Diário da Maisa

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Mapa literário: o escritor mais importante de cada Estado

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(Se você tem alguma dúvida de que a literatura é um dos fatores mais importantes para definir a identidade de um povo, esse post é para você – caso esteja convencido disso, continue aqui mesmo assim)

Pamela Carbonari, na Superinteressante

Quando estava na escola, minha professora de Literatura pediu que escolhêssemos um livro do Érico Veríssimo para analisar ao longo do semestre. Ainda era abril e, apesar de já fazer algum frio nesta época do ano no Rio Grande do Sul, o termômetro naquele dia passava dos 25 graus. Lembro de ir à biblioteca em busca do primeiro volume de O Tempo e o Vento suando e poucas páginas depois de começar a leitura, sentir uma leve friagem ao ler as passagens em que Érico narra o vento Minuano cortando as noites na estância da família Terra – “Noite de ventos, noite de mortos”.

Algum tempo depois, essa mesma professora sugeriu que lêssemos Graciliano Ramos. Pedi o livro Vidas Secas a um amigo que me emprestou com a seguinte recomendação: “Até a metade você vai conseguir ler tranquilamente, mas depois é melhor ter uma garrafinha de água junto contigo”. De fato, durante a leitura senti a secura da cachorrinha Baleia e a apatia dos filhos de Fabiano dentro da boca, não deixando uma só gota de saliva descer pela garganta. Só consegui chegar ao fim seguindo o conselho do meu amigo.

Anos mais tarde, antes de visitar a Bahia, decidi que precisava ler Gabriela, Cravo e Canela. Em menos de 50 páginas, já tinha absorvido a cadência do sotaque mesmo sem ouvi-lo, sentia vontade de comer tapioca, acarajé, moqueca e de tomar uma(s) no bar do Nacib como se estivesse na Ilhéus do início do século.

Com ou sem cinestesias, os livros nos apresentam a lugares que, mesmo quando reais, talvez nunca visitaremos, nos transportam para enredos que não podemos mudar e nos deixam íntimos de personagens cujos sotaques, hábitos, personalidades e aparências são adaptações de alguém, releituras de várias pessoas coladas em um determinado tempo e espaço.

É essa junção de elementos que faz a obra de Jorge Amado ser sinônimo de Bahia e a de Érico Veríssimo de Rio Grande do Sul, é isso que faz a literatura ser um dos mais importantes símbolos para a formação da identidade cultural de um lugar.

Pensando nisso, selecionamos os 26 autores mais representativos de cada estado brasileiro. Nossa seleção se baseou em número de prêmios ganhos, participações em Academia de Letras de suas respectivas federações, cobrança nos vestibulares locais, número de traduções para línguas estrangeiras e, é claro, se o autor é reconhecido por sintetizar a identidade de cada estado — não sendo determinante seu local de nascimento.

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Livro póstumo de Scliar traz crônicas inéditas sobre judaísmo

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Autor gaúcho, que completaria 80 anos, terá mais três obras lançadas esse ano

Publicado em O Globo

RIO — Escritor compulsivo, Moacyr Scliar publicou, até sua morte, em 2011, mais de 80 livros, entre romances, contos, crônicas e infantis. E o número não para de aumentar. O autor gaúcho, que completaria 80 anos hoje, acaba de ganhar mais uma obra póstuma. “A nossa frágil condição humana” traz uma série de crônicas inéditas em livro, originalmente publicadas no jornal “Zero Hora”, onde colaborou durante 34 anos e publicou cerca de 5 mil textos. Esse vasto arquivo vem sendo destrinchado aos poucos pela viúva do escritor, Judith Scliar, e pela escritora e professora Regina Zilberman, organizadora da publicação. Depois de “A poesia das coisas simples” (2012), dedicado à cultura, e “Território da emoção” (2013), que se concentrava no exercício da medicina, “A nossa frágil condição humana” tem como recorte as incursões em temas judaicos, com 68 reflexões que abrangem três eixos: literatura, antissemitismo e as tensões entre Israel e os países árabes.

—A identidade judaica era muito forte para o Moacyr. Mesmo ele não sendo um ser religioso, isso transparece nos seus textos — diz Judith. — Ele era filho de imigrantes e morava no Bom Fim (bairro de imigrantes judeus de Porto Alegre). Uma de suas lembranças de infância é ver as famílias colocando cadeiras na calçada e contando durante horas histórias dos lugares de onde vinham.

Scliar. Escritor gaúcho publicou 80 livros até sua morte, em 2011, além de cerca de 5 mil crônicas - Divulgação / Agência O GLOBO

Scliar. Escritor gaúcho publicou 80 livros até sua morte, em 2011, além de cerca de 5 mil crônicas – Divulgação / Agência O GLOBO

 

Para Regina Zilberman, que organizou todos os três livros de crônicas póstumas de Scliar, o autor soube tratar, ao longo das décadas (a coletânea cobre de 1977 a 2010) assuntos espinhosos com um notável equilíbrio, especialmente no que diz respeito às relações entre Israel e outros países árabes.

— Ele tem uma visão crítica, mas que não é fundamentalista sobre o conflito — diz a organizadora. — Seu posicionamento lúcido, que apontava problemas de ambos os lados, é uma lição para a era de extremos em que vivemos hoje. Escolhemos esse título do livro para reforçar a ideia dele de que não adianta radicalizarmos: vivemos na fragilidade e há problemas que não podemos controlar. A vida humana é um cristal.

As milhares de crônicas do “Zero Hora” ainda devem render novos livros, mas Judith teve acesso recentemente a textos que Scliar assinava na “Revista Shalom”, publicação judaica de circulação restrita em São Paulo — e que também devem virar livro no futuro. Para o segundo semestre, estão previstos ainda os relançamentos de três obras que se encontravam fora de catálogo. A reunião de anedotas judaicas “Do Éden ao divã” (1991) sairá pela Companhia das Letras. Já a L&PM vai tirar do limbo “Histórias que os jornais não contam” (com crônicas escritas para a “Folha de S. Paulo” entre 2004 e 2008) e o raro “Mistérios de Porto Alegre”, coletânea de lendas urbanas e histórias curiosas ambientadas na capital gaúcha.

Há, porém, obras que provavelmente nunca chegarão — ou voltarão — a circular. É o caso da coletânea de contos “Histórias de médico em formação” (1962), obra de estreia de Scliar, que ele renega e que nunca chegou a ser relançada. Esgotada desde seu lançamento, há mais de 50 anos, a primeira edição está custando até R$ 1400 nos sebos virtuais. Diversos originais nunca publicados também continuam guardados a quatro chaves por Judith, em respeito à vontade do autor.

Anotações em cartão de embarque

Por outro lado, os estudiosos de Scliar têm a possibilidade de descobrir quase mil manuscritos e datiloscritos de seu acervo, digitalizados e disponibilizados desde 2015 para consulta pública no site do Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUCRS (delfosdigital.pucrs.br). Entre os documentos, há anotações de ideias e esboços de narrativas que nunca foram escritas, além de obras abandonadas logo no início.

Os documentos comprovam a compulsão de Scliar pela escrita (para Regina, só Machado de Assis foi mais prolífico). O autor, que escreveu sua primeira história aos seis anos em um papel de cobrir pão, nunca perdeu o hábito de rabiscar em tudo que surgia a seu alcance. Há anotações em recibo de posto de gasolina, cartão de embarque e até receituário.

— Uma vez Moacyr teve uma ideia no banho e saiu do chuveiro às pressas para anotar — lembra Gabriel Oliven, cunhado do autor. — Foi obrigado a escrever em um papel higiênico.

Amigo de Scliar, o escritor Luiz Antonio Assis Brasil diz que aprendeu uma lição importante sobre pesquisa e escrita com o autor. Um dia, quando ambos conversavam sobre literatura, Scliar perguntou a Assis o que ele estava escrevendo.

— Por pura timidez, dei uma resposta breve, mas me lembro que eu disse que ainda estava na fase “das pesquisas” — conta o escritor. — Ele pensou um pouco, escolhendo as palavras, e de maneira indireta, me deu um conselho: “Pois sabe? Eu também pesquiso, quando não tenho muita familiaridade com o assunto. Mas vou até 10%” (posso estar equivocado quanto à porcentagem, mas era baixa) “e o resto eu deixo para a imaginação preencher”. Sem querer, aquilo foi uma aula, que eu imediatamente assimilei. Depois disso, a pesquisa, para mim, tornou-se mais leve e, digo ainda, perdeu o rigor de antes. E a imaginação, enfim, achou o seu lugar.

Diversos encontros lembrarão os 80 anos de Scliar. Dia 30 de março, em São Paulo, a USP organiza um Simpósio literário sobre o escritor. No dia 26 de maio, os escritores Ignácio de Loyola Brandão, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura e Antônio Torres se reúnem para um bate-papo no Centro Cultural da Santa Casa de Porto Alegre.

Arno Wehling é eleito para a Academia Brasileira de Letras

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Arno Wehling, o novo imortal - Leo Martins / Agência O Globo

Arno Wehling, o novo imortal – Leo Martins / Agência O Globo

 

Historiador vai ocupar cadeira que pertenceu a Ferreira Gullar, morto em dezembro do ano passado

Publicado em O Globo

RIO – Foi uma semana agitadíssima para os padrões da instituição: no dia seguinte em que o ensaísta e escritor João Almino foi escolhido como imortal, uma nova eleição definiu o historiador Arno Wehling como integrante da Academia Brasileira de Letras. Mas se a escolha de Almino, único candidato à cadeira 22, que pertencia a Ivo Pitanguy, pareceu mais tranquila, a contenda da tarde de ontem na sede da instituição, no Centro do Rio, foi bastante apertada. Por 18 votos a 15, além de um voto em branco, o historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), venceu o poeta Antonio Cicero por 18 votos a 15 para a cadeira 37, que era de Ferreira Gullar. Houve um voto em branco. Votaram 23 acadêmicos presencialmente e 11 por cartas.

— Encaro esta notícia de duas maneiras. Além de ser uma valorização da instituição, e como historiador entendo que é fundamental para a constituição de um país a valorização das instituições, a entrada na ABL me permite o convívio com pessoas que admiro e respeito muitíssimo — declarou Wehling, que esperou o resultado da eleição em uma recepção na cobertura de um hotel em Ipanema, cercado de familiares e amigos, além dos imortais que surgiram depois da votação para prestigiá-lo. — As instituições culturais são as mais significativas de um país. Será uma oportunidade de colaborar com a vida cultural do país.

A eleição de Wehling dividiu duas espécies de alas não formais que existem na ABL. Uma é mais ligada aos poetas e romancistas, a chamada “ala literária”, reunida em favor do poeta carioca Antonio Cicero, que tentava a vaga pela segunda vez (a primeira, em que disputou com o sociólogo Francisco Weffort, terminou curiosamente empatada, o que é raro acontecer na Academia). A outra é a ala dos historiadores, da qual faz parte mais de uma dezena de imortais, todos integrantes do IHGB. Um deles é o historiador e africanista Alberto da Costa e Silva, um dos principais partidários da candidatura de Arno Wehling:

— A Academia ganha muito com a presença de um intelectual como ele — afirmou Costa e Silva assim que o resultado foi anunciado, tomando o telefone para parabenizar o amigo: “Fique tranquilo que estava ganho” — disse a Wehling.

“A ESPERA DE CiCERO NÃO SERÁ EM VÃO”

A acadêmica Nélida Piñon, amiga de Cicero, manifestou-se:

— Ele será muito bem-vindo. A presença dele reforça e enriquece a presença do IHGB na academia. Arno, sem duvida, é um notável. Os dois candidatos eram excelentes, e a espera de Cicero não será em vão. É o destino natural de um homem daquela envergadura ser parte da ABL — disse Nélida, que também compareceu à recepção de Arno.

Ex-presidente da ABL, Marco Antonio Villaça também frisou a aliança que formou-se entre o IHGB e a ABL:

— Arno é um escritor com obra importante, e que tem uma constância na relação com outros escritores, o que é muito importante para a Academia. O IHGB e a ABL mantêm o sentido antropológico de cultura, como sempre quis Machado de Assis.

Natural do Rio, Arno Wehling tem 70 anos e é formado em História pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e em Direito pela Universidade Santa Úrsula. É ainda Doutor em História pela Universidade de São Paulo, e tem pós-doutorado na Universidade do Porto, em Portugal. Especializado em teoria e metodologia da História, história do Brasil Colônia e história do Direito brasileiro, ele é professor da UFRJ e da UniRio. Integra o IHGB desde 1976, e tem mais de dez livros publicados na sua área de pesquisa.

— Será um prazer conviver e descobrir de que forma Arno contribuirá com a instituição — declarou a acadêmica Ana Maria Machado.

Os ocupantes anteriores da cadeira 37, que antecederam Arno Wehling, foram Silva Ramos, fundador, que escolheu como patrono da posição o escritor Tomás Antônio Gonzaga, Alcântara Machado, Getulio Vargas, Assis Chateaubriand, João Cabral de Mello Neto e Ivan Junqueira.

5 coisas que você não sabia sobre Gabriel García Márquez (e que vão te inspirar)

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 STRINGER Colombia / Reuters Gabriel Garcia Marquez, em 1987, celebrando os 20 anos do romance "Cem anos de solidão", que se transformou em um símbolo da literatura latinoamericana.

STRINGER Colombia / Reuters
Gabriel Garcia Marquez, em 1987, celebrando os 20 anos do romance “Cem anos de solidão”, que se transformou em um símbolo da literatura latinoamericana.

 

Andrea Martineli, no Huffpost Brasil

Quando Gabriel García Márquez aceitou o Prêmio Nobel de Literatura em 1982, ele se referiu a si mesmo como pertencente a uma linhagem de “inventores de fábulas que acreditam em tudo” e que sentem

“o direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para nos lançarmos na criação da utopia contrária. Uma nova arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.”

Morto em 17 de abril de 2014, aos 87 anos, ele deixou um legado que foi capaz de levar leitores junto com ele e fazê-los acreditar em qualquer coisa — ou naquilo que o chamado realismo mágico pode proporcionar.

O trabalho do autor colombiano baseou-se tanto nos casos que cobriu como jornalista na América Latina e seus contos inspirados por autores preferidos e histórias vividas durante sua infância na casa de família em Aracataca, na Colômbia.

Antes de sua morte, já fazia mais de dez anos que o escritor não publicava nada. Assim como Alice Munro, escritora e sua colega de Prêmio Nobel, García Márquez disse que a escrita o desgastou e que queria mais tempo para aproveitar a vida de outra forma.

E o fez.

Ontem, 6 de março de 2017, Gabo, como era conhecido pelos mais íntimos, teria completado 90 anos de idade. Aqui estão cinco curiosidades sobre o escritor que conseguiu falar sobre amor, evocando a solidão que certamente vão te inspirar:

1. A crença no poder duradouro do amor

Christian RAUSCH via Getty Images

Christian RAUSCH via Getty Images

 

A dedicatória no livro que conta a história mais romântica de García Márquez, Amor Nos Tempos Do Cólera, diz, simplesmente: “Para Mercedes, é claro”.

Ele refere-se a Mercedes Barcha, com quem se casou em 1958.

Gabriel e Mercedes se apaixonaram no momento em que se viram. Mas não puderam ficar juntos de imediato. E a história dos amantes que se conheceram na juventude, mas, por interferência da família e de outros fatores externos, não puderam ficar juntos durante uma vida toda está retratada no livro O Amor Nos Tempos do Cólera.

A história de duas pessoas cujo amor sobrevive a um longo período de separação é o cerne do livro. Mas, de qualquer maneira, Florentino e Fermina acabam juntos e apaixonados. O cólera pode ser interpretado como algo que julga que a paixão não precisa ser obscurecida pela passagem dos anos – e que sobrevive, justamente, porque o amor é uma parte fundamental da vida.

2. Conseguiu se reinventar como escritor

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Bettmann Archive

 

Gabo (como era conhecido pelos íntimos), começou sua carreira como colunista de um jornal. Lá, ele escrevia seus contos e ficou reconhecido no meio literário por eles. Depois, chegou a ser repórter e editor de jornais na Colômbia. Ele chegou até a trabalhar em um jornal comunista com sede nos Estados Unidos, mas diante de uma crise política foi obrigado a voltar para seu país de origem.

Garcia Márquez escreveu ficção a maior parte de sua vida, e não publicou seu primeiro romance até completar 40 anos. Na verdade, o que ele sempre quis, foi ser escritor, mesmo. Segundo ele, esta era “a melhor forma de explorar a verdade dos fatos”.

Porém, a matéria prima de muitos de seus romances e contos era o factual, o palpável, o que acontecia no “mundo real” e, principalmente, durante sua estadia em redações de jornais. Por exemplo, o assassinato no centro de Crônica de uma Morte Anunciada e a inspiração para escrever Do amor e outros demônios.

Transformar essas histórias verdadeiras em ficção permitiu a ele “usar a fantasia para dizer a verdade”, como a firma sua principal tradutora, Edith Grossman. Ela completa: “Isso é o que a literatura faz. Ele diz a verdade através da invenção e do fazer-se acreditar. A magia estpa em encontrar um escritor que transforma tudo o que toca em ouro de uma forma genial”.

Não á toa Cem anos de solidão chegou e até hoje é considerado a grande obra-prima do escritor.

3. Ele lutou para fazer o que gostava

Cover/Getty Images

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Garcia Marquez foi criado por seus avós, em Aracataca, na Colômbia. E esta influência pode ser sentida em tudo o que ele já escreveu. Embora o escritor não tenha inventado o estilo de ficção conhecido como “realismo mágico”, que combina os detalhes da vida comum com elementos fantásticos da mitologia, ele foi considerado o grande “pai” desse gênero literário após o sucesso de Cem anos de solidão.

Mas se ele é o pai do realismo mágico, sua avó, Dona Tranquilina Iguaran Cotes, é literalmente a avó do gênero. García Marquez creditou suas histórias, que “trataram o extraordinário como algo perfeitamente natural”, ajudando a definir seu estilo, á convivência com ela.

De fato, talvez sejam os avós o maior presente de um romancista, porque Garcia Márquez também disse que seu avô, o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, foi um grande contador de histórias e que lhe ensinou sobre a importância da história e da política. E foi a casa de seus avós em Aracataca, que forneceu o cenário mítico para criar a cidadezinha de Macondo, em Cem Anos de Solidão.

Mas nem tudo foi tão fácil assim.

O pai de García Marquez esperava que ele se formasse médico. E ele, com uma inquietação interna, enfrentou as vontades da família para deixar que a sua se sobressaísse. E conseguiu.

4. A inspiração em Falkner e Mark Twain

Getty Images

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Foi na companhia de outros dois grandes homens da literatura que Gabriel García Marquez cresceu: William Faulkner e Mark Twain.

Em sua biografia Viver para Contar, Gabo é constantemente acompanhando por Luz em Agosto e também pelo clássico As Aventuras de Huckleberry Finn.

Mesmo antes de dar nome ao “realismo mágico”, García Marquez se inspirava nesses dois para criar seus universos internos e extravasá-los no papel. Uma escritora que entrou em contato e admirou muito? Virginia Woolf.

Entre os outros autores preferidos dele estão Thomas Mann, Alexandre Dumas, James Joyce, Herman Melville, Franz Kafka e Jorge Luis Borges.

Talvez da inspiração de todos esses tenha nascido o tão aclamado realismo mágico criado em Cem anos de solidão.

5. A paixão por borboletas amarelas

AFP/Getty Images

AFP/Getty Images

 

Simplesmente porque gostava muito delas.

Para lembrá-lo em seu primeiro aniversário de morte, Bogotá fez uma série de homenagens: inaugurou um grande mural com a imagem do escritor, as bibliotecas estão promovendo leituras no dia de hoje, e a Biblioteca Nacional da Colômbia abriu exposição dedicada a escritor mais famoso do país. E muitas, muitas, muitas borboletas amarelas voltaram a voar pelo País.

Nascido em 6 de março de 1927, em Aracataca, Gabo foi a figura mais popular da literatura hispânica desde Miguel de Cervantes. Só no Brasil, segundo a editora Record, que publica suas obras no Brasil, seus livros venderam, ao todo, 2,3 milhões de exemplares. O título que os brasileiros mais compraram foi “Cem Anos de Solidão”, com mais de 390 mil exemplares vendidos.

Á época, a procura pelos livros de Gabriel García Márquez aumentou com o anúncio de sua morte e a editora correu para imprimir novas tiragens dos títulos de ficção do autor. Gabo deixou um inédito, “En Agosto Nos Vemos”, mas de acordo com a Record, a família não quer publicá-lo, para a tristeza dos fãs.

Richard Blair: “A sociedade evoluiu para o que George Orwell viu”

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Richard Blair, filho de George Orwell, na estação da Atocha (Madri), no último domingo. Carlos Rosillo

Richard Blair, filho de George Orwell, na estação da Atocha (Madri), no último domingo. Carlos Rosillo

 

Filho do escritor e presidente da Orwell Society reflete sobre o legado do seu pai

Bernardo Márin, no El País

Em fevereiro de 1937, um jovem britânico na faixa dos 30 anos, idealista e desajeitado, chegava às trincheiras da frente de Aragão para defender a República Espanhola. Chamava-se Eric Arthur Blair, embora a história o recorde como George Orwell. Neste mês, 80 anos depois do começo daquela aventura, o inglês Richard Blair, único filho do escritor, um engenheiro agrícola aposentado de 72 anos, viajou a Huesca (Espanha) para participar da inauguração de uma grande exposição sobre seu pai. Em uma conversa com o EL PAÍS durante sua rápida passagem por Madri no regresso a Londres, Blair evocou a figura de Orwell e comentou a atualidade do seu legado e a onda de interesse em torno do seu último romance, 1984, transformado em best-seller mundial desde a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos.

“É verdade que nas últimas semanas, com as referências nos Estados Unidos aos ‘fatos alternativos’ [mencionados por Kellyanne Conway, uma das principais assessoras do presidente], aumentou muito o interesse por seu livro. Mas meu pai nunca deixou de estar na moda.” Originalmente, 1984 não era uma profecia, e sim uma fábula sobre os totalitarismos nazista e stalinista. Mas, como observa Blair, alguns detalhes que no romance pareciam ficção científica há bastante tempo foram incorporados ao nosso cotidiano – caso das câmeras de segurança que vigiam quase todos os nossos movimentos, ou o conhecimento que algumas empresas têm sobre nós apenas pela forma como navegamos na Internet ou pelo uso que fazemos do nosso cartão de crédito. “A sociedade evoluiu para o que ele viu. O mundo se encaminhou para Orwell”, afirma.

George Orwell e seu filho Richard, em 1946. Vernon Richards

George Orwell e seu filho Richard, em 1946. Vernon Richards

 

Blair é o presidente da Orwell Society, organização sem fins lucrativos que se dedica a promover o debate de ideias e o conhecimento sobre a vida e obra do escritor, sob uma escrupulosa neutralidade em questões políticas. Talvez por isso, escolha muito bem suas palavras quando fala de Trump. “Acho que neste momento há muita tensão e compressão na Casa Branca. É verdade que Trump está atacando a imprensa, mas é um completo enigma, todos estão manobrando e aprendendo a conviver.” Naturalmente se alegra com o aumento das vendas dos livros de seu pai, inclusive porque é o herdeiro dos seus direitos autorais, (“que caducam em 2020”, comenta). Mas admite que é inquietante que esse efeito se deva aos paralelismos vistos pelo público entre a situação atual e a distopia que Orwell descreveu.

O escritor e sua mulher, Eileen, adotaram Richard em 1944. Dez meses depois, Eileen morreu durante uma cirurgia. Alguns amigos sugeriram ao escritor, tuberculoso, que devolvesse o menino, mas ele se recusou. A relação entre pai e filho se estreitou quando ambos se mudaram para a ilha de Jura, na Escócia. Um lugar mais saudável para conviver com a doença, e tão frio que, “se você se afastasse seis polegadas [15 centímetros] da chaminé, congelava”. Daqueles anos, Blair guarda a lembrança de um pai amoroso, que lhe fabricava brinquedos de madeira, com um peculiar senso de humor e nenhum dos escrúpulos da educação moderna. Certa vez, deixou o pequeno Richard, de três anos, dar uma tragada num cachimbo que ele havia enchido com o tabaco que juntava das bitucas do pai. O efeito, além de um tremendo ataque de vômito, foi que o menino ficou, temporariamente, vacinado contra o vício de fumar.

Foi em Jura que Orwell concluiu 1984. Durante o dia, escrevia em seu quarto e compartilhava os entardeceres com o menino. Uma de suas atividades favoritas era a pesca, em especial das lagostas que completavam uma dieta parca por causa do racionamento do pós-guerra. Na volta de um fim de semana de descanso no oeste da ilha, naufragaram e quase morreram afogados. Salvaram suas vidas, mas segundo Blair, o incidente agravou a saúde do seu pai. Seu amigo David Astor, dono do jornal The Observer, onde o escritor publicava, pediu permissão para importar dos EUA o antibiótico estreptomicina, então recém-descoberto. Mas Orwell desenvolveu alergia ao medicamento, e o esforço foi em vão. “As unhas lhe caíram, brotaram bolhas nos lábios”, recorda Richard. O escritor morreu em janeiro de 1950. Tinha 46 anos, e seu filho estava prestes a completar seis.

Qual é o ensinamento mais importante que Orwell nos deixou? Para os jornalistas, há vários, segundo Blair. “Seja honesto. O mais importante são os fatos que você puder provar, não a realidade que você gostaria que fosse. Hoje, os jornalistas não têm tempo de checar os fatos, e os erros se perpetuam e se multiplicam na Internet, até se transformarem numa verdade.” O filho do escritor recorda também suas seis regras para escrever com clareza: “Nunca use uma metáfora ou comparação que você costume ler [os clichês]; nunca use uma palavra longa se puder usar outra mais curta; se puder cortar uma palavra, corte; nunca use a voz passiva se puder usar a ativa; nunca use um termo estrangeiro, científico ou jargão se puder usar uma palavra de uso cotidiano; rompa qualquer uma destas regras se a alternativa for escrever alguma coisa francamente ruim”. E conclui com a definição de liberdade feita por seu pai: “Liberdade é poder dizer algo que os outros não querem ouvir”.

Blair se diz particularmente preocupado com a falta de diálogo na sociedade contemporânea. “As pessoas se dedicam a gritar umas com as outras, sem se escutarem.” E se surpreende ao ver que os jovens, em vez de falar cara a cara, passam o dia olhando seus celulares. “Até os casais nos restaurantes! Estarão se comunicando entre si por mensagens?”, brinca. E o que pensaria Orwell do século XXI, da Internet, dos grandes avanços científicos e da pós-verdade? “Ah, essa é a pergunta do milhão. Mas não é possível entrar na cabeça de ninguém. Nem responder a isso lendo seus livros. Se fosse vivo, teria 113 anos e teria tido muitas novas influências… é bobagem especular”. Portanto, nem ele sabe, nem há como saber. Mas se atreve a supor uma coisa: que, de qualquer forma, provavelmente faria reflexões cheias de bom senso.

Richard Blair visitou a Espanha para participar da inauguração de uma exposição, intitulada Orwell Toma Café em Huesca, que recorda a participação de seu pai na Guerra Civil espanhola. A mostra, organizada pelo Governo da região de Aragão, pela administração provincial de Huesca e pela prefeitura da cidade, foi inaugurada em 17 de fevereiro, coincidindo com o 80º. aniversário da chegada do escritor à frente de Aragão, e ficará aberta até 25 de junho.

O nome da exposição é uma alusão a uma frase que Orwell incluiu em Lutando na Espanha (Homage do Catalonia), seu livro de memórias sobre o conflito, supostamente dita pelo general que comandava as tropas republicanas depois da captura da localidade de Siétamo: “Amanhã tomaremos um café em Huesca”. Mas a cidade aragonesa não caiu, embora alguns jornais da zona leal à República tenham chegado a publicar essa notícia em suas primeiras páginas.

Orwell não tomou esse café, mas Richard na semana passada aproveitou a oportunidade, na companhia de um descendente de outro protagonista da sua aventura espanhola: Quentin Kopp, organizador de eventos da Orwell Society e filho do comandante Kopp, chefe do escritor nas milícias do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), próximas do trotskismo.

Lutando na Espanha é uma obra honesta, que não agrada totalmente a quem mantém uma visão maniqueísta da guerra. Orwell foi à Espanha para lutar contra o fascismo, mas, como aconteceu com os trotskistas e anarquistas, acabou sendo perseguido pelos comunistas de linha soviética. A Espanha ainda não compreendeu bem sua história recente, segundo Blair, e esse livro, o mais vendido sobre a Guerra Civil, contribui para reduzir “esse grande buraco negro que há entre 1936 e 1975”. “Ainda há pessoas que chegam até mim com lágrimas nos olhos e me dizem: obrigado pelo que o seu pai fez”.

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