Vitrali Moema

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A escola de onde os alunos não querem sair

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 Estudantes são encorajados a utilizar a tecnologia durante as atividades escolares Foto: Deutsche Welle

Estudantes são encorajados a utilizar a tecnologia durante as atividades escolares
Foto: Deutsche Welle

 

Publicado no UOL

Do alto do pátio da Escola Municipal André Urani dá para ver, olhando para baixo, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e a Lagoa, ícones da cidade rica. Para cima, surge a comunidade da Rocinha – a maior do país, com quase 70 mil habitantes, símbolo da desigualdade.

“Tem até um muro ali, tá vendo?”, aponta o aluno João Paulo do Nascimento, de 14 anos. “Ele simbolicamente divide a cidade em duas.”

“E nós estamos bem no meio, entre elas”, acrescenta o também estudante João Victor Luiz, de 15 anos.

A metáfora da cidade partida não poderia ser mais apropriada, sobretudo partindo das observações e conclusões dos dois meninos.

A escola, onde estudam 240 adolescentes da Rocinha e comunidades vizinhas, é um Ginásio Experimental de Tecnologias Educacionais (Gente) – uma parceria da Prefeitura com a iniciativa privada, cujo objetivo é testar metodologias de ensino inovadoras.

Aqui, não existe quadro negro, nem carteiras individuais. Desaparecem as turmas tradicionais, surgem os times, que reúnem, em um grande salão, alunos do sétimo, oitavo e nono anos. A internet não é proibida, pelo contrário, ela é parte central do aprendizado.

Munidos de computadores e livros, os estudantes se sentam em mesas hexagonais, uns de frente para os outros, e estudam juntos. Na verdade, eles seguem planos de estudo personalizados, disponíveis em seus laptops, mas contam com a ajuda dos colegas e de suas próprias pesquisas online. Tudo isso sob a monitoria de professores de diferentes disciplinas.

“Um médico do século 19 que chegasse hoje a um hospital não conseguiria fazer absolutamente nada, porque tudo mudou”, compara o diretor-presidente da Fundação Telefônica-Vivo, uma das empresas parceiras da escola. “Mas um professor não, é basicamente a mesma coisa. Ou seja, temos escolas do século 19 para alunos do século 21. As escolas inovadoras são muito poucas.”

Laboratórios como estímulo

Nos chamados laboratórios, mais parecidos com as salas de aula tradicionais, os jovens recebem um reforço de conteúdo nas disciplinas em que apresentam mais dificuldades. São sete horas dentro da escola – duas a mais do que as escolas brasileiras oferecem em média – e ninguém parece ter pressa de ir para casa.

“Só mais meia hora”, pedem os alunos da professora de Português Luana Rezende, que transformou o ensino da língua em um divertido jogo. “Por favor!” A turma só se convenceu a descer para almoçar depois que Luana prometeu retomar o jogo exatamente do mesmo ponto, na semana seguinte. “Eu estou muito cansada, gente”, justifica ela, orgulhosa, o sorriso de orelha a orelha.

No total, são 16 professores trabalhando em tempo integral na escola. Nos projetos especiais, os alunos trabalham com várias disciplinas ao mesmo tempo. Foi assim ao longo da última semana de outubro, por exemplo, quando eles estudaram o Halloween, tanto nas aulas de inglês quanto de história, e, por fim, fizeram uma festa.

Foi assim também que eles estudaram o nazismo, construindo uma maquete de Auschwitz, no laboratório de ciência, e escrevendo cartas, nas aulas de história, como se fossem prisioneiros do campo de concentração em 1944. “Temos cartas de judeus, claro, mas também de comunistas, de ciganos, de todos que estiveram presos no campo”, explica João Paulo.
Silêncio e concentração

A escola experimental atende alunos do sétimo ao nono anos apenas. Eles vêm de escolas tradicionais na própria comunidade e, depois, seguem estudando em lugares convencionais.

“No começo, é difícil”, conta a diretora da André Urani, Marcela Oliveira. “Eles chegam aqui esperando receber ordens, querem que a gente resolva os problemas. Por outro lado, quando percebem que têm autonomia, deixam de fazer os trabalhos, começam a burlar as regras. Depois, com a orientação dos mentores, eles vão se adaptando.”

A adaptação é surpreendente. Em toda a escola, reina um silêncio inesperado para um local repleto de adolescentes. Mesmo na hora do recreio, o burburinho é mínimo.

“Eles são adolescentes, continuam sendo, mas têm autonomia, não precisam mostrar toda a sua indignação”, explica Marcela. “Daí o silêncio que você está vendo.”

Os alunos se entristecem ao falar de sua saída eminente da escola.

“Estamos tentando convencê-los a fazer uma sala de aula extra para que possamos continuar aqui”, diz João Victor.

“Não queremos ir embora de jeito nenhum”, garante João Paulo.

Resignados, no entanto, eles fazem planos de voltar em dez anos.

“Eu vou ser professor de História”, conta João Paulo.

“E eu de matemática”, arremata João Victor.

 

‘Dar aula é como encher uma laje por dia’, diz professora da periferia de SP

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Everly Gonçalves foi bancária e leciona há 11 anos no ABC Paulista.
‘Queria trabalhar com gente, não com número ou metas’, afirma ela.

Everly Gonçalves leciona em uma escola em uma região carente do ABC Paulista (Fotos: Victor Moriyama/G1)

Everly Gonçalves leciona em uma escola em uma região carente do ABC Paulista (Fotos: Victor Moriyama/G1)

Vanessa Fajardo, no G1

Na aula de artes da professora Everly Hortolan Gonçalves, de 45 anos, todo mundo tem de participar das atividades – e fazer as provas. “Tem aluno que fala: nunca vi prova em artes. Eu digo: está vendo agora.” Formada em artes e em pedagogia, Everly leciona há 11 anos na escola estadual Palmira Grassiotto Ferreira da Silva, em São Bernardo do Campo (SP). Foi aprovada em dois concursos públicos e acumula dois cargos de professora, no período da manhã e da tarde, para alunos do segundo ciclo do ensino fundamental e do médio. É conhecida por promover eventos como o show de talentos na escola, em que até os estudantes mais tímidos mostram seus dotes artísticos.

A escola está no Parque São Bernardo, rodeada por uma região carente do ABC, e por inúmeras vezes foi roubada, pichada e depredada. Por volta de três anos, quando ainda não era cercada por muro de concreto, a quadra de esportes era sempre invadida impedindo que os alunos tivessem aula de educação física. Não consegue atingir as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp). A história da Palmira Grassiotto também ficou marcada pela morte de um professor em 2011. Ele foi atingido por um molho de chaves na cabeça jogado por um aluno e morreu dias depois por causa de um coágulo no cérebro – não se sabe se em decorrência do ato do aluno.

Nada disso, porém, abalou Everly na escolha em ficar na Palmira. “Apesar de estar em uma comunidade carente, aluno é igual em toda a escola. Em artes eu tenho a vantagem de trabalhar com outras linguagens, como música e teatro, e consigo trazer os alunos para perto de mim.” Leia a seguir mais uma das entrevistas do especial do G1 sobre o Dia do Professor.

G1 – Por que decidiu lecionar?
Everly Hortolan Gonçalves – Sempre gostei de dar aulas, mas era bancária, não ganhava mal, tinha filhos pequenos, só depois de um tempo fui fazer o que gosto. Acho que professor nasce professor. Fui bancária por oito anos, sempre procurei fazer bem meu trabalho, mas me faltava algo. Queria trabalhar com gente, não com número ou metas.

G1 – Já foi vítima de agressão, violência ou ofensa na sala de aula?
Everly Hortolan Gonçalves – Não, nunca. A gente sempre ouve relatos, mas eu mesma nunca passei por nada disso. Acho que o professor não pode ser o dono do saber, quando o aluno percebe que estamos aqui para aprender também, além de ensinar, eles se abrem e é possível entender o problema deles. Sabendo respeitar o aluno, ele vai te respeitar. Trabalhei em escolas de outros bairros, aluno é aluno em toda escola, o que muda é o grupo de professores, o gestor.

G1 – Em algum momento pensou em desistir?
Everly Hortolan Gonçalves – Me sinto completa como professora, apesar das dificuldades. Dar aula é como encher [fazer] uma laje por dia, a gente chega em casa moída, mas desistir jamais. Esta é a profissão mais gratificante que existe porque você pode fazer a diferença na vida dos alunos. Tive de passar em dois concursos para acumular dois cargos, mas aprendemos a não trabalhar pelo salário. Saí do banco para ganhar metade do que ganhava e trabalhar mais.

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G1 – Sabemos das dificuldades como salário baixo, falta de estrutura, etc. O que a motiva na profissão?
Everly Hortolan Gonçalves – O desenvolvimento dos alunos. Eles chegam sem saber usar uma régua, com vocabulário pequeno. Hoje falam da materialidade da arte, sabem das características dos movimentos artísticos. Os alunos da comunidade que atendemos não têm família estruturada, muitas vezes a gente tem de ser mãe, psicóloga, fazer um trabalho individualizado. E a gente se afeiçoa, principalmente aos menores. Eles contam coisas para mim que não contam nem para os pais. Às vezes o aluno não conhece a mãe, o pai está preso, há problema de uso de álcool na família. Temos de saber a realidade de cada um. Se é possível? A gente tenta. Em uma escola da rede particular, por exemplo, seria mais fácil, mas gosto de desafio. Professores têm de gostar de desafio.

G1 – Vale a pena ser professor?
Everly Hortolan Gonçalves – Sim, acho que é um dom. A pessoa que nasce professor não desiste. Não me vejo fazendo outra coisa. Ter contato com criança é o que eu gosto de fazer. E me sinto muito realizada quando encontro ex-alunos que falam que resolveram estudar arquitetura, design e se lembram das minhas aulas.

Vai ter Copa na lista?

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Intrinseca e Sextante empatam e o tema futebol não emplaca na lista

Cassia Carrenho, no PublishNews

A uma semana da abertura da Copa do Mundo no Brasil, na lista dos mais vendidos o tema futebol deu W.O, apesar dos vários lançamentos sobre futebol e principalmente sobre o craque Neymar. Na lista de não ficção dessa semana, aparece Guia politicamente incorreto do futebol (LeYa), que já estava há algumas semanas, e a novidade que, numa grande ironia, passa longe dos estádios e perto dos tribunais, Indefensável, o goleiro Bruno e a morte de Eliza Samudio (Record), alcançou a quinta posição. Prá ele não vai ter Copa!

O grupo Record colocou outro lançamento, Princesa adormecida (Galera Record), da queridinha das meninas Paula Pimenta, que alcançou a oitava posição na lista infantojuvenil, com 2.344 exemplares vendidos.

Em autoajuda o destaque foi o livro Mapa da felicidade (Gente) que ficou em quinto com 1.547 exemplares. A culpa é das estrelas (Intrínseca) alcançou o espaço com o número de 19.197 exemplares, culpa da capa (não da Copa) nova, mantendo o primeiro lugar e favoritismo para fechar o primeiro semestre como líder isolado!

No ranking das editoras, Intrínseca e Sextante continuam o fairplay e empataram com 14 livros cada. Santillana caiu para segundo com 10, e Companhia e Record em terceiro com nove.

10 Romances da geração de 30 que você precisa ler

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Uma lista de grandes romances da geração de 30. Gente como: Érico Veríssimo, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Dyonélio Machado e Cyro dos Anjos.

José Figueiredo, no Homo Literatus

Não que no Brasil não houvesse bons prosadores, mas a verdade é que nunca antes na história desse país houve uma geração tão impressionante de romancistas. Dos mais intimistas aos urbanos e universais, os romancistas de trinta mostraram que o Brasil era capaz de marcar a posição do país no mundo do romance.

Para tanto, indicamos dez romances, dentre tantos, para mostrar a mudança que essa geração provocou na literatura nacional ao mostrar as modificações que ocorriam em nosso país.

***

1. O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo criou o maior épico brasileiro escrito até hoje. O Tempo e o Vento narra nada menos que duzentos anos da história do Rio Grande do Sul – e, por que não, do país. Da chegada dos primeiros habitantes ao estado até a derrocada das velhas famílias estancieiras representadas pelos Terra-Cambará, vemos passar uma galeria de personagens apaixonantes. Temos Ana Terra e Bibiana, mulheres fortes em meio a um mundo de homens hostis; temos Capitão Rodrigo, uma mistura de galã e aventureiro, cativante como só ele pode ser. Há guerras – muitas guerras – e passagens marcantes dessa história de formação de um estado marcado por homens que morreram à toa e mulheres que sofreram por eles.

2. A Bagaceira – José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

O primeiro dos romances de 30 foi publicado em 1928. Nele podemos encontrar boa parte do que seriam as características de uma geração: o foco numa região periférica do país; e a mostra da violência das velhas elites que viam seu entardecer logo ali. José Américo nos apresenta uma família de retirantes que vai morar em um engenho e as consequências da relação entre o filho do senhor do engenho, Lúcio, e da filha do sertanejo, Soledade. Com muito sangue e violência, vemos os rígidos códigos de sertanejo sendo aplicado a todos, doa a quem doer.

3. O Quinze – Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Um romance de paradoxos: se por um lado, é o romance menos inventivo do ponto de vista técnico (poderia se dizer que é um romance do século passado), por outro é extremamente moderno em sua temática. Ao narrar a história de Conceição, personagem central da obra, Rachel de Queiroz, no auge dos seus vinte anos, dá um final surpreendente para uma mulher em meio a uma sociedade patriarcal e machista da época. Também inovou ao mostrar as mazelas proporcionadas pela seca no nordeste – algo, pelo incrível que pareça, quase totalmente ignorado pela maioria dos romancistas anteriores. Instigante, é o primeiro e melhor romance da autora.

4. São Bernardo – Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Poderíamos dizer muitas coisas sobre esse romance: que fala sobre a ascensão e queda de Paulo Honório, que fala dos ciúmes doentios de um homem, que é um romance de fina análise psicológica de tradição machadiana. Não adianta, tentar encaixar Graciliano Ramos em poucas palavras, é covardia, afinal ele joga com tantos níveis ao mesmo tempo nesta narrativa da fazenda São Bernardo que a única coisa que podemos dizer é: leiam, por favor, leiam!

5. Fogo Morto – José Lins do Rego

José Lins do Rego

José Lins do Rego

Romance único não só na sua própria obra como também na sua geração. Não que conte algo de novo, pois a história, como em outros livros dessa lista, é sobre a derrocada de um antigo coronel. No entanto, a forma como é feita, dando o foco narrativo a três personagens diferentes, dá ao romance uma construção impar. Do Mestre José Amaro até o Capitão Vitorino, José Lins nos apresenta a derrocada inevitável de um mundo frente à modernidade, aproveitando para nos mostrar a derrocada social e psicológica do Coronel Lula de Holanda. Vale ainda uma grande ressalva ao melhor dos personagens do autor: Capitão Vitorino. De percepção limitada e sentimentos nobres, é o melhor personagem de cunho quixotesco que temos em nossa literatura.

6. Terras do Sem Fim – Jorge Amado

Jorge Amado

Jorge Amado

Como muitos dos romances de Jorge Amado, este também virou novela. Há, entretanto, algo de diferente nessa história. Não é a Bahia gostosa dos seus romances mais tardios, muito menos a denúncia da vida sofrida das camadas mais baixas. Jorge Amado nos brinda com um épico sobre a tomada do Sequeiro Grande e a luta de dois clãs, o de Horácio e o dos Badarós, para tomar as melhores terras para o plantio de cacau. Temos de tudo um pouco no meio do caminho: tocaias, incêndios, traição e muito mais. Romance único na obra do autor, temos uma aventura impar sobre o auge da era do cacau e uma terra adubada de sangue. (mais…)

Gente que comenta sem ler

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Reflexões sobre uma epidemia digital

Danilo Venticinque, na Época

Clique em qualquer notícia de um grande portal, vá à seção de comentários e faça sua aposta: quantas pessoas realmente leram todo o texto antes de comentar? Quando comecei no jornalismo, ingênuo, acreditava que todos liam tudo. Os anos me tornaram cético. Hoje, tenho certeza de que o número é próximo de zero. Na internet, quase todos nós lemos muito mal.

Num universo de leitura fragmentada, os comentaristas conseguem se destacar negativamente. Ao contrário dos outros maus leitores, que prestam conta apenas às suas consciências, quem comenta deixa registrada, definitivamente, a sua falta de atenção. Só não morrem de vergonha disso porque sabem que ninguém notará suas falhas. Afinal, se quase ninguém lê as notícias, é seguro apostar que mesmo o mais absurdo dos comentários passará despercebido por todos. Exceto, é claro, por outros comentaristas.

Quanto maior a audiência de uma notícia, maior a chance de a caixa de comentários se transformar numa sala de bate-papo delirante, sem nenhuma relação com o assunto original. Não importa se o texto é sobre a Petrobras, sobre novas marcas de esmalte ou sobre o álbum da Copa: sempre haverá uma desculpa para transformá-lo em palco para brigas políticas. Quando a vontade de expressar uma opinião é irresistível, a lógica é o que menos importa. O Flamengo perdeu? A culpa é da Dilma. O vocalista do Muse perdeu a voz? A culpa é da Dilma. Pensei num terceiro exemplo, mas tive um branco momentâneo. A culpa disso, evidentemente, é da Dilma.

Sempre há um ou outro justiceiro que gasta seu tempo apontando incoerências nos comentários alheios. São criaturas exóticas: leem não só os textos, como também os comentários – e ainda se dão ao trabalho de notar quando não há qualquer relação entre uma coisa e outra. Os esforços desses bravos heróis são em vão: a horda de comentaristas enfurecidos imediatamente os descartará como lacaios de algum partido político ou, pior ainda, metidos a intelectuais. Bem feito. Quem mandou gastar seu tempo lendo um texto na internet?

Comentários em redes sociais são ainda piores. Lá, não é necessário nem mesmo clicar na notícia para palpitar sobre ela. Basta ler o título do post que um amigo compartilhou e o campo de comentários estará logo abaixo, com todos os seus encantos. Eu falei em ler o título? Bobagem. Não importa o que esteja escrito lá: a culpa sempre será da Dilma. Ou seria do PSDB?

No último primeiro de abril, o site da National Public Radio (NPR) aplicou uma pegadinha impiedosa em seus leitores: publicou, no Facebook, um texto com o título “Por que a América não lê”. Centenas de pessoas comentaram o assunto. Algumas discordavam, indignadas. Outras concordavam e discorriam longamente sobre as causas desse fenômeno. O texto da notícia, que ninguém leu, explicava a piada e dizia algo como “os americanos leem, mas temos a impressão de que eles só olham o título antes de comentar”. Eu não saberia dizer precisamente o que estava escrito lá: confesso que não li o texto da NPR. Vi o link no Facebook de um ou dois amigos e decidi comentar sobre o assunto mesmo assim.

Por muito tempo acreditei que a multidão que comenta sem ler era a escória da internet. Que o mundo seria melhor se lêssemos todos os textos antes de palpitar sobre eles. Eu estava errado. Hoje penso exatamente o contrário. A enorme maioria dos textos que circulam pela internet é inútil. Os comentaristas ensandecidos simplesmente decidiram parar de perder tempo com esse tipo de bobagem. São seres mais evoluídos do que nós. Basta aplicarem em algo útil todas as horas de leitura superficial que economizam e logo dominarão o mundo.

Saber comentar sem ler é uma habilidade indispensável para ser bem sucedido no mundo digital. Se você ainda não aderiu, pare de ler agora e junte-se a nós. Seja bem-vindo ao futuro.

O próximo passo rumo à iluminação digital é aprender a não ler e não comentar.

As discussões na internet, convenhamos, nunca mudaram a opinião de ninguém. Nos meus anos menos esclarecidos, li muitos debates em seções de comentários. Nunca vi um crítico do governo terminar uma discussão com “pensando bem, acho que a culpa não é da Dilma”. Ou um ativista, após longas réplicas e tréplicas, decidir dar o braço a torcer: “diante de todos os argumentos aqui expostos, cheguei à conclusão de que #vaitercopa.” As discussões virtuais são tão dispensáveis quanto as notícias que as antecedem. Abençoado seja quem guarda sua opinião para si e cultiva o silêncio digital. É o que vou fazer agora. Até a próxima semana.

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