Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Lançamentos Literários de Janeiro de 2014

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O trio simpático do Cabine Literária: Danilo, Gabriel e Lúcia abre 2014 com um vídeo fresquinho sobre os lançamentos desse mês.

Assista e divirta-se! =)

ERRATA: Confundiram a sinopse de “Segredos e Mentiras”. A sinopse lida é do livro “A história de Despereaux”, de Kate DiCamillo.

A era do escritor-espetáculo

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Além de escrever bem, os novos autores precisam saber divulgar seus livros

Danilo Venticinque na revista Época

Na pré-história da literatura, o escritor que saltitava de evento em evento para divulgar seu livro era chamado de arroz de festa. Não importava o tema ou o local: lá estava ele, esticando sua rede de contatos no mercado editorial e, com alguma sorte, conquistando um a um os raros leitores. Hoje há mais feiras literárias do que escritores no Brasil, e os escritores também se tornaram festas. Em seus sites pessoais, blogs e perfis em redes sociais, há milhares de leitores dispostos a acompanhar seus passos. Não basta ler seu autor favorito: é preciso segui-lo, curtir suas fotos, comentar seus posts e divertir-se com fragmentos de sua personalidade. Qualquer página no Facebook é uma festa literária permanente em que autores podem encontrar seus fãs e interagir com seus colegas.

Cada autor sabe a melhor maneira de cativar sua audiência. Paulo Coelho publica textos curtos e vídeos em diversos idiomas. Neil Gaiman mantém um diário com pensamentos aleatórios e fotografias de suas viagens. O poeta Carpinejar compartilha aforismos sobre amor no Twitter. Thalita Rebouças já gravou até um vídeo em que canta e ensina seus 130 mil fãs a fazer mousse de maracujá. Não te apetece? Pouco importa. Se os escritores são como festas, basta lembrar que cada uma é feita para um público diferente. A diversão de uns pode ser insuportável para outros. Quem não gostou de uma festa pode procurar outra. Com um pouco de persistência, é inevitável encontrar algo que lhe agrade.

Há inúmeras vantagens na postura adotada por esses escritores. Eles ajudam a popularizar a leitura, dividem com as editoras a difícil tarefa de divulgar seus livros e consolidam seus nomes no mercado editorial. Também se divertem, aparentemente. Mesmo assim, há quem seja criticado por dizer o óbvio. Numa entrevista recente ao jornal O Globo, o escritor Raphael Draccon afirmou que não haveria espaço para autores reclusos, no estilo Rubem Fonseca, no mercado nacional de livros de fantasia. Foi o suficiente para provocar uma polêmica literária nas redes sociais – algo raro hoje em dia.

 

Pouco tempo depois, Draccon publicou um texto ressaltando que o comentário era apenas sobre autores de fantasia, e que em outros estilos as regras seriam diferentes. Concordo com a entrevista e discordo da correção: excetuando os gênios incontestáveis (e raríssimos), que editora preferiria um eremita das letras a um escritor que sabe vender seu trabalho? O brasileiro até lê, mas vender livros no país não é fácil. Se um autor não se dispõe a incentivar a leitura e a divulgar seus livros na internet e em eventos literários, é bem possível que ele esteja na profissão errada.

Isso não se deve apenas a novas regras do mercado editorial, mas também a mudanças na maneira como todos nós vivemos e consumimos informações. Na disputa pela atenção dos jovens leitores, um livro concorre com fotos de gatos, notícias de celebridades e vídeos de comédia. É uma luta inglória e desigual, que só pode ser vencida com uma boa estratégia e algum esforço. Nenhum escritor estreante arriscaria ser recluso como Rubem Fonseca. Para não desaparecer nas redes sociais, é preciso falar constantemente. O silêncio é o caminho mais curto para a irrelevância.

Para a nova geração de autores, a busca pela fama já virou tema de livros. Em Suicidas, seu primeiro romance policial, o carioca Raphael Montes, de 22 anos, conta a história de um jovem escritor que faz um pacto sangrento para garantir o sucesso póstumo de seu livro. Na vida real, o autor se contenta em manter uma página no Facebook em que divulga eventos, publica fotos enviadas por leitores, compartilha resenhas do livro e dá pistas sobre seus próximos trabalhos. Até agora, a estratégia deu certo: seu livro de estreia vendeu mais de 5 mil exemplares.

 

Outra autora que escreve sobre o desejo de ser uma estrela é Carolina Munhóz, de 24 anos. A protagonista de seu terceiro romance de fantasia, Feérica, é uma fada que decide ser famosa e se inscreve num programa de talentos na televisão. Há algo em comum entre a autora e a personagem. O próximo projeto de Carolina é protagonizar um reality show ao lado de Draccon, com quem é casada há três anos. O programa, previsto para 2014, mostraria a rotina de um casal de jovens escritores no Brasil, seus encontros com fãs e outros eventos. Curiosamente, a ideia causou menos polêmica do que a menção de Draccon a Rubem Fonseca. Faz algum sentido. Com tantos reality shows na televisão, sobre os temas mais variados, por que não um com escritores? É a evolução natural de uma geração que perdeu a vergonha de se expor para divulgar seus livros.

Os escritores da pré-história achariam tudo isso ridículo. Para os novos autores, ridículo é não ser lido.

 

Livros para curar o incurável

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A vida é cheia de momentos em que só a literatura pode nos ajudar

Danilo Venticinque, na revista Época

Nunca acreditei nas promessas da autoajuda, mas sempre confiei no poder curativo da literatura. Não importa qual situação enfrentemos na vida, há sempre um personagem de ficção que passou por ela, ou memórias de outras pessoas que superaram os mesmos dramas. Poucas experiências são tão transformadoras quanto ler o livro certo no momento certo – e há um livro certo para qualquer estado de espírito. Se você desconfia de todos ao seu redor, há um livro que pode ajudá-lo. Sente-se traído por uma pessoa amada? Há um livro para isso. Está entediado com a futilidade da vida e em busca de um significado para tudo? Há um livro (ou talvez todos) para isso.

Como qualquer pessoa com um trabalho vagamente relacionado à literatura, vez ou outra sou procurado por alguém que quer indicações de livros. No início, ciente da minha ignorância, eu desconversava. Com o tempo, perdi a vergonha. Indicar o melhor livro para cada pessoa e cada situação tornou-se um desafio delicado e recompensador. Não é necessário qualquer treinamento para se tornar um terapeuta literário: apenas o gosto pela leitura, uma memória razoável e um pouco de pretensão.

A busca pela indicação ideal ultrapassa os limites da minha estante. Perdi a conta de quantas vezes indiquei um livro que eu não havia lido, com base na vaga impressão de que seria a leitura perfeita para aquela pessoa, naquele momento. A falta de regulamentação para os terapeutas literários permite essas irresponsabilidades. Fora isso, minha pequena experiência nessa área me convenceu de que é possível conhecer um livro sem jamais ter encostado nele.

Uma das autoras que mais indiquei sem ter lido foi Joan Didion, de O ano do pensamento mágico e Noites azuis. No primeiro, a autora descreve sua solidão após perder o marido, com quem viveu por quase 40 anos. No segundo, narra sua vida após a morte da filha, apenas 20 meses depois. Os dois livros entraram merecidamente nas listas de mais vendidos. É provável que você já os tenha lido, ou tenha ouvido falar deles. Comprei os dois quando foram lançados, mas nunca me senti preparado para lê-los. Mesmo assim, Joan Didion sempre foi minha recomendação para amigos e conhecidos que procuravam um livro para ler após enfrentar uma grande perda.

No último sábado, passei por uma dessas situações em que recorremos aos livros em busca de consolo: a morte inesperada de um grande amigo, em circunstâncias particularmente dolorosas. Na literatura, no cinema e na música, há milhares de obras que nos alertam sobre a finitude da vida e nos aconselham a aproveitar cada momento ao lado de pessoas queridas. Lamento não ter seguido os conselhos. Perdi a chance de passar mais tempo com uma das pessoas mais incríveis que conheci. A caminho do velório de meu amigo, na mesma igreja em que fui padrinho de seu casamento, não pude deixar de lembrar de todas as vezes em que deixamos de nos encontrar por preguiça, e de imaginar as conversas que poderíamos ter tido. Um doloroso e inevitável exercício de ficção.

Eu tinha outros planos para esta coluna, mas preferi deixá-los para uma semana melhor. Em vez disso, decidi seguir, com anos de atraso, a minha própria recomendação. Dediquei o resto do fim de semana a ler Joan Didion. Devagar, como quem reaprende a pensar na vida. Ainda não terminei nenhum dos livros. Tenho pouco a dizer sobre eles. Tanto tempo depois do lançamento, as melhores e as piores resenhas já foram escritas. O que importa é o que os livros têm a dizer para mim e o que já disseram para os outros leitores. Foi uma indicação acertada, tanto para eles quanto para mim.

Por alguma coincidência, o luto é o tema principal de dois livros que mencionei em colunas recentes. Nina Sankovitch, de O ano da leitura mágica, só decidiu ler um livro por dia durante um ano porque tentava recomeçar a vida após a morte de sua irmã. Em O clube do livro do fim da vida, as conversas literárias de Will Schwalbe e sua mãe só se tornam rotineiras quando ela começa a passar por sessões semanais de quimioterapia.

Diante da certeza de que “a vida muda num instante”, como escreveu Joan Didion, nada mais natural do que recorrer aos livros para retomar o controle. São provas vivas de que não estamos sozinhos. Podemos contar com os pensamentos e as experiências de outra pessoa que enfrentou uma situação igual ou pior. Não a esqueceu, mas sobreviveu a ela e teve força para narrar sua história. Transformada em livro, a dor do autor pode ser um remédio para quem lê.

Bienal do Livro RJ: Por onde andam os meninos do Cabine?

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Gabriel saltita feliz e livremente pela Bienal do Rio, enquanto Danilo trabalha incansavelmente no evento da Paula Pimenta, lá no estande da Autêntica. Aguarde mais atualizações! \o/

Os leitores e suas loucuras

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Por que perdemos o bom senso ao entrar numa livraria?

Danilo Venticinque, na revista Época

"Manual prático de bons modos em livrarias" (Seoman, 232 páginas, R$ 32) (Foto: Divulgação)

“Manual prático de bons modos em livrarias” (Seoman, 232 páginas, R$ 32) (Foto: Divulgação)

Há quem acredite que ler livros é um sinal de inteligência. Discordo. A convivência diária comigo mesmo e as conversas com outros leitores me mostraram que somos tão atrapalhados, distraídos e imperfeitos quanto os não-leitores. Lemos não por superioridade nata, mas pelo desejo ingênuo (ou inconsciente) de tentar mitigar nossas falhas intelectuais. É um esforço divertido, mas de eficiência duvidosa. Sou uma prova viva disso. Já usei esta coluna para dizer as maiores obviedades, me contradizer e espalhar inúmeras bobagens. Errei as grafias de títulos de livros e nomes de autores. Chamei Franz Kafka de alemão – o coitado nasceu em Praga. Esqueci os créditos de tradução de um livro e tive de me desculpar, na caixa de comentários, com a própria tradutora. Graças à infinita tolerância da internet aos erros, essas bobagens foram corrigidas. Algumas desapareceram rapidamente; outras, vergonhosamente tarde. Que venham as próximas.

Para quem ainda acredita que nós, leitores, merecemos crédito por nossa inteligência, Manual prático de bons modos em livrarias (Seoman, 232 páginas, R$ 32) é a prova definitiva do contrário. O livro é uma coletânea de textos publicados no blog homônimo, criado em 2011. Sua autora, a livreira Lilian Dorea, coleciona histórias engraçadas do cotidiano nas livrarias e relatos de conversas insólitas com fregueses. O resultado é um retrato bem-humorado de nossos piores momentos dentro de uma livraria, registrados por quem tem a paciência infinita necessária para nos atender. Depois de ler os relatos reunidos no livro, não me restaram dúvidas. A literatura é infinitamente vasta, mas nossa ignorância é ainda maior.
Manual prático de bons modos em livrarias revela que somos incapazes de cumprir tarefas aparentemente simples, como reconhecer que uma livraria vende livros, que e-books não ficam em prateleiras e que o sujeito uniformizado com o crachá no meio da livraria é, sim, um vendedor.

Isso sem falar no nosso total despreparo para encontrar os livros que procuramos. É como se deixássemos o senso crítico na entrada da livraria e nos atirássemos numa série interminável de atitudes vexatórias. Desaprendemos a pedir “por favor” e a dizer “bom dia” aos livreiros. Procuramos Saramago nas prateleiras de literatura brasileira e Clarice Lispector nas de autoajuda – e ainda reclamamos quando eles não estão lá. As palavras e ideias se embaralham em nossas cabeças. Maquiavel vira o autor de O pequeno príncipe, Vade Mecum vira Mad Max e Herman Melville, de Moby Dick, vira o fundador da rede Starbucks. E há aqueles momentos em que, cegos pela nossa ânsia consumista, nos esquecemos de tudo sobre nosso objeto de desejo. Há quem chegue à livraria sabendo apenas a cor de sua capa do livro que quer comprar, ou uma palavra do título. E azar do livreiro se não conseguir encontrá-lo.

Atormentados pela convivência com esses leitores, alguns livreiros sucumbem e passam a agir como eles. A autora, impiedosa, não deixa de registrar esses momentos. Há o vendedor que confunde os romances de Agatha Christie com histórias de vampiros. Há a que mistura Ágape, do Padre Marcelo Rossi, com O Aleph, de Paulo Coelho. E outra que, incapaz de escrever o nome de Max Weber corretamente no sistema, tenta convencer o freguês de que um livro do autor não existe. (Há alguns anos, na seção de discos de uma grande livraria de São Paulo, perguntei ao vendedor sobre uma gravação do Requiem de Mozart. Ele respondeu, impassível, que Mozart não gravou nenhum rap. A história não tem nada a ver com o livro, mas tive de registrá-la aqui.) São falhas perdoáveis. Como escreve Lilian, “o delírio é contagioso”. Todo livreiro é um leitor, antes de tudo, e está sujeito aos problemas cognitivos que nos acometem quando pisamos numa livraria.

Alguns leitores ou livreiros podem se identificar com as histórias e sentir vergonha de erros passados. Não importa. Lembre-se de que o senso comum é generoso com os leitores: conservaremos sempre nossa fama de inteligentes, apesar de todas as nossas bobagens. E podemos nos divertir com elas. É impossível ler o Manual prático de bons modos em livrarias sem rir dos leitores e de seus disparates. Para entrar no clima, não anote o título antes de procurá-lo numa livraria. Esqueça o nome da editora. Diga ao livreiro que você quer o livro daquela blogueira. Aquele com a capa meio cor-de-rosa.

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