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Briga, tiros e medo: 50% dos brasileiros dizem estudar em áreas violentas

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Grades na Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de SP

Grades na Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de SP

 

Marcelle Souza, Franco Adailton e Ronald Lincoln Jr, no UOL

Após uma semana do início das aulas, o vigilante desempregado Sérgio Rodrigues do Nascimento, 43, já havia pedido a mudança do filho de 10 anos da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, na zona sul de São Paulo, para outra unidade. “No terceiro dia, dois alunos foram expulsos da sala, já vi um monte de gente pulando o muro da escola, e ontem meu filho disse que levou um chute de outro garoto na hora do intervalo”, conta o pai.

“A gente fica de coração partido de deixá-lo aqui”, afirma Nascimento, que nos últimos dias percorreu outras escolas da região em busca de vagas em turmas de sextos anos do ensino fundamental. “Não quero que meu filho vire bandido.”

Na mesma região, outro pai tentava tirar o filho da Escola Estadual João Ernesto Faggin pelo mesmo motivo. “Eu estudei aqui quando tinha 10 anos e a escola já não era boa. Hoje tenho 41 anos e nenhum dos meus colegas de classe estão vivos”, afirma o morador do bairro, que preferiu não dar o nome porque tem medo de represálias dos traficantes da região.

O vigilante Sérgio Rodrigues do Nascimento e seu filho diante da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, em SP: "Não quero que meu filho vire bandido", diz

O vigilante Sérgio Rodrigues do Nascimento e seu filho diante da Escola Estadual Maria Augusta de Moraes Neves, em SP: “Não quero que meu filho vire bandido”, diz

 

Seu filho de 12 anos já havia faltado aos três primeiros dias de aula, porque o pai se recusou a aceitar a matrícula na Ernesto Faggin. “Parece que até a direção tem medo. Cheguei para pedir a transferência e a sala está cheia de grades”, diz.

A sensação de insegurança não é exclusiva dos pais desses alunos nem da capital paulista. Os dados da Pense (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) compilados e publicados no 10º Anuário de Segurança Pública, de novembro de 2016, mostram que 50,8% dos alunos do nono ano do ensino fundamental estão em escolas localizadas em áreas de risco de violência. A pesquisa, realizada por amostragem, levou em consideração 2.630.835 entrevistas com estudantes de todo o país matriculados no nono ano do ensino fundamental das redes pública e privada.

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Traficantes rondam as escolas

Nos dois colégios citados, por exemplo, a reportagem presenciou adolescentes usando drogas, traficantes rondando as escolas e pinos de cocaína espalhados pelo chão a poucos metros da entrada das unidades de ensino. Sem sucesso, a funcionária de uma delas tentou barrar a entrada de jovens que não estavam matriculados no colégio. Havia também lixo e entulho nas calçadas.

“Dividimos o crime escolar em três tipos: o que está previsto no Código Penal, pode ferir e matar –esse é muito complicado de combater e não está em todas as escolas. Há também a microviolência, que é a violência do cotidiano e está nas relações sociais dentro da escola. O terceiro é a violência simbólica, quando você faz mal e o outro não consegue responder, como a homofobia. Essa é uma violência quase transparente”, diz Miriam Abramovay, da Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), que pesquisa o tema há mais de 15 anos.

No ano passado, o técnico em enfermagem Leonardo Vieira dos Santos, 31, atendeu a uma ligação desagradável da escola em que os filhos de 15 e 11 anos estudavam na zona sul de São Paulo. “Eles disseram que tinha acontecido uma briga. Cheguei à escola e meu filho mais novo tinha sido agredido por um colega. Não foi briga.”

O técnico em enfermagem registrou um boletim de ocorrência e, em seguida, procurou a diretoria regional de ensino para transferi-lo para outra unidade. “A gente se sente muito mal, não quer que isso aconteça com um filho”, diz.

“O que mais me dá medo são assaltos nos pontos de ônibus”

Mães acompanham os filhos na saída da escola com medo da violência em Salvador

Mães acompanham os filhos na saída da escola com medo da violência em Salvador

Na Bahia, os dados da pesquisa mostram que 47,6% estudantes do ensino fundamental consideram violenta a área onde está situada a escola. Na rede privada, o percentual é de 52,7%, enquanto na educação pública a avaliação é de 46,8%.

Luana Carvalho, 11, mora no bairro São Rafael, em Salvador, uma localidade com as mesmas características da região onde estuda, o Cabula: perfil de classe média, com boa infraestrutura, comércio pujante e próximo de comunidades pobres.

Responsável pela menina, Andréa não tem tempo de levá-la para a aula, mas não arrisca deixar Luana ir de ônibus por medo de assaltos. Apesar de a escola manter um considerável nível de segurança (câmeras, porteiros, grades), a mãe considera que o Cabula é uma área violenta.

“É um bairro muito visado, porque concentra em um pequeno raio escolas particulares, universidade, supermercados, bancos”, descreve. “O que mais me dá medo são assaltos nos pontos de ônibus. Por isso contratei transporte escolar, para protegê-la desse tipo de violência”, acrescenta.

A contadora lembra que, há cerca de dois anos, foi buscar a filha na escola, mas encontrou a instituição fechada devido a um tiroteio. O motivo foi uma tentativa de assalto a um carro-forte que abastecia os terminais de um supermercado na avenida Silveira Martins, a poucos metros da escola.

“A violência é um reflexo da sociedade em todo o país. Se o bairro o onde a escola está inserida é violento, a instituição fica exposta, vulnerável, quer seja privada ou pública”, diz Rui Oliveira, coordenador do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia. “A escola não é uma ilha, pois está propensa a diversas influências externas, fatores estruturais da sociedade, tais como desigualdade social, desemprego, tráfico de drogas e ausência de políticas públicas para combater essas questões.”

“Criança é muito vulnerável”

Diretor do soteropolitano Colégio São Lázaro, o professor Antônio Luiz afirma que não é permitido aos alunos sair da escola no horário do intervalo, nem mesmo os estudantes secundaristas. A exceção, frisa o docente, ocorre somente nos dias de aula integral, com autorização das famílias, no horário do almoço.

“Nossa preocupação não é só em relação à violência externa que possa ocorrer, mas também quanto à influência das drogas”, diz o professor. “Além disso, orientamos aos alunos evitar sair com objetos chamativos na rua, usar tênis mais simples e sair em grupos no final da tarde.”

A 500 metros do São Lázaro está o Colégio Municipal da Engomadeira, que leva o mesmo nome do bairro popular onde os ônibus voltaram a circular somente depois de dois dias por conta da morte de dois homens em confronto com a PM, no último dia 4.

Leandro Vieira dos Santos pediu transferência para seus filhos após um dele ser agredido dentro de uma escola estadual

Leandro Vieira dos Santos pediu transferência para seus filhos após um dele ser agredido dentro de uma escola estadual

 

Segundo comunicado da PM, os policiais foram atender a um chamado de troca de tiros entre traficantes –versão contestada pela comunidade, que sustenta que os mortos eram moradores. Na ocasião, uma criança de sete anos acabou baleada; não se sabe a autoria do disparo.

A Engomadeira carrega o estigma de abrigar um dos mais fortes pontos de tráfico de drogas da capital baiana: a Lajinha. Por receio de represálias –cinco ônibus já foram queimados na Grande Salvador neste ano–, o Sindicato dos Rodoviários decidiu suspender a circulação no bairro.

Alana Conceição, 9, chega para a aula às 7h30, sai às 11h30, mas sempre acompanhada da mãe, a auxiliar de desenvolvimento infantil Adriana Conceição, 38, que não deixa a menina ir sozinha para a escola, localizada a cerca de 400 metros de casa.

“Hoje em dia, não dá para vacilar. Por segurança, eu mesma trago e venho buscar depois da aula”, conta a mãe, que prefere não comentar episódios de violência no bairro. “Criança é muito vulnerável. Diante do perigo, em vez de se proteger, vai olhar o que é.”

Em todo o país, 34,5% dos alunos do nono ano de escolas privadas afirmaram que estudam em escolas localizadas em bairros violentos. Entre os matriculados em unidades da rede pública, esse número era de 53,5%.

Apesar de a violência fazer parte da rotina de escolas públicas e privadas, Abramovay diz que os desafios vividos por cada uma são muito diferentes. “De modo geral, não podemos comparar as duas. A escola particular tem muito mais condições do que a escola pública. A violência tem uma parte que acontece nas relações sociais, mas está também na estrutura, quando a escola não tem ventilador, não tem merenda, não tem internet, não tem computador. Isso não quer dizer que não tenha violência na particular, mas ela é muito diferente”, diz a pesquisadora.

Tiroteios são frequentes no Alemão

Alunos na saída da Escola Municipal Walt Disney, que fica na entrada do Morro da Baiana, pertencente ao Complexo do Alemão, no Rio

Alunos na saída da Escola Municipal Walt Disney, que fica na entrada do Morro da Baiana, pertencente ao Complexo do Alemão, no Rio

 

Estudantes moradores do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, frequentemente ficam impedidos de ir à escola em razão da violência na região em que vivem. No dia 2 de fevereiro, início do ano letivo, após um longo confronto entre policiais e traficantes da região, cerca de 3.000 crianças ficaram sem aula, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação.

Embora conte com UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) desde 2012, o Complexo do Alemão ainda convive com o tráfico de drogas. No dia 7, a reportagem do UOL visitou as escolas municipais Walt Disney e Padre Manoel da Nóbrega, ambas de ensino fundamental, localizadas em um dos acessos do Morro da Baiana, que faz parte do Complexo do Alemão.

Enquanto alguns pais de alunos eram entrevistados, outros que acabavam de chegar da comunidade para buscar os filhos alertavam que, naquele momento, ocorria um tiroteio e que era necessário tomar cuidado no caminho de volta para casa.

“Agora com a UPP, a polícia está sempre lá em cima [no morro] e tem acontecido mais tiroteios. E acontecem bem na hora em que as crianças estão saindo ou chegando no colégio”, conta o auxiliar de laboratório Flaviano Silva, 32, que buscava o filho de sete anos. Segundo ele, é comum o filho não ir à escola em razão de tiroteios.
8,6% abandonam a escola por medo

A menina Ana Clara, 5, teve problemas em seu primeiro dia em uma escola. Ela foi um dos 3.000 alunos que ficaram sem aula no dia 2 de fevereiro, por causa da troca de tiros. Sua mãe, a dona de casa Jéssica da Silva, 20, relata que o marido teve de voltar correndo com a menina para casa após os confrontos. “É uma situação muito chata, eu fico com muito medo.”

Os dados da Pense mostram que as consequências da violência vão bem além das agressões físicas, percebidos imediatamente. Segundo a pesquisa, 14,8% dos estudantes do nono ano entrevistados haviam faltado aula no último mês por conta do medo. Outros 8,6% tinham abandonado a escola pelo mesmo motivo. “A violência mina a vida das pessoas, aparta, prejudica a qualidade do ensino”, diz Abramovay.

Além de pais e alunos, o clima de violência também costuma afetar o rendimento de professores das escolas situadas em áreas violentas. “Essa sensação de medo é sempre constante. Já vi professor que teve o carro queimado, invasão de escola, briga de gangues, aulas suspensas, estudante que entrava armado na sala porque estava ameaçado de morte”, diz um professor de história que leciona na rede estadual em Diadema (SP) e não quis se identificar.

“Uma vez, em uma nova escola, o porteiro veio me explicar por que o muro tinha várias perfurações de bala”, diz o mesmo professor. Ele afirma que nunca pensou em deixar a sala de aula, mesmo após 20 anos de profissão. “A minha opção por aula na rede pública é ideológica e de vida. O meu papel é de alguém que pode mudar a vida de alguém e, se, por um lado, tem toda essa pressão, por outro, é muito gratificante quando alguém conta que foi aprovado no vestibular.”

O que dizem os órgão públicos

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar de São Paulo não comentou sobre os problemas encontrados no entorno das escolas estaduais na zona sul de São Paulo.

A Secretaria da Educação de São Paulo entende que o enfrentamento à violência deve ocorrer em diversas frentes, que englobam também comunidade escolar, famílias e a polícia.

“A pasta desenvolve diversas ações pedagógicas, que são praticadas inclusive nas escolas mencionadas pela reportagem, como projetos interdisciplinares desenvolvidos pelas equipes gestoras relativos a temas como uso de drogas, violência e bullying; o Programa Escola da Família, que oferece atividades de lazer e cultura aos finais de semana, aproximando as famílias para que atuem em parceria com as instituições; além de trabalhos que incentivem a cultura de paz e o protagonismo juvenil”, informou a secretaria. Polícia, ronda escolar, Conselho Tutelar e Ministério Público também atuam em conjunto com o órgão.

No Rio, a assessoria das UPPs confirmou ao UOL, por meio de nota, que houve tiroteio no Complexo do Alemão no dia em que foi realizada a reportagem. Segundo o comunicado, policiais que faziam patrulhamento na região foram recebidos a tiros por traficantes. Mas não houve registro de feridos ou mortos.

A reportagem questionou a Coordenadoria das UPPs (CPP), órgão vinculado à Polícia Militar, sobre as ações policiais realizadas nos horários de entrada ou saída de crianças das escolas. Em nota, assessoria de imprensa disse que as “operações são realizadas com base nas informações do Setor de Inteligência”.

A Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Lazer do Rio afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que é responsável apenas por questões de ensino e que “os diretores de cada escola têm a atribuição de avaliar e decidir se há necessidade de suspensão do funcionamento dos colégios diante de situações de violência, como confrontos entre bandidos e policiais, sempre visando à segurança dos alunos”.

“A gente avalia que os dados do Anuário podem estar associados à violência urbana como um todo, como consequência da desigualdade social”, diz o subsecretário de Educação do Estado da Bahia, Nildon Pitombo. “Além disso, temos as ações institucionais com a Ronda Escolar e parcerias com universidades, por meio de grupos de pesquisa sobre sociedade, combate à violência e uso de drogas.”

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia informou que vai avaliar os dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança e estudar as informações contidas no documento.

De antemão, diz a nota, a SSP reforça que considera a educação uma das principais formas de prevenção à violência e que já tem ações voltadas para a proteção dos estudantes baianos, como a Ronda Escolar, unidade da Polícia Militar que trabalha a conscientização dos jovens.

Procurada, a Polícia Militar (PM) informou que, por meio da Ronda Escolar, atua com o objetivo de intensificar o policiamento no entorno dos estabelecimentos de ensino públicos e privados. A PM acrescenta que desenvolve ações integradas (palestras, visitas, apresentação de peças teatrais), “para que a comunidade escolar tenha um ambiente propício para o desempenho de suas atividades”.

Como uma professora transformou a favela onde vive em Florianópolis

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Dona Uda, líder comunitária no Mont Serrat, na cadeira de balanço herdada da mãe

Dona Uda, líder comunitária no Mont Serrat, na cadeira de balanço herdada da mãe

 

Aline Torres,  no UOL

Maria da Costa Lourdes Gonzaga foi professora por 30 anos ou três gerações de alunos no Mont Serrat, comunidade do Maciço da Cruz, na região central de Florianópolis.

Diz brincando que tem sorte de ainda não ter aparecido nenhum bisneto de aluno seu, senão se sentiria muito velha. Segundo suas contas, deve ter dado aulas para mais de 15 mil crianças.

Dona Uda, como ficou conhecida, também batalhou por água encanada, esgoto, asfalto e ônibus para a favela onde vive até hoje.

Nas horas vagas, alfabetizou adultos. Ajudou a construir a escola de samba Copa Lord, uma das mais tradicionais da cidade, ao lado de seu marido, Armandinho, que foi presidente por 18 anos.

Quando ele morreu, em 1984, a comunidade pediu que ela assumisse a função, na qual ficou por dois anos. Até hoje, nenhuma outra mulher foi presidente de uma escola de samba no município.

Aos 78 anos, dona Uda ainda não parou. Coordena o grupo de mulheres negras Antonieta de Barros, é madrinha da melhor idade, responsável pelas 43 baianas da Copa Lord. Também batiza, dá a catequese e casa os fiéis da igrejinha de Mont Serrat.

E trabalha para ver nascer a primeira universidade no morro. Ela e o padre Vilson Groh participam de audiências públicas e reuniões privadas com representantes do governo para viabilizar esse projeto.
Invisíveis

Segundo o historiador André Luiz Santos, autor de “Do Mar ao Morro: A Geografia da Pobreza Urbana em Florianópolis”, na década de 1920, a derrubada dos cortiços foi seguida pela isenção de impostos para famílias que desejassem construir belos imóveis nos locais desocupados à força, tanto no centro quanto em áreas nobres.

Com isso, os pobres e negros foram sendo expulsos para outras áreas, como o Maciço da Cruz. Foram doadas madeiras para que os casebres fossem erguidos nessa região “com a condição de não serem vistos”, escreve ele em sua tese.

Vista do morro da igreja Nossa Senhora do Mont Serrat, em Florianópolis

Vista do morro da igreja Nossa Senhora do Mont Serrat, em Florianópolis

 

O Mont Serrat foi um dos primeiros morros a serem povoados em Florianópolis. Recebeu escravos fugidos e soldados miseráveis no século 19. Depois houve a migração de pobres para a região.

Seis famílias ergueram os primeiros barracões: os Silva, os Veloso, os Cardoso, os Almeida, os Barbosa e os Costa, pais de Uda. “Aqui somos todos parentes”, resume ela.

Dona Uda nasceu no Mont Serrat no dia 30 de julho de 1938, filha do pedreiro Julio Sebastião da Costa e da lavadeira Angelina Veloso Costa. Apesar da vida difícil, o casal se esforçou para realizar o sonho da filha: ser professora.

“Vim a esse mundo com a mesma missão das minhas duas madrinhas. Somos as três Marias e dedicamos nossas vidas à sala de aula”, disse.

Aos oito anos, foi matriculada na Escola dos Pobres, como era chamada a Diocesana São José. Lá foi alfabetizada, mas ela queria mais.

Aos 13, foi para o Instituto Estadual de Educação, a maior escola pública de Santa Catarina, onde foi a primeira aluna negra. A diretora era Antonieta de Barros, que se tornou a primeira deputada estadual negra do país e a primeira mulher eleita em Santa Catarina.

Dona Uda com os seus primeiros alunos

Dona Uda com os seus primeiros alunos

 

Dona Uda se inspirou nesse pioneirismo e foi a primeira negra a passar no vestibular da Udesc (Universidade de Santa Catarina) para o curso equivalente a pedagogia.

Com o diploma em mãos, foi convidada a dar aulas na primeira escola criada em uma favela –a Básica Lucia do Livramento Mayvorne, situada no alto do Mont Serrat.

Quando começaram as aulas, tinha 12 alunos. No final do ano letivo, 500. Como a escola não comportava tantas crianças, saiu pela vizinhança explicando a situação e fez muita gente resolveu cooperar.

A Legião da Boa Vontade cedeu duas salas, a igrejinha local ofereceu uma terceira. Um antigo morador deu a chave de um velho casebre com três cômodos. E, mesmo na base do improviso, as 500 crianças tiveram aulas.

Na hora do lanche, a mãe de Uda preparava merendas para todos na igrejinha. “Era muito bonito. Nós vencíamos todos os obstáculos. O importante era que nenhuma criança ficasse ociosa”, conta.

Ela diz que seu principal ensinamento não foi o abecedário. Foi alimentar sonhos. “Eu dizia que eles podiam ser o que quisessem. Se uma menina do morro quiser ser médica, ela vai ser. Não tem o que segure a força de vontade.”

O estímulo rendeu frutos. Dona Uda guarda uma caixa cheia de convites de formatura de ex-alunos. São médicos, advogados, enfermeiras. Muitos fizeram mestrado e doutorado sobre a madrinha negra da favela. “Eu não pude ter filhos, então, virei mãe de todos.”

A frase parece exagero. Mas a porta de sua casa não está nunca fechada. Vizinhos, crianças e parentes entram sem bater. Querem saber como ela está, se precisa de algo, se passa bem da recuperação do joelho recém-operado, levam mimos. “Ela é mais beijada que a pomba do divino”, resume a amiga Patrícia Sardá. A família não para de aumentar.

Nem investiu em política de bem estar social na Rocinha, diz autor de biografia

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O escritor inglês Misha Glenny - Barbara Lopes / O Globo

O escritor inglês Misha Glenny – Barbara Lopes / O Globo

 

Inglês Misha Glenny está lançando ‘O Dono do Morro’ na Flip

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — O inglês Misha Glenny não se intimidou, na manhã desta quinta-feira, com a quantidade de jornalistas brasileiros presentes para fazer perguntas sobre o livro “O Dono do Morro”, que narra a história de Antonio Francisco Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, o chefe do tráfico da Rocinha preso em 2011. Falando quase o tempo todo em português, Glenny garantiu que o desafio era pequeno para alguém que morou por três meses na Rocinha, em 2014, a fim de entender o personagem principal de sua obra.

Lançado nesta Flip, o livro conta a história de Nem, chefe do tráfico na favela entre 2005 e 2011 e responsável, segundo o escritor, por investir num sistema de bem estar social na comunidade, permitindo a segurança do seu negócio e o aumento do lucro com o comércio de cocaína. O inglês de 58 anos, correspondente do “Guardian” e da BBC, se especializou em investigações criminais. Depois de presenciar in loco a detenção de Nem, decidiu que escreveria sobre a sua vida.

— Eu estava no Rio em novembro de 2011, quando ele foi preso. Foi um acontecimento público, fiquei impressionado com a cobertura intensa. Na ocasião, metade do Rio o demonizava e a outra o tratava como herói. Me impus duas condições: aprender português e morar por pelo menos dois meses na Rocinha — explica Glenny.

Muito além de uma biografia, o livro contextualiza os problemas sociais das favelas brasileiras, e o impacto do tráfico de cocaína na sociedade.

— Não é somente sobre o Nem, mas sobre a Rocinha, a guerra às drogas e a desigualdade social no brasil. A estatística mais importante do livro, na minha opinião, é que em 1982 o Rio teve a mesma taxa de homicídios que Nova Iorque; em 1989, os números de Nova Iorque se mantiveram e os do Rio já eram três vezes maiores. Isso ocorreu porque o Brasil se tornou a principal rota do pó para a Europa, o que desenvolveu hábito local também.

Crítico da política de guerra às drogas, Glenny, por outro lado, constatou o impacto do comércio de cocaína na Rocinha, durante o período em que Nem controlava o morro. Impressionado com a força da atividade econômica no local, o escritor acredita que o bem-estar vivido pelos moradores naquela época foi resultado da visão de mercado do traficante.

— É uma relação complexa, mas o tráfico teve um impacto positivo na favela. Em 2005, quando o Nem assumiu, a taxa de violência na Rocinha caiu. Foi a primeira favela a receber bancos, e até a primeira a receber uma sex shop. Acho que isso tudo tem a ver com a política do Nem. Ele percebeu que se a violência caísse, o lucro subiria. Apesar de negar que fez conscientemente, o fato é que grande parte dos lucros foram direcionados para um sistema de bem estar social. Naquele período era uma favela muito segura, muitos políticos e jogadores de futebol frequentavam o local. E muitos cantores, como Ja Rule, Ivete Sangalo e Claudia Leite, também fizeram show nos espaços de lá.

Depois da prisão de Nem, a Rocinha sofreu um choque de realidade com a entrada da UPP, que Glenny classifica como um trabalho corajoso e bem feito. O grande problema, para o escritor, foi o “fracasso absoluto da UPP social”.

— Entrevistei o secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Ele me disse que o que mais chocou ele, ao entrar no governo, foi a percepção de que o estado estava ausente das favelas por 50 anos. A UPP foi uma ação corajosa, proporcionada pela união das esferas municipal, estadual e federal. As taxas de homicídio caíram, mas as de outros crimes como furto e estupro subiram. O caso Amarildo expôs como o projeto, sem a UPP social, era frágil. Agora, com o impacto da crise, acho que a situação da violência irá piorar muito depois das Olimpíadas.

Glenny descreve Nem como um homem que só entrou para o tráfico aos 24 anos, idade considerada tardia, e uniu sua inteligência com a experiência de gerência de equipes, adquirida quando comandava a entrega de revistas na Zona Sul. Para ele, a história do traficante ainda não foi compreendida por policiais, advogados e mídia. Crescido sob a marca da violência doméstica, Bem mudou de vida quando sua filha de apenas sete meses desenvolveu uma doença rara. O escritor lembra pesquisas que mostram como a violência doméstica, endêmica nas favelas brasileiras, causa consequências na vida adulta da vítima.

Minha primeira pergunta ao Nem (em entrevista feita na penitenciária de Mato Grosso do Sul) foi sobre sua família. Ninguém nunca o havia perguntado sobre isso. Pesquisando, descobri que sua filha ficou doente ainda bebê. Foi quando ele entrou para o tráfico. Seus pais eram alcóolatras, e ele sofreu muito com isso, mas mesmo assim era bastante apegado ao pai, de quem teve que tomar conta após ser baleado numa tentativa de assalto. Na ausência da mãe, que precisava trabalhar o dia inteiro, Nem acompanhou de perto o fim da vida do pai. Depois disso, ele prometeu que seria um bom pai e teve sete filhos.

Os donos do morro não são necessariamente visto como heróis em suas favelas, diz Glenny. Ele citou, por exemplo, o caso da Maré, onde “há medo real dos moradores”. Em sua pesquisa, o autor constatou que os chefes do tráfico exercem sua influência política através de três instrumentos: o monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção policial.

— Nem, que era chamado de mestre ou presidente pelos moradores, diria que o mais importante era o apoio da comunidade. Investigadores dirão que é a corrupção policial, prática mais usada por ele, que preferia corromper a usar da violência — disse Glenny, para quem a legalização da maconha seria um avanço, mas insuficiente para melhorar os índices criminais — Alguns traficantes brincam dizendo que a maconha é um problema, porque é mais pesado, fede e não dá tanto dinheiro. A cocaína é muito mais rentável.

No meio da favela do Aço, a melhor escola pública

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Publicado em O Globo

O melhor colégio público do Rio está bem longe da Zona Sul. Fica em Paciência, na Favela do Aço, área onde milicianos estão em constante confronto com traficantes de comunidades vizinhas. O cenário de violência ao redor inevitavelmente impacta o cotidiano de alunos e professores, mas não impediu que a escola municipal Haydea Vianna Fiúza de Castro conquistasse no primeiro ciclo do ensino fundamental, em 2013, a média 8,7 no Ideb, principal indicador do MEC de qualidade do ensino.

Para obter esses resultados apesar do contexto ao redor desfavorável, a diretora Patrícia Gomes de Azevedo conta que a estratégia é não “empurrar problemas com a barriga”. Ela se refere tanto aos pedagógicos quanto aos emocionais. Aliás, numa área onde os conflitos externos ou domésticos são frequentes, o entendimento da equipe é o de que não há como separar uma dimensão da outra.

— Toda aula começa com um momento de receber, de ouvir os alunos. Acaba sendo meio terapêutico mesmo. Se houve um conflito na comunidade, a gente reforça atividades que acalmem os alunos, para que, só depois, eles estejam preparados para aprender — afirma Patrícia.

A professora Maria de Fátima da Costa, reconhecida neste ano pela prefeitura como uma das 11 melhores alfabetizadoras da rede, explica como essa abordagem acontece na prática:

— Às vezes, temos mesmo que parar de trabalhar o pedagógico para cuidar do emocional. Dar um abraço forte em cada aluno. Acalmá-los primeiro, deixá-los à vontade para que possam falar sobre o que aconteceu.

CAPACITAÇÃO DOS PROFESSORES

Essa estratégia é fruto não apenas do aprendizado cotidiano dos professores. A escola trabalha com alguns projetos específicos que preparam a equipe para lidar com crianças em situações de risco. Um deles é o Uerê Mello — desenvolvido pela linguista e filologa Yvonne Bezzerra de Mello a partir de um trabalho com crianças na Maré —, que procura capacitar os professores para amenizar traumas causados pela violência, que levam a dificuldades de aprendizado.

Outro programa adotado para trabalhar o lado emocional das crianças se chama Amigos do Zippy, criado pela Associação pela Saúde Emocional de Crianças. Numa aula acompanhada pelo GLOBO neste mês, a professora Maria Lúcia de Oliveira contava para seus alunos histórias que abordavam sentimentos comuns das crianças, e incentivava a reflexão sobre essas situações.

— Falamos de raiva, respeito, morte. Não há tema proibido. Valorizamos atitudes positivas, incentivando os alunos a se respeitarem e a buscarem falar coisas legais para os amigos — explica Maria Lúcia.

Para que os professores possam trabalhar bem com o emocional dos alunos, é preciso também que eles estejam preparados. Para isso, a escola acabou desenvolvendo rotinas para proteger todos nos momentos de crise.

— A gente procura manter os professores calmos, para que eles possam acalmar as crianças. Mas ninguém sai daqui em hora de tiroteio. Até os pais eu tranco. Botamos um DVD para as crianças, fazemos atividades de pintura. Se ficarmos calmos, o aluno não vai sentir nada. Esperamos a situação acalmar, e nos organizamos para que todos possam sair da escola com segurança — diz a diretora.

Por causa da rotina de tiroteios frequentes, a escola teve que fazer algumas adaptações. Apesar de dispor de boa área externa, o parquinho das crianças foi transferido para uma sala interna, climatizada. Foi a maneira encontrada para não expor os alunos ao risco de uma bala perdida.

Há a preocupação em trabalhar não apenas com traumas causados pela violência externa. Situações de violência doméstica também precisam ser conversadas. Há casos em que o conselho tutelar precisa ser acionado. Em outros, os professores tentam orientar os alunos a como se proteger.

— Quando percebemos que os pais são mais agressivos, a gente tenta também orientar a criança a evitar situações que possam gerar alguma reação negativa dos pais — afirma Maria de Fátima da Costa, a professora com bons resultados na alfabetização.

Para que o contexto de violência externa não afete a relação entre alunos, a escola procura ainda monitorar as crianças o tempo o todo, ajudando a evitar conflitos mesmo nos momentos de lazer. No recreio, por exemplo, em vez de os alunos ficarem completamente livres, eles são incentivados a participar de jogos e atividades com regras.

TRABALHO PEDAGÓGICO DIRECIONADO

O forte trabalho de apoio emocional às crianças é visto como essencial para o trabalho numa área de conflito. Mas, sem a parte pedagógica, os bons resultados não apareceriam. Uma das estratégias apontadas pela direção para explicar o desempenho é a avaliação constante dos alunos, para não deixar problemas se acumularem, garantindo o aprendizado de todos. No 5º ano do ensino fundamental, 99% de seus alunos avaliados no Ideb tinham aprendizado considerado adequado em português, segundo critérios do Movimento Todos Pela Educação. Em matemática, o percentual era de 97%.

Também há troca frequente de experiências entre os docentes, e expectativas claras do que se aguarda de cada um deles. No mural da secretaria, há cartazes afixados indicando o que é esperado, para cada turma, que os alunos aprendam ao final do bimestre.

Os professores novatos também recebem atenção especial da equipe nos primeiros meses. A escola, como tantas outras em áreas violentas, já sofreu com alta rotatividade do corpo docente. Hoje, são poucos os que trocam de colégio.

O bom clima se traduz num melhor ambiente escolar. Não há pichações, as paredes são limpas, e foram recentemente pintadas com ajuda dos pais. As salas de aula são coloridas, repletas de livros e materiais didáticos à disposição dos alunos.

— Quando o aluno chega e vê tudo bem arrumado e colorido, isso faz a diferença — conta a diretora.

Escolas com excelentes resultados em áreas de conflito são exceção, e não a regra. Mas, no caso da Haydea Vianna Fiúza de Castro, a equipe se beneficiou também da troca de experiências com escolas vizinhas, igualmente com bons resultados, casos dos Cieps 1º de Maio e Heitor Maestro Villa Lobos. A iniciativa indica que as estratégias que deram resultado numa escola conseguiram ser replicadas em outras que enfrentam as mesmas situações.

Notas vermelhas quando a violência é presente

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Publicado em O Globo

Além da pobreza, relatada já em diversos estudos como um dos fatores mais fortes a influenciar negativamente o desempenho escolar, colégios em áreas de confronto possuem a violência como desafio a ser superado.

Uma pesquisa feita por Joana Monteiro (PUC-RJ) e Rudi Rocha (UFRJ) mostra que o desempenho de alunos em favelas cariocas cai significativamente em anos em que os tiroteios são mais intensos. Em resumo, a violência externa piora o aprendizado, especialmente em escolas dentro de favelas, porque faz os professores faltarem mais, se sentirem mais acuados, e leva os diretores a fecharem mais suas unidades.

Em números, os alunos de escolas que tiveram nove ou mais dias de conflitos durante o ano letivo tiveram desempenho duas vezes pior que os de escolas expostas à violência durante dois ou mais dias. A pesquisa mostra que, quanto mais próxima de uma favela, maior o impacto. Em anos com conflitos na região onde o colégio está inserido, os professores faltam 5,8% mais.

A rotatividade também é destacada como um problema a ser enfrentado. Em épocas de conflito, a chance de um diretor ficar menos de dois anos no cargo aumenta 12%.

Se por um lado fica claro que o cotidiano hostil gera notas vermelhas, as políticas de segurança já mostram melhoras em indicadores de ensino, segundo levantamento feito por Eduardo Ribeiro, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.

— A violência tem relação direta com a interrupção de aulas. Vimos que regiões com taxa alta de homicídio tiveram mais dias de aula perdidos — reforça Ribeiro.

O pesquisador afirma que esta realidade começa a mudar com a entrada de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs):

— Dois indicadores muito importantes tiveram variação com a entrada de UPPs. O número de abandono de alunos e de aulas perdidas diminuíram quando o entorno do colégio se tornou mais pacífico.

Em média, escolas no Rio em áreas de conflito perdem dois dias de aula por causa da violência. Porém, quando este número é destrinchado, observa-se uma disparidade: 71% dos colégios não tiveram interrupção em nenhum momento de 2009 a 2013, mas 3% pararam suas aulas mais de 20 vezes devido à violência.

— Quando vemos a notícia de que cinco mil alunos do Complexo do Alemão não tiveram aula por causa da ocupação, achamos que é muito. E é. Mas também é pontual, não reflete o que acontece cotidianamente na rede — afirma o pesquisador.

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