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Esse livro didático explicita o machismo no ensino da medicina

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(Reprodução/Facebook)

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“Somos contra a agenda do politicamente correto”, responderam os responsáveis pela publicação, a Medgrupo, rede de preparo para concursos médicos.

Giovana Feix, no M de Mulher

Estruturada de forma semelhante à dos cursinhos pré-vestibular, a Medgrupo é uma rede de preparo para concursos médicos – como o Revalida e as seleções para residência. Eles estão presentes em todo o Brasil e, além de aulas presenciais e à distância, também produzem material didático.

Em um de seus livros, “MED 2013: Síndromes de Transmissão Sexual“, é através de ilustrações e casos extremamente estereotipados e sexistas que eles procuram explicar a futuros médicos como funcionam algumas doenças sexualmente transmissíveis.

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Diante disso, uma aluna de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) resolveu enviar uma mensagem à empresa. “Comecei a utilizar alguns módulos do Medgrupo cedidos por colegas já residentes para estudar os conteúdos”, escreve ela. “No entanto, tive o desprazer de ser exposta a casos clínicos com comentários machistas e ilustrações que expõem o corpo feminino de maneira vulgar”.

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“Em um caso, uma menina portadora de vaginose bacteriana (um sofrimento, vale ressaltar) é retratada em um desenho de uma mulher seminua com vários peixes em cima do seu corpo e um homem de nariz tampado devido ao mal cheiro”, continua.

Em resposta à jovem, a direção do Medgrupo disse ser contra a “agenda do politicamente correto”.

Confundir dignidade com tal “agenda” é algo recorrente. No caso da formação de profissionais da área médica, porém, é extremamente importante a preocupação com um tratamento respeitoso e humanizado. As mulheres que sofrem das síndromes ensinadas no texto não possuem uma vida “promíscua” – e, mesmo se tiverem, isso não é, de maneira alguma, de interesse de seu médico. Saiba mais: A diferença entre um parto no SUS e um parto humanizado

“A última frase do caso relata que um dos testes necessários para o diagnóstico não foi realizado, porque o médico ficou ‘tão enjoado’ que o diagnóstico era evidente”, conta ainda a aluna, no e-mail enviado ao Medgrupo, sobre a história ilustrada pela mulher rodeada de peixes.

Maioria dos países descumpriu meta de reduzir analfabetismo, diz Unesco

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Segundo relatório da Unesco divulgado nesta quarta-feira (15), Brasil é um dos 100 de 139 países que não cumpriram a meta. Em 2015, o mundo tinha pelo menos 758 milhões de analfabetos.

Ana Carolina Moreno, no G1

De 139 países participantes de um levantamento de dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), só 39 (ou 28% do total) comprovaram ter cumprido a meta 4 do programa Educação para Todos, que previa a redução de 50% nos índices de analfabetismo até 2015. O Brasil está no grupo de 100 países que descumpriram a meta.

Na terceira edição do Relatório Global sobre Aprendizagem de Adultos e Educação (Grale III, na sigla em inglês), divulgada nesta quarta-feira (15), a Unesco afirmou que, segundo as informações enviadas pelos países, o mundo tinha, em 2015, 758 milhões de adultos sem capacidade de ler e escrever uma simples frase.

Desses, 115 milhões são jovens, ou seja, tinham entre 15 e 24 anos de idade. Isso quer dizer que cerca de 85% dos analfabetos no mundo pertencem a gerações distantes de idades consideradas propícias para a vida escolar e, portanto, que oferecem mais obstáculos para a aprendizagem.

Em 2015, 15% dos analfabetos de 139 países eram jovens, diz relatório da Unesco (Foto: Editoria de Arte/G1)

Em 2015, 15% dos analfabetos de 139 países eram jovens, diz relatório da Unesco (Foto: Editoria de Arte/G1)

 

O documento se baseia em pesquisas de monitoramento respondidas por 139 estados-membros da Unesco, “com a finalidade de elaborar um retrato diferenciado da situação global da aprendizagem e da educação de adultos (AEA)”. Segundo o relatório, foram avaliados os progressos dos países que assinaram, em 2009, o Marco de Ação de Belém, que inclui propostas de políticas em três áreas: saúde e bem-estar; emprego e mercado de trabalho; e vida social, cívica e comunitária.

Apesar do fracasso no cumprimento da meta, 85% dos países que participaram do levantamento dizem que ” a alfabetização e as habilidades básicas eram uma prioridade principal de seus programas de aprendizagem e educação de adultos”, e 46% deles disseram que “o investimento inadequado ou mal direcionado é um fator importante que impede a aprendizagem e a educação de adultos de causarem impacto maior na saúde e no bem-estar”.

Mulheres sofrem mais

A falta de educação de qualidade para jovens e adultos afeta mais as mulheres do que os homens. Segundo o relatório da Unesco, “a maioria (63%) dos adultos com baixas habilidades de alfabetização é formada por mulheres”. Além disso, os dados mostram que a taxa de meninas fora da escola é mais alta que a de meninos: uma em cada dez meninas (9,7%) não está na educação formal nos 139 países participantes da pesquisa, enquanto a taxa de meninos fora da escola é de 8,3%.

O órgão afirma que “a educação é essencial para a dignidade e os direitos humanos, e é uma força para o empoderamento” e que “a educação de mulheres também tem grandes impactos nas famílias e na educação das crianças, influenciando o desenvolvimento econômico, a saúde e o engajamento cívico de toda a sociedade”.

Mulheres sofrem mais do que homens com o analfabetismo, segundo relatório da Unesco (Foto: Editoria de Arte/G1)

Mulheres sofrem mais do que homens com o analfabetismo, segundo relatório da Unesco (Foto: Editoria de Arte/G1)

Educação para Todos

Desde 2000, a Unesco monitorou os dados enviados pelos seus 195 países-membros relacionados à educação para acompanhar a evolução das políticas rumo ao cumprimento de seis metas:

Expandir a educação e os cuidados na primeira infância, especialmente para as crianças mais vulneráveis.
Garantir que em 2015 todas as crianças, especialmente meninas, crianças em situações difíceis e crianças pertencentes a minorias étnicas, tenham acesso a uma educação primária de boa qualidade, gratuita e obrigatória, além da possibilidade de completá-la.
Assegurar que as necessidades de aprendizagem de todos os jovens e adultos sejam satisfeitas mediante o acesso eqüitativo à aprendizagem apropriada e a programas de capacitação para a vida.
Atingir, em 2015, 50% de melhoria nos níveis de alfabetização de adultos, especialmente para as mulheres, e igualdade de acesso à educação fundamental e permanente para todos os adultos.
Eliminar, até 2005, as disparidades existentes entre os gêneros na educação primária e secundária e, até 2015, atingir a igualdade de gêneros na educação, concentrando esforços para garantir que as meninas tenham pleno acesso, em igualdade de condições, à educação fundamental de boa qualidade e que consigam completá-la.
Melhorar todos os aspectos da qualidade da educação e assegurar a excelência de todos, de modo que resultados de aprendizagem reconhecidos e mensuráveis sejam alcançados por todos, especialmente em alfabetização, cálculo e habilidades essenciais para a vida.

Em abril de 2015, o órgão da ONU anunciou que Cuba foi o único país latino-americano a cumprir todas as seis metas.

O Brasil, por sua vez, só cumpriu duas das seis metas: a segunda, sobre educação primária, e a quinta, sobre a igualdade de gênero. Porém, o governo federal contestou as informações da Unesco e afirmou que também cumpriu a primeira meta, que fala sobre os cuidados com a educação na primeira infância.

Briga, tiros e medo: 50% dos brasileiros dizem estudar em áreas violentas

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Grades na Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de SP

Grades na Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de SP

 

Marcelle Souza, Franco Adailton e Ronald Lincoln Jr, no UOL

Após uma semana do início das aulas, o vigilante desempregado Sérgio Rodrigues do Nascimento, 43, já havia pedido a mudança do filho de 10 anos da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de São Paulo, para outra unidade. “No terceiro dia, dois alunos foram expulsos da sala, já vi um monte de gente pulando o muro da escola, e ontem meu filho disse que levou um chute de outro garoto na hora do intervalo”, conta o pai.

“A gente fica de coração partido de deixá-lo aqui”, afirma Nascimento, que nos últimos dias percorreu outras escolas da região em busca de vagas em turmas de sextos anos do ensino fundamental. “Não quero que meu filho vire bandido.”

Na mesma região, outro pai tentava tirar o filho da Escola Estadual João Ernesto Faggin pelo mesmo motivo. “Eu estudei aqui quando tinha 10 anos e a escola já não era boa. Hoje tenho 41 anos e nenhum dos meus colegas de classe estão vivos”, afirma o morador do bairro, que preferiu não dar o nome porque tem medo de represálias dos traficantes da região.

O vigilante Sérgio Rodrigues do Nascimento e seu filho diante da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, em SP: "Não quero que meu filho vire bandido", diz

O vigilante Sérgio Rodrigues do Nascimento e seu filho diante da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, em SP: “Não quero que meu filho vire bandido”, diz

 

Seu filho de 12 anos já havia faltado aos três primeiros dias de aula, porque o pai se recusou a aceitar a matrícula na Ernesto Faggin. “Parece que até a direção tem medo. Cheguei para pedir a transferência e a sala está cheia de grades”, diz.

A sensação de insegurança não é exclusiva dos pais desses alunos nem da capital paulista. Os dados da Pense (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) compilados e publicados no 10º Anuário de Segurança Pública, de novembro de 2016, mostram que 50,8% dos alunos do nono ano do ensino fundamental estão em escolas localizadas em áreas de risco de violência. A pesquisa, realizada por amostragem, levou em consideração 2.630.835 entrevistas com estudantes de todo o país matriculados no nono ano do ensino fundamental das redes pública e privada.

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Traficantes rondam as escolas

Nos dois colégios citados, por exemplo, a reportagem presenciou adolescentes usando drogas, traficantes rondando as escolas e pinos de cocaína espalhados pelo chão a poucos metros da entrada das unidades de ensino. Sem sucesso, a funcionária de uma delas tentou barrar a entrada de jovens que não estavam matriculados no colégio. Havia também lixo e entulho nas calçadas.

“Dividimos o crime escolar em três tipos: o que está previsto no Código Penal, pode ferir e matar –esse é muito complicado de combater e não está em todas as escolas. Há também a microviolência, que é a violência do cotidiano e está nas relações sociais dentro da escola. O terceiro é a violência simbólica, quando você faz mal e o outro não consegue responder, como a homofobia. Essa é uma violência quase transparente”, diz Miriam Abramovay, da Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), que pesquisa o tema há mais de 15 anos.

No ano passado, o técnico em enfermagem Leonardo Vieira dos Santos, 31, atendeu a uma ligação desagradável da escola em que os filhos de 15 e 11 anos estudavam na zona sul de São Paulo. “Eles disseram que tinha acontecido uma briga. Cheguei à escola e meu filho mais novo tinha sido agredido por um colega. Não foi briga.”

O técnico em enfermagem registrou um boletim de ocorrência e, em seguida, procurou a diretoria regional de ensino para transferi-lo para outra unidade. “A gente se sente muito mal, não quer que isso aconteça com um filho”, diz.

“O que mais me dá medo são assaltos nos pontos de ônibus”

Mães acompanham os filhos na saída da escola com medo da violência em Salvador

Mães acompanham os filhos na saída da escola com medo da violência em Salvador

Na Bahia, os dados da pesquisa mostram que 47,6% estudantes do ensino fundamental consideram violenta a área onde está situada a escola. Na rede privada, o percentual é de 52,7%, enquanto na educação pública a avaliação é de 46,8%.

Luana Carvalho, 11, mora no bairro São Rafael, em Salvador, uma localidade com as mesmas características da região onde estuda, o Cabula: perfil de classe média, com boa infraestrutura, comércio pujante e próximo de comunidades pobres.

Responsável pela menina, Andréa não tem tempo de levá-la para a aula, mas não arrisca deixar Luana ir de ônibus por medo de assaltos. Apesar de a escola manter um considerável nível de segurança (câmeras, porteiros, grades), a mãe considera que o Cabula é uma área violenta.

“É um bairro muito visado, porque concentra em um pequeno raio escolas particulares, universidade, supermercados, bancos”, descreve. “O que mais me dá medo são assaltos nos pontos de ônibus. Por isso contratei transporte escolar, para protegê-la desse tipo de violência”, acrescenta.

A contadora lembra que, há cerca de dois anos, foi buscar a filha na escola, mas encontrou a instituição fechada devido a um tiroteio. O motivo foi uma tentativa de assalto a um carro-forte que abastecia os terminais de um supermercado na avenida Silveira Martins, a poucos metros da escola.

“A violência é um reflexo da sociedade em todo o país. Se o bairro o onde a escola está inserida é violento, a instituição fica exposta, vulnerável, quer seja privada ou pública”, diz Rui Oliveira, coordenador do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia. “A escola não é uma ilha, pois está propensa a diversas influências externas, fatores estruturais da sociedade, tais como desigualdade social, desemprego, tráfico de drogas e ausência de políticas públicas para combater essas questões.”

“Criança é muito vulnerável”

Diretor do soteropolitano Colégio São Lázaro, o professor Antônio Luiz afirma que não é permitido aos alunos sair da escola no horário do intervalo, nem mesmo os estudantes secundaristas. A exceção, frisa o docente, ocorre somente nos dias de aula integral, com autorização das famílias, no horário do almoço.

“Nossa preocupação não é só em relação à violência externa que possa ocorrer, mas também quanto à influência das drogas”, diz o professor. “Além disso, orientamos aos alunos evitar sair com objetos chamativos na rua, usar tênis mais simples e sair em grupos no final da tarde.”

A 500 metros do São Lázaro está o Colégio Municipal da Engomadeira, que leva o mesmo nome do bairro popular onde os ônibus voltaram a circular somente depois de dois dias por conta da morte de dois homens em confronto com a PM, no último dia 4.

Leandro Vieira dos Santos pediu transferência para seus filhos após um dele ser agredido dentro de uma escola estadual

Leandro Vieira dos Santos pediu transferência para seus filhos após um dele ser agredido dentro de uma escola estadual

 

Segundo comunicado da PM, os policiais foram atender a um chamado de troca de tiros entre traficantes –versão contestada pela comunidade, que sustenta que os mortos eram moradores. Na ocasião, uma criança de sete anos acabou baleada; não se sabe a autoria do disparo.

A Engomadeira carrega o estigma de abrigar um dos mais fortes pontos de tráfico de drogas da capital baiana: a Lajinha. Por receio de represálias –cinco ônibus já foram queimados na Grande Salvador neste ano–, o Sindicato dos Rodoviários decidiu suspender a circulação no bairro.

Alana Conceição, 9, chega para a aula às 7h30, sai às 11h30, mas sempre acompanhada da mãe, a auxiliar de desenvolvimento infantil Adriana Conceição, 38, que não deixa a menina ir sozinha para a escola, localizada a cerca de 400 metros de casa.

“Hoje em dia, não dá para vacilar. Por segurança, eu mesma trago e venho buscar depois da aula”, conta a mãe, que prefere não comentar episódios de violência no bairro. “Criança é muito vulnerável. Diante do perigo, em vez de se proteger, vai olhar o que é.”

Em todo o país, 34,5% dos alunos do nono ano de escolas privadas afirmaram que estudam em escolas localizadas em bairros violentos. Entre os matriculados em unidades da rede pública, esse número era de 53,5%.

Apesar de a violência fazer parte da rotina de escolas públicas e privadas, Abramovay diz que os desafios vividos por cada uma são muito diferentes. “De modo geral, não podemos comparar as duas. A escola particular tem muito mais condições do que a escola pública. A violência tem uma parte que acontece nas relações sociais, mas está também na estrutura, quando a escola não tem ventilador, não tem merenda, não tem internet, não tem computador. Isso não quer dizer que não tenha violência na particular, mas ela é muito diferente”, diz a pesquisadora.

Tiroteios são frequentes no Alemão

Alunos na saída da Escola Municipal Walt Disney, que fica na entrada do Morro da Baiana, pertencente ao Complexo do Alemão, no Rio

Alunos na saída da Escola Municipal Walt Disney, que fica na entrada do Morro da Baiana, pertencente ao Complexo do Alemão, no Rio

 

Estudantes moradores do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, frequentemente ficam impedidos de ir à escola em razão da violência na região em que vivem. No dia 2 de fevereiro, início do ano letivo, após um longo confronto entre policiais e traficantes da região, cerca de 3.000 crianças ficaram sem aula, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação.

Embora conte com UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) desde 2012, o Complexo do Alemão ainda convive com o tráfico de drogas. No dia 7, a reportagem do UOL visitou as escolas municipais Walt Disney e Padre Manoel da Nóbrega, ambas de ensino fundamental, localizadas em um dos acessos do Morro da Baiana, que faz parte do Complexo do Alemão.

Enquanto alguns pais de alunos eram entrevistados, outros que acabavam de chegar da comunidade para buscar os filhos alertavam que, naquele momento, ocorria um tiroteio e que era necessário tomar cuidado no caminho de volta para casa.

“Agora com a UPP, a polícia está sempre lá em cima [no morro] e tem acontecido mais tiroteios. E acontecem bem na hora em que as crianças estão saindo ou chegando no colégio”, conta o auxiliar de laboratório Flaviano Silva, 32, que buscava o filho de sete anos. Segundo ele, é comum o filho não ir à escola em razão de tiroteios.
8,6% abandonam a escola por medo

A menina Ana Clara, 5, teve problemas em seu primeiro dia em uma escola. Ela foi um dos 3.000 alunos que ficaram sem aula no dia 2 de fevereiro, por causa da troca de tiros. Sua mãe, a dona de casa Jéssica da Silva, 20, relata que o marido teve de voltar correndo com a menina para casa após os confrontos. “É uma situação muito chata, eu fico com muito medo.”

Os dados da Pense mostram que as consequências da violência vão bem além das agressões físicas, percebidos imediatamente. Segundo a pesquisa, 14,8% dos estudantes do nono ano entrevistados haviam faltado aula no último mês por conta do medo. Outros 8,6% tinham abandonado a escola pelo mesmo motivo. “A violência mina a vida das pessoas, aparta, prejudica a qualidade do ensino”, diz Abramovay.

Além de pais e alunos, o clima de violência também costuma afetar o rendimento de professores das escolas situadas em áreas violentas. “Essa sensação de medo é sempre constante. Já vi professor que teve o carro queimado, invasão de escola, briga de gangues, aulas suspensas, estudante que entrava armado na sala porque estava ameaçado de morte”, diz um professor de história que leciona na rede estadual em Diadema (SP) e não quis se identificar.

“Uma vez, em uma nova escola, o porteiro veio me explicar por que o muro tinha várias perfurações de bala”, diz o mesmo professor. Ele afirma que nunca pensou em deixar a sala de aula, mesmo após 20 anos de profissão. “A minha opção por aula na rede pública é ideológica e de vida. O meu papel é de alguém que pode mudar a vida de alguém e, se, por um lado, tem toda essa pressão, por outro, é muito gratificante quando alguém conta que foi aprovado no vestibular.”

O que dizem os órgão públicos

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar de São Paulo não comentou sobre os problemas encontrados no entorno das escolas estaduais na zona sul de São Paulo.

A Secretaria da Educação de São Paulo entende que o enfrentamento à violência deve ocorrer em diversas frentes, que englobam também comunidade escolar, famílias e a polícia.

“A pasta desenvolve diversas ações pedagógicas, que são praticadas inclusive nas escolas mencionadas pela reportagem, como projetos interdisciplinares desenvolvidos pelas equipes gestoras relativos a temas como uso de drogas, violência e bullying; o Programa Escola da Família, que oferece atividades de lazer e cultura aos finais de semana, aproximando as famílias para que atuem em parceria com as instituições; além de trabalhos que incentivem a cultura de paz e o protagonismo juvenil”, informou a secretaria. Polícia, ronda escolar, Conselho Tutelar e Ministério Público também atuam em conjunto com o órgão.

No Rio, a assessoria das UPPs confirmou ao UOL, por meio de nota, que houve tiroteio no Complexo do Alemão no dia em que foi realizada a reportagem. Segundo o comunicado, policiais que faziam patrulhamento na região foram recebidos a tiros por traficantes. Mas não houve registro de feridos ou mortos.

A reportagem questionou a Coordenadoria das UPPs (CPP), órgão vinculado à Polícia Militar, sobre as ações policiais realizadas nos horários de entrada ou saída de crianças das escolas. Em nota, assessoria de imprensa disse que as “operações são realizadas com base nas informações do Setor de Inteligência”.

A Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Lazer do Rio afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que é responsável apenas por questões de ensino e que “os diretores de cada escola têm a atribuição de avaliar e decidir se há necessidade de suspensão do funcionamento dos colégios diante de situações de violência, como confrontos entre bandidos e policiais, sempre visando à segurança dos alunos”.

“A gente avalia que os dados do Anuário podem estar associados à violência urbana como um todo, como consequência da desigualdade social”, diz o subsecretário de Educação do Estado da Bahia, Nildon Pitombo. “Além disso, temos as ações institucionais com a Ronda Escolar e parcerias com universidades, por meio de grupos de pesquisa sobre sociedade, combate à violência e uso de drogas.”

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia informou que vai avaliar os dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança e estudar as informações contidas no documento.

De antemão, diz a nota, a SSP reforça que considera a educação uma das principais formas de prevenção à violência e que já tem ações voltadas para a proteção dos estudantes baianos, como a Ronda Escolar, unidade da Polícia Militar que trabalha a conscientização dos jovens.

Procurada, a Polícia Militar (PM) informou que, por meio da Ronda Escolar, atua com o objetivo de intensificar o policiamento no entorno dos estabelecimentos de ensino públicos e privados. A PM acrescenta que desenvolve ações integradas (palestras, visitas, apresentação de peças teatrais), “para que a comunidade escolar tenha um ambiente propício para o desempenho de suas atividades”.

Governo paga youtubers para fazer elogios às mudanças do ensino médio

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Youtubers Lukas Marques e Daniel Molo em vídeo que fala do reforma do ensino médio

Youtubers Lukas Marques e Daniel Molo em vídeo que fala do reforma do ensino médio

 

Natalia Portinari e Paulo Saldaña, na Folha de S.Paulo

Um vídeo no YouTube que explica “tudo que você precisa saber sobre o ensino médio” já tem mais de 1,6 milhão de visualizações. Com conclusões positivas sobre a reforma, o material tem a aparência de espontaneidade, mas trata-se de publicidade e disfarçada do MEC (Ministério da Educação).

O governo Michel Temer pagou R$ 65 mil para o canal Você Sabia falar bem da reforma. Comandado por dois jovens, o canal no YouTube conta com 7,1 milhões de assinantes.

No vídeo, publicado em 31 outubro de 2016, os youtubers Lukas Marques e Daniel Molo explicam benefícios da reforma. “Com esse vídeo você aí deve estar dando pulo de alegria. Se eu tivesse que fazer o ensino médio e soubesse dessa mudança eu ficaria muito feliz”, diz um deles.

Nada no vídeo diz que se trata de conteúdo pago. Pelo contrário. “A gente achou o tema bastante interessante, uma galera [estava] discutindo nas redes sociais, e então falamos: deixa com nós que a gente explica direitinho”, reforça um deles no final.

A reforma no ensino médio foi sancionada nesta quinta-feira (16) pelo presidente Michel Temer. O governo acelerou a tramitação no Congresso Nacional por meio de uma medida provisória.

Os youtubers ressaltam aspectos do projeto, como a possibilidade de escolher as áreas de aprofundamento. “Você ai que quer trabalhar com história, não vai ficar perdendo tempo com célula”.

A Folha apurou que outros dois canais foram procurados, mas ambos recusaram. Daniel Molo disse que o conteúdo foi encomenda de sua produtora, a Digital Stars, e que frequentemente trabalham com conteúdo patrocinado. Quando julgam que o resultado será “interessante”.

“A gente já ia fazer um vídeo sobre o novo ensino médio. Como recebemos a proposta, decidimos aceitar”, diz Molo, que não comentou valores. “Recebemos uma coxinha e um refrigerante em troca”, brincou.

A produtora Digital Stars representa alguns dos youtubers mais bem-sucedidos do Brasil, como Kéfera Buchmann, Christian Figueiredo, Felipe Castanhari e Flavia Calina.

Segundo o MEC, canais de influenciadores digitais complementam a estratégia de comunicação institucional. A pasta informou que o pagamento foi realizado dentro da legalidade, por meio da agência já escolhida por licitação para atender o MEC.

Para rebater críticas à reforma, o MEC reforçou o gasto com publicidade. De outubro a janeiro, gastou R$ 13 milhões, valor 51% superior ao gasto no período anterior.

Ao menos até esta quinta-feira (16), propagandas oficiais na TV, rádio e internet divulgavam a reforma do ensino médio.

Filho leva mãe de 52 anos à escola e comove a Web

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Jovem aprendiz conta na Internet a emoção da mãe no primeiro dia de aula no Ensino Fundamental de uma escola pública do Rio. ‘Agora é a vez de retribuir’, disse

Caio Barbosa, em O Dia

 'Ela adorou a escola, os professores. E me impressionou a alegria em voltar me mostrando os trabalhos que fez', Vanderson Nascimento, 22 anos, filho da Dona Marília Reprodução Facebook

‘Ela adorou a escola, os professores. E me impressionou a alegria em voltar me mostrando os trabalhos que fez’, Vanderson Nascimento, 22 anos, filho da Dona Marília
Reprodução Facebook

Rio – Uma simples foto retratando um imenso gesto de carinho fez sucesso nas redes sociais esta semana, com mais de 40 mil curtidas e 15 mil compartilhamentos. Funcionário do programa Jovem Aprendiz, do Metrô Rio, Vanderson Nascimento, de 22 anos, mostrou ao mundo uma foto com a sua mãe, Dona com o uniforme completo da rede municipal de ensino rumo ao seu primeiro dia de aula. Aos 52 anos, Marília é a nova matriculada na Escola Municipal Presidente Juscelino Kubitschek, em Manguinhos. Foi o bastante para o sucesso.

Na postagem, Vanderson transcreveu o diálogo que teve com a mãe, que trabalha como diarista, no fim da tarde de segunda-feira. “Mãe, são 17h, já está na hora de se arrumar”, disse. A mãe respondeu: “Você vai lá comigo?”. Ele respondeu “Tá bom, mãe. Vou, sim”. E encerrou com a seguinte mensagem no post: “Olha, ela já fez e ainda faz tanto por mim que agora chegou a minha vez de fazer por ela”, escreveu.

O jovem contou que decidiu postar a foto para que outros jovens se sensibilizem com o sonho de seus pais. E se espantou com o sucesso da publicação no Facebook. “Eu estava voltando da igreja e não entendi nada quando os amigos me pararam para dizer que o post estava bombando em toda a internet. Abri para ver e estava mesmo. Foi uma alegria muito grande não só para mim, como para a minha mãe. Ela ficou muito emocionada com as mensagens, os comentários. Tudo isso serviu como um incentivo a mais para ela”.

Vanderson explicou que sua mãe só havia conseguido estudar na infância, até a segunda série do Ensino Fundamental. Ela tentou voltar aos estudos, mais tarde, mas nunca teve condições de conciliar trabalho, longe de casa, com escola e a criação dos filhos. O drama de Dona Marília chegou ao fim na segunda-feira, dando lugar ao sonho de frequentar os bancos escolares.

“Ela adorou a escola, os professores. Estava muito emocionada. Eu também fiquei. E me impressionou a evolução dela e a alegria em voltar me mostrando os trabalhos que fez. Me fez lembrar de quando eu fazia isto com ela. Agora é a vez de retribuir”.

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