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‘Blade Runner’: Por que a obra de Philip K. Dick continua atual 50 anos depois

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Divulgação Após 30 anos, Harrison Ford volta a Blade Runner como o (agora ex) caçador de androides Deckard.

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Após 30 anos, Harrison Ford volta a Blade Runner como o (agora ex) caçador de androides Deckard.

 

Autor de ficção científica criou um futuro no qual ninguém gostaria de viver — e parece não estar muito distante dos dias de hoje.

Caio Delcoli, no HuffpostBrasil

Faz pouco tempo que a série O Conto da Aia, da plataforma de streaming Hulu, deixou incontáveis espectadores perplexos com o futuro distópico no qual a história se ambienta. Baseada no icônico romance de Margaret Atwood, a série mostra as mais variadas formas de opressão que as mulheres sofrem cotidianamente sob o poder de um governo autoritário, militarizado e teocrático.

O seriado veio na esteira do aumento da demanda por narrativas distópicas — O Conto da Aia, lançado há mais de 30 anos, voltou a ser bestseller com 1984, história futurista de George Orwell lançada em 1949. No último dia 5, a série Blade Runner juntou-se a esse cenário ao voltar aos cinemas com um futuro neo-noir e chuvoso que também passa longe de ser um lugar bacana para se viver.

 Divulgação/Sony Ryan Gosling (à direita) e Ana de Armas protagonizam Blade Runner 2049, o novo filme da franquia.

Divulgação/Sony
Ryan Gosling (à direita) e Ana de Armas protagonizam Blade Runner 2049, o novo filme da franquia.

Blade Runner 2049, dirigido por Denis Villeneuve (A Chegada), é a sequência do filme de Ridley Scott lançado em 1982, um clássico cult de ficção científica baseado em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, filosófico livro do norte-americano Philip K. Dick (1928–1982).

Lançado em 1968 — mesmo ano que chegou aos cinemas 2001: Uma Odisseia no Espaço e O Planeta dos Macacos, e o mundo vivia um agudo momento político —, o romance de Dick mostra uma sociedade ultra-tecnológica em meio à destruição causada por uma guerra nuclear de escala global.

“É uma preocupação comum da ficção científica do século 20. Hoje a gente está mais focado em distopias políticas, mas na época da Guerra Fria, as pessoas estavam muito preocupadas com a bomba atômica”, analisa Bárbara Prince, editora do livro da Aleph, em entrevista ao HuffPost Brasil. A editora lança neste mês uma edição comemorativa de 50 anos do livro.

Prince diz que obras como O Conto da Aia refletem a atual discussão sobre lugar de fala na sociedade, ditaduras e fundamentalismos; o romance de Dick, por sua vez, reflete um risco que voltou a ser atual com os frequentes testes nucleares da Coreia do Norte e a troca de ameaças bélicas entre o país e os Estados Unidos. “A qualquer momento alguém pode explodir tudo.”

Ao lado de Black Mirror (Netflix), Blade Runner é a única distopia tecnológica que ainda nos congela a espinha.

Divulgação/Sony Em Blade Runner, as mulheres também não recebem o melhor dos tratamentos.

Divulgação/Sony
Em Blade Runner, as mulheres também não recebem o melhor dos tratamentos.

Entretanto, a discussão sobre lugar de fala também está presente no universo de Blade Runner — e, segundo a editora, este é outro motivo que faz a obra ainda ser atual.

Na história concebida por Dick, a Terra tornou-se uma grande periferia. Após o desastre nuclear, quem podia pagar foi viver em colônias em outros planetas; quem ficou para trás não tinha dinheiro ou foi barrado por não ter posição social.

Os androides, chamados de “replicantes”, servem como escravos aos humanos que vivem nas colônias. No entanto, esses robôs também têm capacidade de refletir e sentir — além de serem assustadoramente semelhantes aos humanos —, e se rebelam. Muitos matam seus patrões, fogem para a Terra e unem-se em grupos que clamam por espaço na sociedade. Para muitos humanos, eles são seres repugnantes. A abordagem que Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? faz de religião e animais também ajudam a compor o tecido de comentário social feito pelo autor.

Outro tema que também dá a Blade Runner um lugar especial na ficção científica é o questionamento do que é real ou não. A partir do filme de 1982, por exemplo, iniciou-se a discussão a respeito da origem do personagem de Harrison Ford, o caçador de androides Rick Deckard. Ele é ou não é um replicante? Trata-se de um intenso debate entre os fãs — e também de um reflexo das paranoias de Philip K. Dick.

Em uma convenção de ficção científica na França em 1977, Dick sentou-se à mesa diante do público, deu alguns tapinhas no microfone para testa-lo e anunciou: “Estamos vivendo em uma realidade programada por computadores. A única pista que temos disso é quando alguma variável é mudada e acontece alguma alteração em nossa realidade”.

Divulgação Philip K. Dick está em alta: Blade Runner volta aos cinemas e uma nova série estreia em 2018.

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Philip K. Dick está em alta: Blade Runner volta aos cinemas e uma nova série estreia em 2018.

O autor referia-se à sensação de déjà vu. Ou apenas nos deu mais um exemplo da grave paranoia que lhe acometia.

“Dick tinha problemas psiquiátricos, usava dezenas anfetaminas por semana e escrevia nelas, Ele dizia que tinha experiências espirituais e, em uma delas, viu Deus”, conta Prince. “Em todos os livros dele há a questão do que é real, do que é estar vivo, se a gente está mesmo vivo.”

“A vida toda ele teve esse tipo de transtorno. Não se sabe se era apenas psiquiátrico, ou as drogas, ou tudo isso misturado, mas era um questionamento que o autor colocou na obra dele.”

Enquanto há dúvida a respeito da origem de Deckard, uma certeza em Blade Runner é a marca da misoginia típica de Dick.

No novo longa-metragem, o androide K. (Ryan Gosling) vagueia por uma Los Angeles que transborda publicidade — lá, o capitalismo venceu de goleada — e uma delas é o gigantesco holograma de Joi (Ana de Armas) completamente nua; ela é uma inteligência artificial que faz companhia a homens. Não há sinal de homens que também sejam hologramas para sexo ou comercializem sexo de maneira fria e objetiva, como a prostituta Mariette (Mackenzie Davis).

“Dick tinha muito problema com mulher. Foi casado seis ou sete vezes e há várias histórias de relacionamento abusivo com as esposas dele. Em toda obra dele, a representatividade feminina é péssima”, defende a editora. “A mulher está lá para ser uma coitada, ou muito burra e fazer alguma merda, ou ser um objeto sexual.”

“O homem está nos livros dele para ser um herói e participar da história, mas com a mulher é outra história. Se ele puder escrever sobre o decote dela, ele escreve.”

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Trinta anos após os acontecimentos de Blade Runner, o Caçador de Androides, o replicante K., membro do departamento de polícia de LA, recebe a tarefa de investigar um movimento que liberta outros androides. Ele encontra uma caixa com os restos mortais de uma replicante que estava grávida — algo até então considerado impossível. O segredo pode mudar absolutamente tudo.

Além de Gosling, de Armas, Davis e Ford, também estão no elenco Robin Wright, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Carla Juri e Dave Bautista. O roteiro é de Michael Green (da série American Gods) e Hampton Fancher (do filme de Ridley Scott); o enredo foi concebido por Fancher, que usou personagens do romance de Dick.

Os curta-metragens 2036: Nexus Dawn, 2048: Nowhere to Run e Blade Runner Black Out 2022 — um anime de Shinichirō Watanabe — complementam a experiência.

A obra de Dick está viva e em boa fase de adaptações. A plataforma de streaming da Amazon lançará em 2018 a terceira temporada da bem-sucedida The Man in the High Castle, distopia que imagina o que seriam os Estados Unidos dos anos 1960 caso o Terceiro Reich tivesse vencido a II Guerra Mundial. Frank Spotnitz (Arquivo X) é o criador.

6 filmes que vão te dar uma força no Enem 2017

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Esqueça a ficção. Obras do cinema que são baseadas em eventos reais são bons recursos para aprender durante o entretenimento

Publicado no Universia Brasil

Não é só de livros e apostilas que vivem seus estudos. Contar com a ajuda de outros recursos é uma tática valiosa, pois a absorção de temas e conteúdos fora dos meios tradicionais é complementar e pode ser aliada ao entretenimento.

O cinema é uma das vias mais recomendadas. Não faltam filmes que abordam situações reais, históricas e contemporâneas, que dão uma força bem grande na contextualização do que você aprende em sala de aula.

Um bom filme pode te dar informações para responder aquela questão complicada ou argumentos para escrever uma redação melhor fundamentada.

Confira a nossa lista e boa sessão para você!

1. A Lista de Schindler (1993)

Um dos filmes históricos mais celebrados de todos os tempos, o longa dirigido por Steven Spielberg retrata em mais de três horas um dos períodos mais delicados dos últimos séculos: a Segunda Guerra Mundial. Mais especificamente, o enredo trata da perseguição dos judeus pela Alemanha nazista.

A trama e o personagem interpretado por Liam Neeson são baseados em relatos reais e o assunto, apesar de difícil, é abordado com sensibilidade.

2. Uma Verdade Inconveniente (2006)

O documentário produzido e estrelado pelo político norte-americano Al Gore lida com a discussão e as evidências sobre o aquecimento global. Em uma época na qual muitos são céticos e escolhem ignorar as questões ambientais, o tema continua bastante atual.


3. Olga (2004)

A história da militante brasileira Olga Benário Prestes cruza diversos cenários históricos: casada com Luis Carlos Prestes e envolvida em uma rebelião durante o governo Vargas, Olga foi deportada para a Alemanha nazista e presa em um campo de concentração.

4. Cidade de Deus (2002)

O filme de Fernando Meirelles é impactante e narra o crescimento do crime e da violência em favelas do Rio de Janeiro desde os anos 1960. Com parte do elenco composta por verdadeiros moradores das comunidades carentes, Cidade de Deus é essencial.

5. O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006)

Um retrato bastante pessoal sobre a ditadura militar no Brasil, o filme acompanha as alterações que o regime traz na vida de um garoto judeu. Seus pais, militantes de esquerda, são deportados do país e a história que se segue é um relato interessante sobre os anos 1970.

6. O Que É Isso, Companheiro? (1997)

Baseado em livro de mesmo nome, o longa narra o caso do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil por guerrilheiros da esquerda durante a ditadura. A dramatização do importante capítulo histórico, ocorrido em 1969, chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Fonte: Shutterstock

Crianças aprendem melhor com personagens humanos, diz estudo

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(monkeybusinessimages/Thinkstock/Getty Images)

(monkeybusinessimages/Thinkstock/Getty Images)

 

Segundo o trabalho, histórias com humanos seriam mais eficazes em ensinar valores aos pequenos. Entenda por que e qual a importância da ficção na infância!

Chloé Pinheiro, no Bebe

A lebre e a tartaruga? O patinho feio? Nada disso! Segundo uma nova pesquisa, contos com protagonistas humanos transmitem melhor valores morais aos pequenos.

O trabalho da Universidade de Toronto, no Canadá, comparou como cerca de cem crianças se comportavam após ouvirem a lenda de uma raposa que aprendia a importância de dividir ou a mesma narrativa, só que com humanos no lugar dos animais.

Para ter certeza de que a moral da história faria diferença, um terceiro grupo leu um livro sobre sementes. Ao fim da leitura, os voluntários, com idades entre 4 e 6 anos, receberam 10 adesivos como recompensa e foram comunicados que os outros participantes não ganhariam nenhum adesivo. Depois, se quisessem, poderiam doar o que receberam às outras crianças sem que o pesquisador estivesse olhando.

Como resultado, quem tinha escutado a versão humana foi mais generoso do que quem ouviu a fábula com animais. “No geral, as crianças agiram mais de acordo com a moral da história com pessoas”, comentou Patricia Ganea, professora de desenvolvimento cognitivo da instituição canadense e autora do estudo, em comunicado para a imprensa.

A ideia do grupo de cientistas é chamar a atenção dos autores de livros infantis para o tema, para que desenvolvam contos mais realistas, o que melhoraria a capacidade de absorção das crianças.

O papel da ficção no caráter do filho

Por volta dos 2 anos, a criança começa a construir seu próprio mundo de faz-de-conta, processo importante para o desenvolvimento cognitivo do pequeno. E, mesmo antes desse período, os pais podem já começar a ler para os bebês, pois o fato da imaginação ganhar asas tem grande valor para a criação dos baixinhos.

“Histórias são lúdicas e apresentam conceitos em uma linguagem acessível para eles, que é a do imaginário”, comenta Deborah Moss, neuropsicóloga mestre em desenvolvimento infantil pela Universidade de São Paulo.

Na hora de escolher os títulos que serão apresentados, não precisa fugir dos contos com animais, apesar do achado do novo trabalho. “A criança tem capacidade de projetar situações e entender o simbolismo até mais do que o adulto, o importante é que os pais expliquem o que está acontecendo e transmita a história aos filhos”, completa a neuropsicóloga.

A dica é oferecer um cardápio variado de contos aos pequenos, sem se esquecer de ressaltar as características humanas e os sentimentos dos personagens, sejam eles animais, objetos ou pessoas.

Escritores resgatam folclore brasileiro e renovam romances de época

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Os personagens Gerard van Oost e Oludara na ilustração de Jonathan ‘Jay’ Beard; ao lado, a partir da esquerda, Samir Machado de Machado, Enéias Tavares e Christopher Kastensmidt - Jonathan ‘Jay’ Beard / Divulgação

Os personagens Gerard van Oost e Oludara na ilustração de Jonathan ‘Jay’ Beard; ao lado, a partir da esquerda, Samir Machado de Machado, Enéias Tavares e Christopher Kastensmidt – Jonathan ‘Jay’ Beard / Divulgação

 

Obras misturam narrativas históricas com ficção científica, fantasia e aventura

Bolívar Torres, em O Globo

RIO — Saci-Pererê, Boitatá, Capelobo e outros seres míticos cruzam com nativos e colonizadores numa aventura pelo Brasil Colônia. Soldados do século XVIII enfrentam labirintos e assombrações em meio às Guerras Guaraníticas. Isaías Caminha, Simão Bacamarte, Vitória Acauã e outros personagens da literatura brasileira clássica se reúnem em um cenário urbano pós-abolição para desvendar o desaparecimento de um cientista acusado de assassinatos. As tramas dos escritores Christopher Kastensmidt, Samir Machado de Machado e Enéias Tavares seguem uma vertente cada vez mais em voga do romance de época nacional: misturar História e ficção fantástica, dando destaque a elementos do folclore nacional.

Os três têm presença confirmada na programação da 18ª Bienal do Livro do Rio. Tavares e Kastensmidt falam sobre suas experiências com a cultura brasileira na mesa “Sacis, lobisomens e os monstros da ficção brasileira!”, que acontece nesta terça, às 15h30m, no espaço Geek & Quadrinhos (Pavilhão 4). Já Machado participa da mesa “Literatura e História”, com Mary Del Priore, Alberto Mussa e Fabiano Costa Coelho, na quarta, às 19h30m, dentro da programação do Café Literário (Pavilhão 3). Ele também relança no Rio o seu “Quatro soldados”, um dos romances históricos mais elogiados dos últimos anos, na terça, a partir das 19h, na Livraria da Travessa (Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo). Originalmente publicado pela Não Editora em 2013, o livro acaba de ganhar uma nova edição da Rocco.

— Há uma tendência pós-Monteiro Lobato de retrabalhar o folclore brasileiro — opina Machado, também autor de “Homens elegantes” (Rocco), uma aventura de capa e espada LGBT. — Eu diria que é um potencial pop a ser renovado, resgatado dos limites da cultura infantil a que ficou confinado, e ressignificado como materialização de medos coletivos.

POTENCIAL POP

Desde 2007, Machado é editor da coleção “Ficção de polpa”, que publica contos de gêneros como terror, fantasia e ficção científica. Em “Quatro soldados”, porém, ele faz um mergulho no instável Brasil do século XVIII, com personagens tão perdidos quanto o projeto de nação do período. O território em que se movem os soldados do título é assombrado por forças estranhas, que os fazem passar pelas mais duras provas.

O autor levou oito anos para terminar o romance, pesquisando em dicionários do século XVIII para criar uma estética que se aproximasse do português falado na época. Unindo rigor histórico e narrativa aventuresca, volta-se tanto para estudiosos do passado quanto para jogadores de RPG.

— Escrevi o livro com a ideia de rever o folclore dentro de um contexto mais realista, de romance histórico — diz Machado. — O que me fez partir para uma abordagem mais próxima de criptozoologia. Foi um jeito de encontrar uma forma nova de olhar para isso.

Nascido nos Estados Unidos, mas radicado em Porto Alegre, Kastensmidt foi finalista do Prêmio Nebula (espécie de Oscar da literatura fantástica) com “O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara”, primeira história de uma série ambientada no século XVI. Por meio da improvável amizade entre um explorador holandês e um guerreiro iorubá trazido ao Brasil contra a sua vontade, ele revisita a magia e os mistérios do nosso folclore, povoado por criaturas como Saci-Pererê, Boitatá, Pai do Mato, Capelobo, Mapinguari etc.

A saga de Oost e Oludara já virou um romance, uma HQ (com arte de Carolina Mylius e Ursula Dorada), e agora deverá ser transformada pelo autor em um jogo de tabuleiro e um RPG de mesa, no estilo “Dungeons & Dragons”. Samir Machado de Machado, que já trabalhou com Kastensmidt em um dos volumes da “Ficção de polpa”, define o projeto do colega como “um dos bestiários de folclore nacional mais completos desde Câmara Cascudo”. Rigoroso em sua pesquisa histórica, Kastensmidt calcula ter consultado mais de 200 livros.

— Trabalho com Brasil Colônia, que não é a época mais comum para fantasia histórica, mas que tem seus adeptos, como Walter Tierno e Marcus Achiles — explica o autor. — O gênero me deu retorno: resultou no meu conto mais premiado até aqui, e as histórias estão sendo adotadas em muitas escolas.

Saindo do cenário rural e selvagem para o urbano, com autômatos robóticos, zepelins e monóculos com lentes para outras dimensões, Enéias Tavares transformou os personagens de algumas das principais obras da literatura brasileira em detetives do início do século XX.


IDENTIDADE ASSUMIDA

Na série de fantasia “Brasiliana Steampunk”, ele criou uma espécie de “Liga Extraordinária” nacional com o jornalista Isaías de Lima Barreto, a feiticeira Vitória Acauã, de Inglês de Sousa, e o trio do “Cortiço” de Aluísio Azevedo: Rita Baiana, Leónie e Pombinha, entre outros.

Professor de Letras da Universidade de Santa Maria (RS), Tavares quis exorcizar sua experiência frustrante de aluno de ensino médio tornando o estudo da literatura brasileira “mais instigante”. Em 2014, aproveitando o interesse editorial para as audiências jovens e a boa receptividade dos professores, lançou o primeiro livro da série, “A lição de anatomia do temível Doutor Louison”, uma trama de mistério com pitadas de fantasia, aventura e ficção cientifica.

— No Brasil, ainda há uma certo receio de assumir quem nós somos — avalia Tavares. — O Christopher, o Samir e eu fazemos parte de um grupo que resolveu assumir a ambientação nacional com peito estufado. Queremos interpretar o Brasil, divulgar nossas coisas. Muitos escritores do Brasil estão falando sobre Paris e Londres, o que é legal, mas também é importante valorizar a identidade nacional.

O que é escrita criativa e como ela pode salvar qualquer carreira

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Mulher digitando texto em máquina de escrever (peshkov/Thinkstock)

Mulher digitando texto em máquina de escrever (peshkov/Thinkstock)

 

Cursos de redação literária podem trazer um salto para a sua vida profissional — mesmo que você não queira ser o próximo Machado de Assis

Claudia Gasparini, na Exame

São Paulo — Se você bater os olhos na definição de “escrita criativa”, dificilmente achará que ela tem alguma coisa a ver com o trabalho de um administrador, médico, contador ou empresário — ou qualquer outro profissional que não atue no universo da literatura.

Faça o teste: “campo de estudo acadêmico que nos permite investigar, refletir e teorizar sobre o texto literário, a partir da prática”, define o escritor gaúcho Reginaldo Pujol Filho, coordenador do curso de criação textual “.TXT” na escola Perestroika e autor do livro “Só faltou o título” (Record, 2015).

A atividade se refere a “tudo que é escrito de modo criativo, ou seja, nem técnico, nem copiado”, explica o jornalista Ronaldo Bressane, autor do romance “Escalpo” (Reformatório, 2017) e professor de cursos sobre narrativas breves.

Bulas de remédio, manuais, teses acadêmicas e livros científicos não se encaixam no conceito; já poemas, crônicas, contos, romances e roteiros de cinema, sim.

Até aí, parece razoável que cursos de escrita criativa só interessem a quem ambiciona ser artista. Na prática, porém, Pujol e Bressane dizem que suas aulas também são frequentadas por figuras que não têm nada a ver com o universo das letras.

São chefs de cozinha, engenheiros, advogados, contadores, médicos e psicólogos. Sem aspirações literárias, profissionais de áreas tão heterogêneas como saúde, finanças e gastronomia também pagam para aprender a fazer redações menos previsíveis.

Mas por quê?

A resposta varia. “Tenho alunos advogados que buscam os cursos para fugir do jargão jurídico; engenheiros e contadores que querem ‘pensar fora da caixa’; cozinheiros que pretendem dar mais sabor à descrição de suas receitas; modelos que desejam contar com riqueza suas desventuras pelo mundo da moda; médicos e psicólogos que querem colocar no papel as experiências estranhas a que tiveram acesso”, explica Bressane.

Entre pupilos e colegas, Pujol conta que encontrou uma imensa diversidade de interessados em cursos de escrita criativa, inclusive do ponto de vista etário. “Já me deparei com todas as faixas de idade, dos 17 aos 80 anos”, afirma. “Vejo gente querendo avidamente escrever literatura, gente preocupada em publicar um livro, mas também gente que encara tudo isso como um passatempo, mas sem ambições de fazer uma carreira artística”.

Segundo Pujol, um dos grandes benefícios do curso de escrita criativa é aprender a ler melhor. “A prática de ler e criticar textos de colegas para além do ‘gostei’, ‘chato’, ‘legal’ obriga a pessoa a pensar nos efeitos que a leitura provoca nela, e certamente o seu modo de ler se transforma”.

Bressane também diz que muitos alunos descobrem nas técnicas de redação criativa uma fonte inesgotável para algo que faz falta no cotidiano de qualquer profissão: concentração.

“Somos a geração da distração, porque é difícil segurar a atenção em uma coisa só quando temos gadgets tecnológicos nos dispersando o tempo todo”, diz o professor. “Sem querer, o curso de escrita criativa traz foco, porque garantir algumas horas de concentração total sobre uma história que você mesmo escreveu é algo muito desafiador”.

Vida real ou ficção?

Além de prazer pela leitura, concentração e criatividade, esse tipo de curso também pode enriquecer a vida de um profissional de qualquer área com doses cavalares de empatia, um recurso indispensável para travar boas relações dentro e fora do trabalho.

“Tentar dar voz a personagens diferentes de nós, exercitar olhares sobre o mundo que não sejam o nosso, tentar criar mundos, vidas diferentes das nossas, acredito, é um exercício de tentativa de alteridade”, diz Pujol. “A escrita literária é, em si, um exercício de empatia, mesmo que utópico”.

Um estudo do psicólogo Keith Oatley, professor emérito da Universidade de Toronto, confirma essa tese. Segundo o trabalho, publicado na revista “Trends in Cognitive Sciences”, ler ficção ajuda a compreender melhor os seres humanos e suas intenções — e isso vale tanto para personagens fictícios quanto para pessoas reais que convivem com você.

O treino em redação criativa também apresenta exercícios específicos para se colocar na pele do outro. Frequentemente o aluno deve criticar a produção de seus colegas, e não consegue fazer isso se não se esforçar para imaginar o que o outro se propôs a escrever.

“Se não entendermos a motivação do colega, não estaremos ajudando em nada”, explica. “Precisamos ter uma abertura aos projetos e ideias de uma outra pessoa, o que é um esforço de empatia também”.

Escritores (e leitores) do mundo

Seja para escrever um simples e-mail ou fazer uma apresentação no trabalho, qualquer profissional precisa articular raciocínios e contar histórias de uma maneira interessante.

Ter contato com técnicas de produção literária também pode ser útil, nesse sentido, ao despertar a sua sensibilidade estética para a riqueza das palavras com seus ritmos, sons e sentidos.

Nas palavras de Pujol, exercitar a escrita criativa é útil para qualquer pessoa porque permite que o aluno se torne um leitor melhor dos seus próprios textos e dos alheios, e também um “leitor do mundo”.

A oportunidade também vale para fugir de uma mentalidade excessivamente pragmática, que visa ao resultado imediato e à “busca pela resposta certa, que nos sufoca desde as provas do colégio até o mercado de trabalho”.

Bressane conta que, no começo, achava estranho haver tanta procura por cursos de escrita criativa — supondo, aí, que o interesse se limitasse ao pequeno círculo de aspirantes a escritores no Brasil.

“Depois notei que mesmo os alunos que não têm ambições literárias querem exercitar a sua capacidade de contar histórias de modo criativo e garantir seu domínio sobre a linguagem”, afirma.

Para o professor, a redação é “muito mal cuidada pelo ensino no Brasil” e deveria ser uma questão prioritária, como a matemática. “Quem não sabe narrar sua própria vida de modo intrigante não é dono dela, assim como quem vai mal em matemática na escola gere pessimamente sua vida financeira”, conclui.

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