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Perfil do escritor brasileiro não muda desde 1965, diz pesquisa da UnB

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Análise de 692 romances de 383 escritores mostra que mais de 70% deles são homens, 90% brancos e pelo menos a metade veio do Rio e de SP

Paulo Lannes, no Metropoles

Uma pesquisa realizada na Universidade de Brasília (UnB) traz um relato desanimador sobre a literatura nacional: as grandes editoras seguem publicando obras de escritores brasileiros com o mesmo perfil há mais de 50 anos. O trabalho compreende livros nacionais lançados entre 1965 e 2014. Mais de 70% deles foram escritos por homens, 90% são brancos e pelo menos a metade veio do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A análise também entrou no enredo da literatura nacional, chegando à conclusão de que os personagens retratados se aproximam da realidade dos escritores. Cerca de 60% são protagonizados por homens, sendo 80% deles brancos e 95% heterossexuais.

“Os dados mostram que há uma homogeneidade entre os escritores e os romances publicados no Brasil. Isso praticamente não mudou ao longo das décadas. É muito preocupante”, afirma a professora do Departamento de Teoria Literária Regina Dalcastagnè, coordenadora da pesquisa.

Pesquisa
O trabalho, realizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea da UnB ao longo de 14 anos, contou com a participação de mais de 30 universitários. A pesquisa fez um recorte por editoras em três períodos diferentes.

O primeiro deles foi entre 1965 e 1979, que contava com publicações da José Olympio e da Civilização Brasileira. O segundo recorte foi de 1990 a 2004, com a presença da Companhia das Letras, da Rocco e da Record. Já o último compreende 2005 a 2014 e quase as mesmas editoras, trocando apenas a Rocco pela Objetiva.

“Com a pesquisa, percebemos que as editoras não estão dispostas a diversificar o cenário literário. Assim, caso o leitor esteja atrás de literatura produzidas por mulheres, negros e de diferentes regiões terá que buscar independentes, com menor alcance às livrarias brasileiras”, conclui Regina Dalcastagnè.

Confira, em detalhes, o resultado do estudo da UnB:

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Obra favorita de Vladimir Nabokov, ‘O Dom’ chega às livrarias

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O escritor russo Vladimir Nabokov Foto: Yousuf Karsh

O escritor russo Vladimir Nabokov Foto: Yousuf Karsh

Melhor livro do autor escrito em russo rivaliza com ‘Lolita’ e ‘Fogo Pálido’ na obra de Nabokov

Paulo Nogueira, no Estadão

Vladimir Nabokov é um dos supremos avatares da mudança de paradigma que se operou na literatura do século 20 – aprofundada e consumada neste século. Ou seja: do autor não mais como configurador de uma identidade nacional, mas como saltimbanco de uma errância centrífuga, nem sempre voluntária, que gostamos de chamar de globalização.

No caso da Rússia, o buraco é ainda mais embaixo. Na terra de Tolstoi, a expressão “escritor russo” sempre teve um status menos comparável a “escritor brasileiro” do que a “profeta bíblico”. Boris Pasternak deu o nome aos bois: “Aqui, um livro é uma consciência fumegante, ou nada!” Quando perguntaram ao grande Valdimir Korolenko, meio ucraniano, qual era sua nacionalidade, ele cravou: “Minha pátria é a literatura russa”. Stevetlana Alexievich, em plena cerimônia do Nobel de 2015, indicou suas três matrizes: mãe ucraniana, pai bielorrusso e “a grande cultura russa, sem a qual não existo”. Por “grande cultura”, leia-se “literatura”.

Nabokov viveu uma infância e juventude idílicas nos arredores de São Petersburgo, onde nasceu em 1899. No café da manhã, a família falava russo, inglês e francês – daí que o escritor fosse trilíngue desde a chupeta. Com 17 anos, publicou o primeiro livro de poemas – e a poesia será um pilar estruturante na prosa de Nabokov, com sua paixão pela plástica e pela música do texto. Em 1920, já com os bolcheviques pintando e bordando, a família se mandou para Berlim – antes, Vladimir fez uma escala de dois anos na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Em Berlim, que jamais engoliu, Nabokov assobiou e chupou cana: ensinou idiomas, deu aulas de tênis e boxe, urdiu problemas de xadrez e palavras cruzadas para jornais e escreveu romances em russo – o nono e último deles, uma de suas obras-primas: O Dom. Em 1923, conheceu o grande amor de sua vida, uma russa-judia chamada Vera. Com Hitler já babando na gravata, a família deu no pé para Paris, depois para os EUA – menos o irmão de Vladimir, Sergei, que morreu num campo de concentração nazista.

Nos EUA, Nabokov borboleteou duplamente. Primeiro, pairando sobre seus romances. Segundo, como especialista em borboletas propriamente ditas. Lecionava literatura em Cornell e era o curador de lepidópteros do Museu de Zoologia em Harvard. Zanzou de leste a oeste dos EUA coletando borboletas, e descreveu centenas de espécimes, batizando alguns. Formulou até uma hipótese para um tipo (“Polyommatus azul”), e foi ridicularizado pelos pares científicos. Trinta anos depois, com os novos recursos tecnológicos, uma sessão solene da Royal Society proclamou em Londres que o escritor tinha razão postumamente – contritos, os cientistas foram caçar sapo de bodoque.

Nabokov escreveu seu best-seller Lolita precisamente quando trotava pelos EUA (que conheceu melhor que Kerouac, Steinbeck ou Fitzgerald) de rede de caçar borboleta em punho. Vera funcionava como secretária, datilógrafa, editora, revisora, tradutora, bibliógrafa, agente, assessora jurídica e motorista – sem falar nos cafunés, claro. Quando ele tentou queimar o manuscrito do romance, foi ela que o impediu.

Lolita, além de um prodígio literário, foi também um “sucèss de scandale”, sinônimo de grana preta. No Brasil, o primeiro crítico a saudar o romance foi Paulo Francis, num artigo intitulado O Prazer do Abominável, publicado em junho de 1959 na revista Senhor. Com os direitos autorais, Nabokov regressou a Europa de mala e cuia e se dedicou apenas à escrita e às borboletas, acampando no quarto andar do Montreux Palace Hotel, na Suíça.

Sartre acusou Nabokov de “não pertencer a nenhuma sociedade”, esquecendo que em boca fechada não entra mosquito. Nabokov respondeu com a luva de pelica da ironia: “Sou um escritor americano, nascido na Rússia e formado na Inglaterra, onde estudei literatura francesa antes de passar quinze anos na Alemanha.” Mas, a sério, ele já tinha dado o xeque-mate no prefácio de O Dom: “A heroína deste livro não é Zina, mas a literatura russa.” Nabokov, sendo universal, é tão russo quanto a vodca (e mais inebriante).

“Da”, “sim” em russo, era inicialmente o título de O Dom, uma obra sutil e prismática, em que cada linha tem três entrelinhas (para os esotéricos, não será coincidência que Shakespeare e Nabokov tenham nascido no mesmo dia, 23 de abril…). Narrada simultaneamente na primeira e na terceira pessoas, exige uma atenção de coruja. No inestimável Keys to The Gift: A Guide do Vladimir Nabokov, Yuri Leving, levanta a lebre de que o último dia do romance é 29 de junho. Ora, descontada a diferença de 13 dias entre os calendários Juliano e Gregoriano, estaríamos em 16 de junho, precisamente a data em que se desenrola o Ulísses de James Joyce. E, em O Dom, o último dia marca o fim da aprendizagem do protagonista Fyodor, que já pode dizer “sim” ao mundo e escrever o livro que acabamos de ler. Como as últimas palavras do Ulísses: “Sim, eu digo sim”.

O Dom retrata a comunidade de expatriados russos em Berlim e o amadurecimento criativo de Fyodor e de seu dom literário. A trama é ralinha, embora tenha sido escrita entre os anos 1936 e 1937, quando o terror stalinista bombava, e se ocupe do período em que o pai de Nabokov foi assassinado em Berlim por um monarquista. Mas rola metaficção aos borbotões (Nabokov é o padroeiro de pós-modernos como Pynchon, David Foster Wallace, Don DeLillo e William Gaddis). A própria primeira frase é interrompida para a citação de um crítico a respeito de… primeiras frases. E o protagonista está escrevendo uma biografia de Chernyshevsky, o autor favorito de Lenin. Uma proverbial paródia literária, na medida em que Nabokov reprovava o gênero biográfico, talvez pelo seu desdém glacial pela psicanálise (“Só os obtusos acreditam que suas aflições mentais são curáveis por uma aplicação diária de mitos gregos em suas partes genitais”).

O Dom era a obra predileta de Nabokov – hoje, seu pedigree crítico se acotovela no pódio nabokoviano com Lolita e Fogo Pálido. E o próprio autor integra a Santíssima Trindade literária da segunda metade do século 20, ao lado de Borges e Beckett (a primeira metade inclui Joyce, Proust e Kafka).

Quando perguntaram a Nabokov qual a língua mais bela, ele tascou: “Meu espírito responde: o inglês; meu ouvido, o francês; meu coração, o russo.” Era um nostálgico do pior tipo: aquele cuja saudade não pode ser saciada, pois o mundo do qual sente falta desapareceu para sempre. Daí o desprezo absoluto pelo emigrado que “odeia os vermelhos porque lhe roubaram o dinheiro”.

Por outro lado, o relicário do escritor – o seu imaginário subjetivo, a sua memória sensível – continuou intocável e tão acessível quanto os lepidópteros. O passado russo de Nabokov não existia mais, mas, em compensação, nunca deixaria de existir. “Tudo está como deveria ser, nada mudará, ninguém morrerá.” Muito menos ele, com seus romances que são belezas frágeis e aladas, como as borboletas: no ano passado, o Museu Nabokov em São Petersburgo foi vandalizado por fanáticos de Putin, que picharam nas paredes: “Libesrast” – um neologismo russo que mistura “liberal” e “pederasta”. Este Dom é, obviamente, uma dádiva literária – menos para o autor ou para seu protagonista do que para nós.

*Paulo Nogueira é autor de ‘O Amor é um Lugar Comum’ (editora Intermeios)

Cartas trocadas entre Saramago e Jorge Amado vão virar um livro

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Saramago com Amado (e José Cardoso Pires, ao meio) em Portugal, foto do arquivo DN   |  Arquivo DN

Saramago com Amado (e José Cardoso Pires, ao meio) em Portugal, foto do arquivo DN
| Arquivo DN

 

Com o Mar por Meio reúne faxes enviados de Lisboa para Salvador, de Paris para Lanzarote. Lançamento será na FLIP

João Almeida Moreira, no DN

Jorge Amado e José Saramago – Com o Mar por Meio é uma curta mas tocante troca de inconfidências e agrados entre dois dos maiores autores da língua portuguesa do século XX. A reunião e seleção da correspondência será lançada oficialmente na sexta-feira, já madrugada de sábado em Portugal, na Casa José Saramago, em Paraty, cidade sede da FLIP, feira internacional de literatura que começa hoje. Paloma Jorge Amado, filha do escritor brasileiro, e Pilar del Río, mulher do autor português, estão à frente da iniciativa.

“Foi uma explosão de alegria”, contou Paloma a propósito do momento em que acordou os detalhes do projeto com Pilar após uma rara coincidência de vontades. Os pesquisadores da Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelourinho, centro histórico de Salvador onde está o acervo do autor de Gabriela, Cravo e Canela, já estavam a ocupar-se de digitalizar cartas enviadas por Saramago a Amado com vista a publicar um livro quando Pilar entrou em contacto por telefone. A jornalista espanhola propôs que as duas famílias montassem uma casa na FLIP para discutir essa, ainda pouco conhecida, troca de correspondências. Juntou-se o útil ao agradável: além do livro editado pela Companhia das Letras, as cartas do português e do brasileiro estarão em debate na feira literária da cidade a poucos quilômetros do Rio de Janeiro.

Saramago e Amado conheceram-se em 1990, o primeiro com 68 anos e o segundo com 78, no júri do prêmio da União Latina, em Roma. A partir do ano seguinte, quando foram novamente jurados, intensificaram a relação, desenvolveram uma amizade e encontraram um objetivo comum: que o Prêmio Nobel viesse um dia parar às mãos de um autor de língua portuguesa.

A primeira carta trocada entre ambos, assinada unicamente “José” em Dezembro de 1992 já fala do tema. A última, assinada por “Jorge”, mas também pela sua mulher Zélia (a escritora Zélia Gattai) e por Paloma, filha de ambos, data de 8 de Outubro de 1998 e é exatamente a congratular o português pela conquista do prémio da academia sueca. Conta Paloma que “na época, o papai vivia fechado em si, pesaroso pelo enfarte e principalmente pela perda de visão, por isso ficava no seu cadeirão de olhos fechados”. “Mas”, continua, citada pelo Estado de São Paulo, “quando José venceu, contei-lhe e ele imediatamente abriu os olhos, foi pegar o champanhe e disse eufórico “vamos escrever-lhes um fax””.

O meio usado para a maioria das correspondências foi, de facto, o fax, hoje obsoleto mas à época uma forma demasiado moderna de comunicação entre os dois já anciãos autores. Num dos faxes trocados entre Salvador e Paris, as cidades da família Amado, e Lisboa e Lanzarote, as moradas dos Saramago, o escritor baiano conta, com detalhes divertidos, como o seu aparelho se assemelhou a um vulcão em chamas após uma surpreendente avaria.

Pilar e Paloma contam que a generosidade e o humor os uniram. “Eles partilhavam o mesmo espírito de generosidade num meio onde a competição dita, em muitos casos, as relações”, afirma a filha do baiano. Pilar, também ao jornal O Estado de S. Paulo, acrescenta que “os dois estavam destinados a entenderem-se pelo humor, pela ironia e pela autoironia”.

Mas é o Prémio Nobel o tema mais recorrente das missivas: escreve Amado, em Outubro de 1994, que “ainda não será desta vez que iremos os quatro a Estocolmo festejar o Nobel do José, um japonês [Kenzaburo Oe] atropelou-nos”. Noutra ocasião, os dois ironizam sobre a possibilidade de António Lobo Antunes ganhar o prémio. Um e outro demonstram também sentir a pressão dos próprios países, da imprensa e até dos amigos sempre que se aproximava a data de divulgação do prémio. “Condenados por não ganhar”, queixavam-se.

Jorge, segundo Paloma, sabia que jamais ganharia por, defendia, existirem “escritores mais velhos e com idênticas opções políticas à sua frente”, mas mesmo assim suportou a pressão “às vezes infernal” de ser sempre citado ao longo de 30 anos. Já Saramago venceu mesmo e no discurso da vitória dedicou o prémio “aos escritores em língua portuguesa, os contemporâneos e os do passado”.

Em São Paulo

Por que Machado de Assis é o maior escritor brasileiro?

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(Google/Reprodução)

(Google/Reprodução)

Pamela Carbonari, na Superinteressante

Se você está lendo este post é porque está online, logo deve ter visto na sua página inicial de buscas do Google o doodle feito em homenagem ao 178º aniversário de Machado de Assis. Nas ilustrações do artista brasileiro Pedro Vergani, o precursor do realismo no país aparece cercado por elementos que remetem à sua vida no Rio de Janeiro e às cenas icônicas de suas obras-primas, como as batatas de Quincas Borba e Bentinho e Capitu, de Dom Casmurro.

“Em 1839, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu de uma família simples no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, Brasil. Ele era neto de escravos libertos, em um país onde a escravidão não foi totalmente abolida mesmo 49 anos depois. Machado enfrentou muitos desafios por ser mestiço no século 19, dentre eles acesso limitado à educação formal. Mas nada disso o impediu de estudar literatura. Ao trabalhar como tipógrafo, ele experimentou poemas, romances, romances e peças de teatro. ”, descreveu a empresa na homenagem. O doodle à Machado de Assis foi elogiado nas redes sociais sobretudo por ter representado o autor negro como de fato era e não com a pele clareada como costuma ser retratado.

São muitos os motivos que fazem de Machado o gênio das letras no Brasil. Ao contrário da maioria dos grandes escritores do país, Joaquim Maria Machado de Assis é de origem humilde, era neto de escravos alforriados, cresceu no Morro. Se quase dois séculos depois pessoas negras ainda têm menos acesso à educação, a primeira metade do século XIX estava longe de ser um período de igualdade racial. Machado estudou em escola pública, não frequentou a universidade – o que fez Joaquim virar Machado de Assis foi sua grande ambição intelectual.

Autodidata, ele aprendeu francês quando trabalhou em uma padaria e, posteriormente, enquanto tipógrafo teve contato com poesias, romances e outros tipos de literatura. Aos 16 anos já participava de um grupo de escritores e, na mesma época, publicou seu primeiro poema, Um Anjo.

Depois disso, Machado explorou quase todos os gêneros literários e se a versatilidade impressiona, a quantidade de material produzido também: escreveu nove romances, 200 contos, mais de 600 crônicas, diversas peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos. Sem contar que trabalhou como tipógrafo, revisor, funcionário público e colaborou para revistas e jornais do Rio de Janeiro. O carioca assistiu ao fim do Império e o surgimento da República – e isso não passa despercebido na sua obra. Vale notar os reflexos dessa mudança política tanto em seu trabalho como escritor quanto jornalista.

Assim que completou 40 anos, suas crises de epilepsia pioraram e ele quase perdeu a visão, mas foi nesse período que seus escritos ganharam ainda mais força: Machado foi fundamental para a transição do romantismo para o realismo no país, tendo Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) como marco inaugural. No entanto, falar de sua obra-prima apenas como um primeiro passo para um movimento literário seria reducionista, para não dizer burro. A começar pela dedicatória provocativa do livro escrito em primeira pessoa por um narrador-defunto: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

O romance racional em que um morto escracha a decadência da burguesia, seus vícios, mesquinharias e frustrações é o ponto alto de Machado de Assis como Machado de Assis. A partir de Memórias Póstumas, ele se consagrou como um profundo conhecedor da psique humana, explorando as hipocrisias e vaidades de seus personagens em narrativas irônicas onde o pessimismo se veste de bom-humor sem perder a profundidade e a oportunidade de alfinetar a política e a sociedade da época.

Não à toa, esse é seu livro mais reconhecido fora do país. Para a crítica Susan Sontag, Machado é o melhor escritor da América Latina, superando o argentino Borges; o poeta Beat Allen Ginsberg o descreveu como outro Kafka; Philip Roth o comparou ao dramaturgo Samuel Beckett e Harold Bloom foi ainda mais longe dizendo que Machado é o maior escritor negro de todos os tempos.

Apesar de Memórias Póstumas ter aberto as portas para o realismo no país, ser um hino literário do Niilismo e de Quincas Borba também ser uma obra de destaque, muitos leitores brasileiros são mais apegados ao hino da desconfiança, Dom Casmurro (1899). O público nacional se envolveu tanto mais nos olhos de Capitu que nas batatas humanitistas de Quincas Borba que existe um boato de que o ciúme da obra tenha pinceladas autobiográficas: alguns dizem que o filho do também escritor José de Alencar foi fruto da traição de sua esposa com Machado de Assis. A história, assim como a de Capitu e Escobar, amigo de Bentinho, nunca foi confirmada. Entre a publicação desses dois grandes livros, Machado participou da fundação da Academia Brasileira de Letras e, dado o reconhecimento que tinha entre seus colegas, foi o primeiro presidente da ABL.

Em 69 anos, o Bruxo do Cosme Velho conseguiu abordar uma pluralidade de assuntos tão densa e diversa quanto os gêneros que trabalhou. Caçoou dos jogos políticos e do cinismo dos mais abastados, expôs as fraquezas, os arrependimentos e as ilusões humanas com a mesma concisão com que tratou temas universais como o amor, a ganância e o ciúme. Morreu na primavera de 1908 cercado de amigos e, dali em diante, tornou-se ainda mais imortal. Difícil não concordar com Harold Bloom.

Machado de Assis é maior que Dickens, Balzac e Eça de Queiroz, diz crítico e escritor espanhol

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Antonio Maura fará conferência no Egito para falar do brasileiro. Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, ele diz que o autor ainda é ‘um grande desconhecido’.

Publicado no G1

Escritor e crítico espanhol, Antonio Maura acredita que Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o grande gênio da literatura brasileira, não foi devidamente valorizado pela crítica e mereceria ser reconhecido como um dos melhores escritores do século XIX.

“Acho que Machado é um dos grandes nomes do século XIX. Não acredito que se compare nem a [Charles] Dickens, [Honoré de] Balzac, Eça de Queiroz ou ao nosso [Benito Pérez] Galdós. São grandes escritores, mas estão abaixo nos quesitos riqueza, crítica e análise da sociedade e versatilidade. Não chegam aos pés”, diz.

Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)

Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)

Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, Maura está no Cairo para a conferência “El autor y sus máscaras: Una aproximación a Cervantes y Machado de Assis” (“O autor e suas máscaras: Uma aproximação de Cervantes e Machado de Assis)”, no Instituto Cervantes local.

Ele afirma que, fora de suas fronteiras, o escritor brasileiro “é um grande desconhecido”. Em sua opinião, até mesmo no Brasil os estudos sobre Machado de Assis “não refletiram bem” sua faceta de grande crítico do sistema de sua época e da escravidão.

Para Maura, o cronista e poeta teve que recorrer à ironia para falar “na surdina” de um tema que não podia ser encarado abertamente por ele ser neto de escravos.

Um exemplo disso é “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881). De acordo com Maura, a verdadeira intenção do autor é “colocar o dedo na ferida” da sociedade e para isso se serve de uma sutil alegoria para denunciar que o morto é o próprio Brasil.

A escolha do nome do protagonista, que coincide com o início do nome do país, “não é à toa” para alguém tão “inteligente e cuidadoso com a linguagem” quanto era Machado de Assis. Para Maura, “a crítica brasileira foge” desta interpretação porque “não é fácil aceitar que seu país é um país morto ou esteve morto”.

O crítico espanhol defende que as obras que o romancista e dramaturgo escreveu depois de “Memórias póstumas”, como “Dom Casmurro” ou “Quincas Borba”, são dos livros “mais importantes de sua geração, não apenas do Brasil, mas de todo o mundo”.

Segundo ele, alguns autores de língua espanhola, como Jorge Edwards, Julián Ríos e Carlos Fuentes, destacaram a importância de Machado de Assis, mas o mestre brasileiro ainda carece do merecido reconhecimento mundial.

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