que “o nosso Brasil” é mesmo “maravilhoso”.

Sinto muito, Dona Antônia, mas a senhora vai ficar triste novamente. Re/começaram as aulas nas nossas universidades, e com elas veio outra prova inconteste do nosso secular e incurável atraso.

Repito Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. A barbárie que se vê todos os anos na boçal prática do trote nas nossas “universidades” comprova o que Joaquim Nabuco escreveu há mais de cem anos: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.

O que é essa estupidez sem fim senão a perpetuação de uma prática que tem por trás a ideia de que calouros são escravos de veteranos, que, por sua vez, quando calouros, foram escravos de veteranos, que, por sua vez, quando calouros, foram escravos de veteranos, que…

Há algum tempo, participei de um programa de TV no qual se discutiu o trote. Eu disse o que penso de QUALQUER trote (o assassino, o “solidário”, o “cidadão” etc.): é pura ditadura, já que não se concede à vítima a hipótese do não. É proibido recusar. Eu era um estranho no ninho… Fui até motivo de troça.

Acabara de ocorrer um caso medonho numa faculdade de medicina, em que um calouro foi queimado. Eu disse que é inconcebível que numa escola de medicina se pratique tamanha barbárie. Recebi mensagens de médicos e futuros médicos que me perguntavam o que eu tinha contra eles… Talvez tivesse sido melhor não responder, mas eu disse que, a priori, contra médicos e futuros médicos não tenho nada, mas contra monstros burros tenho tudo.

Foi preciso que corajosas alunas da medicina da USP resolvessem denunciar o nojo que se dá nas “festinhas” para que a faculdade descobrisse a pólvora: nada de orgias, digo, nada de festas na faculdade (e nada de barbárie, também). A tragédia com o estudante chinês não bastara para pôr fim ao ritual macabro.

Quando olho para um médico, fico com vontade de perguntar-lhe se ele participou dessa estupidez quando aluno. Quando entrevistei o grande e querido escritor e médico Moacyr Scliar, meu companheiro de feiras do livro Brasil afora, disse-lhe que não confio em médicos que não leram Fernando Pessoa, Machado de Assis etc. Ele sorriu, como que concordando com o pensamento.

O que se faz numa conceituada escola paulista de agronomia é o atraso do atraso do atraso. Calouros são levados de madrugada a um canavial, onde são abandonados. Detalhe: a única coisa que se lhes deixa é cachaça. Sem comentários.

É dessa alta nobreza que sai a “elite” do Brasil. Gente insensível, bruta, burra e besta, com muitas e gloriosas exceções, é claro.

Dilma Rousseff, que foi torturada, não entende ou finge que não entende que trote é tortura. Nem ela nem todos os presidentes anteriores a ela. Nem eles nem todos os ministros da Justiça da história deste infame país, Dona Antônia. A leitura da realidade precede a leitura da palavra, caro leitor. É isso.

Cursos on-line atraem centenas de milhares de brasileiros e abrem debate sobre a prática

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Preferência nacional é por aulas gratuitas; Brasil já é o quarto país com mais usuários da plataforma internacional Coursera

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Raphael Kapa, em O Globo

RIO — Quando a estudante universitária Monica Aragão, de 28 anos, teve um filho, ficou cada vez mais difícil conciliar as aulas com a maternidade. Os atrasos se tornaram constantes e o tempo para estudar não poderia ser mais o determinado pela faculdade. Foi neste momento que a moradora de Marechal Hermes, zona Norte do Rio, começou a utilizar sites de cursos on-line e passou a assistir aulas com professores das mais diferentes instituições, desde a Universidade de São Paulo (USP) até a americana Harvard.

— Sempre fui contra disciplinas on-line porque acho fundamental a presença do professor, mas passei a ver que é algo que complementa. Com as limitações de horário que tenho desde que virei mãe, eu agora posso ver a aula, parar e voltar quantas vezes eu quiser até entender a matéria — afirma Monica, que começou utilizando as plataformas para eliminar horas obrigatórias na faculdade de Administração, que frequenta, mas, por ter gostado da experiência, acabou fazendo outros cursos. — Já fiz “Gestão de Recursos Humanos”, “Nova reforma ortográfica”, “Liderança e coaching” e “Inglês”.

Em meio ao debate sobre a validade destas novas plataformas de ensino, os cursos on-line tiveram uma expansão no mercado brasileiro, chamando a atenção das principais empresas do setor. O Coursera, principal página de aulas pela web no mundo, já conta com mais de 400 mil usuários brasileiros, o que fez com que o país passasse o Reino Unido no número de inscritos no site. O Brasil fica em quarto lugar na lista, somente atrás de China, Estados Unidos e Índia. A grande presença nacional num site que não tem aulas em Português levou a página a investir mais em traduções. Além disso, o grupo passou a fazer parceria com a USP e a Unicamp para criar cursos voltados a professores brasileiros, que devem entrar no ar nos próximos meses.

— Cerca de 50% dos brasileiros que fazem o Coursera querem ganhar novas habilidades para suas carreiras — afirma Daphne Koller, presidente da empresa. — De fato, os brasileiros são três vezes mais propensos que os chineses e duas vezes mais que os americanos a conseguir as certificações emitidas pelo site, para mostrar publicamente o ganho que obtiveram.

PLATAFORMA NACIONAL EM ALTA

O crescimento não é pontual. Na plataforma Novo Ed, que reúne aulas da universidade americana de Stanford, o público brasileiro ocupa o terceiro lugar. Já no site Udacity, que reúne aulas de diversas faculdades dos Estados Unidos, os brasileiros disputam, mensalmente, a colocação entre os três principais países que usam a plataforma.

— O Brasil é um mercado estratégico para nós. Estamos concentrados em melhorar e expandir nossos esforços para atender os alunos brasileiros — afirmou a consultora da Udacity, Shernaz Daver.

Em meio à concorrência de sites do exterior, foi um site brasileiro que teve o maior crescimento nos últimos anos. O Veduca começou, em 2012, com cursos estrangeiros e atingiu 50 mil estudantes naquele ano. Dois anos depois, o grupo passou a fazer parcerias com diferentes instituições brasileiras, com o Google e com a Bovespa para empreender os mais variados tipo de curso. O resultado: 650 mil usuários em dezembro passado — um deles justamente Monica. Carlos Souza, diretor executivo do grupo, afirma que o motivo que a fez procurar o site é o principal entre os brasileiros:

— Num levantamento que fizemos, vimos que as pessoas nos procuram, primeiro, porque é de graça — explica Souza. — Em segundo lugar, elas querem fazer o curso no seu próprio ritmo e, em terceiro, consideram a qualidade do material. O fato de ser gratuito atrai muito e, no fim, as pessoas acabam querendo pagar pelo certificado.

Um outro aspecto dos cursos pela internet é que eles não são utilizados somente de forma individual. Muitos já foram incorporados dentro da realidade das escolas como forma de complementar a educação.

— Pesquisas já mostram que a maneira mais efetiva de ensino é combinar o presencial e o on-line. O aproveitamento é bem maior com o uso otimizado do tempo de estudo — afirma Souza.

Foi desta forma que o colégio D’Incao, em São Paulo, passou a utilizar o iTunesU, aplicativo de educação da Apple, em suas aulas. Os diretores da instituição enfatizam, no entanto, que a tecnologia surge como um instrumento para o professor e que nunca irá substituí-lo.

— A plataforma apoia o aluno sem retirar a presença do professor. É impossível garantir a qualidade de um curso sem a mediação. A sala de aula é o ambiente em que se garante o efetivo desenvolvimento do aluno e do conteúdo, e a tecnologia é uma ferramenta que torna este local mais atrativo e interativo — afirma o diretor Pedro D’Incao.

NECESSIDADE DE ADAPTAÇÃO

Porém, enquanto o Brasil vive um crescimento destes cursos, os Estados Unidos passam a rever a metodologia. John Henessy, presidente de Stanford e um dos mais conhecidos pesquisadores sobre o assunto, critica as plataformas por não serem atrativas o suficiente. Em estudo veiculado no ano passado, o professor afirma que menos da metade dos alunos que se inscrevem no curso terminam de assistir à primeira aula.

— Quando surgiram em 2011, os cursos on-line eram vistos como verdadeira revolução no ensino. Hoje, já conseguimos compreender que se trata de uma onda que tem que ser adaptada. Nada substituiu o professor, mas muitas coisas podem ajudá-lo. As chances de um aluno se interessar por uma aula on-line são muito maiores se ele tem uma empatia por aquele tema de alguma forma presencial — afirma Joana Sampaio, especialista em Educação Básica pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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