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Livros de John Grisham serão adaptados como séries para o Hulu

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Serviço de streaming será responsável por produzir os programas baseados em “O Homem que Fazia Chover” e “O Advogado Rebelde”; títulos farão parte de universo compartilhado.

Jaqueline Elise, no Cinema com Rapadura

O Deadline informou que o serviço de streaming Hulu planeja produzir duas séries baseadas nas obras do escritor norte-americano John Grisham: “O Homem que Fazia Chover“, livro lançado em 1995, e “O Advogado Rebelde“, de 2015. O plano é que os dois programas sejam o pontapé inicial para um futuro universo compartilhado.

Os produtores Michael Seitzman (da série “Código Negro“) e Christina Davis (que trabalha nos bastidores de emissoras de televisão dos Estados Unidos), fundadores da Maniac Productions, serão os showrunners das produções. Grisham será um dos produtores executivos, segundo a publicação.

As séries de “O Homem que Fazia Chover” e “O Advogado Rebelde” terão tramas separadas, mas, para que façam parte de um possível universo compartilhado, as duas terão o mesmo vilão. Ainda não foi revelado de qual das obras o vilão sairá. A intenção é que, no futuro, outros livros de Grisham também sejam adaptados para que alguns personagens de cada programa façam participações especiais nas outra histórias, como se cada episódio fosse um crossover.

Apesar de independentes, as séries serão filmadas ao mesmo tempo e se passarão no mesmo período de tempo, nos dias atuais.

Em “O Homem que Fazia Chover”, um estudante de Direito se vê obrigado a enfrentar uma das mais poderosas e corruptas companhias dos Estados Unidos para desvendar uma fraude no sistema de saúde. O livro foi adaptado para os cinemas em 1997, com Francis Ford Coppola (da trilogia “O Poderoso Chefão”) na direção e Matt Damon (“Deadpool 2”) e Danny DeVito (“PéPequeno”) nos papéis principais.

Já “O Advogado Rebelde” conta a história de Sebastian Rudd, um profissional da área de advocacia com gostos peculiares e manias estranhas que costuma defender réus de índoles questionáveis, pois crê que todos merecem um julgamento justo, ainda que seja preciso trapacear para conseguir justiça.

Ainda não há previsão de quando as duas séries entrarão em produção.

Apple encomenda série baseada na saga ‘Fundação’, de Isaac Asimov

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O escritor Isaac Asimov (Alex Gotfryd/CORBIS/Getty Images)

A história dos livros se passa em um futuro distante e retrata seres humanos vivendo em diversos planetas da galáxia

Publicado na Veja

A Apple encomendou uma série de dez episódios baseada na saga de ficção científica Fundação, do escritor Isaac Asimov. A história dos livros se passa em um futuro distante e retrata seres humanos vivendo em diversos planetas da galáxia sob o comando do Império Galáctico.

A produção do seriado fica por conta de David S. Goyer, roteirista de filmes como Batman Begins (2005), Cidade das Sombras (1998) e Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), e Josh Friedman, de Reação em Cadeia (1996), Guerra dos Mundos (2005) e O Exterminador do Futuro: As Crônicas de Sarah Connor (2008-2009).

Autor revela que há quatro projetos ligados a ‘Game of Thrones’ em desenvolvimento na HBO

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George R.R. Martin escreveu post em seu blog explicando os planos para o futuro da série ‘Game of Thrones’ após a estreia da última temporada em 2019 Foto: Matt Sayles/Invision/AP, File

George R. R. Martin afirmou que o piloto envolvendo a primeira guerra dos humanos contra os Caminhantes Brancos é o mais avançado

Publicado no Estadão

Com a derradeira oitava temporada de Game of Thrones programada para estrear no canal pago HBO em 2019, os fãs da saga de Westeros começam a se perguntar qual será o futuro da popular série. Em um post no seu blog na segunda-feira, 11, o autor George R. R. Martin, escritor da saga As Crônicas do Gelo e Fogo, que inspiraram a série, contou o que está programado para os próximos anos.

Segundo Martin, em um certo momento havia cinco projetos na HBO dentro do universo de Game of Thrones e agora quatro deles estão avançando em diferentes estágios de produção. O que está mais avançado é o projeto da roteirista inglesa Jane Goldman, que vai contar a história da primeira guerra dos humanos contra os Caminhantes Brancos, mil anos antes dos eventos de Game of Thrones, e teve um episódio piloto encomendado pelo canal.

“O que me disseram é que vamos filmar pelo menos mais um piloto, talvez mais do que um, nos próximos anos”, escreveu Martin. “Nós temos um universo inteiro com dezenas de milhares de anos de história para brincar. Mas claro, em se tratando de televisão nada é certeza”, continuou.

O autor também revelou que a HBO está pensando em encaixar o nome Game of Thrones em todos os projetos como forma de unificar o universo em um só lugar. “Eu chamaria o projeto [de Jane Goldman] de The Long Night, o que diz tudo, mas eu ficaria surpreso se isso acontecesse. É mais provável que a HBO encaixe a frase Game of Thrones em algum lugar”, disse.

Por fim, Martin negou os rumores de que estaria escrevendo o roteiro para um desses projetos, reiterando que seu foco está em terminar The Winds of Winter, sexto capítulo da saga dos livros e que já teve seu lançamento adiado inúmeras vezes. “É ridículo pensar o contrário. Se eu não estivesse concentrado em escrever Winds vocês acham que já não teria vazado que eu estaria escrevendo um desses pilotos?”, reclamou o autor.

H.G. Wells prova que é possível prever o futuro em seus livros

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Ilustração de Louisa Gagliardi no livro ‘O Dorminhoco’, de H. G. Wells Foto: Carambaia

Um dos pioneiros da ficção científica, o escritor britânico tem dois livros sendo publicados no Brasil

André Cáceres, no Estadão

Em seu romance utópico Looking Backward (1888), o escritor socialista Edward Bellamy (1850-1898) narra a aventura de Julian West, que, induzido a dormir por hipnose, acorda 113 anos mais tarde para descobrir que os Estados Unidos se transformaram em um país comunista. Embora essa previsão não pudesse estar mais equivocada, o livro foi um dos primeiros a imaginar cartões de crédito, e-commerce e streaming de músicas. Entre o final do século 19 e o início do seguinte, especialmente durante o período de otimismo cientificista da Belle Époque, muitos autores especularam sobre o futuro, como o americano Jack London, o russo Alexander Bogdanov e o francês Júlio Verne. O mais bem-sucedido nessa empreitada, entretanto, talvez tenha sido o britânico H.G. Wells, que tem dois livros futuristas inéditos no Brasil, O Dorminhoco (1910) e A Guerra no Ar (1908), sendo publicados pela editora Carambaia.

O Dorminhoco é protagonizado por Graham, um sujeito que estava há seis dias insone e, enfim, cai no sono. Ou melhor, em um transe letárgico que preserva seu corpo por 203 anos. Quando ele acorda, seu dinheiro, administrado por um conselho, cresceu tanto graças aos juros compostos que o tornou literalmente dono do mundo.

Aclamado por “multidões em escala monstruosa, massas compactas de matéria humana indistinta”, Graham desperta “mais deslocado que um cavaleiro saxão que caísse sem aviso em plena Londres do século XIX”. O cenário é a capital inglesa com 33 milhões de habitantes: a moeda é outra, os costumes mudaram (“o hábito de fumar praticamente desaparecera da face da Terra”), o idioma se transformou (“um fluxo espesso no qual boiavam cadáveres de expressões em inglês, o dialeto insidioso dos tempos modernos”), a escrita mudou. Nem mesmo os números são familiares a Graham: “O senhor viveu na época do sistema decimal”, explica um criado. “Doze dúzias dá uma grosa. Na casa do milhar, com uma dúzia de grosas, temos uma duzena. E uma dúzia de duzenas perfaz uma miríade. Não é simples?”

O esquecimento de pintores, escritores e músicos em prol dos capilostomistas – uma espécie de barbeiro elevado ao patamar de artista prestigiado – reflete o ceticismo de Wells em relação à massificação cultural, talvez até uma aversão às vanguardas: não por acaso, apenas sete anos após a publicação do livro, Duchamp chacoalharia os baluartes do mundo da arte para sempre.

O livro inspirou livremente Woody Allen em sua comédia homônima de 1973, mas oferece um tom muito mais dramático. Um exemplo disso é a questão trabalhista levantada por Wells, ainda atual após mais de um século: “a mecanização da agricultura fez um engenheiro equivaler a trinta trabalhadores”, descobre Graham quando decide conhecer a vida das camadas menos favorecidas. “As cidades maiores cresceram. Atraíram os trabalhadores com a força gravitacional de oportunidades aparentemente infinitas; já os patrões viam nelas uma força de trabalho de dimensões oceânicas.” Aliada à superpopulação, a desigualdade fez com que a vida se tornasse insuportável e até a morte se tornou um escape desejável: “a eutanásia está muito além dos recursos da maioria, pois para os pobres nem a morte é tarefa fácil”.

Wells antecipa o “cinetotelefotógrafo” – tela oval e brilhante que transmite imagens de outros lugares e se assemelha a uma janela – décadas antes da primeira emissora da TV. Mas são os aviões que realmente tomam de assalto ambos os livros. Em O Dorminhoco, há uma sequência de combates aéreos escrita antes de qualquer voo registrado (a história foi publicada originalmente no semanário The Graphic entre 1898 e 1899). A Guerra no Ar explora ainda mais a questão dos “aeroplanos”, demonstrando os prejuízos para civis envolvidos em batalhas com aviões, previsão que se concretizaria durante a 1.ª Guerra Mundial, menos de uma década após o lançamento do livro.

Leitor contumaz de H.G. Wells, Jorge Luis Borges, que confessa a influência do conto The Crystal Egg em O Aleph, afirma que os livros do autor “são os primeiros que li; serão talvez os últimos (…) hão de se incorporar na memória geral da espécie, e se multiplicarão, para além dos limites da glória de quem os escreveu, para além da morte do idioma em que foram escritos”. O escritor americano Jack Williamson, cuja tese de doutorado demonstrou que Wells não tinha nada de otimista em suas previsões, nota que o britânico, “como um biólogo, sabia que nenhuma espécie sobrevive eternamente. Ele viu que a humanidade corre risco de extinção. E explora esse perigo.”

O valor de O Dorminhoco e A Guerra no Ar não está nas previsões que acertam, como o êxodo rural, abismo entre ricos e pobres, mecanização do trabalho e perigo do combate aéreo para civis. Tampouco nas que erram, como a erradicação da calvície, fim da arte e das ferrovias. As tendências que o autor identifica são muito mais interessantes por tratarem de sua época, não de séculos adiante. O autor fala de um futuro muito distante para discutir questões perenes de seu tempo e que permanecem relevantes ainda hoje. Não surpreende que, em sua palestra The Discovery of the Future, Wells defenda ser plenamente possível, com base em evidências, investigar o futuro da mesma maneira que historiadores fazem. “Sobre o passado, eu diria que estamos inclinados a superestimar nossas certezas, assim como penso que subestimamos as certezas sobre o futuro.”

Qual é o futuro do mercado de livros no Brasil?

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A TODAVIA, de Moura, Conti, Levy, Ana, Setubal e Sarmatz, aposta no poder civilizatório dos livros nesse momento de discussões rasas da internet (Foto: Rogério Albuquerque)

A TODAVIA,
de Moura, Conti, Levy, Ana, Setubal e Sarmatz, aposta no poder civilizatório dos livros nesse momento de discussões rasas da internet (Foto: Rogério Albuquerque)

A boa onda dos negócios com propósito chega ao setor de livros – e novas editoras, investidores e mecenas com sobrenomes famosos tentam revigorar um mercado de R$ 5,2 bilhões

Rogério Albuquerque, na Época Negócios

Chegamos.” No post de apresentação em seu perfil no Instagram, em 20 de junho passado, a editora Todavia (@todavialivros) se vale de um dos memes mais divertidos do ano. Um professor de relações internacionais de uma universidade da Coreia do Sul vê seu escritório em casa invadido pelos filhos pequenos durante uma transmissão ao vivo para um telejornal da BBC. A edição que a editora fez do vídeo sublinha o pedido de desculpas do professor – “my apologies” – antes de piscar a logomarca da Todavia. É um discurso completo da nova empresa em seu humor highbrow e presença digital, ainda que não deixe claro se, ao disputar a atenção no espaço proibido, ela estará mais para os bebês, quase insolentes em cena, ou para o acadêmico, absoluto em seu autocontrole e domínio do fato.

Contudo, a Todavia não está para brincadeira. Com dois dias em exposição na semana de lançamento, O Vendido, do americano Paul Beatty, aparecia em quarto lugar entre os livros mais vendidos na Travessa, a livraria oficial da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. “Já fizemos uma reimpressão de 3 mil exemplares, depois da tiragem inicial de 4 mil, pouco acima da média do mercado”, conta o editor Flávio Moura, um dos sócios-fundadores da nova casa editorial. Vencedor do Man Booker Prize no ano passado, Beatty sentou-se à mesa em um dos mais concorridos eventos da festa literária de Paraty, encerrada no último dia 30, em que se discutiu “o grande romance americano” – e apropriação cultural e racismo. Sua vinda diz muito dos mares em que a Todavia quer navegar, que não são os clássicos mares do quanto maior e mais rápido o retorno financeiro melhor. “A gente quer escolher títulos que adensem o debate nesse momento em que a rede social tomou a dimensão que tomou com esse tipo de discussão rasa e acirrada”, diz Moura. “Nesse aspecto, a editora tem um papel civilizatório.”

O posicionamento da empresa, explicado com um misto de entusiasmo e cautela pelo editor – “pode parecer demagogia” –, é o que conferiu o valor diferencial na avaliação do risco tomado pelos financiadores do projeto. “Os jovens empreendedores trabalham com conceitos diferentes, não estão olhando para os negócios apenas pelo lado financeiro, que é uma visão estreita”, avalia o presidente da holding Itaúsa, Alfredo Egydio Setubal, o principal entre os três investidores iniciais da Todavia. “Estamos investindo porque acreditamos que ainda haja espaço para editoras desse tipo, que buscam qualidade. A ideia é construir uma editora influente, que colabore e interfira nos debates importantes para a sociedade brasileira.”

Há importantes sinais de mudança aí. “Tem se tornado cada vez mais comum esse investidor ou proprietário, de perfil mais paciente”, afirma Roberto Sagot, diretor-executivo da Fundação Dom Cabral e coordenador de um programa com CEOs de grandes empresas em busca de propósito – e não somente de lucro. Seja por convicção, seja por conveniência, o retorno não se mede mais apenas do ponto de vista financeiro e do curto prazo. “Eles têm se perguntado ‘o que vou deixar para a próxima geração?’.” Sagot lembra que não são poucos os estudos sobre a relação entre posturas socialmente mais responsáveis e seus benefícios diretos na geração de caixa. “Em tese, a Todavia vai conversar com um tipo de público que já valoriza esse tipo de empresa”, observa. “Eu não me espantaria se eles descobrirem, com o tempo, que criaram um negócio hiper-rentável.”

“Ninguém está lá para pressionar a turma a ter, sei lá, 20% de rentabilidade ao ano”, acrescenta o gestor de fundos da Indie Capital Luiz Henrique Guerra, reforçando a sintonia do grupo inicial de investidores. A visão é de que, mesmo em se tratando de um segmento desafiador – “especialmente no nicho em que eles estão, da alta literatura” –, há um espaço para crescer no vácuo deixado pela finada Cosac Naify, que fechou as portas em 2015 depois de uma história de quase 20 anos de prejuízos. “Na nossa modelagem, o break even é de quatro a cinco anos”, afirma Guerra. “O planejamento não levou em conta a expectativa de emplacar hits, mas o cenário não está descartado. A editora conta com um grupo de editores experientes.”

Fundada por Moura e os colegas André Conti e Leandro Sarmatz, o diretor comercial Marcelo Levy (todos egressos da Companhia das Letras), a agente literária Ana Paula Hisayama (ex-Agência Riff) e o editor em formação Alfredo Nugent Setubal, filho de Alfredo Egydio, a Todavia soube atrair um capital interessado em remunerar o trabalho. “Este não é um investimento de startup, em que você põe o dinheiro, a coisa cresce e você vende”, avisa Conti. “São investidores que têm afinidade com a área cultural, que estão com a gente também por reconhecer a importância social desse tipo de empreendimento.” A editora já tem 50 títulos comprados e deve publicar entre 50 e 60 títulos novos por ano, ante 30 por mês da Cia. das Letras, por exemplo. “Em um cenário de longo prazo, em 15 anos teremos 900 títulos em catálogo”, diz o diretor comercial Marcelo Levy.

Detentores de 25% da Todavia, os sócios-fundadores não abriram os números que a credenciam como “uma editora média”, em sua autodeclaração, mas demarcaram claramente os limites de sua pretensão. Segundo o Painel das Vendas de Livros no Brasil, do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o mercado editorial brasileiro movimentou R$ 5,2 bilhões em 2016. Grosso modo, metade diz respeito aos livros didáticos e vendas para o governo. A outra metade é dividida quase meio a meio entre livros técnicos e religiosos e a área de interesse geral. “É nesses 25% [interesse geral] que vamos atuar. Somos uma editora literária, com gosto pelas narrativas. Estamos falando de um mercado grande, de R$ 1,1 bilhão, com uma incrível segmentação”, observa Moura. “As maiores editoras brigam por 8%. Metade dessa fatia é disputada por editoras com 1% de participação. Há espaço para crescer.”

Há um componente cruel a acrescentar imprevisibilidade neste cenário, a um só tempo promissor e desafiador: 44% dos brasileiros não leram um mísero livro nos três meses anteriores ao levantamento “Retratos da Leitura no Brasil”. São os chamados “não leitores”. Para o presidente do Snel, Marcos da Veiga Pereira, a leitura, de fato, vem perdendo importância na sociedade. Da terceira geração de editores na família, dono da Sextante, ele resume: “Há cinco anos, era comum você ir a uma festa e conversar sobre o que estava lendo. Hoje o assunto são as séries de TV. As pessoas são capazes de passar três horas seguidas assistindo ao Netflix, mas não de gastar meia hora lendo um livro.” Pereira lembra a frase-bordoada de Monteiro Lobato que enfeitava a sala do avô, José Olympio, em sua editora: “Um país se faz com homens e livros”.

À frente do sindicato da categoria, Pereira sabe melhor que ninguém que “todo mundo tem investido muito em qualidade” gráfica e editorial – “o livro é um excelente presente”. Ele entende que a estratégia de vender mais para quem já lê é a mais urgente agora por ser mais barata, mas avalia que só o investimento para converter o “não leitor” em leitor garantirá um crescimento sustentável. “As editoras defendem muito bem os lançamentos, mas precisamos ir mais ao mundo para defender o livro como fonte de entretenimento, conhecimento, imaginação.” O tom é de mea-culpa. “Como recuperar o valor da leitura na sociedade?” Essa é a pergunta de R$ 5,2 bilhões, com estimativa de crescimento de 6,5% este ano, segundo o Snel. Para o doutor em sociologia na USP José Muniz Jr., que realizou estudos sobre o mercado editorial independente no Brasil e na Argentina, os nossos baixos índices de leitura são resultados de uma série de fatores. “Talvez o mais importante deles seja o precário, descontinuado e incompleto processo de democratização do sistema educativo”, avalia. “Mas o nosso mercado também tem sua parcela de culpa. Ao ficar tão refém da leitura escolar, principalmente via compras públicas, talvez tenha se esquecido de cativar o leitor depois que ele sai da escola.” Para o pesquisador, o problema também pode estar na falta de ousadia na busca de novos canais de venda e na falta de uma política de produção de livros mais baratos, “mesmo que para isso fosse necessário abdicar, em parte, da qualidade editorial e gráfica”.

Para as pequenas e médias editoras, são justamente estes os componentes que garantem sua existência. Fundada em 2015, a Carambaia se especializou em edições numeradas de mil exemplares de obras desconhecidas de autores clássicos ou obras clássicas com o interesse renovado pelo esmero da edição. “Fizemos uma experiência com Dom Casmurro, de Machado de Assis”, diz o diretor editorial Fabiano Curi, cofundador – “não houve investidor, são recursos próprios” – com a jornalista Graziella Beting. “A edição especial, de cem exemplares por R$ 200 com intervenções individuais feitas pelo artista plástico Carlos Issa, esgotou-se em dois meses.”

A Ubu segue o caminho do meio. Fundada por Florencia Ferrari, Elaine Ramos – que trabalharam por mais de uma década na Cosac Naify como diretoras editorial e de arte, respectivamente – e Gisela Gasparian, a nova editora trouxe 35 títulos da velha casa. “Conseguimos um bom ‘fundo de catálogo’ nas áreas de sociologia, design e arquitetura, já trabalhados com professores e universidades, e isso nos garante um bom fluxo de caixa”, revela Florencia. É nos títulos novos que a Ubu demonstra sua linhagem (acabamento gráfico refinado e fama de careira), como a já reimpressa edição de Os Sertões, com 13 novos textos críticos e um projeto gráfico que remete à caderneta de anotações de Euclides da Cunha, e a futura edição de Macunaíma, prevista para o mês que vem. Além de um ensaio que aponta a fonte original dos mitos indígenas declaradamente decalcados por Mario de Andrade – o livro Do Roraima ao Orinoco, do viajante alemão Theodor Koch-Grünberg –, a edição terá uma tiragem especial de 200 exemplares, com papel especial e capas únicas ilustradas pelo artista plástico Luiz Zerbini. “Com o preço em torno de R$ 300, esses exemplares especiais vão ajudar a financiar o trabalho da edição ‘normal’, de 3,5 mil exemplares”, diz Florencia. Fartamente ilustrados, os exemplares comuns custarão cerca de R$ 69.

Cada pequena e média editora desenvolve sua estratégia para garantir a sobrevivência e enfrentar a árdua negociação com as livrarias. As grandes redes levam à risca o modelo não incomum também nos grandes mercados, como o americano: a consignação e, em média, 50% do valor de capa. Isso significa que, em um livro de R$ 70, sobram às editoras R$ 35 para pagar a impressão, transporte, projeto gráfico, tradução e preparação de texto, direitos autorais e ainda remunerar os eventuais investidores e garantir sua margem. “Muitas vezes, uma edição só começa a se pagar a partir da terceira reimpressão”, diz Gisela, da Ubu. Por isso, muitas delas têm recorrido às vendas diretas ao leitor, no canal digital. “Hoje, trabalhamos com cerca de duas dezenas de livrarias e nenhuma grande rede. Nosso modelo é inflexível, porque se eu oferecer mais de 30%, pago para a livraria vender meu livro”, diz Curi, da Carambaia. “Na venda direta, controlo o envio, a embalagem, o brinde. O cliente paga, assim, o custo unitário do livro e uma porcentagem a mais para fazer a editora funcionar.”

Mesmo com a gravidade da crise econômica, a puxar para baixo os resultados, e a má reputação do preço de capa – “o livro brasileiro não é barato, mas é acessível”, defende Pereira, do Snel, o mercado vive “um movimento cultural em que a gente precisa ficar de olho mesmo”, diz o jornalista e editor Paulo Werneck, sócio-fundador da revista de resenhas literárias 451, “a revista dos livros”. Nascida em maio, ela conta com um capital simbólico e financeiro poderoso. “Em vez de investidores, temos doadores”, diz Werneck, sem revelar nomes, que podem ser inferidos a partir de seu conselho fundador: Kati de Almeida Braga, Teresa e Candido Bracher, Fernando Moreira Salles e Neca Setubal, para citar alguns. “É um mecenato, mas sem leis de incentivo. Pessoas físicas dando a fundo perdido”, conta Werneck.

O plano de negócios contou com duas parcerias importantes: a doação do papel pela Suzano e o berço da revista Piauí, de João Moreira Salles, em que 27 mil dos 32 mil exemplares mensais da 451 serão encartados para assinantes até outubro. Para a geração de caixa, Werneck e a sócia, Fernanda Diamant, criaram planos anuais de assinaturas: R$ 136 por dez números (o exemplar avulso custa R$ 17), R$ 100 para leitores em idade de formação (menores de 26 anos) e R$ 250 para assinantes entusiastas. “Os entusiastas já são 10% do total. Nos três primeiros números, somamos 600 assinantes. E pretendemos fechar o ano com 1,2 mil planos vendidos”, planeja Fernanda. A publicidade também tem desempenhado um papel importante. Na edição de julho, sua estrutura cresceu de 40 para 48 páginas. “Havia um gargalo no canal de circulação de informações sobre livros”, diz Werneck. “A imprensa tem dedicado cada vez menos espaço, e as livrarias são muito disputadas pelas editoras com políticas comerciais que impedem alguns livros de aparecer para o leitor.”

A 451 tem resenhado e divulgado a cada edição cerca de 200 títulos do setor de “interesse geral”, o das editoras literárias, pequenas ou grandes. Ao final de um ano, terá dado conta de 10% dos lançamentos feitos no país – segundo o Snel, 19.370 em 2016. “Esses livros estavam muitas vezes sem canal de divulgação”, continua Werneck. “A biografia da Rita Lee é boa ou não é? E Elena Ferrante? E o Drauzio Varella? Vale a pena ler o último livro dele? São perguntas que qualquer leitor se faz e a gente precisa dar uma resposta para ele. A nossa missão é essa, acompanhar o mercado não importa o tamanho.”

Na soma de iniciativas como a “revista dos livros”, o investimento em novas editoras e até no surgimento de espaços dedicados à autopublicação pode residir a solução para a sustentabilidade do negócio e a valorização do livro e da leitura. “Um mercado editorial saudável é aquele em que proliferam e sobrevivem as editoras de porte médio, sinal de equilíbrio maior entre os gêneros mais e menos rentáveis”, diz Muniz Jr., da USP. Mas ele lembra que essa oposição “grandes” e “pequenas” é uma espécie de esquema mental que se popularizou nos últimos 20 anos e não corresponde à realidade. “Esse tipo de oposição não contempla os numerosos casos que fogem à regra: grandes grupos que publicam boa literatura e pequenas que publicam má literatura.” De resto, é história.

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