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“A escola está ultrapassada”

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O jornalista americano Paul Tough é autor do best-seller 'Como as crianças aprendem' (Paul Terefenko/Divulgação)

O jornalista americano Paul Tough é autor do best-seller ‘Como as crianças aprendem’ (Paul Terefenko/Divulgação)

Autor de best-seller americano explica por que desenvolver habilidades emocionais desde cedo é tão essencial para o sucesso na vida adulta

Luisa Bustamante, na Veja

Nas rodas de educação, muito se fala sobre habilidades socioemocionais, que fogem da cartilha do conteúdo propriamente dito, como colaboração, curiosidade e capacidade de resistir às adversidades. Às vezes, o debate é ainda etéreo; noutras, começa a ter feições mais claras, indicando caminhos de como desenvolvê-las. Em sua extensa pesquisa, o jornalista americano Paul Tough, 50 anos, autor do livro Como as Crianças Aprendem (Ed. Intrínseca), vai por esta linha mais objetiva e sem academiquês. Ele foi a escolas e entrevistou economistas, psicólogos e neurocientistas para entender a relevância de tais habilidades no competitivo século XXI. Em visita ao Rio de Janeiro, Tough falará sobre o tema neste sábado (1) em um encontro organizado pelo grupo educacional Eleva. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao site de VEJA.

Seus livros enfatizam a importância das chamadas habilidades socioemocionais no desenvolvimento infantil. Elas podem ser ensinadas?
Sim, em casa e na escola. Um ensino de qualidade, voltado para este século, não deve mais se restringir àquele conjunto limitado de capacidades medidas em testes padronizados. O conhecimento continua, claro, a ser fundamental, mas os especialistas já têm clareza de que há este outro lado do aprendizado que é também determinante para o sucesso na vida. São habilidades que podem soar abstratas: garra, otimismo, curiosidade, trabalho em equipe, resiliência – é possível lapidar todas elas.

O senhor afirma que o melhor momento para as crianças aprenderem tais habilidades é na primeira infância, antes mesmo do primeiro dia de aula. Como os pais podem ajudá-las?
Primeiro, não fazendo com que os filhos se sintam sob pressão. Estudos recentes na área da neurociência mostram que, quando as crianças estão num ambiente altamente estressante, elas têm mais dificuldade de desenvolver essas características que mencionei. A boa notícia é que a melhor defesa contra o estresse infantil está justamente nos pais. A explicação é fisiológica. Se mantêm relação forte e calorosa com os filhos, essas crianças registrarão menores níveis do hormônio do estresse no organismo e estarão em condições melhores para aprender.

O que o senhor observa em comum entre as crianças com mais dificuldade de desenvolver habilidades socioemocionais?
Muitas crescem em um ambiente de adversidades, na extrema pobreza ou submetidas a abuso e negligência. São justamente essas que precisam de mais ajuda. Infelizmente, são também as que costumam receber educação de mais baixa qualidade. Elas precisam ser mais desafiadas. Quando isso ocorre, respondem de forma tão positiva quanto aquelas que vivem em situação mais favorável.

Quais habilidades o senhor considera mais importantes nos dias de hoje?
Sem dúvida, coloco no topo da lista a perseverança e a capacidade de lidar com os obstáculos. Elas são essenciais para a resolução de problemas, para um bom trabalho em equipe e para administrar a frustração diante do fracasso. Cabe aos adultos dar as ferramentas que as crianças precisam para aprender com os erros e se superarem.

Como desenvolver essas habilidades?
Gosto de alguns métodos adotados atualmente. Um deles é trocar a lição tradicional por projetos mais extensos. Em vez de o aluno decorar fórmulas e preencher fichas, ele é forçado a trabalhar em grupo, debruçado sobre vários assuntos e no longo prazo. Esse tipo de tarefa não estimula apenas a perseverança: incentiva também o que a ciência chama de inteligência elástica, capacidade que o aluno tem de se tornar cada vez mais inteligente.

O que mais a escola pode fazer?
Há um senso comum de que devemos dar tarefas fáceis para crianças que enfrentam dificuldades porque assim elas terão uma sensação de realização. Mas isso, na realidade, provoca o efeito contrário. Quando não as instigamos a concluir tarefas complexas, a mensagem é de que o professor não acredita em sua capacidade. Por outro lado, com trabalhos desafiadores e apoio adequado, elas não só aprendem matemática ou ciências como consolidam a autoestima, porque entendem que podem ser bem-sucedidas, que podem se superar. Cito em um de meus livros o trabalho de uma professora de um colégio no Brooklyn, em Nova York, que fazia críticas minuciosas e muito duras a alunos que praticavam xadrez. Assim os ajudou a analisar e a entender seus erros sem que se sentissem derrotados e a desenvolver autocontrole e motivação.

Que países estão fazendo a lição certa?
Ainda não encontrei um país que tenha um bom sistema para ensinar essas habilidades tão requeridas no século XXI. Vejo em muitos deles grupos de educadores atentos a essa questão, em um esforço para encontrar uma maneira de reformar as velhas escolas. Todo mundo se queixa da dificuldade para mudar o ensino. Há barreiras institucionais que precisam ser rompidas para que essa ideia seja disseminada.

Como medir o desenvolvimento de algo tão abstrato como garra ou curiosidade?
Essa medição ainda é um desafio e muitos pesquisadores sérios estão concentrados nisso. Qualquer pai ou professor é capaz de perceber quando um aluno está determinado. Se ele se esforça, está motivado e se envolve nas atividades propostas, é sinal de que a escola está no caminho certo.

Existe um relação entre habilidades emocionais e cognitivas?
Existe. O aluno que vai bem no lado socioemocional tende a se sair melhor nas provas.

A escola é uma instituição ultrapassada?
De modo geral, sim. Deveríamos preparar nossos jovens para carreiras que exigem um nível muito maior de criatividade, colaboração e flexibilidade do que as de trinta anos atrás. No passado, havia muitas profissões em que bastava o funcionário bater ponto, obedecer ordens e executar tarefas repetitivas. Hoje não funciona mais assim, mas as escolas não acompanharam as mudanças do mercado de trabalho.

Que escolas vêm fazendo um bom trabalho?
Gosto do trabalho da Expeditionary Learning Schools, uma rede de 150 escolas nos Estados Unidos. Um dos métodos que aplicam é chamado crew: consiste em formar grupos de dez a vinte alunos que são reunidos no primeiro dia de aula e que fazem encontros todas as manhãs — isso até o fim da carreira escolar. Esses estudantes desenvolvem senso de pertencimento e capacidade impressionante de produzir em equipe. Acho que esse modelo poderia ser replicado.

Como reconhecer uma boa escola?
São aquelas que, por meio de diferentes métodos, não importa, conseguem estimular os alunos a deixar a superfície e a fazer perguntas mais densas. O ensino baseado em projetos e na investigação são mais eficientes do que aquele que incentiva a memorizar fórmulas, como ainda é tão comum. Por serem curiosas, crianças são genuínos cientistas, mas a escola tira isso delas.

Livro infantil de H.G. Wells, autor de clássicos de ficção científica, ganha versão traduzida por Peninha

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Ilustração do livro "As Aventuras de Tommy" Foto: Editora Piu / Divulgação

Ilustração do livro “As Aventuras de Tommy” Foto: Editora Piu / Divulgação

“As Aventuras de Tommy”, única obra para crianças do renomado escritor britânico, é um lançamento da editora gaúcha Piu

Nathalia Carapeços, no Zero Hora

Em 1898, o escritor britânico H.G. Wells (1866–1946) foi obrigado a parar sua intensa produção literária por conta de um forte resfriado. Decidiu percorrer um longo trajeto de bicicleta entre duas cidades inglesas e foi surpreendido por um temporal. De cama na casa de um médico amigo, o autor repousou por alguns dias, mas não acusou melhora – na verdade, também descobriu que estava com problemas renais. Seis semanas desfalecido era tempo demais para um dos nomes pioneiros – e dos mais ativos – na ficção científica, criador de histórias como A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1896) e A Guerra dos Mundos (1898). Bastaram alguns poucos lápis de cor furtados do quarto das crianças da casa para Wells mergulhar na história As Aventuras de Tommy, livro escrito e ilustrado pelo britânico que ganhou seu primeiro lançamento no Brasil pela editora gaúcha Piu, com tradução do jornalista Eduardo Bueno, o Peninha.

Wells endereçou a obra para Marjory, filha do doutor Henry Hick, seu médico – não havia expectativa de publicação. O volume só chegou às bancas em 1929, quando a jovem pediu autorização para lançar o livro e, com os recursos, pagar o final da faculdade de medicina. Única incursão de Wells pelo universo infantil, a obra mantém a marca imaginativa do autor com vasta produção para adultos (leia mais abaixo), opina Peninha:

– Era um presente para uma criança, assim como Alice no País das Maravilhas foi. Justamente por se sentir tão livre, tão franco e tão descompromissado, acredito que ele tenha acabado por revelar muito dos princípios que nortearam sua obra: um surdo conflito de classes, a decência e a ética em contraposição à arrogância e à prepotência e, é claro, o fator surpresa, o inesperado.

As Aventuras de Tommy parte do encontro de um homem rico, orgulhoso e desastrado com um menino que se torna seu salvador. O milionário iria morrer afogado, mas o garoto consegue ajudá-lo, resgatando-o com seu barco. E até na forma de agradecer o homem extravasa soberba: quer presentear o garoto com algo único e surpreendente – apesar da recusa insistente do guri. A recompensa escolhida é um elefante. Depois, os leitores são forçados a conviver com uma lacuna em parte triste e, por outro lado, convidativa. Ninguém sabe como se deu a parceria de Tommy e Augustus (o nome do exótico animal de estimação). Wells nunca continuou a história, apesar de levantar esta possibilidade no fim do livro.

– Não creio que o fato de ter virado uma história que não termina tenha sido algo voluntário. Acho que Wells deve ter achado que de fato continuaria. Mas, para quem compra o livro e o lê para uma criança, Tommy ser uma história sem fim se torna um prato cheio para que o adulto convide o pequeno leitor, ou o pequeno ouvinte, para que ele se torne coautor – avalia Peninha.

Esse é o segundo volume da Editora Piu, comandada por Paula Taitelbaum. O primeiro título lançado foi Bichológico, no ano passado, assinado pela própria Paula. Focada na literatura infantojuvenil, a editora terá mais duas novidades ainda neste mês: O Pequeno Patachu e Mais Histórias do Pequeno Patachu, do francês Tristan Derème, cuja obra teria inspirado Saint-Exupéry a escrever O Pequeno Príncipe.

H.G. WELLS PARA ADULTOS

A MÁQUINA DO TEMPO (1895)

 

Foto: reprodução / Divulgação

Foto: reprodução / Divulgação

Se hoje o DeLorean da trilogia De Volta para o Futuro ou a Tardis do seriado Doctor Who são chamadas de ¿máquinas do tempo¿, é porque Wells tornou o termo popular com este misto de aventura e alegoria crítica à revolução industrial. Um cientista inglês viaja para o futuro e encontra a humanidade dividida em dois estratos, os pacíficos Elois, que vivem em um éden tecnológico na superfície, e os abrutalhados Morlocks, responsáveis por operar no subterrâneo as máquinas que tornam tal paraíso possível. A relação entre as espécies, contudo, se prova mais complexa do que aparenta. No cinema, ganhou diferentes adaptações, como a de 1960, com Rod Taylor (foto acima), e a de 2002, assinada por Simon Wells, bisneto de H.G.Wells.

A ILHA DO Dr. MOREAU (1896)

Edward Pendrick, um viajante inglês, é abandonado pelo comandante de um navio em uma ilha remota no meio do Pacífico Sul, para a qual levou uma carga de animais vivos. Ele é resgatado pelos misteriosos moradores do lugar, o fisiologista Doutor Moreau e seu dúbio assistente Montgomery. Abrigado na ilha enquanto espera a improvável passagem de um novo navio, Pendrick toma ciência das inomináveis experiências de vivissecção que Moreau vem realizando para transformar animais em humanos. Embora a parte ¿científica¿ hoje possa soar fantasiosa, as discussões éticas e filosóficas levantadas pelo romance ainda são muito pertinentes. Entre as versões para o cinema estão a de 1932, com Charles Laughton, a de 1977, com Burt Lancaster, e a de 1996, estrelada por Marlon Brando.

A GUERRA DOS MUNDOS (1898)

Foto: Divulgação / Divulgação

Foto: Divulgação / Divulgação

Clássico da ficção científica que influenciaria boa parte das narrativas posteriores sobre ¿contatos alienígenas¿. Na Londres vitoriana, a chegada de marcianos a bordo de artefatos que caem do céu como meteoros prova que a humanidade não está sozinha no Universo. Crítico do colonialismo europeu de seu tempo, Wells intuía que esse tipo de contato, contudo, não seria de congraçamento e sim de conquista. Os marcianos logo estão empreendendo uma invasão em massa em veículos que se locomovem sobre três pernas e carbonizando tudo o que encontram em seu caminho. O livro inspirou vários filmes, como o clássico de 1953 dirigido por Byron Haskin e a releitura de 2005 assinada por Steven Spielberg e com Tom Cruise (foto acima) como protagonista.

Uma livraria na China inspirada nas florestas de bambu

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Com uma arquitetura surpreendente, o lugar tem espaço para adultos e crianças
Nadia Simonelli, na Casa Vogue

Criado pelo estúdio X-Living, de Xangai, o projeto dessa suntuosa livraria foi pensado para refletir a atmosfera cultural de Chengdu, uma cidade no sudoeste da China, onde está localizada.

Quando os visitantes chegam ao quarto andar do edifício Yintai Center se deparam com um espaço vibrante, repleto de estantes de livros e pequenas mesas, inspiradas nas formas do bambu. Tudo para relembrar a cultura da região.

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Ao atravessar essa verdadeira floresta de livros de diversos temas está um espaço dedicado à diversão das crianças, também inspirado em uma espécie de selva de cogumelos coloridos. As paredes são totalmente cobertas por prateleiras com livros e através das cores formam desenhos, como casas, moinhos de vento e pandas. As crianças podem ler debaixo dos cogumelos, que estão espalhados por toda a parte. O teto espelhado reflete todos esses elementos e cria uma sensação de amplitude.

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Em outra área da livraria, as paredes são revestidas de tijolos vermelhos, com prateleiras pretas embutidas em nichos. O que impressiona é a altura do pé-direito, que possui cinco metros.

Assim, uma estrutura metálica forma uma escada que conduz a um mezanino, aproveitando todo o espaço e criando pequenos ambientes aconchegantes. Desse modo, os leitores podem circular pelas áreas mais altas e encontrar seu livro favorito onde quer que ele esteja.

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Há também um incrível espaço para aulas, onde degraus com diferentes alturas e formatos servem como bancos para os alunos. No teto, um espelho reflete o relevo do piso, como se fosse a paisagem dos campos da região. Com uma vista incrível, que pode ser apreciada através da fachada de vidro, esse lugar é perfeito para os visitantes relaxarem durante uma das palestras que a livraria oferece.

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FOTOS SHAO FENG

Como incentivar crianças a lerem mais e despertar o gosto pelos livros

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Fonte: Shutterstock

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Confira dicas para fazer com que as crianças leiam mais

Publicado no Universia Brasil

Muitas vezes, fazer uma criança ler se mostra uma tarefa quase impossível. Com a tecnologia presente cada vez mais cedo em nossas vidas, é comum que os pequenos ignorem os livros e queiram dedicar sua atenção aos eletrônicos. Confira algumas dicas de como incentivar as crianças a lerem mais e despertar nelas o gosto pela leitura:

Não adianta, se você quer que uma criança adquira determinado hábito, o primeiro passo é mostrar que esse é um hábito seu também. Sempre que possível, leia junto com os pequenos e mostre que ler faz parte do seu dia a dia. Quando for falar sobre livros, refira-se ao tema de modo divertido, de uma forma que desperte o interesse e a curiosidade da criança.

Faça com que os livros estejam sempre ao alcance das crianças. Busque deixá-los em locais da fácil acesso, que não sejam muito altos e estejam sempre à vista da criança. A intenção é que ela “encontre” algo para ler em seu caminho com facilidade e fique ao menos curiosa sobre o conteúdo. Para isso, é interessante investir também em obras com capas mais chamativas. Se possível, transforme algum espaço da casa em um cantinho da leitura.

Mais do que ler junto ler para a criança também é uma forma de interessá-la. Dramatize, coloque entonações diferentes para cada personagem, envolva-se. O objetivo é mostrar que a leitura é algo divertido e pode ser tão interessante quanto um filme ou um videogame.

Programe passeios que envolvam livros. Vale ir em uma livraria ou em uma biblioteca. A maioria delas possui áreas para crianças e algumas contam até mesmo com uma programação especial voltada aos pequenos. Se possível, visite um dia de contação de histórias. Além de ter uma apresentação mais lúdica, a presença de outras crianças também ajuda na hora de estimular o envolvimento com os livros.

Situações frequentes quando se tem um pequeno leitor em casa

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Como a maioria das pessoas ligadas a literatura, eu fui um pequeno leitor. Aquele tipo de criança que vivia com a cara enfiada em um livro, enquanto os outros se divertiam em atividades externas. Para se ter uma ideia, até hoje a minha mãe não perde a oportunidade de contar a remota história do dia em que ela me perdeu na rodoviária lotada do Rio de Janeiro, quando sorrateiramente entrei em uma livraria quando ela estava distraída, e permaneci por lá horas a finco enquanto ela acionava as autoridades locais alegando que seu filho havia sido “sequestrado”.

E foi justamente revirando as minhas próprias memórias, que me ocorreu a ideia de compilar aqui algumas situações que você fatalmente enfrentará caso tenha uma criança ávida por leitura na sua casa.

Ele prefere ficar em casa lendo, do que brincar lá fora
Eu passei grande parte das minhas aulas de Educação Física fingindo alguma luxação para poder ler um livro sem distrações encostado em algum canto da quadra, e não necessariamente para fugir das atividades forçadas pelos professores. E também não é que eu fosse anti-social ou coisa do tipo, eu até que tinha bastante amigos, apenas preferia utilizar aquele tempo para fazer algo que realmente gostasse,… Como ler um livro.

O mesmo valia para o recreio, recessos, e nas aulas em que o professor ocasionalmente faltava (que não eram poucas), todo momento livre era uma oportunidade de mergulhar na leitura.

Ele provavelmente tentará ler enquanto anda
Ler e andar compõem os primeiros passos da vida de um pequeno leitor. Você pode reconhecer o hábito da leitura em uma criança conferindo as contusões em suas canelas, marcadas pelas topadas das tentativas frustradas de ler enquanto andam.

Alguns parentes alertavam a minha mãe sobre o que julgavam ser um ‘hábito perigoso’ para uma criança, e sua resposta sempre era: “O único perigo que ele corre é de ler um livro ruim.”

Ele pode sofrer danos em seu senso de direção
Quando tirei a minha habilitação, minha felicidade momentânea foi imediatamente abafada logo que percebi que não tinha a menor ideia de como chegar à lugar nenhum, já que sempre estava lendo um livro ou quadrinho toda vez que andava na carona de um carro e, por conta disso, nunca olhei pra frente e nem prestei atenção nos trajetos feitos.

Claro que isso foi numa época antes do GPS. Hoje confio minha vida no caminho indicado pela mulher do aplicativo.

As mochilas nunca duram até o fim do ano
Nenhuma dessas mochilas plásticas infantis foi preparada para levar o peso de uma dúzia de livros, e consequentemente eu sempre estava arrebentando o fundo, o fecho, ou as alças das minhas.

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Às vezes ele pode se isolar das outras crianças
Quando se lê muito, você acaba aprendendo um monte de coisas que ainda podem ser uma incógnita para as outras crianças, o que deixa o pequeno leitor à um nível acima da maioria.

Enquanto a leitura era introduzida para a minha sala do quinto ano, eu já lia títulos aconselhados para o primeiro ano do ensino médio. E enquanto os outros alunos faziam exercícios de interpretação de texto, eu já tentava interpretar a minha própria compreensão humana. Esse desnível causava um isolamento natural, que gerava longas discussões nos conselhos de classe do colégio.

Ele pode não se importar em ficar sozinho
Possuindo o hábito da leitura, realmente não me incomodava em passar longos períodos sozinho. E mesmo em ambientes tumultuados, eu costumava procurava lugares escondidos para que eu pudesse ler em paz.

A solidão é uma posição natural para as crianças que gostam de ler, já que, com um livro em mãos, elas nunca estão verdadeiramente sozinhas. Sempre estarão acompanhadas pelas personagens das suas histórias favoritas.

Ele pode falar coisas surpreendentes
Uma leitura voraz contribui muito para o nosso vocabulário, o que deixa as línguas dessas crianças tão afiadas quanto as suas mentes. Numa hora você terá que se acostumar com as crianças dizendo e sabendo coisas que até então você considerava precoce demais para a idade delas.
Ainda me lembro de ver a cara de espanto dos adultos quando me viam citar a cronologia da Segunda Guerra Mundial, quando muitos nem sabiam distinguir os países aliados e os do eixo.

A rotina básica do dia pode vir a ser um desafio
Mesmo quando eu não estava fisicamente lendo, a minha cabeça sempre estava parcialmente imersa na minha leitura atual. E digamos que esse fator costuma prejudicar a nossa concentração para as coisas simples do dia-a-dia, sendo natural esquecermos coisas e tarefas com uma frequência fora do comum. A todo instante eu esperava voltar para o meu livro em vez de prestar atenção nas coisas ao meu redor.

Você vai encontrá-lo lendo em horários estranhos
Toda criança leitora conhece o truque de ler com a lanterna sob as cobertas. E é provável que ela tenha muitas outras artimanhas para ler um pouco além do horário que lhe foi estipulado pelos pais.

É necessário compreender que nessa idade a leitura é uma descoberta eterna, e a oportunidade de absorver todo esse saber com a mente curiosa de uma criança, é uma experiência com prazo de validade bem definido. Deixa o pequeno aproveitar enquanto pode.

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