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Você sabe quando a leitura se torna uma dependência?

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Dos primeiros 10 minutos até anos de leitura, tudo o que acontece com sua mente ao devorar livros e mais livros

Publicado no A Crítica

A leitura é uma experiência imersiva que confere um novo fôlego para seu cérebro. Ele é responsável por gerar imagens e ideias enquanto você passeia por um blog literário ou mergulha na leitura do seu recém-adquirido romance. Seu cérebro faz novas conexões, estabelece diferentes padrões – uma realidade virtual ao seu alcance.?..

Os Primeiros 10 minutos

O processo é iniciado.

Seus olhos passeiam pelas letras, acostumam-se com a tipografia, a cor do papel, a disposição das palavras. Até mesmo seu olfato é estimulado (neste caso, se estiver lendo um livro impresso). Lentamente, você começa a ser transportado para outra realidade.

Começam os efeitos intelectuais. Seu cérebro lida com estrutura narrativa, já tentando reconhecer a “voz” do autor. Seu cérebro se posiciona no contexto terminológico. Oferece alguma resistência às novas ideias. Tenta te avisar que aquilo que está lendo é ficção (como se você não soubesse). Aos poucos, ele relaxa. Está preparado para se entregar.

30 minutos

Crescem os efeitos. O cérebro está criando os sinais daquilo que você lê. Seu sistema auditivo ouve. Seus olhos veem. Há uma voz em sua cabeça, além de gritos, explosões, brisas – tudo combinado com intensa claridade.

Neste momento, você é transportado para outro tempo e lugar. Sem perceber, seu corpo reage à tensão do momento. Você remexe os dedos, rói unhas, manuseia objetos. Você está lá, embora, ache que ainda esteja aqui.

60 minutos

A imersão é total. Você reage de forma perpendicular ao conteúdo da literatura: de tristeza profunda a grande alegria. Sem que se dê conta, sua boca começa a produzir diversos ruídos capazes de incomodar pessoas próximas: como resmungos ou gargalhadas. Há uma intensa conectividade psicológica com personagens e eventos. Você se distancia do mundo real. Às vezes, seus olhos se distanciam do papel e fixam-se vagamente na parede. Seus olhos visualizam tudo, em todas as cores e formas. Mas para quem o observa, você aparenta ser apenas uma figura de olhar lânguido, débil, quase um drogado. Este é o efeito de quem está sendo progressivamente exposto a novas ideias. O aprendizado e seus efeitos colaterais.

Horas

Já está presente a dependência. Separar o leitor do livro provoca sinais de abstinência como irritabilidade. Neste momento, você já experimenta o poder de envolvimento da história. Atividades normais (e essenciais) do dia a dia, como comer e dormir, podem ser negligenciadas sem que você sequer perceba.

Dias e Semanas

Dependendo do seu ritmo de leitura e do tamanho do livro, muito provavelmente, após semanas de leitura, o livro chegou ao fim. Você experimenta uma sensação de intensa melancolia. Na verdade, neste momento, muitos leitores recomeçam a ler o livro – uma forma de recuperar a intensidade que experimentaram na primeira vez.

Finalizado o livro e de volta a realidade, o mundo parece mais complicado e, ao mesmo tempo, sem graça. Não há cores e romantismo. Não há suspense e reviravoltas. Para seguir em frente, você precisa de uma dose mais forte de “mundo paralelo”. E busca outro livro, volumes ainda mais desafiadores após um breve período de recuperação.

Anos

Você já é um leitor habitual. A literatura serpenteia suas veias. Seu cérebro não se contenta com menos. Você possui um conhecimento geral ampliado e uma visão mais perspicaz do mundo ao seu redor. Um ciclo constante de aprendizado. Como um leitor habitual, você está sob iluminação contínua e uma curiosidade intelectual que é, diariamente, aprimorada.?

Cinco coisas que sabemos sobre a misteriosa escritora Elena Ferrante

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Capa do livro "A Amiga Genial" (2011) Foto: Globo / Divulgação

Capa do livro “A Amiga Genial” (2011) Foto: Globo / Divulgação

 

Próximo livro da escritora de identidade desconhecida chega às livrarias nos próximos dias

Publicado no Zero Hora

1) Elena Ferrante mantém sua identidade secreta desde a publicação de seu primeiro livro, Um Amor Incômodo, em 1992. Nos anos seguintes, publicaria Dias de Abandono (2002), La Frantumaglia (2003), A Filha Perdida (2006), Uma Noite na Praia (2007) e a Tetralogia Napolitana: A Amiga Genial (2011), História do Novo Sobrenome (2012), História de Quem Foge e de Quem Fica (2013) e História da Menina Perdida (2014).

2) Dois dos seus romances já foram adaptados para o cinema: Um Amor Incômodo, dirigido por Mario Martone em 1995, e Dias de Abandono, dirigido por Roberto Faenza em 2005.

3) A rede americana HBO e a emissora italiana RAI anunciaram em março que vão coproduzir uma série de oito episódios inspirada na Tetralogia Napolitana. As filmagens devem começar ainda neste ano.

4) Em outubro do ano passado, o repórter investigativo Claudio Gatti publicou uma reportagem baseada em análise de dados financeiros que indicava que a tradutora Anita Raja é a verdadeira autora por trás do pseudônimo Elena Ferrante. O artigo foi bastante criticado no mundo literário pela indevida violação de privacidade da escritora.

5) Em 2016, Elena Ferrante foi escolhida uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time, na categoria Artistas. No lugar da foto, a revista usou a capa de um de seus livros.

Literatura policial ganha mais espaço no mercado em 2014

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 Agatha Christie, a dama do crime, terá pelo menos 38 livros reeditados em 2014 pela L&PM e Globo Divulgação

Agatha Christie, a dama do crime, terá pelo menos 38 livros reeditados em 2014 pela L&PM e Globo Divulgação

Celebrado por fãs, gênero comemora bons resultados deste ano

Maria Fernanda Rodrigues no Estadão

Dois bons anos para a literatura policial, que atrai uma legião de fãs, é festejada no mundo inteiro e que ainda é considerada por alguns como um gênero menor, de entretenimento: o que está terminando e o que virá. Em 2013, ela chegou às finais de importantes prêmios, ganhou um festival e inspirou um grupo editorial a criar uma editora para se dedicar exclusivamente ao gênero. Para 2014, a lista de lançamentos está repleta de livros de mistério, de tribunal, de detetive, suspenses, thrillers, etc.

A realização da segunda edição da Pauliceia Literária, criada este ano pela Associação dos Advogados de São Paulo e que trouxe nomes como o advogado e escritor Scott Turow (25 milhões de exemplares vendidos no mundo), ainda é incerta e é mais provável que só ocorra em 2015. Mas há no horizonte de 2014 a realização de um festival de filmes e romances policiais nórdicos, com curadoria do finlandês Pasi Loman, dono da agência literária Vikings of Brazil.

Loman conta que o gênero não chama mais só a atenção de editoras já conhecidas pelo investimento em policiais, como Record, Rocco, Suma das Letras e Companhia das Letras. De acordo com ele, nos últimos 18 meses, editoras de pequeno e médio portes começaram a testar o mercado. “Elas estão conseguindo comprar títulos incríveis de autores de grande sucesso internacional que as grandes editoras também gostariam de publicar, mas que não o fazem porque não têm espaço no catálogo”, conta. E dá alguns exemplos. “A Amarylis publicou o ótimo Queimado, de Thomas Enger; a Nova Alexandria comprou três títulos de Torsten Pettersson, Arnar Ingolfsson e Karin Alvtegen, que eram editados pela Record, e a Autêntica comprou títulos de autores que já venderam milhões de cópias, como Leena Lehtolainen e Gunnar Staalesen.”

999-zoom_20131029143730O grupo mineiro Autêntica, aliás, fez um grande investimento na área ao inaugurar, em agosto, a Vertigo. De lá para cá, foram lançados sete títulos, todos de autores desconhecidos ou pouco conhecidos do brasileiro, e esse ineditismo é uma das apostas do diretor Arnaud Vin.

Uma curiosidade: em novembro, Pierre Lemaitre, de 67 anos, um desses “novos” autores, era anunciado o vencedor do prestigioso Goncourt por Au Revoir là-haut enquanto outra obra dele, Vestido de Noivo, saía da gráfica aqui. Dele, a editora lançará, em 2014, Cadres Noirs, um livro violento sem nenhuma gota de sangue, na explicação de Vin.

“A Vertigo, hoje, é articulada em torno de três vertentes: o policial histórico, o policial escandinavo, ou scandi crime, e o thriller”, conta o diretor. Entre os lançamentos do próximo ano estão O Assassino e o Profeta, de Guillaume Prévost, ambientado na Jerusalém do século 6; O Enigma da Rua de Blancs-Manteaux, de Nicholas le Floch; Indesejadas, de Kristina Ohlsson; Arrivederci Amore, Ciao, de Massimo Carlotto, entre outros.

O ano de 2013 foi de surpresa para a Rocco, editora do best-seller John Grisham e de Benjamin Black, pseudônimo de John Banville. Ela apostou no romance O Chamado do Cuco, do estreante Robert Galbraith. Antes de lançá-lo, em novembro, a verdadeira identidade do autor foi revelada e a tiragem, que poderia ter sido de 3 mil exemplares, saltou para 125 mil. Pudera, era a estreia de J.K. Rowling, de Harry Potter, no romance policial. Ela, ou Galbraith, prepara um segundo livro, que também está na programação da Rocco para 2014.

Outra aposta da editora é a britânica Sophie Hannah, de 42 ano, considerada a herdeira de Agatha Christie. Sairão pelo menos três obras aqui: Hurting Distance, que deve ser a primeira, Kind of Cruel e Lasting Dammage. Vale dizer que ela foi a escolhida pelo espólio de Agatha Christie para dar continuidade às histórias do detetive Hercule Poirot, e trabalha nisso agora.

Entre os brasileiros com livros a serem lançados em 2014 está Patrícia Melo, também da Rocco, que pela primeira vez terá uma protagonista mulher, e o advogado carioca Raphael Montes, de 23 anos, finalista este ano dos prêmios São Paulo e Machado de Assis por Suicidas (Benvirá), que já vendeu, desde 2012, 5 mil exemplares. Ele não ganhou os prêmios, mas chamou a atenção das grandes editoras e terá seu segundo romance, Dias Perfeitos, lançado pela Companhia das Letras em maio. Que o leitor não se engane com o título da obra. “É um suspense de amor obsessivo sob a visão do psicopata estudante de medicina”, adianta.

Muitos clássicos também estão previstos para o ano. A L&PM lança 30 títulos de Agatha Christie (1890-1976) e a Globo prepara cinco lançamentos e três reedições da Dama do Crime. Já Raymond Chandler (1888-1959) estreia no catálogo da Alfaguara em outubro com The Lady in the Lake e The Long Goodbye.

País lembra 40 anos da morte de Neruda e investiga possível assassinato

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Publicado no Cruzeiro do Sul

O Chile lembra na próxima segunda-feira os 40 anos da estranha morte do Nobel de Literatura Pablo Neruda, com a exumação dos restos mortais e um processo judicial para descobrir se ele foi assassinato pela ditadura de Augusto Pinochet.

Neruda, que além de poeta foi diplomata e senador pelo Partido Comunista, morreu em 1973, 12 dias depois do golpe que derrubou seu amigo, o presidente socialista Salvador Allende.

O atestado de óbito indica um agravamento do câncer de próstata que Neruda sofria como a causa de sua morte.

Mas, em abril passado, os restos mortais foram exumados para verificar se ele foi assassinado com uma injeção misteriosa inoculada na mesma clínica onde morreu anos depois o ex-presidente Eduardo Frei, como denuncia o seu ex-motorista Manuel Araya.

Um dia após a morte, Neruda deveria viajar ao México, onde pretendia se exilar e mobilizar a oposição de Augusto Pinochet.

De acordo com Araya, na tarde de 23 de setembro de 1973, Neruda, que até aquele momento estava lúcido e estável, disse a ele e a sua esposa, Matilde Urrutia, que um médico havia inoculado uma injeção agravou sua condição.

O motorista foi enviado por outro médico para buscar outro medicamento e no caminho foi preso e torturado por agentes da ditadura, que o interrogaram por suas ligações com o Partido Comunista e o deixaram preso no Estádio Nacional, junto com milhares de outros detentos.

Quase seis horas depois, o poeta morreu na Clínica Santa Maria, para onde foi transferido por razões de segurança, de acordo com Araya.

“Este aniversário vivemos com muita tensão. Estamos muito atentos aos resultados dos testes de toxicologia”, disse à AFP Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda e advogado no caso.

Os restos mortais do poeta foram enviados para análise do Serviço Médico Legal do Chile, da Universidade de Murcia (Espanha) e da Universidade da Carolina do Norte (EUA).

Até o momento confirmaram que Neruda sofria de câncer de próstata no momento da sua morte, mas ainda aguardam os resultados dos exames toxicológicos .

“Queremos saber como ele morreu”, afirmou Reyes.

O fantasma das armas químicas 

Outros casos reforçaram as suspeitas de envenenamento. Na mesma clínica onde Neruda morreu, mas nove anos depois, o ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) morreu devido a uma “introdução gradual de substâncias tóxicas”, segundo determinou a justiça em um caso que permanece em aberto.

Frei, que na época surgia como um dos maiores adversários de Pinochet, deu entrada na clínica Santa Maria para o tratamento de uma hérnia por uma pequena cirurgia e morreu subitamente pouco depois devido a septicemia.

O juiz que investiga o caso de Neruda, Mario Chariot, decidiu interrogar os médicos acusados da morte de Frei, e ainda busca o médico que teria ministrado a injeção no poeta, um médico chamado Price, cujo registro não corresponde a qualquer indivíduo registrado no Chile, segundo a investigação.

“Tivemos pouca cooperação da Clínica Santa Maria. Há pessoas que sabem e não dizem”, contou o sobrinho de Neruda à AFP, criticando a “falta de colaboração e interesse” no caso por parte da Fundação Pablo Neruda – que administra o seu legado- e do governo.

Os serviços secretos da ditadura de Pinochet (1973-1990) desenvolveram armas químicas como sarin, soman e tabun, para usar contra países inimigos e opositores.

A ditadura brasileira forneceu ao Chile entre os anos 70 e 80 neurotoxina botulínica, uma poderosa arma química que provoca a morte por asfixia. Vestígios desta substância foram encontrados no Instituto de Saúde Pública do Chile há cinco anos pelo então diretora Ingrid Heitmann .

O Chile ainda investiga a extensão do uso de tais armas na ditadura que deixou 3.200 mortos. (AFP)

imagem: internet

‘Venci’, diz ex-catadora de latinhas do DF que passou em concurso do TJ

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Marilene Lopes trocou renda mensal de R$ 50 por salário de R$ 7 mil.
‘Passei um ano com uma só calcinha’, lembra a hoje técnica judiciária.

Raquel Morais, no G1

Uma catadora de latinhas do Distrito Federal conseguiu passar em um concurso para o Tribunal de Justiça estudando apenas 25 dias durante período de repouso por causa de uma cirurgia. Ela trocou uma renda mensal de R$ 50 por um salário de R$ 7 mil. “Foi muito difícil. Hoje, contar parece que foi fácil, mas eu venci”, diz. Agora, ela diz que pensa em estudar direito.

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Sem dinheiro nem para comprar gás e obrigada a cozinhar com gravetos, Marilene Lopes viu a vida dela e a da família mudar em 2001, depois de ler na capa de um jornal a abertura das inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Ela, que até então ganhava R$ 50 por mês catando latinhas em Brazlândia, a cerca de 30 quilômetros de Brasília, decidiu usar os 25 dias de repouso da cirurgia de correção do lábio leporino para estudar com as irmãs, que tinham a apostila da seleção. Apenas Marilene foi aprovada.

Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”
Marilene Lopes, ex-catadora de latinhas que hoje trabalha no TJDF

“Minha mãe disse que, se eu fosse operar, ela cuidava dos meninos, então fui para a casa dela. Minha mãe comprou uma apostila para as minhas irmãs, aí dei a ideia de formarmos um grupo de estudo. Íamos de 8h às 12h, 14h às 18h e de 19h às 23h30. Depois eu seguia sozinha até as 2h”, explica.

O esforço de quase 12 anos atrás ainda tem lugar especial na memória da família. Na época, eles moravam em uma invasão em Brazlândia.

Marilene já havia sido agente de saúde e doméstica, mas perdeu o emprego por causa das vezes em que faltou para cuidar das crianças. Como os meninos eram impedidos de entrar na creche se estivessem com os pés sujos, ela comprou um carrinho de mão para levá-los e aproveitou para unir o útil ao agradável: na volta, catava as latinhas de alumínio.

Segundo ela, a situação durou um ano e meio, e na época a família passava muita fome. “Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”, conta.

Mesmo para se inscrever na prova Marilene, que é técnica em enfermagem e em administração, encontrou dificuldades. Ela lembra ter pedido R$ 5 a cada amigo e ter chegado à agência bancária dez minutos antes do fechamento, no último dia do pagamento. E o resultado foi informado por uma das irmãs, que leu o nome dela no jornal.

“Tinha medo [de não passar] e ao mesmo tempo ficava confiante. Sabia que se me dedicasse bem eu passaria, só precisava de uma vaga”, diz. “Dei uma flutuada ao ver o resultado. Pedi até para minha irmã me beliscar.”

Ganhando atualmente R$ 7 mil, a técnica judiciária garante que não tem vergonha do passado e que depois de formar os cinco filhos pretende ingressar na faculdade de direito. “Mesmo quando minhas colegas passavam por mim com seus carros e riam ao me ver catando latinhas com o meu carrinho de mão eu não sentia vergonha. E meus filhos têm muito orgulho de mim, da nossa luta. Eles querem seguir meu exemplo.”

Marilene já passou pelo Juizado Especial de Competência Geral, 2ª Vara Cível, Órfãos e Sucessões de Sobradinho, 2ª Vara Criminal de Ceilândia, 12ª Vara Cível de Brasília e Contadoria. A trajetória dela inspira os colegas. Por e-mail, o primeiro chefe, o analista Josias D’Olival Junior, é só elogios. “A sua história de vida, a sua garra e o seu caráter nos tocavam e nos inspiravam profundamente.”

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal
Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas
(Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

A técnica afirma ainda que não se arrepende de nada do que passou, nem mesmo de ter tido cinco filhos – como diz terem comentado amigos. “Ainda hoje choro quando me lembro de tudo. Eu não tinha gás e nem comida e não ia falar pra minha mãe. Se falasse, ela me ajudaria, mas achava um abuso. Além de ficar 25 dias na casa dela, comendo e bebendo sem ajudar nas despesas, ainda ia pedir compras ou o dinheiro para o gás? Ah, não. Então assim, quando passei, foi como se Deus me falasse ‘calma, o deserto acabou’.”

Da época de catar latinhas, Marilene diz que mantém ainda a qualidade de ser supereconômica. Ela afirma que não junta mais alumínio por não encontrá-los mais na rua. “As pessoas descobriram o valor, descobriram que dá para vender e juntar dinheiro”. Já as irmãs com quem estudou, uma se formou em jornalismo em 2011 e outra passou quatro anos depois no concurso do TJ de Minas Gerais, e foi lotada em Paracatu.

Dificuldades

O primeiro problema enfrentado por Marilene veio na posse do concurso. A cerimônia ocorreu três dias após o nascimento do quinto filho, em um parto complicado. A médica não queria liberá-la para a prova, mas só consentiu com a garantia de que ela voltaria até 18h30. Por causa do trânsito, a catadora se atrasou em uma hora.

“A médica chamou a polícia dizendo que eu tinha abandonado meu filho. É que eu estava de alta, mas o bebê não, e ele precisava tomar leite no berçário enquanto eu estivesse fora”, lembra. “A enfermeira ligou para a polícia do hospital e explicou a situação e aí pararam de me procurar. A médica me deixou com o problema e foi embora, no término do plantão dela.”

Resolvida a situação, Marilene e a família viveram bem até 2003, quando o marido resolveu sair de casa. O homem, que já havia sido preso por porte ilegal de arma, havia “se deslumbrado” com a situação econômica da mulher. A casa e o carro comprados a partir do salário do tribunal precisaram ser divididos.

Atualmente, ela mora com os filhos na casa de um amigo, na Estrutural, enquanto aguarda a entrega de um apartamento de três quartos em Águas Claras. Marilene tem uma moto e, junto com uma das irmãs, está pagando um consórcio para comprar um carro zero.

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