Vitrali Moema

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Analfabeto até os 65 anos se forma em História aos 79

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PROFISSÃO CERTA – REPRODUÇÃO FACEBOOK

Seu Valdir superou a pobreza e a doença da mulher e conquistou diploma universitário

Francisco Alves Filho, no Jornal O Dia

Rio – Essa é daquelas histórias que servem de incentivo para quem acha que seus objetivos são muito difíceis de alcançar. De família pobre e desde cedo trabalhando duro em várias funções para sobreviver (atuou em lapidação, em gráfica, foi motorista e carregador), Valdir de Lima não teve tempo de estudar. Por causa disso, manteve-se sem saber ler e escrever até os 65 anos de idade.

Isso não impediu que se apaixonasse pela carreira de História (Veja um vídeo sobre o curso). “Foram minha mulher e meus filhos que me ajudaram a ler. Comprava jornais, revistas e livros e ficava encantado com a história das pessoas, dos lugares”, conta ele. Aos poucos, foi aprendendo mais com as aulas do Telecurso 2000. “Sou autodidata”, orgulha-se.

Resolveu ir mais longe. Fez o Ensino Médio e depois matriculou-se no curso de História da Universidade Estácio de Sá. Por 8 anos, dividiu o tempo entre a sala de aula da universidade e o quarto de hospital onde sua mulher estava internada. Ela teve que tirar um rim e acabou falecendo, depois de uma convivência de 56 anos. Mesmo sem sua maior incentivadora ao seu lado, Seu Valdir continuou os estudos.

Como resultado, Seu Valdir se formou historiador no fim de março, aos 79 anos, sob aplausos dos colegas mais jovens. “Levantar aquele canudo foi libertador”, desabafou Valdir.

Paciente com Esclerose Lateral Amiotrófica escreve livro, letra a letra, piscando os olhos

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Dorivaldo e a fonoaudióloga Maria José escreveram o livro (Foto: Renata Marconi/G1)

Dorivaldo e a fonoaudióloga Maria José escreveram o livro (Foto: Renata Marconi/G1)

 

Morador de Boraceia foi diagnosticado com doença degenerativa há oito anos; escritor já planeja segundo livro.

Renata Marconi, no G1

Apesar da impossibilidade de falar, o que não falta para Dorivaldo Aparecido Fracaroli é comunicação. Diagnosticado há oito anos com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa que limita os movimentos, a fala e a respiração, o morador de Boraceia, de 56 anos, perdeu a fala durante um procedimento cirúrgico, o que não o impediu, aliás, impulsionou o aposentado a ‘escrever’ um livro. É piscando os olhos que ele se comunica com todos a sua volta e transmitiu letra por letra do livro: “Ipê ‘DO’ amarelo”.

A ideia de escrever o livro partiu de sua amiga e fonoaudióloga Maria José de Oliveira. “Ele estava muito triste e eu o conhecia antes dessa tristeza. Embora já tivesse o diagnóstico, ele não era triste e foi diante dessa tristeza que eu propus o livro. O primeiro intuito do livro era deixá-lo mais feliz, mais ocupado, ter alguma coisa para despertar, sair da cama e escrever o livro”, conta.

Na obra estão os fatos mais importantes da vida de Dô, como é conhecido na cidade. Segundo Maria José, são os momentos mais gostosos de se lembrar, desde o sítio onde nasceu, como conheceu a esposa, sobre o filho, os pais, até o diagnóstico da patologia e os dias atuais. “Não fazemos esclarecimentos científicos da patologia. Citamos a patologia como sendo a causadora de tudo isso, contamos a permanência nos hospitais, mas tudo em primeira pessoa, como ele vê.”

Descoberta

Há oito anos, quando a família descobriu a doença, a esposa de Dorivaldo, Valéria Fracaroli, não imaginava o que a ELA poderia acarretar na vida do marido.

“Foi muito difícil, a gente chorou muito. Eu sabia que eu não conhecia nada da ELA, só o que a médica falou. Então eu comecei de madrugada a procurar sobre a doença e comecei a conversar com pacientes, saber como seria. Vi a necessidades de informações jurídicas, de tudo”, lembra.

Mas a maior dificuldade chegou quando Dorivaldo precisou colocar uma gastro e uma traqueo e durante o procedimento acabou perdendo a fala. “Ele queria falar e eu não sabia se ele tinha dor, fome. Ele fazia movimentos com a boca, mas eu não conseguia ler os lábios e dava aquele desespero”, conta a pedagoga.

Casal usa uma tabela de comunicação (Foto: Renata Marconi/G1)

Casal usa uma tabela de comunicação (Foto: Renata Marconi/G1)

 

Como a vontade de se comunicar era enorme entre o casal, Valéria teve a ideia de usar uma tabela de comunicação (Veja na foto abaixo como ela funciona). “Eu pedi uma folha para a enfermeira e fiquei pensando em como me comunicar com ele. Então eu coloquei o alfabeto que eu conheço muito bem, dividi em cinco linhas. Pedi para ele “falar” o que ele mais queria perguntar. Ele foi “falando” letra por letra através das piscadas. Ele perguntou se poderia tomar banho e depois vieram outras perguntas. Quando os médicos chegaram, viram uma lousa cheia de perguntas dele”, lembra.

Valéria conta que os médicos responderam as perguntas e passaram a conversar com ele também e foi com a mesma técnica que Maria José propôs que Dorivaldo escrevesse o livro.

Aposentado escreveu uma mensagem sobre a doença (Foto: Renata Marconi/G1)

Aposentado escreveu uma mensagem sobre a doença (Foto: Renata Marconi/G1)

 

Novos planos

Depois de três anos escrevendo, foram publicados 500 exemplares no dia 11 de março e em pouco mais de um mês praticamente todos já foram vendidos. Maria José conta que eles não esperavam a repercussão da história. “Se ele está feliz eu estou muito mais e tudo por conta dessa história do livro”, afirma a fonoaudióloga.

Mas junto com o livro, eles descobriram algo mais importante para Dorivaldo. “A primeira intenção era deixar ele mais feliz, mas então descobrimos uma necessidade maior do Dorivaldo, que era pela comunicação. Escrever um livro piscando dá muito trabalho e essa trajetória despertou uma outra necessidade. Descobrimos um equipamento que, acoplado ao computador, ele passaria a usar o computador com o comando dos olhos. Redes sociais, pesquisas, jogos, tudo que você imaginar no computador dá a chance do Dorivaldo fazer”, conta.

Então o dinheiro da venda do livro passou a ser destinado a comprar esse equipamento que custa em média R$ 23 mil. Este não é o único plano do aposentado, que já começou as pesquisas para próximo livro, que deve contar a história da sua cidade natal.

Doença

A esclerose lateral amiotrófica é uma doença neurológica degenerativa que causa a morte dos neurônios motores, comprometendo a perda da função motora no corpo. Um dos sintomas iniciais é a atrofia muscular localizada, sem dor e sem perda de sensibilidade.

A doença, que tem tratamento, mas ainda não tem cura, ganhou destaque depois do desafio do balde de gelo em 2014. Milhares de pessoas participaram da campanha na internet para arrecadar doações para pesquisas. A ELA, atinge cerca de 10 mil pessoas no Brasil. O físico Stephen Hawking é o caso mais famoso da esclerose.

Dô conversa através de piscadas e sorrisos (Foto: Renata Marconi/G1)

Dô conversa através de piscadas e sorrisos (Foto: Renata Marconi/G1)

Filha incentiva, e pai com doença rara ‘escreve’ livro com os olhos: ‘emoção’

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Antonio usa computador com equipamento que permite controlar programas com o movimento dos olhos (Foto: Milena Andrade/Arquivo pessoal)

Antonio usa computador com equipamento que permite controlar programas com o movimento dos olhos (Foto: Milena Andrade/Arquivo pessoal)

 

Baiano tem doença degenerativa que o fez perder a fala e os movimentos.
‘Tenho que buscar a melhor maneira possível de convivência’, diz baiano.

Alan Tiago Alves, no G1

“Foram, até então, 68 anos de muita saúde até ser surpreendido com o surgimento dessa doença rara. Por quê? Não há explicação. Surgiu em mim e tenho que aceitar esta realidade, buscar a melhor maneira possível de convivência”. As palavras são do baiano Antonio Ailton de Andrade e foram retiradas de um livro, “escrito” por ele com ajuda de uma tecnologia que utiliza o movimento dos olhos, em que descreve a descoberta da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa que, entre outras consequências, afetou todos os seu movimentos e o fez perder a voz.

Antonio ao lado da filha caçula, Milena, que o incentivou a escrever livro com os olhos. (Foto: Milena Andrade/Arquivo pessoal)

Antonio ao lado da filha caçula, Milena, que o
incentivou a escrever livro com os olhos.
(Foto: Milena Andrade/Arquivo pessoal)

O incentivo para fazer a obra, intitulada “Eu & Ela”, sendo o pronome pessoal feminino em referência à sigla que identifica a doença, foi de uma das três filhas de Antônio, a professora Milena Andrade. O pai utiliza um computador com um dispositivo acoplado que permite controlar programas e “digitar” palavras — com mouse e teclados virtuais — apenas com a movimentação ocular, por meio da leitura da iris. A tecnologia é hoje o único meio que permite ao administrador aposentado se comunicar com familiares e amigos.

A doença enfrentada por Antônio é a mesma que motivou o “desafio do balde de gelo”, há dois anos, em que várias personalidades foram desafiadas a jogar um balde de água gelada sobre a cabeça ou fazer uma doação de US$ 100 à “ALS Association”, associação norte-americana que financia pesquisas para encontrar a cura da doença e também serviços para paciente. Caso a pessoa topasse participar da brincadeira, poderia desafiar outros a fazer o mesmo.

No livro de Antônio, que tem quase 80 páginas e ficou pronto em quatro meses, o baiano de Salvador, hoje com 70 anos, descreve como foi a evolução da doença, desde julho de 2013, por quais tratamentos teve de ser submetido e menciona os fatores que o ajudam a conviver com a ELA. Afirma que, além de registro para parentes e amigos, a publicação tem como objetivo compartilhar com outros portadores da doença sua experiência de luta para uma coexistência positiva com o problema. O livro, o segundo do autor, também reúne depoimentos de familiares e amigos. Uma das mensagens é da esposa, Regina, com quem é casado há 42 anos.

“Estou totalmente sem movimentos do meu corpo, mas continuo ativo com minha mente, audição, visão e coração. Isto permite continuar me comunicando com as pessoas, por meio da escrita presencialmente, e-mails, entrevistas e livros, utilizando os meus olhos. Esta realidade me dá a sensação de que continuo trabalhando”, afirmou Antônio, em mensagem ao G1 escrita com a ajuda do equipamento eletrônico.

Para codificar a mensagem, ele precisa olhar para a tela do computador e selecionar as letras que deseja para compor uma determinada palavra. As letras são selecionadas, uma por vez, com o piscar dos olhos ou, então, quando se olha fixamente por alguns segundos. Sobre a tecnologia, diz no livro que é de fuindamental importância para a convivência com a ELA.

Doença
“Desde que ele descobriu a doença, a gente sabia que ele iria perder os movimentos. Os primeiros sintomas surgiram em 2013, mas levou mais de um ano para a gente saber o que era. Primeiro, ele começou a perder a fala e todo mundo achava que fosse refluxo. Ele fez uma ressonância e descobriu um tumor. Fomos para São Paulo e retiramos. O médico disse que ele ficaria bom em 60 dias, mas só piorou. Em 2014, quando de fato descobrimos a ELA, o meu pai já estava bastante debilitado”, conta Milena, filha caçula de Antônio.

Logo após o diagnóstico da doença, quando ainda conseguia andar e mover as mãos — habilidades que perderia pouco tempo depois –, Antônio escreveu o primeiro livro: “O legado – uma história de vida e carreira”. O baiano nunca foi escritor, mas conforme Milena, tomou gosto pela escrita após ficar doente.

“No primeiro livro, ele falou sobre a vida, a carreira [de administrador] e só cita a doença no último capítulo. Esse livro foi só para os amigos; nao clocamos para vender. Antes de fazer o segundo [livro], quando ele já estava sem os movimentos e já não mais falava, eu comecei a pesquisar de que forma ele poderia se comunicar e descobri essa tecnologia que ele usa atualmente. Os médicos disseram que [o equipamento] era caro, por ser importado da Suíça, mas nos incentivaram a comprar, porque iria ajudá-lo. Como ele já estava ficando monótono, eu o incentivei a fazer o segundo livro, para falar sobre a doença”, destacou a filha, afirmando ter sido válida a aquisição do equipamento, em outubro de 2015, por cerca de R$ 35 mil. O segundo livro de Antonio será lançado no dia 20 de agosto no salão de festas do prédio onde mora, em Salvador.

Para aprender a usar a tecnologia, como conta a filha Milena, Antônio passou por cerca de oito meses de adaptação, tendo acompanhamento de uma terapeuta ocupacional. “Depois que aprendeu, não largou mais. Ele é inteligente e, quando pegou a prática, passou a usar [o equipamento] de forma bem rápida. Ele responde emails, se comunica com amigos, tem Facebook, Skype, Whatsapp. O aparelho, hoje, é a voz dele”, celebra a filha.

Antes da doença, Milena conta que o pai viajava bastante, por conta da profissão de administrador, cargo que exerceu por 40 anos, e gostava de visitar a fazenda da família no município de Cabaceiras do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Hoje vive em casa, numa cama, e necessita de apoio de aparelhos para realizar necessidades básicas como respirar e comer.

“O que mais impressiona é a vontade que ele tem de viver. É muita emoção. Após a doença, ele não teve nenhuma depressão, nenhuma revolta. No segundo livro, fala que precisa ter ânimo, coragem, fé e vontade de viver. Diz que o fato de estar perto da família o fortalece. Tem uma fé tremenda. Meu pai é minha vida, meu alicerce. A doença dele me abalou completamente, não sou mais a mesma pessoa, mas mesmo na cama continua sendo aquele chefe de família sensacional. Através do computador, pergunta se estou triste, sempre se preocupa com a gente. A doença não foi capaz de tirar dele o poder de se comunicar. É o melhor pai do mundo”, diz Milena, sem conseguir esconder a emoção.

ELA
A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) é mais comum em pessoas acima dos 50 anos de idade, como explica a terapeuta ocupacional Larissa Santos. No entanto, pode acometer pessoas jovens, como foi o caso do físico britânico Stephen Hawking, diagnosticado com a doença aos 21 anos de idade.

“É uma doença rara e degenerativa. Afeta os neurônios motores, e os pacientes perdem a mobilidade: deixam de falar, de andar e também deixam de se alimentar por conta própria, porque se perde a musculatura da boca e a musculatura da deglutição é afetada. Além disso, é preciso fazer uma traqueostomia para que o paciente consiga respirar e ele também vai necessitar de ventilação mecânica e vai se mantendo estável nessa condição”, afirma.

Conforme a especialista, ainda não há uma causa definida para a doença, que apesar de paralisar todos os movimentos do corpo, não afeta a cognição dos pacientes. “Na questão cognitiva, que está relacionada à preservação da mente, do pensamento, o paciente não tem nenhum problema. Ele percebe tudo que acontece ao seu redor, está ciente, só não consegue se comunicar. É como se fosse uma mente presa num corpo”, destaca a especialista.

Pesquisas estão em andamento, conforme Larissa, para tentar descobrir os motivos que levam as pessoas a desenvolver a ELA.

Campanha
Os executivos Mark Zuckerberg, criador do Facebook, e Bill Gates, fundador da Microsoft, além de artistas como Ivete Sangalo, Justin Bieber e Steven Spielberg, foram alguns dos que aderiram à ideia.

Nos EUA, a ALS Association – que representa pessoas com ELA e outros tipos de doenças motoras neurológicas – recebeu US$ 115 milhões (cerca de RS 390 milhões) em doações de agosto a setembro de 2014, quando o desafio estava no auge.

O desafio do balde de gelo arrecadou dinheiro suficiente para ajudar a financiar uma descoberta sobre a doença. Uma pesquisa publicada pela revista “Nature Genetics” identificou um gene relacionado à doença, o Nek1, que tem funções neuronais, incluindo a manutenção do citoesqueleto, além da regulação da membrana da mitocôndria, que fornece energia aos neurônios e ajuda na reparação do DNA.. A mudança no funcionamento do gene é apontada como uma das causas da ELA. A descoberta foi liderada pelos professores John Landers, da University of Massachusetts Medical School, e Jan Veldink, da University Medical Center Utrecht.

Conforme o artigo, as variações nesse gene com múltiplas funções nos neurônios estão presentes em 3% de todos os casos de ELA da América do Norte e da Europa, de acordo com o artigo. Ainda conforme a pesquisa, cerca de 10 % dos casos de ELA são herança familiar, o que significa que a causa é genética, e outros 90% são casos esporádicos, sem qualquer relação com o histórico da pessoa.

Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

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Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

(Foto: Eder Chiodetto/Folhapress)

Um livro analisa os últimos trabalhos de João Cabral de Melo Neto e conclui que, mesmo cego e deprimido, ele manteve sua excelência literária

Marcelo Bortoloti, na Época
Quando morreu, em 1999, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto estava cego. Passava os dias com as janelas fechadas em seu apartamento no Rio de Janeiro, ouvindo o noticiário do rádio. Não gostava de música. Havia muito tempo não saía de casa e estava afastado de seu principal prazer, a leitura. Deprimido, não podia beber por proibição médica. Tomava dezenas de medicamentos, que atrapalhavam sua dicção. Mesmo ateu, dizia ter medo da morte, impressionado com a imagem do inferno que descobrira criança num colégio de padres. Para amigos próximos, falava do receio de ver sua obra esquecida depois que se fosse.

O fim dele foi o ponto mais triste de uma trajetória marcada por transtornos físicos e psicológicos nas duas últimas décadas da vida. Nesse período turbulento, ele produziu cinco livros que compõem sua produção menos conhecida e estudada. Naquela época, rechaçado pela nova geração de poetas (que o considerava formalista demais), desacreditado pelos críticos (que supunham que sua poesia se esgotara nos anos 1960), ele escreveu livros como Auto do frade, que quase ninguém leu. Quinze anos após sua morte, o principal especialista em sua obra, Antônio Carlos Secchin, lança um livro que pode fazer justiça à fase final. Publicado pela editora Cosac Naif, Uma fala só lâmina analisa criticamente cada um dos 20 livros de João Cabral, incluindo os últimos, que Secchin põe no mesmo patamar dos demais. É um convite para voltar às obras derradeiras e também a seus anos finais de vida, cujo drama seguramente influenciou os rumos de sua poesia.

João Cabral ainda é pouco lido. Foi o escritor brasileiro que teve mais chances de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1992. Grande parte do público não conhece mais que seu poema Morte e vida Severina, musicado por Chico Buarque e transformado em filme e peça de teatro. Mestre do rigor formal e das sobreposições de imagem, produziu uma obra que exige grande concentração e raciocínio do leitor. Isso afastou o público acostumado à poesia mais leve e emotiva. “Existem escritores que produzem em função de uma expectativa do público. Cabral estava completamente fora disso. Ele quis fazer uma obra coerente até o final, quem quiser que o acompanhasse. Muita gente não acompanhou”, diz Secchin. Essa poesia que não transige tem relação com o temperamento de João Cabral. Ele foi um diplomata pouco sociável. Por causa da profissão, passou 40 anos longe do Brasil e escreveu a maior parte de sua obra fora do país. Em razão da distância, não frequentou as rodas literárias de sua geração. Dizia ter horror a escrever cartas e se correspondeu com poucos amigos. Nos postos diplomáticos que ocupou, tinha aversão a festas e badalações. Vivia recolhido a sua casa, lendo e escrevendo. “Me interessava escrever minha obra, não conhecer paisagens”, disse, em sua última entrevista, ao cineasta Bebeto Abrantes.

O ponto alto de sua carreira aconteceu na segunda metade dos anos 1960, quando o poema Morte e vida Severina foi adaptado para o teatro. Nesse mesmo período, ele entrou para a Academia Brasileira de Letras e publicou A educação pela pedra, considerada sua obra-prima. Muitos críticos consideravam que Cabral não tinha mais para onde avançar.

OLHAR FEMININO Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

OLHAR FEMININO
Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

Em 1972, ele partiu para um posto no Senegal, onde ficou mais de sete anos. Vivia numa mansão com 14 empregados para servi-lo, à mulher e a um filho. Sua rotina era de clausura. “Ele voltava a 1 da tarde do trabalho e ficava a tarde inteira lendo. Sete da noite, trocava de roupa e continuava lendo”, diz seu filho, João Cabral de Melo. Na correspondência com o editor Daniel Pereira, depressão e doenças se tornaram tema constante. Em 1975, escreveu: “Tenho andado ocupado, ocupadíssimo e, para variar, doente. Doenças acumuladas: polineurite, seguida de crises hepáticas, seguidas de alergia”. O resultado desse período foi A escola das facas, recebido friamente pela crítica. Secchin defende o livro. Diz que inaugura um viés histórico e mais autobiográfico. João Cabral dificilmente punha suas emoções ou experiências particulares nos poemas que escrevia. Nesse livro, estão presentes com força suas vivências de infância. A partir daí, sua escrita foi ficando rara e difícil. João Cabral costumava dizer que escrever lhe era doloroso. Ele anotava suas ideias em pequenos papéis que guardava no bolso. Depois, se trancava no escritório para desenvolvê-las em forma de poema, num trabalho exaustivo de lapidação. Um poe­ma poderia levar anos para atingir a forma final. “Posso dizer que, de livro para livro, o fazer poético torna-se mais difícil. Meus primeiros livros saíam com mais facilidade”, disse em entrevista na época.

Em 1984, transferido para Portugal, escreveu ao editor Daniel Pereira. “Gostaria de nunca ter escrito uma linha, pois a poesia só me tem dado aporrinhações”, dizia. No ano seguinte, lançou Agrestes, cuja produção o deixou esgotado. Nesse livro, com 14 poemas sobre a morte, ele se despede do leitor em forma de verso. Mas não parou de escrever. Um novo choque tumultuou sua vida em 1986, com a morte de Stella, a primeira mulher, vítima de câncer. Durante 40 anos, ela cuidara de todos os aspectos práticos da rotina de João Cabral. Datilografava seus poemas e ajudava na organização dos papéis. Deixava seu terno, calças e sapatos prontos, do lado de fora do banheiro, para que ele vestisse ao sair do banho. Quando a mulher morreu, ele perdeu o rumo. Passou meses deprimido no Rio de Janeiro. Foi quando conheceu a poeta Marly de Oliveira. Apaixonou-se no meio do luto.

Marly era uma mulher bonita, inteligente e refinada. João Cabral era considerado o maior poeta brasileiro. Tinha 15 anos a mais e parecia ainda mais velho, por causa das doenças. Não foi uma conquista fácil. João Cabral voltou para seu posto em Portugal. Ligava diariamente para ela, muitas vezes embriagado, pedindo que o acompanhasse. Acabaram se casando. Hoje, as duas famílias avaliam negativamente o casamento. “Minha mãe se tornou uma espécie de enfermeira dele e acabou com a mesma depressão do João. Ela anulou sua carreira para cuidar dele”, afirma Mônica Moreira, filha do primeiro casamento de Marly. “Marly estava acostumada a que tomassem conta dela. Passava o dia inteiro fechada no quarto, lendo literatura clássica. Meu pai ficou entregue às traças”, diz Inez Cabral, filha de João Cabral.

Aposentado, ele não conseguiu se adaptar à vida no Rio de Janeiro. A sacada de seu apartamento tinha uma vista maravilhosa da Baía de Guanabara, e ele não achava graça. “Essa natureza opulenta do Rio não me interessa”, disse na época. Pouco saía de casa, com medo da violência. Começou a fumar aos 69 anos. Fumava até ficar com os dedos amarelados. Foi proibido de beber depois da operação da úlcera, mas não cumpria a ordem. Marly tentava esconder as bebidas de casa. Ele saía em silêncio para o botequim da esquina, onde comprava vodca ou cachaça de má qualidade. A mistura da bebida com remédios era explosiva. Várias vezes João Cabral caiu dentro de casa e se cortou. Embora escrevendo com sofrimento e dificuldade, a poesia ainda lhe dava sentido à vida. Reuniu uma nova leva de poemas e lançou seu último livro, Sevilha andando, em 1990. João Cabral declarou que pretendia continuar escrevendo, mas o problema da visão interrompeu seus planos. Começou a sofrer uma degeneração macular, que gradativamente o impediu de ler e escrever. Ficou cada vez mais recolhido e deprimido. “Nunca fiz outra coisa na vida senão ler. Ficar cego foi um castigo violento que Deus me deu”, disse. Marly e sua filha Inez liam em voz alta para ele, mas João Cabral só conseguia acompanhar textos curtos. A televisão lhe dava dor de cabeça. Só restava o rádio. Os poucos amigos que frequentavam seu apartamento encontravam um cenário melancólico. “Estou sem vontade, sem razão de viver”, disse ao escritor e crítico José Castello, autor da biografia João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma. Num derradeiro esforço para continuar produzindo, tentou ditar versos para Marly. O último poema que escreveu na vida, usando esse método, fala da impossibilidade da escrita sem visão: Pedem-me um poema,/um poema que seja inédito,/poema é coisa que se faz vendo,/como imaginar Picasso cego? Com esses versos melancólicos, se despedia. O livro de Antônio Carlos Secchin mostra que conseguiu concluir com dignidade e talento suas obras finais.

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