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A livraria como ponto cultural não deve deixar de existir, diz Luiz Schwarcz

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Luiz Schwarcz, fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, em sua casa.

Presidente do grupo Companhia das Letras fala sobre sua carta e crise no setor

Francesca Angiolillo, na Folha de S.Paulo

Com dívidas exorbitantes, as maiores redes de livrarias do país, Cultura e Saraiva, entraram com pedidos de recuperação judicial no lapso de um mês, ameaçando o setor editorial como um todo.

Uma carta, divulgada na última terça (27), foi a maneira que Luiz Schwarcz, 62, presidente do grupo Companhia das Letras, encontrou para convocar ao enfrentamento do que chamou de “os dias mais difíceis” do livro no país.

O editor recebeu a Folha na sede da Companhia das Letras para analisar a crise e comentar sua opção pelo apelo direto ao leitor. “Não é assim que a política está funcionando?”

Na opinião de Schwarcz, deve haver uma reversão na tendência de alta de vendas que vinha desde 2017. Para ele, editores contribuíram para a crise ao segurarem o preço dos livros, apesar da inflação.

Nos últimos dias, ele diz ter visto otimismo com a mobilização gerada após sua carta.

“O que vai acontecer agora no Natal, eu não sei dizer.” Mas, conta, “publicitários mandaram slogans para lojas fazerem cards digitais, lojas do interior pedem chamadas para campanhas próprias, novas campanhas entrarão no ar por sites de mobilização. Não sei o tamanho da ajuda, mas alguma haverá.”

A crise deve afetar editoras de diferentes portes ao mesmo tempo? Acho que editoras de portes diferentes sentem a crise diferentemente. Muitas editoras pequenas não forneciam para essas redes. As grandes foram as que tiveram maiores danos pelo volume de crédito que tinham, ou pelo volume de livros consignados em poder das livrarias. No entanto têm mais poder de recuperação. O grave talvez seja para as médias; elas podem representar parte significativa do montante que não será pago.

O Brasil esteve na maré contrária um tempo atrás, as livrarias muito mal lá fora e muito bem aqui. Isso se inverteu.

O que acho que aconteceu em parte nos EUA e que é diferente daqui, é que houve uma concentração muito grande na venda online e um crescimento da venda digital, que depois diminuiu. Agora você tem as livrarias independentes se fortalecendo de novo.

Nos EUA a venda online representa 50% do mercado. No Brasil não existe isso. Houve outros fatores na minha opinião, erros de gestão sobre os quais pretendo falar pouco, porque não cabe a mim julgar.

Quais? Em linhas gerais, o que eu posso dizer é que essas redes não voltaram com o Brasil. Continuaram com um número grande de pontos, talvez até por motivos nobres, ou não queriam olhar para a recessão que estava pegando também o leitor. Demoraram para se adequar, até agora.

No momento que o Brasil começa a crescer, que uma classe C ou D começa a entrar no mercado, cria-se a ilusão de que os volumes vão crescer, o que de fato começa a acontecer, e para uma classe que estava crescendo na pirâmide educacional, mas não proporcionalmente na de renda. Então os editores, para entrar nas listas de mais vendidos, começam a quantificar o livro; R$ 29,90 era quase padrão para poder ser best-seller, depois R$ 34,90, R$ 39,90. Então você imagina as redes de livrarias na ilusão de crescimento, os editores na ilusão do best-seller e esses livreiros tendo que pagar salários e aluguéis indexados pela inflação.

Os erros não foram só dos livreiros. Os editores contribuíram. Protagonistas das duas livrarias que estão em dificuldade falavam explicitamente: “Meus aluguéis estão subindo e os preços dos livros, não”.

Uma editora grande não quebra numa crise dessas? Na minha opinião, não. Elas têm caixa acumulado, ou seus sócios têm capacidade de reinvestir. O que acontece com as grandes é que elas tiveram cortes significativos em termo de número de livros a lançar.

Vocês se refrearam? A Companhia passou de 350 livros por ano para 300 e deve, no ano que vem, cortar mais 15% ou 20% dos livros programados. Você fecha portas para novas aquisições, atrasa livros com capacidade mais lenta de retorno, é obrigado a segurar a rapidez com a qual reimprime esgotados. Temos começado a renegociar contratos e a falar que vamos soltar só em digital. Mas é um dano.
As demissões nas editoras grandes foram bastante significativas. Na Companhia foi muito pouco, mas, se não conseguirmos realocar as vendas dessas redes rapidamente…

O Natal vem aí. Foi negociado algum acordo com as livrarias que não estão recebendo livros? A Companhia foi uma exceção no sentido de se mostrar aberta à reposição dos estoques nessas duas redes.

Em qualquer circunstância ou agora? Agora. Em geral nós tivemos um relacionamento [com as livrarias] que alguns concorrentes consideram excessivamente generoso, ou complacente. O fato de eu na minha carta não acusar ninguém foi objeto de crítica.

As editoras não podem mais assumir o risco de créditos significativos. Mas acho que nossos livros voltarão para essas lojas num prazo curto. A esperança que tenho é que os esforços permitam que essas livrarias encontrem investidores, porque o produto, como está na carta, é uma das únicas mídias que não tiveram disrupção [com o digital]. Não há mudança de paradigma de como se produz o livro, de como é feito, como é vendido.

Pelo paradigma daqui as livrarias ficam com 50% do valor de capa. É justo? As maiores ficam com 50%. O editor, com 50%, tem que pagar seus custos, o direito autoral. É duro falar do que é justo no sistema capitalista. Não sou partidário do ultraliberalismo, sou defensor da lei do preço fixo, que limita a competição no primeiro ano de existência do livro. Alguns jornalistas têm considerado um roubo contra os leitores. Não. O editor não ganha mais.

Se você padroniza muito o tipo de rede para um tipo de livro, e a concorrência livre permite que livrarias trabalhem com margem negativa, ou cheguem ao ponto de colocar seus robôs competindo, você efetivamente trabalha contra a diversidade, contra o editor e o livreiro pequenos.

Se ainda estamos publicando livro como 500 anos atrás, a livraria como ponto cultural onde se expõe essa diversidade não deve deixar de existir.

O sr. não tinha ecommerce… Hoje temos. Estamos mudando. A outra parte da carta era o desafio de propor soluções criativas para isso. Os editores vão ter que se reinventar. Nós sempre dissemos “não vamos competir com os livreiros”. Hoje você pode encontrar qualquer livro da Companhia no marketplace da B2W. Vamos entrar em todos os marketplaces, criar uma logística própria. Se uma editora grande pensasse nisso um ou dois anos atrás, teria oposição feroz dos livreiros. Hoje temos de trabalhar muito com as livrarias que podem crescer.

Que responsabilidade tem o varejo digital na crise? Acho que o varejo digital nem veria com maus olhos uma autorregulação. Nós fazemos isso, se vemos descontos muito altos, destruindo a cadeia, muitas vezes temos poder de mercado para dizer “não vou te fornecer esse livro”. Chegamos a pensar até a ter nosso robô para enfrentar os do mercado. A crise está mostrando para os editores, no mínimo, que temos de valorizar o produto. Ir ao cinema, para um casal, com estacionamento, é bem mais caro que um livro. Um livro normal não custa R$ 80. Por que as pessoas acham que um livro não pode custar R$ 80?

E quanto à reinvenção? Lançamos no site uma coisa chamada Companhia na Rua. Vamos estar em dez feiras até o final do ano, só em São Paulo. O leitor poderá saber onde nós estamos. Quando livros começaram a faltar nas redes, criamos o Socorro, Companhia. Começamos a ter reclamações, então nesse serviço você fala seu CEP e dizemos onde tem ou mandamos para o lugar mais próximo.

Não é simples. A editora nunca foi uma especialista em varejo. Vamos ter que aprender. Vamos colocar bikestores nas ruas e outras coisas. Queremos ainda preservar as lojas, mas o volume do movimento que vai deixar de existir, até novas lojas se formarem, uma rede comprar outras, aparecer um investidor… Os leitores não diminuem.

Como vê o impacto da carta? Foi incrível, nunca imaginei. Sentei no sábado, escrevi uma versão, mandei para algumas pessoas, falaram que estava longa. Ainda é longa. Falei “vou pôr no ar”. Não é assim que a política está funcionando, para o bem e para o mal? Você cria redes de solidariedade, tentei criar uma para o bem. Não tenho Facebook, Instagram, não sou operador das novas mídias. Mas falei: “Qual é a forma de comunicar hoje? É com franqueza, sinceridade”. Não imaginava que minha carta seria repassada. Estava pedindo que as pessoas passassem, elas, mensagens de amor ao livro.

O país está em crise, as livrarias fizeram erros, os editores calcularam mal o valor do livro; eu, leitor, sou instado a salvar o barco e sem descontos. Não houve reações contrárias? Recebi duas de pessoas que acharam que fui excessivamente generoso com as redes. Recebi uma de uma livraria no interior do Paraná, que diz que faço esse apelo, mas não prestigio a livraria pequena. E uma quarta, de um distribuidor que deixou de trabalhar para a Companhia, que diz que a ganância dos editores [ao adotarem distribuição própria] levou a isso.

Não concordo com a questão dos descontos. Você cria uma reserva para o primeiro ano e permite que livrarias que carregam catálogo também tenham as novidades. Nos EUA, o leitor não compra o “hardcover”, ele espera um ano pelo “paperback”. Ou compra o digital. Que diferença isso faz para que se possa manter a existência de uma rede livreira e de pequenos lançamentos saudável?

Um dos problemas foi a consignação. Isso não entrou no debate antes? O certo seria: vendeu o livro na loja, apita aqui, sai do meu estoque, vai para meu débito de direito autoral. Criamos um sistema que depende de um meio digital muito confiável ou de uma relação de paridade muito grande. No começo era tão menor o volume que, no final do ano, havia uma contagem física. As livrarias cresceram tanto que eu não tinha mais condição de fazer isso. A consignação foi virando um monstro. Antes do aguçamento da crise, já estávamos dizendo às livrarias “comecem a pensar que o sistema vai ter que mudar”.

Continuam consignando? Continuamos. Mas vai ter que haver uma adaptação, um sistema misto, ou um sistema de compras. Depois que passar a tempestade, se eu tiver a capacidade de investir num sistema de TI, a Penguin Random House já desenvolveu mecanismos de cálculo de tiragem, mecanismos para saber quanto exatamente tem em cada loja, você controla como fazer as reposições, reimprimir. Tem caminhos. Mas você precisa de um mercado minimamente vivo e saudável.

O sr. escreveu outra carta antes, pedindo voto em Fernando Haddad. Que perspectivas o sr. acha que desenham para a cultura e os livros no novo governo? Acho que julgar o próximo governo antes de ele estar empossado é temerário. Eu esperava para a carta anterior um congraçamento que era, claro, muito mais difícil de realizar do que para os livros. Mas não aconteceu. Eu dizia que o PT que tinha chegado ao segundo turno fizesse a autocrítica, assumisse posturas de responsabilidade no Orçamento e, em troca disso, que as pessoas se juntassem para que não houvesse uma mudança na forma como a democracia brasileira tinha sido construída.

Nas duas cartas, o sr. pediu dois votos de confiança para sistemas em revisão. Só que é muito mais fácil revisar o mercado editorial do que o país. No caso da outra carta, houve um pedido para que eu escrevesse aos editores, de uma pessoa ligada à campanha do Haddad. Era antes do primeiro turno, eu falei “não, se ele for para o segundo turno eu faço”. Não sou militante do PT, sempre fui mais para o centro-esquerda do que para esquerda. E a editora é plural —outro dia, desafiei os editores a procurarem bons livros de direita, a direita boa precisa de valorização. Estava muito angustiado com a possibilidade de não haver uma junção das pessoas e fiz aquela carta. Alguém que respeito muito falou: “Que coragem defender o perdedor”.

O sr. espera não estar defendendo um perdedor desta vez. Tenho praticamente certeza de que estou defendendo um vencedor.

O sr. acha que é agudo ou crônico? É agudo e vai passar. Se alguma ideia criativa dos editores vingar, se novas formas de relacionamento com os leitores surgirem. A questão é: todos vão se recuperar?

Bem que a literatura avisou: A realidade pode ser absurda

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Reprodução

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Distopias clássicas e produções como ‘Black Mirror’ continuam provocando mal-estar ao mostrar um futuro fictício assustadoramente familiar.

Amanda Mont’Alvão veloso, no HuffpotsBrasil

Fui obrigado a ler e ouvir muitas coisas incríveis sobre a época em que as pessoas ainda viviam livres, isto é, num estado de desorganização selvagem. (…) Levantavam-se e deitavam-se para dormir quando lhes desse na cabeça. Alguns historiadores dizem, inclusive, que naquele tempo as ruas ficavam iluminadas durante a noite inteira, e as pessoas caminhavam e dirigiam a noite inteira. Isso eu não consigo compreender de maneira nenhuma.”

(Nós, escrito em 1923 por Ieveguêni Zamiátin)

Se algum de meus parentes perceber que eu sou gay, eles não hesitarão um minuto antes de me matar. E se eles não fizerem isso, eles vão se matar por não terem cumprido a honra da família.”

(Checheno perseguido por ser gay)

O absurdo é aquilo que foge à logica, grita incoerência, inspira perplexidade. Uma vida sem absurdos parece utópica, pois as relações humanas são feitas de irracionalidade. Mas uma vida em que o absurdo parece virar regra mostra que a distopia não tem lugar apenas na fantasia.

Na distopia, nos vemos diante de um lugar fora da história, geralmente sem localização exata, mas estranhamente familiar a cada um de nós. O controle, a ordem e a opressão dão o tom à sociedade, geralmente subjugada por um governo totalitário ou pela servidão voluntária a um determinado sistema. A racionalidade se torna ameaçadora e monstruosa na medida em que impede qualquer tipo de singularidade ou desejo.

Enquanto que na utopia as nações são idílicas, “em que homens solidários e justos mantêm relações de cordialidade em meio a uma natureza dadivosa e domesticada”, como descreve o escritor e crítico literário Manuel da Costa Pinto, na distopia podemos dizer, com segurança, que fracassamos em nosso humanismo. Se vieram à mente os episódios “White Bear” ou “Odiados pela Nação”, da série Black Mirror, bem, você sabe de que desconforto estamos falando. É ficção, é absurdo e provoca-mal-estar. Parece real.

De certa forma, Freud mostrou, em 1930, o caráter impossível das utopias ao falar do papel da civilização nas relações humanas e no estabelecimento de limites a um comportamento que, sem regras, naturalmente tenderia à selvageria. Viver em sociedade, portanto, exige a renúncia à satisfação de “instintos” poderosos, em uma espécie de comprometimento com a existência do outro. As regras da vida coletiva, no entanto, não são assimiladas pacificamente e produzem perdas bastante incômodas para os sujeitos. “Não se pode fazer tudo” é a mensagem que o pai da Psicanálise parece deixar no texto Mal-Estar na Civilização (Companhia das Letras).

Em paralelo, “pode fazer quase nada” é uma premissa clássica das grandes distopias da literatura mundial. As proibições têm a pretensão de regular até mesmo o pensamento, como é o caso de 1984 (Companhia das Letras), a obra-prima do britânico George Orwell publicada em 1949. O protagonista, Winston, é vigiado 24 horas pelo Estado por meio do Big Brother (O Grande Irmão). A propaganda governamental é tão intensa que não deixa tempo para a população pensar por conta própria e, portanto, desconfiar que aquilo tudo está muito, muito errado. A tortura é a punição aplicada a quem ousa questionar.

Na sociedade pensada pelo norte-americano Ray Bradbury em Fahrenheit 451 (Editora Globo), de 1953, livros são considerados altamente subversivos e não podem existir nos lares. Pensar, refletir e imaginar são atitudes altamente proibidas. O Corpo de Bombeiros, em vez de apagar incêndios (as casas são à prova de combustão), é designado a colocar fogo em publicações. O principal mal-estar causado pela leitura, porém, não vem do fato de se queimarem livros, mas sim de se reconhecer como sociedade que abre mão da leitura e de seu potencial revolucionário e libertador.

“Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. (…) São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes”, lamenta o professor Faber, que possivelmente teria sua melancolia reforçada ao saber que, no Brasil de hoje, apenas 8 em cada 100 pessoas sabem interpretar o que leem. A julgar pelas inflamadas opiniões nas redes sociais, a capacidade de entender uma mensagem parece ter cada vez menos valor.

Em Laranja Mecânica (Editora Aleph), de 1962, o inglês Anthony Burgess explora a violência como motor de perversidades tanto de cidadãos quanto do Estado. Proibida, aqui, é a liberdade de escolha. Alex, o protagonista, se expressa por um dialeto próprio e bizarro; mas a sua comunicação com o mundo é marcada mesmo por seus atos de crueldade e de violência. Ao ser preso pelo governo, ele passa por um experimento bastante controverso, que pretende “curar” mentes criminosas.

Quando o inglês Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo (Editora Globo), publicado em 1932, o nacionalismo estava em ascensão, fomentado inclusive pelos rastros de destruição causados pela Primeira Guerra Mundial. No livro, a serventia ao totalitarismo é voluntária, uma vez que o povo acredita estar nas mãos do Estado a sua felicidade e satisfação. O amor é proibido, o sexo é propagado como um substituto e o papel de cada pessoa na sociedade é definido pela manipulação genética.

O amor é também uma proibição aos personagens de Nós (Editora Aleph), impressionantemente escrita em 1923 por Ieveguêni Zamiátin e que neste ano ganhou uma caprichada edição traduzida diretamente do russo. É o livro que encantou Orwell antes de escrever 1984. Números em vez de nomes próprios e uniformes se tornam a norma nesta sociedade batizada de Estado Único, onde a igualdade é levada às últimas consequências e se torna abusiva e perigosa por impedir qualquer tipo de diferenciação entre os habitantes. Pouca coisa parece surpreender D-503, o satisfeito engenheiro que protagoniza a obra. Mas uma vida com desejos e escolhas, como a que ele descreve no primeiro parágrafo deste texto, lhe parece completamente fora de sentido. Para ele, a felicidade do povo depende das regras e da ausência de singularidade instituídas pelo governo totalitário de seu país.

Quando a realidade é asfixiada pela censura, pelo abuso, pelos direitos suprimidos, pelo sacrifício consentido da privacidade e pelo silêncio, essas distopias, com sua visão tenebrosa e assustadoramente realista de um futuro fictício, vêm exercendo a crítica social necessária à desistência e à apatia.

No mundo em que arautos da intolerância se tornam líderes políticos; boatos e notícias falsas definem condutas particulares e políticas públicas; pais são demandados a matarem seus filhos gays em nome da “honra”; a escravidão tem seus efeitos ignorados; milhões de pessoas são obrigadas a se refugiar, sem a certeza de que serão acolhidas por outros países; mulheres são impedidas de tomar decisões sobre a própria existência; moradores de rua são tratados como “sujeira” e doentes mentais são acorrentados em celas de hospícios abandonados, é difícil não remeter à literatura distópica e seu assustador recado de “eu avisei”.

Absurdos então reservados ao imaginário da ficção científica passam a ocupar páginas de jornais e sites, perfis de redes sociais e pronunciamentos oficiais. Ainda que a obscuridade de fatos e personagens cotidianos encontre ressonância nas obras acima – afinal, os dias têm sido difíceis -, há um furo determinante para impedir um profundo pessimismo. Do lado de cá, da vida real, ainda é permitido sonhar, desejar, lidar com o que vai ser perdido e vislumbrar o que pode ser modificado.

George R.R. Martin diz ter ‘plano B’ para ‘Game of Thrones’

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Escritor conta que já criou final ‘simplificado’ caso não consiga chegar ao final dos livros

Publicado por Estadão

Divulgação Cena da série

Divulgação
Cena da série

George R.R. Martin afirmou em entrevista à Empire Magazine que já escreveu um plano B para o final de Game of Thrones caso tenha um bloqueio para a série. Há muitos anos, o autor afirma que já sabe como a saga de livros irá terminar, e chegou a explicar aos produtores da adaptação televisiva suas ideias para o caso de algo acontecer com ele antes de terem escrito o episódio final.

“Dois grandes livros, cada um com 1500 páginas manuscritas, isso dá 3 mil páginas. Acho que tenho uma boa chance (de terminar a obra como deseja). E, sabe, se eu me sentir pressionado, posso fazer um cometa atingir Westeros e destruir todas as formas de vida”, disse.

O escritor, porém, se recusa a dar mais detalhes sobre o final da bem-sucedida saga (seja o elaborado, pensado há anos, seja a saída mais simples): “Odeio sinopses. Eu tenho um amplo sentido de para onde a história vai. Eu sei o final, eu sei o final dos principais personagens, e eu sei quais serão os principais pontos de virada e eventos dos livros, qual será cada clímas. Mas eu não sei necessariamente cada pequena virada que acontecerá pelo caminho. Isso é algo que eu descubro conforme vou escrevendo, e é o que torna tudo agradável.”

Guia de estudos: aprenda a fazer uma boa redação em dez passos

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Lucas Rodrigues, no UOL

Manter-se bem informado e produzir textos dissertativos ao menos uma vez por semana é essencial para conseguir elaborar uma boa redação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e nos grandes vestibulares. Consultados pelo UOL, especialistas deram dicas para garantir resultados satisfatórios nesse quesito.

Esse roteiro faz parte de uma série de guia de estudos com os dez temas mais importantes de cada disciplina (confira ao lado).

Segundo Arlete Salvador, autora do livro “Como escrever bem para o Enem – Roteiro para uma redação nota 1.000”, conquistar uma escrita apurada é um processo que leva tempo. “O estudante não vai conseguir na última hora escrever melhor se não tiver nenhum tipo de embasamento”, diz.

Ela acredita, contudo, que é possível se exercitar até mesmo em meios diferentes, como nas redes sociais. “Quando for escrever no Facebook, por exemplo, tente escrever sem erros. Descreva aquela viagem que você fez, os lugares, as pessoas, os acontecimentos contemporâneos, um show de música. Diga o que gostou, explique o porquê. Isso contribuiu para o senso crítico”.

Antes da prova
Confira as dicas dadas pela professora Cida Custódio, do Colégio e Curso Objetivo, para a preparação antes do dia da prova de redação:

Mantenha-se informado
“Os temas propostos pelo Enem são sempre relacionados a questões atuais, que de alguma forma estão mobilizando a opinião pública do país. Editoriais de jornais, por serem dissertativos, são os textos mais recomendáveis para despertar o senso crítico do estudante”.

Faça cópias de textos dissertativos
“É bom para assimilar, ao mesmo tempo, estrutura, linguagem, ortografia e pontuação. Nesse caso, caberá antes uma leitura atenta do texto escolhido, que permita ao estudante fazer uma cópia consciente, e não automática”, diz Cida.

“Concluída a cópia, será necessário conferir se foi feita de modo fiel ou displicente. Esse exercício é excelente também para melhorar a capacidade de concentração”.

Escreva duas redações por semana
“Treinar é essencial para garantir um bom desempenho na prova. É importante ainda submeter tais redações à apreciação de um professor, que, com base nas competências levadas em conta pelo Enem na correção das redações, fará uma avaliação criteriosa e personalizada”.

O UOL tem um banco de redações, em que são sugeridos temas atuais a cada mês. Os estudantes podem mandar suas produções, que serão avaliadas por uma equipe especializada em correção de prova de vestibular e Enem.

Conheça os temas anteriores do Enem
“É bastante produtivo fazer ainda algumas redações de temas previamente selecionados, preferencialmente aqueles considerados mais desafiadores”.

No dia da prova
Veja ainda estratégias dadas por Arlete Salvador que devem ser feitas durante a prova de redação:

Encontre o tema
Leia o enunciado e os textos de apoio com atenção. Na folha de rascunho, faça uma lista das ideias principais do assunto geral e dos textos complementares (use uma ou duas palavras para sintetizar essas ideias). Se houver imagens, transforme o conceito central em palavras.

Para a professora Cida, do Objetivo, é fundamental atentar ao encaminhamento sugerido pelos textos motivadores oferecidos pelo Enem. “O candidato independente corre o risco de desconsiderar a coletânea e fugir parcialmente ao tema. Para evitar isso, caberá selecionar duas ou três informações dos textos de apoio e integrá-los ao próprio repertório [cultural e linguístico]”, diz.

Ela enfatiza que aproveitar um ou outro dado da coletânea não significa copiar trechos ou fragmentos, o que é absolutamente impróprio.

Organize as ideias e planeje o texto
Após encontrado o tema, pense sobre o que tem a dizer para aquela discussão. Escolha os argumentos que serão utilizados, duas propostas de intervenção social e qual será a conclusão.

Pense como será a ideia central da introdução e anote na folha de rascunho. O que você pretende defender? Escolha três argumentos que melhor sustentem sua ideia.

Escreva na folha de rascunho
Não se afaste do modelo introdução, desenvolvimento e conclusão. Na hora de elaborar o texto, dê preferência para a terceira pessoa do singular ou do plural, nunca use gírias e utilize expressões de ligação entre parágrafos e ideias.

Se estiver em dúvida sobre uma data, corte-a. Se a indefinição for na grafia de uma palavra, troque-a por um sinônimo.

Para a conclusão, a professora do Objetivo diz que sugestões de intervenção passíveis de serem colocadas em prática serão pertinentes. “Atribuir a responsabilidade pela solução de determinado problema a mais de um setor da sociedade também é importante”, diz.

Invista na linguagem
A professora Cida, do Objetivo, acrescenta que uma linguagem diversificada contribui para o conteúdo do texto. “Contudo, deve-se evitar o vocabulário rebuscado, usado apenas para impressionar a banca. O estudante deve demonstrar repertório linguístico típico de um bom leitor, recém-saído do ensino médio”.

Releia o texto e verifique coerência e coesão
Substitua palavras repetidas por sinônimos e preste atenção se não cometeu deslizes na pontuação –separar sujeito de verbo com vírgula é erro grave–, e na acentuação.

Vale a pena analisar se a introdução apresenta o tema pedido na prova, se os argumentos sustentam a tese escolhida, se as propostas de intervenção social são convincentes e se a conclusão tem conexão com o começo do texto.

Transcreva o texto para a folha oficial
Copie exatamente o que foi produzido na folha de rascunho. Tente fazer uma letra legível e não rabiscar. É importante respeitar os parágrafos, deixando uma pequena margem no início. Logo em seguida, corrija eventuais erros e dê a redação por encerrada.

Sinal vermelho para os vícios de linguagem

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Projeto em Maringá busca mostrar a grafia correta das palavras. Para isso, faixas com pequenas lições estão sendo levadas para semáforos e outros locais públicos

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Marcus Ayres, Gazeta Maringá

 

Apesar de incorretas, expressões como “de menor” e palavras como “mindingo” e “seje” são comumente faladas e escritas por muitas pessoas. Buscando evitar a propagação destes vícios de linguagem, um advogado de Maringá iniciou uma campanha para mostrar a grafia correta e esclarecer significados dos termos.

Algumas das lições repassadas pelo projeto
Não existe a palvra “menas”, somente menos

O plural é troféus e não “troféis”

O correto é faz 10 anos e não “fazem 10 anos”

O correto é casa geminada e não “germinada”

O plural é cidadãos e não cidadões

Não se fala “di menor”, mas sim, menor de idade

O certo é meio-dia e meia e não meio-dia e meio

É duzentos gramas e não duzentas gramas

Não é “perca” de tempo, mas perda de tempo

O certo é mortadela e não mortandela”

O correto é cadarço e não “cardaço”

Trata-se do projeto Sinal do Saber. Desde julho, faixas feitas com material reciclável são levadas para locais públicos, principalmente semáforos. Basta o sinal ficar vermelho para que painéis entrem em cena chamando a atenção dos motoristas e pedestres para erros comuns. As mensagens são curtas e diretas como: “O certo é meio-dia e meia e não meio-dia e meio” e “Não é perca de tempo mas perda de tempo”.

“Pensei numa maneira de melhorar o nível cultural de nossa cidade. Sabemos que o desenvolvimento cultural é essencial para uma comunidade ir bem”, explicou o idealizador do projeto, Lutero de Paiva Pereira. O projeto é custeado por empresas e profissionais liberais que se tornaram apoiadores culturais e tem seus nomes divulgados nos painéis.

Atualmente, oito faixas estão em circulação pela cidade, sendo colocadas principalmente em cruzamentos onde existe um fluxo maior de tráfego. A escolha dos pontos é feita a cada fim de semana, levando em consideração a realização de eventos que possam atrair um grande número de pessoas. As mensagens também são fixadas em praças e parques e divulgadas pela internet, na página que o projeto mantém no Facebook www.facebook.com.br/sinal.dosaber.

Ampliação

A receptividade da ação foi tão boa que o projeto já está sendo levado para dentro das empresas. É o caso da Catamarã Engenharia, que está orientando os funcionários a corrigirem certos vícios de linguagem. A proposta também deve ganhar outras cidades, como Cuiabá (MT). “Um empresário de uma rede hoteleira achou a ideia boa e pediu autorização para implementá-la em sua cidade”, revelou Pereira.

Já a Secretaria de Cultura de Maringá autorizou a divulgação das faixas durante o desfile da Independência no próximo dia 7. Com o sucesso do projeto, o idealizador já prepara uma ampliação. Além de evitar erros gramaticais, as faixas devem, em breve, veicular informações sobre o Município e o país, além de outros temas como história mundial.

“Queremos colaborar de alguma forma para termos uma sociedade cada vez mais aculturada, o que implica num trabalho de longo prazo e esforço de muitos. De qualquer forma, se o projeto durar apenas poucos meses, espero que nesse tempo ele tenha se prestado ao fim que motivou sua criação e tenha servido para muitas pessoas.”

Falta de conhecimento

Para a professora de Língua Portuguesa do Centro Universitário de Maringá (Unicesumar), Débora Azevedo Malentachi, o uso incorreto da língua acaba ocorrendo por causa da simplicidade das pessoas e da falta de conhecimento.

“Muitos desses vícios de linguagem são passados pela família e pelos amigos. A pessoa acaba usando determinadas palavras até para não ser excluída socialmente. Por isso, projetos como o do Sinal do Saber são importantes. Se a pessoa compreende o uso da língua, passa a falar corretamente.”

Débora lembra que mesmo as pessoas que conhecem mais a língua acabam usando palavras gramaticalmente inadequadas. “A língua portuguesa é muito rica. Para se comunicar com maior clareza, é importante conhecê-la”, explicou a professora, que é mestre em Letras.

dica do Jarbas Aragão

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