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Autêntica Editora lança o clássico Heidi, a menina dos Alpes em dois volumes

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Publicado no Jornal do Brasil

Escrito em 1880 pela autora suíça Johanna Spyri, Heidi, a menina dos Alpes se tornou um clássico da literatura infantil universal. Agora, vem integrar a coleção Clássicos Autêntica, que tem como proposta resgatar títulos que marcaram e encantaram inúmeras gerações de leitores. Os dois volumes de Heidi chegam em tradução direta do alemão por Karina Jannini e com ilustrações originais de Jessie Willcox Smith.

Fonte de descobertas e reflexões importantes para a vida de qualquer pessoa, a narrativa acompanha o crescimento e as aprendizagens de uma menina órfã que, aos 5 anos, é entregue por sua tia ao avô, um velho zangado e rabugento que vive isolado no alto de uma montanha dos Alpes suíços. A vida livre, as flores, os animais e as maravilhosas paisagens seduzem a menina, que logo conquista os moradores do vilarejo e até mesmo o coração do avô – que passa a não saber mais viver sem a menina ao seu lado.

images.livrariasaraiva.com.brOs volumes editados pela Autêntica na coleção Clássicos – e Heidi não foge à proposta – apresentam um projeto gráfico delicado, com uma pegada vintage, e um zeloso trabalho de tradução, numa linguagem mais próxima do leitor brasileiro contemporâneo, sem perder de vista o tom clássico dos textos.

Para a editora Sonia Junqueira, Heidi mostra ao nosso leitor “diferenças naturais, espirituais e culturais importantes, que se devem não só à distância e às diferenças geográficas entre a Suíça, onde se passa a maior parte da história, e o Brasil, mas também aos136 anos que separam nossa vida hoje, no século XXI, da vida das personagens”.

Para a autora best-seller Paula Pimenta, a personagem marcou sua vida desde a primeira leitura. “A Heidi foi uma das minhas primeiras amigas do mundo dos livros, por isso foi uma delícia reler agora e matar a saudade. Pude relembrar todos os sentimentos que o livro despertou em mim”, comenta na 4ª. capa do livro.

Ao longo dos anos, o clássico já rendeu alguns sucessos e adaptações – no cinema, em 1937, com direção de Allan Dwan e, em 2005, com direção de Paul Marcus. Já no universo do desenho animado, a história ganhou uma série produzida pela Nippon Animation e a Eizo Zuiyô, em 1974, com grande sucesso na Europa.

A coleção Clássicos Autêntica já publicou dois volumes de As mais belas histórias, com textos de Andersen, Grimm e Perrault, Pollyanna e Pollyanna Moça, de Eleanor H. Porter. Para 2017, a editora prepara O mágico de Oz, Peter Pan, Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho, entre outros.

foto-2016-12-29-17-08-13-121328740846366-funflyshipDepois que Dete foi embora, o velho voltou a se sentar no banco e soltou grandes baforadas do cachimbo. Fitava o chão e não dizia nada. Enquanto isso, Heidi se divertia explorando os arredores. Descobriu o estábulo das cabras, construído ao lado da cabana, e espiou dentro dele. Vazio. A menina continuou suas investigações e foi para trás da cabana, perto dos antigos pinheiros. Ali, o vento soprava tão forte por entre os galhos que até assobiava no topo. Heidi ficou parada, ouvindo. Quando o vento diminuiu, a menina voltou a se colocar na frente do avô. Ao vê-lo na mesma posição em que o tinha deixado, postou-se diante dele, com as mãos nas costas e começou a observá- lo. O avô levantou o olhar.

– O que quer fazer agora? – perguntou, pois a menina continuava imóvel.

– Quero ver o que tem dentro da cabana – respondeu Heidi.

– Então venha! – o avô se levantou e seguiu na frente.

– Traga sua trouxa de roupas – ordenou.

– Não vou precisar mais delas – explicou Heidi.

O velho se virou e olhou fundo nos olhos negros da menina,

que ardiam de curiosidade para ver as coisas dentro da casa.

– Ela não deve ser muito boa da cabeça – disse consigo mesmo.

– Por que não precisa mais das roupas? – perguntou, por fim.

– Prefiro andar como as cabras, que têm pernas bem leves.

Trecho de Heidi, a menina dos Alpes vol. 1

Stephen Collins lança graphic novel, ‘A gigantesca barba do mal’

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Autor critica a sociedade atual ao abordar a xenofobia e a espetacularização pela mídia, com lirismo e pleno domínio dos recursos da linguagem da HQ

Pablo Pires Fernandes, no UAI

Há muitos casos em que a primeira obra de uma carreira artística, seja criação individual ou coletiva, é a que se torna definitiva. Há outros casos, todavia, em que a excelência do trabalho é alcançada com depuração e maturidade, com tempo. O quadrinista britânico Stephen Collins tem alguns anos de experiência com tiras e cartuns, publicados em veículos britânicos e americanos. Mas é estreante no formato de romance em quadrinhos, chamado de graphic novel.

Em 2013, publicou A Gigantesca Barba do Mal, que só agora chega ao Brasil pelo selo Nemo, da Editora Autêntica. O trabalho é uma obra-prima dos quadrinhos. Como é jovem, espera-se que o autor não se encaixe na primeira categoria e siga nos brindando com outras pérolas.

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A gigantesca barba do mal é uma fábula contemporânea. Descreve uma sociedade idealizada, mas verossímil e não distante da realidade atual. Na ilha chamada Aqui, tudo é extremamente ordenado, asseado e funciona sob uma lógica estritamente ”normal”. Seus habitantes não conhecem outro mundo e, além da imensidão do mar, fica Lá – em inglês, a palavra here (aqui) está contida na palavra there (lá).

Lugar tão temido quanto desconhecido, é cercado por lendas e rumores. Lá ”era a desordem, era o caos, era mau”, embora ninguém tivesse ido até lá. No entanto, mesmo sem ser mencionada, a noção da existência de Lá paira sobre os habitantes de Aqui como uma ameaça à ”normalidade” de suas vidas. A mera possibilidade de alguma espécie de bagunça é fonte de temor, inclusive para Dave.

SONHOS CAÓTICOS

Para lidar com esse medo e com os sonhos caóticos que o assombram de vez em quando, Dave desenha o que vê diante de sua janela. A prática, feita com regularidade e disciplina, afasta seus temores e o ajuda a manter o sentido de ordem e sua rotina. Dave é careca e, mais do que isso, seus únicos pelos no corpo são as sobrancelhas e um único fio renitente debaixo do nariz. Afora o fio de barba, que teima em despontar. Dave leva sua vida de burocrata em uma corporação dentro dos padrões dos moradores de Aqui.

Certo dia, os gráficos e previsões que Dave meticulosamente monitora diariamente no trabalho saem do padrão. Em seguida, seu único fio de cabelo começa a crescer inesperadamente e dá origem a uma barba. Rapidamente, a barba vai lhe tomando o rosto. Os pelos se expandem, causam repugnância a todos que o cercam. Dave foge. De maneira inexplicável, a barba cresce e toma conta de sua casa, de sua rua. Desse momento em diante, a estimada organização de Aqui começa a desmoronar. A desenfreada barba de Dave institui a entropia que desestabiliza todo o sistema.

Em 'A gigantesca barba do mal', personagens temem a desordem. (foto: Fotos Editora Nemo/Reprodução do livro 'A gigantesca barba do mal')

Em ‘A gigantesca barba do mal’, personagens temem a desordem. (foto: Fotos Editora Nemo/Reprodução do livro ‘A gigantesca barba do mal’)

Essa ruptura criada pelo autor, recorrendo ao fantástico, confere à narrativa uma dimensão metafórica. A sutileza da abordagem, porém, não deixa qualquer dúvida de que a visão do quadrinista a respeito da sociedade atual é cáustica e até sombria. Suas metáforas são mordazes, expressas ora com ironia, ora com pessimismo. A mídia e a espetacularização, a manipulação de discursos e da ”realidade” também são objetos de questionamento nesse trabalho.

Em A gigantesca barba do mal, o cerne da narrativa é a desestabilização daquela sociedade a partir de um elemento inesperado. Ali, as pessoas não sabem lidar com o diferente, com o novo, com o imprevisto. O personagem, confinado em sua casa, é hostilizado pela população, explorado pela mídia e julgado pelas autoridades. Cultuado e arraigado, o medo do outro – mesmo sem saber se esse outro representa perigo de fato – é o gatilho para a reação de repúdio e negação. Diante da iminente ameaça à segurança pública (ou à segurança nacional), o medo acaba por induzir à rejeição do desconhecido. Lá e também aqui.

Ao expor esse dilema de maneira fabular, sutil e elegantemente, Stephen Collins critica a sociedade que teme a diferença, xenófoba, que não é capaz de olhar para além de suas próprias certezas e que reproduz preconceitos. O brilho do autor, porém, não se resume à criação de uma boa metáfora. O quadrinista consegue aliar forma e conteúdo de maneira surpreendente, ressaltando seus conceitos por meio de um amplo repertório da linguagem gráfica (e específica) das histórias em quadrinhos.

Um dos mais particulares elementos da gramática dos quadrinhos é a relação entre texto e imagem. Collins faz uso desse recurso de maneira pouco comum, introduzindo placas e sinais gráficos como parte do texto, colocando pequenas frases entre os quadros, o que cria pausa na leitura e certo distanciamento entre a escrita e os desenhos.

MONTAGEM

O ritmo das imagens e as composições de página, outro elemento específico das HQs, são explorados com habilidade singular. Faz oposições entre desenhos semelhantes, mas que, em quadros diferentes, estabelece passagem de tempo. Outro recurso próprio dessa linguagem, rarissimamente utilizado, é a passagem entre as páginas. O último quadro da página ímpar, que antecede a virada de página, pressupõe um gesto do leitor e uma passagem de tempo. Em vários momentos, Collins consegue criar relações interessantes entre esse último quadro e o primeiro da página seguinte, remetendo ao princípio eisensteiniano de montagem.

Mesmo sem empregar cores, o autor maneja bem as nuances entre o preto e o branco. Seu emprego de vários tons de cinza é capaz de criar atmosferas e acrescentar dramaticidade às cenas e sequências. Desenhos de página inteira (ou até duplas) se alternam com outros com mais de 15 quadros, além de variada disposição da verticalidade e horizontalidade na composição, o que evidencia um pleno domínio da nona arte e seus recursos.

A gigantesca barba do mal explora um campo fértil possibilitado pelos quadrinhos, ao mesclar o cotidiano e o fantástico. Assim, é capaz de estabelecer identificação direta e simples com o leitor e, ao mesmo tempo, introduzir elementos na narrativa para algo fora da lógica ”natural”. É inevitável relacionar esta graphic novel ao realismo fantástico da literatura latino-americana, mas, sobretudo, ao realismo mágico do mineiro Murilo Rubião.

Collins foi capaz de aliar uma narrativa lírica a uma sagaz crítica da sociedade contemporânea. Com lirismo, ele mostra que a ideia de ordem (e um suposto progresso) nem sempre faz sentido. A entropia é inevitável, não existe sistema perfeito. Portanto, saímos dessa fábula cientes de que precisamos de um pouco de caos em nossas vidas.

Editora Nemo e os quadrinhos feitos por mulheres

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“Placas Tectônicas”, de Margaux Motin, fala sobre relacionamentos, maternidade real e amizade entre mulheres.

“Placas Tectônicas”, de Margaux Motin, fala sobre relacionamentos, maternidade real e amizade entre mulheres.

 

Amanda Alboino, no Lady’s Comics

Dos 22 títulos publicados pela Editora Nemo em 2016, 13 tiveram pelo menos uma mulher na equipe criativa.­

2016 foi um grande ano para as autoras de quadrinhos no Brasil. Dos 22 títulos publicados este ano pela Editora Nemo, do Grupo Autêntica, 13 contaram com a participação de mulheres desenhando, escrevendo ou roteirizando narrativas gráficas. Desses, 3 HQs foram escritas ou roteirizadas por brasileiras: Bear 3 (Bianca Pinheiro), O Mundo de Dentro (Bruna Vieira e Lu Caffagi) e Fazendo o Meu Filme (Paula Pimenta). Tudo isso ajudou a reforçar a imagem da Nemo como uma das grandes editoras brasileiras incentivadoras do quadrinho feito por mulheres.

Para entender como foram planejadas as publicações durante este ano e as perspectivas para 2017, conversamos com a editora assistente da Nemo (e também colaboradora Lady’s Comics), Carol Christo!

É perceptível que a Nemo está publicando mais obras de mulheres. Isso é um posicionamento de valor da empresa, ou vocês estão seguindo uma tendência de mercado?
Não foi algo pensado. Percebemos que a maioria dos títulos selecionados para publicação pela editora eram de mulheres. Então, quando nos demos conta disso, vestimos a camisa da proposta, porque significou que os quadrinhos de grande qualidade, pelos quais tanto nos interessamos, eram de mulheres. Acho que isso por si só diz muito do mercado. Não é simplesmente uma tendência, é uma realidade, nua e crua. As mulheres estão conquistando espaço pela qualidade.

Avaliando as obras que foram publicadas em 2016, como você faz o balanço da recepção do público sobre obras feitas por mulheres? Elas venderam mais, menos ou equivalente? A que você atribui esse fato?
É muito difícil fazer uma constatação geral, porque publicamos coisas muito diferentes umas das outras. Se pensarmos no todo, o resultado é muito positivo. Margaux Motin, Lu Cafaggi, Bianca Pinheiro foram muito bem.

É comum receber sugestões de quadrinhos para serem publicados pela editora?
É bastante comum. Elas geralmente chegam pelas redes sociais.

Além do terceiro volume de “Bear”, Bianca Pinheiro publicou a graphic novel “Mônica”, da MSP.

Além do terceiro volume de “Bear”, Bianca Pinheiro publicou a graphic novel “Mônica”, da MSP.

 

Como você avalia o mercado de quadrinhos para autoras e artistas aqui no Brasil?
O mercado está mudando muito. Ainda bem! Há poucos anos a dominação masculina era evidente, e pouco se via da produção de mulheres por aí. Agora, o jogo está virando. Entre os nomes de destaque no Brasil, está sempre presente o nome de uma mulher: Cris Peter, Lu Cafaggi, Cristina Eiko, e tantos outros nomes. Agora, o desafio é conquistar ainda mais espaço, continuar apostando e contribuindo para o desenvolvimento da produção de quadrinhos feitos por mulheres. Temos muito ainda por fazer.

Como você avalia o mercado para editoras de quadrinhos aqui no Brasil?
É um mercado em ascensão. Temos muito espaço para crescer, mas os quadrinhos ainda são recebidos com menos interesse por parte dos livreiros. Nossa missão é tentar mudar essa mentalidade, para que os quadrinhos conquistem espaço também nas livrarias e se tornem itens de desejo. Ainda existe muito aquela ideia de que quadrinho é coisa de criança, mas estamos abrindo caminho. A cada ano conquistamos mais leitores.

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Você percebe diferenças de recepção de obras masculinas e femininas?
Acredito que homens e mulheres podem se divertir e se emocionar com quadrinhos feitos tanto por homens ou mulheres quanto com personagens homens ou mulheres. Quadrinhos são para todo mundo. Não acredito em “temáticas femininas”, isso me assusta. Acredito que tudo faz parte da vida de todos, de um jeito ou de outro. Não faço ideia de porque homens não podem se divertir lendo Margaux Motin ou Lu Cafaggi, mas infelizmente isso ainda existe, essa é a diferença na recepção, essa coisa de não querer ler um quadrinho porque “ele é para mulher”. É outra barreira que precisamos transpor. E, aos poucos, estamos conseguindo.

Para 2017, o que podemos esperar em relação a quadrinhos feitos por mulheres?

Muitas obras de mulheres vão ser publicadas em 2017. Estamos com uma grade linda, que tenho certeza de que será muito bem recebida. Aurélie Neyret é uma das nossas novidades! Ela tem um traço espetacular. Teremos também a Lucy Knisley, além de outros nomes que não podem ser divulgados ainda.

Por um ensino autêntico de Filosofia

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Hoje, perde espaço tudo o que representa o pensamento articulado, gerador de unidade e coerência

Hoje, perde espaço tudo o que representa o pensamento articulado, gerador de unidade e coerência

 

Em livro voltado para o Ensino Médio, autor faz conexões entre conceitos filosóficos e o cotidiano dos jovens

Thais Paiva, na Carta Capital

A filosofia permite uma humanização mais eficaz, não porque ensina respostas determinadas, mas porque intensifica nossa autoconsciência e, por conseguinte, colabora para dispormos de nós mesmos com mais liberdade, maturidade e felicidade, explica Juvenal Savian Filho, professor da Universidade Federal de São Paulo.

Autor do recém-lançado Filosofia e filosofias: existência e sentidos, o professor mostra na obra como, em nosso cotidiano, sempre praticaremos Filosofia em certo grau se fizermos a pergunta pelo sentido do que somos, pensamos, sentimos e fazemos. “É só assim que a vida se torna autêntica, que começamos a saber jogar com todos os elementos que condicionam a nossa vida e a produzir espaços de liberdade”.

Em entrevista ao Carta Educação, o professor falou sobre o livro e a necessidade de enxergar a atividade filosófica para além da formação escolar.

Carta Educação: Qual a proposta do livro Filosofia e filosofias: existência e sentidos?

Juvenal Savian Filho: Proponho o livro como um recurso para que os leitores tenham experiências filosóficas autênticas e diversificadas. Aliás, não há apenas um ponto de partida no livro, mas vários, porque a leitura não precisa começar necessariamente pelo primeiro capítulo, mas por qualquer um deles. Os diferentes pontos de partida são sempre tomados da experiência cotidiana, da literatura, da ciência, da arte, etc. Com isso, o objetivo é permitir a vivência de experiências filosóficas, mais do que uma doutrinação ou uma formatação mental específica. O livro se dirige principalmente aos estudantes do Ensino Médio, mas também aos interessados em geral pela Filosofia e a todos os amantes da leitura e da reflexão.

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CE: Quão importante é fazer conexões entre conceitos filosóficos e o cotidiano?

JSF: Para percebermos que a reflexão dos filósofos e das filósofas nasce, em grande medida, de experiências semelhantes às nossas. É claro que certas frentes de reflexão filosófica podem ser “distantes” de nosso cotidiano mais imediato. Um exemplo bastante simples: pode parecer uma especulação separada da vida perguntar se os números são entidades existentes por si mesmas ou se são meros símbolos para retratar convenções; por outro lado, se o assunto são leis, direitos e justiça, uma discussão desse tipo não parecerá nada separada da vida, pois ninguém duvida da importância extrema que há em perguntar se as leis são entidades existentes por si mesmas ou se são convenções, se elas refletem algo da natureza ou se apenas são construções históricas, se são justas pelo simples fato de serem leis ou se a justiça é algo que transcende o mero aparato jurídico de um grupo social. Essas e outras questões mostram quão importante é fazer conexões entre nossas experiências e conceitos filosóficos, principalmente no nível do Ensino Médio, pois nossos jovens merecem um cuidado pedagógico especial que contribua para essa fase tão intensa e ao mesmo tempo tão delicada de seu trabalho de humanização.

CE: O que seria esse processo de humanização?

JSF: No atual contexto produtivista, as disciplinas escolares, sobretudo quando organizadas em função do vestibular, sequer levantam a temática da humanização. Elas operam no registro da hominização, ou seja, da transmissão do estritamente necessário para distinguir-se das outras espécies animais: a assimilação da cultura tradicional, mas não o desenvolvimento das pessoas como sujeitos culturais. Isso não significa necessariamente humanizar-se, tarefa que implica assumir tudo o que determina cada indivíduo e grupo, a fim de desenvolver ao máximo possível e da maneira mais elaborada possível as potencialidades que são propriamente humanas: o pensamento e a liberdade.

CE: O que seria compreender filosoficamente a nós mesmos, aos outros e ao mundo?

JSF: Implica parar de crer que os pensamentos que temos sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo são pensamentos “naturais” ou “normais”; implica também dar-se conta de que os conteúdos de tais pensamentos são, em grande medida, construídos. Compreender filosoficamente a nós mesmos, aos outros e ao mundo requer como primeira tarefa desconstruir os pensamentos que nos fazem falar de “eu/nós”, “outro” e “mundo”. Mas desconstruir não significa destruir! Essa é uma ilusão típica de iniciantes. Desconstruir significa desmontar para ver como funciona. É uma das tarefas mais básicas da Filosofia, sem ainda emitir juízos sobre o pensamento analisado, mas apenas mantendo-se no intuito de entender o funcionamento interno de tal pensamento.

Uma vez desconstruído um pensamento, podemos recusá-lo ou concordar com ele. Por outro lado, não se trata também de apenas fazer análises de pensamentos, procurando, por exemplo, explicações com base nos esquemas causa-efeito ou ação-reação. Se fosse só isso, a Sociologia, a História, a Psicologia, as Neurociências e mesmo as Ciências da Natureza dariam explicações melhores. Trata-se de entender os movimentos do próprio pensamento no seu trabalho de formular descrições e explicações, descobrindo e construindo sentidos; é um movimento em que o pensamento pensa o próprio pensamento. É, no limite, aquilo que prova cabalmente que o ser humano é um ser de significação e não se reduz a um aglomerado de células dirigidas por um cérebro cego e voluptuoso em busca de compensação.

CE: A atividade filosófica vai muito além da formação escolar. Como podemos praticar filosofia em nosso cotidiano?

JSF: A filosofia permite uma humanização mais eficaz, não porque ensine respostas determinadas, mas porque intensifica nossa autoconsciência e, por conseguinte, colabora para dispormos de nós mesmos com mais liberdade, mais maturidade e mais felicidade. Não se trata de refinar as pessoas, nem de conscientizá-las, como se elas não tivessem nenhuma consciência. Trata-se de contribuir para que elas levantem a pergunta essencial pelo que significa existir, conhecer, pensar, amar, agir. Existir é simplesmente seguir o turbilhão de coisas a que estamos acostumados no trabalho, na escola, na família, etc.? Existir é ser pessimista, otimista? Quais as razões do pessimismo e do otimismo? Chegar nesse tipo de pensamento é uma das contribuições mais urgentes da Filosofia. Em nosso cotidiano, sempre praticaremos Filosofia em certo grau se fizermos a pergunta pelo sentido do que somos, pensamos, sentimos e fazemos. É só assim que a vida se torna autêntica, que começamos a saber jogar com todos os elementos que condicionam a nossa vida e a produzir espaços de liberdade.

CE: Em sua opinião, o ato de filosofar está perdendo espaço no mundo atual?

JSF: Sim e não. Hoje, perde espaço tudo o que representa o pensamento articulado, gerador de unidade e buscador de coerência, a produção artística paciente e que se dá o direito de ser menos autorreferente e narcisista, enfim, toda experiência que respeite o tempo da criação, a abertura amorosa à alteridade e a aceitação de que a vida nunca será inteiramente controlável. Ao invés disso tudo, ganha espaço a dispersão, a rapidez, a mercadoria, o consumo, o virtual que dispensa o contato físico, o tempo que não apenas devora tudo, mas que a tudo joga na indiferença. Curiosamente, porém, em vários cantos do planeta se tem denunciado essa dinâmica e se tem valorizado a atividade filosófica como reflexão que encontra os sentidos fornecedores de unidade às diversas experiências.

Para falar uma língua mercadológica, podemos evocar aqui o fato de que algumas indústrias e companhias multinacionais dão hoje preferência a profissionais com formação humanista, especialmente filosófica, porque esses profissionais têm maior capacidade de visão de conjunto, de operação com situações e pensamentos complexos, de enfrentamento e solução de conflitos. Há escolas que reintroduziram Filosofia com urgência porque perceberam que seus estudantes estavam se tornando cada vez mais frios, calculistas, incapazes de demonstrar afeto e respeito humano. É óbvio que seria muito melhor se a reflexão filosófica fosse valorizada por si mesma e nas suas próprias potências, mas se o contexto atual dificulta tal valorização, então a valorização pelo negativo não deixa de ser válida.

CE: No Brasil, o cenário é o mesmo?

JSF: O Brasil vive uma ambiguidade que beira a estupidez. Hoje, ele é o país que mais investe dinheiro público em Filosofia, desde a contratação de professores do Ensino Médio até o financiamento de pesquisas pós-doutorais no exterior. Temos tudo para criar uma cultura filosófica geral e democratizar o acesso a ela. Aliás, já temos sentido efeitos extremamente positivos nas gerações pós-2008 quando a Filosofia tornou-se novamente obrigatória no Ensino Médio. No entanto, o atual governo corre o risco de pôr o Brasil em pleno retrocesso histórico e na contramão de países ricos. Como? Defendendo que, para modernizar-se, o Brasil precisa de mão de obra especializada. Essa é uma máscara para cortar os investimentos em Filosofia e Ciências Humanas e para priorizar a formação técnica. O atual governo chega a ser perverso ao dar a entender que formação técnica não combina com formação humanista.

Não deixa de haver certa verdade no pensamento segundo o qual, em um sistema capitalista, é preciso desenvolver a produção técnica com mão de obra especializada, pois é essa mesma produção que permitirá financiar cultura – inclusive a Filosofia. O problema é o que o governo está operando no registro de uma falácia, a de defender que a formação de mão de obra especializada se faz por exclusão ou diminuição da formação humanista. O governo atual está nos obrigando a voltar ao Brasil do início dos anos 1970, com a pauta desenvolvimentista e a valorização exagerada do ensino técnico, sem reflexão. Vamos formar máquinas humanas. Mas não nos esqueçamos: máquinas humanas também deprimem, adoecem, perdem o sentido e o gosto de viver, revoltam-se, dificultam a vida em comum.

CE: Quais os diferenciais do livro didático que você acabou de publicar pela Editora Autêntica?
JSF: Em primeiro lugar, um diferencial é o fato de o livro ser escrito por temas e de o tratamento dado aos temas permitir uma formação segura em referenciais básicos de história da filosofia, de lógica, de prática argumentativa e de crítica cultural, mas tudo sempre em harmonia com os temas dos capítulos. Aliás, procurei oferecer dados históricos e filosóficos atualizados, sem continuar a repetir no Ensino Médio coisas que nas pesquisas universitárias já ninguém mais diz, por exemplo, chamar Platão de “dualista” ou de “ingênuo”; tratar os filósofos antigos e medievais como irrelevantes para os modernos e os contemporâneos; deixar no esquecimento autores judeus e muçulmanos.

Também procurei sempre partir de dados cotidianos. Foi um ponto de honra, em muitas partes do livro, iniciar pelas imagens – pinturas, desenhos, fotos – e só então compor o texto, evitando que as imagens fossem manipuladas como acessórios dispensáveis. O mesmo ocorreu com dados culturais – filmes, peças, danças, livros, músicas, esculturas. Outro diferencial é que trato com profundo respeito a experiência religiosa. De fato, apresento os pontos de vista teísta, deísta e ateu, procurando entender filosoficamente as razões de alguém ter fé ou não. Foi-se o tempo de crer que todo filósofo deve gritar que a religião é o ópio do povo e não justificar seu ponto de vista. Aposto no diálogo e no interesse mútuo mesmo quando o tema é delicado ou tenso. Invisto sobremaneira nos exercícios dissertativos, pois estudantes treinados em dissertação são capazes de resolver exercícios de testes, mas o inverso não ocorre.

HQ ‘O Enterro das Minhas Ex’ narra amor lésbico com sutileza

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Érico Assis, na Folha de S.Paulo

A leitora e o leitor heterossexuais vivem em uma cultura de reforço em que sua orientação sexual torna padrão o enredo “garoto-encontra-garota”. Por mais que esta situação venha mudando, outras orientações sexuais ainda aparecem como insinuação ou novidade. Até mesmo, como uma puxada de tapete no meio da trama.

A representatividade do público LGBT na literatura, na TV, nos quadrinhos e em outras mídias ainda é problemática. Faz parte do problema o elogio fácil: o simples motivo de incluir na narrativa relações que fogem do padrão, às vezes, vira motivo para a crítica subir o número de estrelinhas.

“O Enterro das Minhas Ex”, da francesa Anne-Charlotte Gauthier, pode ser lido sem esse elogio imediato. A HQ conta as desilusões românticas da autora entre os sete e os 19 anos. Desilusões no amor, da infância à adolescência, fazem parte da vida de todo ser humano. No caso de Gauthier, envolve uma menina que gosta de meninas.

Desenhos de Anne-Charlotte Gauthier para "O Enterro das Minhas Ex"

Desenhos de Anne-Charlotte Gauthier para “O Enterro das Minhas Ex”

 

A HQ começa com a autora aos sete anos, precocemente (ou não) interessada por uma bunda feminina na TV. A descoberta é canalizada em investidas nos esportes –vôlei, judô, natação– e uma sucessão de decepções em cada modalidade.

É na segunda parte do livro, sobre os anos finais do ensino fundamental, que começam de fato as relações amorosas. Um tema que vai atravessar o álbum, a partir daí, é algo que pode ser particular às relações homoafetivas: a dificuldade e a violência das parceiras a aceitar a própra homossexualidade (o que não aconteceu com a própria Gauthier).

A criatividade narrativa cresce ao longo da narrativa. As duas primeiras partes são um pouco mais arrastadas e o traço da autora, às vezes, peca nas expressões faciais.

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Na terceira parte, que corresponde à metade do livro e trata do período no ensino médio, os desenhos de Gauthier melhoram levemente, com a diminuição progressiva dos texto para retratar seus sentimentos.

A cena de sua primeira relação sexual, por exemplo, atinge um equilíbrio bonito entre a sutileza dos enquadramentos e o pudor de esconder os corpos. Pausas abruptas, como páginas em branco ou com apenas uma imagem dão ritmo especial ao quadrinho.

O álbum é curto e, com a mudança narrativa do final, acaba rápido. A última cena, despojada e alongada na medida precisa, mostra como a autora cresceu em estilo –e em idade, junto com a sua personagem– ao longo da obra.

Mesmo que a oferta de narrativas LGBT ainda fuja do ideal, “O Enterro das Minhas Ex” não se destaca porque quer preencher cotas de representatividade. A HQ vale, primeiro, por retratar essas relações como aspecto comum aos nossos arredores. Acima de tudo, interessa como bom quadrinho.

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