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Resenhas literárias de amadores na internet atraem leitores e abrem filão para editoras

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Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

Fernanda Ezabella e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Todo mês, 75 mil pessoas acessam os vídeos em que o paulista Danilo Leonardi, 26, comenta livros. A carioca Ana Grilo, 37, diz ler até 150 títulos por ano para seu blog de resenhas, escrito em inglês. O americano Donald Mitchell, 66, já publicou 4.475 resenhas na Amazon -por parte delas, levantou R$ 70 mil, doados para uma ONG beneficente.

Os três são personagens de um movimento que, nos últimos anos, chamou a atenção de editoras e virou negócio: o de críticas de livros feitas na internet por amadores, que, com linguagem mais simples, atraem milhares de leitores.

Com o aumento na venda de e-books, a expansão da autopublicação e a concorrência ferrenha entre editoras, textos escritos por hobby ou por até R$ 1.000 tornaram-se uma alternativa de divulgação capaz de atingir nichos e multiplicar vendas de livros.

Nos EUA, páginas como o Hollywood Book Reviews e o Pacific Book Review cobram de autores e editoras de R$ 250 a R$ 800 por textos a serem publicados em até 26 sites, incluindo seções de comentários de lojas virtuais.

Editoras estrangeiras passaram, em meados da década passada, a enviar livros para blogueiros resenharem, tal como já faziam com a imprensa. Em 2009, casas como Record e Planeta importaram a ideia, que logo ganhou jeitinho brasileiro: concursos tão disputados quanto vestibulares.

Nesse formato, as editoras criam formulários de inscrições e selecionam blogs após criteriosa avaliação da audiência e da qualidade dos texto. O “pagamento”, ressaltam editoras e blogueiros, são apenas os livros a serem avaliados, nunca dinheiro.

No fim do ano passado, 1.007 blogueiros concorreram a cem vagas de parceiros da LeYa. Na Companhia das Letras, foram 779 candidatos para 50 vagas no semestre.

Aqui e no exterior, editoras e autores investem em anúncios ou posts patrocinados em blogs, que com isso chegam a faturar R$ 2.000 por mês.

Mas, no geral, cobrar por resenhas pega mal, e a autorregulamentação dos blogueiros é implacável. O blog americano ChickLitGirls cobrava R$ 200 por uma “boa avaliação” até ser denunciado por uma escritora. O bate-boca subsequente levou à extinção da página, em 2012.

Para se manter com cobranças, só mesmo sendo rigoroso, como a Kirkus, tradicional publicação de resenhas que, em 2004, passou a oferecer serviço de marketing para autores autopublicados.

As críticas no site podem custar mais de R$ 1.000 a autores e editoras interessados, e nem sempre são positivas. Quem contratou o serviço pode ler antes e abortar a missão caso a avaliação seja ruim. O dinheiro não é devolvido.

Cinco poetas da nova geração falam da boa fase do gênero no país

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Angélica Freitas, Fabrício Corsaletti, Alice Sant’Anna, Leonardo Gandolfi e Ana Martins Marques se reúnem pela primeira vez para um bate-papo sobre o processo criativo

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Mariana Filgueiras, em O Globo

RIO – “Outro dia eu estava no café do cinema Odeon, na Cinelândia, e notei duas meninas dividindo a leitura deste livro. Acho que elas compraram juntas, cada uma deu uma parte do dinheiro, foi o que imaginei. Uma lia uma página, passava o livro para a outra, comentavam, e assim ficaram um bom tempo. Vi também gente lendo este livro no metrô e na praia. A última vez que me lembro de ter visto algo parecido foi quando surgiu ‘Caprichos e relaxos’, do Leminski, mas isso foi em 1983!”, compara o poeta e editor Carlito Azevedo, referindo-se ao livro “Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas, lançado em setembro passado pela Cosac Naify.

“Um útero…” não é livro de vampiro, sacanagem, celebridade ou como-ficar-rico-e-magro: é o segundo livro de poesias de uma autora gaúcha de 39 anos, que tem dois gatos e um blog. Em menos de dois meses, vendeu três mil cópias, e está na segunda reimpressão. Um feito, em se tratando de poesia. Que abriu uma janela para outros novos poetas: com o sucesso de “Um útero…”, a Cosac resolveu criar uma coleção de poesia brasileira contemporânea. Em março, lançou “Via férrea”, do mineiro Mário Alex Rosa, de 47 anos (que tinha a obra engavetada há sete); este mês, apostou em “Rabo de baleia”, segundo livro da carioca Alice Sant’Anna, de 25.

— O sucesso da Angélica nos mostrou que um poema pode viajar com muita força pelas redes sociais e alcançar uma experiência que outras formas de escrita não conseguem. Parece haver uma particularidade deste momento no modo como é possível compartilhar a poesia, sem prejuízo de suas formas tradicionais — observa a editora da Cosac Naify, Florencia Ferrari.

É, de fato, um bom momento. A Azougue acaba de lançar a antologia “Poesia.Br”, a primeira do tipo, com dez volumes que abarcam a tradição do gênero em território nacional — dos cantos ameríndios à uterina Angélica Freitas. O último tomo aborda justamente esta nova geração.

— É uma turma que faz poemas mais irreverentes do que a dos anos 90, buscando uma linguagem que se relacione com elementos da vida cotidiana, apesar de ainda flertar pouco com o experimentalismo — diz Sergio Cohn, editor da Azougue, lembrando outro feliz indicativo da boa fase da poesia no país: há três semanas, a obra completa de Paulo Leminski, “Toda poesia”, lançada pela Companhia das Letras, está nas listas dos livros mais vendidos do Brasil.

A Revista O GLOBO pediu a três poetas e editores de poesia (Carlito Azevedo, Sergio Cohn e Armando Freitas Filho) que apontassem autores que representem esta nova safra. De uma lista extensa, eles destacaram a obra do paulistano Fabrício Corsaletti, de 35 anos (graduado em Letras, é colunista da “Folha de S. Paulo” e autor de “Estudos para seu corpo”, de 2007, e “Esquimó”, de 2010); da mineira Ana Martins Marques, 36 (mestre em Literatura, ganhou o Prêmio Biblioteca Nacional de Literatura em 2012 com o livro “Da arte das armadilhas”); da gaúcha Angélica Freitas (que antes de “Um útero…” tinha publicado o elogiado “Rilke Shake”, em 2007); e dos cariocas Alice Sant’Anna (editora no Instituto Moreira Salles e autora também de “Dobradura”, de 2009) e Leonardo Gandolfi, 32 (doutorando em Literatura, é professor do ensino fundamental e autor de “No entanto d’água”, de 2006, e “A morte de Tony Bennett”, de 2010).

— Não vejo pontos de contato evidentes, são escritas muito pessoais. Prefiro falar dos problemas em comum, não no sentido negativo da palavra, mas no sentido de complexidade: eles fazem poemas abertos. Não abertos como uma flor, mas como uma mão de baralho. Eles têm em cada poema diversas possibilidades. É como se cada verso pudesse gerar um próximo jogo, um novo poema — exalta Armando Freitas Filho, lembrando que conhece melhor a obra de Alice e Ana.

Foi proposto um encontro entre os poetas, que só se conheciam aos pares ou pela internet. Angélica tomou dois aviões de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde vive; Fabrício interrompeu um trabalho de tradução em São Paulo; Ana, a redação do capítulo final de sua tese, em Belo Horizonte. Alice pediu para chegar mais tarde ao trabalho, na Gávea, e Leonardo deixou os alunos com um monitor. Na manhã da sexta-feira retrasada, os cinco se encontraram pela primeira vez para discutir, por que não, poesia.

Vocês reconhecem esta boa fase?

Fabrício: Sim. Acho que é um bom momento. Mas é poesia, né? Só quem vende bem aqui é a Angélica (risos). Eu acho que poderia não se falar sobre poesia em lugar nenhum, mas poesia ainda tem destaque. Eu, por exemplo, só aceitei ser colunista de jornal porque me permitiram publicar poemas também.

Alice: Eu não sei comparar porque não vivi outra época, mas a nossa eu vejo com otimismo. Tem muita gente boa escrevendo, muita gente boa publicando. Não sei se dá para falar sobre vertentes, cravar o que une uma geração, mas acho que é uma época excelente.

De que forma as redes sociais ajudam a difusão desta poesia?

Ana: Eu acho que a internet mudou muito a forma de circulação da literatura em geral, e da poesia em particular. A poesia se prende a isso: o caráter mais sucinto, mais imagético. Sem dúvida favorece a circulação e o contato das pessoas. Conhecer o que está sendo feito em outros lugares, em outras editoras, e que normalmente você não teria acesso. Houve uma transformação no modo de fazer e de ler.

Vocês leem poesia no Facebook? (mais…)

O mercador de ideias

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Maria da Paz Trefaut, no Valor Econômico

Com o Fronteiras, Fernando Schüler mostra como fazer um curso de altos estudos sem concessões ao mercado
Magro e com 1,98 m de altura, Fernando Schüler atrai olhares aonde quer que vá. “Você tem que saber quem você é”, diz, dando a entender que lida bem com o biotipo que, na adolescência, o levou a praticar salto em altura e a ser campeão brasileiro juvenil da modalidade. O tempo, gradativamente, apagou o esportista e deu lugar ao intelectual. Agora, só caminhadas junto à orla carioca, numa frequência inferior à desejável, animam o empreendedor cultural, que há sete anos criou a série de conferências internacionais Fronteiras do Pensamento.

A barba, cultivada há poucos meses, contribui para reforçar o ar sério de Schüler, de 48 anos, cientista social com doutorado em filosofia, professor e diretor do Ibmec, no Rio de Janeiro. Gaúcho, daqueles que não entendem como alguém pode não gostar de chimarrão, diz estar adorando o Rio, onde vive há menos de dois anos, desde que aceitou o convite da universidade carioca. Fora da academia, seu currículo soma passagens em órgãos públicos, secretarias de governo e pelo Ministério da Cultura, em 1995, quando foi chefe do gabinete de Francisco Weffort. O cargo político mais recente que ocupou foi como secretário de Estado da Justiça e do Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul, no governo de Yeda Crusius, entre 2007 e 2010.

Depois de militar dez anos no PT e mais alguns no PSDB, a filiação partidária deixou de interessá-lo. Nem por isso se inclui entre os petistas desiludidos. Gosta de frisar que nos seus 14 anos de experiência em gestão pública, desempenhou funções em governos de vários partidos e que sua atuação nunca foi partidária. “Sempre fui convidado a ocupar funções pelo meu preparo acadêmico e profissional. Sou uma pessoa com múltiplas atividades. Criei a orquestra Jovem do Rio Grande do Sul, a Fundacine, ajudei a construir a Fundação Iberê Camargo. Me agrada a ideia de criar instituições que permanecem.”

À parte de tudo isso, o Fronteiras do Pensamento é um marco em sua carreira de administrador e gestor cultural. O evento hoje faz parte do calendário cultural de Porto Alegre, onde foi criado, e também de São Paulo, onde ocorre pela terceira vez. Neste ano, a edição paulista deixa a Sala São Paulo e migra para o Teatro Geo – Complexo Ohtake Cultural, onde o escritor peruano Mario Vargas Llosa faz a conferência de abertura no dia 17. Em Porto Alegre, o seminário será iniciado mais tarde, só em 5 de maio, pela especialista em religiões Karen Armstrong. Estrelas como o neurocientista português Antonio Damásio e o Prêmio Nobel da Paz José Ramos-Horta circularão pelas duas cidades ao longo do ano.

Para Schüler é sempre um mistério tentar entender por que certos projetos culturais emplacam e conseguem um tipo de demanda e outros não. Recentemente, num momento de entusiasmo excessivo, ele chegou a dizer, em uma entrevista, que gostaria que o evento fosse o “U2 do pensamento”. Confrontado com a frase, ri com embaraço e retifica a comparação de imediato. “Foi um certo exagero. Modéstia é uma coisa boa. Tomara que fosse… Na verdade, eu queria marcar um ponto de vista. Existem certos tabus no meio intelectual. Se um concerto de rock pode ser espetacular, por que uma conferência de filosofia não pode?”

O ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento nasceu de uma provocação feita pelo empresário Luiz Fernando Cirne Lima, na época vice-presidente da Copesul, empresa que viria a ser comprada pela petroquímica Braskem. Ele queria saber se era possível ou não fazer um curso de altos estudos que tivesse valor em si, no sentido de contribuir para uma sociedade melhor, e que não tivesse que fazer concessões ao pragmatismo do mercado. Foi aí que Schüler entrou em cena. Depois, ao comprar a Copesul, a Braskem garantiu, de imediato, a manutenção do projeto, que continuou como uma aliança entre muitas empresas, organizações e universidades.

‘Existem certos tabus no meio intelectual. Se um concerto de rock pode ser espetacular, por que uma conferência de filosofia não pode?’

Quanto custa o evento é algo que Schüler não diz. Afirma apenas que a venda dos ingressos (R$ 2.380 o passaporte para as oito conferências, em São Paulo, e R$ 925, em Porto Alegre, para dez) não paga nem metade dos gastos. Ele justifica a diferença de preços entre as duas cidades pelos custos mais elevados de São Paulo e diz que a gestão cultural serve, justamente, para equacionar questões como essas.

Segundo ele, o público do Fronteiras provém de estratificações de renda muito diferentes. Em Porto Alegre, por exemplo, 30% são médicos. Na capital gaúcha, também há o projeto Fronteiras Educação, que atinge 15 mil crianças com fascículos didáticos, nos quais os temas das conferências são traduzidos numa linguagem acessível para a geração Z. Mas se o ciclo de debates começou apenas como um encontro físico, a proposta é que se expanda cada vez mais no mundo digital via o site www.fronteiras.com, onde o formato é ajustado para ser consumido em tablet ou smartphone. A utopia de Schüler é que as conferências sejam acessadas tanto por um executivo que está no metrô de Nova York como por um estudante de escola da periferia de Luanda.

Na história do evento constam mais de 130 conferências, que resultaram em 17 filmes de média-metragem e outros tantos documentários. “O grande foco do Fronteiras é fazer com que o debate das ideias vá para o grande público. Não gosto da palavra democratização. Mas propomos uma ponte entre o pensamento acadêmico, científico e o mercado das ideias.” Desde o início, o pluralismo comanda a seleção de convidados, mas há alguns limites: “Jamais convidaremos o [presidente do Irã Mahmoud] Ahmadinejad. Nossa fronteira é o compromisso das pessoas com direitos humanos. Você pode ter qualquer viés cultural, mas a defesa da liberdade, da igualdade entre homens e mulheres e o direito à expressão são valores universais”.

Uma das críticas que o evento recebeu foi ter trazido grande número de defensores do ateísmo. No ano passado, enquanto o escritor suíço Alain de Botton falava de seu livro “Religião para Ateus”, ficou claro que algumas pessoas abandonavam a sala com certo ruído, em protesto. Schüler, que não é ateu e vem de uma família de formação luterana, não vê problema nisso. “É um projeto polêmico por definição, é direito das pessoas discordarem, saírem da sala.” Mas a presença, neste ano, da historiadora da religião e ex-freira Karen Armstrong, que encontrou a compaixão como um valor comum a todas as grandes religiões, é sinal de que a crítica foi ouvida.

Pessoalmente, Schüler gosta de se afastar de extremos. É um socialdemocrata, que recusa a démarche esquerda-direita. “Ela envelheceu. Não que não seja legítima e as pessoas não possam recorrer a ela, mas é uma referência que, hoje, cria mais equívocos do que soluções conceituais. É curioso, porque são termos muito difíceis de serem definidos. Como você responderia isto: ‘Quem é mais autoritária: a direita ou a esquerda’? Qual das duas nutre mais preconceitos? Depende, né?”

Nem por isso ele acredita que vivemos um processo de desilusão política. O que temos, diz, é a cultura de dizer que há um descrédito na política. “Veja só: temos uma presidente, que é respeitável, mas que faz um governo médio, muito sujeito a críticas, com mais de 70% de aprovação. Se houvesse desilusão política, como a presidente de um país que tem crescimento econômico pífio poderia ter esse índice de aprovação? No Brasil, as pessoas afirmam seu descrédito na política, mas de fato acreditam na política e nos políticos.”

Já o cansaço que há com relação às formas tradicionais da política, ele vê como um fenômeno global. Como exemplo, se refere ao ex-líder estudantil francês Daniel Cohn-Bendit, de 68 anos, o “Dany Le Rouge” do Maio de 1968, que participou do Fronteiras e com quem conviveu três dias em Porto Alegre. “Quando lhe perguntei o que gostaria de visitar na cidade, ele disse que queria ir ao Instituto Ronaldinho Gaúcho. Até ele, que foi um jovem engajado cansou, quer saber de futebol.”

Na sua visão, as pessoas não irão mais se apaixonar pela política como em algum momento fizeram, nos anos 1980, no Brasil, quando se tratava de fazer uma transição para a democracia e havia comícios com 1 milhão de pessoas pelas Diretas. “Os momentos de êxtase político são passageiros nas sociedades. Ah, o normal da política? As pessoas são inteligentes, têm outra coisa para fazer. Se interessam pela cultura, pela vida privada, pela estética.”

Mario Vargas Llosa no Fronteiras do Pensamento    cultura divulgacao

O escritor Mario Vargas Llosa fará a conferência de abertura no dia 17, em São Paulo; em Porto Alegre, começa em 5 de maio com a especialista em religiões Karen Armstrong
Fato é que Schüler não parece muito convincente quando diz que seu desejo de voltar à política é zero. Ao longo da conversa mostra que essa não é uma certeza: “Olha, a gente nunca sabe o que pode acontecer no futuro…”, diz, rindo. “A minha relação com a política é muito feliz, muito positiva, os quatro anos em que fui secretário de Justiça e Desenvolvimento Social [RGS] foram uma experiência extraordinária. Então, quando você tem uma experiência positiva assim, no fundo, sempre deixa uma porta aberta. Mas não é algo que eu procuro. Não me seduz o poder, a carreira política ou a ideia de disputar votos. Ou de participar de um tipo de debate, que muitas vezes não agrega nada do ponto de vista pessoal.” E arremata com uma frase de efeito: “Li muito Montaigne para me seduzir pelo poder”.

A sua paixão declarada é a gestão pública. Foi gestor público federal, estudou gestão cultural na Universidade de Barcelona. O que lamenta é que o tema da política pública seja muito desvalorizado no Brasil. “Há uma brutal patrimonialização do sistema político sobre a gestão pública. E se confunde muito os interesses públicos com os da máquina pública. Falta a carreira de especialista em política pública.”

Pela experiência que tem como gestor cultural, Schüler acha necessário desburocratizar o sistema de incentivos fiscais. “Nos EUA, o cidadão aporta recursos no Metropolitan Museum, registra a doação e abate de seu imposto a pagar. No Brasil é preciso enviar um projeto para Brasília, que leva meses para ser aprovado. O sistema anglo-saxônico, com fundos de ‘endowments’, fundações privadas com ampla autonomia e sustentabilidade financeira, e pouca interferência estatal, incentiva doações e é superior ao nosso.”

Ainda que se considere um intelectual híbrido, que combina a academia, o ensino e a gestão de projetos, Schüler tem um modus vivendi típico de intelectual. Não gosta de falar da vida privada e o máximo que revela é que mora sozinho. Sua biblioteca com 1.800 livros, a maioria de história, filosofia, arte e literatura, é um item essencial do apartamento. “Não abro mão de ter um escritório grande e silencioso em casa, onde passo a maior parte do tempo. Dizem que a atividade intelectual exige que, em algum momento, você tenha gosto pela solidão.”

Fora os livros, os bons vinhos são um de seus poucos luxos. Consumista? Nem um pouco. “Me identifico muito com o livro do Max Weber, ‘A Ética Protestante’ e o ‘Espírito do Capitalismo’. Não sou um capitalista, mas tenho um estilo de vida quase minimalista. Uso o mesmo sapato até gastar.” O terno é um item essencial de sua indumentária, e Schüler se recusa a despir o paletó quando está sendo fotografado. “Sem paletó vocês vão tirar minha identidade”, brinca, e conta que o terno se tornou um hábito tão vital que o usa mesmo quando não tem reunião alguma. Depois, quase em tom confidencial, mostra o quanto é avesso a modas ao revelar que seu terno está tão surrado que tem alguns furos no tecido.

Por seu trabalho no Fronteiras, Schüler tem colecionado elogios. Até mesmo Adauto Novaes que, nos anos 1980 iniciou ciclos de debate que fizeram sucesso como “O Olhar”, “O Desejo” e vários outros, acha o trabalho de Schüler importante e necessário. Mas permite-se uma sugestão: “Gostaria que o Fronteiras do Pensamento se voltasse um pouco para a questão das mutações, do mundo em transformação. Vivemos uma revolução tecnológica, científica e digital. Estamos um pouco à deriva. Falta quem fale disso, boa parte dos pensadores tendem a lidar com velhos conceitos”.

Candidato escreve receita de miojo na redação do Enem e tira nota 560

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Trecho da redação do Enem em que um candidato ensina como preparar miojo

Trecho da redação do Enem em que um candidato ensina como preparar miojo (Editoria de Artes/Agência O Globo)

Publicado por UOL

Um candidato resolveu descrever como preparar um miojo no meio da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2012, que tinha como tema o movimento imigratório para o Brasil no século 21, e recebeu 560 pontos – a nota máxima é 1.000. A informação é do jornal “O Globo”. Ontem (18), o jornal carioca também informou que redações com nota máxima apresentaram erros como ”trousse”, “enchergar” e “rasoavel”.

O candidato escreveu dois parágrafos sobre o tema proposto e depois dedicou um parágrafo inteiro ao preparo do macarrão instantâneo “Para não ficar muito cansativo, vou agora ensinar a fazer um belo miojo, ferva trezentos ml’s de água em uma panela, quando estiver fervendo, coloque o miojo, espere cozinhar por três minutos, retire o miojo do fogão, misture bem e sirva”.

Após passar a receita, o estudante voltou a escrever sobre a imigração. Segundo o jornal, o candidato recebeu 120 pontos (de um total de 200) na competência 2 da correção, que avalia a compreensão da proposta da redação e a aplicação de conhecimentos para o desenvolvimento do tema. Já na competência 3, que avalia a coerência dos argumentos, o candidato recebeu metade dos pontos possíveis — 100 de 200.

Em nota enviada ao jornal “O Globo”, o MEC afirmou que “a presença de uma receita no texto do participante foi detectada pelos corretores e considerada inoportuna e inadequada, provocando forte penalização especialmente nas competências 3 e 4″. O órgão disse entender que o aluno não fugiu do tema nem teve a intenção de anular a redação, pois não feriu os direitos humanos e não usou palavras ofensivas.

Candidato não podia recorrer da nota
Os candidatos que fizeram o Enem 2012 puderam acessar a correção de suas redações no início de fevereiro. O aluno devia informar o CPF ou o número de inscrição e a senha no site do Enem. As correções têm apenas finalidade pedagógica, ou seja, não são passíveis de recurso.

O boletim de correção traz as notas por competência e dá direito à vista da redação.

Ao todo, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), foram corrigidas 4.113.558 redações, das quais 1,82% estavam em branco e 1,76% obtiveram nota zero.

No início do ano, estudantes de todas as regiões do país recorreram à Justiça para conseguir acesso à correção antes do período de inscrição do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), pelo qual instituições públicas de educação superior oferecem vagas a candidatos participantes do Enem.

No entanto, os tribunais regionais federais das diferentes regiões suspenderam as liminares que determinavam a vista antecipada dos espelhos de correção, entendendo que o edital do Enem prevê apenas a vista pedagógica e que leva em conta rigorosamente o previsto no termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado pelo Ministério da Educação com o Ministério Público Federal.

Muitos estudantes sentiram-se injustiçados. Thais Bastos obteve a nota 400 na redação do Enem. “No ano passado, tirei 700. Neste ano, estudei muito mais, não posso ter ficado com essa nota”, disse. Além disso, ela comparou o que escreveu com redações disponíveis em revistas e manuais, “As redações que receberiam a nota que eu tirei continham erros de português e um vocabulário infantil”. Ela também levou o caso à Justiça e chegou a ganhar o direito da vista antecipada, até que o ministério recorreu e venceu.

Estudantes de colégio municipal carioca onde livros foram jogados da janela não têm kit escolar

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Fachada da Escola Municipal Renato Leite, na Taquara Foto: Thayná Rodrigues

Fachada da Escola Municipal Renato Leite, na Taquara Foto: Thayná Rodrigues

Luã Marinatto e Fernanda Pizzotti, no Extra

Os livros atirados pela janela da Escola Municipal Renato Leite, numa cena que gerou revolta nas redes sociais e deu início a uma sindicância interna da Secretaria de Educação, estão longe de ser o único problema enfrentado pelos alunos da colégio da Taquara, na Zona Oeste. Os estudantes ainda não receberam da prefeitura os uniformes nem o kit escolar, que inclui mochila, cadernos e lápis, entre outros itens.
Até agora, o único material entregue é uma apostila multidisciplinar de uso bimestral, chamada pela Secretaria de Educação de caderno pedagógico e elaborada por educadores da rede.

De acordo com o órgão, os livros didáticos do Ministério da Educação (MEC) estão disponíveis na escola, mas utilizá-los ou não fica a critério de cada professor.

- Eles só receberam as apostilas até agora. Não veio livro nenhum – protesta, mesmo assim, a dona de casa Joelza Oliveira, mãe de três alunas, do 3º, do 6º e do 8º anos do Ensino Fundamental.

Uma estudante do 7º ano faz crítica semelhante:

- Eles nem usam os livros. Na maioria das vezes, a gente tem que copiar a matéria inteira do quadro e fazer os exercícios da apostila.

Apesar das queixas, a secretaria não deu prazo para solucionar a falta de kit e uniforme. Por nota, o órgão afirma que o material está “em processo de entrega para todas as escolas da rede” e que a unidade da Taquara “também trabalha com a Educopédia, plataforma de aulas digitais online”.

As apostilas pedagógicas recebidas pelos alunos Foto: Thayná Rodrigues

As apostilas pedagógicas recebidas pelos alunos Foto: Thayná Rodrigues

Pais e adolescentes criticam descarte

Os internautas não foram os únicos que se revoltaram com o vídeo que mostra livros sendo jogados do quarto andar da Escola Renato Leite. Na porta da unidade, estudantes e responsáveis também criticaram a cena.

- É um absurdo! Tinha que dar um jeito de reaproveitá-los – reclamou uma aluna do 9° ano, que viu o flagrante no Facebook.

- Qualquer material didático jogado assim é desperdício. Eles deveriam ter um destino para livros antigos. Tem tanta criança precisando de livro por aí – opinou a mãe de dois alunos, um de 9 e outro de 11 anos.

Estudantes contaram ainda que uma funcionária da escola passou de sala em sala orientando os alunos a não falarem com a imprensa. A mesma pessoa teria dito que os livros eram de 15 anos atrás e seriam doados. O diretor Vitor Hugo Almeida, que assumiu o cargo há dois meses, chegou a dizer, em mensagens que foram apagadas da internet, que o destino do material seria a reciclagem. Confira o vídeo do descarte.

A íntegra da nota da Secretaria Municipal de Educação

“A Secretaria Municipal de Educação esclarece que não há falta de material didático na Escola Municipal Renato Leite. Assim como toda a rede municipal, a unidade escolar conta com os livros do MEC e os cadernos pedagógicos, preparados por professores da rede. A escola também trabalha com a Educopédia, plataforma de aulas digitais online de cada disciplina, com material de suporte aos professores, planos de aula, jogos pedagógicos e vídeos, entre outras ferramentas. A Secretaria esclarece ainda que os kits escolares, compostos de caderno, mochila, entre outros itens, estão em processo de entrega para todas as escolas da rede municipal. Eventualmente esta escola, pelo que pudemos verificar, ainda não recebeu as mochilas dos alunos.”

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