Vitrali Moema

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Nos arquivos de Susan Sontag

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Biógrafo de Clarice Lispector relata visita aos arquivos da escritora Susan Sontag (1933-2004), conservados na Universidade da Califórnia. A partir da experiência, reflete não só sobre os “restos literários” de sua próxima biografada mas também sobre as peculiaridades do trabalho de pesquisador na era digital.

Benjamin Moser, na Folha de S.Paulo

Tradução de Clara Allain

Ao longo da vida, Susan Sontag encheu seus diários com listas de palavras (“tegumento”, “fedora de aba caída”, “mingau”, “mofa”) que encontrava em suas leituras e viagens. Essas listas e os diários que as contêm podem ser consultadas, em grande medida, do mesmo modo como pesquisadores sempre consultaram arquivos literários: indo à biblioteca onde estejam -no caso, o Departamento de Coleções Especiais da Biblioteca de Pesquisas Charles E. Young, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)-, preenchendo alguns formulários e aguardando enquanto o encarregado busca o desiderato nas estantes.

Uma expressão brasileira faz logo sentido para qualquer um que já tenha pesquisado uma coleção tão vasta quanto a de Sontag: “arquivos implacáveis”.

A escritora Susan Sontag na França, em 1972/ Jean-Régis Roustan - 3.nov.1972/Roger-Viollet

A escritora Susan Sontag na França, em 1972/ Jean-Régis Roustan – 3.nov.1972/Roger-Viollet

Quando cheguei a Los Angeles, no início de janeiro, para trabalhar na biografia de Sontag que estou escrevendo, imaginei que três meses seriam mais que suficientes. Ao longo dos dois últimos anos, li a obra dela e viajei, principalmente pela Europa e pela América Latina, a fim de encontrar as pessoas que possam me ajudar a reconstruir seu eu implacável.

É difícil -impossível- pensar em um escritor norte-americano importante do século 20 com uma vida tão internacional quanto a de Susan Sontag. Mesmo os expatriados famosos de gerações anteriores tendiam a se fixar em destinos bastante comuns, como Londres, Paris ou Roma. Londres, Paris e Roma eram importantes para Sontag, mas São Paulo, Estocolmo e Sarajevo também.

Na maioria desses lugares, alguns dias ou uma semana bastavam. O tempo de que eu dispunha em Los Angeles parecia um verdadeiro luxo. Mas os arquivos são
tão vastos que já perdi a esperança de algum dia poder examinar tudo: centenas de caixas com pedaços de papel, fotos, diários, faturas de hotel, programas de ópera, cartas de amor, rascunhos de manuscritos (em muitos casos, inéditos) -materiais que emocionam quem os tem em mãos e que revelam coisas que às vezes só um documento original pode expressar.

É possível ver na caligrafia de Sontag, de uma forma como nunca o permitiria uma carta datilografada, o modo febril com que ela, pouco após completar 40 anos, lidando com o diagnóstico que lhe apontou a finitude da própria vida, esboçou as meditações sobre o câncer que se tornariam “Doença como Metáfora”, e com que cuidado, entre as mesmas páginas, guardou as receitas que seu médico em Paris escreveu para um tratamento de quimioterapia então impensável nos Estados Unidos. Ela não tinha como saber, enquanto escrevia o livro, que os medicamentos nessas listas, rabiscadas entre seus escritos, a salvariam.

Mesmo quando lemos sobre temas menos carregados, há algo de melancólico nessa proximidade com uma pessoa que existiu e não existe mais. Essas coleções eram conhecidas, em tempos passados, como “restos literários”: após uma vida escrevendo, o que resta é isso.

Ou era.

Um escritor da geração de Sontag -ela nasceu em 1933- trabalhou a maior parte de sua vida sobre papel. As cartas de Sontag são cartas reais; seus livros foram escritos usando caneta e máquina de escrever. Mas, quando ela morreu, em 2004, esses papéis já estavam rapidamente se convertendo em “restos”. Hoje, enviar uma carta, diferentemente do que há 20 anos, quase equivale a fazer uma declaração de princípios: como os telegramas, as cartas em papel geralmente se reservam a ocasiões especiais e o mero fato de enviar uma carta já revela coisas sobre o remetente que em outra época não teria revelado. (Com frequência, sua idade avançada.)

GUARDIÕES

A explosão de material digital nos últimos 25 anos cria um desafio especial para os guardiões dos restos literários.

Recentemente penetrei nos recônditos da biblioteca de pesquisas da UCLA para conversar com Gloria Gonzalez, uma moça de 24 anos, natural do Mississippi. Gonzalez se viu na dianteira do movimento para preservar estes materiais desde que, ainda estudante, começou a lidar com os arquivos de Sontag. Enquanto eu conversava com ela, minhas anotações começaram a se parecer com as da própria Susan Sontag, linhas cheias de palavras pouco familiares, que definiam um mundo novo para mim; “bit rot”, “software forense”, “write blocker”.

“Na verdade, não é tão novo assim”, Gonzalez me disse. “As pessoas usam e-mail há 20 anos. Mas é novo em arquivos. Não é comum universidades procurarem esse tipo de material.”
O material, propriamente dito, consiste em dois pequenos discos rígidos, cada um rotulado com um post-it, que Gonzalez me mostrou em um cubículo localizado atrás da sala dedicada às coleções especiais. “São objetos físicos”, disse Gonzalez -e, nesse sentido, não são diferentes dos livros e manuscritos que bibliotecários sempre colecionaram e conservaram.

Esses objetos, porém, são muito mais vulneráveis do que um livro tradicional. São ameaçados pelo “bit rot”, aquilo que acontece quando os zeros e uns em que os dados digitais são gravados se confundem misteriosamente; por certos equipamentos de armazenagem instáveis (drives USB, por exemplo); e pela ameaça mais grave da obsolescência tecnológica.

Enquanto ela me mostrava, na Wikipedia, fotos dos computadores que Sontag usou -um PowerBook 5300, o mesmo computador que minha mãe me deu quando entrei na faculdade, um PowerMac G4 e um iBook- tive sensação igual à de quando compramos um computador ou celular novo: aquele ligeiro encabulamento que nos alcança quando nos damos conta de que o objeto que alguns meses antes parecia ultramoderno ficou pateticamente ultrapassado.

Mas as máquinas em si não estão na biblioteca: pesquisadores futuros vão poder consultar os materiais em um laptop na sala de leitura, usando um software que os mostrará do modo como Sontag os teria visto. Isso é feito para proteger os arquivos físicos. “Cada vez que você abre um e-mail ou um arquivo do Word, o material é modificado”, disse Gonzalez. “Há atualizações automáticas, ou -por exemplo, em um arquivo do Word- a data muda para a data em que o arquivo foi consultado, e você não pode ver quando foi a última vez em que ela trabalhou nele.” (Em “Ensaios sobre a Fotografia”, Sontag escreveu que tão somente olhar para alguma coisa já significa modificá-la.)

Para preservar os arquivos, Gonzalez recorre a técnicas desenvolvidas pelo setor policial, uma área conhecida como análise forense computacional. A principal proteção dos metadados de um computador é um “write blocker”, que permite que o material seja visto sem deixar qualquer rastro do visitante. É uma intervenção técnica simples. A principal ameaça vem das pessoas que simplesmente descartam computadores velhos, desconhecendo seu valor.

MAL-ESTAR

Sontag escreveu 17.198 mensagens de e-mail, que em breve estarão disponíveis para consulta num laptop especial. Eu tive a oportunidade especial de vê-los na biblioteca, e a experiência me provocou um mal-estar que eu nunca antes tinha sentido em anos de pesquisas históricas.

Qualquer biógrafo conhece o constrangimento, que ocasionalmente beira a náusea, provocado pela pesquisa extensa sobre a vida de outra pessoa. Nunca conheci Sontag ou Clarice Lispector, tema de meu livro anterior. Mas, após anos de pesquisas, entrevistas, leituras e viagens, provavelmente sei mais sobre as duas que qualquer pessoa que não tenha feito parte de seu círculo mais íntimo. Sei de sua vida sexual, de suas finanças, conheço seu prontuário médico e seus fracassos profissionais, as dificuldades que tinham com pais e filhos, os segredos dolorosos que elas tão desesperadamente queriam manter ocultos.

Mesmo sem tais dificuldades, que fazem parte de toda e qualquer vida, também a forma impõe escolhas. Assim como a história não é o passado propriamente dito, mas um relato do passado, a biografia não é uma vida, mas a história de uma vida. Do mesmo modo como um romancista fica conhecendo seus personagens, também um biógrafo fica conhecendo os dele, e, diante do caos de uma vida inteira, sabe que qualquer coisa que possa contar sobre o sujeito é apenas uma seleção pequena que cabe em uma narrativa escolhida de acordo com seus próprios gostos e interesses.

O biógrafo também tem a consciência, sempre, de que sua posição, a qual necessariamente envolve julgamentos acerca do caráter de sua personagem e das escolhas que fez, é profundamente injusta, pela simples razão de que ela própria não pode ser consultada.

Essas preocupações me são familiares e sempre as tenho em mente. Ainda assim, ler papéis e manuscritos é uma coisa. Vasculhar os e-mails de uma pessoa é outra coisa inteiramente diferente, e a sensação de estranheza e voyeurismo que me dominou quando eu estava sentado com Gonzalez disputou espaço com a curiosidade irrefreável que sinto com relação à vida de Sontag.

Ler os e-mails de uma pessoa é vê-la pensando e falando em tempo real. Se a maioria dos e-mails não é interessante (“o carro a buscará às 7h30 se for ok beijos”), outros revelam qualidades inesperadas cuja descoberta é um deleite. (Quem poderia imaginar, por exemplo, que Sontag enviava e-mails com o título “E aí, o que rola?”).

Vemos Sontag, que tinha tantos amigos, felicíssima por poder estar em contato com eles tão facilmente (“estou pegando a febre do e-mail!”); vemos a escritora insaciavelmente solitária buscando entrar em contato com pessoas que mal conhecia e convidando-as a fazer uma visita. Nas reações delas, percebemos sua perplexidade, como hesitavam em incomodar o ícone de reputação assustadora.

Com os softwares hoje disponíveis, o biógrafo que se esforça para se colocar na posição de seu sujeito enfrenta novos dilemas. Uma das ferramentas mais interessantes usadas por Gonzalez é um programa chamado Muse, que pode fazer buscas em um banco de dados de e-mails e mapear os sentimentos do autor da correspondência com precisão espantosa.

Podemos ver categorias como “médico”, “irada” e “parabéns”. Podemos ver, em um gráfico, a porcentagem de tempo em maio de 2001, por exemplo, em que Susan Sontag esteve feliz, triste ou incomodada.

Enquanto eu me assombrava com essa tecnologia, me perguntei como me sentiria se alguém vasculhasse meus e-mails e revelasse que eu tinha proferido uma média de 321 observações mal-humoradas por ano e que meu índice semanal de tesão tinha variado entre 34,492% e 56,297%. Deveríamos realmente resumir e reduzir emoções e vidas humanas dessa maneira, simplesmente porque está a nosso alcance fazê-lo? Teria Susan Sontag desejado que sua vida fosse analisada desse jeito? Alguém o quereria?

Sontag escreveu que as fotos dizem respeito ao que não mostram tanto quanto ao que mostram e que o que vemos depende de como o fotógrafo enquadra a cena. Seus diários revelam um apreço por estatísticas e fatos surpreendentes, mas o cerne moral de seus escritos (sobre a fotografia, a guerra, a política) está na insistência em afirmar que aquilo que vemos nem sempre é o que está ali.

Hoje vivemos nossas vidas cada vez mais no computador. A quantidade de informação contida em nossos smartphones é muito maior do que Sontag poderia ter imaginado em sua vida, embora tenha morrido há menos de uma década. Quem acredita no valor da pesquisa histórica entende que cada vez mais “hard drives” como os preservados na biblioteca da UCLA serão onde essa pesquisa será feita. Mas revelarão mais sobre nossas vidas? Ou, ao mostrar demais, acabarão por revelar menos?

BENJAMIN MOSER, 37, é autor de “Clarice,” (ed. Cosac Naify, 2009)

CLARA ALLAIN, 56, é tradutora.

Véi, mano, coitada da Clarice Lispector

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Tati Bernardi, na Folha de S.PauloClarice_Lispector_carica

Essa semana uma atriz utilizou-se de um texto “famoso” na internet para desabafar em seu twitter:

“Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje… Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina… E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar… Não me dôo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos. Sou boba, mas não sou burra. Ingênua, mas não santa. Sou pessoa de riso fácil… E choro também!”.

Já vi muitos bons escritores injustamente “creditados” à essa bobagem (e também alguns não tão bons, como eu) mas me senti profundamente ofendida quando uma revista resolveu, claramente sem nenhum conhecimento de literatura brasileira, assinar a autoria do texto com o nome da Clarice Lispector.

Clarice também tinha de pagar as contas e, por isso, vez ou outra freelava imbecilidades de mulherzinha através de um pseudônimo. Dai fica a pergunta: por que cazzo transformaram isso em um quadro na TV? E, pior: em que momento uma escritora tão assombrosamente interessante virou a rainha dos blogueiros desinformados?

Agora imaginem se Clarice usaria a palavra “utopia” seguida da palavra “sonho” numa mesma frase piegas e sem nenhum sentido. E que porra quer dizer “sou pessoa de dentro pra fora”? Tipo: olha, não sou superficial, tá? Antes vem meu fígado, depois a vontade de comprar bolsas.

Imagino Clarice, num misto de culpa e excitação, entrando em seu quinto crediário de eletrodoméstico. Alguma prima mais invejosa “Ai, que coragem comprar essa televisão que mal cabe em seu orçamento!”. E ela, provocativa, com camiseta da Abercrombie: “Ai, Tamara, tônem aí: eu quando sonho, sonho alto!!”.

Será que Clarice diria: “E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar…”? Tipo Clarice num bar na Vila Olímpia, vira pra sua truta, enquanto manda uma caipiroska de frutas vermelhas: “cara, meu, na boa? Sei lá! Eu enlouqueci e deixei rolar”.

Quase posso ver a jovem e enigmática Clarice investigando o smartphone do seu namorado, o “Peida”. Ele dizendo, com o maior bafo de cachaça, que do pagode foi direto pra casa. E ela, boladona “ah, cara, eu sou boba mas não sou burra!”. E então Lispector arremataria, com sua lente de contato azul marejada: “Ah, Peida, você sabe: sou pessoa de riso fácil…e choro também”.

No espelho, escrito em batom cintilante, segundos antes da casa dela pegar fogo: “Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente.”

Dizem que ao se deparar com uma barata e sentir um profundo desejo de degustá-la, a diva dos fanzines de faculdades de engenharia, citou Fênix: “reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim!”. Logo depois, achou bonito demais o trecho “a vida pede um pouco mais de mim” e o escreveu com caneta perfumada em seu diário com capa do seriado Glee.

Numa entrevista para um desses programas da tarde, quando participou do merchan de um creme anti-sinais de procedência francesa mas produzido em Valinhos: “sou mulher com cara de menina… E vice-versa”. E até hoje esse “vice-versa” angustia centenas de senhoras mais literais.

No estacionamento de um shopping na Grande ABC, depois de ter ficado mais de duas horas procurando seu sedan tunado, ela disse, para um daqueles guardas na motoquinha: “Me perco, me procuro e me acho”.

Ouviu de uma fã, na feira do livro de Pirapora Mirim: “você é tudo” e proclamou, misteriosa “ou nada!”.

É, meus amigos, como disse Shakespeare ao lançar suas memorias digitais “Segredos da coxia” no Mercearia São Pedro: “#tamonamerda”.

Clarice Lispector completaria 93 anos hoje; leia texto infantil da escritora

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Publicado por Folhinha

Nesta terça-feira (10), Clarice Lispector completaria 93 anos. A escritora, que nasceu na Ucrânia e mudou-se ainda criança para o Brasil, é uma das principais autoras da língua portuguesa e escreveu obras importantes, entre eles “A Paixão Segundo G.H” e “A Hora da Estrela”.

Clarice, que também foi jornalista e tradutora, ficou famosa pelo seu jeito de escrever. Nos seus livros, ela tenta desvendar os mistérios do ser humano, explorando atitudes e gestos comuns do dia a dia.

Abaixo, confira um texto de “Como Nasceram as Estrelas – Doze Lendas Brasileiras” (Rocco, R$ 28), publicada na “Folhinha” em dezembro de 1987. No livro infantil, ela conta lendas e histórias de personagens do folclore brasileiro, como o Curupira e o Saci.

Ela também publicou outros livros para crianças, como “A Mulher que Matou os Peixes” e “A Vida Íntima de Laura”. Clarice faleceu em 1977, no dia 9 de dezembro.

Escritora Clarice Lispector em meados dos anos 1960 / Fundação Casa de Rui Barbosa

Escritora Clarice Lispector em meados dos anos 1960 / Fundação Casa de Rui Barbosa

Como nasceram a estrelas

Pois é, todo mundo pensa que sempre houve no mundo estrelas pisca-pisca. Mas é erro. Antes os índios olhavam de noite para o céu escuro – e bem escuro estava esse céu. Um negror. Vou contar a história singela do nascimento das estrelas.

Era uma vez, no mês de fevereiro, muitos índios. E ativos: caçavam, pescavam, guerreavam. Mas nas tabas não faziam coisa alguma: deitavam-se nas redes e dormiam roncando. E a comida? Só as mulheres cuidavam do preparo dela para terem todos o que comer.

Uma vez elas notaram que falava milho no cesto para moer. Que fizeram as valentes mulheres? O seguinte: sem medo enfurnaram-se nas matas, sob um gostoso sol amarelo. As árvores rebrilhavam verdes e embaixo delas havia sombra e água fresca. Quando saíram de debaixo das copas encontravam o calor, bebiam no reino das águas dos riachos buliçosos. Mas sempre procurando milho porque a fome era daqueles que as faziam comer folhas de árvores. Mas só encontravam espigazinhas murchas e sem graça. “Vamos voltar e trazer conosco uns curumins.” Assim chamavam os índios as crianças. “Curumim dá sorte.”

E deu mesmo. Os garotos pareciam adivinhar as coisas: foram retinho em frente e numa clareira da floresta, eis um milharal viçoso crescendo alto. As índias maravilhadas disseram: toca a colher tanta espiga. Mas os garotinhos também colheram muitas e fugiram das mães voltando à taba e pedindo a avó que lhes fizesse um bolo de milho. A avó assim fez e os curumins se encheram de bolo que logo se acabou. Só então tiveram medo das mães que reclamariam por eles comerem tanto. Podiam esconder numa caverna a avó e o papagaio porque os dois contariam tudo. Mas e se as mães dessem falta da avó e do papagaio tagarela? Aí então chamaram os colibris para que amarrassem um cipó no topo do céu. Quando as índias voltaram ficaram assustadas vendo os filhos subindo pelo ar. Resolveram, essas mães nervosas, subir atrás dos meninos e cortar o cio embaixo deles.

Aconteceu uma coisa que só acontece quando a gente acredita: as mães caíram no chão, transformando-se em onças. Quanto aos curumins, como já não podiam voltar para a terra, ficaram no céu até hoje, transformados em gordas estrelas brilhantes. Mas, quanto a mim, tenho a lhes dizer que as estrelas são mais do que curumins. Estrelas são os olhos de Deus vigiando para que corra tudo bem. Para sempre. E, como se sabe, “sempre” não acaba nunca.

Porta dos Fundos lança livro com base em seus roteiros

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Thalles Libânio, no Vá ler um livro

O canal online, Porta dos Fundos, com temática humorística, já tem estimativa de ganho de, aproximadamente, R$ 3 milhões, só neste ano, através de participações em filmes, campanhas publicitárias e programas de TV.

Portas dos Fundos é um grupo que reúne tudo de mais criativo, por exemplo, eles produzem conteúdo audiovisual voltado para a web, com liberdade editorial de internet e qualidade de TV.

Tem como elenco: Antônio Pedro Tabet, Clarice Falcão, Fábio Porchat, Gabriel Totoro, Gregorio Duvivier, Gustavo Chagas, João Vicente de Castro, Julia Rabello, Leticia Lima, Luis Lobianco, Marcos Veras, Marcus Majella e Rafael Infante.

Entre suas conquistas, mesmo com menos de um ano de existência, a Porta dos Fundos venceu o prêmio de Melhor Programa de Humor para TV, da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), e foi o primeiro canal brasileiro a atingir a marca de 1 milhão de inscritos em um curto período de tempo.

O grupo divulga mais uma grande novidade. Os roteiros dos vídeos serão adaptados em livro, através da Editora Sextante. Os roteiros já confirmados são: Na Lata, Traveco da Firma, Término de Namoro e Entrevista de Emprego. A adaptação terá 240 páginas e com data de lançamento para quarta-feira, 07 de agosto, com noite de autógrafos, dos integrantes, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo.

Escritores e tradutores estão entre os que mais tentam se manter off-line

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Software bloqueia o acesso à rede
Freedom é utilizado por mais de meio milhão de pessoas no mundo

A americana Meg Cabot tem um computador apenas para trabalhar (FOTO: André Coelho)

A americana Meg Cabot tem um computador apenas para trabalhar (FOTO: André Coelho)

Título original: Profissionais buscam forma de não cair na tentação da internet

Clarice Spitz e Sérgio Matsuura. em O Globo

Rio — Retornar ao modo off-line pode ser mais difícil do que se imagina. Para gente que trabalha com a palavra então, como escritores e tradutores, a busca por um uso mais produtivo do computador tem levado a soluções inusitadas. Se por um lado, a internet é uma aliada para quem escreve e precisa checar nomes e informações, por outro, não há dúvidas de que pode ser um grande “desprogramador” de tarefas. As redes sociais e o e-mail estão entre os principais vilões.

Regras não existem, mas cada um procura sua maneira de sobreviver ao vício de ficar horas conectado. A escritora americana de literatura infantojuvenil Meg Cabot, que lança em setembro o “The Bride Wore Size 12”, partiu para uma decisão radical: usa um computador apenas para escrever e outro exclusivamente para acessar as redes sociais.

Programa que tem feito a cabeça de escritores como Nick Hornby, de “Alta Fidelidade”, e da iraniana Lila Azam Zanganeh, que foi um dos sucessos da 11ª edição da Flip, o Freedom, software que bloqueia a internet, já está conquistando adeptos entre os brasileiros. O programa, que custa US$ 10, funciona de maneira bem simples: o usuário decide quantos minutos de liberdade quer ter. Ou seja, quanto tempo está disposto a ficar sem internet, com o acesso à rede bloqueado.

O escritor João Paulo Cuenca é um fã de carteirinha. Durante as seis semanas que passou num castelo na Umbria, no centro da Itália, escrevendo o seu próximo livro, mesmo isolado, tinha internet e problemas para se concentrar. Cuenca adotou o método: a cada 45 minutos free, tinha 15 de acesso irrestrito.

— É a coisa mais idiota e simples, mas se faço quatro picos assim por dia, rendo muito.

Ele diz que os benefícios não significam que nunca trapaceou. Cancelou o programa apenas para checar um e-mail de trabalho, que nem era tão importante. Para destravar o programa, basta religar o computador.

— Somos muito viciados mesmo. Às vezes, deixo o telefone sem bateria perto do computador para não ter jeito de olhar os e-mails. É ridículo pagar quando é só desligar o cabo — admite.

Ferramenta simples

O Freedom foi lançado em 2008 pelo pesquisador Fred Stutzman, que viu a necessidade de desenvolver uma ferramenta simples que pudesse ajudar as pessoas a focar em atividades produtivas. Desde então, o software já foi baixado por mais de meio milhão de pessoas, entre elas o próprio desenvolvedor.

— Eu mesmo usei o Freedom quando estava escrevendo a minha dissertação — conta Stutzman. — O programa ajuda as pessoas a reconquistar o controle sobre o computador, para que ele sirva para trabalhar, em vez de distrair.

A ferramenta é útil até para os que se consideram disciplinados. A escritora Carol Bensimon, autora de “Pó de parede” e “Sinuca embaixo d’água”, diz não ser “procrastinadora”, mas admite que a internet atrapalha a concentração no trabalho. Sempre que possível, vai para uma área comum no prédio onde vive para se desconectar, mas quando está em casa o Freedom está acionado.

— O Freedom me salvou — brinca, com um misto de seriedade, a tradutora Melissa Lyra, brasileira de 36 anos que mora em Lisboa. — Já tinha tentado bloqueadores sociais, mas acabava sempre por me distrair.

Ela usa junto do Freedom o Pomodoro Technique, técnica de gestão de concentração. Assim, conseguiu dobrar a produção.

— Hoje em quatro horas sem internet produzo o mesmo que em oito com ela — diz.

(Colaborou Michele Miranda)

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