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Correspondência inédita de Guimarães Rosa mostra a influência do pai em sua obra

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Obra recebeu influência de seu pai, Florduardo, matuto e contador de casos

Marcelo Bortoloti, na Época

No princípio do século passado, Florduardo Pinto Rosa era o dono de um armazém em Cordisburgo, interior de Minas Gerais. Vendia de arroz e feijão a aguardente e querosene. O comércio abastecia os tropeiros que passavam pela região. Atrás do balcão, Seu Fulô, como era conhecido, colecionava as histórias dos viajantes. Além de comerciante, foi vereador e juiz de paz, celebrou casamentos e mediou conflitos. Dono de uma coleção de espingardas, regularmente saía para caçadas. Conhecia muito bem a região e seus tipos humanos. Teve seis filhos e pretendia que o armazém ficasse sob os cuidados do primogênito, João Guimarães Rosa.

Logo cedo, no entanto, o garoto mostrou aptidão para o estudo. Aos 9 anos mudou-se para Belo Horizonte, onde foi estudar e morar com o avô, Luis Guimarães, médico e escritor. Abandonou de vez Cordisburgo e o sonho do pai em torná-lo comerciante. O jovem João passou a mirar a figura erudita do avô e se afastou da trajetória do pai, matuto e contador de histórias. Formou-se em medicina, aprendeu línguas e tornou-se diplomata. Morou no Rio de Janeiro, depois na Alemanha e na França. Tornou-se extremamente culto. Falava francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, esperanto e russo.

RAÍZES Guimarães Rosa,  escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

RAÍZES
Guimarães Rosa, escritor, diplomata e poliglota. Ele atribuiu ao pai a “bossa” de sua literatura (Foto: Folhapress)

Aos 38 anos, João publicou seu primeiro livro de contos, Sagarana. A obra era uma reaproximação com o universo do pai, o interior que o diplomata deixara para trás. A partir daí, consagrou-se produzindo uma literatura intimamente conectada ao ambiente que o velho Florduardo conhecia tão bem. E passou a se corresponder intensamente com o pai. Guimarães Rosa escrevia de longe e tinha pouca intimidade com o sertão que aparece o tempo todo em sua obra. Fez apenas duas viagens pela região e precisava de informantes como Seu Fulô. A correspondência dos dois, arquivada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), mostra a bonita relação de um escritor erudito com o pai comerciante que ajudou a construir uma das mais importantes obras da literatura brasileira.

As cartas do escritor para o pai foram publicadas no livro Relembramentos, de Vilma Guimarães Rosa, filha do autor. Os textos de Florduardo permanecem inéditos no arquivo do instituto. É um interessante passeio por histórias do interior mineiro. Apesar dos problemas de pontuação e erros de português, Florduardo tinha um estilo muito próprio, engraçado e atraente de escrever. Encaixava uma história dentro da outra, numa técnica que foi recuperada por seu filho. Em 1962, Guimarães Rosa escreveu para a mãe: “Gosto muito do jeito dele escrever, de dar notícia de todos. Fico pensando que a minha ‘bossa’ de escritor eu herdei dele, que maneja a pena com tanta facilidade, personalidade, vivacidade e graça”.

Florduardo enviava com receio os textos para o filho já consagrado. Em 1947, um ano após a publicação de Sagarana, escreveu: “Fico com vergonha de te mandar estas tolices que eu escrevo sempre à noite quando me falta o sono, e que talvez você nem compreenda a minha letra e o mal escrito”. Mas, diante da insistência do filho, mandava regularmente novas histórias. “Tenho que escrever, não conferir o que escrevi e te mandar logo, pois do contrário eu desanimo e rasgo tudo como já tenho feito muitas vezes”, disse, em 1954.

FAMÍLIA Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

FAMÍLIA
Guimarães Rosa entre a mãe, Chiquitinha, e o pai, Florduardo. O futuro escritor foi estudar em Belo Horizonte aos 9 anos (Foto: acervo pessoal/livro “Relembramentos”, editora Nova Fronteira)

Guimarães Rosa lhe pedia histórias de crimes, de personagens curiosos de Cordisburgo, detalhes do trabalho na roça, da fala do povo, do comércio na cidade, das caçadas, dos hábitos dos animais e dos tipos de planta. Embora sua obra fosse ficcional, os informes ajudavam a compor o cenário. Os pedidos se intensificaram no começo dos anos 1950, quando Guimarães Rosa escrevia simultaneamente seus dois livros mais importantes: Corpo de baile e o romance Grande sertão: veredas. “Preciso de explorar mais o senhor, que a mina é ótima”, afirmou para o pai.

Para seus livros, Guimarães Rosa trabalhava como um escritor-pesquisador. Reuniu milhares de páginas com anotações das duas viagens que fez pelo sertão, trechos de livros de filósofos e escritores clássicos, recortes de jornal, guias de botânica e agricultura. Num caderno específico, transcreveu (mais…)

Guimarães Rosa acompanhou boiadeiros pelos sertões das Gerais em expedição de 1952

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Entre vaqueiros, o doutor Guimarães Rosa aguarda a comida ficar pronta: feijão, arroz, farinha e carne seca, incrementada por um pouco de pimenta

Entre vaqueiros, o doutor Guimarães Rosa aguarda a comida ficar pronta: feijão, arroz, farinha e carne seca, incrementada por um pouco de pimenta

Viagem do escritor foi documentada pela revista O Cruzeiro e serviu de inspiração para compor sua obra-prima

Mariana Peixoto, no Divirta-se

Ao longo de 10 dias de maio de 1952, o escritor João Guimarães Rosa (1908-1967) percorreu, com um grupo de boiadeiros, 40 léguas (cerca de 240 quilômetros) do interior de Minas Gerais – o percurso terminou nas proximidades de Araçaí, Região Central de Minas. Na manhã do último dia da viagem, surpreendeu-se com a chegada de outros dois homens: o fotógrafo Eugenio Silva e o repórter Álvares da Silva, da revista O Cruzeiro.

A conversa, que durou algumas horas, resultou na matéria Um escritor entre seus personagens, publicada em 21 de junho daquele ano. As fotos de Eugenio Silva, que recheiam as seis páginas da matéria, correram mundo e são reproduzidas até hoje, 63 anos após a jornada. O acervo d’O Cruzeiro pertence ao Estado de Minas. Entre as imagens que ilustram esta página, algumas são raras, não chegaram a ser utilizadas pela própria revista.
Aqueles poucos dias marcaram definitivamente não só a obra de Guimarães Rosa, mas a literatura brasileira. Quatro anos mais tarde, ele publicaria o clássico dos clássicos, o romance Grande sertão: Veredas (a primeira edição é de maio de 1956). “Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte”, escreveu Rosa na página inicial de Grande sertão.

“Grande sertão é de forma muito complexa e difícil, um modelo de romance”, afirma Walnice Nogueira Galvão, professora emérita de teoria literária e literatura comparada da Universidade de São Paulo (USP), estudiosa da obra de Guimarães Rosa (a quem já dedicou seis livros) e Euclides da Cunha.
Comparando “seus dois autores”, ela comenta que Rosa sai ganhando na comparação com Cunha. “A obra dele é inesgotável. Os sertões é menos lido, por causa do tamanho e da dificuldade. Euclides da Cunha é mais rebuscado. Já Guimarães Rosa é mais próximo, tem histórias notáveis e é um grande fabulador.”

Walnice Nogueira Galvão é uma exceção quanto à primeira recepção frente à obra maior de Rosa. “A primeira página que li (de Grande sertão) quase me fez cair de costas de alegria”, afirma ela, que utiliza uma metáfora curiosa para falar sobre a obra e o escritor. “Guimarães Rosa é parecido com uísque. É um gosto adquirido. As pessoas têm dificuldade com o emaranhado de palavras. Mas assim como o uísque, têm que insistir até gostar.”
O contato do escritor com os boiadeiros na expedição de 1952 – inspiração não só para Grande sertão, mas para as novelas de Corpo de baile, de janeiro de 1956, onde Manuelzão tornou-se personagem –, na opinião da estudiosa, seriam uma necessidade do autor “para dar origem à fabulação extraordinária. Ele tinha uma imaginação prodigiosa, não é comum uma pessoa ter tantos enredos na cabeça, mas tenho a impressão de que precisava também do contato com o real.”

Na expedição retratada por Eugenio Silva, foram vários os caderninhos (sempre com um barbante com um lápis amarrado) que o escritor preencheu com as falas dos boiadeiros, os nomes das plantas, dos pássaros, as cores de pelagem do gado. “Havia a escuta documental, registrada nos cadernos, e a interpretativa, que ajudou a compor os enredos”, diz ela.Vaqueiro-mestre Santana (Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)

Walnice Nogueira Galvão acredita que um ponto fraco sobre Guimarães Rosa é a própria biografia do escritor. “Não há quase nada. Sempre houve obstáculos para lidar com a documentação da vida dele”, acrescenta. O que se sabe é que, para o grupo que acompanhou Rosa naqueles 10 dias, o convívio foi fácil. Eram sete horas diárias de cavalgada e um cardápio tropeiro que praticamente não mudou desde então: feijão, farinha, arroz e carne seca. Quando o vaqueiro/escritor ganhou uma garrafa de pimenta, considerou “um dom de Deus para temperar o eterno menu”.

E a despeito da presença do escritor, que morava no Rio de Janeiro, em meio aos boiadeiros das gerais, quem brilhou mesmo foi o “guieiro” Zito, que também fazia as vezes de cozinheiro e poeta. Ao final da expedição, escreveu os versos do que chamou Descrição dos vaqueiro das Jeraes: “O Doutor saiu do Rio/Com prazer e alegria/Para acopar uma boiada/Para ver o que acotecia/Na boiada do Manuelzão/Vinha Dr. João Rosa/Derobando boi zebu/Tava todo cheio de prosa”.

Literatura brasileira precisa reconquistar franceses, dizem jornais

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Cartaz do Salão do Livro promovendo encontro com escritores brasileiros Foto: DR

Cartaz do Salão do Livro promovendo encontro com escritores brasileiros
Foto: DR

Publicado na RFI

Por ocasião da abertura do Salão do Livro de Paris, que tem o Brasil como convidado de honra, os principais jornais franceses trazem nesta quinta-feira (19) extensas reportagens e críticas sobre a literatura brasileira. Desconhecida do grande público francês atualmente, a produção literária do Brasil deve ganhar maior visibilidade com a presença de 48 autores em um dos principais eventos mundiais do setor.

Com o título “Uma literatura exuberante”, o suplemento de literatura do jornal Le Figaro dedica duas páginas para explicar a desconexão que se estabeleceu entre os leitores franceses e a produção literária do Brasil. Por outro lado, a edição traz uma lista com nomes de vários escritores que já tiveram suas obras traduzidas para a língua de Voltaire, como Sérgio Rodrigues, Adriana Lisboa, Luiz Ruffato e Paulo Lins.

Em uma retrospectiva histórica, Le Figaro lembra que jovens talentos do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte se inspiraram em autores franceses como Victor Hugo, Guy de Maupassant e Charles Baudelaire para iniciar suas carreiras. Muitos deles, lembra o diário, se encontraram a partir do final do século 19 na Academia Brasileira de Letras, inspirada na mesma existente na França.

O interesse pela produção literária brasileira se estendeu ainda por vários anos depois que Blaise Cendrars divulgou a “efervescência criativa” que observou no movimento modernista dos anos 20. Segundo o jornal, a vinda a Paris de autores fugindo da ditadura militar (1964-1985) ajudou a manter os laços entre os dois países, mas, depois, a relação conheceu uma “distensão”.

Palavras de editores

Na falta de uma explicação precisa, o presidente e fundador da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, sugere, em entrevista ao jornal, que a literatura do Brasil perdeu espaço na França devido a falta de editores que leem português e a pouca disposição de agentes de editoras brasileiras em promover os autores do país. Schwarcz acredita que alguns nomes da nova geração poderão contribuir para ocupar esse vazio, preenchido, por enquanto, por famosos como Chico Buarque e Bernardo de Carvalho.

Em entrevista ao Le Figaro, Michel Chandeigne, fundador da livraria portuguesa e brasileira, considera que a literatura verde-amarela só não é mais divulgada na França pela falta de um grande autor que seja ao mesmo tempo popular e de uma grande qualidade literária.

Em relação aos grandes escritores brasileiros do século 20, como Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, o editor Chandeigne explica que o autor de Grande Sertão Veredas morreu jovem demais (aos 59 anos) e sua genialidade só é percebida quando se lê sua maior obra no original.

No entanto, ele não tem explicação para o desconhecimento de Drummond, “uma injustiça total”.Chandeigne lamenta que sua poesia “magnífica e popular” tenha sido tão mal traduzida na França. Drummond mereceria um Nobel de Literatura, tanto quanto Clarice Lispector, opina o editor francês.

Muitos autores contemporâneos brasileiros encontram seu público na França, como Bernardo de Carvalho e Milton Hatoum, exemplifica. O problema, insiste Chandeigne, é que não surgiu mais nenhuma figura emblemática da literatura como Jorge Amado, autor conhecidíssimo e “que todo mundo tinha vontade de ler”.

A versão francesa de Bahia de todos os Santos, de 1938, atingiu mais de 100 mil exemplares, feito que permanece histórico. “Ninguém o substituiu. Mas também é a época em que vivemos que reflete isso. O interesse do público é mais esparso e diversificado que antes”, concluiu.

Literatura brasileira atual e realidade urbana

Em um longo artigo de capa no suplemento conhecido como “O Mundo dos Livros”, o correspondente no Brasil do vespertino Le Monde, Nicolas Bourcier, viajou por São Paulo e Rio de Janeiro para revelar a característica atual da produção cultural no país.

A peça de teatro Puzzle, de Felipe Hirsch, que explora um painel de palavras presentes no cotidiano dos brasileiros, é o ponto de partida para o jornal ilustrar a tendência verificada de artistas e autores de se inspirarem cada vez mais na realidade, muitas vezes cruel, para expressar sua arte. “O país abandonou definitivamente o realismo mágico para enfrentar cruamente e concretamente uma realidade cada vez mais complicada”, explicou Hirsch ao Le Monde.

Para o jornal francês, a escolha dos escritores para participar do Salão do Livro de Paris revela esse novo paradigma da produção brasileira. A constatação é confirmada pela comissária do Salão, a professora e filósofa Guiomar de Grammont que disse ao Le Monde: “O autor quer falar agora do que ele vive, do que ele vê”.

Outro entrevistado pelo jornal, Godofredo de Oliveira Neto, professor de literatura e escritor também presente no Salão do Livro, explica que os intelectuais não representam mais um papel intermediário na sociedade, como já foi o caso de Jorge Amado ou Guimarães Rosa.

“É como se os autores brasileiros assumissem seu papel político e cultural. Eles escrevem sobre seu bairro e até promovem a leitura de suas obras nas periferias para mostrar que a cidade pertence a eles também e que eles não estão excluídos”, explicou o escritor. “O Brasil se lê, então, cru. E se alimenta do racionalismo urbano”, constata o correspondente do Le Monde.

O suplemento do diário traz resenhas críticas de quatro autores que terão suas obras presentes no Salão, entre eles, o livro de estreia de Fernanda Torres, Fim, traduzido pela editora Gallimard. O crítico Frédéric Potet afirma que a atriz utilizou seu primeiro romance para criticar ferozmente o culto da aparência que se instalou no Brasil.

Quadrinhos fazem adaptação de grandes romances e autores

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Adaptação.No risco do quadrinista gaúcho Rodrigo Rosa, “Grande Sertão: Veredas” ganhou ares de aventura clássica

Adaptação.No risco do quadrinista gaúcho Rodrigo Rosa, “Grande Sertão: Veredas” ganhou ares de aventura clássica

Editoras apostam em adaptações de romances e grandes autores ganham nova roupagem em quadrinhos que prometem ser tão densos quanto as obras originais

Lygia Calil, em O tempo

Quadrinhos e literatura sempre conversaram entre si. Há uma década, o mercado brasileiro vive um bom momento para adaptações de romances para gibi – sobretudo de títulos dedicados ao público infantojuvenil, ainda em formação, para quem as versões apresentam clássicos ou obras recomendadas pelos principais vestibulares do país.

Agora, as editoras voltam o foco para um público mais experiente e conhecedor de alta literatura, com quadrinizações que procuram ser obras completas, tão densas quanto os romances originais. Nesta seara, de Milton Hatoum a Guimarães Rosa, de Adolfo Bioy Casares a Albert Camus, variados autores têm seus livros transformados em romances gráficos.

Uma das mais esperadas adaptações deste ano é a de “Dois Irmãos”, do amazonense Milton Hatoum, feita pelos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá para a Companhia das Letras, que será lançada neste mês.

No fim do ano passado, “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, ganhou uma versão pelos quadrinistas Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa, em edição caprichada (com 7.000 volumes numerados) lançada pela Biblioteca Azul, selo da Globo.

Já “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tostói, ganhou sua versão pelas mãos do cartunista Caeto para a editora Peirópolis. E outras ainda deverão chegar ao mercado, como “O Seminarista”, que comemora os 90 anos de Rubem Fonseca, com roteiro adaptado por ele mesmo e ilustrado por Rodrigo Rosa, para a editora Agir.

Na avaliação do veterano Guazzelli, há três décadas envolvido no setor, “o mercado brasileiro de quadrinhos nunca viveu um momento tão positivo e muito disso aconteceu em função das adaptações”. Através delas, as editoras “descobriram” o nicho e o talento dos quadrinistas nacionais.

De acordo com Renata Farhat Borges, diretora da editora Peirópolis, essa virada aconteceu a partir de 2006, quando as adaptações de clássicos em quadrinhos passaram a ser incluídas nos editais de compra de livros para escolas.

Assim, obras importantes para o currículo escolar, como “O Alienista”, de Machado de Assis, começaram a ser quadrinizadas. No afã de vender para o governo, três versões somente desse romance machadiano já foram publicadas até agora, pelas editoras Companhia Editora Nacional, Ática e Escala, cada uma delas adaptadas por quadrinistas diferentes. Como elas exemplificam, uma enxurrada de quadrinizações de livros em domínio público inundou o mercado.

Para Guazzelli, a euforia do mercado para o nicho tem seu lado positivo e negativo. “Foi lindo ver quadrinistas podendo se dedicar a desenhar, ganhando por isso. Mas tudo que exige um ritmo industrial acaba perdendo na qualidade. O principal dessa história é que passaram a ver valor nos profissionais, que já estavam prontos para quando a oportunidade surgisse”, diz.

Novo momento. O que acontece, agora, é uma nova percepção das editoras: a possibilidade de vender as adaptações para quem já consome os livros, para além da sala de aula.

É o caso de “Dois Irmãos”, história que trata da relação conflituosa dos gêmeos Yaqub e Omar. “É uma obra bem densa, que continua com essa intensidade no quadrinho. Não diria que é somente para adultos, mas para o público infantil certamente não é”, explica Gabriel Bá.

A adaptação demorou quase cinco anos, em que eles se dedicaram, também, a outras tarefas. Para trazer a história aos quadrinhos, foram inúmeras horas de leitura do livro e de dedicação solitária aos desenhos. “O livro traz várias camadas de informação, e procuramos contá-las de outra forma no quadrinho. Existem coisas sugeridas na história que ficam mais claras no desenho, por exemplo”, diz.

Como pesquisa iconográfica, os irmãos foram visitar Manaus, a cidade onde a trama se desenvolve. Em 2011, eles voltaram da capital do Amazonas com centenas de fotos e ainda livros antigos com imagens para reconstruírem lugares que hoje já não existem mais. O mais difícil, porém, segundo contam, foi criar um rosto para cada figura. “O livro não descreve fisicamente os personagens, então o processo foi um pouco subjetivo. Foi uma das coisas que o Milton (Hatoum) ajudou muito, porque fomos lá mostrar se era algo que ele imaginava. Ele nos recebeu muito bem”, afirma Fábio Moon.

Para a ilustração de “Grande Sertão: Veredas”, Rodrigo Rosa encontrou um problema diferente: para a caracterização de Diadorim havia muita descrição no livro, mas a família de Guimarães Rosa, envolvida em todo o processo, pediu que o jagunço não ficasse parecido com a atriz Bruna Lombardi, que interpretou o personagem na série homônima na Globo. “A dificuldade é que, pelo livro, Diadorim era exatamente como a Bruna Lombardi – traços finos, olhos verdes e tudo mais. Tive de refazer algumas vezes até a família se convencer. Até hoje acho um pouco parecida com a Bruna”, diz, aos risos.

Quem fez a adaptação do primoroso texto de Guimarães Rosa foi Guazzelli, que até pensou em dispensar o trabalho. Aceitou pensando no futuro. “Eu ia ficar maluco quando visse o quadrinho feito por outra pessoa”, confessa. E embora não tenha sido contratado para fazer os desenhos, só conseguiu terminar o roteiro quando riscou a história – e diz estar pronto para levar pedrada pela ousadia de mexer no texto. “Adaptar nunca é fácil. Tive de me concentrar em uma das histórias do livro e tirar daquele texto maravilhoso as pepitas de poesia. Para mim, isso era o mais importante: captar o espírito poético da obra”.

Gabriel Bá chama a atenção para um aspecto quase sempre ignorado do trabalho do quadrinista: eles são escritores. O processo completo de uma boa adaptação requer um apuro de escrita e desenho que não é para qualquer um. “É mais do que uma transposição. Sinto como se fosse uma tradução, porque o livro e o quadrinho são linguagens completamente diferentes. A HQ é muito mais próxima do cinema do que da literatura”, avalia.

João Vereza resenha seu conto predileto

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João Vereza resenha seu conto predileto: ‘A Terceira Margem do Rio’, de Guimarães Rosa

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Vereza-PB

Conheci Guimarães Rosa numa aula da PUC, Literatura Brasileira: Prosa, uma eletiva de Letras do professor Júlio Diniz. Lemos Machado, Clarice, Graciliano, Zé Rubem (o mais fantástico do curso foi ter aprendido a chamar os grandes na intimidade) e Guimarães Rosa, com A terceira margem do rio. Pense no filme Matrix, quando colocam o Neo na cadeira, enfiam um espeto na sua cabeça e o conhecimento é injetado instantaneamente; ler Guimarães Rosa foi, e é, aquilo.

A terceira margem do rio foi publicado na coletânea Primeiras Estórias, em 1962, coleção onde o autor continua suas representações do sertão. O conto tem uma trama primária: um belo dia, um pai de família larga tudo e passa a viver numa canoa dentro de um rio, sem nunca mais atracar ou dar qualquer explicação. Narrado em primeiro pessoa pelo filho do barqueiro, o relato acompanha as consequências da atitude do pai: a decadência da família e a angústia do filho.

Guimarães Rosa tinha algo de extraterreno. Era um adorador de idiomas, conhecia e estudava dezenas, e sua literatura é esse liquidificador de gramáticas, sintaxes, sotaques e neologismos. É covardia; como um pianista ter seis mãos ou um jogador de futebol com quatro pés. Uma curiosidade: mesmo sendo um mestre em criar nomes, nenhum personagem é nomeado no conto, o que o deixa ainda mais etéreo.

Chegamos então nas questões simbólicas do conto. Num mundo, ou melhor, num universo onde a dualidade é lei (positivo/negativo, luz/escuridão, vida/morte), que terceira margem é essa? Qual é esse novo vértice? Como alguém pode encontrar esse lugar impossível e ainda passar a vida lá? E esse rio, meus deus, o que significa esse rio?

Não sei e lembro de Bob Dylan. Joan Baez desperta com o teleque-teque da máquina de escrever e encontra o namorado escrevendo alucinado em plena madrugada. Ele percebe a mulher e fala, sem desviar do papel: “Babe, isso aqui é muito louco. Todo mundo vai perguntar o quero dizer, mas eu só escrevo; não faço a mínima ideia.” E continua com o teleque-teque.

Passamos por Matrix, acrescentamos Bob Dylan e, para finalizar, sugiro Chacrinha, por favor, não esquecendo que o tema ainda é Guimarães Rosa. Pois Chacrinha veio para confundir, e não para explicar. Assim como o escritor mineiro e todos os gênios como ele. Porque boa literatura traz respostas, mas a grande literatura levanta perguntas.

Trecho do conto A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa:

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.”

Trecho do conto O mistério de Barra Pequena, de João Vereza:

“Naquela manhã, Lauríssima estava tão linda que chegar perto seria como quebrar encanto. Preferi voltar pra minha vida; tudo o que tinha que acontecer ia acabar acontecendo. Sem pressa, como em pescaria. Escolhendo o anzol, medindo o fundo, preparando a isca. Não tem nada pior do que perder um peixe bom por falta de paciência. Andando para o mangue, com o pé no chão e o boné pelo caminho, ainda deu pra ouvir o sino rouco da igreja. Era a certeza de que Padre Benigno estava sempre por perto. Tinha chovido muito na noite de ontem, muita água caiu lá de cima. E muita água é muita lama, muito caranguejo. Hoje o balde ia voltar cheio de dar gosto.”
 

João Vereza, 34 anos, é carioca e mora em São Paulo desde 2006. Redator publicitário, foi vencedor do Prêmio Sesc 2012/2013, com o livro de contos Noveleletas (Record), este também finalista do Prêmio Jabuti 2014.

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