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Jogos Vorazes e Crepúsculo podem ganhar novos filmes

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Presidente da Lionsgate diz que tudo depende dos autores dos livros

Thiago Romariz, no Omelete

Em entrevista à Variety, o presidente da Lionsgate John Feltheimer disse que ainda não chegou ao fim a vida das franquias Crepúsculo e Jogos Vorazes no cinema. No entanto, há uma condição para isso tomar vida: a boa vontade das criadoras Stephenie Meyer e Suzanne Collins.

“Existem muitas histórias para contar e nós estaremos prontos para mostrá-las assim que as autoras dos livros também estiverem”, disse durante uma reunião de acionistas do estúdio na última terça.

O executivo também confirmou a intenção da Lionsgate de se aproximar de serviço de streamings, estreitando a relação entre cinema e vídeos sob demanda. Apesar disso, nenhum tipo de projeto sobre as franquias foi comentado.

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler

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Foto: Flickr/Janafalk/Creative Commons)

Foto: Flickr/Janafalk/Creative Commons)

 

Giuliana Viggiano e Júlio Viana, na Galileu

Quando o assunto é literatura feminina no Brasil, os primeiros nomes que vêm à mente podem ser os de Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles ou Rachel de Queiroz. Muitas das autoras dos anos mais recentes ainda são pouco conhecidas, embora já tenham publicado obras excelentes.

Pensando nisso, a GALILEU escolheu 14 livros contemporâneos que podem te ajudar a conhecer talentos das novas gerações.

Noites de Alface, de Vanessa Barbara (Objetiva)
Este romance conta a história de Otto, que fica viúvo após 50 anos casado com Ada. Vivendo o luto, o senhorzinho começa a pensar no passado e a conversar com a vizinhança. A cada dia Otto desconfia mais e mais que há um mistério que os vizinhos tentam esconder e, baseado nas séries policiais que adora, vai atrás de mais pistas.

Depois a Louca Sou Eu, de Tati Bernardi (Companhia das Letras)
Com muito humor, a escritora e roteirista conta como lida com a ansiedade e outros problemas da vida moderna. Sua história real se confunde com as de seus namorados e amigos, fazendo com que qualquer pessoa com ansiedade se identifique pelo menos um pouquinho com as situações hilárias apresentadas nas 144 páginas.

Opisanie Swiata, de Veronica Stigger (Cosac Naify)
O primeiro romance da escritora narra a história do polonês Opalka, que descobre um filho brasileiro que está internado em estado grave na Amazônia e decide ir visitá-lo. Em sua jornada, terá a companhia de Bopp, turista brasileiro que larga a viagem pela Europa para ajudá-lo. O mais interessante é que o livro compreende diferentes gêneros literários: carta, relato e até fragmentos de documentos da década de 1930, período em que se passa a narrativa.

Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (Alfaguara)
A obra conta a história das irmãs Clarice e Maria Inês, filhas de um fazendeiro do Rio de Janeiro fadadas a viverem uma vida pré-determinada. O livro explora os horrores e a sensibilidade da vida e o caminho traçado pelas irmãs para superar o passado.

Olhos d’Água, de Conceição Evaristo (Editora Pallas)
Este livro foi ganhador do Prêmio Jabuti de 2015 na categoria de contos e crônicas. Sem meias-palavras, Evaristo se volta à história dos negros no Brasil para destacar a pobreza e a violência que sofrem os afro-brasileiros.

Rua da Padaria, de Bruna Beber (Record)
Esta obra da poeta Bruna Beber conta histórias de sua infância e adolescência na Baixada Fluminense, quando brincava e conversava com as pessoas de sua rua. A obra tem um tom nostálgico apesar da pouca idade da autora, só 33 anos.

As Águas-vivas Não Sabem de si, de Aline Valek (Rocco)
A protagonista, Corina, faz parte de uma equipe de pesquisas de trajes para serem utilizados no fundo do mar. Em uma de suas expedições, a garota embarca com mais quatro pessoas e é obrigada a conviver com os próprios dilemas e os dilemas dos outros. É uma história sobre solidão, sobre ouvir o outro e sobre estar cercado por diversas outras vozes.

Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente, de Luisa Geisler (Alfaguara)
Nesta linda e dramática obra, Geisler conta a história de Henrique, que mora em Porto Alegre e leva uma vida normal até seu melhor amigo, Gabriel, sofre um acidente banal dentro de casa e é internado em coma. Com esperança de que o garoto um dia melhore, mesmo os médicos falando que só resta esperar, Henrique começa a escrever cartas para o amigo.

Um Útero É do Tamanho de um Punho, de Angélica Freitas (Cosac Naify)
Em seu segundo livro de poesia, Freitas transita entre a seriedade e o humor para falar sobre a figura da mulher e do feminino no mundo, a forma que foram construídos e como se desconstroem incessantemente.

O Livro das Semelhanças, de Ana Martins Marques (Companhia das Letras)
Também poeta, Marques escreve, em sua terceira obra, poemas sobre a tentativa de mover e mudar o mundo por meio de palavras. A autora fala do mundo diretamente e faz isso de forma iluminadora e sensível.

A Chave de Casa, de Tatiane Salem Levy (Record)
Um pouco autobiográfico, o livro conta a história de uma garota descendente de judeus turcos. Na narrativa, a menina recebe do avô a chave da casa da família em Esmirna, na Turquia, onde deve buscar suas origens.

Pó de Parede, de Carol Bensimon (Não Editora)
Neste livro, Bensimon conta com muito sarcasmo e delicadeza três histórias sobre a juventude. Em uma Alice volta à casa onde cresceu e revive a tragédia de sua vida; em outra, as irmãs Lina e Titi têm a vida profundamente abalada por uma obra misteriosa; na última, Clara é uma futura escritora e viaja para um hotel na serra.

Carvão Animal, de Ana Paula Maia (Record)
O romance conta a história de dois irmãos, o bombeiro Ernesto Wesley e o funcionário de um crematório Ronivon. Durante toda a narrativa, uma tragédia do passado vai persegui-los, além de uma inevitável relação com o fogo. O livro acompanha, com muito sangue e muita violência, uma história que tira o ar do leitor a cada página.

O Que Deu para Fazer em Matéria de História de Amor, de Elvira Vigna (Companhia das Letras)
É uma história que pode ser vista sob duas óticas: um romance ou um assassinato. Intercalando a vida de um casal que já morreu com a da própria narradora, a autora constrói de forma fantástica o que pode ser um conto de amor ou suspense — ou até os dois juntos.

Símbolo de combate ao racismo, escola quer levar nome de escritora favelada

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Reinaldo Canato/UOL

Reinaldo Canato/UOL

 

“Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnancia. Percebo seus olhares de odio porque êles não quer a favela aqui. Que a favela deturpou o bairro. Que tem nojo da pobrêza. Esquecem êles que na morte todos ficam pobres.”

Publicado no UOL

Mantidas em sua grafia original, exatamente como foram publicadas em 1960, estas linhas foram redigidas por uma das mais importantes escritoras brasileiras do século passado, Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

No livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, ela narra, a partir de sua própria experiência de vida, as agruras de uma comunidade miserável às margens do rio Tietê. O bairro ao qual se refere no trecho é o Canindé, na região central de São Paulo, onde ficava o barraco de madeira que dividia com os filhos. Quase 60 anos depois, a vizinhança já não lança olhares de ódio para a favela, demolida às pressas após a enorme repercussão da obra. Agora, ao contrário, a área prepara-se para, enfim, homenagear a sua ilustre ex-moradora.

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de 'Quarto de Despejo' - Acervo UH/Folhapress

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de ‘Quarto de Despejo’ – Acervo UH/Folhapress

 

O nome de Carolina batizará a EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Infante Dom Henrique, próxima de onde a autora viveu. A alteração, decidida num referendo entre alunos, professores, funcionários e pais de estudantes, traz também a carga simbólica de resgatar a memória de uma mulher negra migrante num colégio público frequentado por muitos estrangeiros –em especial, bolivianos e angolanos.

Reinaldo Canato/UOL

Reinaldo Canato/UOL

 

Escola tem mural com discussões sobre o racismo

A novidade se insere num quadro de atividades promovidas pelos gestores da escola para combater práticas racistas e xenofóbicas entre os alunos. O diretor da unidade, Cláudio Marques da Silva Neto, conta que, quando assumiu o cargo, em 2011, eram frequentes as ofensas dessa natureza, e as crianças bolivianas chegavam ao ponto de andar separadas das demais, para evitar assédios.

Desde então, com projetos voltados à valorização da diversidade cultural, étnica e racial, a situação melhorou substancialmente. Recentemente, a Unesco, braço da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, convidou a unidade para integrar o seu programa mundial de escolas associadas.

“Foi a partir da discussão do tema das identidades que se pensou em levar essa questão às últimas consequências, inclusive com o nome da escola, já que, para nós e para os pais, como expresso na votação, o nome Infante Dom Henrique [nobre português do século 15] não diz muito sobre nós”, explica Silva.

Entre fevereiro e novembro, diversas reuniões foram realizadas e a comunidade escolar pôde indicar nomes para a substituição. As sugestões foram, além de Carolina Maria de Jesus, o escritor Ariano Suassuna, a pintora mexicana Frida Kahlo e a escritora Patrícia Galvão. Com 432 eleitores contabilizados, uma votação final resultou na escolha de Carolina, preferida por 42% dos votantes.

Inaugurada em 1960, a escola tem cerca de 530 alunos — cerca de um quinto é de estrangeiros. O processo agora resultará num projeto de lei que será encaminhado por um vereador na Câmara Municipal, onde deve ser aprovado, para depois seguir para a sanção do prefeito.

Não é a primeira vez que uma escola pública paulistana decide trocar de nome para enfatizar sua luta por uma sociedade mais igualitária. Em junho passado, a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Guia Lopes, no Limão, na zona norte, conseguiu modificar sua denominação para homenagear o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), expoente da luta contra o apartheid que vigorou em seu país até a década de 1990. Há alguns anos, os muros e portões da unidade, que desenvolve trabalhos para estimular a diversidade, foram pichados com inscrições racistas.
Voz para a comunidade

 

Reinaldo Canato/UOL

Cláudio Marques da Silva Neto, diretor da escola municipal – Reinaldo Canato/UOL

 

 

A vida e a obra da homenageada Carolina Maria de Jesus entrarão no dia a dia dos estudantes, pais e professores. “Assim que o projeto de lei for votado na Câmara de Vereadores, nós faremos a reinauguração da escola com uma mesa de debate que possivelmente contará com a filha da escritora [Vera Eunice, que também é professora pública]”, afirma Silva, acrescentando que os livros de Carolina farão parte do currículo da unidade em 2017.

Para Cesar Luís Sampaio, professor de informática educativa da escola, a troca reforçará os laços de identidade entre estudantes, funcionários e vizinhança. “Simbolicamente vai dar um novo impulso às discussões raciais e sociais em nossa escola. É dar protagonismo para nossa gente, nossa comunidade, nossa realidade social. É dar luz para a população que sempre foi ofuscada. É dar voz àqueles que nunca tiveram oportunidade de falar. Desejamos o empoderamento popular.”

Pai de um aluno do 9º ano, o administrador de empresas Sidnei Palmieri, 48, fez questão de matricular seu filho no colégio, apesar de a família morar longe dali, no bairro de Lauzane Paulista, na zona norte. “Resolvi colocá-lo nessa escola devido à qualidade de ensino, ao respeito e principalmente às oportunidades oferecidas.”

Antes dos debates sobre a alteração de nome, ele ainda não havia tido contato com a trajetória de Carolina. “Soube que sua obra é reconhecida em muitos países, mas que, infelizmente, é muito pouco aqui no Brasil.”

Nascida em Sacramento, no interior de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus desembarcou na Estação da Luz, em São Paulo, em 1937. Mãe solteira, trabalhou como catadora de papéis para sustentar os três filhos, até ser alçada à fama repentina, com a publicação de seu primeiro livro, a partir dos muitos escritos que produzia cotidianamente.

Suas obras, que incluem “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome”, “Provérbios” e o póstumo “Diário de Bitita”, foram traduzidos para muitos idiomas, entre os quais o inglês, o espanhol e o francês. Nos Estados Unidos, seus livros são constantemente reeditados e estudados.

O nome de Carolina já é utilizado por uma EMEI na Vila Dalva, na zona oeste. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, não haverá conflito quando a EMEF Infante Dom Henrique ganhar a sua nova denominação, pois as unidades oferecem etapas de ensino diferentes.

Escritoras dizem que livros de ficção ajudam a superar doenças

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biblioteca

Publicado no Saúde Abril

Elas se conheceram enquanto estudavam literatura na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e, desde então, tornaram-se amigas inseparáveis. Entre uma indicação de livro e outro, Ella e Susan criaram o serviço de biblioterapia, em que ficções são prescritas para tratar os mais diferentes males — de câncer e perna quebrada a falta de entusiasmo e enjoo matinal.

O resultado desse trabalho é o recém-lançado Farmácia Literária (Verus Editora), que reúne prescrições de leituras para tudo o que é chateação. Fizemos uma entrevista exclusiva por e-mail com a dupla, que você confere abaixo. E não perca: na edição de janeiro de SAÚDE, que chega às bancas na semana que vem, você poderá conferir uma reportagem completa sobre o livro.

A biblioterapia é bem conhecida e aceita no Reino Unido?

Quando nós dizemos que somos biblioterapeutas, a maioria das pessoas dizem: “O que é isso?”. Então, não, o conceito é bem novo por aqui também. A palavra foi retirada do Grego Antigo e significa “curar por meio dos livros”. O conceito é o mesmo desde aquela época.

Mas nós gostamos de pensar que somos as primeiras a trazê-lo para o uso contemporâneo. É interessante notar a forma como as pessoas reagem quando explicamos. Algumas simplesmente não entendem (provavelmente elas não leem ficção). Já as que compreendem geralmente dizem para nós: “Por que alguém não pensou nisso antes?”

É como se todos soubéssemos subconscientemente que, além do entretenimento, mudamos quando lemos romances. Só não tínhamos um nome para isso. Outro dia nós estávamos dando uma palestra na França e, no final, um sujeito chegou até a gente e disse: “Vocês deram sentido para minha vida. Eu li ‘biblioterapeuticamente’ durante toda a minha vida e não sabia disso”.

Vocês acham que é possível implementar um programa de biblioterapia em hospitais e asilos? Como uma iniciativa dessas poderia beneficiar os pacientes?

Sim, estudos estão mostrando que ler pode ser extremamente efetivo para estresse, ansiedade e até mesmo para casos de depressão moderada e falta de confiança. Nós amaríamos ver uma cópia de Farmácia Literária na sala de espera de todos os especialistas. No Reino Unido, os médicos da família podem se valer de um esquema de prescrição de livros. A ideia surgiu a partir da Agência de Leitura, uma organização não governamental que seleciona obras para pacientes depressivos.

Por que vocês resolveram prescrever apenas livros de ficção? Como eles podem ajudar alguém a superar seus problemas?

De certa maneira, nós estamos reagindo à expansão dos livros de autoajuda que ocorreu durante os anos 1990. Nós sentimos que a literatura era uma fonte poderosa subutilizada. E olha que é difícil pensar em problemas da vida que não tenham sido experimentados por algum personagem literário de maneira bastante intensa.

Na ficção, nós encontramos a experiência humana em sua maneira mais profunda e intensa. São fatos que não são explorados como deveriam nas interações do dia a dia. Ler sobre personagens que passaram ou sentiram coisas que estou vivenciando agora nos deixa menos solitários.

E, claro, outros livros nos mostram como olhar sob diferentes ângulos, além de nos inspirar a tomarmos atitudes que são grandes. Existe uma relação entre a “teoria da mente” e ler ficções literárias, de acordo com estudos recentes. A leitura desenvolve nossa capacidade de empatia, de nos colocar no lugar do outro. Pois é isso que fazemos nos livros: ver as coisas de outra perspectiva.

Mas vocês não acham que outros estilos de livros — como as biografias e os de autoajuda — não poderiam ser uma importante ferramenta para tratar algumas doenças?

Susan Elderkin: Certamente existe um espaço para os livros de autoajuda. Eu me lembro de ler um deles nos anos 1990 e ficar bem inspirada. Mas ter contato com a coragem de Atticus Finch, de O Sol é para Todos [escrito por Haper Lee] foi o que realmente ficou comigo por muitos e muitos anos. Ele sentia o medo e fazia as coisas mesmo assim.

Eu não lembro praticamente nada daquele livro de autoajuda. Mas eu nunca me esquecerei de como Atticus Finch permaneceu firme naquilo que acreditava, em oposição a toda uma comunidade sedenta por sangue. Biografias também podem ser bastante inspiradoras. Mas nós geralmente já conhecemos como nosso herói de carne e osso é — mesmo que ele seja uma pessoa como Gandhi, Steve Jobs ou Cristiano Ronaldo.

É muito mais difícil achar a ficção certa, ou seja, saber qual delas vai me ajudar a superar um relacionamento malsucedido ou qual me dará o empurrão necessário para largar o emprego em que estou preso por anos. A literatura — a melhor literatura — é sobre como navegamos nosso próprio caminho por meio dos obstáculos da vida. Seu território é a própria vida e a forma como lidamos com o dia a dia. Nós não podemos imaginar passar toda a existência sem romances e histórias que nos ajudem a situar quem somos. O que importa para nós é explorar os diferentes significados do que é ser humano.

Uma pergunta pessoal: qual livro foi o responsável pelo amor pela leitura que vocês possuem?

Susan Elderkin: Para mim foi O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e as aventuras subsequentes que se passam em Nárnia na famosa série escrita por C.S. Lewis. Eu me lembro de, quando criança, ler escondida atrás da porta de meu quarto, porque torcia para que ninguém me encontrasse e me fizesse descer para o jantar.

Eu viajei para muitos universos por meio desse livro. Nárnia foi real e vívida para mim mais do que qualquer coisa que experimentei. As emoções que me fez sentir foram fortes. Anos depois, quando eu era estudante na Universidade de Cambridge — onde conheci Ella nas aulas de literatura inglesa —, havia um estacionamento onde fomos andar de bicicleta várias vezes. Eu sempre fui meio mística em relação àquele lugar. Esperava o momento de acender a minha lanterna na névoa e, no meio do caminho, encontrar sem querer o poste de Nárnia e o Mr. Tummus, o fauno que guia Lucy nas primeiras incursões pela nova terra.

Eu pensava que todo mundo imaginava a mesma coisa nesse lugar. Eu amo saber que a leitura é uma experiência compartilhada como esta. Pense como é para a geração que viveu com Harry Potter. Todos eles cresceram conhecendo as mesmas pessoas, passeando pela mesma escola, por meio dos meios livros. Eles dividiram uma cultura!

Ella Berthoud: Foi Os 101 Dálmatas, de Dodie Smith, que me encantou. Foi o primeiro livro que me lembro de ler. Eu fiquei presa naquela narrativa trágica do sequestro dos filhotes. As descrições vívidas do chá e da torrada e o fogo que fazem parte do livro ficaram comigo para sempre. Essa ainda é, até os dias de hoje, a minha leitura de conforto preferida.

A edição brasileira do livro Farmácia Literária inclui alguns dos mais importantes escritores da língua portuguesa, como Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Eça de Queiróz e José Saramago. Qual a importância de adaptar para cada país?

Nosso livro já foi publicado em mais de 20 países e nós sabíamos desde o começo que seria absolutamente vital que cada edição abraçasse a literatura local. Precisávamos incluir os títulos que formaram e moldaram a psique da nação ao longo das gerações.

Leitores contemporâneos precisam ver o mundo que eles conhecem refletido em nosso livro, na linguagem que é a mais confortável possível. Então nós trabalhamos para que cada edição fosse mudada em 25 a 30% com novas sugestões de leituras e, em alguns casos, novas curas. Alguns novelistas que escrevem em português já faziam parte do Farmácia Literária original. José Saramago, que nós duas adoramos, e também Fernando Pessoa, cujo Livro do Desassossego é a solução para a insônia.

Claro, nenhum desrespeito pelo Pessoa. Nós amamos seu ritmo compassado, quase soporífico. A coisa mais maravilhosa sobre esse livro é que não há problema se você dormir no meio de uma sentença ou se você se esquecer onde parou na noite anterior. É um texto que perdoa e ama de um jeito que te coloca numa espécie de transe. E não é tão excitante. Logo, é uma ótima coisa para passar os olhos se você não consegue pregá-los.

Eu li Farmácia Literária inteiro e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o estilo leve e humorístico. Vocês acham que essa forma de escrever ajuda a cativar os leitores?

O livro está cheio de piadas, provavelmente por causa de nossa amizade. Como toda boa amizade, ela está baseada num senso de humor compartilhado. Nós amamos falar sobre literatura e sempre rimos muito juntas — o livro apenas reflete isso. Em alguns trechos, só escrevemos para fazer a outra gargalhar.

Nós acreditamos que o bom humor é importante a toda boa escrita. Os melhores novelistas usavam o humor, mesmo que suas histórias fossem sobre algo triste, sério ou terrível. O humor pode e deve coexistir com a escuridão.

Ana Maria Machado é a homenageada da Flica 2016

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Ana Maria estará na Flica, onde participará da mesa O Mar, um Mapa, a Audácia, que acontece no dia 14, às 19h

Publicado no Correio 24 Horas

A 6ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que acontece de 13 a 16 de outubro, no município de Cachoeira, no Recôncavo, já tem homenageada: será a escritora carioca Ana Maria Machado, vencedora de três Prêmios Jabutis.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

 

Além de receber todas as honras da festa literária, Ana Maria estará na Flica, onde participará da mesa O Mar, um Mapa, a Audácia, que acontece no dia 14, às 19h.

Na Flica, evento realizado pela iContent, a autora baterá um papo com a professora Mônica Menezes, responsável pelo projeto de pesquisa na área de literatura infantojuvenil da Ufba. Ana Maria Machado é vista pela crítica como uma das mais versáteis e completas escritoras brasileiras contemporâneas. Ela mesma diz: “Já fui professora, já fui jornalista, já fiz programa de rádio, já tive uma livraria e nesse tempo todo nunca parei de escrever”.

Autora popular e muito conceituada no segmento infantil, Ana Maria foi presidente da Academia Brasileira de Letras e em sua gestão deu especial ênfase a programas sociais de expansão do acesso ao livro e à leitura nas periferias e comunidades carentes. Ao longo de 40 anos escrevendo, publicou mais de cem livros (dos quais 9 romances e 8 de ensaios), com mais de vinte milhões de exemplares vendidos, lançados em vinte idiomas e 26 países.

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