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É preciso encantar a criança para ela preferir um livro ao YouTube, diz blogueiro

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Ygor Salles, na Folha de S.Paulo

Mateus Luiz de Souza

É missão dos pais e dos educadores fazerem crianças e adolescentes se interessarem por livros e literatura. Mas é preciso mais criatividade do que apenas um “isso é importante para seu futuro”.

É sobre esse desafio (e outros assuntos, claro) que fala o jornalista Bruno Molinero, do Era Outra Vez, sétimo convidado do Fale, blogueiro, programa de entrevistas com blogueiros da Folha no Instagram Stories.

Confira os melhores trechos.

Passamos por uma crise nas vendas de livros, inclusive de literatura infantojuvenil. Quais os motivos?
A gente deixou de vender porque o país passou e está passando por um momento econômico delicado. O país deixou de vender carro, deixou de vender carro, casa, e livro. Mas é um problema estrutural um pouco maior. O livro para criança está inserido dentro de um conceito maior, não dá para analisar só ele como se estivesse numa redoma de vidro. Tem um problema de estrutura de escola, em que tem uma massa de pai que não lê, professores que não leem, crianças que não leem, aí partir daí produz e vende menos livros porque não tem quem leia. Tem também um problema histórico: o Brasil começou a ter imprensa, e a produzir livro, muito tarde. Não é exagero dizer que estamos nos acostumando a fazer isso, é um processo histórico que é lento. Tem desigualdades econômicas, desigualdades sociais, um monte de coisa que influencia nessas quedas.

E no exterior, como é?
O mercado dos Estados Unidos e a Europa ocidental (Portugal, Itália, Inglaterra, Alemanha) tem um mercado muito forte para criança, é um setor muito valorizado. Dá de dez a zero no nosso, cifras, valores, quantidade de títulos, a qualidade do papel, a impressão, eles estão num estágio mais avançado sem dúvida. A Feira de Bologna, na Itália, é muito famosa, é lá que é revelado o Prêmio Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantil.

Autores e editores criticam governo por fixar temas em edital de livros. Poderia explicar?
O governo brasileiro sempre foi um grande comprador de livros –até pouco tempo atrás era o maior. Mas no fim do governo Dilma, no bojo da crise econômica, o antigo edital de livros para escolas foi extinto e não se comprou mais livros. E o que parecia uma boa notícia –o governo lançou o PNLD Literário (Programa Nacional do Livro Didático), que teria também livros de literatura. Só que aí editores, autores, ilustradores viram a regra do edital, acharam um pouco complicado, pois, segundo eles, havia uma mistura do que era literatura e o que era escola. Tem que falar sobre a descoberta da juventude, sobre a relação com os amigos, sobre descobrir a si mesmo. Se você quer um tema fora do edital, você tem que explicar e justificar porque quer falar sobre isso. O que autores reclamam é que primeiro você cria uma moral da história para depois criar uma história, e isso é um pensamento inverso do que é produzir literatura. Fora isso, tem uns tamanhos determinados, então qualquer livro fora desse tamanho ou é adaptado ou não vai pode participar ou ser comprado pelo governo.

A literatura, inclusive de crianças, deseja interpretações, reflexões. Nos livros de hoje, elas são muitas vezes menosprezadas?

Eu não diria um menosprezo. Há muitos livros bons publicados, de alta literatura, escritores ótimos, ilustradores ótimos, mas também tem uma massa de livro que se encaixa um pouco nisso que a Sandra Medrano falou, em que o objetivo, a moral da história, por que você quer ensinar a criança a ser uma pessoa virtuosa, isso se sobressai. É um livro que o autor senta e fala, puts, “preciso ensinar a criança a escovar o dente”, então a partir dessa moral ele vai lá e cria uma história, ou reciclar o lixo, aquecimento global, só temas caros ao mundo contemporâneo, e fica uma história um pouco manca. Você não tá criando algo novo, algo que quebra expectativa, você não está fazendo literatura, você está fazendo alguma coisa que carrega uma moral para criança ser melhor, para o professor usar na escola, aí a escola olha “que legal esse livro que ensina a criança a escovar os dentes, vamos comprar”, aí o autor vende mais livros, acaba sendo um problema estrutural.

A Jout Jout pegou, falou sobre o livro inteiro e o que em tese poderia ser ruim foi incrível pra editora, houve aumento de mais de cem vezes no pedido do livro nas livrarias. Agora, é ruim quando é preciso esse fator externo pra um livro infantil ganhar as manchetes, não?
Você pode ver por esse lado, em que talvez precise de um fator externo para estimular as vendas, mas eu enxergo por outro lado, que bom que ela escolheu falar sobre livro pra criança e isso acabou sendo divulgado, e vendeu, e transformou o Shel Silverstein conhecido no Brasil, um livro antigo. Eu adoraria que caixas de sabão em pó tivesse coisas sobre livro, que toda vez que você comprasse algo no mercado viesse uma resenha de livro infantil. Talvez pouco a pouco o livro se tornaria algo mais do dia a dia da criança. Acho que a Jout Jout fez um serviço super importante pros autores, pros ilustradores, pras crianças, porque realmente é um livro legal, é pouco óbvio, literariamente muito bom, sem formulazinhas para ser educativo, se propõe a fazer literatura.

Como a tecnologia é retratada nos livros infantojuvenis?
Na verdade, todo assunto e qualquer assunto pode ser tema de um livro. A tecnologia claro aparece, até porque quando você fala de criança, a fantasia, a tecnologia, o futuro, sempre pode ser um tema, é fácil de encontrar. Talvez a grande questão da tecnologia dentro da literatura para criança seja a questão do livro digital. Aí sim, é um mercado que não está em expansão, mas também parece que não está em retração, existem exemplos legais de editoras digitais especializadas, é um mercado interessante. Mas também existe muita coisa estranha sendo feita, como um mero PDF, que só vira a página, que você não entende porque aquilo não está sendo impresso, talvez só por uma questão de custo. E mais uma vez comparando com fora, lá temos grandes exemplos de bons livros digitais sendo feitos, e podem ser baixados aqui se você lê em outra língua, inglês principalmente.

Qual a influência da família no processo de ler da criança?
É muito mais natural, simples e fácil você ter um pai leitor, um professor leitor, um tio leitor, um padrinho leitor, que faz a criança se tornar leitora, porque vai sentar com a criança, vai contar aquela história, a criança vai se encantar pelo livro, pela literatura, e a partir daí ela vai aprender a ler, e claro, não é obrigatório, pode acontecer mil coisas pelo caminho, é tudo muito nebuloso, mas é muito mais provável que ela se torne um adulto leitor, e o filho dele se torne uma criança leitora, do que ela por si só e espontânea vontade aos 10 anos entrar numa livraria e comprar o livro. Então o pai, o professor, o mediador, são extremamente importantes nesse aspecto porque mostra possibilidades. A isca tem que ser jogada de alguma maneira.

E ler para bebês? Você recentemente entrevistou Yolanda Reyes, escritora colombiana especialista em formação de leitores.
Segundo ela não tem uma fórmula exata e direta. Não quer dizer que bebês que ouviam livros, os pais contarem histórias, ele vá se tornar um adulto leitor, ou um escritor, mas, segundo ela, é algo muito importante para o bebê, que tem a necessidade de ouvir a sua língua, e ouvir a literatura, porque é a língua mais ritmada, como se fosse a música, a partir daí ele toma esse contato, há uma aproximação entre pais e filhos, no colo, e a partir daí ele cresce e consegue ler, sentar, e aí é aquilo que a gente já conversou, abre mais possibilidades para ele ter um emprego melhor, ganhar mais dinheiro.

Fui falar com uma amiga minha que tem uma irmã de dez anos e ela deu um depoimento super interessante. “Pior que até minha irmã que era rata de leitura foi seduzida pelos vídeos no Youtube”. Como lidar com isso, Bruno?
Não existe uma resposta. Não sei se tem que enfrentar. O vinil não destruiu o CD, a TV não destruiu o cinema, o vídeo do YouTube ou a live no Instagram não vai destruir a literatura. Agora, é questão do pai que está ali no dia a dia, do professor, insistir, tentar fazer com que a criança volte a pegar o livro, leia. Não com um papo chato “isso é importante para seu futuro”, mas tentar encantar a criança para que ela continue lendo, porque de fato isso é importante para o futuro dela.

2017 não foi um ano fácil para arte e literatura. Livros infantis foram retirados de escolas e livrarias por pressão de grupos que os acharam impróprios –e isso dos dois lados. Isso continua?
A literatura para criança não está inserida dentro de uma redoma de vidro em que não tem contato com o que está acontecendo fora. É um contexto que começou já há algum tempo, foi mais forte no ano passado, e continua acontecendo de censurar livro. Estamos passando por um momento em que a arte, a produção literária, de teatro, ela vive um patrulhamento tanto de grupos de direita quanto de esquerda, ou afirmativos, que acham que aquilo desrespeita uma minoria ou um grupo e prefere, em vez de procurar a Justiça, eliminar uma obra. Isso acaba caindo na literatura para criança, é inevitável. Isso acontece, continua acontecendo e acho que é um tempo um pouco instável. Tem que ficar de olho, e, sempre que acontecer, noticiar e refletir sobre isso, acho que esse é o papel da imprensa.

E livros sobre Karl Marx para crianças ou biografias para adolescentes sobre feminismo, qual sua opinião?
Esses dois exemplos têm uma pegada mais informativa. O de Marx adapta para um livro infantil as ideias do filósofo, e do grupo feminista pega algumas mulheres importantes do mundo e do Brasil e faz uma pequena biografia para que sobretudo meninas fiquem conhecendo mulheres importantes, e despertem sentimento feminista, de simpatia a outras mulheres, e de empoderamento, essa palavra do ano. Eu acho interessante. Do ponto de vista de mercado é legal, você tenta achar novos públicos, pois talvez uma menina que nunca leu queira ler aquela matéria ou aquele livro porque acha o tema interessante. Do ponto de vista pessoal, de alguém que faz crítica de livro, eu só acho que tem que tomar cuidado para o livro não se tornar um panfleto, não ser alguma coisa de um partido político, que aí foge da proposta.

Tronos, castelo e até cinema: editoras transformam seus estandes em atrações na Bienal

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Editoras diversificam montagem de estandes para atrair os leitores - Analice Paron / Agência O Globo

Editoras diversificam montagem de estandes para atrair os leitores – Analice Paron / Agência O Globo

Fãs de sagas de sucesso, como ‘Harry Potter’ e ‘Game of Thrones’, fizeram filas para garantir uma foto nas montagens

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO — As editoras fizeram um investimento pesado nas suas participações na Bienal do Livro do Rio deste ano. Os estandes, que se tornam, a cada ano, uma atração em si, receberam até uma sala de cinema. Um dos mais concorridos no primeiro fim de semana de Bienal foi o da editora Rocco. Casa dos livros do bruxo Harry Potter, a editora aproveitou os 20 anos da série e transformou o estande num castelo de Hogwarts. Do lado de dentro, as estantes de livros dividiam espaços com corujas, baús, vassouras e animais fantásticos do universo de “Harry Potter”. Já do lado de fora, as janelas do “castelo” faziam referência a cada um dos sete livros. Ao longo de todo o fim de semana, uma enorme fila se formou para tirar foto em uma vassoura, como se estivesse voando.

Já a HarperCollins Brasil, que faz sua estreia na Bienal depois de ter se separado do Grupo Ediouro no início deste ano, montou um cinema no Riocentro. As sessões, com início de dez em dez minutos, atraíram uma multidão. Dentro do cinema, o público fica deitado no chão para assistir a um filme sobre a importância da leitura. Na outra ponta do estande da editora, os visitantes podiam tirar foto em uma estação de trem cinematográfica, numa referência ao clássico de Agatha Christie, “Assassinato no Expresso do Oriente”.

O estande da HarperCollins Brasil apostou em uma estação de trem cinematográfica, numa referência ao clássico de Agatha Christie, 'Assassinato no Expresso do Oriente' - Analice Paron / Agência O Globo

O estande da HarperCollins Brasil apostou em uma estação de trem cinematográfica, numa referência ao clássico de Agatha Christie, ‘Assassinato no Expresso do Oriente’ – Analice Paron / Agência O Globo

 

Os estandes da Intrínseca, da do Grupo Editorial Record e da LeYa/Casa da Palavra, a atração era a interatividade. Na Intrínseca, muitas crianças posavam para fotos com o capacete característico do protagonista de “Extraordinário”, de RJ Palacio, portador de uma síndrome genética que provocou uma deformidade facial. Já na Record, havia um “espelho falso” em que o público podia “entrar” para tirar fotos, com o tema do romance “Menina Veneno”, de Carina Rissi. Ao lado, os simpáticos Asterix e Obelix também faziam sucesso com visitantes de todas as idades. No estande da LeYa/Casa da Palavra, o sucesso foi, mais uma vez, a réplica do trono de ferro de “Game of Thrones”, já que a editora publica os livros de George R.R. Martin. Contudo, neste ano, o trono enfrenta a concorrência de outros tronos de ferro espalhados pela Bienal.

Homenagem na Flip faz editoras investirem em relançamentos de obras de Lima Barreto

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Prateleiras com livros de Lima Barreto, e sobre ele, na Livraria da Travessa de Paraty - Mônica Imbuzeiro

Prateleiras com livros de Lima Barreto, e sobre ele, na Livraria da Travessa de Paraty – Mônica Imbuzeiro

 

Romances em folhetim, crônicas e biografias compõem ampla oferta de títulos

Leonardo Cazes, em O Globo

PARATY — Na Livraria da Travessa montada especialmente para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), as obras de Lima Barreto se multiplicam, num reconhecimento que o autor nunca teve em vida. A razão para a profusão de publicações é simples: toda a obra do autor entrou em domínio público em 2002, 80 anos após a sua morte, de acordo com a legislação brasileira. Em 15 edições da Flip, esta é apenas a segunda em que um autor em domínio público é homenageado. Antes de Lima, só Machado de Assis, reverenciado em Paraty em 2008, podia ser publicado livremente.

Na corrida para aproveitar o burburinho gerado pela festa em torno da obra do escritor, cada editora apostou numa leitura diferente de sua obra. A Carambaia, casa paulista que há dois anos vem se destacando por publicar edições caprichadas de obras em domínio público, decidiu investir na reedição de dois romances menos lembrados de Lima: “Os bruzundangas” e “Numa e a ninfa”.

Ambos foram publicados originalmente como folhetins, em jornais da época. Suas edições originais eram muito simples e basicamente aproveitavam as chapas montadas para imprimir os textos no jornal. A editora Graziella Beting, da Carambaia, explica que os jornais foram a inspiração do projeto gráfico concebido pelo designer Fernando Vilela, que fala hoje na Casa do Papel, (Av. Otávio Gama 142) às 13h30m.

— O Fernando enlouqueceu com essa história de ter saído no jornal e foi à Biblioteca Nacional ver os originais onde foram publicados — conta ela.

Graziella explica que o fato de a obra ser de domínio público não torna a edição mais fácil. A própria fixação do texto é difícil, já que os jornais do início do século XX vinham com muitos erros, as chamadas “gralhas”. Na Biblioteca Nacional, onde está depositado o arquivo de Lima Barreto, ficam os originais anotados dos dois romances. Mas mesmo isso provoca discussões. A solução encontrada foi recorrer a uma especialista, a crítica Beatriz Resende, que assina a organização e posfácio.

— O processo de edição é também uma forma de interpretação da obra — diz Graziella. — Agora, esses textos estão sendo editados como clássicos.

Já a Autêntica preparou a edição de uma seleção de crônicas de Lima Barreto sobre o Rio de Janeiro, também organizada por Beatriz Resende, “Lima Barreto — Cronista do Rio”. A editora Maria Amélia Mello conta que a casa já preparava a reedição da biografia “A vida de Lima Barreto”, de Francisco de Assis Barbosa, e queria fazer algo especial para a Flip. A proposta do livro surgiu a partir da própria Beatriz.

— Já tínhamos reeditado o “Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos” e estávamos pensando em algo para a Flip. Ganhamos um edital da Biblioteca Nacional e fizemos essa parceria para publicar fotografias históricas da cidade que estão no acervo da instituição — conta Maria Amélia.

Já a Global Editora aproveitou a homenagem a Lima na Flip para colocar na rua “Lima Barreto para jovens”, uma seleção de crônicas destinados a adolescentes. A série “para jovens” já publicou vários autores, como Marina Colasanti e Ignácio de Loyola Brandão. O editor Gustavo Henrique Tuna explica que, para selecionar os 29 textos, o critério foi buscar os que ainda soam atuais.

— Há crônicas sobre política e sobre as reformas urbanas que podem ser lidas hoje tranquilamente, mantêm uma atemporalidade. Por exemplo, quando o Lima fala das mudanças no Rio de Janeiro. A cidade passou por outra reforma urbana recentemente. O jovem pode se surpreender — afirma Tuna.

Já a Penguin-Companhia, que vem reeditando toda a obra do escritor há alguns anos, preparou para a Flip novas edições de “Numa e a ninfa” e “Impressões de leitura e outros textos críticos”, todas comentadas. Tem-se, assim, um múltiplo Lima nas livrarias: do cronista do Rio ao autor que ganha um tratamento editorial destinado aos clássicos de capa dura. As novas edições dos seus romances ganham prefácios, ensaios e comentários inéditos, gerando um movimento de renovação na recepção de sua obra. Mais de cinco décadas após Francisco de Assis Barbosa fazê-lo renascer com a edição de suas obras completas, as leituras de Lima vivem, em 2017, um recomeço.

Fnac vai investir em lojas antes de repassar operação no País à Cultura

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Um dos desafios da Cultura será incorporar o segmento de eletroeletrônicos, que é o carro-chefe da Fnac. Foto: REUTERS/Jacky Naegelen

Um dos desafios da Cultura será incorporar o segmento de eletroeletrônicos, que é o carro-chefe da Fnac. Foto: REUTERS/Jacky Naegelen

Notícia pegou o mercado editorial de surpresa, uma vez que o grupo Cultura passa por um momento financeiro difícil, com atraso de pagamento às editoras

Fernando Scheller, Luciana Dyniewicz e Mônica Scaramuzzo no Estadão

A varejista francesa de livros e eletrônicos Fnac está deixando o País após 18 anos. Oficialmente em busca de um parceiro para o negócio brasileiro desde fevereiro deste ano, a companhia anunciou nesta quarta-feira, 19, um acordo com a Livraria Cultura, controlada pela família Herz. Segundo apurou o Estado, antes de repassar o negócio por um valor simbólico para o grupo nacional, a Fnac também se comprometeu a investir cerca de R$ 150 milhões no negócio.

A marca Fnac será usada pela Cultura em um primeiro momento, dizem fontes, mas não está definida como será a relação comercial no longo prazo.

Dificuldades. O anúncio pegou o mercado de livros de surpresa, até porque a Cultura passa por dificuldades no momento, inclusive com atrasos de repasses de pagamento a editoras. O atraso, que é de cerca de seis meses, segundo fontes de mercado, está em fase de renegociação neste momento e a expectativa é que a situação não deva ser solucionada antes de 2018. Uma fonte do setor diz que as editoras só foram avisadas da união entre Cultura e Fnac na manhã de quarta-feira.

Depois de atingir a marca de R$ 440 milhões em 2014, a empresa viu sua receita cair cerca de 17% nos últimos dois anos, atingindo R$ 380 milhões em 2016. Além disso, os últimos dois anos foram de cortes no setor administrativo – a companhia cortou 800 funcionários no período, reduzindo seu efetivo em 40% desde 2014.

Em sua conta no LinkedIn, no entanto, o presidente da Livraria Cultura, Sergio Herz, comemorou o acordo com a Fnac. Segundo ele, trata-se de um passo que vem para transformar o negócio da companhia, fundado há 70 anos. Procurada pelo Estado para explicar as condições do acordo, Cultura e Fnac não quiseram se pronunciar.

Em entrevista ao jornal em março, Herz havia minimizado o atraso do repasse às editoras, dizendo que se tratava de um processo “normal” diante da crise do varejo. Em fevereiro, chegou a circular no mercado a informação de que a Cultura estava à venda e que a concorrente Saraiva analisava a aquisição – informação que foi negada pelo empresário.

Na época, Sergio acrescentou que os custos de manutenção de lojas físicas vinham pressionando a operação – por isso, um de seus projetos era reforçar o e-commerce da Cultura. Agora, entretanto, com a incorporação da Fnac, a rede de unidades deverá ser ampliada para 29 lojas, agora de maior porte.

Outro desafio da Cultura será incorporar o segmento de eletroeletrônicos, que é o carro-chefe da Fnac. Segundo uma fonte do setor, a francesa havia desistido de livros nos últimos meses, reduzindo drasticamente novos pedidos.

A Fnac foi assessorada pelo Santander e pela Veirano Advogados. A Cultura teve assessoria do Souza Cescon Advogados.

Imagine criar livros em braille, mas com texturas, aromas e sensações? Este é o propósito da WG

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A designer Wanda Gomes não tem nenhuma pessoa próxima com deficiência visual. Mesmo assim dedica seu conhecimento à criação de livros inclusivos - e bonitos (foto: Fabio Brazil)

A designer Wanda Gomes não tem nenhuma pessoa próxima com deficiência visual. Mesmo assim dedica seu conhecimento à criação de livros inclusivos – e bonitos (foto: Fabio Brazil)

 

Cecilia Valenza, no Draft

Ao longo dos últimos 15 anos, a pergunta que a designer Wanda Gomes, 63, mais ouviu foi “Mas você tem algum cego na família?”. Bom, a resposta é não, ela não tem. Ainda assim, decidiu dedicar seu conhecimento gráfico e estético para criar livros inclusivos para deficientes visuais. Ela acabou fazendo ainda mais que belos livros: desenvolveu uma nova versão para o sistema de leitura para cegos, criado por Louis Braille há mais de 100 anos, e com ela vem mudando a experiência de leitura desse público.

Formada em desenho industrial pela FAAP, Wanda sempre trabalhou como designer, mas em 1997 decidiu mudar de foco de atuação e lançou a WG Produto, que é o seu projeto e também uma empresa social, que já nasceu com a missão de trabalhar com design inclusivo. Ela conta que já vinha pesquisando o papel do design na inclusão das pessoas com deficiência, principalmente a visual, e que ao contrário do que perguntam, a motivação foi estritamente profissional:

Ela precisou de cinco anos até conseguir, com o apoio de outros designers, produtores gráficos e de uma gráfica parceira, criar essa nova forma de escrever em braille, que ela chamou de Braille.BR. Trata-se de uma nova tecnologia para imprimir os pontinhos que são uma versão do alfabeto, lido com as pontas dos dedos. “Podemos dizer que ele é uma nova fonte. Assim como um designer pode criar uma nova fonte tipográfica para um alfabeto, fizemos isso com o braille”, conta.

Entre as vantagens em comparação com o sistema convencional, Wanda conta que o Braille.BR tem uma cobertura de verniz que protege os sinais (em relevo) contra o desgaste causado pelo toque das mãos, e que a impressão dos sinais pode ser feita frente e verso sem ficar “negativa” no verso. Além disso, o Braille.BR pode ser impresso por cima de um texto em tinta comum, transformando um livro convencional em um livro acessível sem nenhum prejuízo para quem enxerga ou para o deficiente visual.

MESMO AS COISAS LEGAIS SÃO DIFÍCEIS DE VIRAR

Apesar de trazer todas essas melhorias, Wanda conta que sua tecnologia enfrentou muita resistência, tanto por parte das instituições (que precisariam validar o novo sistema), como por parte das editoras. Isso a levou a reagir, em vez de retrair-se. “Eu não tinha intenção de ser uma editora. Meu plano era continuar com o design e oferecer projetos de livros inclusivos para as editoras. Mas fiquei bastante surpresa delas não terem a menor noção de que o deficiente visual é um público com um potencial muito grande como consumidor. E um público extremamente carente de produtos inclusivos, e principalmente livros”, conta.

Como as editoras não estavam interessadas ou se mostraram inseguras em relação ao projeto, Wanda procurou outros caminhos. Foi atrás de entender como funcionava a Lei Rouanet. “Eu já tinha tudo em mãos, tinha encontrado uma escritora, a Lia Zatz, e uma ilustradora, a Luise Weiss, que haviam topado o projeto do primeiro livro em Braille.BR. Fiz, então, uma lista de empresas para quais eu tentaria vender a proposta, e fui bater de porta em porta.”

Quem bancou a ideia foi a IBM, patrocinando o lançamento do infantil Adélia Cozinheira, lançado em 2010. Foram impressas 3 000 cópias, posteriormente distribuídas em escolas, universidades e bibliotecas públicas.

A coleção Adelia, voltada ao público infantil, é o primeiro projeto autoral da WG e em breve terá versão em espanhol.

A coleção Adelia, voltada ao público infantil, é o primeiro projeto autoral da WG e em breve terá versão em espanhol.

 

Wanda conta que após o lançamento, para sua surpresa, começaram a surgir muitos pedidos de pessoas querendo comprar o livro. Mas não havia tiragem para a comercialização. Ficou a lição. E por conta disso os dois títulos seguintes tiveram uma parte reservada para a venda avulsa. Em 2011, veio o segundo volume da coleção, Adélia esquecida, e em 2012 o terceiro, Adélia Sonhadora. Todos com o patrocínio da IBM.

Hoje é possível comprar os livros direto com a WG, fazendo o pedido por email ou telefone, ou em algumas galerias parceiras. Cada exemplar custa 25 reais. Senão tivessem o patrocínio, Wanda afirma que teriam um custo unitário de cerca de 50 reais, isso porque a produção de um livro inclusivo com a tecnologia Braille.BR é de 20% a 40% mais cara do que com o sistema convencional.

UMA INOVAÇÃO: LIVROS QUE DESPERTAM OUTROS SENTIDOS

A coleção Adélia foi pensada para o público infantil, ou seja, crianças de 3 a 10 anos, incluindo aquelas com deficiência visual com grau de limitação de 10 a 100%. “É importante lembrar que 90% dos deficientes visuais têm algum grau de visão. Pode ser que eles sejam capazes de diferenciar luzes, contrastes ou até mesmo consigam ler letras maiores”, diz Wanda. Por isso ela cria livros que permitem uma legibilidade perfeita do texto em braille, mas também despertam outros sentidos “por meio da percepção de cores, contrastes, de sensações táteis e olfativas com texturas e aromas”. Além do Braille.BR, os livros têm também o conteúdo em texto normal. E são bem cuidados:

E também há o diferencial dos aromas, que impactam qualquer leitor. No Adelia Cozinheira, conta Wanda, a personagem prepara um café da manhã surpresa para os pais: “Imagine… ela vai preparando as coisas, pica uma banana, prepara torradas, pega o suco na geladeira. A última coisa que ela pega são flores para enfeitar a mesa, e essa ilustração tem um cheiro suave de flor”. Nem todas as páginas têm o diferencial, mas a empreendedora conta que o texto é feito de forma a levar o leitor para uma viagem sensorial que também é feita de lembranças. “Este volume estabelece uma relação muito especial com os sentidos olfato, visão e tato, pois ao imaginar que ela está preparando uma refeição isso remete também às lembranças e ao imaginário do leitor, e não somente aos cheirinhos que estão ali aplicados”, conta.

Além da coleção Adélia, a WG criou também um livro inclusivo para o Museu Lasar Segall, de São Paulo. Intitulado Segall portátil, o livro traz as obras do artista em versões com relevo e textura. “O projeto deste livro foi um dos maiores desafios que já recebemos, com concepção e coordenação do setor educativo do museu, foi uma oportunidade de aproximar deficiência visual e arte. É uma publicação experimental que propõe, com base na obra de Lasar Segall, diálogos entre estímulos táteis, visuais, escritos e sonoros”, conta.

EM BUSCA DE GRANA PARA SEGUIR

Hoje a WG trabalha com três frentes: projetos culturais com empresas e instituições (que representam 40% do faturamento), projetos próprios (50%) e consultoria para editoras (10%). Entre as iniciativas próprias, está o lançamento do primeiro volume da coleção Adélia em espanhol. Para isso, Wanda espera conseguir arrecadar cerca de 56 mil reais em uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. A ideia é imprimir uma tiragem pequena, 500 exemplares, e levar a obra para países da América Latina. “Participamos dois anos da Feira do Livro de Guadalajara e a aceitação, mesmo com o livro em português, foi surpreendente”, diz ela, que também contratou uma consultoria para orientá-la a respeito de exportações.

Nos últimos cinco anos, a WG publicou ao todo 12.000 exemplares de suas criações, sendo 9.000 de projetos próprios. Para os próximos dois anos, a meta é atingir 18.000 exemplares de projetos próprios, tanto no mercado nacional como no de língua hispânica. Aliás, a expansão para o mercado externo é algo que Wanda lamenta não ter realizado antes. Ela reflete sobre como recebeu o baque inicial de ver que sua ideia não comoveu tanto as editoras quanto ela esperava:

Sobre investidores, ela apresenta outro retrato preciso das dificuldades: “O mercado exige um impulsionamento do negócio, investimentos financeiros para seguir com as pesquisas e novos lançamento. A inovação por si só não garante a atenção das empresas já que estamos falando de um público consumidor que até então não era levado em conta, a pessoa com deficiência”.

Atualmente a equipe da WG conta com mais um designer e um produtor gráfico. Wanda ainda atua como designer e produtora cultural, mas espera que cada vez mais possa se dedicar aos projetos de livros inclusivos. Para ela, hoje a sociedade já entende melhor seu papel em relação a pessoa com deficiência visual, e tanto a população como o mercado vão abrindo portas para projetos inclusivos. “Sempre olhei para os deficientes visuais com curiosidade e como um desafio, me perguntava se de fato as imagens eram algo impossível para eles. Fiz dessa minha inquietação uma forma de utilizar materiais, tecnologias e minha habilidade de criar para gerar a inclusão”, conta. Mulher de visão.

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