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Família muda de cidade para voltar a estudar em busca de uma vida melhor

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“Tem gente que aplaude nossa decisão e tem gente que acha que é loucura”

Publicado no Razões para Acreditar

Muitas coisas podem nos levar a fazer transformações profundas em nossa vida e, para esta família foi a busca por maiores oportunidades. Maurício Salazar Jorge e Suely Fontes Rodrigues viviam em Palmeiras, cidade pequena no interior do Mato Grosso do Sul, com seus 2 filhos e todos trabalhavam na fabricação de móveis rústicos.

A família inteira havia parado de estudar no ensino fundamental para se dedicar inteiramente ao trabalho, mas o corpo de Maurício começou a reclamar, depois de tantos anos de trabalho pesado, que incluía carregar e cortar madeira para fabricar os móveis. Apesar da ajuda constante da família, o serviço pesado ficava por conta dele mesmo. Foi aí que ele teve a ideia de voltar a estudar, o que acabou inspirando sua esposa e filho mais velho, Maxiel Rodrigues Jorge a fazerem o mesmo.

Porém, em Palmeiras só existiam escolas de ensino fundamental, então a família teve que mudar de cidade para que pudesse receber o tão sonhado diploma do ensino médio. Atualmente eles estão vivendo na capital, Campo Grande e percorrem cerca de 5 km de bicicleta, todos os dias, para irem até a Escola Estadual Brasilina Ferraz Mantero.

A decisão da família costuma dividir opiniões: “Tem gente que aplaude nossa decisão e tem gente que acha que é loucura”, afirma Maurício, mas o que importa é que, eles estão certos de que fizeram a escolha certa e já têm até planos de continuarem estudando. “Maxiel é desses que gosta de abrir televisão, arrumar as peças, o computador, vai ser inventor”, disse o pai orgulhoso do filho, que provavelmente estudará Engenharia ou algo ligado à tecnologia. Já a mãe pensa em ser enfermeira, mas ainda não tem certeza: “Eu gosto do Biologia, de Filosofia também”.

Os três estudam na mesma sala e se dizem satisfeitos com a experiência de unir família com estudos: “A gente não briga não. Sentamos juntos na sala de aula e em semana de prova a gente estuda aqui em casa antes”.

Suely diz que tem dificuldade em matemática, mas que graças ao filho tem garantido boas notas. O sonho desta família é o mesmo que milhões de brasileiros e eles nos mostram que quando a gente tem força de vontade, tudo é possível: “A gente vivia uma vida que, se não mudasse nada, íamos morrer daquele mesmo jeito. Mas tomamos uma decisão e sabemos que só por meio da educação isso vai melhorar. Nossos filhos estão trilhando seu próprio caminho pra não terminarem que nem a gente”.

Com informações de Campo Grande News

Fotos: Roberto Higa

‘O professor pagava meu almoço’: a jovem de periferia aprovada em um dos vestibulares mais difíceis do país

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A estudante Bárbara da Costa viajou para o Rio para fazer a matrícula com passagem comprada com as milhas de um professor | Foto: Ricardo Borges/BBC Brasil

Bárbara da Costa Araujo matou a curiosidade de conhecer a sala de embarque do aeroporto de Fortaleza há poucas semanas. Apesar de morar há anos em um dos bairros no entorno do aeroporto, até então a experiência dela com o terminal se resumia ao barulho dos pousos e decolagens.

Camila Veras Mota, na BBC Brasil

Com passagem só de ida – comprada com as milhas de seu professor de matemática -, a jovem de 19 anos tinha como destino o Rio de Janeiro, onde faria sua matrícula no Instituto Militar de Engenharia (IME).

É dela uma das 98 vagas disputadas em um dos vestibulares mais exigentes do país, em uma maratona de provas com ênfase nas matérias de exatas, feita por quase 6,3 mil alunos de todo o país.

“As provas discursivas de matemática e física são as mais difíceis do país, mais do que as do ITA”, diz Francisco Antônio Martins de Paiva, o professor Max, que acompanhou a jovem e que há 20 anos dá aulas em turmas preparatórias para as provas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do IME. “A gente brinca que, se um professor conseguir acertar metade das questões, a escola pode contratar (para dar aula nas turmas regulares) de olho fechado”, completa.

O perfil de Bárbara destoa da grande maioria dos aprovados no instituto – e nos cursos mais disputados das demais instituições de ensino superior do país -, egressos de escolas particulares e de classe média e alta.

Ela é a primeira pessoa da família a entrar na faculdade. A avó e a mãe, com quem morava em uma casa simples, trabalharam praticamente a vida inteira fazendo faxinas.

Ela estudou até a 8ª série em uma escola estadual do bairro perifério da Vila União, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 0,467, equivale a pouco mais da metade do registrado em Fortaleza, 0,732, de acordo com dados de 2014 compilados pela prefeitura.

O indicador é construído a partir de dados de renda, saúde e educação de cada região; quanto mais próximo de 1, mais desenvolvida ela é.

No fim do ensino fundamental, em 2012, Barbara disputou com outros 400 jovens de bairros carentes uma das 20 bolsas custeadas por uma ONG de educação. Se fosse selecionada, poderia cursar o ensino médio em uma escola particular. Vencidas as nove etapas do processo, Bárbara foi matriculada no ano seguinte.

De ônibus, o trajeto até a nova sala de aula, no centro de Fortaleza, era de mais ou menos uma hora. Tempo que ela considera razoável, já que o namorado – também bolsista do mesmo programa – acordava às 4 da manhã para ir de Caucaia, cidade-satélite da capital, a Fortaleza.

O nível da turma era alto, ela lembra, mas os anos de estudos para Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) – sempre por conta própria, já que a mãe sempre a deixara “muito solta” – ajudaram no primeiro ano.

Com bom desempenho, ela conseguiu uma vaga nas turmas especiais preparatórias para os vestibulares do IME, que têm mais aulas de matemática, física e química.

“Foi um baque, tirei o primeiro 4 da minha vida, em física. Foi horrível”, ela conta. Bárbara abriu mão das olimpíadas de matemática para se concentrar no pré-vestibular e as notas melhoraram. Na primeira tentativa, ela foi aprovada em engenharia na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas queria mais.

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Image caption Bárbara quer fazer mecânica de automóveis e sonha em trabalhar na Fórmula 1

O problema é que a bolsa financiada pela ONG só se estendia até o terceiro ano do ensino médio. A escola topou custear o curso extensivo. No primeiro ano, contudo, o mal de Parkinson que acometia o avô piorou. A mãe parou de trabalhar para cuidar dele.

O orçamento da família, que já era apertado, ficou ainda mais restrito. Um dos remédios de uso contínuo custava R$ 35 por semana. “Isso era muito pra gente”.

O avô faleceu e, depois daquele ano difícil, Bárbara não fez boas provas.

A pressão para que a jovem começasse a trabalhar aumentou – a aposentadoria do avô era parte importante da renda doméstica – e, no segundo ano de cursinho, a escola ofereceu a Bárbara uma vaga no alojamento que mantém para hospedar alunos carentes vindos do interior do Ceará e de outras partes do país com potencial de aprovação. “Isso ajudou a me afastar um pouco dos problemas”.

Um dos professores pagou seu almoço durante todo o ano letivo e outro contribuía com algumas despesas esporádicas com as quais ela não conseguia arcar.

O professor Max foi buscar Bárbara no dia da mudança – para surpresa dele, restrita a uma mochila e um saco de supermercado. “A casa era um espaço entre dois imóveis, um vão de dois ou três metros, que a família cobriu e colocou uma porta improvisada. Sem estrutura nenhuma”, ele lembra.

‘Aos 21 anos, eu não sabia somar frações’

A realidade não era tão diferente da história do próprio professor. Max nasceu em Canindé, no interior do Ceará, e cresceu numa vila em que os moradores dividiam todos o mesmo banheiro. “Em casa não tinha uma mesa, eu estudava na rede”, conta.

Em 1992 prestou o primeiro vestibular para História e, no início do curso, descobriu que era apaixonado por matemática. “Aos 21 anos, eu não sabia somar frações. Comecei a estudar sozinho, o que me abriu a possibilidade para que começasse a dar aulas particulares para ganhar algum dinheiro”.

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Image caption ‘Em casa não tinha uma mesa, eu estudava na rede’, diz o professor de matemática

Ele mudou de curso, virou professor em uma escola pública e, pouco tempo depois, foi convidado por uma escola particular – para dar aulas de ciências.

No esforço para adquirir conhecimento por conta própria, resolvia dezenas de provas. Foi assim que descobriu os testes do ITA, entre os mais difíceis do país. “A primeira vez que peguei uma prova, não sabia resolver uma questão. Pensei na hora: ‘opa, é isso aqui mesmo que eu quero'”.

O que começou como desafio virou vocação. Há 20 anos ele é titular das turmas especiais do pré-vestibular.

“Também tive gente que acreditou em mim”.

Desigualdade de oportunidades

Histórias como a do professor Max e a de Bárbara são exceções. “Muito do futuro de quem nasce no Brasil está determinado por suas condições socioeconômicas quando nasce”, diz o pesquisador do Insper Naercio Menezes Filho, estudioso dos temas de educação, mercado de trabalho e desigualdade.

“A diferença entre o sistema público de educação e as escolas privadas, entre outras razões, alimenta uma desigualdade de oportunidades que é enorme no país”, acrescenta.

Para se ter uma ideia, ele exemplifica, filhos de pais analfabetos têm 3% de chance de concluir o ensino superior – percentual que cresce para 70% quando os os pais passaram pela universidade.

A escolaridade, por sua vez, é determinante para definir o nível de renda e até onde o salário de cada um pode chegar. No Brasil, a remuneração média de quem tem ensino médio completo é de R$ 1 mil, valor que salta para R$ 4,6 mil para quem conseguiu concluir uma faculdade.

Engenheira da Fórmula 1

Bárbara sabe que é uma dessas exceções estatísticas, mas isso não a impede de sonhar alto.

‘Muita gente não teve as mesmas oportunidades’, diz a jovem | Foto: Ricardo Borges/BBC Brasil

“Eu não gosto que me coloquem limite”, ela disse, inicialmente se referindo ao fato de que muita gente da família e do bairro torceu o nariz quando ela disse que queria ser engenheira.

Apaixonada por carros, quer trabalhar na Fórmula 1. Ao longo da infância e da adolescência ela sempre se imaginou nos boxes que via nas transmissões das corridas pela televisão, trabalhando nos carros que passam pelo pit stop.

“Eu sei, é sonhar alto, mas me deixem sonhar!”, ela diz, rindo.

Com o olho grudado na tela, nos ziguezagues que parecem intermináveis para quem não gosta do esporte, ela ouvia da mãe e da avó: “Barbara, aprende a fazer as coisas de casa, aprende, porque em algum momento você vai casar e nao vai saber fazer nada”.

Insistiam para que ela escolhesse uma carreira “mais feminina”, que fosse pediatra ou professora. “Eu acho que, quanto mais baixa é a classe social, maior é o machismo”, comenta.

O resultado da aprovação saiu no dia 6 de dezembro. Depois de comemorar, a ficha caiu. “Pronto, passei. Agora não tenho dinheiro pra um exame (médico), pra uma passagem”, conta, com bom humor.

O professor Max juntou suas milhas e comprou-lhe o tíquete para o Rio de Janeiro. O diretor da escola descobriu e resolveu pagar os exames médicos exigidos pelo instituto.

“Eu tive muitas oportunidades e gente que acreditou em mim. Muita gente não teve as mesmas oportunidades que eu, sei disso”. Aos amigos, por isso, ela aconselha que agarrem as chances sempre que elas aparecerem.

A jovem optou pelo IME, onde está matriculada como oficial da ativa, por conta do salário que a universidade paga aos alunos durante os 5 anos de curso – além, claro, da possibilidade de cursar mecânica de automóveis.

Ela mora em um alojamento dentro do instituto, localizado na Praia Vermelha, no bairro da Urca.

Bárbara quer mandar parte da renda mensal para a mãe e a avó, guardar um pouquinho para comprar uma passagem “de volta” para Fortaleza – para visitar a família e o namorado, aprovado em engenharia em uma faculdade pública do Ceará – e economizar para comprar, no futuro, uma casa melhor para a avó – o que, para ela, é “o maior sonho”.

Você conhece o papel da literatura no desenvolvimento infantil?

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Ler estimula até os sentidos. Veja de que forma isso acontece

Publicado no G1

A literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, ampliar o vocabulário, trabalhar sentimentos de forma prazerosa e significativa e alfabetizar-se, nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Mas o contato com a literatura na infância permite, ainda, que a criança se coloque em diferentes papéis e aprenda, desde cedo, a apreciar a arte.

Para Andrea Bade Fecher, gestora do Bom Jesus Menino Jesus, em Petrópolis (RJ), é difícil, ou melhor, impossível dizer o papel da literatura no desenvolvimento infantil. “Podemos destacar alguns, como a função social: ler para se informar, ampliar o repertório, socializar o conhecimento, agregar valores etc. Em relação ao desenvolvimento, durante a leitura, são ativadas diversas áreas cerebrais ao mesmo tempo. À medida que lemos, ativamos nossas memórias e os campos: visuais, auditivos, da criatividade e, por vezes, até olfativos. Sem contar que não aprendemos apenas com as nossas experiências; aprendemos na interação com seres e objetos, o que torna a literatura uma grande fonte de aprendizado”, afirma.

A criança que tem o contato com a literatura estimulado amplia consideravelmente seu repertório na língua materna (ou outras línguas, caso já tenha contato com elas), e é capaz de relacionar, interpretar e fazer inferências com maior facilidade, melhora sua ortografia e expande seu potencial criativo.

Segundo Andrea, os pais podem estimular a leitura com o exemplo dentro de casa. “Crianças são atentas – não adianta os pais dizerem que a leitura é importante se o filho nunca os viu lendo. Há pesquisas em neurociência que mostram que todo novo hábito pode ser criado em 21 dias. Então vamos lá, faça o seu planejamento e mantenha com seu filho uma rotina de leitura”, incentiva a gestora, que entende que a escola tem papel fundamental nesse processo, pois é nela que o aluno terá contato com leitura de forma mais técnica. “No Bom Jesus, trabalhamos com títulos e autores diversificados, escolhidos com muito critério. Os alunos leem os livros do projeto de leitura, outros que têm relação com o tema do projeto desenvolvido pela turma, leem livros da ciranda de leitura feita em sala de aula e contam ainda com títulos, separados por faixa etária, nas bibliotecas das unidades de ensino. Já no 1º ano são estimulados a ler para a turma ou a dramatizar histórias lidas individualmente ou em grupo. Quando maiores, são estimulados a leituras mais densas, fazem trabalhos orais, expositivos e avaliações em que podem colocar suas descobertas acerca da leitura realizada”, explica.

Então, não se esqueça: na hora da leitura, nada de preconceito! Explore, com a criança, os diversos gêneros textuais, descubra seu campo de interesse, crie uma rotina agradável e divirta-se neste momento único entre pais e filhos!

A educação no Brasil que deixa mais de 1 milhão de crianças para trás

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 Antônio Cruz / Agência Brasil Mais de um milhão de alunos do ensino fundamental tiveram desempenho insuficiente em leitura e matemática em 2016.

Antônio Cruz / Agência Brasil
Mais de um milhão de alunos do ensino fundamental tiveram desempenho insuficiente em leitura e matemática em 2016.

 

Maioria dos alunos do ensino básico leem de forma truncada e apenas frases simples, não foram alfabetizados adequadamente e não conseguem responder a itens de provas.

Publicado no HuffpostBrasil

Por Mônica Gardelli Franco*

Saber ler e escrever com fluência é um direito de todos. Dominar a leitura e a escrita é um passo importante, não apenas para acessar e construir novos conhecimentos nas mais diferentes áreas, como também para potencializar o exercício da cidadania. Contudo, neste 14 de novembro, Dia Nacional da Alfabetização, temos pouco a celebrar: o Brasil tem fracassado na tarefa de alfabetizar os estudantes ao longo da História.

Exemplo disso são os resultados da última Avaliação Nacional de Alfabetização. Em 2016, foram avaliados mais de dois milhões de alunos do 3º ano do ensino fundamental de praticamente todas as escolas públicas do País. Os dados demonstram que mais de um milhão tiveram desempenho insuficiente em leitura e matemática. Não é possível aceitar que estados como o Amapá tenham oito em cada dez estudantes do 3º ano com nível insuficiente em leitura.

Como a prova foi aplicada no final de 2016, provavelmente essas crianças estão concluindo agora o 4º ano do ensino fundamental. Esse dado nos desafia a tomar providências imediatas. Não podemos deixar que, no futuro, elas venham a fazer parte das estatísticas de adultos que, apesar de terem concluído o Ensino Médio, são considerados analfabetos funcionais.

Segundo o último Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), entre as pessoas que cursaram algum ano ou concluíram o Ensino Médio ,”apenas 9% não demonstram restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais e resolvem problemas envolvendo múltiplas etapas, operações e informações”.

Frente a essa grave realidade, o Brasil tem dois grandes desafios que precisam ser enfrentados simultaneamente. O primeiro deles é garantir que as crianças que a cada ano ingressam na escola tenham um ensino de qualidade e, por consequência, uma trajetória escolar exitosa. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer os estudantes não alfabetizados que, felizmente, seguem matriculados nos ensinos fundamental e médio.

A vida não espera. Nossas crianças estão crescendo e quem vai pagar o preço é a sociedade brasileira, que terá um prejuízo incomensurável. Não atacar esses dois obstáculos é perpetuar uma realidade na qual uma parcela significativa da população brasileira seguirá enfrentando inúmeras dificuldades cotidianas, seja na inserção no mercado de trabalho, seja nas mais diversas esferas do mundo social.

Infelizmente, é preciso ter clareza de que os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização não são novidade. Desde as primeiras edições do Sistema de Avaliação da Educação Básica, no início dos anos 1990, as avaliações já demonstravam que uma parcela significativa dos estudantes chegava ao final da antiga 4º série do ensino fundamental com baixa proficiência em leitura.

Em 2001, por exemplo, 59% dos alunos estavam nos níveis “muito crítico” ou “crítico”, menos de 5% nos estágios “adequado” e “avançado”, e 36,2% no “intermediário”. Isso significa que a maioria dos alunos não eram leitores competentes; liam de forma truncada e apenas frases simples ou não desenvolveram habilidades de leitura; não foram alfabetizados adequadamente; e não conseguiam responder aos itens da prova.

Mas por que, então, não avançamos? Como garantir que todas as crianças que ainda não estão alfabetizadas sejam leitoras e escritoras? Quais medidas corretivas e preventivas podem ser tomadas para superar esse cenário e, principalmente, para que ele não volte a se repetir?

Nos últimos 20 anos, muitos programas e ações foram criados por governos com o propósito de assegurar que as crianças sejam efetivamente alfabetizadas nos primeiros anos do ensino fundamental.

No âmbito federal, podemos citar alguns deles como o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores, Pró-Letramento, Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, e agora o Mais Alfabetização, anunciado pelo Ministério da Educação no final de outubro.

Não é possível alcançar esses objetivos sem políticas de Estado sólidas e contínuas, que não sejam realizadas em caráter suplementar e efetivamente cheguem a todas as escolas do País, e não apenas em municípios e estados que têm capacidade técnica ou recursos para realizar essas ações. É preciso ainda assegurar condições materiais e físicas, além de formação continuada de qualidade para professores, coordenadores pedagógicos e formadores das redes.

É verdade que também tivemos avanços. Temos uma vasta literatura e muitos estudos que permitem compreender melhor como formar leitores e escritores proficientes. Todavia, há uma lacuna em como traduzir esse conhecimento para a sala de aula, em práticas pedagógicas intencionais e eficazes que respondam ao desafio da consolidação e desenvolvimento do processo de alfabetização. Sem isso, dificilmente conseguiremos garantir que todos os alunos possam ler, compreender e produzir textos com competência, de forma autônoma.

Precisamos apoiar os educadores, construir uma relação de confiança que possibilite que as escolas sejam efetivamente centros de pesquisas, com investigação, revisão e construção de práticas pedagógicas e de metodologias que possibilitem aos alunos avançarem em seus conhecimentos.

*Mônica Gardelli Franco é superintendente do Cenpec.

54% dos alunos que deveriam estar alfabetizados têm problemas para ler

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Publicado no UOL

Mais da metade dos alunos de oito anos das escolas públicas no Brasil tem conhecimento insuficiente em leitura e matemática, segundo dados da ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização) 2016, divulgados nesta quarta (25) pelo MEC (Ministério da Educação).

Os números mostram que 54,73% dos alunos têm problemas de leitura –eles não conseguem, por exemplo, interpretar e localizar informações específicas em textos científicos ou de gêneros como lenda e cantiga folclórica. Além disso, eles têm dificuldade para reconhecer a linguagem figurada em poemas e tirinhas.

Esses resultados estão estagnados desde 2014, quando 56,17% dos alunos tiveram desempenho insuficiente na habilidade de leitura.

A ANA foi aplicada para mais de 2 milhões de crianças em novembro de 2016, quando 90% dos estudantes avaliados possuíam oito anos ou mais.
Já 54,46% dos alunos têm problemas para fazer contas de adição, subtração, multiplicação e divisão, além de não conseguir interpretar gráficos de colunas, por exemplo. Em 2014, esse número foi de 57,07%.

A escrita apresenta índices menos críticos, mas ainda preocupantes: cerca de 34% dos estudantes apresentam desempenho insuficiente –em geral, os alunos têm problemas de grafia e para escrever um texto narrativo coeso.

Hoje, pelo Pnaic (Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa), espera-se que até os oito anos, no fim do 3º ano do ensino fundamental, as crianças estejam alfabetizadas tanto em língua portuguesa como em matemática.

Desigualdades regionais

As regiões Norte e Nordeste apresentam o pior desempenho em todas as habilidades avaliadas. Na região Norte, 70,21% dos alunos têm desempenho insuficiente em leitura, 49,39% em escrita e 70,84% em matemática. No Nordeste, 69,15% têm problemas para ler, 47,44% para escrever e 69,46% em matemática.

Na região Sudeste, 43,69% dos alunos tiveram desempenho insuficiente em leitura, 20,29% em escrita e 42,71% em matemática.
Antecipação da alfabetização

Para a ministra substituta da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, os dados mostram a necessidade de se antecipar a alfabetização do 3º para o 2º ano do ensino fundamental.

“Entendemos que [antecipar a alfabetização] significa um passo à frente para melhoria da qualidade da educação brasileira no futuro”, disse.

A proposta vem sendo debatida desde abril, quando o MEC incluiu na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) a definição de que as crianças saibam ler e escrever aos sete anos. Há um impasse, no entanto, com o CNE (Conselho Nacional de Educação) –conselheiros têm defendido que a alfabetização continue sendo realizada até o 3º ano do ensino fundamental.

Para Maria do Pilar Lacerda, ex-secretária de educação básica do MEC e diretora da Fundação SM, “antecipar a alfabetização é antecipar o fracasso”.

“O que não podemos fazer é penalizar as crianças. Se você coloca a alfabetização até sete anos e a criança não for alfabetizada, ela será reprovada. Esse já é um grande problema da educação brasileira hoje, que é a exclusão pela reprovação”, afirma Maria do Pilar.

Professores assistentes de alfabetização

O MEC anunciou ainda a criação do Programa Mais Alfabetização, que prevê a presença de professores assistentes de alfabetização em sala de aula. Segundo a pasta, os professores assistentes trabalharão em conjunto com os docentes regulares nas salas de aula do 1º e 2º anos do ensino fundamental.

“Cada professor assistente deverá apoiar durante 5 horas por semana a turma que ele for responsável. A distribuição dessas 5 horas poderá ser feita de diferentes formas, conforme desenhado pela rede de ensino”, explicou o secretário de educação básica, Rossieli Soares da Silva.

De acordo com o MEC, o investimento no Mais Alfabetização será de R$ 523 milhões até o fim de 2018, e a expectativa é que sejam atendidos 4,6 milhões de alunos.
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