Vitrali Moema

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Dona de casa estuda com as apostilas do filho e é aprovada na USP junto com ele

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Imagine a sensação boa que deve ser entrar na universidade com a sua mãe, foi isso que aconteceu com a dona de casa Carla.

Imagine a sensação boa que deve ser entrar na universidade com a sua mãe, foi isso que aconteceu com a dona de casa Carla.

 

“Comecei a estudar há dois anos e aproveitava as apostilas dos meus filhos para estudar. Eu me atualizava sozinha em casa”, afirma ela.

Publicado no Razões para Acreditar

O jovem Rafael Sartori, de 20 anos, está desfrutando deste momento único na sua vida e motivo de muito orgulho. A mãe dele, a dona de casa Carla Simone das Neves Sartori, 42, também foi aprovada no vestibular da Universidade de São Paulo (USP), um dos mais concorridos do país. Carla estudou para a prova da Fuvest com as apostilas do cursinho de Rafael.

“Comecei a estudar há dois anos e aproveitava as apostilas dos meus filhos para estudar. Eu me atualizava sozinha em casa”, conta ela.

Moradores de Araraquara (SP), Rafael vai estudar engenharia agronômica e a mãe ciência dos alimentos, no campus de Piracicaba. As aulas na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) começam em março. “Vejo esta etapa como uma nova vida e estou ansiosa para o início deste ciclo”, disse Carla.

A mãe caloura revelou que vai se mudar para Piracicaba com Rafael e a filha mais nova: “A mudança é necessária para que possamos ficar próximos da universidade. Será uma experiência nova em diferentes sentidos”.

“É uma sensação muito boa poder ingressar na universidade ao mesmo tempo em que o meu filho. Mas me preocupo em deixá-lo seguir o seu caminho. Ele tem planos de fazer estágio, de ir para o exterior em um

Dona de casa que estudou até 4ª série, vence os “nãos” e vira escritora aos 80 anos

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Ela tinha o sonho de ser missionária e de escrever livros e só foi realizá-los 60 anos depois

Maressa Mendonça, no Correio do Estado

Bárbara lançou o primeiro livro quando tinha 80 anos (Foto: Maressa Mendonça/Portal Correio do Estado)

Bárbara lançou o primeiro livro quando tinha 80 anos
(Foto: Maressa Mendonça/Portal Correio do Estado)

Ela adiou os sonhos por mais de sessenta anos, depois de ouvir o “não” do pai dela e o conselho do marido. Aos 13 ela queria levar aos desconhecidos as palavras de vida e esperança que tinha aprendido com missionários evangélicos, mas não teve autorização. Queria escrever livros também, mas disseram que ela não tinha conhecimento suficiente para isso.

As vontades dela acabaram se concretizando na construção de uma igreja em Aporé (GO) e em três publicações, todas escritas em Campo Grande (MS), onde mora atualmente.

Nascida e criada em fazenda, Bárbara Cândida e Silva, de 85 anos, estudou até a 4ª série. Nessa época ela deu início ao hábito que manteria durante toda a vida: de anotar acontecimentos importantes e impressões sobre o cotidiano em um caderno.

FATOS MARCANTES

Dentre as anotações, a história do doloroso “não”, dito pelo pai. Ele havia revelado a ele o sonho de estudar e ser missionária, deixando a fazenda para morar em um internato em São Paulo. “Filha, eu te amo muito, mas se você for, não conta mais comigo, nunca mais! Vou deixar de ser seu pai!”, ouviu como resposta.

Naquele momento, o sonho parecia ter chegado ao fim. Ela não questionou, só chorou muito.

Três anos depois, com 16, Bárbara se casou com o homem que a presenteou com um broche em forma de telefone. Antes do matrimônio, os dois se conversavam por cartas e o romance foi tomando forma e laços cada vez mais fortes.

Já casada, Dona Bárbara tentou buscar apoio do marido amado para concretizar esse projeto de vida. A opinião dele não agradou tanto. ​

Ele tentou convencê-la a esquecer desse sonho e ainda disse que se fosse adiante poderia se frustrar por não ter capacidade e ficar envergonhada pela falha. “Os erros de ortografia não seria perdoados pelos leitores”, dizia.

O marido já é falecido. A separação física aconteceu há 38 anos, mas o sentimento de união perpetua. E o símbolo desse amor é justamente aquele broche recebido como presente, guardado com muito carinho até hoje.

Com o marido Ronan Rezende, ela teve seis filhos: Alvacir, Daniel, Lídia, Ester, Sarah e David. Mãe e dona de casa em tempo integral, ela ainda organizava o tempo para exercer outras atividades como a de costureira, confeiteira e até professora de crianças em uma escola de Cassilândia, a 425 km de Campo Grande, onde morou durante 62 anos.

Somado ao “não do marido”, a rotina de Bárbara era cheia, mas não era suficiente para apagar a vontade de escrever um livro, que como ela descreve era um sentimento “indomável”.

OS LIVROS

Os filhos cresceram, a viuvez chegou e ela se viu com tempo suficiente para organizar os pensamentos rabiscados em cadernos.

As histórias da infância se transformaram no livro “Pegadas que Falam”, o primeiro lançado pela escritora, quando tinha 80 anos. Depois, veio “A voz que aquece o coração”, com mensagens bíblicas comentadas pela autora. O último foi “A Ponte”, obra que reúne a história do município de Aporé (GO), onde ela nasceu.

Ao contrário do que ela pensava, os livros foram bem aceitos pelos leitores. “Não imaginava, não. Tinha vontade, mas não tinha esperança. Achava que, porque eu não tinha estudado, não tinha cultura, era impossível”.

Sobre os erros de ortografia, ela descobriu que não são publicados. “A gente escreve errado, mas o computador corrige. Depois vem a editora e coloca em ordem, mas a ideia da gente vai, está toda ali”, declara Bárbara, que ainda mantém o hábito de escrever rascunhos no caderno, antes de passar para o computador.

Ela conta que já tem outro livro em andamento. Desta vez, será sobre gastronomia. “Enquanto tiver condições, vou escrever”, diz.

Livros que servem para conservar o mundo

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De vez em quando, a meio da semana e aproveitando a doçura daquele silêncio outonal que abençoa os pinhais em redor da casa, Dona Elaine, a guardiã e governanta do eremitério de Moledo, fica de pé observando as estantes que cobrem todas as paredes daquilo a que chamamos, na família, “a biblioteca”. São uns milhares de livros com proveniência muito diversa e que servem, fundamentalmente, para ler.

Antonio Sousa Homem no Correio da Manhã

A utilidade dos livros, entre os Homem, nunca se desviou muito dessa estrita finalidade. Não se tome a afirmação por arrogância, digamos, intelectual. Há, claro, uma certa vaidade de bibliómano e um certo prazer na posse de um exemplar raro, uma primeira edição, uma curiosidade; mas a vaidade dos Homem tomou sempre outra direcção. O velho Doutor Homem, meu pai, por exemplo, guardava-se para a meia-estação a fim de vestir os seus fatos de ‘tweed’ de Donegal (o único que ele achava digno de um cavalheiro colonial, considerando que não ligava à distinção entre o Eire e o Ulster) e dar uso aos bonés irlandeses que o protegiam, durante os seus passeios à beira-mar, de um frio inexistente. Era essa a prova da sua vaidade. O Tio Alberto, tirando o facto de ser considerado o bibliómano da família, preferia ser considerado pelos seus dotes culinários e por ser reconhecido pelos porteiros do velho Hotel du Lac em Genebra, onde repousava das suas viagens em redor do Cáspio antes de regressar à solidão melancólica de São Pedro de Arcos. E a Tia Benedita, tirando a literatura pia e dois ou três romances de que ignorava os títulos, considerava a vaidade um pecado capital de primeira grandeza. Sobrei eu. Durante anos, décadas, não havia opúsculo de história regional do Minho que não cativasse a minha atenção. Mas não por vaidade absoluta e maldosa. Apenas por ingenuidade e um resto de entusiasmo adolescente (coisa que sempre foi duvidosa, uma vez que a família considera que nasci já adulto e que não passei pela adolescência).

De modo que Dona Elaine estaciona diante das prateleiras e, baixinho, pergunta: “O senhor doutor não sabia o que fazer sem estes livros, pois não?”

Não. Não saberia o que fazer. A minha sobrinha Maria Luísa, que acha que os livros são um contributo essencial para “mudar o mundo”, desde o mais modesto romance cheio de erros de gramática, até ao ensaio mais obtuso de um professor de Heidelberga, nunca compreendeu que os livros servem, sobretudo, para “conservar o mundo”. Se quiséssemos mudar o mundo, andávamos lá fora, atrevidos e inconsoláveis. São estas coisas que definem um reaccionário em épocas de intempérie.

 

Os caminhos misteriosos dos livros e o fascínio pelas dedicatórias

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A história incrível de um livro que atravessou os oceanos, perdeu-se e voltou às mãos da dona. Havia uma dedicatória do moçambicano Mia Couto.

Renata Neder, na revista Época

"Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta “Terra Sonâmbula”. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.”  (Foto: Renata Neder)

“Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta Terra Sonâmbula. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.” (Foto: Renata Neder)

Eu tenho fascínio por livros com dedicatória. Às vezes isso é prática meio indiscreta, vou na casa de amigos, folheio livros e paro para ler cada dedicatória. Não resisto. Cada dedicatória conta uma história, sobre aquelas pessoas e sobre o caminho que o livro percorreu. Por que foi escolhido para ser dado, em que ocasião, para simbolizar o quê?

As dedicatórias anônimas ou em livros de pessoas desconhecidas são ainda mais interessantes. Dá pra ficar imaginando quem, afinal, teria escrito aquela mensagem. O que sentia, o que fazia, o que era na vida.

Sempre que eu entro em um sebo e pego um livro na mão, eu folheio as primeiras páginas em busca de uma mensagem, uma dedicatória. Um dia estava despretensiosamente folheando livros em um sebo em Botafogo quando encontro um livro do Mia Couto, autor moçambicano que eu amo sem fim.

Fiquei feliz com a descoberta porque, na época, sua obra estava esgotada no Brasil e pra comprar, só em sebo mesmo. Mas a grande surpresa veio quando eu percebi uma longa dedicatória no livro assinada pelo próprio Mia. Era uma mensagem longa e carinhosa destinada a uma Valéria. Pelo tom das palavras, eles eram bons amigos. Além da dedicatória havia, na página seguinte, alguns parágrafos escritos pela ‘ Valéria ‘ em tinta vermelha. O texto, meio poético, falava de sua amizade com o autor.

Comprei o livro, claro. E isso foi apenas o início de uma história muito bacana sobre os caminhos misteriosos que os livros percorrem.

Alguns anos depois, quando eu trabalhava em uma livraria, comecei a conversar com certa frequência com uma mulher que era frequentadora assídua do lugar. Ela, como eu, apaixonada por literatura africana de língua portuguesa. O nome dela era Valéria.

Os livros do Mia Couto estavam sendo reeditados no Brasil e um dia, enquanto falávamos sobre como isso era bom, contei a ela que eu tinha muitos livros dele garimpados em sebo. Contei a ela a sorte que tive por encontrar um livro com uma dedicatória do próprio Mia e recitei parte da dedicatória, que eu sabia de cor.

Ela ficou pálida. Só conseguiu dizer “Essa Valéria sou eu.” Achei que era brincadeira. Ela repetiu “Renata, essa Valéria sou eu.”

Eu, confesso, não acreditei. Aí ela disse: “Nesse mesmo livro eu escrevi um pequeno texto sobre o Mia e nossa amizade sobre o dia em que ele me deu o livro de presente.”

Era verdade. Era incrível, mas era verdade.

Aí vieram mil questões. Ela queria saber onde eu tinha comprado e como o livro foi parar nas minhas mãos. Eu queria saber por que ela tinha se desfeito de um presente tão lindo.

Valéria foi casada com um diplomata brasileiro e morou em Angola. Conheceu Mia Couto, ficaram amigos. Todos seus livros estavam em Angola, assim como este, presente do Mia. Quando se separou, não trouxe de volta para o Brasil, coisas de separação… Não sabemos exatamente como o livro foi parar em um sebo em Botafogo. Talvez o ex-marido tenha trazido de volta quando voltou ao país e vendido sua biblioteca a um sebo. Talvez tenha emprestado a alguém que o trouxe de volta.

Não sabemos que caminhos o livro percorreu. Mas o fato é que ele encontrou seu caminho de volta ao Brasil e aos cuidados de Valéria.

Apesar de estar emocionada com a história, confesso que estava um pouco triste por perder um livro com uma dedicatória do próprio Mia Couto, logo um dos meus autores favoritos. Mas o desejo do livro, de voltar para as mãos da dona daquela dedicatória, devia ser respeitado.

A tristeza durou pouco! Algumas semanas depois, Mia veio ao Brasil para um evento literário. Valéria contou a ele sobre essa jornada. E Mia ficou encantado com a história do caminho misterioso percorrido por seu livro.

Me enviou então seu livro “Terra sonâmbula” de presente. O livro conta a história de um velho e um menino, companheiros de viagem, que encontram nas suas andanças um diário. Um diário que também percorreu caminhos misteriosos.

O livro veio com uma dedicatória.

“Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta “Terra Sonâmbula”. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.” 

Obrigada, Mia, vou guardar para sempre com imenso carinho. Afinal, não é sempre que os livros atravessam oceanos e que a gente ganha dedicatória de nosso autor favorito.

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