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Mas não tem um descontinho?

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Hillé Puonto, no Manual Prático de Bons Modos em Livrarias

é quase sempre assim: freguês chega com o livro, pergunta o preço como quem não quer nada (mas querendo muito) e, depois de escutar a resposta, emenda:

- e tem desconto?

a pergunta rola mesmo se o livro estiver com o preço bacana de 9,90. a pergunta rola até no caso daqueles folhetos só com o primeiro capítulo de determinado título, que algumas editoras deixam nas livrarias. e o diálogo que aconteceu esses dias foi mais ou menos assim:

freguês: moça, tem desconto?
livreira: mas é amostra grátis, não é o livro.
freguês ah… mas tem desconto?
livreira: meu senhor, pode levar.
freguês: mas com desconto?

(SOCORRO? qual parte do ‘amostra grátis’ eu esqueci de falar?)

e quando a livreira responde que não, que infelizmente não há descontinho camarada, o harlam shake começa:

- moça, mas nem pra estudante? (não. beijo, meia-entrada)

- nem pra professor? (deveria, mas não tem)

- nem pra advogado? (não. a não ser que eu tenha desconto quando eu for no seu escritório pra tentar processar a vida por danos morais)

- nem se eu pagar em dinheiro? (mas nem se o senhor pagar em tomates)

- nem se eu levar esse exemplar rasgadinho? (não, nem assim)

- olha, eu tenho um problema de visão, será que rola? (MEU AMIGO… MEU AMIGO, NÃO)

- mas é meu aniversário hoje, moça? (cê tá de parabéns, curta um montão na balada, mas não)

- e pra ex-BBB? (só se no seu rg estiver escrito TINA DAS PANELAS)

manual prático de bons modos em livrarias: galera, entenda: não adianta chorar, dançar ou declarar amor na hora de pedir desconto para nós, pois a maioria dos livreiros não tem esse poder. “ah, e se eu conversar com o gerente?”. daí a conversa muda e eu digo: vocês que são lindos, que se entendam. eu, hillé, não sou gerente, não mando em nada, mas posso mostrar o caminho do bem para vocês: aqui ó. o cuponation é um lugar maneiro onde é possível encontrar várias promoções de livros todos os dias. recomendo a lot. e sem fazer qualquer desconto na propaganda.

A revolução de Gutenberg e as reformas brasileiras

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Roberto Luis Troster no Observatório da Imprenssa

Amanhã [terça-feira, 23/4] é comemorada uma das criações mais importantes da humanidade: o livro. A festa foi oficializada em 1930, em homenagem a Miguel de Cervantes e a William Shakespeare, que coincidentemente passaram para a imortalidade em abril de 1616. Entretanto, o maior mérito por sua popularização foi de um não escritor: Johannes Gutenberg.

Até o século 15, os livros eram caros, copiados a mão, feitos por encomenda e com muitos erros e diferenças de transcrição – alguns textos de Aristóteles chegam a ter oito versões diferentes. Havia uma seleção conveniente do que deveria ser produzido e muitas das reproduções eram alteradas. Serviam para preservar sistemas de poder e evitar mudanças nas relações sociais.

A inovação do uso de tipos móveis de impressão por Gutenberg objetivava apenas baratear os livros: estima-se que conseguiu um preço final 30 vezes menor que o do exemplar copiado a mão, além de oferecer um produto de melhor qualidade. Mas a inovação fez muito mais do que isso.

O uso da imprensa pode ser considerado como o marco de início do mundo moderno. O acesso a mais informação com livros mais baratos aumentou exponencialmente a alfabetização da classe média europeia e fez com que novas ideias se propagassem pelo mundo. Uma análise estritamente quantitativa mostra uma elevação considerável e sustentada das taxas de crescimento econômico mundial a partir de então.

Capital humano

Os livros impressos quebraram o monopólio da aristocracia e da igreja na difusão do conhecimento. Dessa forma, detonaram uma série de revoluções no mundo: econômicas, políticas, religiosas e científicas. Decretaram o fim do geocentrismo e do absolutismo e o início da rotação de culturas na agricultura e das grandes navegações. Foram fundamentais para a transição entre a Idade Média e o mundo moderno.

Outra mudança radical provocada pela inovação de Gutenberg foi a Reforma Protestante. Ao conseguir imprimir milhares de cópias de suas 95 teses e distribuí-las por toda a Europa, Lutero difundiu sua mensagem e granjeou seguidores.

As revoluções políticas na Europa e na América e a industrial na Inglaterra ilustram a força transformadora das ideias. Coincidentemente, os países que se ajustaram mais rapidamente foram os que mais cresceram. Há muitos paralelos entre a revolução de Gutenberg e o momento atual.

A transformação radical em razão da tecnologia e da globalização antecipa uma economia baseada no conhecimento e em cadeias produtivas globais. A questão central é a adequação das pessoas, empresas e países. Alguns, como a China, estão levando vantagem.

No Brasil, observa-se um crescimento menor do PIB e um encolhimento maior do setor industrial em relação ao resto da América Latina e do mundo. As explicações incluem a política educacional capenga, o protecionismo, reservas de mercado e o foco nos lucros de curto prazo. Vive-se uma realidade que exige um novo paradigma, com outras noções de tecnologia, tributação, logística, políticas macroeconômicas, velocidade de adaptação e de acesso ao conhecimento.

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No Dia do Livro, universidade gaúcha espalha exemplares pelo campus

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A Unisinos distribui exemplares em bancos e outros pontos estratégicos, causando supresa nos alunos que chegavam para a aula

Professores e alunos ficaram supresos ao encontrar os exemplares embrulhados para presente Foto: Rodrigo W. Blum/ Unisinos / Divulgação

Professores e alunos ficaram supresos ao encontrar os exemplares embrulhados para presente
Foto: Rodrigo W. Blum/ Unisinos / Divulgação

Publicado por Terra

Estudantes e professores da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) tiveram uma supresa ao chegar para as aulas nesta terça-feira nas unidades de São Leopoldo e Porto Alegre (RS). A instituição decidiu espalhar livros embrulhados em papel de presente em bancos e outros pontos estratégicos como forma de marcar o Dia Internacional do Livro.

Segundo a instituição, foram distribuídos 40 exemplares doados pela biblioteca da Unisinos. Quem encontrou os livros não escondeu a empolgação. “Eu vi a divulgação da ação no Facebook. Quando olhei o banco e notei o livro, não acreditei”, contou a professora da Unisinos Priscila Bordin, que encontrou o exemplar ao subir a escadaria do Centro das Ciências Econômicas. “Achei a iniciativa o máximo!”, emendou.

Até as 17h, quase 2 mil pessoas haviam curtido a ação no Facebook, e mais de 530 haviam compartilhado a foto da divulgação na rede social. A universidade disse que o objetivo da ação é incentivar o hábito da leitura, além de apresentar a biblioteca da universidade e estimular a prática do compartilhamento.

Os livros foram espalhados em bancos e pontos estratégicos. Quarenta exemplares foram distribuídos Foto: Rodrigo W. Blum/ Unisinos / Divulgação

Os livros foram espalhados em bancos e pontos estratégicos. Quarenta exemplares foram distribuídos
Foto: Rodrigo W. Blum/ Unisinos / Divulgação

Imagine a surpresa de encontrar um presente “esquecido” sobre um banco, uma mesa ou um sofá da sua universidade. Várias pessoas tiveram esta sorte na terça-feira (23/4). Em comemoração ao Dia Internacional do Livro, a Unisinos distribuiu exemplares embrulhados, com laço e tudo, pelos campi São Leopoldo e Porto Alegre.

dica do Jarbas Aragão

Literatura também é moda

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Tratar livros como os decotes da próxima estação é abrir mão da experiência profunda que a leitura pode dar

livro

Walcyr Carrasco, na Época

Atraído por um casaco fantástico na vitrine, entrei numa loja do Shopping Higienópolis, em São Paulo. O vendedor me explicou que era o único exemplar, por ser peça de desfile. Suspirei, sem esperanças, comparando mentalmente minha barriga com o provável tanquinho do modelo na passarela. Ele insistiu, tirou da vitrine. Não serviu, é claro.

Enquanto esperava, observei a decoração da loja. Aqui e ali, havia alguns livros encadernados, antigos. Um deles era Three loves (Três amores), do escocês A.J. Cronin, lançado em 1957. Levei um choque. Nos anos 1960, Cronin era popularíssimo no Brasil. Hoje, ninguém mais fala nele.

Três amores é um livro lindo. A protagonista, Lucy, vive seu primeiro amor com o marido, de cuja morte é indiretamente culpada. O segundo com o filho, a quem se dedica loucamente, para receber, em troca, ingratidão. Finalmente, vem a fé. Entra para um convento, para uma vida de adoração.

Nunca li uma descrição tão minuciosa da vida entre as freiras, em que os assuntos religiosos se mesclam com necessidades triviais, como economizar sabonetes. Mais uma vez, a heroína se frustra. É um livro profundo, intenso. Surpreso por vê-lo transformado em objeto de decoração, ainda disse ao vendedor:

– Este livro aqui é incrível. Você precisa ler.

– Ah, tá – respondeu o rapaz, sem interesse algum.

E botou o casaco de novo na vitrine.

Fiquei pensando: a gente fala muito nas lapelas dos paletós que ora são mais estreitas, ora mais largas, no caimento das saias, nos tecidos e nas cores que estão em moda. Mas hoje tudo se tornou fashion. Autores entram e saem de moda como os decotes femininos.

Fui procurar Cronin no site de uma grande livraria. Só encontrei um de seus livros em português: A cidadela. Autor da frase “Só o amor e a arte tornam a existência humana suportável”, Somerset Maugham (1874-1965) também saiu de moda. Seu romance Servidão humana (1915) tornou-se filme de sucesso. Em O fio da navalha, foi o primeiro a trazer o misticismo oriental para a literatura ocidental.

Minha adorada Doris Lessing, inglesa, Prêmio Nobel de 2007, influenciou toda uma geração nos anos 1960 e 1970 com O carnê dourado (1962). Falava abertamente do desejo feminino, das questões das mulheres. Quando veio ao Brasil, há cerca de três décadas, esperei horas na fila de autógrafos, simplesmente para dizer, num bilhetinho: “I love you”. Ela me respondeu: “Thank you!”. Tiete total! Ultimamente, se falo nela, ninguém tem ideia de quem é.

E o que dizer dos autores nacionais? Os grandes nomes da literatura brasileira foram salvos por constar da lista do vestibular. Ler Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, foi marcante na minha vida. Também senti o mesmo por Grande sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa, que se tornou até uma inesquecível série de TV.

Livros como esses não foram totalmente esquecidos, mas não fazem parte da vida das pessoas. Durante décadas, era importante lê-los, até para não ficar por fora. No Google, encontrei resumos desses livros e outros clássicos, para o estudante apressado. Como se um resumo substituísse o universo de um escritor. Autor virou truque para ter nota.

Eu poderia gastar o resto desta coluna citando autores maravilhosos, esgotados ou acumulando pó nas prateleiras. A literatura não morreu, longe disso. Pelo que ouço das editoras, nunca se vendeu tanto no país. Mas, hoje, os livros acontecem e são esquecidos rapidamente. Ninguém tem obrigação de ler só alta literatura. Quando dou palestras em escolas, sempre digo às professoras:

– Livro não é remédio. Não tem de ser engolido à força. A leitura também deve se transformar num ato de prazer.

O grande hit atual é Cinquenta tons de cinza (2011), de Erika Leonard James, que trouxe o sadomasoquismo para o universo até então dominado pelos romances açucarados. Confesso: nem com o livro o mundo dos chicotinhos me atraiu. Enfim, é moda.

Sinto falta do tempo em que o livro não era parte do modo fashion de viver. Grandes autores, e também os comerciais, como Cinquenta tons, proporcionam um novo olhar sobre a vida. Tratá-los como os decotes da próxima estação é abrir mão da possibilidade de passar pela experiência profunda que um livro pode dar. É um passo atrás, porque um livro pode marcar a vida toda. É só a gente permitir.

A farsa da Garota Legal

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Claudia Penteado no Mulher 7×7

 

O prazer pode apoiar-se sobre a ilusão, mas a felicidade repousa sobre a realidade. (Chamfort)

 

Dia desses me atraquei com um livro atordoante, indicado pela amiga Martha Mendonça. Envolvida de corpo e alma numa pós graduação em literatura, devo confessar que tenho me dedicado muito pouco a leituras fora do escopo do estudo – especialmente agora, na fase de redação da monografia. Parecia uma grande transgressão ler, no meio disso tudo,  Garota Exemplar, da jornalista americana Gilliam Flynn – o livro que desbancou em vendas, quem diria, os 50 Tons de Cinza. Martha me garantiu que valia à pena. Depois de um breve pit stop numa pequena livraria – pensando, claro, “eles não devem ter” – rumei para casa na sexta-feira à noite com a obra malocada na bolsa, como se tivesse cometido um crime. Iniciei a leitura discretamente, ainda questionando minha decisão, e olhando de soslaio para meus livros acumulados na cabeceira, traídos, aguardando sua vez.

Resumindo: me afastando momentaneamente de Humerto Eco, Pierre Levy, Roger Chartier e tantos outros, passei o fim de semana mergulhada numa história de suspense que grudou em mim feito chiclete. O livro é bem escrito, dinâmico, competentemente estruturado, tem tudo para ser um romance de sucesso dos nossos tempos. Gilliam é ótima, escreve como homem e como mulher com perfeição e, tirando alguns momentos de ironia  tipicamente americana ou de distraída previsibilidade, criou um belo produto, do início ao fim.

Gostei de vários aspectos do livro, mas o que mais me interessou foi seu recado insistente e escancarado: a inexistência da Garota Legal. Esta seria uma abstração dos homens, uma fantasia tosca que nós, mulheres, numa cumplicidade disfarçada, ajudamos a construir. O livro é quase um ato de protesto contra esse estereótipo que, de alguma forma, se perpetua – em uma espécie de conspiração perversa forjada tanto por eles quanto por…nós mesmas. Ao longo da narrativa, a personagem se dirige frequentemente às mulheres leitoras, chamando a atenção para essa invenção, insustentável e frágil, construída através de um acordo tácito, mundano e superficial de “sobrevivência” entre homens e mulheres.

Mas, afinal, quem é essa Garota Legal? É a mulher disposta a quase tudo, com um largo sorriso no rosto – ou no corpo inteiro. Malha, trabalha, tem uma vida repleta de novidades, gosta de sair à noite, conta piadas, ama sexo casual a qualquer hora, sempre carrega um livro ótimo na bolsa (e consegue terminá-lo), está sempre cheirosa e de bom humor. Como descrita no livro: brilhante, criativa, gentil, atenciosa, esperta e feliz. Eternamente jovem, leve, relaxada. Divertida. Não tem ciúmes de seu parceiro – ele pode sair a hora que quer, voltar do jeito que bem entender e, ainda assim, ela estará vestindo algo sexy e achando graça naquele comportamento permanentemente adolescente e tipicamente masculino. De fato, isso a atrai. A Garota Legal tem um humor inabalável: não faz cara amarrada, ainda que tenha ficado horas sendo transferida de atendente em atendente no teleatendimento do cartão de crédito, não consiga um táxi para uma reunião muito importante ou perca um avião. Ainda que esteja exausta, a Garota Legal tem sempre a energia necessária para fazer uma boa massagem nos pés do parceiro quando ele chega igualmente cansado – e tudo sempre pode evoluir para algo mais…

Homens fantasiam com Garotas Legais e acreditam que elas existem porque elas fingem que – de fato – existem. Usam a persona até onde for possível – até que um dia a máscara começa a cansar. Porque é verdadeiramente exaustivo ser a Garota Legal. Ao estranharem o humor alterado de sua Garota Legal, os homens pensam que a relação caiu na rotina – ou que a Garota começou a envelhecer. Ela que, na verdade, nunca passou de uma ficção. Ela tentou manter a farsa o quanto pode, para manter seu relacionamento – afinal, ficar sozinha é um horror. No mundo de hoje, as solteiras são aberrações da natureza, malucas que não conseguiram “se arranjar”. Só as sorridentes e amestradas Garotas Legais se casam, arrumam namorado, fazem maridos entediados traírem suas esposas – essas, por sua vez, ex-Garotas Legais.

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