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Caruaru forma primeira turma de professores indígenas de PE

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Curso de licenciatura intercultural foi criado em 2009 na UFPE.
‘Conseguimos algo que parecia impossível’, diz Lucinéa da Silva.

Pernambuco ganha a primeira turma de professores indígenas formados na universidade federal (Foto: Secretaria Estadual da Educação/Divulgação)

Pernambuco ganha a primeira turma de professores indígenas formados na universidade federal (Foto: Secretaria Estadual da Educação/Divulgação)

Cecília Morais, no G1

Lucinéa Santos da Silva, de 36 anos, é umas das alunas que compõem a primeira turma de professores exclusivamente indígenas formados na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Da aldeia Xucurú de Ororubá, de Pesqueira, no interior do estado, ela agora aguarda, com seus 151 colegas de curso, a formatura, marcada para setembro deste ano.

“A festa irá marcar uma etapa importante nas nossas vidas. É o momento em que percebemos que conseguimos algo que parecia impossível”, conta Lucinéa, que comemora também nesta sexta-feira (9) o Dia Internacional dos Povos Indígenas.

O curso de Licenciatura Intercultural no Centro Acadêmico do Agreste (CAA), em Caruaru, foi criado em 2009. Destinado à formação em nível superior de professores de escolas indígenas, foi implantado por meio de um projeto do Ministério da Educação (MEC) e envolve várias etnias do estado, como Atikum, Pankararu, Funil-ô, Kambiwá, Kapinawá, Truká, Xucuru e Pankará.

Com aulas presenciais na faculdade e nas aldeias, a graduação visa formar professores indígenas nas áreas de arte e linguagem, ciências da terra e natureza e ciências humanas. A ideia é que os professores passem agora a atuar nas próprias comunidades, trabalhando para fortalecer e preservar a identidade cultural dos povos.

Segundo Lucinéa, a experiência adquirida é importante na formação dos alunos da tribo. “Tudo o que foi aprendido será colocado em prática e irá melhorar o desempenho e auxiliar na aprendizagem dos índios”, afirma.

Lucinéa diz aguardar ansiosa pela formatura (Foto: Arquivo pessoal)

Lucinéa diz aguardar ansiosa pela formatura (Foto:
Arquivo pessoal)

De acordo com o diretor do Campus Caruaru da UFPE e um dos coordenadores do curso, Nélio Melo, a implantação da graduação teve alguns desafios. “O processo de inserção do curso na grade não foi fácil. A ideia nunca foi transformar a cultura indígena em uma cultura acadêmica e para isso foi necessário tratar de forma delicada o que ia ser ensinado para que não houvesse um conflito de realidades”, explica.

Também foi necessário selecionar professores envolvidos com a luta dos povos indígenas e que tivessem trabalhos específicos na área, diz. Para o cacique da aldeia, Marcos Xucuru, a entrada dos índios na universidade foi vista como um avanço na conquista dos direitos. “Com outros recursos talvez não consigamos chegar tão longe, mas a educação como ferramenta pode ser o caminho para a solução das demandas do povo. Além disso, queremos a ascensão educacional da nossa comunidade e a qualificação é fundamental”, afirma o líder indígena.

Choque cultural

Um outro desafio conquistado ao longo do curso foi a harmonia cultural entre os índios e os demais alunos da universidade. Segundo o diretor da universidade, no início houve alguns desentendimentos, que depois foram superados. “Os índios têm uma maneira própria de se portar. Quando aceitaram participar do curso deixaram claro a forma como agiriam. A ideia era que eles tivessem um contato com outra realidade mas sem abandonar as crenças e costumes. Para os outros alunos que nunca tinham convivido com isso o estranhamento era total”, detalha Nélio Melo.

De acordo com o professor indígena José Agnaldo Gomes Souza, de 44 anos, que participou do curso, a presença deles na faculdade chamava a atenção. “No começo foi estranho, houve discriminação, frases preconceituosas, mas depois a convivência foi ficando pacífica.”

A universidade já se organiza para abrir uma segunda turma, de acordo com Melo. “Acredito que a capacitação faz bem para todos. Há uma troca de cultura entre eles e isso é muito bom para distorcer a ideia de diferença racial apregoada há anos. Estava ciente de que precisava atender a uma demanda histórica. É direito do pobre, índio, negro ou qualquer pessoa fazer uma faculdade e sinto que com esse curso conseguimos abrir um mundo para os que foram eternamente excluídos”, afirma o diretor.

Índias professoras irão atuar nas comunidades (Foto: Secretaria Estadual da Educação/Divulgação)

Índias professoras irão atuar nas comunidades (Foto: Secretaria Estadual da Educação/Divulgação)

Um em cada cinco adolescentes pratica bullying no Brasil

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A prática, mais comum em grupo e entre meninos, tem como vítima 7,2% dos estudantes consultados em nova pesquisa do IBGE feita com alunos do 9º ano

Foto: Thinkstock

Foto: Thinkstock

Pollyane Lima e Silva, na Veja on-line

O bullying é um dos vilões da adolescência, que envolve quase 30% dos estudantes brasileiros – seja praticando ou sofrendo a violência caracterizada por agressões verbais ou físicas, intencionais, aplicadas repetidamente contra uma pessoa ou um grupo. Mas a grande maioria desse total, 20,8%, é formada por agressores. Ou seja, um em cada cinco jovens na faixa dos 13 aos 15 anos pratica bullying contra colegas no Brasil. O índice é destaque da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) 2012, divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram entrevistados 109.104 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), de um universo de 3.153.314, grupo no qual 86% dos integrantes estão na faixa etária citada.

Os outros 7,2% são vítimas desse tipo de abuso. “A grande diferença entre os dois índices reforça a ideia de que essa é uma prática comum em grupo, geralmente, contra uma pessoa”, explica Marco Antônio de Andreazzi, gerente de Estatísticas de Saúde do IBGE. O perfil dos agressores também aponta para uma predominância masculina: 26,1% dos meninos praticam bullying, em comparação com 16% das meninas. Também são eles os que mais sofrem a agressão (7,9%), em relação a elas (6,5%).

A Pesquisa de Comportamento de Saúde em Crianças em Idade Escolar (HBSC, na sigla em inglês), feita também em 2012 em 41 países da Europa e América do Norte, mostra que a prática se torna menos frequente à medida que as vítimas ficam mais velhas: 13% dos alunos de 11 anos diziam sofrer bullying na escola, número que caiu para 12% entre os de 13 anos e para 9% entre os de 15.

FONTE: IBGE

FONTE: IBGE

Uma das consequências comuns dessa violência é psicológica, e leva ao descontentamento da vítima quanto à própria imagem, por exemplo. “Tanto o déficit como, principalmente, o excesso de peso, podem gerar insatisfação e até mesmo distorções em relação à forma como o próprio corpo é percebido”, destaca o estudo do IBGE. Esse é um problema que atinge principalmente as meninas. Cerca de um terço delas (31,1%) dizia estar tentando emagrecer, mas uma proporção bem menor, de 19,1%, respondeu que se achava gorda ou muito gorda. Para acelerar esse processo, 6,4% revelaram ter chegado a induzir o próprio vômito ou tomar laxantes – prática característica de distúrbios alimentares, como a bulimia. Por outro lado, entre os meninos, a prioridade era ganhar peso para 19,6% dos entrevistados, e 8,4% deles admitiram ter recorrido a medicamentos sem orientação profissional com esse objetivo.

Saúde – Na verdade, tendo ou não crises com o próprio corpo, o que a maioria desses adolescentes precisa mudar são os hábitos alimentares. Entre os entrevistados, 41,3% contaram consumir guloseimas (doces, balas, chocolates, chicletes etc.) em cinco dias da semana ou mais. Em contrapartida, somente 30,2% afirmaram comer frutas com a mesma frequência. Já o refrigerante é presença constante na vida de 33,2% deles, e os biscoitos salgados e doces para 35,1% e 32,5%, respectivamente. Também foi questionada a oferta de alimentos nas cantinas das escolas, e constatou-se que os salgados de forno estavam disponíveis para 39,2% dos estudantes, enquanto as frutas eram acessíveis a apenas 10,8%.

Além disso, a atividade física ainda não é um hábito para a maioria dos adolescentes – mesmo que, nesse quesito, esteja incluída a aula de Educação Física obrigatória no currículo escolar. Para a pesquisa, o IBGE considerou até o percurso feito entre a casa e a escola, desde que a pé ou de bicicleta, somando no total 300 minutos por semana (cerca de 1 hora por dia, durante cinco dias). Mesmo assim, 69,9% foram considerados insuficientemente ativos ou inativos e só 30,1% foram classificados como ativos. Os meninos se movimentam quase duas vezes mais do que as meninas (39,1% ante 21,8%). Mas quando o assunto é TV, nenhum deles se salva. A PeNSE 2012 mostra que 78% deles assistem a duas horas ou mais de televisão por dia, hábito considerado extremamente sedentário. “É uma atividade muito passiva, e um estímulo ao consumo de alimentos não saudáveis”, enfatiza Andreazzi.

Violência – Os jovens entrevistados pelo IBGE também falaram sobre a violência em seu cotidiano. Cerca de 6,4% deles disseram ter se envolvido em brigas com armas de fogo nos 30 dias que antecederam a pesquisa, e 7,3% com a chamada arma branca (faca, por exemplo). Em ambos os casos, os meninos tiveram uma participação maior, 8,8% e 10,1% respectivamente, quase o dobro na comparação com elas. Os estudantes de escolas públicas também se envolvem mais em brigas do que os da rede privada: 6,7% ante 4,9%, no caso das armas de fogo. A violência, muitas vezes, começa em casa. Mais de 10% desses adolescentes disseram ter sido fisicamente agredidos por um adulto de sua família. Nesse caso, o ataque às meninas é mais comum (relatado por 11,5% delas) do que aos meninos (9,6%).

O instituto também abordou a violência no trânsito. O estudo lembra que acidentes dessa natureza “constituem uma das principais causas de morte e hospitalizações de adolescentes e jovens no Brasil”. Apesar de a legislação brasileira só permitir a condução de veículos por maiores de 18 anos – e devidamente habilitados –, 27,1% desses adolescentes com idades entre 13 e 15 anos afirmaram ter o costume de dirigir um carro. Cerca de 16% dos estudantes consultados disseram não ter o costume de usar cinto de segurança e 22,9% deles admitem ter sido transportados em um veículo dirigido por alguém que havia consumido bebida alcoólica. Itens de segurança também são dispensados no caso das motos: 19,3% declararam não usar capacete.

Professores de hoje são heróis, diz premiada autora infantojuvenil

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Eva Furnari fala sobre educação, tecnologia e comportamento do brasileiro

Publicado no Divirta-se

 (CFAG/Divulgação)

Eva Furnari não costuma conceder entrevistas. “Fico tão concentrada no trabalho”, justifica a autora e ilustradora de livros infantojuvenis publicados e premiados no Brasil e mundo afora – Itália, México, Equador, Guatemala, Bolívia. A italiana de 64 anos, que mora em São Paulo desde os 2, abriu exceção para o Pensar, na ocasião de relançamento de Anjinho, obra de 1998 premiada com o Jabuti de melhor ilustração. E falou, com o mesmo destemor com a qual escreve, sobre bullying, comportamento, novas tecnologias, educação, da falta dela. “A democracia não é um mar de rosas, requer negociação e os professores têm a missão difícil de lidar com as crianças livres demais, mimadas pelo capitalismo”, analisa. Eva assina o texto e as imagens de mais de 60 livros, alguns retirados por ela mesma do mercado. “Porque não estava satisfeita com eles. Tenho uns 60 e poucos livros, então, acontece”. No fim das contas, a escritora, que confessou não ler quando criança por ter hipermetropia, não resiste a uma boa história.

Alguns títulos infantojuvenis estão tão focados na moral da história que são chatos. Que qualidade é imprescindível em um livro para jovens e crianças?
Na literatura cabe de tudo, desde que seja benfeito. Os professores usam muito a literatura na escola e viramos (autor e professor) uma dupla, mas acho que alguns focam mais no valor ético e acabam fazendo um material que é mais racional. Mas, se a literatura infantil não tiver um aspecto emocional, a criança não se liga, não atinge. Sobre o que é imprescindível, acho que, em primeiro lugar, a qualidade do texto. Precisa ser escrito em linguagem adequada pois são leitores ainda em desenvolvimento, mas acho que uma boa história é uma história bem contada. Normalmente, o que interessa e envolve o adulto vai envolver e interessar à criança também.

Você se considera uma escritora realizada?
Realizada, com certeza. Tenho mais de 30 anos de carreira. E o carinho enorme que recebo de professores. Às vezes, não tenho tempo de atender as pessoas… Mas, por outro lado, me sinto começando junto com desafios novos. Não consigo repetir projetos. Quando me pedem “faz um livro parecido com aquele e tal”, não consigo. Se repetir, acho que fica vazio, irracional, a gente precisa criar com alma. Nesse sentido, cada livro é uma experiência nova.

Você tem uma relação com personagens que, nos padrões da sociedade, parecem perdedores. Felpo Filva; Mel, que sofre bullying em Nós; os personagens de Listas fabulosas. Todos eles, no entanto, são anti-heróis encantadores. Tem algo de autobiográfico nisso?
Acho que aconteceu com todo mundo. Todo mundo tem um desajuste. O ser humano quer ser reconhecido, protegido, olhado com consideração, amor. Uns são mais intensos, sofridos, outros mais leves, mas acho que hoje existe uma tentativa de maior cuidado com o outro. A competição é natural, a disputa por liderança está em cachorros, mas somos racionais e podemos tentar ver de um ponto de vista diferente. É natural uma criança querer ser mais do que outra e fazer isso diminuindo o outro, mas é dever do adulto oferecer outras alternativas, ver que o problema existe naquele que quer humilhar. Acho que essa consciência é do adulto.

Sua infância foi feliz?
Foi sim, muito feliz. Tinha todas aquelas mais brincadeiras

Que qualidades você admira nas crianças de agora? Quais não admira?
A criança é o resultado de como está sendo educada. Ela ocupa o espaço que o adulto deixar. Admiro o interesse delas por tudo, suas ideias, suas observações. Mas muitas vivem com a falta de respeito. E isso não admiro. Não respeitar professores, colegas, mais velhos. Não admiro criança folgada, mimada.

E o que você pensa da educação hoje?
Estamos em um momento de confusão, com novos padrões. A educação saiu de autoritária e centralizada, da época da ditadura militar, para, com a guerra, a emancipação da mulher, um modelo democrático. E em todas as instâncias: governo, família. A tentativa é conciliar a necessidade de ordem coletiva com liberdade pessoal. Na educação estamos em fase experimental sobre como equacionar este conflito. A democracia não é um mar de rosas, requer negociação e os professores têm a missão difícil de lidar com as crianças livres demais, mimadas pelo capitalismo. Hoje, o desafio maior é comportamental, de relacionamento, da figura de autoridade. Os professores são verdadeiros heróis e me alegro de fazer parte desse time que batalha. O governo parece ser do contra e, em vez de ajudar, atrapalha. Mas acho que estamos indo bem: existe uma democracia em construção.

(mais…)

Realidade incendiária envolve o Ciclo de Leituras Públicas da USP

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Encontros aproximam o público de peças do teatro ocidental com a mediação de profissionais da área artística

Publicado por Catraca Livre

As leituras acontecem na Sala Experimental Plínio Marcos, com capacidade de 50 lugares. (Reprodução)

As leituras acontecem na Sala Experimental Plínio Marcos, com capacidade de 50 lugares. (Reprodução)

O ato de ler e deixar que as palavras escritas percorram as veias passando pelo coração até à mente na forma de desenhos, cenários, rostos e sentimentos é um hábito que precisa ser mantido. Sua prática, fundamental para o desenvolvimento cultural do indivíduo, torna-se o pano de fundo do Ciclo de Leituras Públicas da USP, que já se encontra na 9ª edição.

Entre os meses de maio e junho, o Tusp (Teatro da USP) apresenta programação gratuita sempre às 15h das segundas-feiras, com mediação do agente cultural Otácilio Alacran. A seleção de textos se baseou na “realidade incendiária”, ou o momento crucial em que o personagem precisa tomar uma decisão e, consequentemente, definir o rumo da história. Tal necessidade surge justamente da repressão de ideias ou ideais e acende uma “fagulha” capaz de incinerar a atual condição daquela figura representada.

As peças compuseram o importante cenário do teatro ocidental e as leituras permitem que os participantes entendam o processo de construção das histórias, assim como estilo de cada dramaturgo. Confira a programação completa:

Maio

6/5 O Interrogatório – de Peter Weiss (1965)
13/5 Agreste – de Newton Moreno (2004)
20/5 Biedermann e os Incendiários – de Max Frisch (1958)
27/5 O Balcão – de Jean Genet (1956)

Junho

03/6 Jogos na Hora da Sesta – de Roma Mahieu (1976)
10/6 Novas Diretrizes em Tempos de Paz – de Bosco Brasil (2001)
17/6 A Morte de Danton – de Georg Büchner (1835)

Cidade mineira terá réplica de teatro de Shakespeare em 2016

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Em 2016, festivais mundo afora lembrarão os 400 anos da morte de William Shakespeare. No Brasil, a celebração promete ser bem ambiciosa, com a inauguração da primeira réplica oficial fora da Inglaterra do famoso teatro Shakespeare Globe de Londres.

A réplica do Shakespeare Globe mineira terá 1,5 mil lugares e será inaugurada em 2016 (Divulgação)

A réplica do Shakespeare Globe mineira terá 1,5 mil lugares e será inaugurada em 2016 (Divulgação)

Mariana Della Barba, na BBC Brasil

O teatro será construído na cidade mineira de Rio Acima, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, e custará R$ 43 milhões.

Fora a construção do teatro em si, com sua característica forma circular e 1,5 mil lugares, o projeto envolve ainda a criação de uma escola de dramaturgia, festivais teatrais itinerantes, uma filial no Rio e ações de intercâmbio entre o Globe brasileiro e o original, além de outras iniciativas.

E a maioria delas saiu da mente do ator e produtor Mauro Maya, um ex-torneiro mecânico que há 15 anos, quando era funcionário da Vale, se “viciou” em Shakespeare, como ele mesmo diz.

“Foram quatro anos de negociação com o pessoal do Shakespeare Globe. Eu cheguei lá com meu inglês totalmente vira-lata”, conta Maya à BBC Brasil. “Mas fui mostrando que o Brasil não era só samba e futebol. Fui mostrando minha paixão por Shakespeare e, assim, fui ganhando os caras.”

Ele conta que resolveu dar vazão ao seu sonho “maluco” de criar uma plataforma shakespeariana no Brasil quando conseguiu convencer a Vale a ceder para esse fim um terreno de 20 mil metros quadrados que estava abandonado. Outros patrocínios de peso estão sendo negociados.

Maya (esq.) se reuniu no Globe com Peter McCurdy, responsável pela marcenaria artesanal do teatro londrino

Maya (esq.) se reuniu no Globe com Peter McCurdy, responsável pela marcenaria artesanal do teatro londrino

Sotaque brasileiro

Segundo Maya, o projeto também pretende ir além do dramaturgo inglês, ao debater e encenar autores nacionais, como Guimarães Rosa, Machado de Assis e Ariano Suassuna. Ainda seguindo essa ideia de intercâmbio, grupos daqui também vão interpretar Shakespeare no exterior.

Outra característica “brasileira” do complexo em Rio Acima se dá na construção do Globe brasileiro. “Como é uma réplica, é claro que o projeto da obra e a atmosfera da Inglaterra serão mantidos, mas o teatro vai ganhar roupagem e cores brasileiras”, conta o ator.

A fachada típica do teatro em Londres (leia o quadro), com seu telhado de palha e muita madeira, será idêntica, assim como o anfiteatro principal, aberto e circular. No entanto, no teatro de Rio Acima, ganhará destaque a técnica de pau a pique, bastante comum no Brasil. Também serão usados elementos barrocos relacionados à cultura brasileira e, especialmente, à mineira.

O Shakespeare Globe inglês confirmou à BBC Brasil que o mesmo escritório de arquitetura responsável pelo teatro em Londres está envolvido no projeto mineiro, dando diretrizes e acompanhando a construção. O engenheiro Peter McCurdy, cuja empresa pesquisou e recriou o lado artesanal da construção britânica, também está trabalhando com Maya no projeto.

‘Filiais’

Além de eventos na sede em Rio Acima, o Globe Theatre brasileiro também terá outros fora do local.
A região de Belo Horizonte receberá, a partir do mês que vem, um festival de teatro e projetos culturais, que vai passar por 25 cidades, como Ouro Preto, Mariana, Itabira, Tiradentes, Congonhas e a própria Rio Acima. A iniciativa recebeu R$ 3 milhões em patrocínio da Petrobras, que serão investidos neste ano na tentativa de fomentar o interesse pelas artes cênicas na região.

Já no Rio de Janeiro, o Globe brasileiro vai ter uma espécie de filial em um prédio doado pelo poder público na zona portuária, área da cidade que vem passando por um intenso projeto de remodelação.
Mas a empolgação de Maya com o projeto o fez ir além das capitais nacionais para buscar mais parceiros. Em Nova York, ele pediu a colaboração do James Shapiro, professor da Universidade de Columbia especialista em Shakespeare e autor de vários livros sobre o dramaturgo.

Shapiro aceitou participar fazendo parte do conselho que vai gerir o teatro em Rio Acima. O projeto terá outros colaboradores de peso no cenário brasileiro, como Barbara Heliodora, uma das críticas de teatro mais renomadas do Brasil e especialista em Shakespeare, e o diretor teatral Gabriel Vilella, cujo espetáculo Romeu e Julieta foi apresentado em português no Globe Theatre londrino. Ambos serão coordenadores de núcleos temáticos de arte e educação ligados ao Globe brasileiro.

Para a grande inauguração, em 2016, Maya sonha com um festival completo, com 37 peças. “Nesse dia, vou me despedir do meu lado produtor e empreendedor. E vou voltar a atuar”, conta. “Aos 43 anos, eu vou ser Hamlet.”

Os teatros de Shakespeare

O primeiro teatro criado pela companhia de Shakespeare foi o Globe Theatre, construído em 1599 no sudeste de Londres. Mas em 1613 um incêndio destruiu totalmente a construção, cuja cobertura de palha ajudou a propagar o fogo rapidamente.
Um segundo Globe, no entanto, foi erguido no ano seguinte, exatamente no mesmo local – e funcionou durante 28 anos. Em 1642, ele foi fechado e destruído durante a Revolução Puritana, assim como os outros teatros da capital britânica.
Em 1997, o famoso teatro foi reconstruído às margens do Rio Tâmisa, a 230 metros de seu local original. Batizado de Shakespeare Globe, ele foi inaugurado com uma produção de Henrique 5º. É uma réplica desse teatro que será construída no interior mineiro.

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