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Símbolo de combate ao racismo, escola quer levar nome de escritora favelada

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Reinaldo Canato/UOL

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“Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnancia. Percebo seus olhares de odio porque êles não quer a favela aqui. Que a favela deturpou o bairro. Que tem nojo da pobrêza. Esquecem êles que na morte todos ficam pobres.”

Publicado no UOL

Mantidas em sua grafia original, exatamente como foram publicadas em 1960, estas linhas foram redigidas por uma das mais importantes escritoras brasileiras do século passado, Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

No livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, ela narra, a partir de sua própria experiência de vida, as agruras de uma comunidade miserável às margens do rio Tietê. O bairro ao qual se refere no trecho é o Canindé, na região central de São Paulo, onde ficava o barraco de madeira que dividia com os filhos. Quase 60 anos depois, a vizinhança já não lança olhares de ódio para a favela, demolida às pressas após a enorme repercussão da obra. Agora, ao contrário, a área prepara-se para, enfim, homenagear a sua ilustre ex-moradora.

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de 'Quarto de Despejo' - Acervo UH/Folhapress

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de ‘Quarto de Despejo’ – Acervo UH/Folhapress

 

O nome de Carolina batizará a EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Infante Dom Henrique, próxima de onde a autora viveu. A alteração, decidida num referendo entre alunos, professores, funcionários e pais de estudantes, traz também a carga simbólica de resgatar a memória de uma mulher negra migrante num colégio público frequentado por muitos estrangeiros –em especial, bolivianos e angolanos.

Reinaldo Canato/UOL

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Escola tem mural com discussões sobre o racismo

A novidade se insere num quadro de atividades promovidas pelos gestores da escola para combater práticas racistas e xenofóbicas entre os alunos. O diretor da unidade, Cláudio Marques da Silva Neto, conta que, quando assumiu o cargo, em 2011, eram frequentes as ofensas dessa natureza, e as crianças bolivianas chegavam ao ponto de andar separadas das demais, para evitar assédios.

Desde então, com projetos voltados à valorização da diversidade cultural, étnica e racial, a situação melhorou substancialmente. Recentemente, a Unesco, braço da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, convidou a unidade para integrar o seu programa mundial de escolas associadas.

“Foi a partir da discussão do tema das identidades que se pensou em levar essa questão às últimas consequências, inclusive com o nome da escola, já que, para nós e para os pais, como expresso na votação, o nome Infante Dom Henrique [nobre português do século 15] não diz muito sobre nós”, explica Silva.

Entre fevereiro e novembro, diversas reuniões foram realizadas e a comunidade escolar pôde indicar nomes para a substituição. As sugestões foram, além de Carolina Maria de Jesus, o escritor Ariano Suassuna, a pintora mexicana Frida Kahlo e a escritora Patrícia Galvão. Com 432 eleitores contabilizados, uma votação final resultou na escolha de Carolina, preferida por 42% dos votantes.

Inaugurada em 1960, a escola tem cerca de 530 alunos — cerca de um quinto é de estrangeiros. O processo agora resultará num projeto de lei que será encaminhado por um vereador na Câmara Municipal, onde deve ser aprovado, para depois seguir para a sanção do prefeito.

Não é a primeira vez que uma escola pública paulistana decide trocar de nome para enfatizar sua luta por uma sociedade mais igualitária. Em junho passado, a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Guia Lopes, no Limão, na zona norte, conseguiu modificar sua denominação para homenagear o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), expoente da luta contra o apartheid que vigorou em seu país até a década de 1990. Há alguns anos, os muros e portões da unidade, que desenvolve trabalhos para estimular a diversidade, foram pichados com inscrições racistas.
Voz para a comunidade

 

Reinaldo Canato/UOL

Cláudio Marques da Silva Neto, diretor da escola municipal – Reinaldo Canato/UOL

 

 

A vida e a obra da homenageada Carolina Maria de Jesus entrarão no dia a dia dos estudantes, pais e professores. “Assim que o projeto de lei for votado na Câmara de Vereadores, nós faremos a reinauguração da escola com uma mesa de debate que possivelmente contará com a filha da escritora [Vera Eunice, que também é professora pública]”, afirma Silva, acrescentando que os livros de Carolina farão parte do currículo da unidade em 2017.

Para Cesar Luís Sampaio, professor de informática educativa da escola, a troca reforçará os laços de identidade entre estudantes, funcionários e vizinhança. “Simbolicamente vai dar um novo impulso às discussões raciais e sociais em nossa escola. É dar protagonismo para nossa gente, nossa comunidade, nossa realidade social. É dar luz para a população que sempre foi ofuscada. É dar voz àqueles que nunca tiveram oportunidade de falar. Desejamos o empoderamento popular.”

Pai de um aluno do 9º ano, o administrador de empresas Sidnei Palmieri, 48, fez questão de matricular seu filho no colégio, apesar de a família morar longe dali, no bairro de Lauzane Paulista, na zona norte. “Resolvi colocá-lo nessa escola devido à qualidade de ensino, ao respeito e principalmente às oportunidades oferecidas.”

Antes dos debates sobre a alteração de nome, ele ainda não havia tido contato com a trajetória de Carolina. “Soube que sua obra é reconhecida em muitos países, mas que, infelizmente, é muito pouco aqui no Brasil.”

Nascida em Sacramento, no interior de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus desembarcou na Estação da Luz, em São Paulo, em 1937. Mãe solteira, trabalhou como catadora de papéis para sustentar os três filhos, até ser alçada à fama repentina, com a publicação de seu primeiro livro, a partir dos muitos escritos que produzia cotidianamente.

Suas obras, que incluem “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome”, “Provérbios” e o póstumo “Diário de Bitita”, foram traduzidos para muitos idiomas, entre os quais o inglês, o espanhol e o francês. Nos Estados Unidos, seus livros são constantemente reeditados e estudados.

O nome de Carolina já é utilizado por uma EMEI na Vila Dalva, na zona oeste. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, não haverá conflito quando a EMEF Infante Dom Henrique ganhar a sua nova denominação, pois as unidades oferecem etapas de ensino diferentes.

Escritoras dizem que livros de ficção ajudam a superar doenças

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Publicado no Saúde Abril

Elas se conheceram enquanto estudavam literatura na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e, desde então, tornaram-se amigas inseparáveis. Entre uma indicação de livro e outro, Ella e Susan criaram o serviço de biblioterapia, em que ficções são prescritas para tratar os mais diferentes males — de câncer e perna quebrada a falta de entusiasmo e enjoo matinal.

O resultado desse trabalho é o recém-lançado Farmácia Literária (Verus Editora), que reúne prescrições de leituras para tudo o que é chateação. Fizemos uma entrevista exclusiva por e-mail com a dupla, que você confere abaixo. E não perca: na edição de janeiro de SAÚDE, que chega às bancas na semana que vem, você poderá conferir uma reportagem completa sobre o livro.

A biblioterapia é bem conhecida e aceita no Reino Unido?

Quando nós dizemos que somos biblioterapeutas, a maioria das pessoas dizem: “O que é isso?”. Então, não, o conceito é bem novo por aqui também. A palavra foi retirada do Grego Antigo e significa “curar por meio dos livros”. O conceito é o mesmo desde aquela época.

Mas nós gostamos de pensar que somos as primeiras a trazê-lo para o uso contemporâneo. É interessante notar a forma como as pessoas reagem quando explicamos. Algumas simplesmente não entendem (provavelmente elas não leem ficção). Já as que compreendem geralmente dizem para nós: “Por que alguém não pensou nisso antes?”

É como se todos soubéssemos subconscientemente que, além do entretenimento, mudamos quando lemos romances. Só não tínhamos um nome para isso. Outro dia nós estávamos dando uma palestra na França e, no final, um sujeito chegou até a gente e disse: “Vocês deram sentido para minha vida. Eu li ‘biblioterapeuticamente’ durante toda a minha vida e não sabia disso”.

Vocês acham que é possível implementar um programa de biblioterapia em hospitais e asilos? Como uma iniciativa dessas poderia beneficiar os pacientes?

Sim, estudos estão mostrando que ler pode ser extremamente efetivo para estresse, ansiedade e até mesmo para casos de depressão moderada e falta de confiança. Nós amaríamos ver uma cópia de Farmácia Literária na sala de espera de todos os especialistas. No Reino Unido, os médicos da família podem se valer de um esquema de prescrição de livros. A ideia surgiu a partir da Agência de Leitura, uma organização não governamental que seleciona obras para pacientes depressivos.

Por que vocês resolveram prescrever apenas livros de ficção? Como eles podem ajudar alguém a superar seus problemas?

De certa maneira, nós estamos reagindo à expansão dos livros de autoajuda que ocorreu durante os anos 1990. Nós sentimos que a literatura era uma fonte poderosa subutilizada. E olha que é difícil pensar em problemas da vida que não tenham sido experimentados por algum personagem literário de maneira bastante intensa.

Na ficção, nós encontramos a experiência humana em sua maneira mais profunda e intensa. São fatos que não são explorados como deveriam nas interações do dia a dia. Ler sobre personagens que passaram ou sentiram coisas que estou vivenciando agora nos deixa menos solitários.

E, claro, outros livros nos mostram como olhar sob diferentes ângulos, além de nos inspirar a tomarmos atitudes que são grandes. Existe uma relação entre a “teoria da mente” e ler ficções literárias, de acordo com estudos recentes. A leitura desenvolve nossa capacidade de empatia, de nos colocar no lugar do outro. Pois é isso que fazemos nos livros: ver as coisas de outra perspectiva.

Mas vocês não acham que outros estilos de livros — como as biografias e os de autoajuda — não poderiam ser uma importante ferramenta para tratar algumas doenças?

Susan Elderkin: Certamente existe um espaço para os livros de autoajuda. Eu me lembro de ler um deles nos anos 1990 e ficar bem inspirada. Mas ter contato com a coragem de Atticus Finch, de O Sol é para Todos [escrito por Haper Lee] foi o que realmente ficou comigo por muitos e muitos anos. Ele sentia o medo e fazia as coisas mesmo assim.

Eu não lembro praticamente nada daquele livro de autoajuda. Mas eu nunca me esquecerei de como Atticus Finch permaneceu firme naquilo que acreditava, em oposição a toda uma comunidade sedenta por sangue. Biografias também podem ser bastante inspiradoras. Mas nós geralmente já conhecemos como nosso herói de carne e osso é — mesmo que ele seja uma pessoa como Gandhi, Steve Jobs ou Cristiano Ronaldo.

É muito mais difícil achar a ficção certa, ou seja, saber qual delas vai me ajudar a superar um relacionamento malsucedido ou qual me dará o empurrão necessário para largar o emprego em que estou preso por anos. A literatura — a melhor literatura — é sobre como navegamos nosso próprio caminho por meio dos obstáculos da vida. Seu território é a própria vida e a forma como lidamos com o dia a dia. Nós não podemos imaginar passar toda a existência sem romances e histórias que nos ajudem a situar quem somos. O que importa para nós é explorar os diferentes significados do que é ser humano.

Uma pergunta pessoal: qual livro foi o responsável pelo amor pela leitura que vocês possuem?

Susan Elderkin: Para mim foi O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e as aventuras subsequentes que se passam em Nárnia na famosa série escrita por C.S. Lewis. Eu me lembro de, quando criança, ler escondida atrás da porta de meu quarto, porque torcia para que ninguém me encontrasse e me fizesse descer para o jantar.

Eu viajei para muitos universos por meio desse livro. Nárnia foi real e vívida para mim mais do que qualquer coisa que experimentei. As emoções que me fez sentir foram fortes. Anos depois, quando eu era estudante na Universidade de Cambridge — onde conheci Ella nas aulas de literatura inglesa —, havia um estacionamento onde fomos andar de bicicleta várias vezes. Eu sempre fui meio mística em relação àquele lugar. Esperava o momento de acender a minha lanterna na névoa e, no meio do caminho, encontrar sem querer o poste de Nárnia e o Mr. Tummus, o fauno que guia Lucy nas primeiras incursões pela nova terra.

Eu pensava que todo mundo imaginava a mesma coisa nesse lugar. Eu amo saber que a leitura é uma experiência compartilhada como esta. Pense como é para a geração que viveu com Harry Potter. Todos eles cresceram conhecendo as mesmas pessoas, passeando pela mesma escola, por meio dos meios livros. Eles dividiram uma cultura!

Ella Berthoud: Foi Os 101 Dálmatas, de Dodie Smith, que me encantou. Foi o primeiro livro que me lembro de ler. Eu fiquei presa naquela narrativa trágica do sequestro dos filhotes. As descrições vívidas do chá e da torrada e o fogo que fazem parte do livro ficaram comigo para sempre. Essa ainda é, até os dias de hoje, a minha leitura de conforto preferida.

A edição brasileira do livro Farmácia Literária inclui alguns dos mais importantes escritores da língua portuguesa, como Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Eça de Queiróz e José Saramago. Qual a importância de adaptar para cada país?

Nosso livro já foi publicado em mais de 20 países e nós sabíamos desde o começo que seria absolutamente vital que cada edição abraçasse a literatura local. Precisávamos incluir os títulos que formaram e moldaram a psique da nação ao longo das gerações.

Leitores contemporâneos precisam ver o mundo que eles conhecem refletido em nosso livro, na linguagem que é a mais confortável possível. Então nós trabalhamos para que cada edição fosse mudada em 25 a 30% com novas sugestões de leituras e, em alguns casos, novas curas. Alguns novelistas que escrevem em português já faziam parte do Farmácia Literária original. José Saramago, que nós duas adoramos, e também Fernando Pessoa, cujo Livro do Desassossego é a solução para a insônia.

Claro, nenhum desrespeito pelo Pessoa. Nós amamos seu ritmo compassado, quase soporífico. A coisa mais maravilhosa sobre esse livro é que não há problema se você dormir no meio de uma sentença ou se você se esquecer onde parou na noite anterior. É um texto que perdoa e ama de um jeito que te coloca numa espécie de transe. E não é tão excitante. Logo, é uma ótima coisa para passar os olhos se você não consegue pregá-los.

Eu li Farmácia Literária inteiro e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o estilo leve e humorístico. Vocês acham que essa forma de escrever ajuda a cativar os leitores?

O livro está cheio de piadas, provavelmente por causa de nossa amizade. Como toda boa amizade, ela está baseada num senso de humor compartilhado. Nós amamos falar sobre literatura e sempre rimos muito juntas — o livro apenas reflete isso. Em alguns trechos, só escrevemos para fazer a outra gargalhar.

Nós acreditamos que o bom humor é importante a toda boa escrita. Os melhores novelistas usavam o humor, mesmo que suas histórias fossem sobre algo triste, sério ou terrível. O humor pode e deve coexistir com a escuridão.

Ana Maria Machado é a homenageada da Flica 2016

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Ana Maria estará na Flica, onde participará da mesa O Mar, um Mapa, a Audácia, que acontece no dia 14, às 19h

Publicado no Correio 24 Horas

A 6ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que acontece de 13 a 16 de outubro, no município de Cachoeira, no Recôncavo, já tem homenageada: será a escritora carioca Ana Maria Machado, vencedora de três Prêmios Jabutis.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

 

Além de receber todas as honras da festa literária, Ana Maria estará na Flica, onde participará da mesa O Mar, um Mapa, a Audácia, que acontece no dia 14, às 19h.

Na Flica, evento realizado pela iContent, a autora baterá um papo com a professora Mônica Menezes, responsável pelo projeto de pesquisa na área de literatura infantojuvenil da Ufba. Ana Maria Machado é vista pela crítica como uma das mais versáteis e completas escritoras brasileiras contemporâneas. Ela mesma diz: “Já fui professora, já fui jornalista, já fiz programa de rádio, já tive uma livraria e nesse tempo todo nunca parei de escrever”.

Autora popular e muito conceituada no segmento infantil, Ana Maria foi presidente da Academia Brasileira de Letras e em sua gestão deu especial ênfase a programas sociais de expansão do acesso ao livro e à leitura nas periferias e comunidades carentes. Ao longo de 40 anos escrevendo, publicou mais de cem livros (dos quais 9 romances e 8 de ensaios), com mais de vinte milhões de exemplares vendidos, lançados em vinte idiomas e 26 países.

#LeiaMulheres: Como o mercado editorial perpetua a desigualdade de gênero na literatura

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Ana Beatriz Rosa, no Brasil Post

Basta uma olhada rápida nas prateleiras para perceber: quantas são as autoras que você conhece? Ou melhor, quantos são os livros escritos por mulheres que você já leu?

Provavelmente esse número será muito menor se comparado ao de autores homens, e isso porque há uma grande diferença de representatividade de gênero no mercado editorial.

2014 foi o ano em que este tema foi bastante discutido.

Foi o ano em que foi publicada uma antologia que listou 101 autores contemporâneos essenciais, mas entre eles, apenas 14 eram mulheres.

Foi o ano em que a hashtag #LeiaMulheres foi criada.

Iniciado pela ilustradora e jornalista britânica Joanna Wash, o #LeiaMulheres (#ReadWomen2014) alcançou diversos países.

Aqui no Brasil, o trio de amigas Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques criou um clube de leitura inspirado no movimento. A ideia dos clubes começou com elas em São Paulo e se espalhou para 21 cidades do País, com participação livre e gratuita da comunidade.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, as fundadoras detalham o surgimento dos clubes de leitura:

“Depois da campanha #ReadWomen, tivemos a ideia de fazer um grupo presencial para discutir literatura feita por mulheres. Começou em março de 2015, na livraria Blooks de São Paulo. Hoje são 21 cidades e 4 em implantação. Nós rechaçamos o termo ‘literatura feminina’. A literatura existe. Ela é feita por homens ou mulheres. Ela pode escrever o que ela quiser. Não existe literatura feminina porque não existe literatura masculina. Existe literatura escrita por homem, mulher, cis, trans.”

Mensalmente, o grupo se reúne para discutir o livro do mês. A escolha das obras é livre. Em São Paulo, fica a cargo das três mediadoras.

Março foi o único mês em que todos os clubes do País leram o mesmo livro para marcar o aniversário da rede e reverenciar a poeta Ana Cristina Cesar, escolhida pela Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) como homenageada.

Juliana Gomes mergulhou profundamente no universo da poeta.

“A Ana Cristina foi uma poeta polêmica. Seus poemas vão além da poesia. Ela faz uma pincelada de muitos autores. Ela é contracultura, é poeta marginal, cometeu suicídio e ficou esquecida por um tempo. Os livros estavam esgotados e agora houve um relançamento de sua obra. Ela morreu muito jovem e não teve muitas republicações. Os seus escritos são uma poesia pungente. Aqui em SP nunca tínhamos lido algo tão forte. A poesia é diferente da prosa. A Ana é tao visceral que você sente a necessidade de entrar em tudo sobre ela. Ler poesia não é fácil.”

Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, ainda, comentam sobre a escolha das obras:

“Quando finalizamos o encontro, apresentamos o próximo livro e todo mundo tem um mês para completar a leitura. O objetivo é que as escolhas sejam as mais diversas possíveis: raças, gêneros literários, países e narrativas. Mas sempre mulheres. Os encontros não são aulas nem palestras, são conversas. Queremos levantar questões sobre os livros. É uma discussão livre sobre a experiência de leitura. Em muitos casos, a narrativa tem uma relação com a vida da pessoa e ela compartilha. É bem dinâmico. Não queremos criar um elitismo cultural; pelo contrário, qualquer pessoa pode sentar e conversar — inclusive homens. Não seguimos muito as teorias literárias, podemos nos apoiar em alguns textos, mas não é esse o foco.”

Criadoras do clube de leitura de escritoras (esq-dir): Juliana Leuenroth, Michelle Henriques e Juliana Gomes

Criadoras do clube de leitura de escritoras (esq-dir): Juliana Leuenroth, Michelle Henriques e Juliana Gomes

 

Curitiba, Fortaleza, Sorocaba, Rio de Janeiro, Juiz de Fora, Salvador e Goiânia são algumas das cidades que fazem parte da rede. Quando iniciaram o clube, o trio de amigas não imaginava essa expansão.

“É muito gratificante ver que as pessoas têm interesse e apoiam a ideia. Elas têm outros compromissos, mas conseguem se encontrar à noite, durante a semana. A gente sabe que é difícil. Mas aí você vê que tem muitas pessoas querendo debater o livro com você, e é muito legal poder compartilhar.

A gente nunca sonhou grande, foi acontecendo de maneira orgânica. Isso dá o senso de comunidade e de simplicidade. Nós fomos o fio condutor para algo muito maior. Acho que criar o buzz e gerar o desconforto com essa campanha e com os dados sobre o mercado editorial foi o nosso ganho em 2015.”

Literatura e empoderamento

Em 1929, Virginia Woolf já falava das “dificuldades materiais” que a mulher sem emancipação tinha para escrever.

Em Um Teto Todo Seu, a autora usa sua ironia para traçar um painel da presença feminina na literatura, não como personagens, mas como autoras. Nos ensaios, ela faz uma análise sobre a situação das mulheres que são impedidas de ter um espaço próprio de reflexão e como o peso do machismo e da “autorização do patriarcado” recai sobre elas.

Mas será que hoje, décadas depois, o cenário editorial mudou tanto assim?

Em 2012, Regina Dalcastagné publicou o livro Literatura brasileira contemporânea — Um território contestado.

De acordo com a sua pesquisa, 72% dos autores publicados no Brasil são homens, brancos, de classe média, moradores do Rio de Janeiro e São Paulo, professores ou jornalistas.

A análise examinou 258 obras publicadas entre 1990 e 2004 pelas maiores editoras do setor – Companhia das Letras, Rocco e Record.

O texto final do livro demonstrou em números uma tendência nada surpreendente da nossa literatura tradicional atual.

Quase três quartos dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% dos autores são brancos; o local da narrativa é a metrópole em 82,6% dos casos; o contexto de 58,9% dos romances é a redemocratização, seguido da ditadura militar (21,7%).

Além de o protagonista ser, na maior parte das vezes, representado como artista ou jornalista, os negros aparecem quase sempre como marginais e as mulheres, como donas-de-casa ou objetificadas sexualmente.

Esses números revelam uma estrutura histórica em que as desigualdades continuam persistindo.

Em novembro de 2014, a autora Luisa Geisler, conhecida após ter levado o Prêmio Sesc de Literatura aos 19 anos, com um livro escrito sob pseudônimo masculino, afirmou ao jornal fluminense O Globo que escreve “como mulher, sim”.

No contexto da fala, Luisa foi contra aos “elogios sinceros” que costuma receber: os de que escreve como um homem.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a escritora questionou o local ocupado por mulheres na literatura:

“Não vejo ‘um’ papel específico, até porque não vejo ‘a’ mulher. Existem muitas literaturas, muitos papéis e muitos tipos de mulheres. É difícil determinar um papel só, se é que ele existe. Mas ao mesmo tempo, ressalto que escrever é uma arte, e a mulher não deveria ter a obrigação de ‘educar sobre o feminino’, se ela assim não quiser, em sua criação. Talvez a função que eu possa indicar seja esta: é fazer a melhor arte que ela pode.”

Sobre o machismo e o empoderamento, ela refletiu:

“O mercado editorial é tão machista quanto a maioria dos meios. Acho complicado dizer ‘X é machista’, porque no Brasil o machismo é estrutural. O mercado editorial não é uma bolha machista em um país de paz, amor e igualdade. Ele reflete problemas que existem além dele.

Escrever sempre é um ato político, mesmo que a autora (ou autor) não tenha essa intenção. A criação de uma história, de um universo, tudo isso dialoga com a realidade de maneira política. No entanto, não sei se escrever é uma forma de empoderamento. Adianta escrever se não se é lida? Escrever para o vácuo seria se empoderar? Não sei dizer. Claro que escrever como mulher é um passo em direção à igualdade, mas a ideia de empoderamento é mais abrangente. Talvez o ato de escrever por si só não seja garantia de empoderamento.”

Por isso, fica a sugestão: leia mulheres.

11 livros escritos por mulheres que vão brilhar na Flip 2016

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Clarice Lispector: escritora foi a primeira mulher a ser homenageada na Flip. Este ano o festival traz a segunda homenageada - Ana Cristina Cesar

Clarice Lispector: escritora foi a primeira mulher a ser homenageada na Flip. Este ano o festival traz a segunda homenageada – Ana Cristina Cesar

 

Caio Delcolli na Exame via HuffPost Brasil

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano tem como marco ser a edição com a maior quantidade de mulheres convidadas até hoje.

Dos 39 autores a participarem do evento, 17 são escritoras – ou 44% do total. Em relação à festa de 2015, estamos diante de um aumento de representatividade: foram 32 homens e 11 mulheres.

Na edição de 2014, nove mulheres marcaram presença. Um número muito pequeno diante dos 38 homens. Em 2003, na estreia da Flip, apenas três autoras foram convidadas: Ana Maria Machado, Adriana Falcão e Patrícia Melo. Os homens, em contrapartida, eram 22.

O aumento – ainda longe do ideal – se deve à pressão que a Flip tem encontrado para expandir a representatividade de minorias neste que é um dos principais eventos literários do país.

Neste ano, a autora homenageada é a carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983), a segunda em 14 anos de Flip. A primeira mulher a ser laureada na festa foi Clarice Lispector, em 2005.

Além de Ana C. estar no centro do debate, outras poetas brasileiras de porte estarão no rolê, como Marília Garcia, Laura Liuzzi e Annita Costa Malufe.

Entre as convidadas internacionais, estão Svetlana Aleksiévitch, Helen Macdonald e Kate Tempest lançando seus livros.

A Flip começa nesta quarta-feira (29) e vai até dia 3 de julho. Confira abaixo alguns exemplos de lançamentos das autoras que estarão por lá:

1 – ‘Crítica e Tradução’, de Ana Cristina Cesar

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Reunindo ensaios sobre vários temas – como mulheres na poesia, tradução e documentários brasileiros –, textos críticos e traduções – como a do conto Bliss (1918), de Katherine Mansfield –, Crítica e Tradução revela facetas da autora que vão além da poesia que a consagrou.

Editora: Companhia das Letras Páginas: 544 Preço: R$ 64,90

2 – ‘F de Falcão’, de Helen Macdonald

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Um dos livros mais elogiados pela crítica em 2014 e 2015, F de Falcão traz o relato sincero e tocante da autora, que entrou em depressão após a morte do pai. A inglesa Helen Macdonald superou o luto de uma forma inusitada: treinando um falcão. Isolada das pessoas ao seu redor, Macdonald compra o animal e decide – e explica como – domesticá-lo e caçar com ele. Macdonald encontrou na companhia de um dos animais mais ferozes do mundo e de leituras sobre o escritor T. H. White a possibilidade de se recompor e encontrar um rumo para sua vida. Vencedor do Costa Book Award.

Editora: Intrínseca Páginas: 288 Preço: R$ 44,90; e-book R$ 29,90

3 – ‘Os Tijolos nas Paredes das Casas’, de Kate Tempest

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Rapper, escritora e artista de palavra falada, a inglesa Kate Tempest é a autora de Os Tijolos nas Paredes das Casas. Nele, duas jovens, Becky e Harry, estão entediadas na região sudeste de Londres, onde trabalham em empregos insignificantes e têm namorados ciumentos. Becky serve mesas e faz massagens eróticas à noite, enquanto Harry trafica cocaína – mas apenas até elas decidirem fugir da cidade. O Guardian elogiou o livro; classificou as metáforas como “explosivas” e destacou o “lirismo” da história.

Editora: Casa da Palavra/LeYa Páginas: 336 páginas Preço: R$ 44,90

4 – ‘A Teus Pés’, de Ana Cristina Cesar

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O primeiro e único livro que Ana Cristina Cesar lançou em vida por uma editora, em 1982, condensa material inédito até aquele momento e publicações feitas antes de maneira independente: Luvas de Pelica (1980), Cenas de Abril (1979) e Correspondência Completa (1979). Elogiada por romper barreiras entre poema, prosa e ensaio, e o eu lírico e biográfico, Ana C. – como era chamada pelos amigos – deixou em A Teus Pés um registro de sua intimidade com as palavras e de sua escrita vertiginosa, desafiadora e direta. Um marco da poesia considerada “marginal” feita naquela época.

Editora: Companhia das Letras Páginas: 144 Preço: R$ 19,90

5 – ‘A História dos Meus Dentes’, de Valeria Luiselli

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O discreto Gustavo Sánchez Sánchez, ou simplesmente “Estrada”, quer trocar todos os dentes. Ele viaja pelo mundo aperfeiçoando habilidades que podem ajudá-lo nisso, como sua imitação da cantora Janis Joplin. O romance mostra a importância da arte em nossas vidas e da construção de nossas identidades. Entrou na lista do BuzzFeed de melhores livros de ficção de 2015.

Editora: Alfaguara Páginas: 126 Preço: R$ 34,90

6 – ‘A Guerra Não Tem Rosto de Mulher’, de Svetlana Aleksiévitch

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A jornalista bielorrussa vencedora do Nobel de Literatura de 2015 traz neste livro de não ficção relatos sobre a Segunda Guerra Mundial de um ponto de vista pouco lembrado: o das mulheres. Algumas soviéticas encararam de fato o confronto contra os nazistas – e trouxeram consigo lembranças de fome, tristeza, violência sexual e angústia, entre outras. A Guerra Não Tem Rosto de Mulher dá voz a voluntárias, enfermeiras e franco-atiradoras, por exemplo.

Editora: Companhia das Letras Páginas: 392 Preço: R$ 49,90

7 – ‘Um Caderno para Coisas Práticas’, de Annita Costa Malufe

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Em seu novo livro, Annita Costa Malufe tece com suas poesias histórias sobre o cotidiano que se interligam. Além disso, a autora dá sinais de que, como o Estadão a classificou, ela é uma “herdeira” de seu principal objeto de estudo: a homenageada da Flip Ana Cristina Cesar. Malufe também é professora universitária de literatura.

Editora: 7Letras Páginas: 104 Preço: R$ 34,90

8 – ‘Paris Não Tem Centro’, de Marília Garcia

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O novo lançamento de Marília Garcia, um dos principais nomes da poesia brasileira atual, é um longo poema que desafia as barreiras entre os gêneros de prosa e ensaio literário. Com edição artesanal limitada de 120 exemplares, a editora aposta que Paris Não Tem Centro se tornará item de colecionador.

Editora: 7Letras Páginas: 24 Preço: R$ 15 (mais…)

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