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Bienal do Rio trava batalha para atrair mais leitores

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Marcada pelo gigantismo, a festa do livro quer despertar novos fãs da literatura em meio a um público acomodado às facilidades da internet

Sofia Cerqueira, na Veja Rio

Vestido com uma armadura enferrujada, um fidalgo meio abilolado, montado em seu cavalo, teima em resgatar os tempos gloriosos e heroicos em que a coragem, a virtude e o amor puro por uma donzela dominavam o imaginário medieval europeu. Vire a página. Com seus olhos de ressaca, personalidade misteriosa e sedutora, a protagonista deixa uma intrigante dúvida no ar: ela traiu ou não o marido? Mais uma folheada. Na Inglaterra vitoriana, um aristocrata se vale das últimas novidades da ciência e da lógica dedutiva para desvendar casos intrincados e insolúveis. Para quem é familiarizado com os clássicos da literatura, não é preciso dar maiores explicações para compreender que se trata da descrição de Dom Quixote, Capitu e Sherlock Holmes, criações magistrais de Miguel de Cervantes, Machado de Assis e Arthur Conan Doyle. Encarnados, respectivamente, por personalidades como Cauã Reymond, Bela Gil e Pedro Bial, tais personagens emblemáticos foram escolhidos para protagonizar uma ambiciosa campanha de incentivo à leitura a ser lançada na Bienal do Livro, evento que começa na quinta (31), no Riocentro.

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Batizada de Leia-Seja, a iniciativa tem a missão hercúlea de chamar atenção para uma prática que é crucial na formação cultural de uma sociedade e, de forma impressionante, vem caindo em desuso no país: a leitura de livros. Além de Cauã, Bela e Bial, a campanha trará o técnico de vôlei Bernardinho como o capitão Rodrigo, de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, a cantora Baby do Brasil e o publicitário Washington Olivetto (o idealizador das peças publicitárias) como a Emília e o Visconde de Sabugosa, ambos do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. A campanha é uma reação a números assustadores. As vendas de livros no país, o principal indicador de quanto se lê por aqui, despencaram 20% entre 2014 e 2016, o que significa 50 milhões de exemplares a menos nas mãos do público. “A Bienal é um oásis no meio desse cenário. A ideia é aproveitar a festa, que tem atraído cada vez mais jovens, para ressaltar o potencial de uma boa história e despertar novos leitores”, diz Marcos Pereira, sócio da editora Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), entidade responsável pelo evento e pela campanha publicitária.

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Ainda que os números do mercado editorial delineiem um cenário pouco animador, a Bienal do Livro do Rio segue, paradoxalmente, como um sucesso estrondoso de público e vendas. Depois do réveillon e do Carnaval, é o terceiro maior evento do calendário carioca em termos de público. Durante onze dias, calcula-se que mais de 670 000 pessoas passarão pelo Riocentro. Embora a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016, tenha revelado que 30% da população nunca comprou um livro, cada visitante sai do pavilhão de Jacarepaguá carregando, em média, seis volumes. E os números superlativos não param aí. Neste ano, 5,5 milhões de livros estarão expostos — uma massa de encadernações que, colocadas lado a lado, cobririam com folga os 1 375 quilômetros entre o Rio e Brasília. O público que participará dos bate-papos e encontros com os autores deve somar 113 500 pessoas, o equivalente a um Maracanã e meio lotado. São esperados 338 escritores (doze deles internacionais), contra os 226 que estiveram na edição anterior. Para garantir que tudo funcione, foi montada uma equipe gerencial para lidar com grandes multidões, uma especialidade que os americanos chamam de crowd management. Além de dimensionar a estrutura para receber fãs de autores tratados como pop stars, o grupo tratará de monitorar as redes sociais. Já se prevê que a youtuber Kéfera Buchmann e os fenômenos teen Larissa Manoela e Maisa Silva (aquela que foi estrela mirim do Programa Sílvio Santos) provoquem cenas de histeria explícita. Entre as medidas adotadas para evitar tumultos está a ampliação da central de distribuição de senhas para sessões de autógrafo. “Deixamos de ser só uma feira para nos transformar em um grande evento cultural. Não existe dia calmo, é quase uma rave de duas semanas”, brinca Tatiana Zaccaro, diretora da Bienal e representante da Fagga, empresa que organiza a estrutura junto com o Snel.

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No embalo festivo, a campanha que joga luz sobre o prazer e o poder da leitura protagonizada por celebridades envolverá uma série de atrações espalhadas pela Bienal. Logo na entrada, o slogan Leia-Seja em letras garrafais será um convite às selfies. Pelos corredores haverá atores encarnando protagonistas de clássicos da literatura (também prontos para aquele clique para as redes sociais) e imensos painéis com fotos e vídeos da ação publicitária — que, numa segunda fase, terá Lázaro Ramos e Taís Araújo como Romeu e Julieta. Tamanho esforço tem o objetivo de cativar um público cada vez mais afeito à velocidade do mundo digital e fascinado com os videogames e a televisão pela internet. Na última pesquisa realizada sobre o tema, a leitura aparece em um mirrado décimo lugar entre as atividades preferidas dos brasileiros em seu tempo livre. Assistir à televisão continua no topo do ranking, mas chama atenção o salto dado pelo uso da web, cravado no terceiro lugar, abaixo do hábito de ouvir música. O costume de navegar pelo mundo digital, que em 2011 era o preferido de 24% dos entrevistados, em 2015 passou a atrair 47% deles. O mesmo estudo revela que a população lê em média quatro livros por ano, incluindo os didáticos. Um número ínfimo se comparado, por exemplo, aos doze lidos, em média, por cada habitante dos Estados Unidos. Na Alemanha, um levantamento divulgado em agosto mostrou que 61% das crianças entre 6 e 13 anos daquele país leem livros mais de uma vez por semana. Em contrapartida, só 34% delas veem vídeos no YouTube, plataforma que é um fenômeno por aqui. “Não se pode dizer que o jovem brasileiro não lê. Ele fica o dia todo consumindo conteúdo na internet, trocando mensagens escritas no WhatsApp. O problema está na falta de qualidade e na tendência ao imediatismo nesses meios, com textos vapt-vupt e respostas mastigadas”, alerta Silvia Colello, professora de psicologia da educação da Universidade de São Paulo (USP). O médico Fábio Barbirato, chefe do setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia, vai mais longe: “Além de não desenvolver o senso crítico como o livro, o ambiente virtual é excitante e cheio de estímulos que podem levar ao vício. A questão não é proibir, mas impor limites”.

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Não é por acaso que a maior festa do livro brasileira tem atrações cuidadosamente pensadas para esse público mais jovem e totalmente conectado ao ambiente virtual. Com capacidade para 400 pessoas por sessão, a Arena#SemFiltro promoverá debates sobre temas como intercâmbio cultural, diversidade sexual, games e moda. A lista de convidados vai do filósofo Mário Sérgio Cortella à celebridade da internet Maju Trindade, passando por atrizes como Marina Ruy Barbosa e Sophia Abrahão, que já lançaram livros. Pela primeira vez, a Bienal também terá um espaço, o Geek & Quadrinhos, voltado para os aficionados de super-heróis, ficção científica, literatura fantástica e, claro, HQs. Em uma área de 200 metros quadrados, o público poderá participar de discussões e disputas sobre o mundo da cultura pop, testar equipamentos de realidade virtual, experimentar novos jogos de tabuleiro e assistir a competições entre ilustradores profissionais sobre obras de literatura fantástica e ficção científica. Fazem parte do programa sessões de swordplay, embates que simulam lutas medievais, e oficinas de quadrinhos e de maquiagem, incluindo a de cosplay — nome dado ao hobby de fantasiar-se de personagens das histórias. “O sucesso de eventos como a feira Comic Con Experience mostrou que não dá mais para ignorar esse público. O espaço, além de atrair esses fãs, vai despertar a curiosidade do visitante em geral”, acredita Affonso Solado, um dos grandes nomes da literatura fantástica nacional e curador da área.

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Espelho do mercado editorial, a Bienal nunca esteve tão heterogênea. Atualmente não há um fenômeno que arrebate leitores brasileiros em profusão como ocorreu, por exemplo, com a saga do bruxinho Harry Potter — 450 milhões de títulos vendidos no mundo, 4 milhões no Brasil. A área que demonstra melhor desempenho hoje é um segmento de não ficção, que engloba autoajuda, espiritualidade e biografia. Nesse último gênero, um dos grandes êxitos de vendas, com 300 000 exemplares comercializados, é o livro de Rita Lee, que ainda não confirmou presença na festa. Na linha autoajuda, o destaque é o repórter americano Charles Duhigg, ganhador do Pulitzer, o maior prêmio na área do jornalismo e literatura dos Estados Unidos. Ele é o autor de O Poder do Hábito, uma espécie de livro-incentivo para quem quer turbinar a atuação profissional. A britânica Paula Hawkins, que já vendeu 20 milhões de unidades de A Garota do Trem, e a portuguesa Sofia Silva, que arrebatou os brasileiros no meio digital com a série Quebrados, também são apostas entre os autores internacionais. Além de contar com as novas áreas, a feira oferece o Café Literário, dedicado a debates, o auditório Encontro com Autores, o espaço mirim EntreLetras e setores para autógrafo. “A intenção é abranger um público o mais variado possível, sem deixar de estar atento à estrutura”, explica Cida Malka, gerente de eventos paralelos da Bienal.

Lançada em 1983 de forma acanhada em um salão do Copacabana Palace, a Bienal carioca chega à sua 18ª edição sem comparação entre seus pares. Não é exagero dizer que não há nenhum evento voltado para a literatura com estrutura e abrangência iguais. A Feira de Frankfurt, na Alemanha, a principal referência no setor, restringe-se, na maior parte do tempo, aos profissionais do mercado editorial, com os estandes abertos ao público em geral apenas nos fins de semana. Em Buenos Aires, até existe uma iniciativa com moldes parecidos, mas bem mais enxuta. Por aqui, a Bienal de São Paulo, por exemplo, só começou a trazer autores internacionais nas últimas edições. Entre encontros, debates e palestras, a festa carioca neste ano se supera, com 353 horas de programação cultural, 40% mais do que em 2015. O cenário é perfeito. Resta agora despertar a centelha latente em um público que cada vez mais se acomoda às facilidades do computador e do celular.

8 dicas para aprender em tempos de pressa

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Foto: Reprodução/Tumblr/pianoandstudy)

Foto: Reprodução/Tumblr/pianoandstudy)

 

Mauricio Peixoto, na Galileu

Vivemos em um mundo cheio de questões e problemas científicos. Do aquecimento global, passando pelos alimentos que você come ou por como você vai pagar por algo que comprou, todos são, de alguma forma, problemas que envolvem algum tipo de conhecimento. Estamos imersos em uma explosão de informação. O problema é que, apesar de o cérebro ter evoluído muito nesses milhões de anos, a quantidade de coisas que precisamos saber aumentou bem mais que a sua capacidade de processamento. Então, o que fazer? A resposta está em usar a inteligência. Inventamos maneiras de usar o cérebro com mais eficiência.

Veja estas dicas de como usá-lo melhor e boa viagem na trajetória para se tornar uma pessoa maior e melhor!

1 – Não tema, seja curioso

Use a curiosidade para se orientar: ela torna o aprendizado mais pessoal e prazeroso. Não tente assimilar tudo, você decide o que aprender! Leia livros, veja vídeos, converse com quem sabe mais e construa uma reserva de informação.

2 – Pratique o ceticismo
Não é porque está escrito ou passou na TV que é verdade: as pessoas podem se enganar ou mentir. Pergunte-se as razões para acreditar no que você ouve. Confira com o que você já sabe, busque outras fontes. Isso se chama Pensamento Crítico.

3 – Aprenda a pensar
Refletir sobre sua linha de pensamento e otimizá-la é importante. O preconceito, por exemplo, é uma forma errada de pensar, e esses erros podem levar a escolhas ruins. Psicólogos, coachs e filósofos podem ajudar nesse aprendizado. Procure-os!

4 – Faça planos de aprendizado
Na sobrecarga de informação, você se sente perdido, não consegue decidir nada. E o estresse é ruim para muita coisa, inclusive para o pensamento. Planejar faz com que você foque no que interessa. Mas também não é para planificar tudo e todos.

5 – Nunca deixe de perguntar
Questionar é uma excelente estratégia: revela o que você sabe, o que não sabe e permite escolher o que aprender. Use a curiosidade para decidir o que perguntar. Quê? Quem? Quando? Por quê? Para quê? Perguntas o dirigem ao que é importante.

6 – Aprenda a ler com eficiência
Todo bom texto tem estrutura e ideia central. Saber disso permite apreender informações de um jeito mais rápido e preciso. Aprenda a ler ideias com técnicas como Leitura Inspecional, Analítica e Sintópica. Busque auxílio de profissionais!

7 – Aproveite a tecnologia
Celulares permitem fazer anotações, fotografar informações, gravar palestras, ler e-books. Mas é preciso saber usar a tecnologia a seu favor. A internet é território livre: releia o que escrevi sobre curiosidade, ceticismo saudável e pensamento crítico.

8 – Registre, memorize e use
Sua memória tem limites. Qual a melhor forma de registrar? Depende. Pessoas visuais beneficiam-se com Mapas Mentais — são uma boa forma de organizar o conhecimento. Use seus registros e resgate–os sempre que possível, como nas eleições.

 

*Maurício Peixoto é Doutor em Medicina, Professor associado da UFRJ, líder do GEAC-UFRJ e membro do Laboratório de Currículo e Ensino Núcleo de Tecnologia para a Saúde (Nutes).

Projeto do MIT identifica ‘nerds’ que são ‘reis da gambiarra’ em favelas do Rio

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Gambiarra Favela Tech estimula potencial criativo e artístico de jovens e ensina conceitos básicos de matemática e física.

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Publicado no G1

Pamella está grávida do segundo filho, tem 24 anos, quer estudar psicologia, e mora em Vigário Geral. Luiz tem 19 anos, está em dúvida entre ser arquiteto ou artista plástico e mora em Realengo. Davi tem 14 anos, ainda vai decidir se quer ser advogado ou enfermeiro e mora em Pilares.

Em comum, os três jovens de bairros de periferia do Rio de Janeiro têm a vocação para criar “engenhocas” – ou “gambiarras” -, verdadeiras invenções da engenharia doméstica, e participam do primeiro “Gambiarra Favela Tech”. O projeto tenta identificar “nerds” em diferentes comunidades cariocas, colocando-os em contato, estimulando seu potencial criativo e artístico e ensinando conceitos básicos de matemática e física.

A iniciativa é do laboratório digital Olabi e da ONG Observatório de Favelas em parceria com a Fundação Ford e o MIT (Massachusetts Institute of Technology). O projeto é uma tentativa de devolver a cultura “maker” às suas origens: as oficinas e garagens onde pequenos “gênios” anônimos desenvolvem soluções para os problemas do cotidiano – usando princípios de elétrica, eletrônica e informática, com uma boa dose de criatividade.

Para serem selecionados, todos tiveram de provar alguma habilidade. Há os que montam e desmontam computadores, criam sistemas de iluminação com extensões improvisadas, consertam ventiladores, desenvolvem adaptadores para tomadas, montam pequenos geradores e até lidam com softwares de código aberto.

Ricardo Palmieri, artista digital e especialista em interfaces interativas que trabalha há dez anos com oficinas nos campos da robótica, eletrônica e audiovisual, explica que o termo “maker” é a forma atual para descrever os improvisos criados ao redor do mundo, seja em badalados laboratórios de inovação, comunidades de países em desenvolvimento ou na boa e velha garagem de um avô “professor Pardal”, que “todo mundo tem ou conhece alguém que tenha”.

Ao ministrar as duas semanas de oficinas para Pamella, Luiz, Davi e outros nove colegas num galpão no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, Palmieri trabalha com três objetivos básicos: estimular a originalidade nas soluções, aproximá-los da física e da matemática e romper com preconceitos contra os materiais recicláveis, buscando peças em locais diversos que vão desde a rua até um lixão ou um ferro-velho.

“Alguns vêm de uma situação social mais vulnerável, outros nem tanto, mas todos são moradores de favela ou periferia. É interessante ver como muitos deles dizem ser chamados de ‘malucos’ por pegarem coisas do lixo para montarem suas traquitanas, mas aos poucos vão dando um valor de engenharia e arte a isso, aumentando a autoestima e vendo que podem chegar a resultados surpreendentes”, conta.

‘Mesma espécie’
O clima de criatividade e empolgação no Galpão Bela Maré, que leva o nome do complexo de favelas atualmente em processo de pacificação, contagia quem visita a oficina com adesivos coloridos e cartazes espalhados pelas paredes e um burburinho constante em torno das criações.

“A gambiarra é essa coisa de teste mesmo. Você junta uma coisa com a outra e vai vendo no que dá, é instintivo”, diz Pamella Magno Braga. Para ela, a sensação de trabalhar com os outros 11 colegas é como “encontrar pessoas da mesma espécie”.

Gabriela Agustini, do laboratório digital Olabi, explica que essa é justamente a ideia do projeto. “Não esperamos que após duas semanas eles criem invenções mágicas que resolvam todos os problemas das suas comunidades. O interessante é ver que esses meninos e meninas que já criam suas próprias soluções, mas nunca deram a isso o nome de robótica ou eletrônica.”

Segundo ela, cada um recebeu uma bolsa de R$ 500 para custear despesas de transporte e alimentação e poder se afastar de seus empregos pelo período.

MIT e favelas
O Olabi integra a rede Fab Lab, de mais de 200 laboratórios de inovação, criada em 2009 por um programa sem fins lucrativos do MIT e atualmente presente em 40 países.

“Selecionamos jovens de diferentes idades e interesses, inspirados por essa filosofia de que é na diversidade que acontece a inovação”, diz Gabriela Agustini. Ao identificar talentos ‘nerds’ em favelas e comunidades de diferentes partes do Rio, os organizadores esperam impactar o futuro desses jovens, potencializando suas capacidades e abrindo novas oportunidades.

Com apenas 14 anos, Davi Leite Pereira deixa claro que já entendeu o conceito de “networking”. “Todo mundo aqui se identificou muito rápido. Vamos ficar em contato depois.”

Gilberto Vieira, gestor de projetos do Observatório de Favelas, explica que, ao término da oficina, o Galpão Bela Maré abrigará um laboratório “maker” de forma permanente, e que a ideia é que os jovens das comunidades do entorno passem a ver a cultura criativa como algo “descolado” e interessante, propiciando um ambiente fértil para identificar novos talentos.

“A gambiarra é genuinamente favelada. É onde a luz e a internet não chegam direito, onde os serviços são irregulares, a janela não fecha e as coisas precisam de conserto logo. O ‘hype’ se apropriou disso e criou a cultura ‘maker’, e agora estamos trazendo isso de volta para a favela”, conclui.

Conheça um pouco mais sobre três dos 12 selecionados pelo Gambiarra Favela Tech:

Davi Leite Pereira, de 14 anos, estudante

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“Vou descobrir muitas coisas novas nesse curso. Por exemplo, tem fios negativos e positivos. Essa nem minha mãe sabia”, conta o menino Davi Leite Pereira, de 14 anos, que já ganhou o apelido de “mascote” por ser o mais novo do grupo.

Nascido na Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste do Rio, ele agora mora em Pilares com os três irmãos, o padrasto e a mãe, para quem a seleção no Gambiarra Favela Tech não deve ter sido grande surpresa.

“Minha mãe também faz muita gambiarra e me incentiva, mesmo quando meus irmãos me chamam de maluco. Eu conserto coisas em casa desde pequeno. Uma vez abri um ar-condicionado inteiro e depois não sabia montar de novo. Já mexi com extensões elétricas e também criei uma tomada nova para um ventilador, emendando o fio num benjamim”, conta.

Ele diz que “se amarra” em origamis (dobraduras de papel japonesas) desde criança e que tudo começou com a curiosidade pelos eletrônicos e a necessidade de arrumar aparelhos quebrados em casa, mas agora quer ir mais longe.

O plano é “entender mais de eletrônica e informática”, embora pense em cursar faculdade de direito ou enfermagem, mas também se interesse por grafite e artes plásticas. Para ele, o contato com os novos conhecimentos e a interação com os colegas têm sido motivo de empolgação.

“Já aprendi coisas que eu nem imaginava. Agora peguei um forninho elétrico num ferro-velho e pretendo construir uma caixa de surpresas ou um boneco. E, se esquentar demais, peguei um motorzinho para criar um mini ventilador que vai acoplado”, explica.

Luiz Cláudio de Almeida Santos, de 19 anos, estudante
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Acompanhar o raciocínio de Luiz Cláudio de Almeida Santos, de 19 anos, requer atenção e concentração redobradas. O que para o interlocutor é uma série de pequenas invenções e engenhocas, nada mais é do que o dia a dia normal do carioca de Realengo, bairro da Zona Oeste do Rio, que faz curso técnico de desenho de construção civil com bolsa do governo federal.

Se a caixa de som estragou porque o cabo de alimentação queimou, ele adapta o fio para um cabo USB. “Ficou melhor, porque agora carrega no computador, tablet, liga no celular. Gostei mais”, conta. Se não tem um suporte de mesa para poder olhar o smartphone enquanto trabalha, cria uma base articulada de improviso.

E, como se não fosse suficiente, ele explica que o suporte para o celular era necessário para poder olhar mensagens “enquanto monto e desmonto um computador, troco as memórias. Mas notebook é mais complicado, porque as peças são totalmente diferentes”.

Passatempo antigo do garoto, montar e desmontar eletrônicos é algo que ele faz com desenvoltura, apesar de nunca ter estudado para isso. “Ventilador é fácil. Sempre quis mesmo era entender como o computador funciona, e meu sonho era construir um robô”, conta, acrescentando que quando precisa de uma ferramenta mas não tem dinheiro para comprar, costuma improvisar e criar seus próprios utensílios.

Além do talento para a tecnologia, Luiz gosta de desenhar, pintar, e de ler mangás (quadrinhos japoneses). Ele tem na internet seu grande aliado: “Quando não sei fazer alguma coisa, vejo vídeos no You Tube. Assisto com atenção e vou aprendendo”, conta, enquanto rabisca algo no papel.

Ao fim da entrevista, mostra o resultado: “um lagarto gigante com um braço mecânico” e explica o que mais tem chamado sua atenção nas oficinas. “Estou gostando dessa liberdade que eles estão passando para a gente. Posso fazer algo mais artístico, mas também posso entender de coisas técnicas e juntar as duas coisas”, conta.

Questionado sobre o futuro, o carioca diz que gostaria de ser arquiteto, para tornar os ambientes do seu bairro mais “agradáveis”.

“No subúrbio, os pedreiros não são muito criativos. Fazem tudo quadrado, de qualquer jeito. Eu gostaria de ajudar as pessoas tornando as casas mais aconchegantes, mais direcionadas para o que elas precisam”, diz.

Pamella Magno Braga, de 24 anos, estudante
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Estudante do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pamella Magno Braga, de 24 anos, trabalha há três como bolsista num ponto de cultura digital, um programa do Ministério da Cultura – o que tem aumentado seu interesse por gambiarras.

“Sempre gostei de mexer com elétrica, inventar coisas. Já criei uma luminária a partir de uma extensão, fazendo várias emendas, e cada uma acendia uma lâmpada. Funcionou por pouco tempo, mas funcionou”, conta, bem humorada, a carioca de Vigário Geral, comunidade da Zona Norte do Rio.

Mãe de Fernando, de três anos, ela aguarda a chegada de Augusto para setembro, e diz que o marido aprova as engenhocas. “No verão teve um dia que estava fazendo muito calor, e não tínhamos ventilador. Eu me dei conta que o vento vinha da janela do corredor, e montei umas cartolinas cortadas como velas de navio, para canalizar a brisa para o quarto. Deu certo, ficou fresquinho”, explica.

Acostumada a lidar com softwares livres, onde o usuário ajuda a criar o código dos programas, ela também é viciada em garimpar peças e aparelhos na rua e em depósitos. A jovem diz que recentemente levou um botão de semáforo de pedestres para casa, mas ainda não sabe o que vai inventar com ele.

“Vou levar essa oficina para o ponto de cultura digital, vou reproduzir isso por lá. O que estou aprendendo aqui vai me ajudar, sem dúvida, porque estou vendo que você pode implementar o conceito de gambiarra para tudo, desde as soluções mais caseiras até coisas eletrônicas mais complexas. O importante é improvisar”, afirma.

Aposentado compra apartamento vizinho para montar uma biblioteca

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Antoine, de 78 anos, comprou apartamento em Santos para guardar obras.
Aposentado acabou se especializando e gosta de debater história.

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Guilherme Lucio, no G1

Um aposentado de Santos, no litoral de São Paulo, vive, literalmente, cercado de livros. Antoine Abdid, de 78 anos, precisou comprar o apartamento vizinho para conseguir guardar um acervo de cinco mil livros adquirido ao longo de toda a vida.

Abdid explica que não foi fácil comprar o apartamento ao lado. “Meu vizinho queria alugá-lo, mas não adiantava. Eu precisava de um lugar fixo para guardar meus livros, eu estava irredutível. Conversei com um dos filhos dele, que convenceu o pai”, disse.

Seo Antoine, que nasceu em Damasco, capital da Síria, explica que sua paixão por livros começou em São Paulo. “Eu parei de estudar no colegial. Porém, na minha época existia muito debate sobre política, história, economia e religião. Isso aguçou a minha curiosidade. Foi assim que comecei a recorrer aos livros”, explica.

Ainda na adolescência, Antoine se mudou para o bairro José Menino, onde vive atualmente. No início, ele contava com apenas 30 obras. Hoje, sua biblioteca particular possui milhares de livros de história, religião, filosofia e antropologia.

Segundo o aposentado, a biblioteca não é pública. “É difícil você emprestar livros para pessoas que você não conhece. Para os meus amigos e conhecidos, até empresto alguns, pois acho importante a leitura e o acesso a ela. O acervo que tenho é pessoal”, conta Abdid.

Aposentado comprou apartamento ao lado para guardar livros (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Aposentado comprou apartamento ao lado para guardar livros (Foto: Guilherme Lucio/G1)

O aposentado conta que marca cada livro com uma etiqueta. “Leva um certo tempo e dá trabalho. Tiro uma cópia da capa e colo na parte lateral. Além disso, vou a sebos e pego capas reforçadas que foram descartadas para colocar nos exemplares”, diz.

Além dos livros, o idoso também coleciona algumas centenas de DVDs. “Isso me mantém ativo. Mesmo com uma certa idade, precisamos nos manter ativos e fazer algo que gostamos. E os livros são a minha paixão”, afirma.

“Marx era igual a Jesus Cristo. Acreditava que o homem era bondoso, misericordioso”
Antoine Abdid,
78 anos

Comunismo

Antoine se diz um homem apaixonado por história, que considera fundamental na vida do ser humano. “Nós precisamos conhecer a nossa história. Precisamos saber o que aconteceu no passado, quais foram os erros e quais foram os acertos. Não entendo como as escolas de hoje têm tão poucas aulas de história”, afirma.

Católico apostólico romano e ex-comunista, o aposentado explica o motivo pelo qual acredita que o sistema não deu certo. “A Rússia, que foi onde o comunismo teve ínicio, não era um país preparado para esse sistema. Talvez, se o primeiro país a implantar o comunismo tivesse sido a França ou a Inglaterra, ele poderia ter dado certo. Karl Marx era igual a Jesus Cristo. Acreditava que o homem era bondoso, misericordioso. Mas, na vida real, as coisas não funcionam bem assim. O homem é mau, vive conspirando, só pensa no próprio bem estar. O homem é o lobo do homem”, desabafa.

Antoine também tem uma teoria sobre o início das religiões. “Tudo teve início no Egito. Foi lá que as religiões, próximas ao que conhecemos hoje, tiveram início. Depois foi para a Grécia e o Oriente”, diz.

Para Antoine, Karl Marx pensava como Jesus Cristo (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Para Antoine, Karl Marx pensava como Jesus Cristo (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Mein Kampf

Livro de Hitler faz parte da coleção do aposentado (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Livro de Hitler faz parte da coleção do aposentado
(Foto: Guilherme Lucio/G1)

Dentre os milhares de livros de seu acervo, Antoine tem alguns exemplares mais “exóticos”, outros raros, como uma das primeiras edições do livro de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta, em português). Antes de tocar no assunto, ele preferiu deixar algo bem claro. “Muitas pessoas associam o livro ao nazismo. Eu sou uma pessoa apaixonada por história e por livros de história. Não quero que confundam as coisas”, enfatiza. O aposentado explica que leu apenas parte do livro. “Não cheguei ao final, mas achei interessante”, diz Abdid.

Sobre o regime alemão implantado durante a 2ª Guerra Mundial, Antoine explica que o regime foi “útil” para a Alemanha. “É lógico que houve problemas, mas a Alemanha conseguiu se reerguer. O objetivo principal era conquistar a Europa, como Napoleão também tentara, e não conseguiu”, conclui.

Aposentado tem livros por todo o apartamento (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Aposentado tem livros por todo o apartamento (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Livros que servem para conservar o mundo

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De vez em quando, a meio da semana e aproveitando a doçura daquele silêncio outonal que abençoa os pinhais em redor da casa, Dona Elaine, a guardiã e governanta do eremitério de Moledo, fica de pé observando as estantes que cobrem todas as paredes daquilo a que chamamos, na família, “a biblioteca”. São uns milhares de livros com proveniência muito diversa e que servem, fundamentalmente, para ler.

Antonio Sousa Homem no Correio da Manhã

A utilidade dos livros, entre os Homem, nunca se desviou muito dessa estrita finalidade. Não se tome a afirmação por arrogância, digamos, intelectual. Há, claro, uma certa vaidade de bibliómano e um certo prazer na posse de um exemplar raro, uma primeira edição, uma curiosidade; mas a vaidade dos Homem tomou sempre outra direcção. O velho Doutor Homem, meu pai, por exemplo, guardava-se para a meia-estação a fim de vestir os seus fatos de ‘tweed’ de Donegal (o único que ele achava digno de um cavalheiro colonial, considerando que não ligava à distinção entre o Eire e o Ulster) e dar uso aos bonés irlandeses que o protegiam, durante os seus passeios à beira-mar, de um frio inexistente. Era essa a prova da sua vaidade. O Tio Alberto, tirando o facto de ser considerado o bibliómano da família, preferia ser considerado pelos seus dotes culinários e por ser reconhecido pelos porteiros do velho Hotel du Lac em Genebra, onde repousava das suas viagens em redor do Cáspio antes de regressar à solidão melancólica de São Pedro de Arcos. E a Tia Benedita, tirando a literatura pia e dois ou três romances de que ignorava os títulos, considerava a vaidade um pecado capital de primeira grandeza. Sobrei eu. Durante anos, décadas, não havia opúsculo de história regional do Minho que não cativasse a minha atenção. Mas não por vaidade absoluta e maldosa. Apenas por ingenuidade e um resto de entusiasmo adolescente (coisa que sempre foi duvidosa, uma vez que a família considera que nasci já adulto e que não passei pela adolescência).

De modo que Dona Elaine estaciona diante das prateleiras e, baixinho, pergunta: “O senhor doutor não sabia o que fazer sem estes livros, pois não?”

Não. Não saberia o que fazer. A minha sobrinha Maria Luísa, que acha que os livros são um contributo essencial para “mudar o mundo”, desde o mais modesto romance cheio de erros de gramática, até ao ensaio mais obtuso de um professor de Heidelberga, nunca compreendeu que os livros servem, sobretudo, para “conservar o mundo”. Se quiséssemos mudar o mundo, andávamos lá fora, atrevidos e inconsoláveis. São estas coisas que definem um reaccionário em épocas de intempérie.

 

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