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Como menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se transformou no ‘maior ladrão de livros raros do Brasil’

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 Laéssio Rodrigues de Oliveira Foto: BBCBrasil.com

Laéssio Rodrigues de Oliveira
Foto: BBCBrasil.com

Laéssio Rodrigues de Oliveira está na prisão pela 5ª vez por furtos de livros e desenhos – como obras de Debret e Rugendas – de museus e bibliotecas; sua história é tema de documentário.

Publicado no Terra [via BBC Brasil]

Eu só vi Laéssio chorar em duas ocasiões. A primeira foi por raiva, quando um cliente fechou a porta em sua cara e ele, sem dinheiro para comprar sequer um sapato novo, sentiu-se humilhado. Já a segunda foi por amor – ao ler uma carta com um pedido de casamento enviada pelo namorado, detido em um presídio no Rio de Janeiro. Na maior parte do tempo, Laéssio não é de se lamentar. Um senso de humor abusado é seu traço mais marcante.

Considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira entrou na minha vida em uma tarde de setembro de 2012, quando recebi uma ligação a cobrar vinda do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste da capital fluminense, com um pedido insólito: um exemplar da biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro. “Essa história toda começou por causa dela”, resumiu.

O telefonema era uma resposta à primeira das dezenas de correspondências que trocaríamos ao longo das temporadas esparsas que Laéssio passaria em cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desde 2004, ele já deu entrada cinco vezes no sistema prisional. Ao todo, contabiliza quase uma década atrás das grades, sempre acusado do mesmo crime: pilhar acervos de Norte a Sul do país à caça de todo tipo de papel antigo de alto valor.

O leque de obras furtadas atribuído a Laéssio impressiona pela raridade e pela variedade. Vai das fotografias do funeral de Dom Pedro 2º, inclui um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo holandês do século 17 e passa por primeiras edições autografadas por cânones da literatura nacional. O crème de la crème das obras roubadas, no entanto, são os originais de desenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, que no século 19 viajaram o país para retratar paisagens e personagens do Brasil colonial. Hoje, um álbum completo de Debret, por exemplo, não sai por menos de US$ 300 mil.

Desde março deste ano, Laéssio está preso no Rio de Janeiro, depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal a mais dez anos e sete meses de prisão pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, também no Rio. Ainda cabe recurso.

 Cartaz de "procurado" com a foto de Laéssio Foto: BBCBrasil.com

Cartaz de “procurado” com a foto de Laéssio
Foto: BBCBrasil.com

Dinheiro

“Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando ‘ser riquíssimo’, como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do c*ralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?”

Num intervalo de duas décadas, Laéssio trocou o anonimato do balcão de uma padaria em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pelas manchetes de jornais de todo o país. Montou três bancas de antiguidades e um sex shop batizado de Mae West em homenagem à atriz americana que “era tipo a Dercy Gonçalves”, segundo ele. Também se especializou em Biblioteconomia e fez negócios com gente graúda.

Laéssio não ficou milionário, mas ganhou dinheiro suficiente para comprar um confortável apartamento no Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Também se permitiu pequenos luxos, como vestir um terno Armani, passear com o ex-marido a bordo de um Audi A3 ou de um Chrysler PT Cruiser e custear um imóvel no Guarujá, litoral paulista.

“Eu vivia num mundo encantado. Eu era uma bicha louca, desvairada, achava que aquilo nunca iria acabar, que nunca iria dar problema”, confessa. Entretanto, torrou tudo tentando acertar as contas com a Justiça.

Desde aquela primeira ligação a cobrar que Láessio me fez em 2012, acumulei – além de incontáveis cartas – pilhas de processos judiciais, dezenas de horas de gravação e centenas de páginas de anotações feitas durante entrevistas em diversos locais, incluindo duas penitenciárias. Laéssio só topou me confidenciar sua história para que ela não ficasse encarcerada nas colunas policiais. “Eu não matei ninguém, cara. Vou me arrepender de quê? De que adquiri um monte de livro velho?”

‘O que é que a baiana tem?’

A mãe de Laéssio é uma senhora miúda de 62 anos que trabalha passando roupa e cuidando de idosos. Ela tem o costume de concluir as frases com um simpático “num sabe?” carregado de sotaque nordestino. Refere-se ao mais velho dos seis filhos – que criou sozinha a partir dos 31 anos de idade – como “Grandaião”, apesar de a compleição física de Laéssio nem de longe botar medo em quem quer que seja. “A família não quer nem saber desse assunto. É uma pena”, lamenta, antes de cair num choro envergonhado.

 Ilustração de Debret Foto: BBCBrasil.com

Ilustração de Debret
Foto: BBCBrasil.com

Laéssio nasceu em Teresina, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança de colo, mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo. O pai trabalhava como eletricista. Quando bebia, costumava bater na esposa e era confrontado pelo primogênito, cujos trejeitos tiravam seu sono. O menino até chegou a ser levado a uma consulta médica para corrigir o suposto desvio. Mas não adiantou: depois que o pai morreu atropelado em uma rodovia, Laéssio saiu do armário, aos 15 anos de idade.

A mãe conta que desde muito cedo Laéssio era fissurado por gibis e jornais – inclusive, tinha o costume de empilhá-los no meio da sala. “Ele é muito inteligente, conversa sobre qualquer assunto”, diz. De fato, Laéssio é capaz de discorrer por horas em tom professoral sobre cinema, música e todo tipo de arte vintage.

Foi uma obsessão adolescente pela atriz e cantora Carmen Miranda que levou Laéssio a mergulhar no universo dos papéis antigos. Depois de escutar O que é que a baiana tem? pela primeira vez no rádio, decidiu colecionar tudo o que estivesse ao seu alcance sobre a artista. “Talvez seja aquilo que ela mesmo diz na música: ‘tem graça como ninguém’. Aquela brejeirice, como Dorival Caymmi disse uma vez, me dominou”, explica.

Para alimentar a compulsão de fã, Laéssio passou a furtar. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Ao colocar os pés na biblioteca da instituição, nem precisou vasculhar as estantes. Seu olhar foi instantaneamente capturado pelo sorriso de Carmen Miranda estampado na capa de uma revista Fon Fon da década de 1940, em cima de uma mesa. Com a adrenalina a mil, certificou-se de que ninguém o vigiava, enfiou o exemplar na mochila e saiu andando.

“Aí comecei a minha peregrinação pelas bibliotecas. Tudo que era revista com a Carmen Miranda na capa eu saí levando. Comecei a ter paixão por aquilo”, relata.

Por volta de 1996, Laéssio conheceu seu primeiro cliente, Abel Cardoso Júnior, falecido escritor radicado em Sorocaba (SP) e autor de A Cantora do Brasil , biografia menos badalada da artista. “Vendi todo meu acervo para ele. Larguei um emprego na prefeitura para viver disso”, relembra.

O primeiro problema com a polícia também remonta a essa época. Certa vez, enquanto enchia a bolsa com revistas antigas no Arquivo Geral do Estado de São Paulo, foi flagrado por seguranças e conduzido a uma delegacia. Acabou liberado depois de gabaritar um quiz sobre Carmen Miranda feito pelo delegado e de jurar em vão que jamais voltaria a surrupiar uma biblioteca.

 Revista O Cruzeiro com Carmen Miranda na capa (Foto: Reprodução) Foto: BBCBrasil.com

Revista O Cruzeiro com Carmen Miranda na capa (Foto: Reprodução)
Foto: BBCBrasil.com

Comércio

Eis que Laéssio resolveu empreender: comprou uma barraca na Feirinha do Bixiga, tradicional reduto de colecionadores de antiguidades em São Paulo, e fez sociedade com o dono de uma banca de revistas pornôs na esquina das avenidas Ipiranga e São João. Seu métier eram publicações antigas sobre cinema, como Cena Muda e Cine Arte, e jornais com manchetes sobre a proclamação da República e a abolição da escravatura.

Além de atrair personalidades, como o ator John Herbert e o cineasta Zé do Caixão, as bancas de Laéssio também passaram a ser frequentadas por funcionários de bibliotecas oferecendo antiguidades de procedência duvidosa. “Eu não vou ser hipócrita: tinha coisas que eu estava comprando que sabia que eram roubadas”, afirma. Laéssio, então, sentiu a necessidade de diversificar os canais de venda. Aconselhado por clientes, resolveu desbravar leilões de papéis raros. “Uma vez, paguei R$ 10 num leque de carnaval dos anos 1930 na Feirinha do Bixiga, depois coloquei no leilão e ele foi vendido por quase R$ 500”, exemplifica.

No começo dos anos 2000, um dos mais prestigiados leilões era o da extinta livraria Universal, no centro do Rio de Janeiro. Criada por Joaquim Monteiro de Carvalho, empresário que participou da fundação da Klabin e das negociações que trouxeram a Volkswagen para o Brasil, a Universal era um convescote de amantes das artes dispostos a investir pesado em obras exclusivas.

“Eu comprava coisas na Feirinha do Bixiga e ia levando para a Universal. Aí, um dia o gerente me falou: ‘por que você não coloca livros? Dá mais dinheiro!’ Eu respondi: ‘pô, eu não entendo de livro, não'”, narra.

Aquela conversa representou uma virada na vida de Láessio. Para subir o sarrafo dos negócios, chegou à conclusão de que precisava se capacitar. “Foi por isso que eu fui fazer Biblioteconomia. Porque eu queria minha parte em ouro”, interrompe a si próprio com um sorriso de canto de boca pelo ato falho. “Em ouro, não… em livro velho, tá entendendo?”

Quando fala da Universal, Láessio se expressa em um tom que mescla nostalgia e deslumbre. “Era passatempo de gente rica. Lá, eu me sentia madame”, define. De fato, o perfil dos colecionadores que circulavam pelos leilões era tão refinado quanto ecumênico. Lá, podia-se cruzar com George Ermakoff, ex-presidente da companhia aérea Rio Sul; Jorginho Guinle, playboy de ofício e suposto affair de Marilyn Monroe; Manoel Portinari, sobrinho do célebre pintor modernista e fanático pelo poeta Manuel Bandeira; Pedro Corrêa do Lago, bibliófilo e ex-presidente da Biblioteca Nacional; e Ruy Souza e Silva, captador das obras que compõem a Brasiliana do Instituto Itaú Cultural e ex-marido de Neca Setúbal, herdeira da maior instituição financeira do país.

“Naquela época, os leilões eram presenciais. Dois ou três dias antes, as pessoas examinavam os livros. Não se levava gato por lebre de jeito nenhum”, garante Margarete Cardoso, uma das principais especialistas do mercado de obras raras do país. Por mais de meio século, ela trabalhou na livraria Kosmos, loja de raridades que funcionava no mesmo prédio da Universal, na Rua do Rosário, centro do Rio. “As pessoas iam aos leilões e aí serviam vinho, salgadinho, para ficar uma coisa bem chique mesmo. Mas isso tudo acabou. Com a internet, mudou bastante”, diz.

 Cartas trocadas entre Laéssio e Carlos Juliano Barros Foto: BBCBrasil.com

Cartas trocadas entre Laéssio e Carlos Juliano Barros
Foto: BBCBrasil.com

Fragilidades

Laéssio é relativamente viajado – afirma ter visitado Buenos Aires, Nova York e Paris e sonha com uma cerimônia de casamento em Lisboa. Mesmo assim, tem certeza de que o Rio de Janeiro é o melhor lugar do mundo. “A Mangueira e o Salgueiro precisam de mim, posto que eu me desmando e me transformo ao som da bateria de uma dessas escolas de samba”, ele me escreveu em dezembro do ano passado, quando estava preso em São Paulo pela quarta vez e fazia planos de passar o carnaval de 2017 em sua cidade de coração.

É justamente no Rio de Janeiro que Laéssio deixou mais digitais. Isso se explica pelo fato de a antiga capital federal concentrar os mais importantes acervos com obras de arte e documentos raros sobre o Brasil, como o Museu Nacional, o Palácio do Itamaraty, o Jardim Botânico e a Biblioteca Nacional. Mas ele também é acusado de crimes em outros Estados, como Bahia, Pará, Paraná e São Paulo. Nunca responde sozinho – em geral, é tido como o mentor intelectual de quadrilhas montadas para dilapidar acervos. “Para pegar livro, não é preciso matar ninguém, sequestrar ninguém. Sou alheio a violência, não gosto de violência”, ressalta.

Entretanto, ele já foi condenado por envolvimento com um grupo armado que rendeu funcionários e roubou obras de arte de um centro cultural em Campinas, em agosto de 2013. Apesar de não ter participado diretamente da ação, o processo lhe rendeu sua terceira passagem – de quase dois anos – pelo sistema prisional.

Basicamente, Laéssio é um especialista em furtos. Segundo os inquéritos policiais, suas técnicas variavam de acordo com a ocasião. Passando-se por pesquisador e aproveitando a distração de funcionários, livros e revistas eram escondidos em mochilas ou sob casacos largos. Em caso de obras de dimensões avantajadas, como álbuns de gravuras, páginas eram arrancadas a navalhadas e enroladas como pergaminhos. Subornos a seguranças para facilitar sua entrada também eram um modus operandi comum.

Mas havia também métodos menos ortodoxos – um deles era sugestivamente apelidado de “Efeito Borboleta”. Uma pessoa de corpo delgado e elástico o suficiente para se acomodar em um gaveteiro de biblioteca se escondia dentro do móvel durante horas, aguardando o fim do expediente para sair do casulo e recolher o material previamente selecionado. “Não faltava ar dentro do gaveteiro?”, perguntei espantado a um colega de Laéssio que certa vez me descreveu os detalhes da metamorfose. “Para quem já ficou em solitária na cadeia, isso é moleza”, ele devolveu sem pestanejar.

Na avaliação de Carlos Aguiar, procurador do Ministério Público Federal que conduziu as investigações de uma das duas ações que ainda correm contra Laéssio na Justiça Federal do Rio, sistemas de segurança falhos das bibliotecas, devido a orçamentos apertados, misturados com uma dose de desorganização das instituições, facilitaram os crimes.

“O Laéssio aprendeu a furtar se aproveitando dessas fragilidades”, analisa o procurador. “Eu me lembro que mandei ofício solicitando que adotassem providências. Eles não tinham sequer catalogado o material. Sequer sabiam qual era o acervo que eles possuíam”, afirma Carlos Aguiar, recordando-se do caso específico da Biblioteca Nacional, dez anos atrás.

De lá para cá, segundo o procurador, a série de furtos fez com que os sistemas de segurança das instituições fossem incrementados.

Na biblioteca do Museu Nacional, por exemplo, um retrato de Laéssio – ao estilo faroeste – ainda hoje decora a mesa de vigilantes. Dos arquivos da instituição foram levadas a navalhadas dezenas de gravuras de aves desenhadas pelo naturalista francês Louis Jean Marie Daubenton no século 18.

“Eram coisas maravilhosas”, atesta Alberto Cohen, pioneiro na organização de leilões de papeis raros no Rio de Janeiro. Em abril de 2004, as obras foram arrematadas em um evento organizado por ele no bairro de Ipanema por cerca de US$ 30 mil. Semanas depois, o leiloeiro tomou conhecimento pelos jornais de que as gravuras haviam sido furtadas do Museu Nacional.

“O Laéssio me deu um trabalho danado”, conta entre risos tímidos que abafam ainda mais sua voz rouca. “Eu caí na história dele. Ele me convenceu de que tinha conseguido aquilo na banca de jornal dele. Ele entendia do assunto mesmo”, justifica-se. Alberto, então, procurou a Polícia Federal, devolveu o material e reembolsou os clientes. Porém, afirma não ter recuperado o dinheiro adiantado a Laéssio. “Como todo um-sete-um, vigarista, ele é muito boa gente. Eu não tenho raiva dele, apesar de ele ter me dado um prejuízo louco”, finaliza.

Notoriedade

O jovem estudante Raskólnikov – protagonista de Crime e Castigo , clássico de Fiódor Dostoiévski – construiu uma teoria curiosa para limpar a própria consciência, depois de roubar e assassinar uma idosa agiota. Segundo ele, figuras como Napoleão Bonaparte só se consagraram como extraordinárias porque ousaram correr riscos e até mesmo derramar sangue em nome de ideais de grandeza. Dessa forma, a História – com H maiúsculo – se encarregaria de absolvê-las de eventuais condenações morais.

Feitas as devidas adaptações, o raciocínio de Laéssio bebe da mesma fonte da ética particular de Raskólnikov. “Uma coisa que eu comecei a praticar desde cedo foi a leitura de biografias. Sempre me encantaram as pessoas que vieram para o mundo tanto para o bem quanto para o mal”, introduz Laessio. “Aí eu pensei: Caraca! Será que eu vou vir para a merda deste mundo para passar batido, só para fazer volume?”

Em março deste ano, Laéssio foi detido pela quinta vez depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, ambos no Rio de Janeiro. A sentença foi proferida 13 anos depois dos crimes e o condenou a mais uma década de cárcere. De acordo com a Defensoria Pública da União, que já recorreu da decisão, um dos ilícitos imputados a Laéssio – o furto de revistas antigas do Museu Histórico Nacional – já havia sido considerado prescrito em outro processo e, portanto, não poderia ter sido novamente julgado.

“Laéssio está pagando desproporcionalmente caro, especialmente em relação a outros envolvidos e em relação às penas estipuladas no Código Penal”, afirma o advogado José Carlos Abissamra Filho, que há poucos meses assumiu a defesa de Laéssio. “O que parece é que ele têm sido tratado como bode expiatório de males sociais não atribuíveis a si, o que é, evidentemente, ilegal.”

Um mês após a última detenção, Laéssio entrou novamente no radar da polícia: é o suspeito de um furto na biblioteca da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de fazer um inventário, a instituição divulgou que 303 títulos haviam sido levados de seu acervo, acredita-se, durante uma reforma do prédio em 2016. Dentre as peças subtraídas, há originais dos Sermões do Padre Antônio Vieira e fotos do começo do século passado de índios da Amazônia. O material é estimado em até R$ 500 mil.

A relação de Laéssio com o sistema prisional é um capítulo à parte. Nos cinco anos que passou em Bangu, por exemplo, ele chegou a montar uma biblioteca na penitenciária depois de solicitar doações a diversas editoras. A inspiração veio do trabalho realizado por Dilma Rousseff no período em que a ex-presidente ficou presa durante a ditadura militar. Em agosto, Laéssio virou notícia novamente ao mandar uma carta à direção da Biblioteca Nacional solicitando livros para o presídio em Japeri onde se encontra atualmente detido – o pedido foi revelado na coluna de Ancelmo Gois, no jornal O Globo, com o título “cara de pau”.

Com a bagagem de quase uma década atrás das grades, Laéssio teve de se adaptar à vida no cárcere, mesmo sem beber uma gota de álcool na boca ou usar qualquer tipo de droga, itens tão acessíveis nos presídios. E, por dominar a norma culta da língua e conhecer o Código Penal (cursou a faculdade de Direito por quase dois anos), ele mata o tempo redigindo pedidos de indulto e de progressão de regime para colegas detentos.

Certa vez, referindo-se em tom de brincadeira à significativa população de homens que fazem sexo com homens nas penitenciárias, ele me disse com seu típico ar debochado: “meu medo não é ser preso. Meu medo é ficar pobre. Com dinheiro, a cadeia pode virar a gozolândia”.

Em uma de suas últimas correspondências endereçadas a mim, Laéssio queixou-se de certa perseguição por parte da Justiça e da imprensa: “só me falta ser acusado de roubar novamente o quadro da Mona Lisa, nesses tempos modernos, posto que o mesmo já completou os seus 100 anos que foi furtado pela última vez no Louvre. Mas fique tranquilo que eu jamais orquestrarei tal ação, uma vez que eu já me dou por cansado e velho demais para continuar nessa vida”.

*Carlos Juliano Barros assina com Caio Cavechini a direção do documentário ‘Cartas para um Ladrão de Livros’, que estreia no Festival do Rio no dia 9 de outubro

Conheça seis livros e filmes que contam histórias de mulheres fortes

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Com o lançamento do documentário sobre Lady Gaga, “Five Foot Two”, reunimos outros títulos que contam a vida de personalidades incríveis

Bruna Sabarense, no Metrópoles

Gaga: Five Foot Two
O documentário sobre a vida da cantora Lady Gaga foi lançado na última sexta-feira (22/9), na plataforma Netflix. E conquistou fãs ao retratar a busca da artista em se apresentar ao mundo como uma mulher de 30 anos. O título é uma brincadeira com a altura da americana. Ela mede 5’22 pés, o equivalente a 1,57m. O filme mostra os passos da cantora, nascida Stefani Joanne Germanotta, entre a gravação do seu mais recente álbum, Joanne (2016), e a apresentação no Super Bowl 2017.

Chris Moukarbel, diretor da produção, aborda assuntos polêmicos, como depressão, drogas, rixa com a cantora Madonna, traumas e a doença que fez a celebridade cancelar sua participação no Rock in Rio. “Senti orgulho, tristeza, empoderamento, vulnerabilidade. Mas o que mais me conquistou foi a autenticidade do filme, da maneira que Chris, o diretor, escolheu mostrar meus piores momentos e meus pontos mais altos”, disse a cantora em seu Instagram.

Joan Didion: Center Will Not Hold
Logo depois de anunciar o documentário de Gaga, foi a vez da Netflix divulgar o lançamento de mais uma obra super esperada: um título sobre a vida da jornalista, roteirista e escritora Joan Didion. Ok, ainda não foi lançado, mas falta pouco – dia 27 de outubro. Didion ficou conhecida pelas obras The White Album (1979) e Slouching Toward (1968), vistas como grandes análises da cultura norte-americana. O documentário reúne entrevistas com Didion e o ator Griffin Dunne, além de revelações surpreendentes sobre os seus 50 anos de profissão.

“Vou fazê-lo porque, por incrível que pareça, ninguém, até hoje, fez um documentário sobre Joan Didion – e isso é um mistério!”, conta no trailer Griffin Dunne, sobrinho de Joan que se incumbiu de produzir, ao lado de Susanne Rostock, o primeiro filme sobre sua tia. “Ela provavelmente é a mais influente escritora americana viva hoje”.

What Happened – Hillary Rodham Clinton
Achou que está faltando uma interrogação no título do livro escrito por Hillary Clinton – batizado de “O que aconteceu”? Pois bem, não falta. É uma explicação do que deu errado, em 2016, quando a candidata perdeu a disputa presidenciável para Donald Trump. Na obra, Hillary não esconde o desprezo que sente pelo presidente americano – principalmente pelo seu machismo. Ela reconhece que Trump quebrou todas as regras durante a campanha e confessa que não superou a derrota nas eleições.

Clinton lamenta ter desiludido milhões de pessoas e garante que se as eleições fossem hoje agiria de forma diferente. Hillary também admite que escrever o livro não foi fácil e comenta os motivos que, acredita, a levaram a perder, principalmente pela suposta interferência russa.

Rita Lee — Uma Autobiografia
O livro ficou na seção best-sellers um bom tempo – mais de 200 mil cópias vendidas. Prestes a fazer 70 anos, a cantora soltou o verbo e contou tudo na autobiografia mais divertida, sincera e envolvente dos últimos tempos. A Rainha do Rock Nacional, como é conhecida, relembra os tempos de Mutantes e fala sobre episódios difíceis, como a prisão em 1976 e quando foi estuprada com uma chave de fenda na infância.

Revelações inusitadas não ficaram de fora do livro. Por exemplo, como nos anos 1970, “num daqueles momentos droguísticos”, foi resgatada por Hebe Camargo no meio da rua. Teve também uma vez que ela roubou as jiboias do astro do rock Alice Cooper, durante apresentação dele no Brasil, em 1974. A obra foi toda pensada pela própria autora: seleção e sequência das fotografias, legendas, capa e contracapa.

Quelé, a Voz da Cor — Biografia de Clementina de Jesus
Em 2017, completam-se 30 anos desde a morte da cantora Clementina de Jesus. Entre as homenagens estão uma biografia, um filme, uma peça de teatro, um DVD e o relançamento da discografia. O livro foi escrito a oito mãos por jovens jornalistas, três deles nascidos depois da morte da artista.

A publicação aborda a vida e a carreira da cantora de voz e interpretações singulares, nascida em 1901, neta de escravos e intérprete revelada só na velhice. Empregada doméstica, ela só ficou famosa após os 60 anos. Clementina de Jesus ajudou a popularizar no Brasil a cultura africana e o samba em plena na década de 1960, época em que as rádios estavam tomadas por canções da Jovem Guarda e da Bossa Nova.

Hebe – A biografia
Hebe Camargo é um dos grandes nomes da história da televisão brasileira. A estrela, que começou sua carreira cantando no rádio, foi convidada para a primeira transmissão ao vivo da televisão brasileira e nela ficou até sua última gravação, em 2012, sendo conhecida por sua irreverência e autenticidade.

Nesta biografia, o jornalista Artur Xexéo se dedica a contar toda a trajetória da apresentadora que marcou a história do rádio e da televisão no Brasil. Com depoimentos de artistas que acompanharam de perto a carreira de Hebe e relatos dos familiares, este livro vai encantar tanto aos fãs dessa mulher que deixou sua marca na TV brasileira e os aficionados pela história da televisão e do rádio.

James Cameron vai fazer série documental sobre ficção científica

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Publicado no Comunidade Cultura e Arte

O cineasta James Cameron vai produzir uma série documental que explora a evolução da ficção científica desde a sua origem como um gênero cinematográfico menor e de culto, até se transformar num fenômeno de cultura popular e sucesso de bilheteiras.

O anuncio foi feito pelo canal de televisão AMC, que adianta que a série, com o título provisório ‘James Cameron’s Story of Science’, terá seis episódios de uma hora e tem estreia prevista em 2018.

De ‘Star Wars’ a ‘Avatar’, passando por ‘The Hunger Games’ e ‘The Walking Dead’, a ficção científica tornou-se um pilar da cultura popular e o documentário vai explorar as dúvidas que cada um suscita, como por exemplo, a ciência por detrás de The Walking Dead, ou como poderia surgir uma epidemia de mortos-vivos.

Assim, nesta nova série sobre as origens e a história da ficção científica, James Cameron introduz em cada episódio uma das “grandes questões” com que a humanidade se tem confrontado ao longo dos anos, e regressa ao passado para melhor compreender como é que os filmes, programas de televisão, livros e vídeos favoritos do público nasceram e para onde é que este gênero – e a espécie humana – caminha.

O realizador afirma que esta série regressa às origens da ficção científica, seguindo o seu DNA: sem Jules Verne e H.G. Wells não haveria Ray Bradbury ou Robert A. Heinlein e, sem eles, não haveria Lucas, Spielberg ou Ridley Scott.

“Como cineasta especializado em ficção científica, estou interessado em explorar as lutas e os triunfos que trouxeram essas histórias incríveis à vida e ver como a arte imita a vida, bem como a ficção científica imita e às vezes informa a ciência”, disse.

O cineasta canadense – autor de filmes como ‘O Exterminador Implacável’, ‘Aliens’, ‘Titanic’, ‘A verdade da Mentira’ ou ‘Avatar’ – e outros contemporâneos que ajudaram a impulsionar o crescimento da ficção científica nas últimas décadas debatem os méritos, os significados e os impactos dos filmes e romances que influenciaram o gênero.

O próprio James Cameron autoproclamava-se “nerd da ficção científica”, antes de se tornar um dos realizadores de maior sucesso da sua geração.

“Quando eu era miúdo, basicamente lia qualquer livro que tivesse uma nave espacial na capa e vi o filme ‘2001: Odisseia no Espaço’ vezes sem conta”, disse o realizador, acrescentando que aquele filme o inspirou a tornar-se um realizador.

Segundo James Cameron, além dos efeitos especiais, o que mais o intrigava naqueles filmes eram as ideias e as questões por detrás deles: “Como vai o mundo acabar? A tecnologia vai acabar por nos destruir? O que significa ser humano”?

Texto de Lusa

Documentário Malala faz um retrato sensível da jovem paquistanesa

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Filme estreiou nesta quinta-feira (19) nos cinemas

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Publicado em Revista Crescer

Em 2012, a história da adolescente paquistanesa Malala Yousafzai se tornou manchete ao redor do mundo. A jovem de 15 anos que dava entrevistas e defendia abertamente o direito das meninas de frequentarem a escola foi baleada na cabeça por um membro do Talibã em um ônibus escolar. O que poderia ter sido o fim de sua jornada foi o começo de algo muito maior. Malala sobreviveu, tornou-se uma ativista com influência mundial e a vencedora mais jovem de um Prêmio Nobel da Paz. Essa história real fantástica é o tema do documentário Malala, que estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas brasileiros.

Dirigido por Davis Guggenheim, vencedor do Oscar de melhor documentário de 2006, com Uma verdade inconveniente, o filme se propõe a fazer um retrato íntimo da garota que se tornou um símbolo na luta pela universalização da educação. As filmagens foram feitas em 18 meses e mostram Malala tentando equilibrar as demandas de uma adolescente normal com viagens pelo mundo para palestras e visitas a escolas.

As cenas gravadas na casa de Malala, que atualmente vive com a família em Birmingham, na Inglaterra, mostram o lado da adolescente ainda não explorado pelos jornais. Ela aparece provocando os irmãos, rindo, envergonhada, ao mostrar fotos de esportistas como Roger Federer e Shane Watson, estudando para tirar boas notas e recebendo o apoio do pai, Ziadduin.

A relação entre pai e filha é um dos principais atrativos do filme. É evidente a influência de Ziadduin, que era dono de uma escola quando ainda morava no Paquistão, nos ideais de sua filha. Porém, fica claro que são as próprias crenças que motivam Malala a continuar sua luta em defesa da educação de meninas.

Apesar de fazer um registro da jornada de Malala de maneira sensível, o documentário não mostra as emoções mais profundas de sua protagonista. Em certo ponto, o diretor pergunta a Malala por que ela não fala sobre seu sofrimento. Ela olha intensamente para a câmera e se recusa, de maneira gentil, a comentar o assunto. O espectador não vê nas entrevistas, nem nas cenas, um retrato mais “em carne de viva” de Malala, o que é uma pena.

Mesmo assim, é impossível não recomendar o documentário para todos os estudantes – principalmente para as meninas – e para quem se interessa por questões como educação, ativismo e igualdade de gênero. Malala é uma figura divertida e carismática e depois de conhecê-la mais de perto, é difícil sair do cinema sem se sentir inspirada por sua história.

Filme mostra vida pessoal de Malala, ganhadora do Prêmio Nobel

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A maioria das pessoas sabe quem é a paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do prêmio Nobel da Paz, que foi baleada pelo Taliban em 2012 por exigir o direito das meninas à educação, mas poucos ouviram falar da heroína afegã do século 19 na qual sua família se inspirou ao escolher seu nome.

Segundo a tradição pashtun, Malalai de Maiwand estimulou seus compatriotas a vitória contra as tropas britânicas em 1880, indo ao campo de batalha para unificar uma força afegã desmoralizada com um verso sobre o martírio. Ela mais tarde foi atacada e morta.

A lenda é contada em “He Named Me Malala” (Ele me deu o nome de Malala), um novo documentário sobre Malala Yousafzai, agora com 18 anos, cujo ataque quando estava em um ônibus escolar chocou o mundo.

“Você lhe deu o nome de uma menina que falou e foi morta. É quase como se você dissesse que com ela seria diferente”, disse o diretor Davis Guggenheim sobre o pai de Malala, Ziauddin, no filme. “Você está certo”, ele responde.

Filmado ao longo de 18 meses, o retrato íntimo mostra uma adolescente mais à vontade no palco mundial -falando, por exemplo, na sede da ONU em Nova York – ou abordando estudantes em campos de refugiados sírios, do que com os colegas de sala de aula na Grã-Bretanha, para onde foi levada para uma cirurgia após o atentado.

“Nesta nova escola, é difícil”, diz ela, admitindo a falta de experiências compartilhadas com as outras meninas. Embora se saiba muito sobre o trabalho de Malala, o documentário levanta o véu sobre a sua vida familiar no centro de Inglaterra, com muito humor da parte de seus dois irmãos.

“Ela é um pouco desobediente”, diz o irmão mais novo de Malala, que ela apresenta como “um bom menino”, em contraste com seu outro irmão, que ela chama de “o mais preguiçoso”.

No exterior, o filme deve estrear em 2 de outubro. No Brasil, a previsão é 19 de novembro.

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