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Dia da Poesia
0Hoje é comemorado o “Dia da Poesia”. Pra comemorar essa data, escolhemos o vídeo “Amarello Amor”, escrito, narrado e estrelado pela atriz Carolina Ferraz.
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A arca da memória
0Ana Ferraz, na Carta Capital
Na imensa caixa de vidro tenuamente iluminada por lâmpadas de LED reina uma suave penumbra. O -sistema de ar condicionado e um filtro purificador mantêm afastados dois inimigos: poeira e umidade. O convidativo silêncio cria o clima propício à contemplação. Nas prateleiras acomodadas em três andares superprotegidos encontra-se um tesouro da cultura brasileira, a coleção de 60 mil volumes e perto de 32 mil títulos garimpados ao longo de 82 anos pelo empresário José Mindlin, doada por ele e sua mulher, Guita, à Universidade de São Paulo em 2006.

Caixa dos sonhos. Do térreo do edifício, o diretor Pedro Puntoni contempla os três andares recheados de obras raras. Fotos: Veronica Manevy e Brasiliana USP
O homem que nutria um ciúme amoroso por seus livros morreu sem ver finalizado o templo erguido no campus para acomodar seu fabuloso acervo, cujas portas serão abertas ao público dia 23 de março. O complexo que abriga a Brasiliana USP, livraria, café, auditório e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) consumiu 130 milhões de reais (obtidos por meio de parcerias da USP com a Fapesp e o BNDES) e seis anos de construção.
“Foi um grande investimento para abrigar a coleção com dignidade. O prédio seguiu os moldes da mais alta qualidade de construção, automação e mobiliário e ajuda a mostrar um caminho de excelência para o País”, diz o diretor da Brasiliana USP, Pedro Puntoni. Ao longo da trajetória, não foram poucas as críticas acerca do alto custo do projeto. “Bilhões são gastos em obras na cidade, por que não podemos ter uma biblioteca que faça jus à coleção que abriga?”
O belo edifício de linhas elegantes foi pensado como um abrigo para os livros, um centro de pesquisa e de atividades culturais e também uma plataforma tecnológica, com um laboratório de digitalização e acesso livre das imagens dessas obras raras por meio da internet, explica o historiador, envolvido com o projeto desde o início. Quando José Mindlin e Guita optaram por doar a coleção, que no íntimo ele sempre soube não poder ser propriedade de poucos, dada a sua dimensão e importância, o professor István Jancsó, diretor do Instituto de Estudos Brasileiros, ficou à frente do projeto e convocou Puntoni para ajudar na tarefa de digitalização. Com a morte de Mindlin, aos 95 anos, em fevereiro de 2010, e de Jancsó, aos 71 anos, um mês depois, Puntoni assumiu a direção. “Foi o ponto mais difícil da jornada. Não esperávamos que eles não vissem a obra concluída. Foi duro viver o luto e continuar.
Entre os modelos a inspirar a Brasiliana USP estão a belíssima Beinecke Rare Books and Manuscript Library, da Universidade de Yale, em Connecticut, e também a biblioteca da Brown University, em Rhode Island, ambas nos Estados Unidos. “São bibliotecas especiais, cujo foco é, sobretudo, preservar o acervo, formado por livros únicos, maravilhosos, e garantir o acesso a esses conteúdos raros”, diz Puntoni. Do ponto de vista arquitetônico, a Brasiliana que saiu das pranchetas de Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, neto do empresário, remete bastante a Beinecke. “A arquitetura foi pensada para que se tivesse uma visão de tudo. Lá os livros ficam numa caixa de vidro fechada, a nossa é uma caixa aberta.”

Oportunidade única. Entre os títulos que estarão expostos ao público até o dia 28 de junho, no térreo do edifício, está a Nova Lusitania, História de Guerra Brasilica (1675, Lisboa), de Francisco de Brito Freire
Para os que, como o argentino Jorge Luis Borges, acreditam que o paraíso seja uma biblioteca, esta é uma filial do Éden. Também aqui o impulso de tocar é irresistível, embora impraticável. A raridade das obras e sua fragilidade fazem com que a Brasiliana USP necessite impor regras especiais. Nenhum exemplar da coleção poderá ser emprestado. “As pessoas vão poder manusear alguns livros aqui, mas de acordo com normas que os curadores determinarão, como o uso de luvas.” Uma das primeiras tarefas do conselho da biblioteca será formular os procedimentos. “Tentamos conciliar essa dimensão mais restritiva, natural e comum no mundo todo, com a ideia de universalização do acesso. Isso nos é permitido com a tecnologia da digitalização e da informação.” Nesse quesito, o laboratório foi o primeiro na América Latina a contar com o robô Kirtas, capaz de ler 2,4 mil páginas por hora. O escâner, que no início do projeto custava 220 mil dólares, hoje custa 80 mil.
Os livros de domínio público encontram-se disponíveis na internet (www.brasiliana.usp.br), entre eles obras completas de Joaquim Manoel de Macedo, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves, Casimiro de Abreu e outros. Puntoni avalia que um terço dos 32 mil títulos que compõem a coleção estará na web. No caso dos livros em que o direito de propriedade intelectual esteja em vigência, a biblioteca oferecerá uma imagem digital. Um exemplo citado como icônico é o datiloscrito da primeira versão de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. “É um documento extraordinário da cultura brasileira e universal. É único, todo anotado e rabiscado pelo autor. Temos de oferecer esse exemplar para leitura, mas o curador decidirá quantos leitores poderão manusear este livro por ano.”
Os livros de Guimarães Rosa e de outros autores que morreram há menos de 70 anos não são passíveis de digitalização. “A Lei de Direito Autoral proíbe a reprodução de qualquer obra nessas condições, mesmo que seja apenas para preservação. Nenhum dispositivo limita o direito do autor em benefício da preservação e isso é trágico”, avalia Puntoni. Como contraponto, menciona a legislação estabelecida na Inglaterra em 1956. “Se a British Library quiser microfilmar ou digitalizar as partituras originais dos Beatles para acesso aos pesquisadores, pode fazer isso. Não poderá publicar na internet, o que também não é nosso objetivo. Nossa ideia seria oferecer acesso digital a um documento raro e evitar o manuseio.”
O precioso acervo que José Mindlin começou a construir aos 13 anos tem valor inestimável, sob todos os aspectos. Houve um momento, nos anos 1980, em que se noticiou a oferta de 25 milhões de dólares por parte de uma universidade americana. “Ele sempre recusou. Foi uma existência de garimpagem, de esperar o momento certo.” A generosidade do colecionador tornou-se conhecida. “Gerações de editores devem ser agradecidas, pois ele permitiu reproduzir imagens e emprestou títulos para exposições sem jamais cobrar. Queria que os livros fossem de todos e foi identificado por seus pares como o homem que tinha uma arca, que preservaria os objetos para o futuro”, conta o diretor. O gosto alucinado pelos raros exemplares manifestava-se revestido de cautela somente em alguns casos. Um dos xodós era a primeira edição de Viagem ao Brasil, de Hans Staden (1557), disponível online, os livros da imprensa régia e dos primeiros poetas brasileiros, como Cláudio Manoel da Costa. Esse título e outros como Marilia de Dirceo (1792), de Tomás Antônio Gonzaga, estarão em exposição até 28 de junho. “Esses, Mindlin exibia nas mãos dele.”
O acervo digital dos Estados Unidos vem aí
0Lucas Ferraz, na Ilustríssima
Diretor do complexo de bibliotecas da Universidade Harvard comenta o lançamento da Biblioteca Pública Digital dos EUA, em abril, que vai pôr em rede o acervo em domínio público de dezenas de bibliotecas acadêmicas. Criado como antítese do Google Books, o projeto da DPLA é financiado por recursos privados.
O iluminismo é o principal tema de estudo do historiador americano Robert Darnton, 73, autor de vários títulos sobre como a difusão do conhecimento alimentou revoluções no século 18. É de certa forma inspirado nos ideais dos enciclopedistas que Darnton comanda ele também uma revolução.
Como diretor do imenso complexo de bibliotecas da Universidade Harvard, ele encabeça a criação da DPLA (Digital Public Library of America, sigla para biblioteca pública digital americana), que a partir de abril vai reunir e compartilhar gratuitamente na internet o acervo e obras de milhares de bibliotecas e universidades do país.
A DPLA é a resposta de Darnton e da academia à violação de direitos autorais representada pelo Google Books, que lucra com os livros repassados para a rede. “Vamos fazer diferente”, diz Darnton, que vê a biblioteca digital como o seu projeto mais ambicioso, algo a ser feito “por séculos”.

Robert Darnton no auditório da Folha, em São Paulo, em setembro de 2012 (Jorge Araujo – 28.set.12/Folhapress)
O debate em torno do livro na era das tecnologias digitais foi tema de “A Questão dos Livros”, coletânea de textos que lançou no Brasil em 2010, pela Companhia das Letras. Pela mesma editora, lançou no ano passado “O Diabo na Água Benta”, no qual aborda outro assunto importante em sua produção intelectual, o jornalismo –em especial, a imprensa clandestina que veiculava insultos e difamações mas também denúncias políticas de um e outro lado do canal da Mancha no século 18.
Irmão e filho de jornalistas, diz manter o encanto pelo ofício, que chegou a exercer nos anos 1960: foi repórter de polícia do “The New York Times” e teve como colega de editoria um dos maiores jornalistas americanos vivos, Gay Talese –de quem diz não ser muito fã.
Em seu escritório na Wads- worth House, no campus de Harvard, onde recebeu a Folha para esta entrevista, Darnton comentou algumas obras que retratam a história do jornalismo nos Estados Unidos. Seu pai, Byron Darnton, é citado em várias delas. Ao cobrir para o “New York Times” a Segunda Guerra Mundial (1939-45) no Pacífico, Byron foi atingido num bombardeio e tornou-se um dos primeiros jornalistas americanos mortos no conflito.
Folha – Como estão os preparativos para o lançamento da DPLA, que o sr. anunciou para abril?
Robert Darnton – Não queremos gerar falsas expectativas: de início não teremos todo o material digitalizado. Levará tempo. Teremos 2 milhões de livros liberados pelo domínio público. Vamos começar modestamente. Espero que cresça mais e mais. É um trabalho que deve ser feito por séculos.
O início envolve a digitalização de coleções especiais, principalmente as de Harvard. Temos uma enorme quantidade delas nas 73 bibliotecas da universidade, são mais de 18 milhões de volumes. Estamos escaneando livros, manuscritos e fotografias de diferentes assuntos.
Há acervos sobre mulheres, imigrações e obras sobre doenças epidêmicas, por exemplo; e há coleções históricas importantes, sobre a era medieval e sobre fotografia, com imagens da Lua e da escravidão, como fotos de escravos que nasceram na África e foram levados para os EUA.
Qual o maior problema que estão encontrando?
Montamos um escritório para discutir a questão legal e convidamos pessoas de diferentes instituições, de várias partes do país, que costumam enfrentar o mesmo tipo de problema: o óbvio, dinheiro, além de dúvidas relativas à tecnologia, à organização, ao conteúdo digitalizado e ao público que vai utilizar tudo isso. Mas a questão legal é a mais importante. Não podemos violar os direitos autorais.
A ideia é que a DPLA seja a antítese do Google Books?
Exatamente. O Google tenta fazer a mesma coisa, mas sob a lógica do lucro. O Google veio a Harvard para discutir a cópia de livros, quando eles começaram a digitalização. Eles também foram à NYPL (sigla em inglês da Biblioteca Pública de Nova York) e às universidades Stanford, do Michigan e da Califórnia.
Harvard disse que eles poderiam digitalizar alguns livros –aqueles em domínio público, não os protegidos por lei. Mas as demais universidades deram permissão para que copiassem o que quisessem, e eles começaram a fazer isso.
A Liga dos Autores e a Associação Americana de Editoras foram à Justiça contra a empresa. Após três anos de negociação secreta, fecharam um acordo com o Google, mas a Justiça de Nova York vetou, por entender que infringia a lei de direitos autorais.
Vamos fazer diferente, não vamos ganhar dinheiro, queremos apenas servir o público com livros abertos na internet.
Quantas bibliotecas e universidades americanas terão acervos digitalizados na DPLA?
Não tenho ainda um número certo, mas são milhares. Todas as bibliotecas abertas para pesquisa no país estarão envolvidas. Mas levará tempo: no início, serão todas as que já têm material digitalizado. Obviamente, todas que tiverem coleções anteriores a 1923 poderão participar.
A DPLA poderá usar livros publicados após 1923, se autores e editoras concordarem com a abertura das obras na internet, gratuitamente?
Sim, temos um programa para tentar convencê-los a ceder obras para a base da DPLA. Muitos livros deixam de ser lidos após alguns meses no mercado; eles morrem. Autores, claro, querem leitores. A maioria das obras não tem valor financeiro cinco ou seis anos depois da publicação, e os proprietários dos direitos podem ficar felizes ao ver seus livros disponíveis.
O fato de que as universidades e instituições envolvidas no projeto da DPLA tenham visões diferentes sobre o futuro do livro e sobre como usar a internet não é um problema?
É um problema potencial. Mas há coisas sendo feitas. Há uma coalizão de fundações, que vão nos prover dinheiro, e há as bibliotecas e universidades, que vão disponibilizar os acervos.
Estamos concebendo uma estrutura tecnológica que permita harmonizar todas as coleções digitais em um mesmo sistema. Superada essa questão, será o momento de reunir livros e coleções, por exemplo, do Alabama e da Dakota do Norte numa mesma base. É muito trabalho.
O site já está funcionando experimentalmente, mas ainda não há nada aberto ao público. No dia 18 de abril vamos lançá-lo com uma cerimônia na Biblioteca Pública de Boston.
O governo norte-americano não apoia a DPLA?
Não, é um projeto completamente independente do governo, gerido por fundações privadas. Não há envolvimento público.
A principal política, mesmo nas universidades privadas como Harvard, é abrir as bibliotecas para compartilhar conhecimento intelectual ao redor dos Estados Unidos e do mundo.
É difícil para as pessoas da Europa ou da América Latina compreenderem, porque muita gente fora dos EUA, para tocar esse tipo de projeto, depende do governo. Mas este é um país em que não devemos ter fé no governo ou no Congresso para prover um bom serviço gratuito ao público.
Ministério Público denuncia falsas pesquisadoras por furto de livro raro
0Publicado no JusBrasil
Rio de Janeiro – O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro denunciou duas mulheres pelo furto do livro Histoire des Oiseaux du Brésil (História dos pássaros do Brasil). O livro é de 1852 e pertence ao acervo da biblioteca da Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Se forem condenadas, as duas podem passar de dois a oito anos de prisão.
O crime ocorreu em fevereiro de 2006, quando Iwaloo Cristina Sakamoto e Verônica da Silva Santos entraram na biblioteca usando os pseudônimos de Júlia e Fátima, solicitaram o livro para consulta e furtaram a obra rara. De acordo com a denúncia, testemunhas ouvidas na investigação da Polícia Federal, disseram que Iwaloo e Verônica teriam comparecido à biblioteca por três vezes, antes de cometerem o crime.
As falsas pesquisadoras tiveram suas identidades reveladas a partir da identificação do homem que as teria acompanhado em uma dessas visitas, Laéssio Rodrigues de Oliveira, bem como pelo número de celular que uma delas informou ao retirar o livro para consulta. Segundo o MPF, Laéssio esteve envolvido em diversos furtos em museus e bibliotecas.
Na denúncia enviada à Justiça Federal, o Ministério Público faz menção a uma cópia do documento de controle de entrada de leitores da Biblioteca Nacional, onde ambas, com seus nomes verdadeiros, estiveram na véspera de sua primeira visita à biblioteca da Faculdade de Belas Artes da UFRJ. Ao serem interrogadas no inquérito policial, as duas suspeitas negaram o furto, embora uma delas tenha sido reconhecida por uma bibliotecária da universidade.
De acordo com o procurador da República José Guilherme Ferraz, responsável pela denúncia, a Polícia Federal tem obtido êxito em identificar os autores em vários casos de furto de obras raras ocorridos no Rio de Janeiro, a despeito das variadas estratégias empregadas pelos responsáveis por esse tipo de delito.
Ferraz alertou ao público em geral, e em especial aos que atuam no mercado de bens culturais, para que comuniquem ao MPF caso tenham conhecimento do paradeiro da obra furtada, bem como de outras que tenham sido alvo de crimes similares. Se alguém vier a adquiri-las com ciência de sua procedência ilícita poderá responder por crime de receptação, lembrou o procurador.
Paulo Virgilio
Repórter da Agência Brasil
Edição Beto Coura



















