Obra recebeu influência de seu pai, Florduardo, matuto e contador de casos

Marcelo Bortoloti, na Época

No princípio do século passado, Florduardo Pinto Rosa era o dono de um armazém em Cordisburgo, interior de Minas Gerais. Vendia de arroz e feijão a aguardente e querosene. O comércio abastecia os tropeiros que passavam pela região. Atrás do balcão, Seu Fulô, como era conhecido, colecionava as histórias dos viajantes. Além de comerciante, foi vereador e juiz de paz, celebrou casamentos e mediou conflitos. Dono de uma coleção de espingardas, regularmente saía para caçadas. Conhecia muito bem a região e seus tipos humanos. Teve seis filhos e pretendia que o armazém ficasse sob os cuidados do primogênito, João Guimarães Rosa.

Logo cedo, no entanto, o garoto mostrou aptidão para o estudo. Aos 9 anos mudou-se para Belo Horizonte, onde foi estudar e morar com o avô, Luis Guimarães, médico e escritor. Abandonou de vez Cordisburgo e o sonho do pai em torná-lo comerciante. O jovem João passou a mirar a figura erudita do avô e se afastou da trajetória do pai, matuto e contador de histórias. Formou-se em medicina, aprendeu línguas e tornou-se diplomata. Morou no Rio de Janeiro, depois na Alemanha e na França. Tornou-se extremamente culto. Falava francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, esperanto e russo.

RAÍZES Guimarães Rosa,  escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

RAÍZES
Guimarães Rosa, escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

Aos 38 anos, João publicou seu primeiro livro de contos, Sagarana. A obra era uma reaproximação com o universo do pai, o interior que o diplomata deixara para trás. A partir daí, consagrou-se produzindo uma literatura intimamente conectada ao ambiente que o velho Florduardo conhecia tão bem. E passou a se corresponder intensamente com o pai. Guimarães Rosa escrevia de longe e tinha pouca intimidade com o sertão que aparece o tempo todo em sua obra. Fez apenas duas viagens pela região e precisava de informantes como Seu Fulô. A correspondência dos dois, arquivada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), mostra a bonita relação de um escritor erudito com o pai comerciante que ajudou a construir uma das mais importantes obras da literatura brasileira.

As cartas do escritor para o pai foram publicadas no livro Relembramentos, de Vilma Guimarães Rosa, filha do autor. Os textos de Florduardo permanecem inéditos no arquivo do instituto. É um interessante passeio por histórias do interior mineiro. Apesar dos problemas de pontuação e erros de português, Florduardo tinha um estilo muito próprio, engraçado e atraente de escrever. Encaixava uma história dentro da outra, numa técnica que foi recuperada por seu filho. Em 1962, Guimarães Rosa escreveu para a mãe: “Gosto muito do jeito dele escrever, de dar notícia de todos. Fico pensando que a minha ‘bossa’ de escritor eu herdei dele, que maneja a pena com tanta facilidade, personalidade, vivacidade e graça”.

Florduardo enviava com receio os textos para o filho já consagrado. Em 1947, um ano após a publicação de Sagarana, escreveu: “Fico com vergonha de te mandar estas tolices que eu escrevo sempre à noite quando me falta o sono, e que talvez você nem compreenda a minha letra e o mal escrito”. Mas, diante da insistência do filho, mandava regularmente novas histórias. “Tenho que escrever, não conferir o que escrevi e te mandar logo, pois do contrário eu desanimo e rasgo tudo como já tenho feito muitas vezes”, disse, em 1954.

FAMÍLIA Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

FAMÍLIA
Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

Guimarães Rosa lhe pedia histórias de crimes, de personagens curiosos de Cordisburgo, detalhes do trabalho na roça, da fala do povo, do comércio na cidade, das caçadas, dos hábitos dos animais e dos tipos de planta. Embora sua obra fosse ficcional, os informes ajudavam a compor o cenário. Os pedidos se intensificaram no começo dos anos 1950, quando Guimarães Rosa escrevia simultaneamente seus dois livros mais importantes: Corpo de baile e o romance Grande sertão: veredas. “Preciso de explorar mais o senhor, que a mina é ótima”, afirmou para o pai.

Para seus livros, Guimarães Rosa trabalhava como um escritor-pesquisador. Reuniu milhares de páginas com anotações das duas viagens que fez pelo sertão, trechos de livros de filósofos e escritores clássicos, recortes de jornal, guias de botânica e agricultura. Num caderno específico, transcreveu (mais…)