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Desafio literário | 12 clássicos para ler em 2018

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Rachel Guarino, no Cabana do Leitor

Começamos 2018 com o pensamento de ano novo, vida nova, com novas metas e desejos a serem cumpridos. Então que tal incluir nas metas de leitura, alguns clássicos da literatura, afinal, cada livro tem sua história e sua importância para a sociedade, e que até hoje, fazem muito sucesso. Pensando nisso, separamos 12 clássicos para você ler nesse novo ano que se segue. Encontre o que mais combina com você e boa leitura.

1.Uma Dobra no Tempo, Madeleine L’Engle (1963)

Esse clássico de fantasia e de ficção científica, escrita pela autora norte-americana Madeleine L’Engle, publicado em 1963, conta a história da família Murry, que embarca em uma aventura que pode ameaçar todo o nosso universo. Por que ler esse livro? Porque ele ganhará adaptação cinematográfica pelos estúdios Disney, em março desse ano.

2.O Cortiço, Aluísio Azevedo (1890)

Romance escrito por Aluísio Azevedo em 1890 e até hoje faz sucesso entre os amantes da literatura nacional. O livro se baseia no cortiço São Romão, uma habitação coletiva do Rio de Janeiro no final do século XIX. A obra chama atenção por denunciar a exploração e as péssimas condições de vida dos que viviam no cortiço. Se ainda não leu, vale a pena incluir na sua leitura.

3.Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis (1880)

Esse clássico da literatura brasileira narra a história de Brás Cubas depois de morto. De forma irônica, Machado de Assis expõe os privilégios da elite da época. Se ainda não leu, vale a pena conferir.

4.It: A Coisa, Stephen King (1986)

Um dos filmes de terror mais comentados de 2017 foi a adaptação de It, baseado no clássico terror de Stephen King. A continuação será apenas em 2019, mas enquanto isso, você pode se aventurar na obra que conta a história de sete pessoas que, quando crianças, enfrentaram uma criatura centenária que se alimentava do medo e mudava de forma.

5.Uma breve história do Tempo, Stephen Hawking (1988)

Desde sua publicação em 1988, o livro já vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo e ficou 237 semanas na lista dos mais vendidos do Sunday Times. A obra de Stephen Hawking guia o leitor pelos segredos mais profundos da criação, respondendo os conceitos mais complexos da humanidade através de uma maneira criativa e fácil de entender.

6.1984, George Orwell (1949)

Se até hoje você não leu, coloque na sua lista de livros para 2018, pois os anos podem ter se passado, mas a obra de George Orwell continua sendo uma poderosa reflexão ficcional de qualquer forma de poder dominante. O protagonista Winston vive preso dentro de uma sociedade totalitária dominada pelo Estado, no qual tudo é feito de forma coletiva, mas cada um vive sozinho.

7.O Alquimista, Paulo Coelho (1988)

Por mais polêmico que Paulo Coelho seja, O Alquimista o colocou em evidência no cenário literário, tanto nacional quanto internacional, pois o livro já foi traduzido para dezenas de idiomas. A obra gira em torno de um jovem pastor chamado Santiago, que depois de ter por diversas noites o mesmo sonho, decide embargar em uma jornada de esclarecimentos sobre os grandes mistérios que acompanham a humanidade desde o início dos tempos.

8.Lucíola, José de Alencar (1862)

Lucíola é um tradicional romance de José de Alencar que mesmo depois de anos da sua primeira publicação, ainda faz sucesso entre os amantes dos clássicos. A obra narra a história de Lúcia e Paulo, de classes sociais totalmente diferentes. Um romance que sacudiu a sociedade da época.

9.Cristianismo puro e simples, C. S. Lewis (1952)

Durante a Segunda Guerra Mundial, o autor de “As Crônicas de Nárnia” foi convidado pela BBC para realizar uma série de palestras sobre a fé cristã pelo rádio. C. S. Lewis então reunião suas ideias e transformou no livro “O Cristianismo puro e simples”. No ano passado, a editora Thomas Nelson Brasil lançou novamente esse livro em edição especial. Vale a pena conferir.

10.Morte no Nilo, Agatha Christie (1937)

Se você é fã dos livros de Agatha Christie e assistiu a adaptação, “Assassinato no Expresso do Oriente”, você precisa ler “Morte no Nilo”. A sequência foi publicada em 1937 e mostra o detetive Hercule Poirot desvendando um assassinato em pleno Egito.

11.O pequeno Principe, Antoine de Saint-Exupéry (1943)

Esse clássico definitivamente marcou a vida de gerações de leitores em todo o mundo, sendo a terceira obra mais traduzida no mundo. O enredo gira em torno de um piloto que cai com seu avião no deserto do Saara e lá encontro um pequeno príncipe, o levando em uma jornada filosófica e poética. Se ainda não leu, coloque-o na sua lista, e se já leu, sempre bom ler novamente.

12.Dom Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes (1605)

O livro é considerado pela crítica atual como o melhor livro de todos os tempos, sendo também um dos mais importantes romances que ajudaram a firmar o gênero na literatura. A obra gira em torno de um fidalgo que perdeu o juízo depois de ler muitos romances de cavalaria, se permitindo imitar seus heróis.

C.S. Lewis: conheça a história do autor de ‘As Crônicas de Nárnia’

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Os irmãos Lúcia, Susana, Pedro e Edmundo com o leão Aslam (Foto: Divulgação)

Os irmãos Lúcia, Susana, Pedro e Edmundo com o leão Aslam (Foto: Divulgação)

Isabela Moreira, na Galileu

Há 67 anos, a pequena Lúcia se escondia em um guarda-roupa durante um jogo de esconde-esconde contra os irmãos. Entre jaquetas e casacos, ela acabou encontrando um novo mundo: trata-se de Nárnia, uma terra onde animais falam, um leão é a autoridade máxima e crianças humanas têm o poder de mudar a história.

O clássico faz parte da coleção As Crônicas de Nárnia, escrita pelo britânico C.S. Lewis. Foi a partir de uma adaptação animada da história, lançada em 1979, que a pesquisadora brasileira Gabriele Greggersen conheceu o trabalho do autor: “O desenho passava na época do Natal e tinha elementos que me deixavam emocionada”.

Mal sabia ela que aquele seria o início de uma parceria que levaria para o resto da vida. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, a pesquisadora dedicou os últimos 30 anos ao estudo e análise das obras do autor. Considerada a principal especialista em Lewis no Brasil, Greggersen recentemente traduziu cinco livros dele que estão sendo relançandos no Brasil pela editora Thomas Nelson: Cristianismo Puro e Simples, A Abolição do Homem, O Peso da Glória, Os Quatro Amores e Cartas de Um Diabo.

Conversamos com Greggersen sobre o papel da religião na obra de C.S. Lewis e a forma que As Crônicas de Nárnia impactou seus leitores. Confira abaixo:

O cristianismo é uma parte muito importante da vida e da obra dele. Há algumas obras dele, como as de fantasia, em que isso não fica tão claro. Qual foi o papel da religião na obra dele?
Entendo que ele não tinha intenção de fazer proselitismo. Encaro a forma de ele tratar a religião na obra não religiosa como um reflexo natural, porque um autor quando escreve expõe seu mundo interior. Nas entrelinhas, aparecem valores do cristianismo, principalmente questões como amor ao próximo, amizade, busca pela paz, justiça e a igualdade. Nos livros de fantasia não há uma necessidade obrigatória de ler a religião, tanto que há pessoas que não fazem associação com religião nenhuma. Para mim, as obras de fantasia dele não são religiosas: são escritas como clássicos que são respeitados no mundo todo e que têm um conteúdo implícito cristão, isso porque um autor não consegue desligar a crença dele na hora de escrever. O objetivo não era veicular nenhum valor cristão subliminarmente, mas de expressar seu tema interior.

Qual é a importância desses livros que estão ganhando novas edições no Brasil para o conjunto das obras do C.S. Lewis?
A editora foi bem feliz na escolha das obras, porque são, nas recomendações que se fazem sobre a ordem de leitura do Lewis, as primeiras que devem ser lidas. Por exemplo, Cristianismo Puro e Simples é a Bíblia do Lewis, ele trata de várias questões que depois serão tratadas em outros livros. O mesmo se aplica a O Peso da Glória, que são sermões que ele dá abordando questões que depois o inspiraram a escrever outros livros. Já em A Abolição do Homem, vemos o lado educador do Lewis porque nele, o autor trata de educação e ética.

C.S. Lewis (Foto: Wikimedia Commons)

C.S. Lewis (Foto: Wikimedia Commons)

Qual seria a ordem correta para começar a ler Lewis?
Para quem tem uma mente mais sistemática, sugiro O Cristianismo Puro e Simples, mas para quem é mais imaginativo, e não necessariamente quer ficar filosofando, sugiro começar por As Crônicas de Nárnia.

Como foi a experiência de traduzir algumas obras do autor?
Foi um privilégio. Para mim, mais fácil que para outros, pois conheço o autor e as obras todas. A maioria dos tradutores não tem esse estudo todo do autor nem de todas as obras. Ao mesmo tempo, tive uma dificuldade que foi de ficar muito emocionada e envolvida querendo refletir e pensar e fazer novas teses. Mas foi um processo bastante prazeroso.

Uma das palestras que você dá é voltada para os significados éticos e existenciais dentro de As Crônicas de Nárnia. Pode falar sobre o assunto?
É interessante ler As Crônicas em paralelo com Cristianismo Puro e Simples, em que ele fala mais claramente da ética. Lewis fala também em A Abolição do Homem, sobre o tal, que são os valores que ele considera universais na humanidade, que não se aplicam só ao cristianismo, independente da época ou da cultura. Quais valores? Os clássicos da ética aristotélica, por exemplo, que são as virtudes cardeais, que tem a justiça, a temperança, a prudência e a moderação. Esses valores aparecem em várias cenas de As Crônicas: quando as crianças, por exemplo, decidem dar a liderança à Lúcia, apesar de ela ser a mais nova, eles foram prudentes, pois sabiam que a Lúcia conhecia o lugar e que poderia ser uma guia melhor do que o irmão mais velho. E eles também foram humildes nessa hora de reconhecer que uma criança mais nova poderia ter liderança. Tem muitas cenas que mostram coragem, justiça, sabedoria, esses valores transparecem nas cenas de ação, nos diálogos, nas atitudes que as crianças assumem durante o desenrolar da história.

O quarteto Pevensie chegando em Nárnia no filme 'As Crônicas de Nárnia', de 2005 (Foto: Divulgação)

O quarteto Pevensie chegando em Nárnia no filme ‘As Crônicas de Nárnia’, de 2005 (Foto: Divulgação)

Qual das crônicas é a sua favorita?
Sou suspeita para falar porque a minha tese foi sobre “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. Acho que ela é a chave para entender. Tanto que re-editei o livro da minha tese como “O Leão, a Feiticeira, o Guarda-Roupa e a Bíblia”, pela editora Prisma. Mas gosto muito também de “A Cadeira de Prata”, a próxima crônica que será lançada em filme, porque a Jill recebe uma missão toda especial de resgate do mundo. Essa ideia de que temos uma missão e que existe algo a ser resgatado é uma da qual eu gosto muito. Também tem muita aventura e ação, o resgate do príncipe, que está iludido por uma feiticeira, é toda uma trama da qual eu gosto bastante.

A minha crônica favorita é a primeira, “O Sobrinho do Mago”. Acho bem emocionante a imagem do Aslam cantando e criando um novo mundo.
É que cada crônica conversa com a história de vida de cada um. Elas são bastante abrangentes e tentam apelar para estilos de pessoas diferentes. Tanto que há estudos que até comparam as crônicas com planetas diferentes do Sistema Solar — e dá também para fazer um perfil de personalidade relacionado com cada crônica. Cada uma delas apela para um tipo de pessoa diferente.

Um dos outros tópicos que você aborda nos seus estudos é o Caspian como o “herói narniano”. O que isso significa?
Na verdade, ele como herói de Nárnia foi um trabalho de Hollywood, que gosta de heróis e anti-heróis. Acho que foi mais uma coisa da produção cinematográfica de colocá-lo em destaque do que propriamente a intenção do Lewis. O herói do Lewis é, na verdade, mais parecido com o do Tolkien — que trabalha com o hobbit, o ser mais desprezível do mundo da Terra Média, baixinho, que não gosta de aventuras, meio medroso —, uma figura bizarra que não tem nada a ver com os super-heróis da Marvel. Mas acontece que a figura do herói é universal e tem apelo, tanto que o livro do Caspian é o que mais vende entre os meninos. É uma coisa meio humana de querer ver o herói e escolher um salvador. Nesse sentido que o Lewis trabalha a ideia do salvador. Mas a grande salvadora das crônicas todas, para mim, é a Lúcia.

Pedro e o Príncipe Caspian (Foto: Divulgação)

Pedro e o Príncipe Caspian (Foto: Divulgação)

Por quê?
Primeiro que ela é uma das que mais aparece nas histórias. A Susana sai no começo, o Pedro também fica logo muito velho para participar. A Lúcia também tem um papel importante, até mesmo em “O Príncipe Caspian”, é ela quem tem as visões. Ela tem uma intimidade maior com o Aslam. Essa é uma ideia muito cristã: os grandes santos são os que tiveram mais proximidade com Deus e visões mais aproximadas da divindade. Entre os personagens de Nárnia, a Lúcia é a que mais representa essa ideia do herói santo.

Livros de metal encontrados em caverna na Jordânia poderão mudar a versão bíblica

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Cerca de 70 livros de metal podem mudar a história como conhecemos com uma nova visão bíblica do apocalipse.

Publicado no Blasting News

Livros de metal com inscrições bíblicas

Livros de metal com inscrições bíblicas

Uma antiga coleção contendo mais de 70 livros pequenos, cada um com em torno de 5 a 15 páginas de chumbo poderá desvendar alguns dos segredos dos primórdios referentes ao Cristianismo. Segundo Ziad Al-Saad, diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia, talvez ”essa possa ser a descoberta mais importante da arqueologia”.

Embora os pesquisadores ainda estejam divididos quanto a autenticidade dos artefatos, os livros foram descoberto há cinco anos escondidos dentro de uma caverna em uma remota região da Jordânia.

Os testes iniciais confirmam que estes livros datam do primeiro século, esta estimativa está baseada na forma como ocorreu a corrosão do metal, algo que os pesquisadores acreditam que não possa ser reproduzido artificialmente. Após a conclusão dos estudos, os livros poderão entrar para a história como os primeiros registros cristãos antecedendo os escritos pelo apóstolo Paulo.

A maioria das páginas de metal são do tamanho de um cartão de crédito, os textos estão escritos em hebraico antigo, sendo que a maior parte em código. Depois de serem descobertos por um pastor na Jordânia, os artefatos foram adquiridos por um beduíno israelense acusado de contrabandeá-los para Israel, onde encontram-se hoje. O governo da Jordânia tenta reaver os seus artefatos, mas sem sucesso até o prezado momento.

Philip Davies, professor emérito dos estudos bíblicos da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, acredita que há fortes indícios de que estes livros sejam de origem cristã. Segundo ele, os artefatos mostram mapas da Jerusalém do primeiro século. Nos livros também encontram-se diversas imagens cristãs, uma cruz em primeiro plano e por trás destas imagens pode-se ver o túmulo de ”Jesus” em uma pequena construção. Atrás estão os muros da cidade a crucificação ocorreu fora dos muros.

A doutora Margaret Barker, ex-presidente da Sociedade de Estudos do Antigo Testamento, explica: “O livro do Apocalipse fala de um livro selado que seria aberto somente pelo Messias. Acredita-se que os cristãos na época fugiram da perseguição em Jerusalém rumando para o leste atravessando a Jordânia perto de Jericó e foram para a região onde esses livros foram achados.”

Segundo ela, o fato do material ser cristão e não judaico está relacionado ao fato destas escritas estarem em formato de livros e não pergaminhos. A religião cristã está associada com escritas em formatos de livros. Os antigos cristãos guardavam estes livros como parte da tradição no início do cristianismo. Caso seja confirmado em análises iniciais, os documentos poderão trazer uma nova compreensão de um período bastante significativo e pouco conhecido até o prezado momento.

A doutora refere-se ao período entre a morte de Jesus e as primeiras cartas do apóstolo Paulo. Segundo ela há referências históricas em alguns trechos destes acontecimentos, mas foram deixados poucos registros por quem realmente vivenciou o surgimento da igreja cristã. Estes registros sanaria e muito a dúvida de quem busca pela veracidade dos relatos sobre a trajetória de Cristo naquela época.

Mulher de Tolstói ganha voz própria

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William Grimes, na Folha de S.Paulo

Durante seu longo e muitas vezes turbulento casamento com Lev Tolstói, Sophia Andreevna Tolstói suportou muita coisa, mas “Sonata a Kreutzer” foi um castigo incomum.

Publicada em 1889, a história apresentou a visão cada vez mais radical de Tolstói sobre as relações sexuais e o casamento, por meio de um monólogo frenético feito por um narrador que assassinou sua esposa num acesso de ciúmes e nojo.

Em seu diário, Sophia escreveu: “Não sei como ou por que razão todo o mundo ligou ‘Sonata a Kreutzer’ a nossa própria vida de casados, mas foi o que aconteceu”. Escreveu também: “Também eu sei em meu íntimo que esta história é voltada contra mim e que me fez uma injustiça enorme, me humilhou aos olhos do mundo e destruiu os últimos vestígios de amor entre nós.”

Sophia apresentou seus próprios pontos de vista em duas novelas, “Whose Fault?” (de quem é a culpa?) e “Song Without Words” (canção sem palavras), que ficaram esquecidas nos arquivos do Museu Tolstói até sua publicação recente na Rússia. Michael R. Katz, professor aposentado de estudos da Rússia e Europa do Leste no Middlebury College, no Vermont, incluiu as histórias em “The Kreutzer Sonata Variations” (variações da sonata a Kreutzer), ampliando assim uma onda de trabalhos recentes que avaliam a esposa de Tolstói como figura merecedora de atenção por suas próprias qualidades.

O escritor russo Lev Tolstói - Divulgação

O escritor russo Lev Tolstói – Divulgação

“Ao ler essas novelas, minha primeira reação foi de assombro porque existiam e ninguém sabia delas”, disse Katz. “Minha segunda reação foi pensar: ‘Não são más histórias. Podem não ser literatura de primeiro nível, mas vieram de uma mulher instruída, culta, pensativa.”

“Whose Fault?” conta a história de Anna, 18 anos, bem nascida e educada, que visualiza o casamento como a união de duas mentes, almas gêmeas compartilhando o amor pela filosofia e as artes, desfrutando juntas as mesmas atividades de lazer e dedicando-se a seus filhos.

As queixas arroladas pelo narrador de Tolstói são rebatidas na narrativa tristonha de sua mulher sobre decepção amorosa, a incompatibilidade entre o desejo sexual masculino e a sede feminina de satisfação emocional, as diferentes expectativas e imposições do parto e criação dos filhos.

“Song Without Words” explora a fronteira maleável entre a atração intelectual e sexual. A história apresenta uma versão mal disfarçada da amizade intensa de Sophia com o compositor Sergei Taneyev.

A atmosfera de conflito e desilusão que permeia as histórias reflete com precisão o casamento dos Tolstói, especialmente nos anos depois de o escritor passar por uma crise espiritual e criar uma vertente idiossincrática do cristianismo.

Essa fé reencontrada o mergulhou em contradições que dificultaram sua vida e a de sua mulher até sua morte, em 1910. Tolstói foi um rico latifundiário que via a propriedade privada como imoral, um igualitarista cercado por empregados, um artista que rejeitava quase toda a arte, vendo-a como nociva, um defensor do celibato que teve 13 filhos e continuou sexualmente ativo até depois dos 80 anos de idade.

Katz traduziu as novelas ao inglês e acrescentou materiais que lançam luz sobre o furor desencadeado por “Kreutzer” e extratos das cartas de Sophia, de seus diários e de sua autobiografia, “My Life” (minha vida), outro trabalho que passou várias décadas juntando poeira.

Nos últimos anos de vida de Tolstói, e até muito tempo depois de sua morte, seus discípulos retrataram Sophia como vilã, a megera que fez o possível para manter o escritor afastado de seu trabalho. Surpreendentemente, foi Sophia quem saiu em defesa de Tolstói quando “Sonata a Kreutzer” enfrentou dificuldades com a censura. Como curadora da obra literária de seu marido, ela viajou a São Petersburgo em 1891 para defender a causa da novela diante do czar Alexandre 3˚.

Usando de charme e sofismas, argumentou que “Sonata a Kreutzer” defendia a pureza sexual, que certamente era uma coisa boa. Ademais, acrescentou, um favor do czar poderia encorajar seu marido a voltar a escrever obras como “Anna Kariênina”.

“Isso seria tão bom!”, respondeu o czar. A proibição foi revogada.

Crítica: Livro de historiador expõe contradições de Malcolm X

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Eleonora de Lucena, na Folha de S.Paulo

Capitalismo e racismo andam juntos na história. Discriminações servem para dividir e oprimir grupos. Poucos personagens sorveram dessa realidade de forma tão radical quanto Malcolm X.

De pregador do ódio racial, ele se transformou em liderança pelos direitos humanos, afrontando o poder do governo norte-americano.

Era o período da Guerra Fria, e Malcolm passara a defender os países do Terceiro Mundo e a flertar com as ideias socialistas. Percorrera a África e o Oriente Médio, enterrando o sectarismo cego que o marcara até então. Já não satanizava os brancos nem advogava a criação de um Estado negro separado.

O ativista Malcolm X fala à imprensa em Washington, em 1963, dois anos antes de ser assassinado (Associated Press)

O ativista Malcolm X fala à imprensa em Washington, em 1963, dois anos antes de ser assassinado (Associated Press)

Os meandros dessa transformação são dissecados pelo historiador norte-americano Manning Marable em “Malcolm X, uma Vida de Reinvenções”, obra vencedora do prêmio Pulitzer de 2012.

Diferentemente de Martin Luther King, fruto da pequena burguesia instruída e endinheirada de Atlanta, Malcolm X veio do gueto urbano moderno: vivenciou a pobreza, a falta de emprego, a violência, a segregação.

Na juventude, meteu-se em arrombamentos, roubos, furtos, prostituição. Lavou pratos e vendeu maconha. Preso, virou muçulmano. “O crescimento econômico do pós-guerra tinha deixado muitos afrodescendentes para trás”, escreve Marable.

Malcolm incorporou a cadência do jazz ao seu estilo de oratória e levou multidões a aderir ao islã e a protestar contra a violência policial.

Leitor voraz a partir do tempo de cadeia, fazia discursos sobre o legado da escravidão, atacando o cristianismo e o governo dos EUA.

Seguindo a trajetória do líder, o historiador aponta também suas escorregadelas em entrevistas e seus erros estratégicos. Malcolm chegou a ter encontro com a Ku Klux Klan.

O autoritarismo do seu grupo islâmico e a seita de supremacia branca eram lados de uma mesma moeda: racismo e segregação. O pensamento de Malcolm deu um giro quando se aproximou dos embates de seus seguidores e conheceu outras experiências de luta pelo mundo.

Marable observa que o líder percebeu que só teria êxito “se se juntasse ao movimento de direitos civis e outros grupos religiosos para uma ação conjunta. Não se podia simplesmente deixar tudo por conta de Alá”.

MUDANÇA DE POSTURA

Arrependido de ter ridicularizado King em discursos no passado, Malcolm o cumprimentou. O aperto de mãos traduziu a mudança: o líder rebelde trocava a violência pela batalha do direito ao voto.

“União é a religião certa”, declarou. E se autodefiniu: “Não sou antibranco, sou antiexploração e antiopressão”. O historiador afirma que Malcolm tornou-se “uma ameaça ainda maior” para o governo dos EUA após o seu rompimento com a Nação –o grupo islâmico de características xiitas que abraçara na cadeia.

O historiado Manning Marable, autor de "Malcolm X" (Associated Press)

O historiado Manning Marable, autor de “Malcolm X” (Associated Press)

O livro, rico em análises, faz uma descrição minuciosa do até hoje não esclarecido assassinato de Malcolm, em 1965. Quatro horas após o crime, o palco onde ocorrera o delito estava lavado para um baile de aniversário.

Marable compara Malcolm a Che Guevara e cita as influências do líder no movimento Black Power e em músicos como John Coltrane. O autor conta que começou a trabalhar na biografia no final dos anos 1980. Desconstruindo a “Autobiografia” de Malcolm, percebeu exageros. Marable concluiu o livro pouco antes de morrer, em 2011.

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