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Professora vira ‘mãe por acaso’ ao adotar aluno em Belo Horizonte

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Convivência começou na escola, quando menino passava por problemas.
Tânia de Carvalho falou sobre a alegria de ser mãe.

Sara Antunes, no G1

A relação de Rodrigo Carvalho Gomes com a mãe tem abraços, elogios e muita bronca, levando Tânia Margareth de Carvalho, de 54 anos, às risadas. Tímido, o jovem de 18 anos se incomoda um pouco com o jeito expansivo dela e com a mania de abordar pessoas ao acaso sempre tentando ajudar. Da mesma maneira, há dez anos, Tânia decidiu fazer algo por um dos alunos, descrito por outros professores como uma criança triste e pouco participativa na escola. O menino era como diziam e não gostava da ideia de revelar os problemas. Pouco a pouco, ela conseguiu. Foram muitos passeios ao clube, lanches e visitas, até ficarem mais próximos e se chamarem, enfim, mãe e filho.

Mãe e filho demonstram cumplicidade e carinho construídos em anos de convivência em família. (Foto: Laura de Las Casas/G1)

Mãe e filho demonstram cumplicidade e carinho construídos em anos de convivência em família. (Foto: Laura de Las Casas/G1)

Rodrigo foi adotado por Tânia, professora dele à época, aos oito anos de idade. Ela se lembra do dia em que ele foi transferido para sua turma, já que a outra professora o considerava um aluno difícil de lidar. No primeiro exercício em sala, no qual cada criança deveria se desenhar, o menino se fez com lágrimas nos olhos e disse estar triste. Não satisfeita com a explicação, ela deu início a atividades envolvendo todos os alunos; a ideia era fazê-lo se abrir e não se sentir só. Logo, em conversa com uma tia do garoto, descobriu que Rodrigo vivia em casa problemas familiares graves, o que justificava o jeito fechado e solitário do menino.

Casada há 14 anos, Tânia sempre quis ter filhos. Ela nunca engravidou, mas esse instinto maternal sempre existiu e foi vivido por meio de sua forte relação com as sobrinhas, com os vizinhos e, claro, com os alunos. Ao contar em casa sobre a história de Rodrigo, o marido da professora começou a insistir para que ele fosse passar uns dias na casa do casal. “Como a gente sempre saía com as minhas sobrinhas para passear, ir ao clube, ele deu a ideia da gente levar o Rodrigo junto”, conta.

Rodrigo abraça os pais em fotos do album de família no ano em que chegou à nova casa. (Foto: Tânia Margareth/Arquivo Pessoal)

Rodrigo abraça os pais em fotos do album de
família no ano em que chegou à nova casa.
(Foto: Tânia Margareth/Arquivo Pessoal)

Na primeira visita, em um feriado prolongado, Rodrigo ficou uma semana, indo ao clube diariamente. A hora de ir embora foi difícil. O menino, chorando muito, pediu para ficar insistentemente. “Eu lembro de sentir o meu coração partindo, de sentir que eu estava fazendo mal a ele, deixando ele ir embora. Mas ai depois as coisas foram acontecendo, ele começou a vir sempre, e a mãe biológica dele me procurou, me contou que não tinha condições de criá-lo, me pediu para ficar com ele”, lembra.

Ela sabia o que queria, mas esperou uma posição do marido, também muito apegado ao garoto. O caminhoneiro Wilson Marques Gomes atendeu às expectativas e sugeriu a adoção de Rodrigo. O casal explicou ao menino que havia duas opções. Eles poderiam virar tutores, cuidando dele até os 18 anos ou registrá-lo como filho. “Ele não pensou duas vezes e me falou que queria ser adotado”, diz.

“Quando eu vim para cá não era uma coisa que eu achei que fosse fazer tanta diferença na minha vida. Mas aos poucos eu fui percebendo que aquilo era sério, que eu estava me apegando. Era difícil ir embora”, conta o jovem. Tânia acredita que no mundo existem filhos de mães trocadas, cabendo ao destino uni-los com as mães verdadeiras. “Eu não me lembro da minha vida sem ele. (…) É o filho que eu queria”, explica ela.

A dinâmica da casa de Tânia mudou um pouco com a presença do menino, e levou alegria para a vida do casal, que se tornou uma família com a chegada de Rodrigo. “No começo ele me chamava de professora, mas um dia conversamos e eu expliquei à ele que ele podia me chamar de como ele quisesse. Nesse mesmo dia , lá do quarto dele, ele me gritou de longe: ‘Mamãe, mamãe!’. E a partir daí eu deixei de ser professora e passei a ser mamãe”.

Os dois compartilham gostos em comum, o que fortalece a relação de mãe e filho. O mais forte é pelos livros. Tânia também incentiva Rodrigo a escrever poesias, coisa que o jovem faz desde novo. A troca de experiências é, segundo a professora, uma via de mão dupla, já que Rodrigo também apresentou à mãe muito sobre o mundo. “A maior recompensa de ser mãe é poder passar o que eu tenho de melhor pra alguém e muitas vezes identificar a minha pessoa nele. E ele em mim também, porque isso daqui é uma troca maravilhosa. Ele está aqui, é meu amigo, meu companheiro”.

No dia das mães, neste domingo (12), a família pretende escolher um restaurante especial para comemorar. Mesmo considerando o jeito exagerado de Tânia, Rodrigo admira o coração grande da mulher que o escolheu como filho. “O melhor dela é esse pensamento positivo, e essa questão de sentir a energia dela. Contagia!”, diz. E a mãezona ainda demonstra a vontade de aumentar a família: “Eu sempre acho que aqui ainda cabe mais. Ainda não veio porque não tenho um quarto sobrando. Mas eu acho que tem uma menininha em algum lugar por aí que vai me encontrar em algum momento”, diz, com esperança.

Pelo Twitter, Mano Brown rebate críticas e chama Lobão para briga

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O rapper Mano Brown, do Racionais MCs  (foto: Apu Gomes/Folhapress)

O rapper Mano Brown, do Racionais MCs (foto: Apu Gomes/Folhapress)

Publicado na Folha de S.Paulo

O rapper Mano Brown, dos Racionais MCs, respondeu nesta quinta-feira (2), via Twitter, aos ataques feitos a ele e a seu grupo pelo cantor Lobão.

Em reportagem publicada nesta quinta na Folha, o músico carioca disse que “os Racionais são o braço armado do governo, são os anseios dos intelectuais petistas, propaganda de um comportamento seminal do PT”.

Lobão lança nesta semana o livro “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, em que fala que, no clipe mais recente dos Racionais, Mano Brown “brada clichês anacrônicos, exatamente como era de se esperar de um papagaio piegas. O chamado idiota útil”.

Pelo Twitter, Brown respondeu ao cantor. “Não entendo a postura dele agora. Ele, que pregava a ética e rebeldia, age como uma puta para vender livro.”

O rapper chamou Lobão de “leviano” e “desinformado”. “Nos anos 1980 as ideias dele [Lobão] não fizeram a diferença para a gente aqui da favela”, completou.

O líder dos Racionais convocou o músico para um encontro. “Tô sempre no Rio de Janeiro, se ele quiser resolver como homem, demorô! Do jeito que aprendi aqui.”

Também pelo Twitter, a produtora Paula Lavigne escreveu: “@ManoBrownOF vc segura o Lobão q vai ter uma fila pra bater! Kkkk até eu fui esculhambada! Vamos cobrar royalties desse livro!”.

Na entrevista publicada pela Folha, Lavigne é a “rainha [de captar incentivos na Lei Rouanet]“. Ela ainda reeviou o comentário: “Lobão ta achando q @ManoBrownOF é Painho e Gil? Kkkkkk agora corre, Lobinha, corre! Kkkk”. “Eu não quero bater no Lobão, quero dinheiro vendendo livro: Royalties p @gilbertogil @falacaetano @ManoBrownOF @criolomc @siteoficialrc @emicida”, escreveu Lavigne

O rapper Emicida também se manifestou pelo Twitter. “Pela quantidade de gente me pedindo opinião, logo concluo, tem algum infeliz desinformado falando besteira sobre o hip hop em algum lugar.”

O rapper ainda acrescentou: “fui trabalhar, deixo esta canção para o Pai destas polêmicas idiotas do dia de hoje. rs.”, postando sua música “Zóião”.

Na entrevista, Lobão disse que “Emicida, Criolo, todos têm essa postura, neguinho não olha, não te cumprimenta. Vai criar uma cizânia que nunca teve, ódios [raciais] estão sendo recrudescidos de razões históricas que nunca aconteceram aqui. Estão importando Black Panthers, Ku Klux Klan. Tem essa coisa de “branquinho, perdeu, vamos tomar seu lugar”. Como permitem esse discurso?”.

Procuradas pela Folha, outras pessoas citadas por Lobão, como Roberto Carlos, Edu Lobo e Criolo, não se pronunciaram até o início desta tarde.

Retrato do músico Lobão em sua casa na cidade de São Paulo (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Retrato do músico Lobão em sua casa na cidade de São Paulo (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Projeto de mestrado gera troca de farpas entre jornalista e estudante

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Apresentadora do SBT chamou de ‘piada’ estudo que analisava Valeska Popozuda e as relações de gênero no mundo funk
Estudante responde as declarações da jornalista e abre debate sobre o funk no mundo acadêmico

Valeska Popozuda, uma das funkeiras analisadas no mestrado, chama apresentadora de “jornalista dos anos 20” FERNANDO TORQUATTO / Divulgação

Valeska Popozuda, uma das funkeiras analisadas no mestrado, chama apresentadora de “jornalista dos anos 20” FERNANDO TORQUATTO / Divulgação

Leonardo Vieira, em O Globo

RIO – Apesar de ser cada vez mais presente como objeto de estudos nas universidades, o funk ainda gera muita polêmica entre os brasileiros. Na semana passada, a apresentadora do telejornal SBT Brasil, Rachel Sheherazade, afirmou, em tom pejorativo, que o ” funk carioca, que fere meus ouvidos de morte, foi descrito como manifestação cultural. E o pior é que ele é, pois se cultura é tudo o que o povo produz, do luxo ao lixo, o funk é tão cultura quanto bossa nova”.

Veja aqui as declarações da apresentadora.

Rachel se referia ao projeto de mestrado da estudante Mariana Gomes, intitulado “My pussy é o poder. A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural”. Para a apresentadora, dissertações como essa são inevitáveis no contexto de mais “popularização da universidade”.

Aprovada em segundo lugar na Universidade Federal Fluminense (UFF) para o mestrado em Cultura e Territorialidades, Mariana se propôs a estudar as relações de gênero no mundo funk, problematizando e até contestando a teoria de que funkeiras como Valeska Popozuda e Tati Quebra-Barraco seriam “o último grito do feminismo”. Veja aqui o projeto de mestrado.

Ao ver as declarações no telejornal, a mestranda escreveu uma carta-resposta em seu blog no último domingo (21), onde Mariana questiona, dentre outros pontos, se Rachel teria ao menos lido seu projeto de estudo. O texto teve mais de 10 mil compartilhamentos no Facebook.

- O ataque não foi ao meu trabalho. O preconceito dela começa quando o assunto é popular. Chamar o funk de lixo é não abrir os olhos para uma realidade concreta. Ela direciona isso ao local da favela. A opinião dela tem uma questão de classe muito forte – afirmou Mariana.

Por sua vez, Valeska disse que não iria responder a “essa jornalista dos anos 20″, que “vive presa na época em que a mulher nem direito de frequentar uma escola tinha”. No entanto, a funkeira afirmou:

- Tenho certeza que ela seria muito mais feliz se fosse mais aberta ao funk.

Por meio da assessoria do SBT, a apresentadora informou que não iria mais se pronunciar sobre o assunto.
Debate no mundo acadêmico

Orientadora de Mariana num projeto de iniciação científica por dois anos, a historiadora Adriana Facina entende o debate também como consequência da ampliação do acesso à universidade ocorrida nos últimos anos no Brasil. Entretanto, diferentemente da apresentadora, Facina enxerga o fenômeno mais positivamente.

- Ao tornar acessível o ensino superior a uma parcela maior da sociedade que, até então, estava excluída, novos temas e estudos surgirão naturalmente. Como que alguém pode considerar irrelevante para o estudo uma música como o funk, que é ouvida por milhões de jovens? O tema da Mariana é relevante porque o funk não é só uma manifestação de massa, mas há também a questão de gênero. A presença masculina é predominante no funk e em toda a sociedade brasileira – explicou Facina, que já deu aulas sobre a história do funk na UFF.

Quem segue a mesma linha de Facina é a professora de Comunicação e Cultura Popular da UFF, Ana Lúcia Enne. Para ela, ainda há uma “cristalização do preconceito” em relação a certos movimentos culturais:

- Que bom que o mundo acadêmico está aberto não só a objetos canonizados! Compreender o mundo e a realidade a sua volta é um dos papeis fundamentais da universidade.

A professora se diz orgulhosa de seus alunos da graduação de Estudos de Mídias Sociais, curso no qual é vice-coordenadora. Em março, a fim de realizarem um trabalho de final de período, estudantes de Ana Lúcia apresentaram um flash mob num dos principais endereços culturais do Rio, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ao som de “Ah lek lek lek”, os alunos viraram um sucesso em redes sociais. Veja aqui o vídeo.

Menos de um mês depois, sete formandos do curso escolheram ninguém menos do que a funkeira Valeska Popozuda como patronesse na cerimônia de colação de grau.

Blogs que conectam poesias

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Jovens de Caruaru e cidades circunvizinhas adotam a internet como ferramenta de produção literária

Foto: Bruno Brandão

Foto: Bruno Brandão

Jénerson Alves de Oliveira, para o Livros e Pessoas

Eles podem ser chamados de “literautas” (ou seja, literatos e internautas). Trocando a pena pelas teclas, jovens autores pernambucanos encontram na internet formas de divulgação de suas obras literárias. Segundo eles, os blogs são ferramentas poderosas de interação artística, e transformam-se em um parnaso virtual. Jovens de Caruaru e cidades circunvizinhas, como Bonito, Belo Jardim e Garanhuns adotam essas ferramentas. E, podem crer: têm dado certo.

Um exemplo é a estudante caruaruense Natali Gomes. Autora do blog ‘Pensando Em Tudo Antes de Dormir’, a jovem percorre vários estilos literários, como crônicas, poemas e contos. “Escrevo aquilo que eu gostaria de ler. Baseio-me em minha vida, mas escrevo como uma forma de tornar a realidade mais interessante”, confidencia. Natali aprendeu a ler aos 4 anos de idade, e desde cedo desenvolveu um gosto acurado pela leitura. Joaquim Manuel de Macêdo, Machado de Assis, William Shakespeare e Emily Bronte estão entre os autores que ela mais aprecia.

Apesar da adoção do blog, ela também tem o idílio de publicar obras impressas. Inclusive, a jovem escritora já tem 10 livros concluídos, manuscritos. Um deles, inclusive, está pronto para ir à gráfica. Mesmo sem querer muitos detalhes, ela adianta que a obra é um romance adolescente com aspectos realistas, permeando um clima de suspense em certos momentos.

A estudante Agnes Caroline lançou o blog ‘Bailarina Azul’ em julho do ano passado, mediante o incentivo de um professor. Ela explica que o nome do blog é carregado de significados. “A bailarina é meiga, doce e determinada, pois tem de romper limites físicos e psíquicos. A cor azul representa o infinito. Então, o blog representa essa poesia, que é meiga, doce, mas também determinada a ponto de alcançar o infinito inatingível”, explana. A predominância temática da poesia de Agnes é o cotidiano. Ela se inspira no simples, no que parece ser banal, e passa despercebido pelo olhar da maioria – mas é o instante-já captado pela sensibilidade da artista que se converte em palavras.

Até a poesia popular encontra espaço na web. O repentista Nogueira Netto, considerado um dos expoentes entre a nova geração no estado, também vale-se do seu blog para divulgar motes, sextilhas e sonetos, além de divulgar agenda de cantorias. Em uma postagem, ele conta que fez uma espécie de ‘desafio’ através do MSN com o poeta modernista Joabe Tavares, abordando a efemeridade da existência. Uma das estrofes improvisadas por Nogueira foi a seguinte quadra: “Sentindo que a razão / Tá findando pouco a pouco / A minha maior loucura / É pensar que não sou louco”.

Em Garanhuns, a universitária Gabriella Weiss, que cursa Psicologia, e se intitula “escritora amadora” é uma das mais profícuas artífices das letras naquela cidade. Ela possui um ‘mix’ de talentos: escreve poemas, contos, crônicas, compõe músicas e canta. Boa parte do seu material escrito está no blog ‘Alameda da Esperança’. No perfil, Gabriella destaca que tudo começou despretensiosamente. “Eu costumo escrever pra mim. Costumo vir ao meu blog e falar um pouco das minhas experiências, ou apenas falar sobre alguns princípios que aprendi na palavra de Deus. Percebi, então, que pessoas se identificaram, que algumas palavras as tocaram e as fizeram repensar sobre os planos do Senhor para elas. Isso é inspirador para mim”, exclama.

Além deles, nomes como Fernanda Thafnes, Glenny Lorrayne, Anderson Kleyton, Rafael Neto, Marcelo Kislitsyn, Núbia Maher, Andreza Ferreira, Taís Santos e Shirley Ferreira fulguram entre os novos nomes que transformam sentimentos em vernáculos, e buscam transformar a rede mundial de computadores na rede mundial da literatura.

Blogs

Natali Gomes: pensandoemtudoantesdedormir.blogspot.com.br/

Agnes Caroline: bailarinazul.blogspot.com.br/

Nogueira Netto: nogueiranetto.blogspot.com.br/

Gabriella Weiss: http://alameda7.wordpress.com/

Fernanda Thafnes: http://saidasopostas.tumblr.com/

Glenny Lorrayne: http://lunae.blogspot.com

Anderson Kleyton: http://flordelibra.blogspot.com.br/

Rafael Neto: nosbordoesdaviola.blogspot.com.br/

Marcelo Kislitsyn: http://www.marcelokislitsyn.blogspot.com.br/

Nubia Maher: devaneioseretalhos.blogspot.com.br/

Andreza Ferreira: http://adeafrer.blogspot.com/

Taís Santos: http://taislaianysantos.blogspot.com.br/

Shirley Ferreira: http://shirleyisa.blogspot.com/

A história da professora que se correspondia com Drummond

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Helena Maria Balbinot Vicari, de 72 anos, guarda 60 cartas que trocou com o autor mineiro

A professora, moradora de Guaporé, trocou cartas com o escritor durante 25 anos Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

A professora, moradora de Guaporé, trocou cartas com o escritor durante 25 anos
Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Carlos André Moreira, no Zero Hora

Carlos Drummond de Andrade era um missivista intenso, mesmo para uma época em que escrever cartas era comum. Sua correspondência com Mário de Andrade foi editada em mais de 600 páginas. A com Cyro dos Anjos, em mais de 300.

Em Guaporé, a 235 quilômetros de Porto Alegre, uma professora guarda 60 cartas – para ela, tão valiosas quanto.

Helena Maria Balbinot Vicari, 72 anos, começou a se corresponder com Drummond de Andrade quando tinha 21 anos, em 1961 (o poeta estava chegando aos 60). Ela era aluna da escola normal em Guaporé e queria manifestar solidariedade diante de uma pedra recorrente no caminho do autor mineiro: a má vontade da crítica.

– Uma professora comparou em um livro um poema da Cecília Meirelles e um do Drummond, para dizer que ela sim fazia poesia, e que ele provavelmente sumiria das vitrines das livrarias em alguns anos. Fiquei indignada e escrevi para ele que o achava o melhor, ainda que meus professores não concordassem – conta ela.

Correspondente atencioso, Drummond respondeu, em mensagem datada de 16 de junho de 1961. Agradecia as palavras gentis e enviava, atendendo ao pedido da leitora, um cartão de visitas autografado. De tempos em tempos, Helena retomava o contato e sempre recebia resposta – as cartas seguintes já falavam de uma maior aceitação de Drummond na escola (a professora havia mudado). “Para um autor de minha geração, é interessante verificar como rapazes e môças aceitam a poesia chamada modernista, que foi tão combatida e mesmo ridicularizada pelos professores de ginásio, por aí além”, comemorava o poeta em novembro de 1962, ao saber que Helena e os colegas haviam realizado uma dramatização do drummondiano Noite na Repartição.

O contato foi sempre por escrito. Helena jamais conheceu o poeta, e só falou com ele por telefone uma única vez. A amizade epistolar durou até 1986 – um ano antes da morte dele. Helena mantinha Drummond informado de sua vida, seus progressos na escola normal, seu noivado e posterior casamento com Jurandir Vicari, o nascimento dos filhos, poemas que escrevera. Drummond sempre respondia, enviava versos, conselhos de alguém mais experiente (Drummond era quatro décadas mais velho).

Mais do que um testemunho da amizade de Helena com Drummond, as cartas que ela mantém bem guardadas nas folhas de plástico de um classificador preto são indício de uma relação ainda mais duradoura.

A convivência de Helena com a poesia.

Assista ao vídeo aqui.

Correspondência vai virar filme

É a própria Helena quem reforça essa impressão ao contar a história. Para falar das cartas a Drummond, recua até o momento em que descobriu o endereço do poeta, em um almanaque antigo. Aí se lembra de que precisa falar de como descobriu a poesia do autor, na adolescência, por meio da jornalista e poeta Lara de Lemos, que mantinha uma coluna de crônicas e poesia no Correio do Povo, e a quem Helena também escreveu.

– Ela me respondeu, e até me convidou para ir visitá-la em Torres, na praia. Bem que eu quis, mas meu pai disse: “ir pra casa de uma mulher que a gente nem conhece direito? Não vai”. E eu não fui – relembra.

Certa ocasião, em 1960, quando precisou ir a Porto Alegre para fazer exames médicos, Helena aproveitou para visitar a escritora com quem se correspondia. Foi Lara quem apresentou a jovem estudante ao trabalho de Drummond, lendo o poema Consolo na Praia (aquele do “o primeiro amor passou / o segundo amor passou…”). Por sugestão de Lara, Helena comprou o mesmo livro, na Livraria do Globo – Poemas, coletânea lançada em 1959 pela José Olympio, que ela guarda até hoje.

Helena escreveu por desagravo ao que considerava a avaliação injusta de uma professora à obra de Drummond. Em outra ocasião, confrontou outra mestra que havia apresentado em uma aula, o poeta como teatrólogo.

– Eu pulei e disse: o Drummond não é teatrólogo, é poeta. Ela só me respondia: mas é o que está aqui no papel que eu tenho. Escrevi para ele e ele comentou que havia apenas autorizado adaptações de sua obra, mas não era homem de teatro. Quando mostrei a resposta, a professora ficou branca de susto – narra.

Helena é cuidadosa com suas lembranças. Além de manter intacta a maior parte da correspondência com Drummond – por ingenuidade, ela mesmo admite, recortou para dar a uma professora a assinatura do poeta na segunda carta que ele enviou. Também mantém guardada uma carta que recebeu de Cecília Meirelles, também em resposta a uma correspondência enviada pela leitora.

Outro autor que durante anos recebeu palavras atenciosas da missivista foi Moacyr Scliar. Muitas vezes, Scliar registrava o recebimento das cartas em notas curtas na coluna que mantinha em Zero Hora – Helena ainda guarda os recortes. Até hoje, anota os livros que leu, peças e filmes a que assistiu. Geralmente, nos mesmos cadernos e agendas em que escreve os versos que ainda compõe, embora nunca tenha publicado.

Professora na ativa até 2010 – aposentou-se mais pela exigência legal e menos por intenção plena –, Helena já foi tema de outras reportagens como esta. Uma delas foi publicada neste mesmo Segundo Caderno de ZH, em 2002. Outro texto, do jornalista Emiliano Urbim, para a revista Piauí, em 2008, foi o responsável indireto por Helena agora estar prestes a ser tema de um filme. A diretora Mirela Kruel, autora do curta Palavra Roubada, leu a revista em uma viagem aérea voltando de Brasília. Chegou em Porto Alegre decidida a encontrar a correspondente do poeta em Guaporé. As conversas iniciais falavam em um curta de 15 minutos. Hoje, Mirela finaliza a preparação para começar as filmagens, possivelmente em abril. Financiado pelo Fumproarte, o filme vai equilibrar a voz de Helena contando a história e reencenações estreladas pelos Janaína Kraemer e Rodrigo Fiatt.

– Quero fazer um filme sobre a poesia, a própria criação poética – diz Mirela.

– Há três anos ela divide comigo esse sonho. Na primeira vez em que falou nisso, nem dormi à noite de nervosa. Mas confio nela – assevera Helena.

Depois de anos convivendo com a arte, ela está pronta para ser, ela própria, arte.

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