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Mais de 4,7 mil professores sofreram atentados à vida dentro das escolas

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 Tânia Rêgo / Agência Brasil Escola Mendes de Moraes, na Ilha do Governador (RJ)

Tânia Rêgo / Agência Brasil
Escola Mendes de Moraes, na Ilha do Governador (RJ)

 

Mais de 2,3 mil professores afirmaram que estudantes frequentaram as aulas com armas de fogo, segundo questionário da Prova Brasil de 2015.

Mariana Tokarnia, no Huffpost Brasil

Mais de 22,6 mil professores foram ameaçados por estudantes e mais de 4,7 mil sofreram atentados à vida nas escolas em que lecionam. Os dados são do questionário da Prova Brasil 2015, aplicado a diretores, alunos e professores 5º e do 9º ano do ensino fundamental de todo o país.

As informações foram organizadas e divulgados nesta segunda-feira (20) na plataforma QEdu www.qedu.org.br

As respostas aos questionários mostram que há um cenário de violência nas escolas. As agressões não ocorrem apenas com professores e funcionários, mas também entre estudantes.

A maioria dos professores (71%), o que equivale a 183,9 mil, disse ter ocorrido agressão física ou verbal de alunos a outros estudantes da escola.

Mais de 2,3 mil professores afirmaram que estudantes frequentaram as aulas com armas de fogo e mais de 12 mil disseram que havia alunos com armas brancas, como facas e canivetes.

Muitas vezes, havia nas aulas estudantes que tinham bebido, segundo 13 mil professores, ou usado drogas, de acordo com 29,7 mil.

Segundo o pesquisador da Fundação Lemann, Ernesto Faria, muitos desses conflitos vêm de fora da escola.

Ao todo, 262,4 mil professores responderam aos questionários.

Embora, percentualmente, os índices de violência não sejam tão altos, quando olhados em números, segundo o pesquisador, são preocupantes. “Temos que olhar o quanto o ambiente escolar é agradável, a relação de professores e alunos. Temos que pensar em gestão em sala de aula, disciplina, o trabalho com habilidades socioemocionais”, diz.

Organização deu certo

A Escola Municipal Armando Ziller fica na periferia de Belo Horizonte, numa região com alto índice de violência. O estabelecimento, no entanto, é conhecido na vizinhança por exigir o rígido cumprimento de horários e por não liberar os alunos por falta de professores.

Foi uma das escolas destacadas pela pesquisa Excelência com Equidade, que identificou escolas públicas que atendem a alunos de baixa renda familiar e que conseguem alcançar bons índices educacionais.

Excelência com equidade

“A escola é muito tranqüila, considerando a localização, a situação local é de conflitos no entorno entre gangues rivais. A comunidade tem essa escola como referência. Por maiores que sejam os problemas, aqui dentro parece outra realidade”, diz o diretor Hamilton Gomes Pereira.

Segundo ele, quando é identificada uma situação de violência, os responsáveis pelos estudantes são imediatamente convocados.

Eles não são chamados apenas em situações críticas. A escola busca envolvê-los, ainda que com dificuldade, no aprendizado dos estudantes. Logo no início do ano, os professores se apresentam e mostram o planejamento de cada uma das disciplinas.

Ao longo do ano letivo, os estudantes avaliam a escola e o ensino e fazem uma autoavaliação. Isso é apresentado aos responsáveis, que também podem contribuir.

Os professores também anotam o que ocorre em sala de aula e repassam as informações. Eles também são informados se alunos faltam às aulas.

Outra estratégia adotada envolve a organização e a limpeza do espaço. “O aspecto físico da escola conta muito. Uma escola suja, pichada, contribui para a indisciplina. Os estudantes sabem que, quando eles sentam em uma carteira, ela é de responsabilidade deles. Se há alguma pichação ou algo anormal, o estudante específico é procurado. Quando não conseguimos identificar a autoria, tiramos foto, mas rapidamente fazemos a limpeza”.

Os alunos também não ficam sem aula. Caso haja faltas, rapidamente há uma substituição, algumas vezes até mesmo pela direção.

Briga, tiros e medo: 50% dos brasileiros dizem estudar em áreas violentas

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Grades na Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de SP

Grades na Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de SP

 

Marcelle Souza, Franco Adailton e Ronald Lincoln Jr, no UOL

Após uma semana do início das aulas, o vigilante desempregado Sérgio Rodrigues do Nascimento, 43, já havia pedido a mudança do filho de 10 anos da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de São Paulo, para outra unidade. “No terceiro dia, dois alunos foram expulsos da sala, já vi um monte de gente pulando o muro da escola, e ontem meu filho disse que levou um chute de outro garoto na hora do intervalo”, conta o pai.

“A gente fica de coração partido de deixá-lo aqui”, afirma Nascimento, que nos últimos dias percorreu outras escolas da região em busca de vagas em turmas de sextos anos do ensino fundamental. “Não quero que meu filho vire bandido.”

Na mesma região, outro pai tentava tirar o filho da Escola Estadual João Ernesto Faggin pelo mesmo motivo. “Eu estudei aqui quando tinha 10 anos e a escola já não era boa. Hoje tenho 41 anos e nenhum dos meus colegas de classe estão vivos”, afirma o morador do bairro, que preferiu não dar o nome porque tem medo de represálias dos traficantes da região.

O vigilante Sérgio Rodrigues do Nascimento e seu filho diante da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, em SP: "Não quero que meu filho vire bandido", diz

O vigilante Sérgio Rodrigues do Nascimento e seu filho diante da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, em SP: “Não quero que meu filho vire bandido”, diz

 

Seu filho de 12 anos já havia faltado aos três primeiros dias de aula, porque o pai se recusou a aceitar a matrícula na Ernesto Faggin. “Parece que até a direção tem medo. Cheguei para pedir a transferência e a sala está cheia de grades”, diz.

A sensação de insegurança não é exclusiva dos pais desses alunos nem da capital paulista. Os dados da Pense (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) compilados e publicados no 10º Anuário de Segurança Pública, de novembro de 2016, mostram que 50,8% dos alunos do nono ano do ensino fundamental estão em escolas localizadas em áreas de risco de violência. A pesquisa, realizada por amostragem, levou em consideração 2.630.835 entrevistas com estudantes de todo o país matriculados no nono ano do ensino fundamental das redes pública e privada.

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Traficantes rondam as escolas

Nos dois colégios citados, por exemplo, a reportagem presenciou adolescentes usando drogas, traficantes rondando as escolas e pinos de cocaína espalhados pelo chão a poucos metros da entrada das unidades de ensino. Sem sucesso, a funcionária de uma delas tentou barrar a entrada de jovens que não estavam matriculados no colégio. Havia também lixo e entulho nas calçadas.

“Dividimos o crime escolar em três tipos: o que está previsto no Código Penal, pode ferir e matar –esse é muito complicado de combater e não está em todas as escolas. Há também a microviolência, que é a violência do cotidiano e está nas relações sociais dentro da escola. O terceiro é a violência simbólica, quando você faz mal e o outro não consegue responder, como a homofobia. Essa é uma violência quase transparente”, diz Miriam Abramovay, da Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), que pesquisa o tema há mais de 15 anos.

No ano passado, o técnico em enfermagem Leonardo Vieira dos Santos, 31, atendeu a uma ligação desagradável da escola em que os filhos de 15 e 11 anos estudavam na zona sul de São Paulo. “Eles disseram que tinha acontecido uma briga. Cheguei à escola e meu filho mais novo tinha sido agredido por um colega. Não foi briga.”

O técnico em enfermagem registrou um boletim de ocorrência e, em seguida, procurou a diretoria regional de ensino para transferi-lo para outra unidade. “A gente se sente muito mal, não quer que isso aconteça com um filho”, diz.

“O que mais me dá medo são assaltos nos pontos de ônibus”

Mães acompanham os filhos na saída da escola com medo da violência em Salvador

Mães acompanham os filhos na saída da escola com medo da violência em Salvador

Na Bahia, os dados da pesquisa mostram que 47,6% estudantes do ensino fundamental consideram violenta a área onde está situada a escola. Na rede privada, o percentual é de 52,7%, enquanto na educação pública a avaliação é de 46,8%.

Luana Carvalho, 11, mora no bairro São Rafael, em Salvador, uma localidade com as mesmas características da região onde estuda, o Cabula: perfil de classe média, com boa infraestrutura, comércio pujante e próximo de comunidades pobres.

Responsável pela menina, Andréa não tem tempo de levá-la para a aula, mas não arrisca deixar Luana ir de ônibus por medo de assaltos. Apesar de a escola manter um considerável nível de segurança (câmeras, porteiros, grades), a mãe considera que o Cabula é uma área violenta.

“É um bairro muito visado, porque concentra em um pequeno raio escolas particulares, universidade, supermercados, bancos”, descreve. “O que mais me dá medo são assaltos nos pontos de ônibus. Por isso contratei transporte escolar, para protegê-la desse tipo de violência”, acrescenta.

A contadora lembra que, há cerca de dois anos, foi buscar a filha na escola, mas encontrou a instituição fechada devido a um tiroteio. O motivo foi uma tentativa de assalto a um carro-forte que abastecia os terminais de um supermercado na avenida Silveira Martins, a poucos metros da escola.

“A violência é um reflexo da sociedade em todo o país. Se o bairro o onde a escola está inserida é violento, a instituição fica exposta, vulnerável, quer seja privada ou pública”, diz Rui Oliveira, coordenador do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia. “A escola não é uma ilha, pois está propensa a diversas influências externas, fatores estruturais da sociedade, tais como desigualdade social, desemprego, tráfico de drogas e ausência de políticas públicas para combater essas questões.”

“Criança é muito vulnerável”

Diretor do soteropolitano Colégio São Lázaro, o professor Antônio Luiz afirma que não é permitido aos alunos sair da escola no horário do intervalo, nem mesmo os estudantes secundaristas. A exceção, frisa o docente, ocorre somente nos dias de aula integral, com autorização das famílias, no horário do almoço.

“Nossa preocupação não é só em relação à violência externa que possa ocorrer, mas também quanto à influência das drogas”, diz o professor. “Além disso, orientamos aos alunos evitar sair com objetos chamativos na rua, usar tênis mais simples e sair em grupos no final da tarde.”

A 500 metros do São Lázaro está o Colégio Municipal da Engomadeira, que leva o mesmo nome do bairro popular onde os ônibus voltaram a circular somente depois de dois dias por conta da morte de dois homens em confronto com a PM, no último dia 4.

Leandro Vieira dos Santos pediu transferência para seus filhos após um dele ser agredido dentro de uma escola estadual

Leandro Vieira dos Santos pediu transferência para seus filhos após um dele ser agredido dentro de uma escola estadual

 

Segundo comunicado da PM, os policiais foram atender a um chamado de troca de tiros entre traficantes –versão contestada pela comunidade, que sustenta que os mortos eram moradores. Na ocasião, uma criança de sete anos acabou baleada; não se sabe a autoria do disparo.

A Engomadeira carrega o estigma de abrigar um dos mais fortes pontos de tráfico de drogas da capital baiana: a Lajinha. Por receio de represálias –cinco ônibus já foram queimados na Grande Salvador neste ano–, o Sindicato dos Rodoviários decidiu suspender a circulação no bairro.

Alana Conceição, 9, chega para a aula às 7h30, sai às 11h30, mas sempre acompanhada da mãe, a auxiliar de desenvolvimento infantil Adriana Conceição, 38, que não deixa a menina ir sozinha para a escola, localizada a cerca de 400 metros de casa.

“Hoje em dia, não dá para vacilar. Por segurança, eu mesma trago e venho buscar depois da aula”, conta a mãe, que prefere não comentar episódios de violência no bairro. “Criança é muito vulnerável. Diante do perigo, em vez de se proteger, vai olhar o que é.”

Em todo o país, 34,5% dos alunos do nono ano de escolas privadas afirmaram que estudam em escolas localizadas em bairros violentos. Entre os matriculados em unidades da rede pública, esse número era de 53,5%.

Apesar de a violência fazer parte da rotina de escolas públicas e privadas, Abramovay diz que os desafios vividos por cada uma são muito diferentes. “De modo geral, não podemos comparar as duas. A escola particular tem muito mais condições do que a escola pública. A violência tem uma parte que acontece nas relações sociais, mas está também na estrutura, quando a escola não tem ventilador, não tem merenda, não tem internet, não tem computador. Isso não quer dizer que não tenha violência na particular, mas ela é muito diferente”, diz a pesquisadora.

Tiroteios são frequentes no Alemão

Alunos na saída da Escola Municipal Walt Disney, que fica na entrada do Morro da Baiana, pertencente ao Complexo do Alemão, no Rio

Alunos na saída da Escola Municipal Walt Disney, que fica na entrada do Morro da Baiana, pertencente ao Complexo do Alemão, no Rio

 

Estudantes moradores do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, frequentemente ficam impedidos de ir à escola em razão da violência na região em que vivem. No dia 2 de fevereiro, início do ano letivo, após um longo confronto entre policiais e traficantes da região, cerca de 3.000 crianças ficaram sem aula, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação.

Embora conte com UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) desde 2012, o Complexo do Alemão ainda convive com o tráfico de drogas. No dia 7, a reportagem do UOL visitou as escolas municipais Walt Disney e Padre Manoel da Nóbrega, ambas de ensino fundamental, localizadas em um dos acessos do Morro da Baiana, que faz parte do Complexo do Alemão.

Enquanto alguns pais de alunos eram entrevistados, outros que acabavam de chegar da comunidade para buscar os filhos alertavam que, naquele momento, ocorria um tiroteio e que era necessário tomar cuidado no caminho de volta para casa.

“Agora com a UPP, a polícia está sempre lá em cima [no morro] e tem acontecido mais tiroteios. E acontecem bem na hora em que as crianças estão saindo ou chegando no colégio”, conta o auxiliar de laboratório Flaviano Silva, 32, que buscava o filho de sete anos. Segundo ele, é comum o filho não ir à escola em razão de tiroteios.
8,6% abandonam a escola por medo

A menina Ana Clara, 5, teve problemas em seu primeiro dia em uma escola. Ela foi um dos 3.000 alunos que ficaram sem aula no dia 2 de fevereiro, por causa da troca de tiros. Sua mãe, a dona de casa Jéssica da Silva, 20, relata que o marido teve de voltar correndo com a menina para casa após os confrontos. “É uma situação muito chata, eu fico com muito medo.”

Os dados da Pense mostram que as consequências da violência vão bem além das agressões físicas, percebidos imediatamente. Segundo a pesquisa, 14,8% dos estudantes do nono ano entrevistados haviam faltado aula no último mês por conta do medo. Outros 8,6% tinham abandonado a escola pelo mesmo motivo. “A violência mina a vida das pessoas, aparta, prejudica a qualidade do ensino”, diz Abramovay.

Além de pais e alunos, o clima de violência também costuma afetar o rendimento de professores das escolas situadas em áreas violentas. “Essa sensação de medo é sempre constante. Já vi professor que teve o carro queimado, invasão de escola, briga de gangues, aulas suspensas, estudante que entrava armado na sala porque estava ameaçado de morte”, diz um professor de história que leciona na rede estadual em Diadema (SP) e não quis se identificar.

“Uma vez, em uma nova escola, o porteiro veio me explicar por que o muro tinha várias perfurações de bala”, diz o mesmo professor. Ele afirma que nunca pensou em deixar a sala de aula, mesmo após 20 anos de profissão. “A minha opção por aula na rede pública é ideológica e de vida. O meu papel é de alguém que pode mudar a vida de alguém e, se, por um lado, tem toda essa pressão, por outro, é muito gratificante quando alguém conta que foi aprovado no vestibular.”

O que dizem os órgão públicos

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar de São Paulo não comentou sobre os problemas encontrados no entorno das escolas estaduais na zona sul de São Paulo.

A Secretaria da Educação de São Paulo entende que o enfrentamento à violência deve ocorrer em diversas frentes, que englobam também comunidade escolar, famílias e a polícia.

“A pasta desenvolve diversas ações pedagógicas, que são praticadas inclusive nas escolas mencionadas pela reportagem, como projetos interdisciplinares desenvolvidos pelas equipes gestoras relativos a temas como uso de drogas, violência e bullying; o Programa Escola da Família, que oferece atividades de lazer e cultura aos finais de semana, aproximando as famílias para que atuem em parceria com as instituições; além de trabalhos que incentivem a cultura de paz e o protagonismo juvenil”, informou a secretaria. Polícia, ronda escolar, Conselho Tutelar e Ministério Público também atuam em conjunto com o órgão.

No Rio, a assessoria das UPPs confirmou ao UOL, por meio de nota, que houve tiroteio no Complexo do Alemão no dia em que foi realizada a reportagem. Segundo o comunicado, policiais que faziam patrulhamento na região foram recebidos a tiros por traficantes. Mas não houve registro de feridos ou mortos.

A reportagem questionou a Coordenadoria das UPPs (CPP), órgão vinculado à Polícia Militar, sobre as ações policiais realizadas nos horários de entrada ou saída de crianças das escolas. Em nota, assessoria de imprensa disse que as “operações são realizadas com base nas informações do Setor de Inteligência”.

A Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Lazer do Rio afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que é responsável apenas por questões de ensino e que “os diretores de cada escola têm a atribuição de avaliar e decidir se há necessidade de suspensão do funcionamento dos colégios diante de situações de violência, como confrontos entre bandidos e policiais, sempre visando à segurança dos alunos”.

“A gente avalia que os dados do Anuário podem estar associados à violência urbana como um todo, como consequência da desigualdade social”, diz o subsecretário de Educação do Estado da Bahia, Nildon Pitombo. “Além disso, temos as ações institucionais com a Ronda Escolar e parcerias com universidades, por meio de grupos de pesquisa sobre sociedade, combate à violência e uso de drogas.”

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia informou que vai avaliar os dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança e estudar as informações contidas no documento.

De antemão, diz a nota, a SSP reforça que considera a educação uma das principais formas de prevenção à violência e que já tem ações voltadas para a proteção dos estudantes baianos, como a Ronda Escolar, unidade da Polícia Militar que trabalha a conscientização dos jovens.

Procurada, a Polícia Militar (PM) informou que, por meio da Ronda Escolar, atua com o objetivo de intensificar o policiamento no entorno dos estabelecimentos de ensino públicos e privados. A PM acrescenta que desenvolve ações integradas (palestras, visitas, apresentação de peças teatrais), “para que a comunidade escolar tenha um ambiente propício para o desempenho de suas atividades”.

Turquia retira teoria da evolução do currículo escolar

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Ativistas acusam o governo de do presidente Recep Tayyip Erdoğan de crescente ‘islamização’ - Kayhan Ozer / AP

Ativistas acusam o governo de do presidente Recep Tayyip Erdoğan de crescente ‘islamização’ – Kayhan Ozer / AP

 

ONGs e cientistas pedem apoio para reverter alteração no currículo

Publicado em O Globo

ANCARA — Em mais um sinal de que o governo do presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, está se aproximando do islamismo, o Ministério da Educação daquele país decidiu retirar a teoria da evolução do currículo escolar. A proposta foi apresentada em meados de janeiro, e deve ser implementada no início do próximo ano letivo, em setembro, mas ainda pode ser alterada. O currículo final será apresentado no próximo dia 20.

Em artigo publicado na última edição da revista “Nature”, Cagatay Tavsanoglu, presidente da Sociedade Turca de Ecologia e Biologia Evolucionária, escreveu artigo denunciando a alteração e pedindo à comunidade científica internacional apoio para o retorno da disciplina ao currículo das escolas turcas. De acordo com a proposta do ministério, o módulo “O início da vida e evolução” que era apresentado no ensino secundário, será totalmente retirado.

“A estratégia proclamada da Turquia de alcançar excelência nas ciências biológicas e médicas deve ser apoiada por um forte programa educacional em biologia evolucionária”, escreveu Tavsanoglu. “O entendimento da teoria evolucionária é crucial para resolver desafios contemporâneos, como a perda da biodiversidade. Princípios evolucionários abasteceram avanços em muitos campos, incluindo agricultura, medicina, farmácia e nanotecnologia”.

De acordo com o jornal local “Hurriyet”, a proposta curricular foi apresentada pelo Ministério da Educação no dia 13 de janeiro, e aberta para consulta pública até a sexta-feira passada. Ao todo, foram recebidas 184.042 sugestões, a maioria pedindo o retorno da teoria da evolução para os estudantes secundaristas e a reintrodução de classes sobre Mustafa Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna e secular, que aparentemente o governo de Erdogan pretende apagar da História.

‘ARCAICA E REFUTADA’

Mesmo com as sugestões, é provável que a teoria de Charles Darwin fique fora das escolas turcas. O Ministério da Educação tem até o dia 20 para apresentar a versão final do currículo. Após a apresentação do rascunho, o vice-primeiro-ministro, Numan Kurtulmuş, foi à imprensa para defender as alterações.

— Cientificamente, a teoria de evolução já é arcaica e refutada. Não existe uma regra dizendo que essa teoria deve ser ensinada — disse Kurtulmuş, à CNN no dia 29 de janeiro. — A opinião de que aqueles que acreditam e sabem sobre a teoria da evolução são pessoas modernas e progressitas, enquanto aqueles que se opõem são reacionários, é na verdade uma opinião ultrapassada. A teoria da evolução é uma das opiniões discutidas na história antiga, então eu não considero discussões sobre ela corretas.

Em comunicado, a ONG Impact-se, que monitora e analiza a educação de acordo com padrões internacionais derivados das resoluções da Unesco, classifica as mudanças como ”retrógradas”.

“As mundaças reportadas no currículo turco representam um aumento da islamização”, disse a ONG.

Símbolo de combate ao racismo, escola quer levar nome de escritora favelada

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Reinaldo Canato/UOL

Reinaldo Canato/UOL

 

“Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnancia. Percebo seus olhares de odio porque êles não quer a favela aqui. Que a favela deturpou o bairro. Que tem nojo da pobrêza. Esquecem êles que na morte todos ficam pobres.”

Publicado no UOL

Mantidas em sua grafia original, exatamente como foram publicadas em 1960, estas linhas foram redigidas por uma das mais importantes escritoras brasileiras do século passado, Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

No livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, ela narra, a partir de sua própria experiência de vida, as agruras de uma comunidade miserável às margens do rio Tietê. O bairro ao qual se refere no trecho é o Canindé, na região central de São Paulo, onde ficava o barraco de madeira que dividia com os filhos. Quase 60 anos depois, a vizinhança já não lança olhares de ódio para a favela, demolida às pressas após a enorme repercussão da obra. Agora, ao contrário, a área prepara-se para, enfim, homenagear a sua ilustre ex-moradora.

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de 'Quarto de Despejo' - Acervo UH/Folhapress

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de ‘Quarto de Despejo’ – Acervo UH/Folhapress

 

O nome de Carolina batizará a EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Infante Dom Henrique, próxima de onde a autora viveu. A alteração, decidida num referendo entre alunos, professores, funcionários e pais de estudantes, traz também a carga simbólica de resgatar a memória de uma mulher negra migrante num colégio público frequentado por muitos estrangeiros –em especial, bolivianos e angolanos.

Reinaldo Canato/UOL

Reinaldo Canato/UOL

 

Escola tem mural com discussões sobre o racismo

A novidade se insere num quadro de atividades promovidas pelos gestores da escola para combater práticas racistas e xenofóbicas entre os alunos. O diretor da unidade, Cláudio Marques da Silva Neto, conta que, quando assumiu o cargo, em 2011, eram frequentes as ofensas dessa natureza, e as crianças bolivianas chegavam ao ponto de andar separadas das demais, para evitar assédios.

Desde então, com projetos voltados à valorização da diversidade cultural, étnica e racial, a situação melhorou substancialmente. Recentemente, a Unesco, braço da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, convidou a unidade para integrar o seu programa mundial de escolas associadas.

“Foi a partir da discussão do tema das identidades que se pensou em levar essa questão às últimas consequências, inclusive com o nome da escola, já que, para nós e para os pais, como expresso na votação, o nome Infante Dom Henrique [nobre português do século 15] não diz muito sobre nós”, explica Silva.

Entre fevereiro e novembro, diversas reuniões foram realizadas e a comunidade escolar pôde indicar nomes para a substituição. As sugestões foram, além de Carolina Maria de Jesus, o escritor Ariano Suassuna, a pintora mexicana Frida Kahlo e a escritora Patrícia Galvão. Com 432 eleitores contabilizados, uma votação final resultou na escolha de Carolina, preferida por 42% dos votantes.

Inaugurada em 1960, a escola tem cerca de 530 alunos — cerca de um quinto é de estrangeiros. O processo agora resultará num projeto de lei que será encaminhado por um vereador na Câmara Municipal, onde deve ser aprovado, para depois seguir para a sanção do prefeito.

Não é a primeira vez que uma escola pública paulistana decide trocar de nome para enfatizar sua luta por uma sociedade mais igualitária. Em junho passado, a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Guia Lopes, no Limão, na zona norte, conseguiu modificar sua denominação para homenagear o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), expoente da luta contra o apartheid que vigorou em seu país até a década de 1990. Há alguns anos, os muros e portões da unidade, que desenvolve trabalhos para estimular a diversidade, foram pichados com inscrições racistas.
Voz para a comunidade

 

Reinaldo Canato/UOL

Cláudio Marques da Silva Neto, diretor da escola municipal – Reinaldo Canato/UOL

 

 

A vida e a obra da homenageada Carolina Maria de Jesus entrarão no dia a dia dos estudantes, pais e professores. “Assim que o projeto de lei for votado na Câmara de Vereadores, nós faremos a reinauguração da escola com uma mesa de debate que possivelmente contará com a filha da escritora [Vera Eunice, que também é professora pública]”, afirma Silva, acrescentando que os livros de Carolina farão parte do currículo da unidade em 2017.

Para Cesar Luís Sampaio, professor de informática educativa da escola, a troca reforçará os laços de identidade entre estudantes, funcionários e vizinhança. “Simbolicamente vai dar um novo impulso às discussões raciais e sociais em nossa escola. É dar protagonismo para nossa gente, nossa comunidade, nossa realidade social. É dar luz para a população que sempre foi ofuscada. É dar voz àqueles que nunca tiveram oportunidade de falar. Desejamos o empoderamento popular.”

Pai de um aluno do 9º ano, o administrador de empresas Sidnei Palmieri, 48, fez questão de matricular seu filho no colégio, apesar de a família morar longe dali, no bairro de Lauzane Paulista, na zona norte. “Resolvi colocá-lo nessa escola devido à qualidade de ensino, ao respeito e principalmente às oportunidades oferecidas.”

Antes dos debates sobre a alteração de nome, ele ainda não havia tido contato com a trajetória de Carolina. “Soube que sua obra é reconhecida em muitos países, mas que, infelizmente, é muito pouco aqui no Brasil.”

Nascida em Sacramento, no interior de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus desembarcou na Estação da Luz, em São Paulo, em 1937. Mãe solteira, trabalhou como catadora de papéis para sustentar os três filhos, até ser alçada à fama repentina, com a publicação de seu primeiro livro, a partir dos muitos escritos que produzia cotidianamente.

Suas obras, que incluem “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome”, “Provérbios” e o póstumo “Diário de Bitita”, foram traduzidos para muitos idiomas, entre os quais o inglês, o espanhol e o francês. Nos Estados Unidos, seus livros são constantemente reeditados e estudados.

O nome de Carolina já é utilizado por uma EMEI na Vila Dalva, na zona oeste. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, não haverá conflito quando a EMEF Infante Dom Henrique ganhar a sua nova denominação, pois as unidades oferecem etapas de ensino diferentes.

O mito da boa escola pública no passado

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Antônio Gois, em O Globo

No ano passado, recebi de um leitor um convite para que conhecesse estudos de seu avô, Mario Augusto Teixeira de Freitas (1890-1956), sobre números da educação brasileira nas décadas de 30 e 40. Teixeira de Freitas foi uma das figuras mais importantes na criação do IBGE, mas eu desconhecia seus trabalhos na área de educação. Não deveria, pois seu esforço em organizar na época estatísticas educacionais do país e, a partir delas, pensar em soluções para a melhoria da qualidade do ensino público já era reconhecido por educadores do calibre de Fernando de Azevedo, Anisio Teixeira e Lourenço Filho.

A leitura dos livros de Teixeira de Freitas mostra que ele já identificava problemas que ainda hoje limitam nosso avanço na educação. E serve também para derrubar alguns mitos. Um deles é a ideia de que nossa escola pública era boa no passado, quando atendia a poucos, mas que perdeu qualidade ao se massificar na segunda metade do século XX.

Que a escola pública do passado era para poucos, não há discussão. Segundo o Censo do IBGE de 1940, 69% das crianças de 7 a 14 anos não estudavam no país. Porém, ao analisar as estatísticas da década de 30 no livro “O Ensino Primário Brasileiro no Decênio 1932-1941”, Teixeira de Freitas identifica que o principal problema não estava na falta de vagas ou no desinteresse por parte das famílias de enviarem seus filhos para estudar. O problema, já naquela época, era a péssima qualidade do ensino. “A nação já envia à escola, nas zonas urbanas, 95% dos seus infantes, e, nas áreas rurais, mais da metade deles”, escreveu o pesquisador em 1946.

Se a maioria dos alunos era enviado à escola, como explicar que sete em cada dez crianças na faixa de 7 a 14 não estudavam? A resposta estava nas absurdas taxas de reprovação e abandono na primeira série do ensino primário, equivalente hoje ao segundo ano de nosso ensino fundamental (para crianças de sete anos). Na mesma obra citada, Teixeira de Freitas identifica que a matrícula no primeiro ano do primário era já próxima do total de alunos da faixa etária no país. Porém, uma análise mais detalhada mostra que mais da metade dos matriculados nessa série era de alunos repetentes, que acabavam nos anos seguintes desistindo de estudar.

“A causa disto? Aponta-a a estatística de maneira impressionante: é a ineficiência do ensino. A atuação da escola, em vez de aproveitar, sob salutares estímulos, a tenacidade do discipulado, transforma-a em estagnação patológica, que se traduz por enorme repetência, máxime na 1a série, a repercutir nas séries superiores como aparente evasão escolar, quando esta é, em verdade, a desistência fatigada dos alunos após prolongado insucesso”, diz o autor no livro, para em seguida refletir sobre a responsabilidade por esse fracasso.

“Mas tão grande ineficiência ocorreu, acaso, por culpa dos alunos? Ou das famílias? Não. Por culpa exclusiva da organização escolar. A Nação – agora já se vê isto inequivocamente – vem cumprindo o seu dever onde quer que disponha de escola aonde mandar os seus filhos. Mas a Escola não tem cumprido o seu, deixando de educar as crianças que a Nação de fato lhe confia ao levá-las à inscrição insistentemente – e por certo sob penosos sacrifícios – mas em pura perda.”

Certamente existiam boas escolas públicas no passado, como há atualmente também algumas. O problema, ontem e hoje, é que apenas uma minoria de alunos progredia no sistema e conseguia chegar aos melhores colégios públicos do país.

PS – Na biblioteca virtual do IBGE, é possível fazer o download gratuito de alguns dos livros de Teixeira de Freitas sobre educação, e de algumas publicações do pesquisador Nelson Senra sobre sua obra.

O livro “O Ensino Primário Brasileiro no Decênio 1932-1941” está disponível na biblioteca do IBGE para download neste link.

Também sobre Teixeira de Freitas, ainda sobre educação, é possível acessar o livro “Teixeira de Freitas: Um Cardeal da Educação Brasileira”. Veja o link aqui. 

Outro livro sobre Teixeira de Freitas, esse não restrito à educação, é “Teixeira de Freitas e a Criação do IBGE: Correspondências de um homem singular e plural”, de Nelson Senra, acessível neste link

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