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Luisa Geisler: ‘Eu escrevo como mulher, sim’

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Escritora analisa a escassa presença feminina em prêmios e antologias e aponta machismo no meio literário

Ilustração: André Mello

Ilustração: André Mello

Luisa Geisler, em O Globo

Dois mil e quatorze foi o ano da hashtag #leiamulheres2014. Foi o ano em que se discutiu uma antologia que listou 101 autores contemporâneos imperdíveis com apenas 14 mulheres. Foi o primeiro ano em que o Prêmio São Paulo de Literatura chancelou uma mulher na categoria Livro do Ano. Marina Colasanti também acaba de ganhar o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano. Estamos em novembro, mas ninguém vai problematizar a presença feminina na literatura na ceia de Natal. Já dá para dizer que 2014 foi o ano das mulheres na literatura brasileira.

O #leiamulheres2014 surgiu em janeiro. Quis tentar. A ideia era simples: eu conseguia citar nomes de autores mais rápido que de autoras. Conhecia mais obras escritas por homens. Não coloquei fogo em livro algum, não bani nada. Priorizei a minoria da minha estante.

Algumas pessoas perguntaram se eu não estaria “me limitando”. Eu respondia que já devo ter passado um ano inteiro lendo 90% de autores homens. No entanto, a ideia de ler apenas 90% de homens ao longo de um ano soava como “o normal”. Eu me identifico como feminista, mas a intenção era mais geral: dar um passo rumo à diversidade literária. Leituras têm que vir da maior variedade possível de experiências humanas. E sair da zona de conforto não faz mal.

A maioria dos meus interlocutores dizia não reparar no gênero de escritores e fim de conversa. Não é engraçado que citem mais autores homens entre os favoritos? Que ao “não olhar o nome de quem escreve”, escolhamos tantos homens?

O site americano VIDA mantém porcentagens de gênero sobre resenhas em grandes publicações literárias. Ao longo de 2012, apenas 22% dos livros resenhados no “New York Review of Books”, 25% no “The Times Literary Supplement” e 23% no “The Nation” eram livros escritos por autoras.

Então, a Dublinense lançou a antologia “Por que ler os contemporâneos?”, na qual resenho um homem (!). Questionou-se a presença de 14 mulheres entre 101 autores “para entender o século”. A antologia reflete o que se resenha, o que se lê e o que se discute. A antologia é machista porque o meio literário é machista. E nada disso é consciente.

Aliás, machismo dificilmente é consciente. Nunca é uma cúpula de homens rindo maleficamente e planejando: “Vamos calar todas as mulheres por serem tão inferiores!”

Claro que, vá lá, mulheres sejam menos publicadas. No Brasil, 72% dos autores publicados são homens, segundo a pesquisa de Regina Dalcastagné em “Literatura brasileira contemporânea — Um território contestado”. Ainda assim, se o mero fato de um grupo escrever garantisse representatividade, a antologia da Dublinense teria o dobro de mulheres (28). A questão é que, como no caso do site VIDA, a maioria das estatísticas pende para o lado masculino. As mulheres escrevem tão mal assim?

Já me disseram que eu “escrevo como um homem”, como um aplauso. Ouvi isso, com tom de elogio sincero, um olhar de li-teu-livro-e-analisei-com-calma. Já ouvi: “não gosto de livros escritos por mulheres, mas gostei desse” ou “não achei que mulheres podiam escrever assim”. Elogios sinceros. Ninguém com uma mochila cheia de tabelas e planos para mandar as mulheres de volta para a cozinha.

Meu favorito é “você não escreve como as outras mulheres”. “Na verdade, eu escrevo como mulher, sim. Você que é babaca mesmo”, é a resposta que tenho pronta.

Ana Luis Escorel disse — ao ser a primeira mulher vencedora do Livro do Ano do Prêmio São Paulo de Literatura — que o que importa é o texto. O contexto da frase é um pouco diferente, mas tomo liberdades. Às vezes, o texto não é o suficiente. Mulheres são menos lidas, menos resenhadas. Ia dizer menos premiadas, mas a Marina Colasanti ganhou o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano.

Porém, não é a norma. Por exemplo, desde sua criação, o Prêmio Portugal Telecom premiou mulheres em 2008 (Beatriz Bacher), 2011 (Marina Colasanti) e 2013 (Cíntia Moscovich). São três autoras para 31 autores vencedores.

As causas são históricas, estruturais e estúpidas. E não importam. Importa que existe desigualdade hoje. Se pudermos concordar que, sim, existe machismo no meio literário (na vida, no universo), 2014 valeu a pena. Já diz o clichê que aceitar é o primeiro passo. Não precisamos concordar com motivo(s) para saber que a diferença existe. Existem lacunas ainda maiores em questões raciais, de orientação sexual e de gênero, tantas outras e suas interseccionalidades. Sobre essas, sou melhor ouvindo do que falando.

A maioria das pessoas aceita que é injusto, mas não repensa hábitos. Como leitores, talvez devêssemos assumir parte da responsabilidade. Em especial porque a perda é grande.

Não sugiro cotas. Sugiro ler mulheres, e só.

Não um ato motivado por feminismo ou por uma hashtag de um ano. Por consciência como leitor. Se uma pessoa come apenas carne, sabe-se que é um consumo desequilibrado. Para mim, se tudo que se lê é escrito por um recorte da população, é tão desequilibrado quanto. Talvez 2014 tenha sido o ano das mulheres. Torço para que seja uma tendência rumo à igualdade, mais do que uma exceção.

Luisa Geisler é autora do romance “Luzes de emergência se acenderão automaticamente” (Alfaguara). Seu livro de estreia, “Contos de mentira” (Record) foi finalista do Prêmio Jabuti em 2012

A culpa é dos marcadores marrons

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Duds Saldanha, no Indiretas do Bem

Captura-de-Tela

Vejam bem, vocês. Eu, no auge dos meus 21 anos, posso finalmente dizer que trabalho com todas as coisas que eu gosto – eu sou designer, eu sou ilustradora e existem pessoas na internet que realmente querem ler aquilo que eu escrevo. Eu, que sempre quis ser feliz acima de tudo, acima de qualquer dinheiro, posso dizer que estou cada vez mais perto de atingir esse objetivo.

“Mas nem sempre foi assim”, é assim que todas essas histórias de superação começam. “Eu nem sempre fui satisfeita com o modo como eu levava as coisas, com a garota que eu olhava no espelho, com minha falta de curvas, com a sobrancelha grande que eu tenho uma sincera preguiça de fazer”. Mas não é exatamente disso que esse texto se trata, então vocês estão com sorte.
O que me traz de volta a todo o lance de listar as coisas com as quais eu trabalho. Mais especificamente à ilustração.

Eu sempre fui uma criancinha sapeca que gostava de desenhar em tudo quanto era lugar, e ainda o faço – só que trocando as paredes e estrados da cama por caderninhos de verdade feitos pra isso –, mas um fato frequente tem me preocupado bastante: os marcadores marrons.

Vejam bem, eu tenho ascendência africana e espanhola – e de mais 800 outras regiões, aponta pesquisa do IBOPE –, então eu tenho a pele escura e o cabelo crespo. Demorou MUITO pra eu me acostumar com as minhas características físicas, parar de achar que era um defeito eu ter nascido com tal condição genética, que era um defeito eu ser do jeito que eu era. Doeu bastante, matei uns cachinhos, alisei umas pontinhas, tive uma fase louca-Avril-cabelo-roxo, mas aqui estou eu, me olhando no espelho e me achando uma rainha. Como consequência direta disso, aconteceu uma coisa linda: eu comecei a me desenhar mais. Meu cabelão cacheado, minhas sombrancelhas grossas e meus lábios ~fartos~ (eita, Giovana) foram inspiração pra muitos autorretratos que eu venho fazendo desde que trouxe o sexy de volta assumi os cachinhos de vez.

Eu sempre fui de desenhar e pintar com lápis de cor, e só esse ano, depois de influências de gente linda como o Vitor Martins, eu decidi me arriscar nos marcadores. Tenho feito muitas ilustrações usando diversas marcas dos bonitos, mas só recentemente eu levei um tapa na cara: não sei se existem marcadores marrons aptos a pintar a cara dos meus desenhos (!!!). Estou disposta a testar mais outras mil marcas, mas e se eu não achar?

Passei muito tempo da minha vida me achando errada no espelho, me achando errada na hora de tomar banho, tão errada que me desenhava usando o lápis rosado porque pintar de marrom ficava “feio” na minha cabeça, era errado. E quando eu finalmente acho que a cor da minha pele é a coisa mais maravilhosa eu simplesmente não consigo porque o mercado de marcadores não está preparado pra isso? Não existe um meio termo? Não existe um tom mais aguado? Não existe?

Continuarei testando quantos marcadores forem necessários, mas me incomoda que mais uma barreira tenha sido imposta de uma forma que talvez seja tão sem intenção.

Jamais deixarei de me desenhar, e até tenho meus truques pra poder usar os marcadores e canetinhas que já comprei (oi, papel kraft <3), mas fica aí um apelo: talvez as marcas nunca tenham pensado nisso, mas nós negrinhas também queremos pintar nossa cara como faríamos com um marcador rosado, certo?

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“Esquecido”, autor brasileiro de mais de 1.500 livros renasce no Facebook

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Capa de "Fantasmagorias", livro de R. F. Lucchetti que garantiu uma indicação no Jabuti 2014 a Emir Ribeiro na categoria Ilustração Divulgação

Capa de “Fantasmagorias”, livro de R. F. Lucchetti que garantiu uma indicação no Jabuti 2014 a Emir Ribeiro na categoria Ilustração Divulgação

Guilherme Solari, no UOL

“Eu não vivo no mundo real. Habito um universo povoado por múmias, vampiros, vampiresas, lobisomens, monstros, seres vindos de regiões abissais ou do além, damas fatais, detetives particulares, mulheres misteriosas. Tenho por companhia quatro gatos e um corvo, com quem converso longamente. Em meu mundo, sempre é noite e as ruas são becos escuros e encobertos por um eterno nevoeiro. Em meu mundo, cada esquina esconde um mistério.”

Assim se define Rubens Francisco Lucchetti, 84 anos, escritor brasileiro de tradição pulp com extensa obra de horror e mistério, como “O Fantasma de Tio William”, lançado em 1992 pela Coleção Vagalume. São mais de 1.500 livros publicados, 300 HQs, 25 roteiros de cinema –inclusive de “O Segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso, pelo qual recebeu um Kikito no Festival de Gramado–, além de incontáveis colaborações para revistas e jornais. Uma parte de sua obra está representada no Prêmio Jabuti 2014: “Fantasmagorias”, antologia de contos fantásticos de sua autoria, organizada pelo filho dele, Marco Aurélio Lucchetti, foi indicada na categoria de ilustração com os desenhos de Emir Ribeiro.

“Descoberta” do Facebook

O escritor R. F. Lucchetti: Mestre do Horror, do Mistério e dos amigos do Facebook

O escritor R. F. Lucchetti: Mestre do Horror, do Mistério e dos amigos do Facebook. Divulgação.

Morador de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Lucchetti conta que passou os últimos 20 anos batendo nas teclas de sua máquina de escrever, tarde da noite, e guardando textos na gaveta porque não conseguia publicá-los. Pensou que estivesse “esquecido”, mas soube que continuava na memória das pessoas ao receber o carinho de muitos fãs quando “descobriu”, meses atrás, as redes sociais. “Há uns dias eu nem sabia falar ‘Facebook'”, contou em entrevista ao UOL. “Agora recebo [solicitações de] quase cem amigos por dia, desde fãs a velhos conhecidos que eu reencontro. Muita gente esperando com ansiedade pelos lançamentos, demonstrando carinho. Estou ainda assustado, agradecido e maravilhado. Me sinto um jovem.”

O caso de Lucchetti se repete com outros grandes nomes que acabam esquecidos pelo mercado de arte e entretenimento, obcecado por novidades. “Isso acontece com todo o mundo, não é só no Brasil. Você vê nas biografias de atores, músicos, desenhistas. Quanta gente grande já passou pela TV. É melancólico o final”, lamenta ele.

Adepto da máquina de escrever, Lucchetti diz que nunca se interessou por computadores e acabou vencendo este bloqueio “por força de contrato”, devido ao relançamento de romances curtos de sua autoria por meio do selo Corvo (criado exclusivamente para suas obras), do ACP Grupo Editorial. De início, serão 15 obras, começando por “Máscaras do Pavor”, sobre uma série de misteriosos assassinatos que desafia a polícia de Los Angeles nos anos 1970. O livro chega às livrarias no começo de outubro e será seguido por “Museu dos Horrores”. “Fora da coleção, ainda terá outros, o primeiro é sobre uma cantora lírica assassinada, chamado ‘Rosas Vermelhas para uma Dama Triste'”, antecipa Lucchetti.

“Nome brasileiro não vende”

A reclusão de duas décadas de Lucchetti não foi autoimposta. Mesmo com a extensa bibliografia, ele encontrou dificuldades para ser publicado em um mercado editorial cada vez mais preocupado em ter um nome de peso na capa, uma desvantagem para quem escreveu com diversos pseudônimos. “As editoras preferem um [nome] importado enlatado, que já vem com a propaganda feita, do que o romance de um autor brasileiro. Você não encontra um editor que acredita no seu trabalho”, falou. “Há uns oito, nove anos, enviei um texto para uma editora, que me falou: ‘É uma maravilha o seu romance’. Disse que, por ela, editaria, mas vetou por marketing. Disse que não teria como vender.”

Segundo Lucchetti, ele enfrenta há muito tempo um certo preconceito com autores brasileiros para literatura de horror e mistério. Dono de diversos pseudônimos e heterônimos, assinou, ao longo de sua carreira de 72 anos, muitos de seus livros com nomes espanhóis ou norte-americanos por imposição das editoras. “Diziam que um nome brasileiro não venderia”, lembra o autor. “Às vezes, o autor era um pseudônimo americanizado meu, e o tradutor era outro pseudônimo também meu”, conta ele, que já foi Brian Stockler, William Sharpe e Peter L. Brady.

Capa de "Os Vampiros não Fazem Sexo, livro de R. F. Lucchetti assinado como Brian Stockler: Editoras acreditavam que pseudônimos estrangeiros eram mais "vendáveis

Capa de “Os Vampiros não Fazem Sexo, livro de R. F. Lucchetti assinado como Brian Stockler: Editoras acreditavam que pseudônimos estrangeiros eram mais “vendáveis

“Já cheguei a encontrar 15 títulos meus em uma banca, assinados por diversos autores. Escrevia de três a quatro livros por mês”, lembra. Por vezes, o uso de pseudônimos era uma escolha, já que o próprio autor se tornava um personagem. “Enquanto escrevia, eu era aquela pessoa 24 horas por dia, pensava e almoçava como ela, vivia como aquele personagem todo dia. Com heterônimos femininos, tentava pensar como uma mulher pensaria. Uma fantasia dentro de você mesmo. Tem horas que você não sabe nem mais quem é”, diverte-se ele, que também já assinou como Christine Gray e Isadora Highsmith.

Horror do horror

Além da nacionalidade, Lucchetti diz que enfrenta preconceito também com o gênero do horror, visto como mórbido e não tradicional do Brasil, apesar de haver grandes referências do gênero, como José Mojica Marins, criador e intérprete do personagem Zé do Caixão, com quem Lucchetti colaborou na revista “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e em 12 filmes, como roteirista. “O gênero de mistério, de detetives, é mais aceito, mas o terror e o horror sofrem muito preconceito”, diz Lucchetti. “Acontece que você já nasce com o terror, com as histórias infantis como a Chapeuzinho Vermelho, Joãozinho e Maria, a Bela e a Fera. São histórias de horror. Dizem que o horror é para pessoas alienadas, principalmente no entretenimento, que é o que eu faço. Mas, para mim, quando uma história é bem contada, existe uma verdade ali. Nas entrelinhas, eu mostro a minha verdade”.

Após ter, em suas palavras, “‘remoçado’ pelo menos 20 anos” ao recuperar o contato com os fãs, Lucchetti não quer só ficar no passado e faz planos para obras inéditas. “Tenho uma série de HQs já roteirizadas e pronta para ser desenhada. A maioria das histórias se passa no Brasil”, conta. “Eu tenho muita coisa nova, mas muitos dos bons desenhistas foram para os Estados Unidos. Não sou contra, porque sei que eles precisam pagar contas. Nós, autores, não temos sequer esse espaço, já que americanos não compram roteiros brasileiros e os próprios brasileiros não consomem mais os roteiros nacionais [de quadrinhos].”

Enquanto segue trabalhando na republicação de suas obras anteriores e na publicação de trabalhos inéditos, Lucchetti não deixa de pensar em como se divertir com seus novos “amigos” da internet. “O Facebook é bom porque você conversa. Nem sempre tenho tempo, mas leio tudo o que vem. Têm vindo muitas mensagens do exterior, eu não fazia ideia. Penso em publicar enigmas como numa revista eletrônica. Colocar uma historinha sobre um crime e deixar os leitores tentarem descobrir quem é o criminoso, revelando na próxima semana, além de curiosidades, frases filosóficas e conversas com esse corvo que sempre anda comigo. E eu que pensei que minha missão estava quase concluída, agora me vejo fazendo novamente em uma velocidade fantástica tudo o que sempre gostei de fazer.”

Artista brasileiro cria tirinhas que geram debate e inspiração

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Publicado por Hypeness

Se no Facebook as pessoas costumam apenas jogar opiniões sobre a vida, a política, o universo e tudo mais, Matheu Ribs faz diferente: ele usa ilustrações para dar belos tapas na cara de quem o segue e atentar para tópicos que vão do racismo à religião distorcida.

Ribs, que estuda Ciências Políticas no Rio de Janeiro, não mede palavras ou imagens na hora de expor o que pensa, gerando tirinhas (se é que podemos chamar sua arte dessa forma) pra lá de instigantes. Amor, frustrações, machismo e até mesmo questões políticas entram na roda, para sair dela de uma forma totalmente diferente.

O ilustrador não titubeia ao se assumir militante e muitas de suas artes trazem ideias tidas como “de esquerda”. Mas tudo bem, mesmo que você não concorde com algumas delas, sempre é tempo de pensar o diferente e refletir.

Em último caso, fique com as poesias de Ribs sobre sentimentos. Afinal, na hora de amar e sofrer, todo mundo faz igual.

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Todas as imagens © Matheu Ribs

Da web para o papel, quadrinista carioca em ascensão lança em livro a webcomic Bear

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Vaca voadora

Vaca voadora

Aline Cruz, na TPM

A quadrinista carioca Bianca Pinheiro, que vive em Curitiba, é responsável por alguns dos trabalhos mais interessantes que rolam na internet atualmente. Entre eles está Bear, webcomic que conta a história de Raven, uma garotinha que se perde de seus pais e faz amizade com o urso Dimas – que entra na busca pelos pais da menina, no meio de um mundo onde feiticeiras prevêem o futuro e desenhos ganham vida (e família). Para felicidade dos fãs, em número crescente, a série que é publicada todas as terças deve contar com 10 volumes no total.

Além disso, Bear vai ser lançado pela Editora Nemo no próximo semestre, e Bianca fala pra Tpm, entre outras coisas, sobre como é passar da web para o papel e dá conselhos para quem está entrando no mundo da nona arte.

Qual foi seu primeiro trabalho como quadrinista?
Er… oficialmente? Eu comecei mesmo, pro público, com a Vaca Voadora, que no começo eu publicava com o Alan Amorim e depois passou a ser com a Fefê Torquato. Mas já fiz fanzines pra vender na minha época de estudante universitária [risos]. Acho que de todos os meus trabalhos, Bear é o mais conhecido.

E como foi que surgiu a ideia de Bear?
A ideia de fazer uma webcomic seriada foi do meu marido, na verdade. Ele me disse que assim eu poderia postar uma vez por semana e ter feedback imediato dos leitores (eu estava querendo fazer uma Graphic Novel inteira e estava sofrendo). A ideia era me manter produzindo e deu certo! Agora, a história veio primeiro da ideia: tinha que ser uma jornada para que eu pudesse aumentar e encurtar o quanto eu quisesse. Aí fiz os primeiros esboços da Raven, perguntando se alguém tinha visto os pais dela. O resto veio todo daí. Ah! E tinha que ser um mundo fictício para eu poder criar à vontade. Liberdade! Liberdade!

A história é bem grande! Você cria aos poucos ou já tem tudo na cabeça desde o início?
Tenho a linha geral toda na cabeça. Sei por onde eles vão passar e o que vai acontecer no final. As miudezas (como falas e expressões) eu vou bolando enquanto desenho o storyboard.

Por falar em storyboard, eu sei que todo mundo te faz essa pergunta, mas eu preciso saber: como é o seu processo na hora de criar a página?
Em Bear eu faço só o storyboard. Depois já passo pro computador e faço tudo, do rascunho à página final, no Photoshop. Em outras HQs, primeiro faço um pré-roteiro com tudo o que acontecerá na história. Dali separo por páginas e monto o storyboard. Depois vou para a produção em si (seja no computador ou no papel). Pra Vaca Voadora eu costumo acordar em pânico na quinta de manhã percebendo que é meu dia de postar e fico olhando pro Photoshop até que uma ideia desça “do além”. É sério. Antigamente eu planejava com mais antecedência, mas fui ficando preguiçosa…

 

“Viver só de quadrinhos ainda é um sonho não-alcançado. No momento eu ganho dinheiro sendo ilustradora, mas vivo como quadrinista no meu ser”

 

Que tipo de material você mais gosta de usar?
Bom, o Photoshop é o mais fácil e rápido. Mas gosto muito do papel e do nanquim também. Quero aprender a mexer com tintas também. Vou ver se faço uns cursos pra começar a colorir no papel!

Que tipo de quadrinhos você mais gosta de ler? Algum te inspirou pra fazer Bear?
Eu não sei dizer se tem um tipo de quadrinhos que eu prefira. Costumo ler o que indicam que é bom e aqueles que são de autores que eu confio, como o Liber Paz, o Rafael Coutinho, a Fefê Torquato, Laerte, LM Melite, Lourenço Mutarelli, Alison Bechdel, Emily Carroll, Cyril Pedrosa, Chris Ware, por aí vai. Curiosamente, o que mais me inspira na hora de fazer Bear são desenhos animados e jogos de videogame [risos].

Como foi o contato com a Editora Nemo?
Ah, o diretor da Nemo, Arnaud Vin, me mandou um e-mail perguntando se eu tinha interesse em publicar Bear em livro. Eu já andava pensando nisso porque tinha gente me pedindo, então foi uma união perfeita! A partir daí foi só combinar pormenores. O primeiro volume sai esse ano em data a ser confirmada, ainda.

Como é a sua relação com viver de quadrinhos e trabalhar com outras coisas e fazer quadrinhos? Você já consegue viver só desse trabalho?
Não, viver só de quadrinhos ainda é um sonho não-alcançado [risos]. Eu tenho que conciliar meu tempo fazendo quadrinhos com o meu tempo de fazer ilustrações para sobreviver. Faz parte, imagino. As coisas se fazem aos poucos. No momento eu ganho dinheiro sendo ilustradora, mas vivo como quadrinista no meu ser.

Atualmente você faz que tipo de ilustração além dos quadrinhos?
Ilustrações para materiais didáticos, na maioria. Tenho feito também personagens e ilustrações para algumas revistas. Meu sonho era ilustrar um livro infantil. Seria maravilhoso!

Tomara que consiga, até porque Bear é uma história linda e seus personagens são sempre lindos! Agora, pra finalizar, aquela pergunta básica: qual é a sua dica pra quem está no começo da carreira em HQ?
Olha, técnicas e materiais, cada um desenvolve de acordo com o que gosta mais, não existe fórmula. Agora, o nosso mercado de quadrinhos abraça novos quadrinistas. É preciso desenhar e mostrar para aparecer. Leva tempo mesmo, a coisa vai devagar, mas tem que produzir. Quem não produz não é visto. E quem não é visto não consegue aparecer com seu trabalho, entende? Tem que fazer e mostrar. É a única solução que vejo. Eu comecei com a Vaca Voadora, depois passei a fazer Bear (sem parar a Vaca) e continuo com projetos laterais. A gente tem que fazer, senão não vai a lugar nenhum.

Vai lá: Bear http://bear-pt.tumblr.com. Tumblr da Bianca http://bianca-pinheiro.tumblr.com

Auto ilustração de Bianca

Auto ilustração de Bianca

 

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