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“Se você não ler, como quer fazer seu filho ler?”, diz o dono da Livraria Cultura, Pedro Herz

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Pedro Herz, presidente do Conselho de Administração da Livraria Cultura, na sua unidade de Porto AlegreJefferson Botega / Agencia RBS

Executivo de uma das maiores redes de varejo de livros fala da falta de novos leitores, das mudanças no mercado e dos planos da empresa

Publicado no Zero Hora

Presidente do Conselho de Administração da Livraria Cultura, Pedro Herz lançou recentemente seu livro de memórias O Livreiro, em que conta como uma das maiores redes de livrarias do Brasil nasceu de uma biblioteca de 10 livros em alemão. Eva Herz (1911-2001), mãe de Pedro, imigrante judia alemã radicada no Brasil, começou uma biblioteca circulante para atender à comunidade de expatriados em São Paulo e expandiu o negócio até abrir uma livraria em 1947. Herz, que assumiu a empresa na sequência da mãe, esteve em Porto Alegre para sessão de autógrafos  conversou com ZH sobre o mercado atual, recentes aquisições da Cultura (como a Fnac e a Estante Virtual) e o que considera o grande problema de qualquer livraria no Brasil: o descompasso na formação de novos leitores.

Com mais de meio século de atuação como livreiro, como o senhor vê o panorama atual? Qual a principal mudança?

Acho que a mudança que existe hoje não é apenas no mercado do livro. O livro é um produto de varejo e é o varejo que está passando por grandes mudanças sem que o caminho seja muito claramente sinalizado. Ninguém sabe direito para onde vai. Quando você fala do varejo, esbarra também no modelo dos shopping centers, você vê a grande quantidade de lojas, de quaisquer produtos, vazias. Este é o problema: o consumidor está mudando de hábitos. Especificamente no livro, não há formação de novos leitores, e leitor se forma em casa. A familiarização do livro com a criança é em casa. A escola pode ajudar, mas é em casa que isso se define. E os casais estão tendo menos filhos.

Mas pela extensão e população, o Brasil não foi sempre um país de poucos leitores, proporcionalmente falando?

Sim, mas estamos em uma crise fantástica. Estamos indo cada ano pior na escola, e assim não estamos formando novos leitores. Há pesquisas recentes que mostram que não estamos indo bem. E isso faz com que o desenvolvimento do Brasil também fique para trás. Não é só na indústria do livro, é no saber como um todo, em todas as áreas, na medicina, no direito, na engenharia. Advogado que não sabe escrever, tá cheio.

Isso não se inseriria também em um fenômeno mais amplo, de que a proliferação do ambiente de rede virtual produziu leitores menos atentos?

Isso é mundial, sem dúvida. Uma grande dificuldade que vejo é que as pessoas não ouvem mais. Elas falam. E falar não é necessariamente a fala oral. Digitar é falar. As pessoas em um elevador todas estão em seus celulares, teclando com os dedões. No cinema, estão falando, em um concerto, estão falando e não estão ouvindo o que alguém disse. Em um texto, um artigo de jornal, uma revista, você “ouve” o que o autor escreveu e fica calado enquanto lê, para depois considerar aquilo bom ou ruim. E isso, de ficar calado, é a coisa mais difícil atualmente.

Pedro Herz, entre seus seus filhos Fábio (E) e Sérgio (D), e atrás dos pais Eva Herz, fundadora da Cultura, e Kurt HerzEditora Planeta / Divulgação

Qual o livro que o senhor está lendo agora?

Estou lendo a história da humanidade escrita pelo professor israelense Yuval Harari, Sapiens, foi publicado até pela editora daqui, a L&PM. É bem legal.

O senhor lê em e-reader?

Eu leio, mas prefiro o papel. Estou com um smartphone aqui comigo, mas para ler mesmo eu prefiro em papel. Mas eu fico feliz de ter a opção de, por exemplo, não precisar andar pra todo lado com um Grande Sertão Veredas, por exemplo, que é um livrão.

A que o senhor atribui a dificuldade dos e-readers de conquistarem mercado?

O aparelho não faz o leitor. Quem faz o leitor é a casa, mesmo que a criança não seja alfabetizada. O gesto dos pais pegando um livro contamina. Meus filhos pegavam os livros de ponta-cabeça quando ainda não eram alfabetizados. Eles não sabiam ler, mas estavam imitando o gesto que me viam fazer, o de ter o livro nas mãos. E hoje, adultos, são leitores.

Qual seria uma receita sua para fazer um leitor?

Eu digo: se você não ler, como quer fazer seu filho ler? Essa é a frase que deveríamos repetir para todos os pais. Se eles não dão o exemplo de ficarem confortavelmente sentados, em silêncio, porque ler é, na maioria das vezes, uma atividade solitária, se ele não consegue fazer isso, não vai convencer seus filhos de que aquilo é importante.

No livro de memórias O Livreiro, o senhor comenta que o modelo de livrarias megastores talvez não seja mais sustentável. E esse é um modelo que a Cultura ajudou a consolidar no Brasil. O senhor está reavaliando a própria estrutura de seu negócio?

Sim, todos os varejistas estamos. Eu não consigo mais viver apenas de livros. Eu tinha CDs, DVDs, alguma coisa a mais, temos café, teatros em algumas unidades. Agora, sustentar isso está cada vez mais difícil, porque o consumo foi para outro caminho. Como perdemos os CDs e os DVDs, estamos buscando outros produtos para pôr no lugar físico dessas lojas. Na parte eletrônica, vale a velha frase: “Se funciona, é obsoleto”. Então a substituição é brutal, e em uma rapidez e uma velocidade impressionantes.

Há pouco tempo, a rede Cultura adquiriu as lojas da Fnac no Brasil. A Cultura, embora trabalhe com eletrônicos, tem um perfil mais voltado ao de uma livraria tradicional, enquanto a Fnac vende até alguns eletrodomésticos. Com as duas na mesma rede, vai ocorrer alguma adequação de ambas? Vão ser mantidos ambos os perfis distintos?

É provável que vá se adequar, mas com um dinamismo fantástico de substituição.

Mas quem vai se adequar a quem? A Fnac à Cultura ou a Cultura à Fnac?

A Fnac vai mudar muito mais do que a Cultura, com certeza. Sabe, a coisa eletrônica evolui de uma forma tão rápida que é mais veloz do que o comportamento humano. Você quer comprar um modelo novo de telefone celular. Você vai pensar, discutir com a sua família, e quando você finalmente comprar e chegar com ele em casa, ele será velho. Com o livro, as coisas não acontecem nessa velocidade.

Os senhores passaram a cuidar da operação de e-commerce da CNOVA, que reúne Casas Bahia, Ponto Frio e Extra, lojas de varejo de produtos diversificados. O senhor quer fazer da Cultura uma Amazon brasileira?

Não totalmente, porque não quero vender vitamina para cavalo (risos). Mas ser a Amazon é uma boa meta, oxalá eu consiga, porque eles são muito bons, eficientes e inteligentes. E estão montados no dinheiro para fazer e inovar como quiserem.

Para livrarias como a Cultura, unidades muito grandes com um acervo gigante, isso significaria trabalhar então com lojas menores?

Não necessariamente. Elas podem até aumentar, para diversificar mais os produtos. Mas ali você vai ver, decidir o que vai comprar e depois vai buscar o melhor preço.

O senhor também comprou a Estante Virtual, um agregador de sebos. Por que um dos maiores vendedores de livros novos decidiu lidar com livros usados?

Porque eu acho que livro novo é aquele que você não leu. Se você se interessa por um título que está esgotado no mercado, o caminho é esse. E é uma plataforma digital absolutamente fantástica. Extremamente útil e boa em que você consegue ter acesso a coisas que não consegue comprar em canto nenhum porque não são editadas mais. Particularmente, fico muito feliz de termos feito esse negócio. Não gosto muito da palavra “sebo”, eu prefiro “antiquário”, “raro”, mas “sebo”, coisa ensebada? Não sei a origem da palavra, mas eu não gosto. Só que é a palavra que se usa e eu não vou mudar.

Há alguns anos, em uma entrevista, o senhor comentava que a maioria das editoras do Brasil estava em um grau baixo de profissionalização e que não sabia trabalhar com o produto livro. O senhor acha que isso mudou?

Algumas sim, outras não. Por uma questão até de recursos de investimento. Hoje a gente tem e trabalha bastante com Business Inteligence, inteligência artificial que me permite saber o que as pessoas olham e procuram. Isso pode me dar pistas para uma série de coisas. Essa é uma metodologia usada pelo varejo em larga escala. Te traz um monte de informações. Em um supermercado, por exemplo, determinados produtos estão em um lugar porque se sabe que é o melhor lugar para posicioná-los. Hoje eu sei o que você está vendo quando entra no nosso site.

Como fica a privacidade do consumidor?

Mas a privacidade hoje já não existe no ambiente digital. Eu sei que você olhou um livro de plantas. Aí posso chegar e fazer a oferta de um regador para você, um vaso. Isso é uma abordagem inteligente. Agora, quanto à privacidade, basta ter um celular no bolso e alguém em algum lugar está monitorando.

Como o senhor vê a atual onda dos Youtubers literários? Há poucas semanas, a Youtuber Jout Jout leu um livro infantil inteiro da Companhia em seu canal e ele se tornou fenômeno de vendas.

São fenômenos momentâneos de consumo.

Eles não seriam hoje novos formadores de opinião?

Podem ser, mas voláteis.

Qual sua posição sobre a recente campanha do preço único nas capas de livros?

O preço de publicações no mundo é fixo. Se você comprar um jornal, tem o preço impresso. Se comprar uma revista, tem o preço impresso. Se comprar livros lá fora, eles vêm com o preço impresso. É o uso e o costume. No Brasil, nunca se teve isso além de revistas e jornais por causa da inflação. Mas se você for no Exterior, tem o preço na orelha, impresso, sugerido, e sempre que você tem alguma ação, reduz esse preço.

Eu, particularmente, achei que o senhor teria uma opinião diferente nessa questão do preço fixo, porque suas livrarias são das que têm condições de negociar variações e descontos mais substanciais.

É que há coisas que estão acontecendo, principalmente no e-commerce. A Amazon, por exemplo, não liga nem um pouco para dar lucro. Ela inventa coisas novas que fazem a ação subir, mas os acionistas não ganham dinheiro. Se você é possuidor de “xis” ações, você não tem todo ano distribuição de lucro. O que está acontecendo no comércio eletrônico de modo geral são empresas muito grandes que não estão muito preocupadas com esse resultado. Então compram o livro por R$ 10 e vendem por R$ 3. E é mais barato eu comprar desse fornecedor do que da editora, porque eu não tenho essa margem e vivo do resultado do meu negócio.

No seu livro, o senhor comenta que gosta de fazer compras em estabelecimentos menores e mais aconchegantes. Essas movimentações de mercado na verdade não significam um risco à própria existência das pequenas livrarias?

Elas estão renascendo nos EUA. Chamam de “independent bookstores”, que não são de grandes cadeias. Isso está crescendo por lá.

Sim, isso a gente chamava de “livrarias de calçada”. Mas no Brasil a realidade é de pequenas livrarias fechando.

Vai chegar aqui no Brasil. As pessoas gostam de conversar com alguém, de ser bem atendidas por alguém que entenda aquilo que você está falando. Porque às vezes o cara vem para você procurando um livro de que ele ouviu falar, não sabe direito o título, mas acha que a capa é vermelha. E, no fim, é azul. Isso acontece muito. Então esse interlocutor é parte do atendimento humano. As pessoas vão querer continuar sendo bem-atendidas em qualquer estabelecimento, seja a livraria, seja um restaurante.

Há algum livro que o senhor se recusaria ou já se recusou a vender?

Sim, claro. Livros que pregam o racismo. Eu me recuso a vender livros que pregam qualquer forma de discriminação política ou religiosa. Eu sou judeu. Se alguém vem me dizer em um livro que o Holocausto não existiu, eu não quero vender esse livro. Não sou obrigado. Compro aquilo que quero vender. E não adianta reclamar. Tem gente que me pergunta por que eu não vendo o livro do Hitler (Mein Kampf, que entrou em domínio público em 2016 e ganhou edições em vários idiomas). Não vendo porque não quero. Hitler expulsou meus pais da terra deles. E nós tínhamos um presidente da República, Getúlio Vargas, que era amigo dele, não estou falando nada de novo aqui. Meus pais não conseguiram desembarcar no Brasil quando fugiram da Alemanha porque o governo do Getúlio não permitiu. Não quero participar disso. Aliás, acho que o lugar mais democrático do mundo é uma estante de livraria ou biblioteca, onde posições antagônicas convivem pacificamente uma ao lado da outra.

Mesmo assim, há coisas que o senhor não põe na estante. Há coisas das quais a democracia precisa ser defendida?

Com certeza, porque aí é um debate do qual eu não quero participar. Eu respeito minha opinião e vou atrás dela. Não há lei que me obrigue. E não adianta reclamar. Até porque as pessoas se tornam muito agressivas. Eu vi o início da internet, estou na internet desde 1994. As pessoas iam ao site da livraria lá no início e escreviam “Cheiquespir”. Aí aparecia um pop up de “autor não cadastrado”. E o valentão que havia escrito Shakespeare com quatro “X”, três cedilhas e 19 “S” respondia: “Mas que merda de livraria”. Isso eu vi, era assim. Além disso, também não sei se o João que está escrevendo é João e se a Maria é Maria. O anonimato que a internet proporcionou é a origem das fake news.

 

Stephen King lança livro com o filho caçula Owen

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Thales de Menezes, na Folha de S.Paulo

“Minha mulher achou o manuscrito na lata de lixo. Leu e entregou de volta para mim. Pediu que eu não desistisse daquela história, porque era muito boa.”

O manuscrito era um esboço de “Carrie, a Estranha”, e quem conta o episódio é o escritor americano Stephen King, 70, que já vendeu mais de 400 milhões de livros no mundo. “Carrie” foi o primeiro que lançou, em 1974.

A importância de Tabitha Spruce na vida de King, com quem está casada há 46 anos, surgiu como assunto na conversa do escritor numa manhã nova-iorquina dedicada a encontrar jornalistas estrangeiros na sede da editora Simon & Schuster.

O escritor americano Stephen King

O escritor americano Stephen King

Mulheres foram assunto durante grande parte das respostas de King. Ele escreveu, com o filho caçula, Owen, 40, o livro “Belas Adormecidas”, que será lançado no Brasil no próximo dia 16.

“Um dia perguntei ao meu pai o que achava da ideia de um livro em que, num dia qualquer, todas as mulheres do mundo não acordassem. Eu queria que ele escrevesse, ele se recusou. Ficamos com a ideia nos rondando por um tempo e então veio a ideia de escrevermos juntos. Mas não tínhamos ainda personagens, era só uma ideia engraçada.”

Owen é interrompido por King, que fala, em tom brincalhão, que o filho está falando bobagens (“bullshit” é a palavra utilizada). Diz então que não é bem assim.

“Owen já tinha uma coisa bem mais formatada, que é a combinação da ideia das mulheres que não acordam com o cenário de uma prisão feminina”, explica o autor. De bom humor e ar jovial, King morde um palito de dente, algo que continuou fazendo durante a entrevista inteira –ele tinha alguns palitos no bolso de sua camisa.

MICROCOSMO

Como em praticamente todos os seus 56 romances e mais de 200 contos, a ação se passa numa cidadezinha. Esta se chama Dooling. “Pensamos também em colocar a prisão numa cidade pequena, porque o que aprendi na escola, nas aulas de literatura, é que um microcosmo reflete o macrocosmo. Você pode usar um lugar pequeno para falar de tudo”, justifica King.

Com a carreira bem-sucedida, agora marcada entre sua estreia com “Carrie”, livro sobre uma garota paranormal que sofre bullying, e as mulheres em apuros de “Belas Adormecidas”, King fala muito sobre a presença feminina em sua vida.

Ele foi criado pela mãe. Quando tinha dois anos, seu pai saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. King insiste que foi exatamente assim, sem inventar a situação que lembra piada recorrente.

Ela não queria que o menino ficasse estigmatizado como filho de mãe solteira. Então mandou que ele respondesse a quem perguntasse que o pai estava na Marinha.

“Minha mãe tinha cinco irmãs e todas estavam por perto o tempo todo. Quando comecei a publicar livros, vi que as mulheres eram aquelas que faziam as coisas acontecerem nas editoras. Encontrei grandes profissionais. Então sempre convivi bem com mulheres, me sinto confortável trabalhando com mulheres e escrevendo sobre elas.”

“Belas Adormecidas” mostra as mulheres pegando no sono e não despertando mais. Fios crescem rapidamente de seus cabelos e formam casulos em torno de suas cabeças. Os homens se revoltam com a situação, em desdobramentos violentos e desesperados.

A dupla de autores ri diante da pergunta: seria possível escrever um livro em que os homens caíssem no sono eterno e deixassem as mulheres sozinhas na Terra?

“Acho improvável”, responde Owen. King pega mais pesado: “Impossível. Vejo os homens agressivos, confrontadores. Veja Donald Trump e o ditador da Coreia do Norte. Uma briga louca de machos alfa. Se todos os homens dormissem, acho que as mulheres trabalhariam muito bem juntas. Não haveria confronto, não haveria história”.

VISITA AOS PRESÍDIOS

Owen visitou penitenciárias femininas. Segundo o pai, trouxe tristeza para a narrativa. “Ele esteve na prisão de New Hampshire. A biblioteca tinha todos os meus livros! Pobres mulheres!”, brinca.

A dupla pensou meses sobre as consequências que essa situação poderia render no enredo. No fim, eles optaram por contar apenas os primeiros dias após o surgimento da estranha condição das mulheres, sem ampliar a ação para fora de Dooling.

“E, como todas acabariam dormindo, pensamos no personagem masculino para amarrar a história, que é o psiquiatra da prisão, Clint”, conta Owen. “Mas ele não é um herói, um personagem que salva outros em várias situações durante a trama.”

King diz estar muito satisfeito com os personagens que inventaram. “Ele têm imperfeições, são realistas, ninguém é só bonzinho ou totalmente maldoso. O desafio, para mim, é lembrar sempre que cada personagem faz aquilo que acha certo, mesmo que para algumas pessoas ele esteja terrivelmente errado. Você precisa ficar ao lado de cada um deles.”

Com tantos personagens –o livro tem no começo uma lista de todos, para facilitar a leitura–, “Belas Adormecidas” poderia funcionar como uma série de TV. Owen revela que a ideia inicial chegou a ser um roteiro para uma, mas, quando os dois se uniram para o trabalho, a opção pelo livro foi mais sedutora.

Segundo os dois, o processo foi “pacífico” –palavra usada por Owen. Não houve brigas. “Foi como jogar tênis. Um passando a bola para o outro”, conta o pai.

Owen às vezes escrevia cerca de 30 páginas e perguntava ao pai para onde ele iria a partir daquele ponto.

“Já escrevi em parceria antes, até com meu filho mais velho, Joe Hill, mas isso foi totalmente diferente”, opina King. “Houve uma mistura…”

Owen interrompe o pai. “Sei que as pessoas podem ficar tentadas a ler o livro procurando saber quem escreveu cada parte, mas nem nós temos condições de dizer.”

King dá sua versão: “Eu penso que o livro foi escrito por uma terceira pessoa, que é a combinação de nós dois. O resultado é totalmente diferente do que cada um escreveria sozinho.

Depois de “Belas Adormecidas”, Stephen e Owen King pretendem repetir a experiência de escrever um romance em parceria.

“Eu quero, pode apostar”, diz Owen. “Foi tão estranho propor uma ideia ao meu pai e ele aceitar. Não é algo tão natural como as pessoas podem pensar.”

King defende que a relação entre os dois, durante o projeto, deixou de lado a ligação de pai e filho. “Tinha de fazer isso. Respeito Owen como escritor. Uma atitude paternalista nunca esteve na minha cabeça, em nenhum momento.”

Embora concorde com o pai e diga que realmente tiveram uma relação de colegas escritores, Owen afirma que há uma carga adicional nesse processo.

“Estou com 40 anos, escrevi outros livros e tenho minha família. Mas, por mais de um ano, conversamos sobre esse livro. Horas e horas de trabalho lado a lado. Quem é o filho que, na minha idade, consegue passar tanto tempo assim com o pai? Além do mais, ele é incrivelmente ocupado.”

A pergunta é inevitável: o que o pai ensinou ao filho sobre seu ofício de escritor?

“Escrever todos os dias. Ou pelo menos tentar. Ele me diz isso desde que eu era criança”, responde Owen. “Tento dedicar o máximo de tempo que eu posso a escrever.”

O próprio King afirma procurar seguir essa diretriz. Mas nem sempre ele consegue.

“Tento escrever todos os dias, mas você tem família e coisas chatas para fazer, como ir ao dentista, fazer reunião com advogados ou ser entrevistado por jornalistas estrangeiros”, diz, rindo.

Owen segue no assunto. “Pessoas acham que livros saem fácil. Eu vi minha mãe escrever das nove da manhã às cinco da tarde e, no resto do tempo, cuidar da casa, cuidar de nós. Claro que existem as histórias de sucesso na literatura, mas é inegável que o tempo que você precisa dedicar a isso é enorme.”

HERANÇA CRIATIVA

King pede a palavra. “Todos os meus filhos trabalham duro. Eles têm um pouco da minha imaginação, e da imaginação da mãe deles, que também é uma romancista. Cresceram nessa atmosfera, com livros por todo lado.”

Ele diz se lembrar da infância de Owen, numa época em que ele era o único garoto da turma que não via TV. A família morava afastada das antenas e não tinha sinal de TV, então o menino se voltava aos livros. E gibis. “Homem-Aranha, claro! Peter Parker ia a todos os lugares comigo!”

O dia a dia de King quando os filhos eram pequenos foi, segundo ele, “normal”.

“Apenas durante um curto período eu escrevi no porão, porque meu filho Joe tinha quatro anos e um dia pegou o estojo de lápis de cor e desenhou sobre boa parte de um de meus manuscritos.”

King então alugou um cômodo de uma vizinha, onde concluiu o texto de “O Iluminado”. “Mas quero dizer uma coisa”, pede. “Depois que passei a ter um escritório em casa, eu nunca fechei a porta. Meus filhos entravam ali sempre que queriam.”

Além de procurar tempo para escrever diariamente, King se ocupa com o Twitter e preserva o hábito de ler sempre algum livro, um em seguida ao outro.

“Mas não leio depressa, quero apreciar a história. Tenho sempre um livro comigo, gosto da companhia. Sabe que Owen gravou para mim em fitas cassete ‘Guerra e Paz’, de Leon Tolstói, para que eu escutasse no carro?”

“Sim, fiz isso com outros livros. Gravei ‘O Senhor dos Anéis’ para ele. Comecei aos oito anos. Sou bom nisso até hoje, acho tranquilo ler para o público trechos dos meus livros em lançamentos.”

Quanto ao Twitter, King se empolga. “Twitter é uma ferramenta poderosa para comprimir uma ideia. Todos os meus livros começam com um ideia clara, que fico remoendo muito tempo. Depois eu passo para os personagens, mas a ideia está decidida. Acho que todos os meus livros podem ser resumidos em um tuíte.”

O jornalista Thales de Menezes viajou a convite da editora Companhia das Letras

Paula Hawkins: conversamos com a autora de ‘A Garota do Trem’

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Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

Isabela Moreira, Galileu

Um lugar perigoso para mulheres encrenqueiras: é assim que o vilarejo de Beckford, na Inglaterra, é descrito em Em Águas Sombrias (Editora Record, 364 páginas, R$ 42,90). Lançado no Brasil em maio deste ano, o livro é o segundo de suspense de Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem, thriller que se tornou best-seller mundial e foi adaptado para os cinemas em 2016.

Hawkins passou anos da carreira trabalhando como jornalista até ser convidada por uma editora para escrever livros de comédia romântica. “Eu gosto do gênero, mas nunca me senti confortável escrevendo sobre ele”, afirmou a escritora em entrevista à GALILEU.

Após quatro livros do tipo, decidiu mudar de rumo. “Estava muito mais interessada nos thrillers, que eram os tipos de livros que gosto de ler.”

Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

Inspirada em grandes autoras contemporâneas do gênero, como Donna Tartt e Kate Atkinson, a autora lançou A Garota do Trem, suspense no qual aborda alcoolismo e violência doméstica.

O sucesso garantiu o novo livro, Em Águas Sombrias, cujos direitos de adaptação cinematográfica já foram adquiridos pela DreamWorks. A história conta, a partir da perspectiva de diversos moradores de Beckford, os casos de mulheres encontradas mortas no rio do vilarejo. A partir das investigações surgem discussões sobre memória, abuso sexual, suicídio e luto.

De passagem pelo Brasil para participar da Bienal do Livro Rio de 2017, Paula Hawkins conversou com a GALILEU sobre seu novo livro, feminismo e processos de escrita. Leia abaixo:

Você chega a se sentir sobrecarregada com a experiência de escrever sobre temas tão pesados?

Muitas coisas horríveis acontecem em Em Águas Sombrias. Escrever da perspectiva da mãe de Katie Whittaker, uma adolescente que é encontrada morta, foi particularmente triste. Em alguns momentos me pergunto o motivo de estar escrevendo sobre esses assuntos, mas acho que é interessante trabalhar essas ideias e possivelmente trazer um pouco de esperança para alguns dos personagens.

Nos seus livros você lida com a parte mais obscura da experiência de ser uma mulher em um mundo conduzido pelos homens. Por que abordar esse tema?
Como uma mulher, é algo sobre o que penso e que me preocupa. A violência doméstica é um problema que persiste no Reino Unido e continua a piorar — não só lá como em outros países, como o Brasil, a Argentina e a Colômbia, onde a violência contra a mulher é aguda. São assuntos importantes de se confrontar e sobre os quais temos que continuar pensando e escrevendo. Algo precisa ser feito e para isso precisamos continuar a trabalhar com esses temas.

Várias séries de TV e livros estão indo na mesma linha e fazendo bastante sucesso. Isso tem a ver com o momento pelo qual estamos passando, em que feminismo e direitos humanos estão sendo mais discutidos do que nunca, ou as pessoas sempre quiseram narrativas do tipo e não tinham acesso a elas?
Acredito que as coisas acontecem em ciclos. Boa parte da cultura é dominada pelo que acontece nos Estados Unidos e o fato de eles terem um presidente que fala daquela forma sobre as mulheres faz com que ocorra discussão em torno do assunto.

Tem muitas coisas acontecendo no mundo que exigem que falemos sobre isso. Incidentes horríveis ocorreram na Índia e levaram a um ressurgimento do feminismo no país e sei que o Brasil passou por episódios horrendos também. Então acredito que há momentos em que as coisas parecem se encaixar e todos querem falar sobre elas: devemos aproveitar o timing e falar o máximo que podemos, para que cheguemos ao momento em que não estamos só falando, estamos de fato resolvendo o problema.

Tem cada vez mais mulheres por trás dessas séries e livros…

Sim, o fato de as mulheres estarem no comando de boa parte do que é popular na cultura também ajuda.

Você se considera feminista?

Com certeza.

Em Em Águas Sombrias você tem vários narradores diferentes. Como foi o processo de escrever de cada perspectiva?
Foi difícil, não planejava ter tantos narradores. Mas conforme fui escrevendo a história, percebi que esse era o melhor jeito que contá-la: ter um coral de vozes, cada uma delas guardando seus próprios segredos, pensei que era melhor o leitor ouvir um pouco de todos. Comecei com Jules e Erin e fui expandindo porque as duas sozinhas não tinham como saber de todos os eventos que estavam acontecendo.

A dificuldade para mim foi decidir quem deveria estar falando em qual momento e decidir qual incidente passaria pela perspectiva de quem, tive que reescrever diversas vezes passagens do livro de perspectivas diferentes para descobrir de qual gostava mais. Algumas narrativas foram mais fáceis que as outras: Louise, a mãe da menina que morreu, foi difícil, já de Nickie Sage gostei porque ela era meio estranha.

E tudo se passa em uma cidade pequena, o que torna tudo ainda mais claustrofóbico…
E essa era a sensação que eu queria que as pessoas tivessem. Cidades pequenas podem ser claustrofóbicas: todo mundo sabe o que todo mundo está fazendo, não dá para fazer nada sem seu vizinho ver ou os pais dos seus amigos te dedurarem. Um está prestando atenção ao outro e acredito que essa claustrofobia faz com que as pessoas ajam em segredo, em particular os mais novos, que não querem que seus pais saibam o que estão fazendo.

Outro tema forte do livro é a memória. O que torna essa abordagem interessante para você?
Sou fascinada pela forma como a memória funciona ou não e como estruturamos diferentes narrativas para nós mesmo. A memória justifica as pessoas que nos tornamos, mas nem sempre é confiável: as pessoas podem mudar a história após anos a repetindo. Às vezes sem querer ou por não encarar um evento traumático e trágico. Outras é só para despistar as pessoas.

“Temos de mudar a metodologia”, afirma criador da Sala de Aula Invertida

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Entrevista: Jon Bergmann criador da Sala de Aula Invertida  |  Autor: Léo Freitas  |  Fonte: Universia Brasil

Entrevista: Jon Bergmann criador da Sala de Aula Invertida | Autor: Léo Freitas | Fonte: Universia Brasil

Publicado no Universia Brasil

Jonathan Bergmann quase não ficou parado no palco da Sede do Santander em São Paulo, durante sua palestra no 1º FlipCon Brasil – Metodologias Ativas no Ensino Superior, realizado na quinta-feira (30/8).

Vestindo calça jeans e blusa preta de mangas compridas, uma participante no auditório o achou parecido com Steve Jobs. Enquanto exibia uma série de slides no telão, andava de um lado para o outro e anunciava, com muito entusiasmo, uma característica que o lendário fundador da Apple certamente assinaria embaixo: a necessidade de inovação. Nesse caso, o alvo era a educação no planeta.

Mesmo à frente do auditório, foi bastante difícil falar alguns instantes com o professor Jonathan Bergmann, líder do movimento Sala de Aula Invertida e autor de sete livros sobre o tema. Nos poucos momentos em que o palestrante não estava focado nos detalhes de sua apresentação, ele era abordado por gestores e lideranças universitárias ansiosos por autógrafos, cumprimentos e fotografias com o criador do Flipped Learning.

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Poucos minutos antes do evento e satisfeito com a presença das pessoas que lotavam o auditório, Jon Bergmann respondeu a algumas perguntas com exclusividade ao Portal Universia Brasil.

Portal Universia Brasil – O auditório está cheio de pessoas que vieram assistir à sua palestra…

Jonathan Bergmann – Está sim. Estou bastante animado!


Ao observar uma fotografia escolar antiga de nossos pais ou, até mesmo, de nossos avós, notamos que a sala de aula é muito parecida com as dos dias de hoje, em tempos tão tecnológicos. Isso te preocupa?

Sim, me preocupa, acho que temos de mudar esse modelo e passar de um modelo passivo de aprendizagem para uma metodologia ativa. A Sala de Aula Invertida é a forma mais fácil de fazer isso.

O Sr. traz hoje o conceito da Flipped Learning 3.0. Quais são as mudanças nessa nova versão?

Na versão 3.0, fatores como pesquisa, inovação em sala de aula e novas tecnologias estão mudando bastante o Flipped Learning. Estão o tornando melhor. Fazem com o que a Sala de Aula Invertidanão seja apenas mais uma estratégia de ensino, mas sim uma meta-estratégia que apoie todas as demais metodologias.

No Brasil, na maioria das vezes, nos deparamos com experiências de Flipped Learning em instituições privadas de ensino – e não nas públicas. Essa é uma tendência mundial?

A Sala de Aula Invertida funciona em todos os países ao redor do mundo, sejam em escolas mais ricas ou em mais pobres. Obviamente, o modelo exige mais criatividade e trabalho em escolas com mais dificuldades sociais, mas é possível. Não longe daqui, por exemplo, na Argentina, em Misiones, eles estão invertendo suas salas de aula, isso pode ser feito!

Experiência na Argentina

Presente no evento, o diretor executivo do Instituto Nacional de Educação Tecnológica do Governo da Argentina, Miguel Sedoff, confirmou a resposta de Bergmann sobre o sucesso da aplicação prática da Sala de Aula Invertida no país vizinho.

Na província de Misiones, do nordeste do país, a Plataforma Guacurarí começou em 2016 em um projeto-piloto com dez escolas. “Em 2017 já são 25; em 2018 esperamos implementar em 100 e em 2019, a previsão é de 400 escolas”, comenta Sedoff.

A plataforma começou sua aplicação apenas em escolas técnicas, mas a expectativa é que se expanda como proposta a todo o sistema público de educação na província.

Conceição Evaristo: “Não nasci rodeada de livros, mas de palavras, através da literatura oral”

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Foto: Gustavo Miranda

Foto: Gustavo Miranda

Um dos principais destaques da Flip, a escritora Conceição Evaristo conversou com o EL PAÍS

Publicado no El País

Conceição Evaristo é natural de Belo Horizonte e hoje vive no Rio de Janeiro. Estreou na literatura na década de 1990, é doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e militante ativa do movimento negro. Suas obras abordam questões como o racismo brasileiro e a condição de ser mulher e negra no país. Conceição tem diferentes obras publicadas e premiadas no exterior. Entre elas está o romance de 2003, Ponciá Vivêncio, um de seus livros mais famosos. Nesta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ela é uma das principais convidadas e falará em uma mesa neste domingo ao meio-dia.

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