Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Livro inédito de Ariano Suassuna é lançado esta semana no Recife

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Zélia, o grande amor de Ariano, e seu filho, Dantas, que vem cuidando do legado do pai Foto: Leo Mota/ JC Imagem

Zélia, o grande amor de Ariano, e seu filho, Dantas, que vem cuidando do legado do pai
Foto: Leo Mota/ JC Imagem

O romance, dividido em dois volumes, é tido como o grande legado literário do artista e foi organizado pela família

Valentine Herold, no JC Online

Cascalho, rochedo, pedregulho, granizo. Ariano Suassuna sempre foi fascinado por qualquer tipo de pedra, fato que não passa despercebido pelos seus leitores. O paraibano que fez de Pernambuco sua morada, falecido em julho de 2014, aos 87 anos, colocou muitas vezes as pedras como sendo figuras centrais não só de suas criações artísticas, mas também de suas analogias. Ele costumava dizer que, em sua família, haviam as pessoas que jogavam as pedras e outras que as recolhiam, como bem lembra seu filho Manuel Dantas – também as juntava e colecionava, complementa Zélia, seu grande amor e esposa.

Existem ao longo de sua notável trajetória de vida referências diretas a este encantamento, desde o romance A Pedra do Reino, que consagrou o autor nacionalmente e representa um dos marcos iniciais do Movimento Armorial, às esculturas na casa onde morou e onde Zélia continua vivendo, no bairro de Casa Forte, passando ainda pela tipografia que vinha desenvolvendo desde a década de 1990, através da qual a rigidez do ferro deu espaço à sinuosidade da pedra esculpida. Tudo parecia estar sendo meticulosamente e poeticamente pensado para este momento, este livro inédito e póstumo que acaba de ser lançado pela editora Nova Fronteira: A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores (R$ 189,90).

Ao longo de seus últimos 30 anos de vida, Ariano vinha trabalhando nesta que é sua grande obra, seu testamento literário, finalizada um pouco antes dele falecer. O próprio termo ilumiara foi criado por ele para se referir aos anfiteatros formados por pedras insculpidas e pintadas. O box, contendo os dois volumes do romance, chegou às livrarias da capital pernambucana na última semana, mas esgotou em poucos dias. Neste sábado, às 15h haverá na Livraria Cultura do RioMar Shopping o lançamento oficial da obra com um evento fiel à trajetória e ao universo suassuniano.

Dantas vai levar ao Teatro Eva Hertz uma aula espetaculosa aberta ao público, acompanhado com Carlos Newton Júnior (pesquisador da obra de Ariano Suassuna e autor da apresentação do romance), Ricardo Barbarena (autor do posfácio), Esther Simões (neta de Ariano e pesquisadora), Ricardo Gouveia de Melo (designer e idealizador do projeto gráfico da obra) e Adriana Victor (jornalista e ex-assessora do escritor).

O próprio termo “aula espetaculosa” não é apenas uma alusão às aulas- espetáculo, grande projeto de Ariano que o levou às mais diversas cidades de todo o País e através das quais ele unia em um universo circense música, dança e contação de causos. É que Dom Pantero, protagonista deste livro, realiza uma aula espetaculosa através da qual ele satisfaz seu desejo criativo de escritor frustrado com a ajuda de seu três irmãos, um dramaturgo, outro romancista e o terceiro poeta – cada um deles, assim como um tio ensaísta, representando as diversas facetas criativas do próprio Ariano, além das ilustrações que permeiam todas as páginas da obra.

O livro em si é, na verdade, a aula espetaculosa, um grande simpósio que se desenvolve ao longo de uma manhã e de uma tarde, daí a decisão de dividir a obra em dois volumes, O Jumento Sedutor e O Palhaço Tetrafônico. “Se ele tivesse tido mais tempo, vivido mais, teria escrito um terceiro volume, que corresponderia à parte noturna do simpósio”, explica Dantas.

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Autobiografia, ficção, ensaio, poesia, teatro ou artes plásticas? Não há porque classificar O Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores em apenas um gênero, já que todos estão presentes nas mais de mil páginas do livros. Essa amálgama literária e visual é justamente o que define o livro como sendo, para Carlos Newton, “o mais pós-moderno da literatura brasileira”. “Através da história de Dom Pantero e de seus alter egos, Ariano está falando de si e do Brasil. É um grande ensaio sobre nosso país”, ressalta Raimundo Carrero, leitor assíduo de Ariano e autor da contracapa do primeiro volume. São inúmeros os personagens que permeiam o livro e muitos deles foram baseados em pessoas que passaram pela vida do autor, às vezes com seus verdadeiros nomes e outras não.

“Ele sempre pensou o livro plasticamente, onde queria reunir todas suas formas de expressão”, pontua Dantas. “Ariano não foi só um grande artista, mas também um grande comunicador”, ressalta Ricardo Gouveia. Além de ter se inspirado em amigos e familiares para criar a narrativa de Dom Pantero – que também é a sua própria –, o autor, como sempre muito perspicaz e bem-humorado, também inseriu críticas que foram publicadas em grandes jornais do Brasil sobre suas obras, mas atribuindo-as a diários de cidades interioranas nordestinas.

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Processo Criativo

Escreve, desenha, rasura, reescreve e rasura mais uma vez. Em 33 anos, não foram poucas as mudanças realizadas por Ariano no seu romance. Montado a mão, o autor ia tirando cópia do que escrevia e fazendo as colagens das ilustrações. “Ele compartilhava conosco as mudanças. Enquanto reescrevia, lia algumas partes e mostrava como estava o andamento do livro”, lembra Zélia.

“Sua ideia inicial era de publicá-lo acompanhado de um DVD onde estariam reunidos trechos das aulas espetáculos que dialogavam com a história, mídia que foi substituída por QR codes”, complementa Carlos Newton. Ao leitor e espectador muito atento, passagens das apresentações do paraibano não passarão despercebidas em trechos d’O Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores.

A simbiose entre a ficção e a realidade é muito bem construída e chega a ultrapassar as páginas do livro, indo até a fazenda Carnaúba, em Taperoá, no Cariri paraibano, cenário bastante característico e próprio do imaginário de Ariano. Manuel Dantas está realizando um dos sonhos de seu pai, o de concretizar a Ilumiara Jaúna que ilustra o livro. A pedra de mais de 30 metros de comprimento está sendo esculpida pelo filho com os desenhos criados pelo pai. “Tenho ainda um projeto maior de realizar espetáculos lá afazendo. Estou também planejando uma exposição com as litogravuras do meu pai, os originais do livro e outros material”, finaliza. O legado de Ariano Suassuna continuará, sem dúvidas, vivendo.

Com 10 anos, estudante de Teresina já leu quase 400 livros e vira escritora

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Menina de 9 anos escreve livro e já leu quase 400 e incentiva até sua mãe à leitura

Menina de 9 anos escreve livro e já leu quase 400 e incentiva até sua mãe à leitura

Edelani já começou a produzir o segundo livro enquanto família busca apoio para publicar o primeiro trabalho da menina. Carreira de escritora começou aos 8 anos.

Publicado no G1

A estudante de escola pública em Teresina, Edelani Silva, já leu quase 400 livros ao longo dos seus 10 anos de idade. Além disso, a garota também escreveu um livro inspirado nas histórias que conheceu no mundo da literatura.

“Eu li muitos livros e juntei tudo em um só. O Aladin, os contos de fadas e muitos outros estão neste livro”, explica Edelani ao falar sobre seu primeiro livro “A bolinha mágica”, que ela começou a idealizar e escrever aos 8 anos.

Enquanto Edelani trabalha na primeira poesia do segundo livro, sua família está em busca de apoio para publicar o primeiro trabalho da menina. O pai dela, um dos maiores incentivadores, contou que pegava livros emprestados na biblioteca para as filhas lessem.

“Eu fui uma pessoa que estudou muito pouco. O que eu sempre digo para minhas filhas é ‘estudar, estudar, estudar’. Porque se com o estudo está difícil, imagina sem o estudo”, disse Deusenir da Silva.

A mãe de Edelani, afirmou que sempre promoveu o hábito da leitura na filha. “Ler é muito bom. Você conhece mais o mundo. Quem gosta de lê, gosta de estudar”, disse Terezinha de Jesus.

A irmã da menina, Eusenir Araújo, de 14 anos, relatou que Edelani pegava seus livros escondidos para ler. “Eu não sabia que ela poderia passar de mim na leitura, comigo sendo mais velha. Achei bonito”, afirmou a adolescente.

Professor afirma que menina é excepcional para idade

De acordo com o professor e escritor Luiz Romero, um leitor em nível básico deveria ler ao longo de toda vida pelo menos um livro por mês, assim, aos 75 anos, a pessoa terá lido uma média de 900 livros.

“As escolas públicas tem seus alunos prodígios e ela é um”, disse o professor. Para ele, a garota precisa ser incentivada a continuar o hábito da leitura e da escrita. Para isso, o professor defende a publicação do livro de Edelani.

Professor Luiz Romero orienta menina escritora (Foto: Reprodução / TV Clube)

Professor Luiz Romero orienta menina escritora (Foto: Reprodução / TV Clube)

“Temos casos de alunos que de pequenos começam a produzir e a ler que chegam aos 20 anos já tendo lido cerca de 900 livros ou até mil livros. Não é um absurdo, é uma proposta boa”, ressaltou o professor.

A menina garante ler pelo menos a metade dos livros previstos pelo professor. “Como eu já li 375 livros, acho que aos meus 20 anos já vou ter lido mais de 500”, apostou Edelani.

Isis Valverde elege 4 livros – e escritoras – que marcaram sua vida

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Daniela Carasco, no UOL

Se em frente às câmeras Isis Valverde tem paixão pela atuação, fora delas, é a escrita e a leitura que lhe entusiasmam. “Você procura o que está dentro de você e, na sabedoria dos livros, acaba encontrando algo maravilhoso, a iluminação”, diz.

Isis Valverde Imagem: Reprodução Instagram

Isis Valverde Imagem: Reprodução Instagram

 

Além de ser uma leitora assídua, Isis diz que também a escrever contos e poesias, que ela tem planos de publicar. Enquanto seus versos não saem, ela usa seu Instagram, para compartilhar com seus 7 milhões de seguidores alguns dos títulos preferidos, como “Minutos de Sabedoria”, de Carlos Torres Pastorino, e “Farda Fardão – Camisola de Dormir”, de Jorge Amado.

Ao UOL, a atriz contou aqueles que marcaram sua vida e foram escritos por mulheres.

1. “A Maçã no Escuro”, de Clarice Lispector

“Conta a história de um homem, fugitivo da cena de um crime. Durante a fuga, ocorrem diversos pensamentos que remetem ao existencialismo e à filosofia hindu.”

2. “Pensar é Transgredir”, de Lya Luft

“Sobre a preocupação com o social, à inquietação pelo mistério da vida.”

3. “A Bolsa Amarela”, de Lygia Bojunga

“É um clássico da literatura infantojuvenil. Fala sobre uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir suas vontades.”

4. “Mulheres que Correm com Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés

“A partir da interpretação de lendas e histórias antigas, como as de ‘Barba-Azul’, ‘Patinho Feio’, ‘Sapatinhos Vermelhos’ e ‘La Llorona’, a autora redescobre o que é a ‘Mulher Selvagem’.”

O professor americano que ensina os alunos a sobreviver como homens das cavernas

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Brent Meeske Image caption O professor de arqueologia ensina em suas aulas como fazer fogo com gravetos

Brent Meeske
Image caption O professor de arqueologia ensina em suas aulas como fazer fogo com gravetos

Boa parte dos alunos começa o curso sem saber como quebrar um ovo. Depois das aulas de Arqueologia Experimental e Tecnologia Primitiva do professor Bill Schindler, no entanto, eles se tornam quase homens das cavernas: aprendem a fazer fogo com gravetos, cordas com fibras vegetais, flechas com pontas de pedra afiada e potes com argila. Se fossem abandonados em uma floresta sem comida e roupa, eles seriam capazes de colher frutos silvestres comestíveis, curtir peles, caçar e preparar animais selvagens como alimento.

Letícia Mori, na BBC Brasil

Embora ninguém mais dependa desse tipo de habilidade, o professor da Washington College, nos Estados Unidos, defende que elas são essenciais para entender o que significa ser humano. “Compreender nossos ancestrais nos ensina a olhar para nós mesmos de uma maneira completamente diferente. Tanto do ponto de vista da nossa dieta e saúde quanto da conexão com o ambiente e com as outras pessoas”, diz ele.

Bill Schindler Image caption Bill Schindler e seus alunos criam réplicas de ferramentas da idade da pedra

Bill Schindler
Image caption Bill Schindler e seus alunos criam réplicas de ferramentas da idade da pedra

É uma aula incomum, mas que está fazendo sucesso — está sempre lotada e recebe estudantes de todas as áreas.

“Espero ajudar a formar não só arqueólogos e antropólogos, mas professores, políticos, cientistas e executivos que tenham uma perspectiva diferente sobre nosso lugar no mundo enquanto tomam decisões que determinam qual o caminho que a humanidade tomará no futuro”, diz Schindler.

Aula inusitada

A filosofia do arqueólogo para ensino e pesquisa é baseada na ideia de se envolver em uma tarefa do início ao fim – coletando a matéria prima, aprendendo aquela tecnologia, construindo as ferramentas e usando-as. “Além das aulas teóricas e das leituras, meus alunos de fato fazem uma imersão no que estão aprendendo”, diz Schindler.

Alamy Image caption Alunos são desafiados a caçar e produzir sua própria comida

Alamy
Image caption Alunos são desafiados a caçar e produzir sua própria comida

 

Para as ferramentas, eles usam materiais como rocha obisidiana (feita de vidro vulcânico), basalto e sílex. Ao abater e limpar animais, nada é disperdiçado. Cada aluno pega um pedaço do animal para um projeto diferente. A carne de um cervo é consumida, a pele se transforma em roupa, os cascos são fervidos para fazer cola, os olhos viram tinta.

“É uma filosofia de ensino baseada em colocar a mão na massa, em aprender através da experimentação”, diz Schindler. Os alunos também passam a se preocupar com o impacto que os produtos que usam têm no ambiente e com a origem dos alimentos que consomem.
Retorno às origens

Em 2015, Schindler gravou uma série para o canal National Geographic chamada The Great Human Race (exibida no Brasil como Desafio Primitivo). No programa, ele e a especialista em sobrevivência Cat Bigney viajaram o mundo tentando sobreviver da mesma forma que nossos ancestrais em diferentes períodos da pré-história.

Eles foram à Sibéria e buscaram viver como os caçadores da era do gelo, de cerca de 40 mil anos atrás, durante 8 meses.

“Aprendi muito mais do que poderia imaginar. E foi mais do que aprender – foi sentir, compreender, viver. Hoje, sinto que posso interpretar muito melhor como era a vida no passado e que tenho mais autoridade para falar sobre o assunto”, conta ele. “Essas experiências imersivas beneficiam a ciência e a pesquisa porque preenchem lacunas em nosso conhecimento.”

Bill Schindler Image caption O professor começou a criar ferramentas ainda criança; hoje, dá aulas na universidade

Bill Schindler
Image caption O professor começou a criar ferramentas ainda criança; hoje, dá aulas na universidade

 

Segundo o arqueólogo, as tecnologias primitivas que mais influenciaram a evolução humana são as relacionadas com a obtenção e o processamento de comida.

“As mudanças na dieta impactaram diretamente nossa evolução biológica e cultural. Tudo o que somos do ponto de vista biológico e de como interagimos uns com os outros, ou seja, tudo o que nos torna humanos, nós devemos às mudanças permitidas pelo uso de tecnologias como ferramentas de pedra, fermentação, instrumentos e caça e estratégias de coleta de alimentos”, diz Schindler.

Ficamos mais altos, nossos cérebros cresceram, a maneira como interagimos uns com os outros se aprimorou — tudo isso deu origem ao ser humano moderno, o homo sapiens sapiens.

No entanto, diz Schindler, somos uma das espécies de predadores mais fracas do planeta. “Nossas unhas, nossos dentes e nossos órgãos digestivos são completamente inúteis se comparados aos de outros animais. Nós ultrapassamos as limitações de nossos corpos criando mais ferramentas e mais tecnologia.”

Bill Schindler Image caption Quando caçam um animal, cada aluno pega uma parte diferente para seu projeto individual; nenhum pedaço é desperdiçado

Bill Schindler
Image caption Quando caçam um animal, cada aluno pega uma parte diferente para seu projeto individual; nenhum pedaço é desperdiçado

 

A série tornou a faculdade em que Schindler trabalha mais conhecida entre o público e aumentou seu prestígio na área de arqueologia – até então, era conhecida mais por seu curso de letras.

Para Schindler, as pessoas se empolgam com a ideia de aprender habilidades de sobrevivência por estarem procurando – conscientemente ou não – conexões com o passado, com o ambiente, com as outras pessoas e consigo mesmas. “A vida moderna está sempre nos afastando dessa ligação. Praticar essas habilidade nos ajuda a reconectar”, diz ele.

Além disso, há um certo romantismo na ideia de ser capaz sobreviver sem as facilidades do mundo moderno. “Creio que é mais um desejo de sentir que você poderia ser auto-suficiente do que uma vontade real de estar em uma situação em que essas habilidades sejam necessárias”, diz ele.
Um homem de família

Bill Schindler cresceu em um subúrbio de New Jersey, nos Estados Unidos, e começou a criar ferramentas ainda criança. Com 10 anos, contrariando os pais, ele começou a colher frutos silvestres.

Nos anos 1990, ele trocou de faculdade sete vezes. Demorou dez anos para se formar em arqueologia. Hoje, ele é professor titular do departamento de Antropologia da Washington College.

Seu trabalho com arqueologia experimental teve um impacto em sua casa e no dia a dia de sua família. Ele, sua mulher e seus três filhos — de 9, 11 e 13 anos — vivem em uma propriedade rural no Estado americano de Maryland.

“Mudamos principalmente nossa alimentação. Pegamos as lições de nosso passado pré-histórico e as modificamos para torná-las relevantes à nossa vida ocidental moderna. Produzimos praticamente tudo o que cozinhamos – caçamos, colhemos, fermentamos e curamos nossa comida”, diz Bill, que produz queijo, iogurte e chucrute para consumo próprio.

Ele e sua família são próximos dos agricultores e pecuaristas que fornecem os alimentos que eles não produzem. “Somos mais saudáveis e mais conectados ao ambiente. Voltamos a comer como seres humanos e vale todo o esforço!”, afirma o arqueólogo.

Bill Schindler Image caption Na maior parte do tempo, a família de Bill come apenas carne de animais que eles mesmos matam e plantas que colhem

Bill Schindler
Image caption Na maior parte do tempo, a família de Bill come apenas carne de animais que eles mesmos matam e plantas que colhem

 

“Não usamos roupas de peles de animais no dia a dia, mas meus filhos sabem como esfolar um animal e curtir a pele para usá-la como vestimenta”, diz Schindler. Ele acredita que isso ajuda as crianças a entenderem o valor de tudo o que eles têm.

“Quando eles veem uma jaqueta de couro, não pensam no shopping onde ela foi comprada — lembram-se de quando fizeram suas roupas com pele de veado, de que aquilo tirou a vida de cinco animais.”

O objetivo é estar mais consciente das consequências das ações humanas. “Temos que enfrentar a dura realidade de que animais e plantas morrem para que nós vivamos e nos tornemos melhores guardiões do ambiente”, afirma.

“Quando a maioria das pessoas pensam sobre comer um animal, elas pensam em comer carne, de forma abstrata. Em nossa casa, quando comemos um animal, pensamos em comer um animal.”

Bem que a literatura avisou: A realidade pode ser absurda

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Reprodução

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Distopias clássicas e produções como ‘Black Mirror’ continuam provocando mal-estar ao mostrar um futuro fictício assustadoramente familiar.

Amanda Mont’Alvão veloso, no HuffpotsBrasil

Fui obrigado a ler e ouvir muitas coisas incríveis sobre a época em que as pessoas ainda viviam livres, isto é, num estado de desorganização selvagem. (…) Levantavam-se e deitavam-se para dormir quando lhes desse na cabeça. Alguns historiadores dizem, inclusive, que naquele tempo as ruas ficavam iluminadas durante a noite inteira, e as pessoas caminhavam e dirigiam a noite inteira. Isso eu não consigo compreender de maneira nenhuma.”

(Nós, escrito em 1923 por Ieveguêni Zamiátin)

Se algum de meus parentes perceber que eu sou gay, eles não hesitarão um minuto antes de me matar. E se eles não fizerem isso, eles vão se matar por não terem cumprido a honra da família.”

(Checheno perseguido por ser gay)

O absurdo é aquilo que foge à logica, grita incoerência, inspira perplexidade. Uma vida sem absurdos parece utópica, pois as relações humanas são feitas de irracionalidade. Mas uma vida em que o absurdo parece virar regra mostra que a distopia não tem lugar apenas na fantasia.

Na distopia, nos vemos diante de um lugar fora da história, geralmente sem localização exata, mas estranhamente familiar a cada um de nós. O controle, a ordem e a opressão dão o tom à sociedade, geralmente subjugada por um governo totalitário ou pela servidão voluntária a um determinado sistema. A racionalidade se torna ameaçadora e monstruosa na medida em que impede qualquer tipo de singularidade ou desejo.

Enquanto que na utopia as nações são idílicas, “em que homens solidários e justos mantêm relações de cordialidade em meio a uma natureza dadivosa e domesticada”, como descreve o escritor e crítico literário Manuel da Costa Pinto, na distopia podemos dizer, com segurança, que fracassamos em nosso humanismo. Se vieram à mente os episódios “White Bear” ou “Odiados pela Nação”, da série Black Mirror, bem, você sabe de que desconforto estamos falando. É ficção, é absurdo e provoca-mal-estar. Parece real.

De certa forma, Freud mostrou, em 1930, o caráter impossível das utopias ao falar do papel da civilização nas relações humanas e no estabelecimento de limites a um comportamento que, sem regras, naturalmente tenderia à selvageria. Viver em sociedade, portanto, exige a renúncia à satisfação de “instintos” poderosos, em uma espécie de comprometimento com a existência do outro. As regras da vida coletiva, no entanto, não são assimiladas pacificamente e produzem perdas bastante incômodas para os sujeitos. “Não se pode fazer tudo” é a mensagem que o pai da Psicanálise parece deixar no texto Mal-Estar na Civilização (Companhia das Letras).

Em paralelo, “pode fazer quase nada” é uma premissa clássica das grandes distopias da literatura mundial. As proibições têm a pretensão de regular até mesmo o pensamento, como é o caso de 1984 (Companhia das Letras), a obra-prima do britânico George Orwell publicada em 1949. O protagonista, Winston, é vigiado 24 horas pelo Estado por meio do Big Brother (O Grande Irmão). A propaganda governamental é tão intensa que não deixa tempo para a população pensar por conta própria e, portanto, desconfiar que aquilo tudo está muito, muito errado. A tortura é a punição aplicada a quem ousa questionar.

Na sociedade pensada pelo norte-americano Ray Bradbury em Fahrenheit 451 (Editora Globo), de 1953, livros são considerados altamente subversivos e não podem existir nos lares. Pensar, refletir e imaginar são atitudes altamente proibidas. O Corpo de Bombeiros, em vez de apagar incêndios (as casas são à prova de combustão), é designado a colocar fogo em publicações. O principal mal-estar causado pela leitura, porém, não vem do fato de se queimarem livros, mas sim de se reconhecer como sociedade que abre mão da leitura e de seu potencial revolucionário e libertador.

“Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. (…) São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes”, lamenta o professor Faber, que possivelmente teria sua melancolia reforçada ao saber que, no Brasil de hoje, apenas 8 em cada 100 pessoas sabem interpretar o que leem. A julgar pelas inflamadas opiniões nas redes sociais, a capacidade de entender uma mensagem parece ter cada vez menos valor.

Em Laranja Mecânica (Editora Aleph), de 1962, o inglês Anthony Burgess explora a violência como motor de perversidades tanto de cidadãos quanto do Estado. Proibida, aqui, é a liberdade de escolha. Alex, o protagonista, se expressa por um dialeto próprio e bizarro; mas a sua comunicação com o mundo é marcada mesmo por seus atos de crueldade e de violência. Ao ser preso pelo governo, ele passa por um experimento bastante controverso, que pretende “curar” mentes criminosas.

Quando o inglês Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo (Editora Globo), publicado em 1932, o nacionalismo estava em ascensão, fomentado inclusive pelos rastros de destruição causados pela Primeira Guerra Mundial. No livro, a serventia ao totalitarismo é voluntária, uma vez que o povo acredita estar nas mãos do Estado a sua felicidade e satisfação. O amor é proibido, o sexo é propagado como um substituto e o papel de cada pessoa na sociedade é definido pela manipulação genética.

O amor é também uma proibição aos personagens de Nós (Editora Aleph), impressionantemente escrita em 1923 por Ieveguêni Zamiátin e que neste ano ganhou uma caprichada edição traduzida diretamente do russo. É o livro que encantou Orwell antes de escrever 1984. Números em vez de nomes próprios e uniformes se tornam a norma nesta sociedade batizada de Estado Único, onde a igualdade é levada às últimas consequências e se torna abusiva e perigosa por impedir qualquer tipo de diferenciação entre os habitantes. Pouca coisa parece surpreender D-503, o satisfeito engenheiro que protagoniza a obra. Mas uma vida com desejos e escolhas, como a que ele descreve no primeiro parágrafo deste texto, lhe parece completamente fora de sentido. Para ele, a felicidade do povo depende das regras e da ausência de singularidade instituídas pelo governo totalitário de seu país.

Quando a realidade é asfixiada pela censura, pelo abuso, pelos direitos suprimidos, pelo sacrifício consentido da privacidade e pelo silêncio, essas distopias, com sua visão tenebrosa e assustadoramente realista de um futuro fictício, vêm exercendo a crítica social necessária à desistência e à apatia.

No mundo em que arautos da intolerância se tornam líderes políticos; boatos e notícias falsas definem condutas particulares e políticas públicas; pais são demandados a matarem seus filhos gays em nome da “honra”; a escravidão tem seus efeitos ignorados; milhões de pessoas são obrigadas a se refugiar, sem a certeza de que serão acolhidas por outros países; mulheres são impedidas de tomar decisões sobre a própria existência; moradores de rua são tratados como “sujeira” e doentes mentais são acorrentados em celas de hospícios abandonados, é difícil não remeter à literatura distópica e seu assustador recado de “eu avisei”.

Absurdos então reservados ao imaginário da ficção científica passam a ocupar páginas de jornais e sites, perfis de redes sociais e pronunciamentos oficiais. Ainda que a obscuridade de fatos e personagens cotidianos encontre ressonância nas obras acima – afinal, os dias têm sido difíceis -, há um furo determinante para impedir um profundo pessimismo. Do lado de cá, da vida real, ainda é permitido sonhar, desejar, lidar com o que vai ser perdido e vislumbrar o que pode ser modificado.

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