Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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J.K. Rowling dá conselho a escritora iniciante

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Mulher usou as redes sociais para dizer que estava desanimada com seu trabalho e recebeu motivação da criadora da saga ‘Harry Potter’

Publicado no Estadão

J.K. Rowling é conhecida por dar respostas duras no Twitter. Além das diversas críticas a Donald Trump, por exemplo, ela já deu resposta a um homem misógino. Agora, porém, ela mostrou seu lado atencioso e incentivou uma internauta que estava com dificuldades para escrever.

“Eu gostaria de escrever como a J.K. Rowling e o Stephen King, mas é muito difícil para mim. Estou desmotivada. Nunca terminarei o meu livro”, postou a usuária Roi-Sorcier d’Angmar.

O desabafo chegou até a criadora do universo Harry Potter, que se prontificou a respondê-la e encorajá-la. “Não escreva como eu. Escreva como você, ninguém mais pode fazer isso.

Termine o livro!”, respondeu Rowling.

A usuária ficou muito feliz com a atenção dada pela autora e agradeceu: “Meu Deus, obrigada pela resposta! Você é a melhor pessoa do mundo!”. Outros internautas ficaram sabendo do desânimo da internauta e também mandaram suas mensagens de apoio.

Confira:

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Benjamin Moser: “O culto brasileiro a Clarice Lispector embaça sua vida”

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Escritor americano defende o gênero da biografia literária como uma simples interpretação

Andrea Aguilar, no El País

Uma transa de uma noite que acaba se tornando o amor da sua vida. Assim explica Benjamin Moser (Texas, 1976) seu idílio com a escritora Clarice Lispector. A grande e enigmática dama da literatura brasileira do século XX cruzou seu caminho por acasos acadêmicos: Moser se inscreveu no curso de chinês na universidade, mas como essa língua lhe pareceu impossível de aprender, ele trocou a disciplina por outra no mesmo horário e acabou sendo língua portuguesa. Nesse curso ele leu o romance A Hora da Estrela, de Lispector, e sentiu uma “estranha conexão”.

Mais de uma década depois, sua biografia da autora brasileira de origem ucraniana, de quase 500 páginas, atesta a força daquela paixão. Intitulada Clarice, uma Biografia (Companhia das Letras), foi traduzida em meia dúzia de idiomas. A escritora, nascida em 1922 em uma aldeia ucraniana no seio de uma família judaica e morta em 1977, no Rio de Janeiro, experimenta um novo renascimento graças a Moser, que não duvida em qualificá-la como a melhor escritora judia depois de Kafka e dirigiu a publicação das novas antologias de suas histórias nos EUA.

Carlos Rosillo

Carlos Rosillo

Há algumas semanas, em Madri, Moser falou sobre todos os lugares e pessoas que conheceu graças a Lispector. Mas há mais, porque, como quase sempre acontece, essa história de amor deu lugar à seguinte. Hoje, esse crítico literário radicado na Holanda e colaborador, entre outras publicações, da The New York Review of Books e da Harper’s consolida sua carreira de biógrafo respeitado com um novo livro que está finalizando, dedicado a outra escritora brilhante: Susan Sontag. “Quando estou muito ocupado com uma das duas, sinto que a outra fica zangada e me solicita. Isso é como ter duas mulheres, é como uma estranha necrofilia”, explica. “Mas não é. Simplesmente você tem a vida de alguém em suas mãos”.

Pergunta. O que liga sua escolha de escrever sobre Clarice Lispector e Susan Sontag?

Resposta. Quando comecei com Lispector as pessoas pensavam que eu estava louco, mas achava que todos iriam ficar fascinados com ela. Era praticamente desconhecida nos EUA. Com Sontag isso não acontece, mas, como acontece com todos os autores famosos, a ideia geral que se tem dela é muito estereotipada. A verdade é que leva muito tempo para conhecer alguém. Em ambos os casos, pensei que era importante deixar que fossem “estranhas”, respeitar sua perspectiva do mundo. Não são autoras fáceis porque exigem muito de seus leitores.

P. Muita teoria foi escrita sobre o que está por trás do trabalho de um biógrafo, como ele às vezes acaba escrevendo sobre si mesmo por uma pessoa interposta ou saldando alguma dívida. Qual foi o seu ponto de partida?

R. Eu me aproximei do gênero da biografia literária como um ato de amor, alheio às teorias. Queria conhecer melhor Lispector, como quando nos apaixonamos e queremos saber qual é a música favorita do outro ou por que odeia seu irmão. Comecei a escrever pensando que o meu livro seria uma chave e que as pessoas acabariam querendo ler mais coisas dela.

P. Uma das objeções mais comuns a esse gênero é que a obra de um autor fala por si mesma.

R. Quando você olha a vida dos artistas, entende que o trabalho é resultado de suas experiências. Mas o culto à figura de Lispector no Brasil ofuscava isso, seu mistério foi prejudicial, tinha fama de louca. A verdade é que você quer saber mais porque ela é muito magnética e sua figura inspira muita gente. Em 15 anos ela passou de refugiada, como milhões de sírios hoje, para se tornar em uma lendária dama do Rio.

P. No caso de Susan Sontag, além de seus ensaios, seus diários recentemente publicados mostram seu lado mais privado. O que falta ser mostrado?

R. Quando você se torna uma figura icônica como ela é, sua obra morre. Sontag escreveu crítica, teatro, contos, romances que são pouco conhecidos ou lidos hoje. Sua biografia, como no caso de Lispector, aborda uma leitura crítica de suas obras, o desafio intelectual que coloca.

P. Os desafios que uma e outra apresentam aos leitores estão relacionados?

R. São dois titãs que se aproximam do grande tema da metáfora. Sontag, por exemplo, escreve sobre a doença como metáfora – curiosamente, no ano em que Lispector morre – e rastreia incessantemente o uso social das metáforas. A brasileira sempre busca a verdade última que está escondida nas palavras. Remexer as palavras é uma tradição muito judaica.

P. A ausência de um rastro de papel, com a chegada dos computadores e da Internet, tornará impossível fazer biografias de escritores no futuro?

R. Eu deixei de imprimir meus textos e minhas cartas. Pensamos que a Internet é eterna e não é. No futuro, não haverá correspondência. Isso é assustador. Mas esse gênero não desaparecerá. Como disse Sontag, não há uma fotografia definitiva, nem uma biografia definitiva. As biografias são como a interpretação de uma peça musical. As pessoas confiam muito no retrato, mas é apenas uma maneira de contar, é a minha forma, minha história, e não a própria pessoa.

P. É preciso colocar limites sobre o que se conta sobre a vida de outra pessoa?

R. Quando você faz uma biografia, coloca seus dedos sujos no dinheiro, no sexo, na família e no trabalho artístico de outra pessoa. Mas o maior erro seria deixar tudo isso de fora porque esses são os vínculos que nos conectam, que nos tornam humanos. Se você quer que o relato de suas vidas tenha algum significado, não pode ignorar isso.

P. Aí surge a polêmica?

R. As pessoas reagem às biografias com muita veemência, mas, curiosamente, coisas que alguém poderia pensar que são ofensivas passam despercebidas, enquanto outros detalhes que parecem supérfluos acabam ferindo.

P. Como medir a distância?

R. Eu quero protegê-las, mas às vezes você não pode. Elas estão mortas. Você tenta tratá-las com gentileza, mas isso pode ser difícil porque você também quer ser sincero.

P. Você sente um dilema parecido como crítico?

R. Como crítico, rejeito a crueldade. Se você pensa sobre o que um romancista tentou fazer, mesmo que não goste, você está sendo respeitoso. Mas isso parece ter sido perdido. Acho que o papel da crítica deve ser encorajar a ler, a pensar, a descobrir. A cultura te enriquece ou te deixa frio, mas não há necessidade de humilhar o criador.

P. Quais lições tirou de suas pesquisas sobre Sontag e Lispector?

R. É interessante ver como as pessoas superam seus fracassos. Depois de um livro de sucesso às vezes vem outro que falha e depois outro que vai bem. Como escritor, é interessante ser espectador da carreira dos outros. São trajetórias longas e acidentadas. Há períodos de fama e dinheiro, e outros sem nada disso.

P. Os adiantamentos milionários que os autores estreantes recebem nos EUA acabam com isso?

R. A verdade é que a maioria dos escritores é tradicionalmente de profissionais de classe média. Hoje parece que há menos tempo e dedicação, é difícil pensar em construir uma trajetória literária de 50 anos.

P. Seus temas foram duas escritoras. O que define a relação das mulheres com a literatura?

R. É um assunto fascinante porque as escritoras não existiam praticamente até o século XX. Elas sofrem censura de ter filhos e não ter tempo. Escrevem dois romances e ninguém dá bola para o terceiro. Tornei-me especialista em ler resenhas de livros de mulheres e você vê a condescendência crua com a qual são julgadas. É incrível ver como elas encontraram força para continuar. Lispector começou com 15 e continuou até o fim. No caso de Sontag, é impressionante ver quantas mulheres talentosas começaram com ela e acabaram caladas.

P. O que você tirou de suas histórias sobre Sontag e Lispector?

R. Gostei de fazer o livro de Lispector por ser ingênuo. Com o de Sontag me senti mais ligado a uma história já estabelecida. Mas ela é uma figura tão complexa que te permite refletir sobre a criação artística, o ativismo político, a ciência ou a guerra. Eu gosto da relação matrimonial que tenho com eles: amá-las, odiá-las, alegrar-me com seus êxitos, ter vergonha. Nada que é delas me é alheio.

Novo livro de J. K. Rowling mescla boas passagens com momentos ingênuos

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

“A imaginação não é apenas a capacidade exclusivamente humana de idealizar o que não existe e, portanto, a fonte de toda invenção; em sua capacidade seguramente mais transformadora e reveladora, é o poder que nos permite sentir empatia pelas pessoas cujas experiências nunca partilhamos”.

Os momentos nos quais J. K. Rowling fala sobre a imaginação e, pela sua abordagem, consequentemente de empatia, são os mais interessantes do livro “Vidas Muito Boas”, que a Rocco acaba de lançar no país. A obra, ilustrada por Joel Holland, traz o discurso que a autora de “Harry Potter” fez em quando foi paraninfa de um grupo de formandos em Harvard, em 2008.

“Muitos preferem não utilizar de forma alguma sua imaginação. Preferem se manter confortavelmente dentro dos limites da própria experiência, sem jamais se dar ao trabalho de imaginar como seria ter nascido outra pessoa. Eles podem se recusar a ouvir gritos ou espiar dentro das celas; podem fechar a mente e o coração a qualquer sofrimento que não os afete pessoalmente; eles podem se recusar a tomar conhecimento”, registra a autora no texto que proferiu aos formandos.

Ainda que não seja obrigatório, é previsível que em um discurso do tipo o autor concentra a fala em sua biografia, e é isso que Rowling. Da trajetória pessoal enfocada, dois momentos merecem destaque. O primeiro é quando ela recorda o que aprendeu enquanto trabalhou no departamento de pesquisa africana da sede da Anistia Internacional em Londres: “Ali, em minha salinha, eu lia cartas escritas às pressas, e enviadas clandestinamente de regimes totalitários, por homens e mulheres que se arriscavam à prisão para informar ao mundo o que acontecia com eles. Vi fotografias daqueles que tinham desaparecido sem deixar rastros, enviadas à Anistia por familiares e amigos desesperados. Li o testemunho de vítimas de tortura e vi imagens de seus ferimentos. Abri relatos de testemunhas oculares, escritos de próprio punho, sobre julgamentos e execuções sumárias, raptos e estupros”.

O outro é quando conta sobre sua decisão de estudar academicamente mitologia e as obras clássicas – ela é formada em Línguas Clássicas e Literatura Francesa -, algo que contrariava a vontade de seus pais, mas acabou sendo fundamental para que tivesse base para escrever sua famosa saga (e para que pudesse pontuar sua fala com citações de gente como Plutarco e Sêneca, que surgem como luxuosos acessórios no discurso).

“Eu estava convencida de que a única coisa que queria fazer, na vida, era escrever romances. Meus pais, porém, que tiveram origem pobre e não se formaram na universidade, consideraram minha imaginação fértil uma idiossincrasia divertida que jamais pagaria uma hipoteca ou garantiria uma aposentadoria […]. De todas as matérias deste planeta, creio que para eles seria difícil citar uma menos útil do que mitologia grega quando a questão é garantir a chave de um banheiro executivo”.

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Fracasso

A imaginação não é o único eixo no qual Rowling apoia seu discurso. Nele, também fala bastante sobre o fracasso, algo que, como ela mesmo diz, provavelmente seja pouco familiar para quem está se formando em Harvard (ou no mínimo baseado em padrões muito mais elevados do que o fracasso de um cidadão médio). Para tal, a escritora lembra do seu próprio fundo do poço: sete anos depois que se formou, o casamento implodiu, ficou desempregada, tornou-se mãe solteira e era tão pobre “quanto é possível ser na Inglaterra moderna, sem ser uma sem-teto”. O que tirou daquele momento? As forças para escrever “Harry Potter”, claro.

“Fracassar significa se despojar do que não é essencial. Parei de fingir para mim mesma que eu era qualquer outra coisa além do que realmente era e comecei a direcionar toda a minha energia para a conclusão do único trabalho que me importava. Se de fato tivesse obtido sucesso em outra coisa qualquer, talvez jamais encontrasse a determinação para vencer na única arena a que eu acreditava verdadeiramente pertencer”, diz Rowling.

É nesse momento que seu discurso soa bastante ingênuo, com um tom próximo da autoajuda. Ora, ela soube lidar com o fracasso e conseguiu criar algo que lhe trouxe um enorme sucesso alguns anos depois – a saga do bruxo está traduzida para 79 línguas e já vendeu mais de 450 milhões de exemplares -, mas isso está longe de ser uma regra, não é mesmo? Ela poderia ter direcionado toda a energia e determinação para a única arena na qual acreditava verdadeiramente pertencer e ainda assim colher apenas um novo fracasso, como acontece com a maioria por aí. Apenas concentrar forças não costuma ser suficiente para que as pessoas consigam algo. Também é preciso uma conjunção de outros fatores que vão desde uma base sólida para que o trabalho seja realizado – a formação e a imaginação de Rowling, no caso – até fatores que fogem do controle da própria pessoa, como achar algum editor que aposte naquilo e leitores receptivos à história.

Outro momento de certa ingenuidade é o final do discurso da escritora: “Se vocês escolherem usar seu status e sua influência para elevar a voz por aqueles que não têm voz; se escolherem se identificar não apenas com os poderosos, mas também com aqueles que não têm poder; se vocês conservarem a capacidade de se imaginar na vida dos que não possuem as mesmas vantagens que vocês, então não serão apenas suas famílias orgulhosas que irão comemorar sua existência, e sim milhares e milhões de pessoas cuja realidade vocês ajudaram a mudar para melhor. Não precisamos de magia para mudar o mundo; todos já temos dentro de nós o poder de que precisamos: o poder de imaginar melhor”.

Sei que são palavras reconfortantes, mas é difícil acreditar que haja tantas pessoas assim que não imaginem um mundo melhor. No entanto, como aponta, isso precisa ser levado à prática; boas ideias que não saem da cabeça infelizmente não mudam a realidade de ninguém. Além disso, para que uma mudança profunda aconteça, na maior parte das vezes é preciso romper ou conflitar com os poderosos, não apenas olhar também para os que não têm poder; é preciso tirar ou diminuir o poder de um e transferi-lo para o outro. Apesar de certas virtudes de Rowling, quando o assunto é discurso de paraninfo, é melhor ficarmos com o “Isto é Água”, do David Foster Wallace.

 

Marina Colasanti é a primeira atração confirmada na Feira do Livro de Joinville de 2018

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Marina Colasanti já esteve em Joinville junto com o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant'anna Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Marina Colasanti já esteve em Joinville junto com o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant’anna
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Rubens Herbst, no Diário Catarinense

Na última vez que Marina Colasanti esteve em Joinville foi em 2013, participando da Feira do Livro junto com o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant’anna. Desde então, ganhou um segundo Prêmio Jabuti (em 2014, por Breve História de Um Pequeno Amor), apenas um louro a mais na trajetória de uma das maiores autoras de contos, crônicas e livros infantojuvenis do País.

É nessa condição que ela voltará à Feira do Livro de Joinville no ano que vem. Ao seu lado estará novamente Sant’anna, escritor, poeta, cronista e ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. O casal será anunciado como uma das atrações do evento durante o lançamento oficial da 15ª edição, marcada para as 9 horas desta terça-feira (26), na Livraria A Página.

O tema da edição, as homenagens, novidades e outros convidados estão na pauta do encontro. A Feira do Livro de Joinville de 2018 acontecerá de 7 a 18 de junho no Expocentro Edmundo Doubrawa e adjacências.

Paula Hawkins: conversamos com a autora de ‘A Garota do Trem’

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Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

Emily Blunt no filme de A Garota do Trem (Foto: Divulgação)

Isabela Moreira, Galileu

Um lugar perigoso para mulheres encrenqueiras: é assim que o vilarejo de Beckford, na Inglaterra, é descrito em Em Águas Sombrias (Editora Record, 364 páginas, R$ 42,90). Lançado no Brasil em maio deste ano, o livro é o segundo de suspense de Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem, thriller que se tornou best-seller mundial e foi adaptado para os cinemas em 2016.

Hawkins passou anos da carreira trabalhando como jornalista até ser convidada por uma editora para escrever livros de comédia romântica. “Eu gosto do gênero, mas nunca me senti confortável escrevendo sobre ele”, afirmou a escritora em entrevista à GALILEU.

Após quatro livros do tipo, decidiu mudar de rumo. “Estava muito mais interessada nos thrillers, que eram os tipos de livros que gosto de ler.”

Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

Paula Hawkins, autora de A Garota do Trem e Em Águas Sombrias (Foto: Alisa Connan)

Inspirada em grandes autoras contemporâneas do gênero, como Donna Tartt e Kate Atkinson, a autora lançou A Garota do Trem, suspense no qual aborda alcoolismo e violência doméstica.

O sucesso garantiu o novo livro, Em Águas Sombrias, cujos direitos de adaptação cinematográfica já foram adquiridos pela DreamWorks. A história conta, a partir da perspectiva de diversos moradores de Beckford, os casos de mulheres encontradas mortas no rio do vilarejo. A partir das investigações surgem discussões sobre memória, abuso sexual, suicídio e luto.

De passagem pelo Brasil para participar da Bienal do Livro Rio de 2017, Paula Hawkins conversou com a GALILEU sobre seu novo livro, feminismo e processos de escrita. Leia abaixo:

Você chega a se sentir sobrecarregada com a experiência de escrever sobre temas tão pesados?

Muitas coisas horríveis acontecem em Em Águas Sombrias. Escrever da perspectiva da mãe de Katie Whittaker, uma adolescente que é encontrada morta, foi particularmente triste. Em alguns momentos me pergunto o motivo de estar escrevendo sobre esses assuntos, mas acho que é interessante trabalhar essas ideias e possivelmente trazer um pouco de esperança para alguns dos personagens.

Nos seus livros você lida com a parte mais obscura da experiência de ser uma mulher em um mundo conduzido pelos homens. Por que abordar esse tema?
Como uma mulher, é algo sobre o que penso e que me preocupa. A violência doméstica é um problema que persiste no Reino Unido e continua a piorar — não só lá como em outros países, como o Brasil, a Argentina e a Colômbia, onde a violência contra a mulher é aguda. São assuntos importantes de se confrontar e sobre os quais temos que continuar pensando e escrevendo. Algo precisa ser feito e para isso precisamos continuar a trabalhar com esses temas.

Várias séries de TV e livros estão indo na mesma linha e fazendo bastante sucesso. Isso tem a ver com o momento pelo qual estamos passando, em que feminismo e direitos humanos estão sendo mais discutidos do que nunca, ou as pessoas sempre quiseram narrativas do tipo e não tinham acesso a elas?
Acredito que as coisas acontecem em ciclos. Boa parte da cultura é dominada pelo que acontece nos Estados Unidos e o fato de eles terem um presidente que fala daquela forma sobre as mulheres faz com que ocorra discussão em torno do assunto.

Tem muitas coisas acontecendo no mundo que exigem que falemos sobre isso. Incidentes horríveis ocorreram na Índia e levaram a um ressurgimento do feminismo no país e sei que o Brasil passou por episódios horrendos também. Então acredito que há momentos em que as coisas parecem se encaixar e todos querem falar sobre elas: devemos aproveitar o timing e falar o máximo que podemos, para que cheguemos ao momento em que não estamos só falando, estamos de fato resolvendo o problema.

Tem cada vez mais mulheres por trás dessas séries e livros…

Sim, o fato de as mulheres estarem no comando de boa parte do que é popular na cultura também ajuda.

Você se considera feminista?

Com certeza.

Em Em Águas Sombrias você tem vários narradores diferentes. Como foi o processo de escrever de cada perspectiva?
Foi difícil, não planejava ter tantos narradores. Mas conforme fui escrevendo a história, percebi que esse era o melhor jeito que contá-la: ter um coral de vozes, cada uma delas guardando seus próprios segredos, pensei que era melhor o leitor ouvir um pouco de todos. Comecei com Jules e Erin e fui expandindo porque as duas sozinhas não tinham como saber de todos os eventos que estavam acontecendo.

A dificuldade para mim foi decidir quem deveria estar falando em qual momento e decidir qual incidente passaria pela perspectiva de quem, tive que reescrever diversas vezes passagens do livro de perspectivas diferentes para descobrir de qual gostava mais. Algumas narrativas foram mais fáceis que as outras: Louise, a mãe da menina que morreu, foi difícil, já de Nickie Sage gostei porque ela era meio estranha.

E tudo se passa em uma cidade pequena, o que torna tudo ainda mais claustrofóbico…
E essa era a sensação que eu queria que as pessoas tivessem. Cidades pequenas podem ser claustrofóbicas: todo mundo sabe o que todo mundo está fazendo, não dá para fazer nada sem seu vizinho ver ou os pais dos seus amigos te dedurarem. Um está prestando atenção ao outro e acredito que essa claustrofobia faz com que as pessoas ajam em segredo, em particular os mais novos, que não querem que seus pais saibam o que estão fazendo.

Outro tema forte do livro é a memória. O que torna essa abordagem interessante para você?
Sou fascinada pela forma como a memória funciona ou não e como estruturamos diferentes narrativas para nós mesmo. A memória justifica as pessoas que nos tornamos, mas nem sempre é confiável: as pessoas podem mudar a história após anos a repetindo. Às vezes sem querer ou por não encarar um evento traumático e trágico. Outras é só para despistar as pessoas.

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