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Arno Wehling é eleito para a Academia Brasileira de Letras

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Arno Wehling, o novo imortal - Leo Martins / Agência O Globo

Arno Wehling, o novo imortal – Leo Martins / Agência O Globo

 

Historiador vai ocupar cadeira que pertenceu a Ferreira Gullar, morto em dezembro do ano passado

Publicado em O Globo

RIO – Foi uma semana agitadíssima para os padrões da instituição: no dia seguinte em que o ensaísta e escritor João Almino foi escolhido como imortal, uma nova eleição definiu o historiador Arno Wehling como integrante da Academia Brasileira de Letras. Mas se a escolha de Almino, único candidato à cadeira 22, que pertencia a Ivo Pitanguy, pareceu mais tranquila, a contenda da tarde de ontem na sede da instituição, no Centro do Rio, foi bastante apertada. Por 18 votos a 15, além de um voto em branco, o historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), venceu o poeta Antonio Cicero por 18 votos a 15 para a cadeira 37, que era de Ferreira Gullar. Houve um voto em branco. Votaram 23 acadêmicos presencialmente e 11 por cartas.

— Encaro esta notícia de duas maneiras. Além de ser uma valorização da instituição, e como historiador entendo que é fundamental para a constituição de um país a valorização das instituições, a entrada na ABL me permite o convívio com pessoas que admiro e respeito muitíssimo — declarou Wehling, que esperou o resultado da eleição em uma recepção na cobertura de um hotel em Ipanema, cercado de familiares e amigos, além dos imortais que surgiram depois da votação para prestigiá-lo. — As instituições culturais são as mais significativas de um país. Será uma oportunidade de colaborar com a vida cultural do país.

A eleição de Wehling dividiu duas espécies de alas não formais que existem na ABL. Uma é mais ligada aos poetas e romancistas, a chamada “ala literária”, reunida em favor do poeta carioca Antonio Cicero, que tentava a vaga pela segunda vez (a primeira, em que disputou com o sociólogo Francisco Weffort, terminou curiosamente empatada, o que é raro acontecer na Academia). A outra é a ala dos historiadores, da qual faz parte mais de uma dezena de imortais, todos integrantes do IHGB. Um deles é o historiador e africanista Alberto da Costa e Silva, um dos principais partidários da candidatura de Arno Wehling:

— A Academia ganha muito com a presença de um intelectual como ele — afirmou Costa e Silva assim que o resultado foi anunciado, tomando o telefone para parabenizar o amigo: “Fique tranquilo que estava ganho” — disse a Wehling.

“A ESPERA DE CiCERO NÃO SERÁ EM VÃO”

A acadêmica Nélida Piñon, amiga de Cicero, manifestou-se:

— Ele será muito bem-vindo. A presença dele reforça e enriquece a presença do IHGB na academia. Arno, sem duvida, é um notável. Os dois candidatos eram excelentes, e a espera de Cicero não será em vão. É o destino natural de um homem daquela envergadura ser parte da ABL — disse Nélida, que também compareceu à recepção de Arno.

Ex-presidente da ABL, Marco Antonio Villaça também frisou a aliança que formou-se entre o IHGB e a ABL:

— Arno é um escritor com obra importante, e que tem uma constância na relação com outros escritores, o que é muito importante para a Academia. O IHGB e a ABL mantêm o sentido antropológico de cultura, como sempre quis Machado de Assis.

Natural do Rio, Arno Wehling tem 70 anos e é formado em História pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e em Direito pela Universidade Santa Úrsula. É ainda Doutor em História pela Universidade de São Paulo, e tem pós-doutorado na Universidade do Porto, em Portugal. Especializado em teoria e metodologia da História, história do Brasil Colônia e história do Direito brasileiro, ele é professor da UFRJ e da UniRio. Integra o IHGB desde 1976, e tem mais de dez livros publicados na sua área de pesquisa.

— Será um prazer conviver e descobrir de que forma Arno contribuirá com a instituição — declarou a acadêmica Ana Maria Machado.

Os ocupantes anteriores da cadeira 37, que antecederam Arno Wehling, foram Silva Ramos, fundador, que escolheu como patrono da posição o escritor Tomás Antônio Gonzaga, Alcântara Machado, Getulio Vargas, Assis Chateaubriand, João Cabral de Mello Neto e Ivan Junqueira.

‘A resposta está nos nativos digitais’, diz o historiador Roger Chartier

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Roger Chartier é professor de Collège de France, diretor na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e professor visitante na University of Pennsylvania

Rodney Eloy, no Pesquisa Mundi

Cinthya Oliveira | Hoje em Dia

Um dos mais prestigiados historiadores do mundo, o francês Roger Chartier nos mostrou que é possível conhecermos mais sobre a humanidade a partir das pesquisas sobre as relações entre os homens e os textos. O pesquisador é o convidado do projeto “Literaturas: questões do nosso tempo”, que será realizado nesta terça, no Sesc Palladium, dentro da programação comemorativa de cinco anos do centro cultural.

Ao lado do historiador Robert Darnton (diretor da biblioteca da Universidade de Harvard), Chartier vai falar sobre os marcos e as transformações da prática literária desde a invenção do codex – manuscrito que substituiu o pergaminho.

Por ter a história da leitura como foco principal de suas pesquisas, Chartier passou a ser muito estudado não somente por estudantes de História, mas também nos cursos de Educação e Letras. Com o Hoje em Dia, ele conversou sobre contemporaneidade e o impacto das novas tecnologias sobre a história da leitura. Confira.

Houve muitos fatos históricos que contribuíram para a popularização da prática de leitura ao longo do mundo moderno e contemporâneo, como a invenção da imprensa e a universalização do ensino. Com a tecnologia e a internet, vivenciamos novas mudanças. Quais contribuições e questões a revolução digital tem trazido à prática de leitura na contemporaneidade?

Para responder à sua pergunta, me parece que devemos pensar que a descontinuidade existe inclusive nas aparentes continuidades. A leitura diante da tela é uma leitura descontínua, segmentada, ligada mais ao fragmento que à totalidade. Não seria talvez, por esse motivo, a herdeira direta das práticas permitidas e suscitadas pelo codex? Esse último convida a folhear os textos, apoiando-se em seus índices ou mesmo a “saltos e cabriolas” – à “sauts et gambades” como dizia (o jurista Michel de) Montaigne. É o codex, e não o computador, que convidou a comparar diferentes passagens, como queria a leitura tipológica da Bíblia que encontrava no Antigo Testamento prefigurações do Novo, ou a extrair e copiar citações e frases, sentenças e verdades universais, assim como exigia a técnica humanista dos lugares comuns. Contudo, a similitude morfológica não deve levar ao engano. A descontinuidade e a fragmentação da leitura não têm o mesmo sentido quando estão acompanhadas da percepção da totalidade textual contida no objeto escrito, tal como propõe o codex, e quando a superfície luminosa da tela, onde aparecem os fragmentos textuais, sem nos deixar ver imediatamente os limites e a coerência do corpus (livro, número de revista ou de periódico) de onde foram extraídos. A descontextualização dos fragmentos e a continuidade textual, que não diferencia mais os diversos discursos a partir de sua materialidade própria, parecem contraditórias com os procedimentos tradicionais do aprender lendo, que supõe tanto a compreensão imediata como a percepção das obras como obras, em sua identidade, totalidade e coerência.

Conforme o tempo passa, mais leitores o mundo ganha. O Brasil, por exemplo, viu seu mercado editorial crescer muito nos últimos anos. Mas além da quantidade, a qualidade da leitura vem se transformando ao longo do tempo?

A noção de “qualidade” da leitura pode ser muito subjetiva. A questão mais essencial para mim é: como preservar maneiras de ler que construam a significação a partir da coexistência de texto em um mesmo objeto (um livro, uma revista, um periódico), enquanto o novo modo de conservação e transmissão dos escritos impõe à leitura uma lógica analítica e enciclopédica, onde cada texto não tem outro contexto além do proveniente de seu pertencimento a uma mesma temática? Estas perguntas têm relevância particular para as gerações mais jovens que, ao menos nos meios sociais com recursos e nos países mais desenvolvidos, têm se iniciado na cultura escrita através da tela do computador. Nesse caso, uma prática da leitura muito imediata e naturalmente habituada à fragmentação dos textos de qualquer tipo se opõe diretamente às categorias forjadas no século 18 para definir as obras escritas a partir da individualização de sua escrita, a originalidade da criação e a propriedade intelectual de seu autor. A aposta não é sem importância, pois pode levar tanto à introdução na textualidade eletrônica de alguns dispositivos capazes de perpetuar os critérios clássicos de identificação de obras como tal, em sua coerência e identidade, quanto ao abandono desses critérios para estabelecer uma nova maneira de compor e perceber a escrita como uma continuidade textual sem autor ou copyright, no qual o leitor corta e reconstrói fragmentos móveis e maleáveis.

A transformação digital também permitiu que todos se tornassem não apenas leitores, mas também produtores de textos, mesmo que isso aconteça apenas em redes sociais. Qual é o impacto disso em uma sociedade?

Me parece que devemos distinguir três modalidades da revolução digital. Primeiramente, a transformação dos textos que existem ou poderiam existir na forma impressa e o processo que construiu coleção digitais ou que geralmente fundamenta a edição digital. Em segundo, a criação de obras digitais irredutíveis na forma impressa, tanto obras de ficção multimídia quanto “livros” de saber que aproveitam as possibilidades hipertextuais e a coexistência entre textos, imagens e materiais sonoros. Em terceiro, a digitalização das experiências e conceitos mais fundamentais da existência humana. Com as redes sociais, são as noções de identidade, intimidade, amizade ou espaço público que se encontram profundamente redefinidas. Nunca devemos esquecer que as discussões sobre o livro, a edição ou a leitura (no sentido clássico) representam uma parte muito marginal da conversão digital de nosso tempo.

A história da leitura é estudada por meio dos vestígios deixados por leitores nos livros, como marcações nas margens, sublinhados e assinaturas. É possível imaginar como será o estudo dos historiadores no futuro, quando o foco do estudo estiver ligado ao século 21?

Também deixa vestígios a leitura digital (por exemplo as anotações compartilhadas, as discussões dos blogs ou dos “youtubers”, ou o que se escreve sobre as leituras nas redes sociais), mas é verdade que estes vestígios também são ameaçados pelo apagamento. E o mesmo com a escrita digital que deixa vestígios no computador, mas vestígios que não se podem comparar com os documentos utilizados pela crítica genética. Talvez para ajudar aos historiadores do século 21 seria útil multiplicar hoje pesquisas sociológicas, dados estatísticos e observações etnológicas sobre os leitores de hoje.

Há dez anos, o senhor esteve no Fórum das Letras, em Ouro Preto, para realizar a conferência “A morte do livro”, em que tratava das possibilidades do futuro do livro como obra e do livro como material. O que mudou nestes dez anos sobre a sua percepção sobre o assunto?

Terminei esta palestra com uma incerteza. Hoje me parece ainda mais justificada. Por um lado, resiste o livro impresso no mercado do livro. Salvo nos Estados Unidos e no Reino Unido, a porcentagem dos livros digitais nas vendas de livros nunca supera 5%. Por outro lado, todas as “instituições” da cultura impressa se encontram num estado de crise. Na Europa livrarias desaparecem a cada dia, frente à concorrência dos supermercados ou da Amazon. No mundo todo, os jornais têm grandes dificuldades econômicas. E as bibliotecas conhecem a tentação de privilegiar as coleções digitais e afastar os leitores dos objetos impressos. Dentro da longa duração da cultura escrita, toda mudança (o aparecimento do codex, a invenção da imprensa, as várias revoluções da leitura) produziu uma coexistência original de objetos do passado com técnicas novas. Pode-se supor que, como no passado, os escritos serão redistribuídos entre os diferentes suportes (manuscritos, impressos, digitais) que permitem sua inscrição, sua publicação e sua transmissão. Resta, porém, o fato da dissociação de categorias que constituíram uma ordem do discurso fundamentada sobre o nome do autor, a identidade das obras e a propriedade intelectual e, de outro lado, o radical desafio a essas noções no mundo digital. Podemos pensar e esperar como Umberto Eco e Jean-Claude Carrière por um futuro no qual existiria uma coexistência das varias culturas escritas. Mas acho que a verdadeira resposta não está nos hábitos e desejos dos leitores que entraram no mundo digital a partir de suas experiências como leitores de livros impressos. A resposta pertence aos “digital natives” (nativos digitais) que identificam espontaneamente cultura escrita e textualidade eletrônica. São suas práticas da leitura e da escrita, mais do que nossos discursos, que vão decidir a sobrevivência ou a morte do livro, o apagamento do passado ou sua presencia perpetuada.

Conhecer o hábito de leitura vai levar à estabilização do mercado

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Maria Fernanda Rodrigues, no Hoje em Dia

ENTREVISTA
ROBERT DARNTON, historiador

Em 2009, o americano Robert Darnton, então diretor da Biblioteca de Harvard, lançou A Questão do Livro, uma coletânea de ensaios sobre passado, presente e futuro deste que é um de seus principais objetos de estudo. À época, o e-book ganhava força nos Estados Unidos e já chamava a atenção de editores de outros países. Aposentado há um ano, ele segue interessado no tema – tanto que entrega, na próxima semana, o original de A Literary Tour de France, sobre o livro e seu mercado no século 18, e será o principal nome do 6.º Congresso do Livro Digital, dia 25.

Nesta entrevista ao Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, ele atualiza algumas questões de sua obra e reafirma que o futuro será mesmo digital.

Há tempos o senhor pesquisa a história do livro. O que, deste momento que estamos vivendo, deve entrar para a história?

A mudança mais óbvia é a tecnológica. A internet transformou o modo como os livros são produzidos, vendidos e lidos. As mudanças que começaram em 1991, com o desenvolvimento da internet, são tão grandiosas quanto às da Era Gutenberg. E elas continuam. Não é exagero dizer que o mundo do livro está passando por sua maior transformação em 500 anos. É excitante e ameaçador para profissionais do livro, mas, para mim, é um tempo de grandes oportunidades.

Quando o senhor lançou A Questão do Livro, discutia-se o futuro do livro diante do crescimento do e-book – e os mais catastróficos falavam no seu fim. Lá se vão 7 anos e há quem fale, agora, na morte do livro digital. Como o senhor avalia esses últimos anos no que diz respeito às ameaças do digital ao físico e às ameaças da conjuntura ao digital?

As pessoas amam fazer declarações dramáticas como essas e sobre a obsolescência das bibliotecas, e isso entra na imaginação de outras pessoas. Mas são afirmações imprecisas. No geral, penso que a situação dos livros, impressos e digitais, é melhor hoje que há 10 anos. E também as bibliotecas, pelo menos nos EUA, estão num ótimo momento e se tornando mais importantes do que nunca. Sobre a morte do e-book, e eu só posso dizer isso por informações dos EUA, sabemos que a venda do digital diminuiu cerca de 10%. A estatística é acompanhada de outra informação interessante. Houve um aumento do número de livrarias independentes – e elas só vendem obras impressas. Podemos dizer que houve um revival do livro impresso, mas isso não sinaliza uma transformação para o mercado de e-books. Depois de um período de fascinação com o e-book, tudo está se estabilizando agora, o que quer dizer que a demanda é estável. Além disso, é provável que seja verdade que diferentes tipos de leitura requeiram diferentes tipos de livros. As pessoas estão lendo mais literatura light em e-readers e o impresso tende a atrair e estimular leituras mais profundas. Admito que o pensamento é simples. O que acontece é que se está tentando conhecer os hábitos de leitura. Como resultado, podemos ter uma espécie de estabilização do mercado no lugar do desaparecimento do e-book, que continua indo bem.

Então ainda não é o momento de desanimar?

Pelo contrário. Há informações de que a venda de um e-book pode favorecer a venda de sua versão impressa e isso é fascinante. Um dos problemas que todos os editores enfrentam é como fazer com que a informação sobre seu livro chegue ao leitor no cenário em que há menos revistas e jornais publicando resenhas e em que as livrarias podem exibir um número limitado de livros. Então ocorre um processo que chamo de degustação. As pessoas podem ler um pouco do livro online para decidir se vão comprar ou não. As editoras estão descobrindo que podem ganhar dinheiro oferecendo gratuitamente um livro na internet e depois vendendo o exemplar em livrarias. Não deve ser verdade sempre e nem em todos os lugares, mas é um exemplo de como podemos ser otimistas sobre o futuro do livro em geral.

Muito se discute, também, se a informação é assimilada de forma mais superficial.

Minha intuição é que as pessoas usam aparelhos eletrônicos para literatura de entretenimento, mas não é verdade que elas nunca os usam para ler literatura séria. O problema é que é muito difícil anotar em livros digitais. Além disso, o antiquado codex é uma das maiores invenções de todos os tempos e já provou o quão eficiente ele ainda é. Outra coisa interessante: descobrimos que, nos EUA, a venda de livros impressos aumentou e que algo como 310 mil novos títulos foram lançados no ano passado nos EUA; de e-books, foram cerca de 700 mil, e muitos deles eram gratuitos. Isso quer dizer que as pessoas estão publicando mais porque é mais fácil. Temos uma democratização do mundo dos autores e dos leitores. As coisas estão mudando de um jeito muito interessante.

O fato de os e-books serem mais baratos ou gratuitos desvaloriza o produto ou ajuda a promover o acesso à leitura?

Há alguma verdade nisso de as pessoas não valorizarem o que podem ter gratuitamente. Mas o que acontece é que um público mais amplo está tendo acesso a livros graças a plataformas de acesso livre e às novas tecnologias. Um bom exemplo é o projeto SimplyE, parceria entre a Biblioteca Pública de Nova York e a Biblioteca Pública Digital da América. Ele torna livre o acesso a livros por crianças e jovens ao redor do país. Pessoas de áreas mais pobres podem, agora, ter livros gratuitamente e ler. Editores querem seus títulos no projeto porque ele vai espalhar o hábito da leitura. E mais: as editoras não estão perdendo dinheiro porque essas pessoas não compravam livros. O público leitor está sendo ampliado graças ao livro digital.

Como o senhor vê o mercado editorial hoje?

Não há muita diferença entre os livros que estão sendo publicados hoje e os do passado. A leitura está se tornando mais superficial com a disseminação do e-book? Bem, talvez sim, talvez não. Alguns dos argumentos não me convencem, sobretudo o que finge ser baseado em artigos científicos sobre como o cérebro funciona. Dizem que ler coisas online e nos tablets nos deixa mais burros. Honestamente, não acho que já sabemos como o cérebro funciona para termos uma certeza assim.

É preferível ler qualquer coisa a não ler nada?

Uma vida sem leitura é triste. E não lendo nada seríamos cortados de boa parte de nossa cultura. A importância de democratizar o acesso por meio da internet me parece central.

Como fazer isso?

Deveria haver mais apoio público às bibliotecas e elas deveriam se tornar centros eletrônicos de difusão da literatura. Fácil de dizer, difícil de executar. O potencial está lá. Alguém deve assumir a liderança e convencer governos a dedicar mais atenção a isso. Não se trata de uma ideia ingênua. Estamos descobrindo que podem haver consequências econômicas se tivermos maior e melhor acesso a livros e artigos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Como vetos à literatura ocorrem pela ação de gente culta

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O historiador, surpreendido com a censura brasileira, que intimou Sófocles a depor

O historiador, surpreendido com a censura brasileira, que intimou Sófocles a depor

 

Historiador americano Robert Darnton mostra como censores discriminavam um texto refinado de um embuste literário na França, Alemanha e Índia

Rosane Pavam, na Carta Capital

Nem mesmo em 1989 havia alguém tão especializado em Iluminismo quanto o historiador americano Robert Darnton. Eis por que o Brasil o chamava a palestrar sobre o bicentenário da Revolução Francesa. Então aos 50 anos de idade, pai de três filhos, erudito de Harvard e Oxford, ex-repórter policial do New York Times, autor de livros escritos com a clareza dos dias, pesquisados nas profundezas dos arquivos, Robert Darnton mal podia crer em tudo aquilo que presenciava na capital paulista.

Seus habitantes eram cientes do mundo ao redor. Os raios de sol, constantes. Os discursos, inacreditavelmente bem compostos pelo candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva. A ascensão do Partido dos Trabalhadores causava profunda excitação em qualquer historiador. E que livrarias São Paulo tinha.

Em agosto daquele ano, Darnton pegaria na capital paulista um voo para Berlim. Convidado por um instituto de estudos avançados, escreveria ali, por um ano, mais uma monografia sobre seu assunto de imersão. Antes partiria para Halle, na então Alemanha Oriental, para um encontro acadêmico. “Eu havia saído do Brasil, que era a luz, para chegar às trevas”, conta a CartaCapital por telefone a partir de Harvard, onde hoje é professor aposentado e dirige sua biblioteca, a maior entre as universitárias em todo o mundo. “Eu estava, então, na profunda Alemanha Oriental, sob uma atmosfera diferente e fascinante, nas suas cidades em que tudo era poluído, chovia o tempo todo e não havia energia elétrica à noite.”

Em A Vida dos Outros, a Alemanha Oriental vigiada

Em A Vida dos Outros, a Alemanha Oriental vigiada

 

Nem por um momento imaginou, então, que a divisão entre dois sistemas políticos estivesse prestes a se esfacelar. “Queria poder dizer a você que eu sabia antecipadamente que o muro iria cair, mas não tinha a menor ideia”, diz sobre o evento a selar o fim da Guerra Fria. Enquanto estudava a revolução burguesa ocorrida dois séculos antes, uma transformação de fato se dava diante de seus olhos. “O chão começou a tremer. Eu saía, assistia às manifestações, conversava com os habitantes. Assim que o muro caiu, em novembro, interrompi meu livro e passei o tempo a viajar para Berlim Oriental e a escrever artigos sobre o que via.”

Interessou-se pelos arquivos do regime e descobriu que fora distinguido por eles. “Um amigo alemão oriental me contou, em 1992, que eu tinha meu próprio dossiê na polícia política Stasi, citado como um ‘jovem burguês progressista’. Nunca vi esse arquivo. Mas o xingamento me divertiu muito, me pareceu elogioso.” Enquanto pesquisava, descobria um universo inaudito.

Os alemães-orientais não apenas censuraram livros. Eles organizaram um imenso sistema para encaminhar a literatura a seus propósitos ditos revolucionários. Os censores discriminavam um texto refinado de um embuste literário. Quando censuravam, às vezes impossibilitando a carreira de um autor, agiam como professores, o que de fato eram, advindos dos melhores cursos de Letras.

Darnton entrevistou dois desses censores, empenhado em mantê-los próximos com simpatia, conforme lhe ensinara a prática jornalística. Sentiu-se incrédulo que ainda advogassem a permanência do muro, este que mantivera distante dos leitores a realidade do país, apenas descrita nos livros se transcorrida ficcionalmente em países capitalistas (os personagens alcoólatras, por exemplo, tinham de ser americanos). A Alemanha Oriental do período, dos móveis às vestimentas e aos comportamentos, foi descrita em perfeição, crê o historiador, no filme A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck.

Censores em Ação, lançado agora no Brasil, é o livro em que Darnton analisa, além do sistema alemão-oriental, o sofisticado veto britânico à produção literária indiana, no século XIX, ocorrido até mesmo contra os ideais libertários de expressão defendidos na Inglaterra, e a censura aos livros na Paris dos anos 1700, quando toda publicação, caso não pudesse obter uma autorização real para se efetivar, deveria tentar a sorte em Amsterdã ou Genebra. Darnton estuda como o diretor do comércio de livros comandava uma cadeia de censores e, com o apoio da polícia, restringia a ação dos livreiros clandestinos.

“Havia um inspetor especializado em literatura na polícia francesa. Ele passava todo o tempo a andar pelas livrarias. Refazia a trilha dos autores, conhecia os iluministas.” Darnton gastou horas a entrevistar, por assim dizer, os inspetores da Paris de 250 anos atrás. “A polícia francesa do século XVIII era muito mais sofisticada do que a americana do século XX, quando comecei no jornalismo.” O historiador perdeu o pai enquanto ele cobria a Segunda Guerra Mundial para o New York Times.

“Órfão aos 3 anos, cresci com a ideia de que ser um repórter de jornal era a melhor coisa que jamais se poderia fazer na vida.” Seu irmão tornou-se jornalista, e sua mãe, igualmente editora daquele jornal, sofreu quando Darnton constatou que os arquivos, com os quais aprendera a lidar em Oxford, davam-lhe muito mais satisfação pessoal do que relatar assassinatos e assaltos a banco. “Eu fui a ovelha negra da família. Me tornei apenas mais um professor universitário.”

Um professor que escreve como jornalista, imbuído das palavras nítidas, e que se propôs a analisar uma ação patrocinada pelo Estado, como subscreve o entendimento da censura. Em seu livro, descreveu casos duros. Na Alemanha Oriental, o editor Walter Janka, apesar de leal à ideologia em curso no país, passou cinco anos em uma solitária, autorizado a ver a mulher por apenas duas horas ao ano, apenas porque protegera George Lukács, um autor que caíra em desgraça no partido.

Darnton, contudo, ressalva que, nos três sistemas por ele estudados, quem cortava textos sabia por que o fazia. Os censores franceses concentravam-se mais em questões de conteúdo e estética e menos em ameaças à Igreja, ao Estado e à moralidade. Um censor que era teólogo atestou certa vez que um livro sobre história natural lhe parecia uma ótima leitura. Ele não conseguiu largar o livro, disse, porque inspirava no leitor “essa curiosidade ávida, mas doce, que nos faz continuar a leitura”. Darnton pergunta-se: “Será essa a linguagem que se espera de um censor?”

Por todo o ensaio, o que o historiador parece desejar é que se desfaça uma ampla relativização do conceito (a seu ver, a censura jamais se dá fora do âmbito estatal) e que ela não seja entendida de modo maniqueísta. “Convenci-me, depois da leitura das correspondências e dos memorandos internos dos censores franceses, que se tratava de indivíduos altamente inteligentes. Tinham boas relações com os autores, melhoravam os textos com sugestões. Tentavam defender a honra da literatura francesa. A censura no século XVIII francês foi positiva. Com a ressalva, claro, de que o Iluminismo não passava pela censura, pois era editado em libelos ou em publicações fora da França.”

Darnton lamenta conhecer pouco a história latino-americana. Contudo, enquanto produz um novo ensaio, em torno do vendedor de livros que, montado a cavalo na França de 1778, realizou uma Tour de France por livrarias, sua releitura de cabeceira é O Aleph, de Jorge Luis Borges. O historiador reage com espanto ao saber que no Brasil os censores nunca foram muito inteligentes. E que, na ditadura, convocaram o filósofo Sófocles a depor sobre uma montagem de Antígone.

Leitor das notícias do Brasil a partir do New York Times, Darnton também ignorava que uma decisão do Legislativo impediu recentemente os professores de Alagoas de opinar em sala de aula e que a Justiça havia proibido os estudantes de uma universidade pública de Minas Gerais a discutir o impeachment. Mais que isso, uma censura de mercado, fundamentalista religiosa, dificulta a impressão de obras tidas por blasfemas, como ocorreu a Gênesis, de Robert Crumb. “Meu coração fica com os brasileiros, porque vivem essa crise tão grande. Só posso me solidarizar com eles.”

Único escravo no Brasil a publicar autobiografia ganha site de memórias

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Publicado no Portal AZ [via G1]

Mahommah Gardo Baquaqua nasceu no século XIX onde hoje fica o Benin, na África, e em 1845 chegou ao Brasil dentro de um navio negreiro. Passou os dois anos seguintes trabalhando forçadamente em diversos estados brasileiros, e chegou a tentar o suicídio. Acabou conseguindo escapar e, nos Estados Unidos, publicou um relato autobiográfico sobre sua condição de escravo chamado “An Interesting Narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua” (“Uma narrativa interessante. Biografia de Mahommah G. Baquaqua”, na tradução do inglês). Nesta segunda-feira (30), historiadores brasileiros e canadenses lançam o site do Projeto Baquaqua, que tenta recuperar as memórias do único africano escravizado no Brasil que publicou uma autobiografia. O livro, lançado pela primeira vez em 1854, receberá a primeira versão traduzida para a língua portuguesa no primeiro semestre de 2016.

Feito em parceria entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Universidade York, do Canadá, o projeto tem apoio dos governos brasileiro e canadense e pretende, além de mostrar a trajetória pessoal de Baquaqua, debater a escravidão e o abolicionismo no Brasil e na América do Norte.

Em entrevista ao G1, o historiador pernambucano Bruno Véras, que atualmente faz seu doutorado na York, em Toronto, explicou que o livro do africano foi publicado dentro do contexto abolicionista norte-americano. “O slave narratives (narrativas de escravos, em inglês) era um gênero literário importante no mundo anglófono”, afirmou Véras, que está traduzindo o material ao lado do pesquisador Nielson Bezerra, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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Segundo ele, o editor Samuel Moore auxiliou na produção do relato autobiográfico de Baquaqua, que, além de publicar o livro, também escreveu cartas e deu palestras sobre a sua experiência como escravo no Brasil.

A edição brasileira da obra seria publicada ainda em 2015, mas, de acordo com os historiadores, a pesquisa em torno do projeto resultou na descoberta de novos documentos históricos e, por isso, o livro, que está sendo realizado pela Editora da Civilização Brasileira, vai ganhar novos capítulos antes do lançamento.

Letramento, guerra e escravidão
Segundo os historiadores, Mahommah Baquaqua já era bilíngue quando foi capturado em uma guerra na África. Sua família era muçulmana, e ele falava árabe e ajami, língua local de Djougou, sua cidade natal. “Na África ele foi escravo de pessoas no Daomé até ser vendio para a costa e desembarcado no porto de Uidá”, explicou Véras.

O africano foi vítima do tráfico internacional de escravos em 1845, quando a prática já havia sido criminalizada no Brasil. Portanto, segundo os historiadores, sua condição de escravo no país nunca foi legal.

O professor Paul Lovejoy, da Universidade York, que coordena a produção em inglês do livro ao lado do pesquisador Robin Law, afirma que “o relato de Bequaqua mostra muita coisa importante sobre a escravidão no Brasil”. Seu primeiro destino foi Pernambuco, onde ele foi comprado por um padeiro português e, posteriormente, a um marinheiro gaúcho. Em uma viagem com o dono a Nova York, o africano aproveitou uma oportunidade e escapou.

“O padeiro o obrigou a construir um prédio de pedra, isso é um trabalho muito difícil. Baquaqua tentou fugir, ele tentou cometer suicídio, ele cogitou matar seu dono, porque ele era muito cruel. O dono não gostava dele, e o vendeu porque Baquaqua estava criando muitos problemas. Então ele foi vendido no Rio de Janeiro, onde um capitão de um barco o comprou. Mas o capitão também era cruel, e o espancava muito. A mulher do capitão não gostava dele. Isso mostra que Baquaqua sempre quis resistir, lutar, escapar, e eventualmente ele teve a oportunidade quando seu dono o levou a Nova York com um carregamento de café. Então Baquaqua conseguiu escapar”, diz o canadense.

Lovejoy explica, porém, que fugas de escravos não eram raras. “Escravos com frequência queriam escapar ou fugir. Em todos os lugares. Mas isso mostra como a escravidão no Brasil era muito cruel.”

Lutas e palestras
Os documentos mostram que, depois de reconquistar sua liberdade nos Estados Unidos, Baquaqua passou uma temporada no Haiti, onde aprendeu a falar francês e o criolo haitiano. Ele também viveu no Canadá e chegou a estudar, entre 1850 e 1853, na Faculdade Central de Nova York.

“Ele escreveu várias cartas, deu muitas palestras abolicionistas nos EUA sobre sua experiência de escravo no Brasil”, diz Véras. “Mas a sua biografia foi escrita com ajuda de um editor chamado Samuel Moore.” De acordo com o historiador, Moore escreveu o relato em primeira pessoa do Baquaqua, como ele ditou suas experiências.

História afrobrasileira
Véras acredita que tanto o livro quanto o site (que terá traduções para o inglês, o francês e o hauçá, língua também falada por Baquaqua, e usada por 52 milhões de pessoas na África Ocidental) podem ajudar a aprimorar o ensino sobre a história dos africanos no Brasil. Para ele, ela ainda hoje é cercada de mitificação e estereótipos negativos.

“Muitos dos africanos que foram trazidos ao Brasil no contexto da escravidão atlântica eram letrados em árabe e ajami (línguas africanas escritas em caracteres árabes). Os livros didáticos muitas vezes reproduzem uma imagem preconceituosa sobre os africanos no Brasil como se estes tivessem sido apenas braços para o trabalho escravo em lavouras e regiões de mineração”, explica.

O projeto também tem uma versão da história adequada ao ensino de crianças do ensino fundamental, incluindo um livro ilustrado pela artista Tatiane de Lima, com atividades como desenho e caça-palavras sobre a história de Baquaqua e da diáspora africana nas Américas.

“A biografia de Baquaqua nos permite pensar sobre isso. Antes de serem escravos, eles eram pessoas e assim se pensavam. Antes de serem braços eles(as) eram ideias, visões de mundo e espírito. Estas biografias nos permitem enxergar isso. Mas do que pesar a escravidão elas nos permitem pensar em gente, que, apesar de inseridas em um sistema opressor e escravista nunca deixaram de ser e de se pensar como gente.”

Para Lovejoy, “as crianças precisam aprender esta história, porque ela mostra determinação para seguir em frente, para se autoaprimorar, para resistir à crueldade e às pessoas ruins que querem explorar os outros”.

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