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Para entender Caio Fernando Abreu: confira livros, filmes e peças sobre o poeta gaúcho

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Obras de outros autores ajudam a entender a figura de um dos escritores mais populares do Brasil até hoje, data em que completaria 70 anos

Publicado na Gaúcha ZH

Extensa e muito rica, a obra de Caio Fernando Abreu, que completaria 70 anos nesta quarta-feira (12), reúne um vasto número de contos, romances, novelas e peças, que versam sobre temas tão diversos como sexo, relações amorosas, política, psicologia, movimentos contraculturais e a própria trivialidade da rotina. Porém, o tamanho do autor nascido em Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, faz com que haja muito mais sobre Caio Fernando Abreu do que compõe seus livros.

A vida e a obra do autor gaúcho, um dos mais populares do Brasil até hoje, rende uma produção contínua e crescente de peças, discos, filmes, documentários, biografias, espetáculos, fotografias e livros que se relacionam à sua figura. Com a ajuda de quem estuda e consome Caio Fernando Abreu, reunimos uma série de obras que ajudam a entender o autor além de sua produção.

Literatura

O livro mais relevante sobre Caio Fernando Abreu é Para sempre teu, Caio F., lançado em 2009 por Paula Dip, escritora e amiga pessoal de Caio – na obra, a autora reúne cartas, bilhetes e particularidades que dividiu com o escritor, além de depoimentos de pessoas importantes na vida de Caio, como Cazuza, Ney Matogrosso, entre outros. Há ainda Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável, lançada no ano anterior por Jeanne Callegari, que usa técnicas de reportagem para cobrir a vida do escritor até sua morte.

Outra obra importante para conhecer mais sobre a personalidade do escritor gaúcho foi lançada em 2016, também por Paula Dip: Numa hora assim escura, a paixão literária de Caio F. e Hilda Hilst reúne correspondências inéditas trocadas entre a poeta paulista – uma das grandes influências literárias de Caio – e o autor gaúcho entre 1971 e 1991.

Há obras, no entanto, que revelam outras facetas de Caio: 360 Graus – Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu, lançado em 2011 pela astróloga Amanda Costa, traça um paralelo entre o campo astrológico e as tramas do autor, um apaixonado pelo misticismo. Já em Caio Fernando Abreu e o Cinema: O Eterno Inquilino da Sala Escura, o cineasta gaúcho Fabiano de Souza traça as relações entre o escritor e a sétima arte, área que também era de sua adoração.

– Nas aulas de literatura que dava, Caio sempre sugeria que seus alunos imaginassem como queriam que as cenas que estavam escrevendo fossem filmadas: em qual enquadramento, com qual movimento, sob que ponto de vista. Apesar de nunca ter feito filmes, ele achava que a imagem da câmera sobre os personagens ajudava a montar uma cena – conta a escritora Paula Dip.

Cinema

O cinema era não só uma paixão de Caio, mas uma influência. Não à toa, muitas de suas obras geraram produções audiovisuais. Em 2016, um evento intitulado Semana Caio Mon Amour, com curadoria de Paula Dip, reuniu uma série de obras relacionadas ao escritor – entre os filmes, uma série de curtas foram exibidos: Dama da Noite (1999), de Mario Diamante; Pela Passagem de Uma Grande Dor (2006), de Bruno Polidoro; Linda, Uma História Horrível (2013), de Bruno Gularte Barreto e Bruno Polidoro; Para Sempre Teu, Caio F. (2014), de Candé Salles e Onde Andará Dulce Veiga (2008), de Guilherme de Almeida Prado.

Outro curta baseado em obra de Caio bastante respeitado é A Visita, com direção de Gilberto Perin, que foi exibido como atração do programa Curtas Gaúchos, da RBS TV.

Mas uma das obras cinematográficas mais relevantes relacionadas a Caio Fernando Abreu, no entanto, é Sobre Sete Ondas Espumantes (2013), documentário de Bruno Polidoro que usa trechos de obras e depoimentos de pessoas relacionadas ao escritor para mostrar lugares que fizeram parte de sua produção literária.


Teatro

Para comemorar os 70 anos de nascimento do autor, uma das peças mais conhecidas entre as baseadas na obra de Caio terá montagem no prédio 40 da PUCRS: Caio do Céu, montagem da Cia. de Solos & Bem Acompanhados, estrelada por Deborah Finocchiaro, parte de textos, cartas e entrevistas do autor para reconstruir dramaticamente o seu universo criativo.

Há outras peças, baseadas ou inspiradas em textos do autor, que se tornaram referência entre os fãs do gaúcho de Santiago: a performance Dama da Noite, de Gilberto Gawronski; o espetáculo de dança Graxa, com Diogo Granato e Henrique Lima; e a peça O Homem e a Mancha: Releitura Drama Multimídia, de Marcos Breda e Luis Artur Nunes, foram exemplos recentes de homenagens a Caio Fernando Abreu que ganharam montagens.


Música

Não é raro encontrar referências a músicas, discos e cantores (normalmente, cantoras) nos textos de Caio Fernando Abreu. Adorador da MPB, citou Angela Rô-Rô como trilha sonora obrigatória para o conto Os Sobreviventes, por exemplo. Com base em trechos de suas obras e em passagens de cartas ou de biografias, o fã Elder Ferreira criou uma playlist de músicas relacionadas a Caio Fernando Abreu, com direito a Cazuza, Marina, Cida Moreira e Caetano Veloso.

Obras de Marcel Proust, autor de ‘Em busca do tempo perdido’, serão digitalizadas

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Mais de seis mil cartas escritas ou recebidas pelo escritor francês Marcel Proust serão disponibilizadas on-line gratuitamente

Publicado no UAI

(foto: Acervo)

(foto: Acervo)

Digitalizar e disponibilizar on-line, gratuitamente, cerca de 6 mil cartas escritas ou recebidas pelo escritor francês Marcel Proust. O projeto, previsto para 2018, é das universidades de Illinois, nos Estados Unidos, e de Grenoble, na França.

A relação entre o autor de Em busca do tempo perdido e a instituição norte-americana se dá por meio do professor Philip Kolb. Graças a ele, está publicada toda a correspondência conhecida e acessível de Proust – cerca de 5,3 mil cartas, divididas em 21 volumes. Outras centenas já foram identificadas.

O volume das correspondências do autor francês é gigantesco. Soma 20 mil documentos, de acordo com Philip Kolb. Porém, a maioria foi destruída ou extraviada. A Universidade de Illinois já comprou 1,2 mil cartas e continuará adquirindo o material enquanto o orçamento permitir, informam o professor François Proulx e a bibliotecária Caroline Szylowicz, responsável pela coleção.

Cartas e documentos de Proust, considerado o escritor francês mais importante do século 20, são regularmente leiloados em pregões que chegam a arrecadar dezenas de milhares de euros.

Nas próximas semanas, a Universidade de Illinois iniciará a digitalização do acervo em parceria com a França, por meio da Universidade de Grenoble, do Instituto de Textos e Manuscritos Modernos e da Biblioteca Nacional.

O projeto começará pelas 200 cartas relacionadas à Primeira Guerra Mundial, cuja disponibilização on-line está prevista para novembro de 2018.

“Não estávamos muito convencidos de que as cartas da juventude fossem as mais interessantes para iniciar o programa”, diz Caroline Szylowicz, referindo-se à primeira fase do projeto. Devido à saúde frágil, Marcel Proust não lutou na guerra, diferentemente de seu irmão mais novo, Robert. Do front, o caçula trocava cartas com o escritor.

O professor François Proulx explica que as cartas que serão disponibilizadas on-line virão acompanhadas de indicações. “Isso permite decifrar a escrita de Marcel Proust, que nem sempre é fácil de ler”, observa. O site também disponibilizará links para artigos da imprensa aos quais as missivas fazem referência. (AFP)

13 curiosidades sobre a literatura brasileira que você talvez não saiba

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Estátua de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro (Foto: Okitron/Wikimedia Commons)

Estátua de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro (Foto: Okitron/Wikimedia Commons)

Giuliana Viggiano, na Galileu

literatura brasileira é muito apreciada ao redor do mundo, mas o que pouca gente sabe é que existe uma porção de fatos bizarros que permeiam as histórias dos livros e de seus escritores.

A GALILEU listou, com ajuda do autor de História Bizarra da Literatura Brasileira (Editora Planeta, R$ 30), Marcel Verrumo, os fatos mais curiosos — e engraçados — que todo fã de livros vai gostar de saber.

Pero Vaz de Caminha queria trocar sua carta por um favor do rei
A grande carta do “descobrimento” do Brasil não era para ter sido escrita por Pero Vaz de Caminha. Na realidade, o escrivão oficial da frota era Gonçalo Gil Barbosa — que acabou não chegando ao Brasil. Com isso, Caminha escreveu detalhadamente a carta, que foi selecionada por Pedro Álvares Cabral e enviada ao então rei de Portugal, Dom Manuel.

Ao final do documento, havia um pedido para que o genro do escrivão, Jorge de Osório, fosse libertado do exílio por ter roubado uma igreja e ferido um sacerdote. A priori, D. Manoel negou, mas após a morte de Caminha, o governante acabou libertando Osório.
Fac-símile da carta original de Pero Vaz de Caminha (Foto: Wikimedia Commons)Fac-símile da carta original de Pero Vaz de Caminha (Foto: Wikimedia Commons)

Ninguém sabe direito se Gregório de Matos realmente existiu
A data de nascimento do poeta, também conhecido como Boca do Inferno, permanece desconhecida: especialistas a situam entre 1623 e 1636 — data nada precisa. Outro fato é que a biografia do autor tem muitas lacunas, o que gera questionamentos sobre a real existência de Gregório de Matos.

Como se não bastasse, não se sabe o que realmente foi escrito pelo poeta (se é que ele existiu). Isso porque publicações ainda não eram permitidas na Colônia naquela época, logo, seus textos eram transmitidos oralmente. Ninguém sabe se o que restou e foi registrado foi de fato do Boca de Inferno ou de outros autores satíricos e infames da época.

O termo “brochar” veio dos livros de brochura
Os livros eróticos eram impressos em formato brochura, aquele mais mole. Quando lia um desses livros, um sujeito olhou para a encadernação — e talvez para o próprio órgão — e associou o livro mole ao pênis flácido. “Da associação, surgiram a expressão ‘pênis brochado’, ‘homem brocha’ e o verbo ‘brochar’”, conta Marcel Verrumo.

Gonçalves Dias foi a única vítima do naufrágio da embarcação que o trazia de volta ao Brasil
O poeta romântico se via muito doente quando resolveu viajar para a Europa em uma tentativa de se recuperar. Ao chegar na costa da França, foi dada a notícia de que havia um homem morto a bordo e que essa pessoa seria Gonçalves Dias. Foi declarado luto oficial no Brasil e os fãs do autor ficaram muito tristes — até que a verdade foi revelada: ele não estava morto!

Após passar cerca de dois anos em solo europeu, mas não conseguir se curar, o poeta resolveu retornar. Gonçalves Dias passou a maior parte do tempo isolado na viagem, pois estava muito fraco para perambular pela embarcação. O problema é que, quando o navio já estava próximo à costa do Maranhão, um banco de areia surgiu e o barco colidiu. Desesperada para se salvar, a tripulação fugiu afobada e esqueceu Gonçalves Dias, que morreu afogado.

A primeira publicação de uma mulher no Brasil foi só no século 19
Nísia Floresta foi a primeira mulher a ingressar na imprensa brasileira e a ter o nome assinando um livro no Brasil. A autora nasceu no Rio Grande do Norte e já aos 14 anos mostrou a que veio: fugiu da casa do marido e pediu abrigo para os pais, que tiveram que se mudar para Pernambuco.

As obras de Floresta falavam sobre o machismo na sociedade, mas não só isso. Ela também escreveu livros sobre índios e negros de forma empática e humanista, mostrando-os não como heróis, mas como vítimas da exploração colonial. Hoje Nísia Floresta está esquecida, mas teve papel crucial na história como uma das primeiras feministas do país.


Para José de Alencar, a escravidão contribuía para o progresso humano

O consagrado autor brasileiro defendeu a escravidão em uma série de cartas enviadas para o Imperador Dom Pedro 2º. Para ele, o sistema escravocrata ajudava no progresso humano e seu fim culminaria em uma grande crise econômica.

Os documentos históricos, entretanto, foram deixados de lado e acabaram caindo no ostracismo. Outra curiosidade é que as cartas tinham um tom um pouco arrogante, pois José de Alencar acreditava saber mais sobre política economia que o próprio rei.

Olavo Bilac se envolveu no primeiro acidente de carro do Brasil
O poeta parnasiano Olavo Bilac deu um “rolê” no carro de José Patrocínio, jornalista da época que havia comprado um automóvel assim que eles começaram a chegar no país. O problema é que Patrocínio convidou o poeta para dirigir o carro — coisa que obviamente ele não sabia fazer, já que não haviam carros no Brasil.

No meio do passeio, Bilac fez uma curva em “alta” velocidade, 4 km/h, e bateu em uma árvore. Os dois homens saíram ilesos, mas o carro teve perda total.

O assassino de Euclides da Cunha matou também o filho do autor
Ao descobrir que estava sendo traído, Euclides da Cunha saiu de casa determinado a “matar ou morrer”. Encontrou o amante da esposa, Anna, em casa e ambos trocaram tiros: Euclides foi o primeiro a acertar, mas foi Dilermando, o “outro”, que deu o tiro certeiro e matou o autor de Os Sertões.

Anos depois, Euclides da Cunha Filho atentou novamente contra Dilermando que, não querendo matar o filho da amada, tentou fugir, mas como sua vida estava em jogo atirou e matou o filho de Euclides da Cunha. Depois disso, o homem foi julgado — não só pelo júri, mas pela sociedade brasileira —, mas foi absolvido.

Graciliano Ramos foi prefeito e multou o próprio pai
Graciliano Ramos viveu na cidade alagoana de Palmeira dos Índios e foi diretor de uma das escolas da cidade. Após conquistar muita popularidade na região, foi convidado a se candidatar à prefeitura da cidade.

O engraçado é que o autor foi eleito e era muito rígido: criou um código de postura moral com 82 artigos, dentre eles a proibição de dormir ou criar animais na rua. O pai do escritor de Vidas Secas, Sebastião Ramos, na época criava gado em um terreno baldio e acabou sendo multado pela prefeitura.

Guimarães Rosa ajudou a esposa a salvar judeus do Holocausto

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa conheceu Guimarães Rosa na embaixada brasileira em Hamburgo, enquanto ambos trabalhavam lá no fim da década de 1930. Com a ajuda do marido, Aracy bolou um plano para transportar judeus que viviam na Europa nazista para o Brasil — mesmo com o então presidente Getúlio Vargas decretando a ilegalidade do ato.

Guimarães Rosa falsificava passaportes, enquanto a esposa dava um jeito de fazer o chefe assinar a papelada sem perceber que estava libertando parte da população judia. Aracy chegou a salvar quase cem pessoas e, em 1982, teve seu nome gravado no Museu do Holocausto, em Israel.

Carlos Drummond de Andrade achava que a homossexualidade era um desvio
O grande poeta brasileiro declarou mais de uma vez que acreditava que o “homossexualismo” (termo errado, já que o sufixo “ismo” denota doença) era um desvio da sociedade. Para ele, ser gay era coisa de garotos que eram atraídos pela vida noturna e boêmia.

Além disso, Drummond afirmou em entrevista que tinha certa repugnância à homossexualidade, e é até por isso que o tema aparece em apenas um de seus poemas, Rapto, do livro Claro Enigma. O que consola é que ao fim do texto o autor diz que essa é “outra forma de amar no acerbo amor”.

Paulo Coelho e Raul Seixas eram amigos e produziram um álbum juntos
Quando jovem, Paulo Coelho despertou a curiosidade de Raul Seixas que, até então, não era famoso. Se tornaram amigos após o cantor ler um artigo de Coelho sobre ufologia na revista A Pomba e ficar curioso para conhecer o autor do texto. Tempos depois, os dois fizeram um álbum juntos, que foi batizado de Krig-ha, Bandolo!. Raul cantava e Paulo havia escrito algumas canções e feito ilustrações.

O problema se deu em maio de 1974, quando ambos foram presos pela ditadura para “explicarem melhor” do que se tratava o disco. O cantor foi rapidamente liberado, mas o escritor teve de ficar mais tempo contando sobre o processo de criação do álbum, quando relatou que sua namorada, Adalgisa, havia participado da produção dos desenhos.

Após horas de interrogatório, o casal foi liberado, mas logo preso de novo e torturado. Não se sabe ao certo o que ocorreu com Adalgisa e Paulo, mas a situação foi tão conturbada e estressante que os namorados acabaram rompendo depois da prisão.

Rachel de Queiroz apoiou a Ditadura Militar
A jovem Rachel de Queiroz flertava com a esquerda e até se aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante a década de 1930. Entretanto, quando teve seu livro O quinze criticado pelo partido desiludiu-se e afastou-se da esquerda, o que a fez simpatizar mais com a direita da época.

No início da ditadura, Rachel cedeu sua casa para políticos e intelectuais planejarem o golpe militar. Ela participou pintando folhetos e até se filiando à Aliança Renovadora Nacional (Arena).
Rachel de Queiroz entre os escritores Adonias Filho e Gilberto Freyre (Foto: Wikimedia Commons)Rachel de Queiroz entre os escritores Adonias Filho e Gilberto Freyre (Foto: Wikimedia Commons)

Em 1991, quando participou do programa da TV Cultura Roda Viva, Caio Fernando de Abreu questionou o posicionamento da escritora, ao que ela replicou: “Gostaria de responder a você que nós estamos em um país democrático, eu respeito as suas posições e espero que você respeite as minhas”.

(com informações de História Bizarra da Literatura Brasileira, de Marcel Verrumo)

O homem que escreve cartas de amor

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Durante a FLIM (Festa Literomusical) no Vicentina Aranha, em São José dos Campos Divulgação

Durante a FLIM (Festa Literomusical) no Vicentina Aranha, em São José dos Campos
Divulgação

 

O escritor e poeta Rafael Sarzi compartilha experiências com o público

Andre Fressante, no Meon

Na última reportagem da série “Ano bom que se vai, ótimo ano que virá”, nada mais justo do que finalizar com a palavra de ordem para 2017 – amor. Quando você usa o dom das palavras para beneficiar alguém e se preocupa em compartilhar boas experiências, o sucesso bate à sua porta.

Há quem diga que cartas escritas à mão estão fora de moda. Ainda mais agora, num tempo em que e-mail e aplicativos de mensagens instantâneas são as maiores ferramentas de comunicação. Hoje, muito raras, são relíquias encontradas apenas em velhas caixas de recordação em algum lugar perdido dentro de casa.

O fato é que usar a caneta no papel para se comunicar – por mais que pareça antiquado – é uma das formas mais bonitas de se dizer que se ama. E é exatamente buscando este impacto positivo que o escritor e poeta Rafael Sarzi, de 25 anos, tem espalhado suas palavras generosas por aí.

O interesse em escrever surgiu na adolescência, quando tinha doze anos de idade. Durante sua primeira paixão ele não entendia muito bem o que se passava e o que significava este sentimento. “Fazia alguma reflexões para não me sentir perdido e comecei a escrever. E desde então levei a escrita como uma forma de terapia para momentos tristes, e de eternizar os momentos bons”, conta o escritor.

O projeto “Escrevo cartas de amor e ex-amor” nasceu em setembro deste ano após um convite para participar da FLIM (Festa Literomusical), no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Na intervenção poética, Rafael Sarzi escreve, à mão, cartas para o público.

“Os organizadores da FLIM quiseram levar uma intervenção poética de alguém que pudesse escrever cartas em tempo real para o público da feira e queria que fosse algum escritor da região. De uma forma um pouco insegura, eu aceitei o projeto, e para a surpresa minha e de todos, tivemos um resultado incrível, com muitas cartas e histórias belíssimas”, comemora ao lembrar do sucesso da Feira.

A inspiração para transformar versos em algo tão intenso se deve ao poder de fazer as pessoas se sentirem bem. “Isso me faz querer escrever sempre e tentar falar do amor numa forma simples, mas com toda a intensidade e complexidade que ele carrega. São esses pequenos detalhes que gosto de enfatizar nas minhas poesias para falar e levar o amor”.

Uma lista grande e poderosa com nomes importantes da música e literatura brasileira como Vinícius de Moraes, Oswaldo Montenegro, Mário Quintana, Carlos Drumond de Andrade e Fernando Pessoa são responsáveis pela criatividade e paixão que dá ao Rafael credibilidade de explanar sobre formas de amar.

Por que você deveria escrever cartas de amor e não deixar o romantismo morrer? “As pessoas têm medo de se machucar e com isso ficam receosas para se entregar, mas se alguém desperta um sentimento que te faz sorrir sozinho, vale a pena acreditar, pois o amor é raro, e mais raro quem se entrega a ele”.

Apenas algumas horas para iniciar o ano de 2017, os próximos passos do escritor poeta são lançar dois livros, que já devem estar nas prateleiras das livrarias no primeiro trimestre. Outra novidade é que a intervenção poética será levada para outras cidades do Vale do Paraíba e em eventos em regiões do Brasil.

E não podemos finalizar sem um recado de quem entende realmente sobre amor. “Que tragam esse sentimento no cotidiano, que as pessoas se acostumem a amar de forma simples e verdadeira. Que saibam e quebrem a barreira para falar de amor. Que não precisa ser mestre, artista, ator, ou qualquer outra coisa para saber dizer um “eu te amo” olhando nos olhos do outro”. Amar vai mais além. “Eu te amo pode ser dito de muitas maneiras. Preparando um café, dormindo abraçado, dando um bom dia sorrindo, deixando um bilhetinho, escrevendo uma carta ou aquele olhar intenso quando as palavras se calam, mas que sempre estejam com o coração aberto para demonstrar e enxergar o “eu te amo”, ou melhor, o amor”, finaliza Rafael.

Com cartas inéditas, livro retrata relação entre Caio F. e Hilda Hilst

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Amizade turbulenta dos dois escritores é tema do livro ‘Numa hora assim escura’, de Paula Dip

Bolívar Torres, em O Globo

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 - Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

Caio F. em frente à Casa do Sol, residência de Hilda Hilst, onde ele passou diversas temporadas entre 1969 e 1971 – Autor desconhecido / Acervo pessoal Paula Dip

RIO — O ano é 1992. Depois de mais uma briga com Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst juntou as cartas que havia recebido do amigo desde o final da década de 1960, decidida a destruí-las. Como para oficializar o rompimento, ignorou o valor histórico e afetivo da correspondência, e só não a queimou porque seu namorado na época, o jovem poeta Antônio Nahud Júnior, resolveu intervir.

“Quer para você? São suas. Leve-as daqui rápido antes que eu me arrependa”, disse a escritora. Nahud guardou as cartas e, em 2010, seis anos após a morte de Hilda e 14 após a de Caio, vendeu-as para a jornalista Paula Dip.

A autora, que em 2009 retratou a sua própria amizade e correspondência com o escritor gaúcho no livro “Para sempre teu, Caio F.” (Record), emocionou-se ao ler o material inédito. As missivas mais antigas mostravam um Caio diferente daquele que ela conhecera, já consagrado e com uma obra construída. O escritor que trocava suas primeiras cartas com Hilda era, ao contrário, um jovem saído da adolescência, inseguro sobre o seu futuro e sua arte. Além de uma fonte preciosa sobre sua formação, contudo, também havia ali a história de amizade de dois autores importantes da literatura brasileira, que Paula transformou no coração de seu recém-lançado “Numa hora assim escura — A paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst” (José Olympio).

No livro, a jornalista contextualiza a relação tumultuada e apresenta, pela primeira vez, o conteúdo salvo por Nahud Júnior.

— Comprei as cartas de Nahud num impulso, e quando eu as li minha primeira ideia foi fazer um mestrado em cima delas — conta Paula, que conheceu Caio em 1981 e foi sua amiga até a morte dele, em 1996. — Mas depois percebi que, mais interessante do que levá-las para a academia era tomá-las como base de um novo livro sobre o Caio, em cima da relação com a Hilda.

A importância de Hilda na vida de Caio é notória. O escritor começou a se corresponder com a poeta aos 19 anos de idade, ainda em Porto Alegre. Entre 1969 e 1971, passou uma série de temporadas na Casa do Sol, chácara em Campinas (SP) para onde Hilda havia se mudado em busca de isolamento e inspiração. A residência era um oásis de liberdade em meio ao clima político da época. Os convidados de Hilda (incluindo jovens aprendizes como Caio) eram estimulados a trabalhar sua escrita, e falava-se de amor, de magia, de discos voadores e, claro, literatura.

Para um rapaz tímido, que não se encaixava nos círculos sociais tradicionais, o contato com a efervescência criativa — e permissiva — da Casa do Sol e com uma autora consagrada e tão certa de seus caminhos foi um turning point. Mas o que as cartas revelam de novo, segundo Paula, é uma influência mútua. De certa forma, Caio, que foi o primeiro dos muitos pupilos que a escritora “hospedaria” em seus quase 40 anos na chácara, também teria inspirado Hilda.

— Claro que houve uma influência forte da Hilda na forma de o Caio trabalhar. Mas acho que ele também foi um dos responsáveis por uma guinada na vida dela — opina Paula. — O encontro foi benéfico para os dois. No início dos anos 1970, Caio ainda estava circulando ali pela Casa do Sol, e a Hilda, depois de ser muito premiada com poesia, publica seu primeiro livro em prosa, “Fluxo-Floema”. Caio pode tê-la ajudado a se libertar da estrofe.

O autor de “Morangos Mofados” vê em Hilda uma referência de artista comprometida com sua arte. Ela havia abandonado uma vida no high society e namoros com estrelas de Hollywood, como Dean Martin, para se dedicar mais profundamente à escrita, que não via como entretenimento ou distração, mas como uma experiência visceral. Ela seguia toda uma ética da criação, que norteou a carreira de Caio. A sua aproximação de Hilda o fez se afastar espiritualmente de sua primeira musa, Clarice Lispector. Não por acaso ele faz, em uma carta de 1978, duras críticas a um livro póstumo da autora (leia trecho abaixo).

Para além da relação mestre-discípulo, porém, há uma ligação marcada pelo aprendizado conjunto. Como observa Paula, ambos tinham uma tendência natural para as “escuras regiões transcendentes da alma”, eram “almas gêmeas em relação aos mistérios insondáveis da existência”. Hilda cultivava a aura de “feiticeira que captava a essência das pessoas”. Já Caio vestiu sem medo a manta de xamã e se jogou nas experiências místicas da Casa do Sol, que envolviam alienígenas e forças misteriosas. Como não poderia deixar de ser, a correspondência é marcada por frases como “uma ótima revolução solar”, “tenho me voltado cada vez mais para o oculto”, “os céus andam cheios de discos voadores e os crepúsculos têm durado duas horas” ou “estou procurando a simplicidade e, ao mesmo tempo, o mito e a magia”.

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 - Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Bilhere de Caio para Hilda, de 1975 – Divulgação / Acervo Pessoal Paula Dip

Em sua busca espiritual e esotérica, Hilda inventava apelidos excêntricos para Deus — Cara Mínima, Sumidouro, Menino Precioso, Flamejante Sorvete de Cereja. Ambos também tinham uma maneira peculiar de descrever a literatura. Em uma entrevista que fez com Hilda em 1987 para a revista “Leia livros”, Caio pergunta: “E a sua literatura, é a escuridão ou o sorvete?”. Ela responde: “É o centro, a procura do centro”.

— Eles eram curiosos da morte, da alma, não escreviam livros de viagem ou de culinária, escreviam o “de dentro”, e faziam isso para sobreviver — afirma Paula. — Eles se encontram muito nisso, inclusive nesse misticismo. Me disseram que, numa noite na Casa do Sol, Caio encarnou o espírito de Frederico García Lorca e ele e Hilda fizeram uma performance. Os céticos achavam que eles eram loucos.

Para o crítico Ítalo Moriconi, que acaba de relançar em e-book “Cartas: Caio Fernando Abreu” (e-galáxia), organizado por ele em 2002, essa correspondência inédita amplia o conhecimento que se tinha da ligação entre Caio e Hilda.

— Acredito que a publicação em larga escala desse conjunto de cartas favorece a transição do olhar contemporâneo do cronista para o olhar mais construtivo do historiador — diz ele. — Favorece uma renovação do olhar crítico da literatura brasileira pós anos 1960 e pré gerações 2000 e 2010 do século corrente. As cartas do Caio para a Hilda certamente constituem um instigante “caso” de história da vida literária. O mais fascinante delas são as discussões e impressões sobre literatura. Mas a relação entre os dois tinha dimensões pessoais muito fortes. O pessoal e o formativo se confundem. Na verdade, o “romance de formação” de Caio teve muito a ver com essa segunda mãe musa transgressiva, permissiva e bela. Nas cartas, recuperamos um pouco da presença selvagem da literatura de Hilda no nosso cânone dos anos 70/80.

A correspondência incluída no livro vai até o ano de 1990, e cobre a evolução de uma amizade oscilante, temperada por brigas e reconciliações. Praticamente apenas Caio escreve para Hilda (há só um bilhete e uma carta da autora no livro), e muitas vezes se queixa do silêncio da interlocutora. Mas ele era um “epistolista”, lembra Paula, contando que enviava até cinco cartas por dia a pessoas diferentes, mesmo sabendo que poderia não receber resposta. Em tom confessional, as missivas eram repletas de amor à vida, mas também de lamentos em voz alta, nos quais ele chorava suas dificuldades emocionais, profissionais e financeiras.

Após a discussão que quase resultou na destruição das cartas, os dois retomaram a amizade e passaram a se falar quase todos os dias, por telefone, até os últimos dias de vida Caio, que morreu precocemente aos 45. Hilda, que garantia captar as vozes dos mortos via ondas de rádio, contou em uma entrevista que o amigo veio visitá-lo logo após sua passagem: “A gente tinha combinado isso. Ele estava com um cachecol vermelho. Era a nossa senha: o vermelho ia significar que estava tudo bem. Eu abracei Caio muito e disse: ‘Nossa, como você está bonito! Está jovem! Mas ninguém acredita.”

TRECHOS

Em carta a Caio em 23 de setembro de 1977, Hilda fala sobre a relação com os jornalistas e críticos:

“Penso que isso de escrever provoca sempre no outro um desejo de, vontade de parecença, de posse, e em vez de acarinharem a gente, dizerem isto, o que seria muito bom para a gente porque é sempre gostoso o carinho o desejo o gosto, pois bem, ficam dando chifradas e ironizando”

Em carta enviada a Hilda em 18 de dezembro de 1978, Caio critica obra de Clarice Lispector:

“No mais, tô lendo o livro póstumo de Clarice, ‘Pulsações’, e achando muito chato, repetitivo, aquela coisa de ‘Escrevo em estertor. Escrever me é. A luz se me entra. Cada palavra é o avesso de nenhuma’ – entende? Ai, meu saco. Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”.

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